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insistísseis... parodiar-vos-ia a epígrafe da sua – Sinhá! —, o versículo do Cântico dos Cânticos, e no tom da maior
ingenuidade, dir-vos-ia: — a minha poesia... é como o óleo derramado!
E com razão... por que Machado de Assis é a lira, a natureza o plectro. E da ânfora de sua alma ele mesmo
ignora quando transbordam as gotas perfumadas!
VII
Eis aqui, pois, como Machado de Assis é poeta.
Um Deus benigno, — o mesmo que lhe deu por pátria este solo sem igual, — deu-lhe também o condão de
refletir a pomposa natureza que o rodeia. Fez mais... mediu por ela esse condão.
Se tivera nascido à sombra do pólo, entre os gelos do norte, seus cânticos pálidos e frios traduziriam em
silvos os êxtases do poeta; — mas filho deste novo Éden, cercado de infinitas maravilhas, as notas que ele desprende
são afinadas pelas grandiosas harmonias que proclamam.
É assim duas vezes instrumento... e nesta doce correspondência entre a criatura e o criador, a Musa ales, o
sagrado mensageiro que une a terra e o Céu é... a inspiração!.. É ela que ferve, e derrama da ânfora o óleo
perfumado. É ela que marca o compasso a ritmo, e a escola ao trovador. É ela que lhe diz: canta, chora, ama, sorri...
É ela enfim que lhe segreda o tema da canção, e caprichosa, ora chama-se luz, mel, aroma, graça, virtude, formosura,
ora se chama Stella, Visão, Erro, Sinhá, Corina!
VIII
Livres, sentidos, inspirados, os versos do autor das Crisálidas são e devem ser eloqüentes, harmoniosos e
exatos. São – porque ninguém se negará a dizê-lo lendo-os. Devem ser – porque o sentimento e a inspiração
constituem a verdadeira fonte de toda a eloqüência e de toda a harmonia no mundo moral, e porque a exatidão é o
mais legítimo fruto do consórcio destas duas condições.
É um erro atribuir exclusivamente à arte a boa medição do verso. É erro igual ao do que recusa ao ignorante
de música, ao diletante, a possibilidade de cantar com justeza e expressão. Um verso mal medido é um verso
dissonante; é um verso que destaca dentre seus companheiros como a nota desafinada ressalta da torrente de uma
escala. Num e noutro caso a inteligência atilada pelo gosto, e o ouvido apurado pela lição – arrancam sem socorro da
arte o joio que nascera no meio do trigo, e embora a ela recorram para a perfeição da nova planta, nem por isso deixa
esta de passar-lhe pela joeira.
IX
Para o poeta de sentimento a inspiração brota das belezas da natureza, como se elevam os vapores da
superfície da terra; mais do vale do que da montanha; mais daqui do que dali. A natureza também tem altos e baixos
para inspiração. O crepúsculo, e mesmo o dilúculo, é mais inspirativo que a luz meridiana: — o majestoso silêncio
da floresta mais do que o frenético bulício da cidade: — o vagido mais do que as cãs.
A poesia que traduz a inspiração, e o verso que fotografa a poesia devem portanto ressentir-se destas
diferenças. Por isso não há livro de bom poeta que não comprove esta verdade. Não é o talento que afrouxa ou dorme
como Homero: é a inspiração que varia. Nas menos inspiradas subsiste ainda o engenho, e o engenho é muito.
No livro que vamos folhear, talvez julgueis comigo que poucas composições se aproximam da altura em que
o poeta colocou a Visio e os alexandrinos a Corina. Como não havia de ser assim? Machado de Assis refletiu a
natureza, e a natureza só criou uma Corina!
X
Entre a poesia–arte e a poesia–sentimento,— dá-se, sobre muitas, uma grande diferença: — a erudição.
Como o arrebique que, ocultando os vestígios do tempo revela na face remoçada o poder do artista, mas
nunca a mocidade, — a erudição derrama sobre os cantos da lira um verdadeiro fluido galvanizado. A clâmide
romana em que se envolve o poeta lhe dissimula – o vácuo do coração, e o coturno grego, que por suado esforço
conseguiu calçar, lhe tolhe, apesar de elegante e rico, a naturalidade dos movimentos.
Com demasia de vestidos não é possível correr bem... e a poesia deve correr, correr naturalmente como a
infância, como o arroio, como a brisa, e até mesmo como o tufão e como a lava!
O luxo exagerado da roupagem denotava ante a sabedoria antiga – leviandade de juízo: ante a crítica
moderna ainda denota na poesia penúria de fantasia. A simplicidade dos modelos Gregos e Hebraicos, que nos legou
a literatura dos primeiros tempos desde então proscreveu para o bom gosto, a pretensiosa lição dos pórticos. A