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alimentos dos dois solitários. Na manhã seguinte introduziu-se no mato; o macaco chegou à hora do
costume, e dirigiu-se para um tronco de árvore; havia sobre esse tronco um grande galho, que o
bicho atirou ao chão. Depois, introduzindo as mãos no interior do velho tronco, tirou um embrulho
igual ao da véspera e partiu.
"O tropeiro persignou-se, e tão apreensivo ficou com a cena que acabava de presenciar que não a
contou a ninguém.
"Durava esta existência três anos.
"Durante esse tempo o homem não envelhecera. Era o mesmo que no primeiro dia. Longas barbas
ruivas e cabelos grandes caídos para trás. Usava um grande casaco de baeta, tanto no inverno, como
no verão. Calçava botas e não usava chapéu.
"Era impossível aos passageiros e aos moradores das vizinhanças penetrar na casa do solitário. Não
o será decerto para nós, minha bela senhora, e meu caro amigo.
"A casa divide-se em duas salas e um quarto. Uma sala é para jantar; a outra é... a de visitas. O
quarto é ocupado pelos dois moradores, Daniel e Calígula.
"As duas salas são de iguais dimensões; o quarto é uma metade da sala. A mobília da primeira sala
compõe-se de dois sujos bancos encostados à parede, uma mesa baixa no centro. O chão é
assoalhado. Pendem das paredes dois retratos: um de moça, outro de velho. A moça é uma figura
angélica e deliciosa. O velho inspirava respeito e admiração. Das outras duas paredes pendem, de
um lado uma faca de cabo de marfim, e do outro uma mão de defunto, amarela e seca.
"A sala de jantar tem apenas uma mesa e dois bancos.
"A mobília do quarto resume-se num grabato em que dorme Daniel. Calígula estende-se no chão,
junto à cabeceira do dono.
"Tal é a mobília da casa.
"A casa, que de fora parece não ter capacidade suficiente para conter um homem em pé, é contudo
suficiente, visto estar, como disse, entranhada no chão.
"Que vida terão passado aí dentro o macaco e o homem, no espaço de três anos? Não saberei dizê-
lo.
"Quando Calígula traz de manhã o embrulho, Daniel divide a comida em duas porções, uma para o
almoço, outra para o jantar. Depois homem e macaco sentam-se em face um do outro na sala de
jantar e comem irmãmente as duas refeições.
"Quando chega a lua cheia saem os dois solitários, como já disse, todas as noites, até a época em
que a lua passa a ser minguante. Saem às dez horas, pouco mais ou menos, e voltam pouco mais ou
menos às duas horas da madrugada. Quando entram Daniel tira a mão do finado que pende da
parede e dá com ela duas bofetadas em si próprio. Feito isto, vai deitar-se; Calígula acompanha-o.
"Uma noite, era no mês de junho, época de lua cheia, Daniel preparou-se para sair. Calígula deu um
pulo e saltou à estrada. Daniel fechou a porta, e lá se foi com o macaco estrada acima.
"A lua, inteiramente cheia, projetava os seus reflexos pálidos e melancólicos na vasta floresta que
cobria colinas próximas, e clareava toda a vasta campina que rodeava a casa.
"Só se ouvia ao longe o murmúrio de uma cachoeira, e ao perto o piar de algumas corujas, e o
chilrar de uma infinidade de grilos espalhados na planície.
"Daniel caminhava pausadamente, levando um pau debaixo do braço, e acompanhado do macaco,
que saltava do chão aos ombros de Daniel e dos ombros de Daniel para o chão.
"Mesmo sem a forma lúgubre que tinha aquele lugar por causa da residência do solitário, qualquer
pessoa que encontrasse àquela hora Daniel e o macaco corria risco de morrer de medo. Daniel,
extremamente magro e alto, tinha em si um ar lúgubre. Os cabelos da barba e da cabeça, crescidos
em abundância, faziam a sua cabeça ainda maior do que era. Sem chapéu era uma cabeça
verdadeiramente satânica.
"Calígula, que nos outros dias era um macaco ordinário, tomava, naquelas horas de passeio
noturno, um ar tão lúgubre e tão misterioso como o de Daniel.
"Havia já uma hora que os dois solitários tinham saído de casa. A casa ficara já um pouco longe.
Nada mais natural do que chegar a polícia nessa ocasião, tomar a entrada da casa e reconhecer o