colchoeiro, quando este uma noite recebeu um bilhetinho da mulher de José Borges.
Pedia-lhe a megera que ele fosse lá jantar no próximo sábado, aniversário natalício da
filha do casal. Este bilhete foi levado pelo próprio pai da moça.
— Podemos contar contigo? disse este, logo que o viu acabar de ler o bilhete.
— Eu sei! talvez...
— Não há talvez, nem meio talvez. É festa íntima, só parentes, dois amigos, um dos quais
és tu... Senhoras, há só as de casa, a comadre Miquelina, madrinha de Mafalda, e a
prima Rufina... Não sei se a conheces?
— Tua prima?... Conheço! acudiu o colchoeiro expelindo faíscas dos olhos. Não te
lembras que ela passou a última noite que estive em tua casa? Até jogamos a bisca...
— É verdade! Não me lembrava!
— Boa senhora...
— Oh! é uma pérola! Ora, espera... agora me lembro que ela, ainda há poucos dias,
esteve lá e falou em ti. Perguntou-me como estavas... É uma senhora de truz!...
— Pareceu-me...
— Vamos ao que importa, podemos contar contigo?
Gil Gomes interiormente tinha capitulado; queria declará-lo, mas por modo que não
parecesse esquisito. Fez um gesto com as sobrancelhas, apertou a ponta do nariz,
olhando para a carta e murmurou:
— Pois,... sim... talvez...
— Talvez, não quero! Há de ser por força.
— És um diabo! Pois bem, vou.
José Borges apertou-lhe muito a mão, sentou-se, contou-lhe duas anedotas; e o
colchoeiro, tocado subitamente da suspeita de que o primo da viúva quisesse pedir-lhe
dinheiro, entrou a cochilar. José Borges saiu e foi levar à casa a notícia de que Gil Gomes
compareceria à festa. Chegou como a Providência, fazendo suspender de cima da
cabeça da filha uma chuva de ralhos com que a mãe castigava uma das infinitas
indiscrições da pequena. A sra. D. Ana não se alegrou logo, mas abrandou, ouviu a
notícia, expectorou ainda seis ou sete adjetivos cruéis, por fim calou-se. José Borges,
que, por medida de prudência, estava sempre do lado da mulher, disse solenemente à
filha que se retirasse, o que era servir ao mesmo tempo à filha e à mãe.
— Então ele vem? disse D. Ana quando o temporal começou a amainar.
— Vem, e o resto...
— Parece-te?
— Eu creio...
No dia aprazado compareceu em casa de José Borges a gente convidada, os parentes, a
comadre e os dois amigos. Entre os parentes havia um primo, pálido, esguio e magro, que
nutria em relação a Mafalda uma paixão, correspondida pelo pai. Esse primo tinha três
prédios. Mafalda dizia gostar muito dele; e se, na verdade, os olhos fossem sempre o
espelho do coração, o coração da moça derretia-se pelo primo, porque os olhos eram dois
globos de neve tocados pelo sol. O que a moça dizia no coração era que o primo não
passava de uma figura de presepe; não obstante, autorizava-o a pedi-la nesse dia ao sr.
José Borges.
Por esse motivo entrou o jovem Inácio duas horas mais cedo que os outros, mas entrou
somente. Falou, é verdade, mas falou só de coisas gerais. Três vezes investiu com o pai
da namorada para pedir-lha, três vezes a palavra morreu-lhe nos lábios. Inácio era tímido;
a figura circunspecta de José Borges, os olhos terríveis da sra. D. Ana e até os modos
ríspidos da namorada, tudo lhe metia medo e fazia perder a última gota de sangue. Os
convidados entraram sem que houvesse exposto ao tio suas pretensões. Custou-lhe o
silêncio um repelão da namorada; repelão curto, a que sucedeu um sorriso animador,
porque a moça compreendia facilmente que um noivo, ainda que seja Inácio, não se
pesca sem alguma paciência. Vingar-se-ia depois do casamento.
Pelas quatro horas e meia entrou o sr. Gil Gomes. Quando ele apareceu à porta, José
Borges esfregou os olhos como para certificar-se que não era sonho, e que efetivamente