54
Depois que ali chegava,
ou depois que ali cheguei,
sonhava que acordava;
e do que atrás passei
de ser sonho me lembrava.
O que então me era mostrado
tendo só por verdadeiro,
ao pé de um castanheiro
me pus, triste, assentado,
ouvindo o tom de um ribeiro.
55
Meus olhos e eu passamos
ali a noute em clamores,
até que ao tempo chegamos
a que nós outros, pastores,
o dilúculo chamamos.
Naqueste tempo corrompe
a ave que chamam leal
o silêncio de seu mal,
que é quando a alva rompe
e o dia faz sinal.
56
Então, por que tudo fale,
contanto as mais paixões
que rezão é que não cale,
ouvi gritar uns pavões
lá no mais baixo do vale.
Trás isto, pouco tardando,
um doce cantar ouvia
que na minha alma caía,
o qual eu, bem escutando,
entendi que assi dezia:
57
Não sei para que vos quero,
pois me d’olhos não servis,
olhos a que eu tanto quis!
58
Pera ver me fostes dados,
vós só a chorar vos destes;
e se eu tenho cuidados,
meus olhos, vós mos fizestes:
dês que neles me pusestes,
de descanso me fugis,
olhos a quem eu tanto quis!
59
Meus olhos, por muitas vias
usais comigo cruezas;
tomais as minhas tristezas
pera vossas alegrias.
Então noites, então dias,
olhos, nunca me dormis:
olhos a quem eu tanto quis!
60
Quando vós primeiro vistes,