escureceram desde logo a aurora da revolução romântica. Quanto mais o público as aplaudia, mais
requintava a inventiva dos poetas; até que a arte, já trucidada pelos maus imitadores, foi empolgada
por especuladores excelentes, que fizeram da extravagância dramática um meio de existência. Tudo
isso reproduziu a cena brasileira, e raro aparecia, no meio de tais monstruosidades, uma obra que
trouxesse o cunho de verdadeiro talento.
Sem haver terminado o período romântico, mas apenas amortecido o primeiro entusiasmo,
aportou às nossas plagas a reforma realista, cujas primeiras obras foram logo coroadas de aplausos;
como anteriormente, veio-lhes no encalço a longa série das imitações e das exagerações; e o ultra-
realismo tomou o lugar do ultra-romanticismo, o que não deixava de ser monótono. Aconteceu o
mesmo que com a reforma precedente; a teoria realista, como a teoria romântica, levadas até à
exageração, deram o golpe de misericórdia no espírito público. Salvaram-se felizmente os autores
nacionais. A estas causas, que chamaremos históricas, juntam-se outras, circunstanciais ou fortuitas,
e nem por isso menos poderosas; há, porém, uma que vence as demais, e que nos parece de caráter
grave: apontá-la é mostrar a natureza do remédio aplicável à doença.
Para que a literatura e a arte dramática possam renovar-se, com garantias de futuro, torna-se
indispensável a criação de um teatro normal. Qualquer paliativo, neste caso, não adianta coisa
nenhuma, antes atrasa, pois que é necessário ainda muito tempo para colocar a arte dramática nos
seus verdadeiros eixos. A iniciativa desta medida só pode partir dos poderes do estado; o Estado,
que sustenta uma academia de pintura, arquitetura e estatutária, não achará razão plausível para
eximir-se de criar uma academia dramática, uma cena-escola, onde as musas achem terreno digno
delas, e que possa servir para a reforma necessária no gosto público.
Argumentar com o exemplo do estrangeiro seria, sobre prolixo, ocioso. Bastar lembrar que a
idéia da criação de um teatro normal já entrou nas preocupações do governo do Brasil. O Sr.
conselheiro Sousa Ramos, quando ministro do império, em 1862, nomeou uma comissão composta
de pessoas competentes para propor as medidas tendentes ao melhoramento do teatro brasileiro.
Essas pessoas eram os Srs. Conselheiros José de Alencar e Drs. Macedo, e Meneses e Sousa. Além
disso, consta-nos de fonte insuspeita que S. Exa. escrevera ao Sr. Porto Alegre pedindo igualmente
o auxílio das suas luzes neste assunto, e existe a resposta do autor do Colombo nos arquivos da
secretaria de Estado. Não podemos deixar de mencionar com louvor o nome do Sr. conselheiro
Sousa Ramos pelos passos que deu, e que, infelizmente, não tiveram resultado prático.
A carta do Sr. Porto Alegre ocupa-se mais detidamente das condições arquitetônicas de um
edifício para servir simultaneamente de teatro dramático e teatro lírico. Os pareceres da comissão é
que tratam mais minuciosamente do assunto; dizemos os pareceres, porque o Sr. Dr. Macedo
separou-se da opinião dos seus colegas, e deu voto individual. O parecer da maioria da comissão
estabelece de uma maneira definitiva a necessidade da construção de um edifício destinado à cena
dramática e à ópera nacional. O novo teatro deve chamar-se, diz o parecer, Comédia Brasileira, e
será o teatro da alta comédia. Além disso, o parecer mostra a necessidade de criar um conservatório
dramático, de que seja presidente o inspetor-geral dos teatros, e que tenha por missão julgar da
moralidade e das condições das peças destinadas aos teatros subvencionados, e da moralidade,
decência, religião, ordem pública, dos que pertencerem aos teatros de particulares. A Comédia
Brasileira seria ocupada pela melhor companhia que se organizasse com a qual o governo poderia
contratar, e que receberia uma subvenção, tirada, bem como o custo do teatro, dos fundos votados
pelo corpo legislativo para a academia de música. Os membros do conservatório dramático,
nomeados pelo governo e substituídos trienalmente, perceberiam uma gratificação e teriam a seu
cargo a inspeção interna de todos os teatros.
Os pareceres do Sr. Dr. Macedo, concordando, em certos pontos, com o da maioria da
comissão, separa-se, entretanto, a outros respeitos, e tais são, por exemplo, o da construção de um
teatro, que não julga indispensável, e da organização do conservatório e da companhia normal. A
maioria da comissão fez acompanhar o seu parecer de um projeto para a criação do novo
conservatório dramático e providenciando acerca da construção de um teatro de Comédia Brasileira.
O Sr. Dr. Macedo, além do parecer, deu também um projeto para a organização provisória do teatro
normal, acompanhado de um orçamento de despesa e receita.