PRIMEIRO NOBRE - Que houve, senhora?
PAULINA - Tirano, que tormentos inventaste para minha tortura? Que fogueiras, rodas, tratos, flagelos,
que fervuras, em óleo ou chumbo, para mim se aprestam? Que martírios, antigos ou recentes, me
esperam, se cada uma das palavras que eu disser, em resposta, só merece quanto de pior tiveres
inventado? A tua tirania, trabalhando com teu ciúme de comum acordo - fantasias mui fracas para
crianças, tolas e ociosas para raparigas de nove anos - Oh! vê o que fizeram e, depois, enlouquece
inteiramente! - pois as tuas tolices anteriores condimento, tão-só, foram desta última. O teres sido falso
para o amigo - Políxenes - foi nada; pois, com isso, te revelaste, apenas, inconstante, infernalmente
ingrato e mentecapto. Outrossim, não foi muito desejares envenenar a honra de Camilo, querendo que ele
a um rei a morte desse - pecado à-toa, logo ultrapassado por outros mais monstruosos, como teres jogado
aos corvos tua própria filha - pouco ou nada, realmente, embora um diabo primeiro ao fogo arrancaria
lágrimas, antes de fazer isso. Não te culpo, também, diretamente, pela morte do príncipe gentil, cuja
noção de honra - noção muito alta para a idade - partiu-lhe o coração, ao pensamento de que um pai tão
grosseiro quanto louco sua mãe graciosa houvesse difamado. Não, também disso não te faço carga. Mas
o último - Ó senhores! deveis todos gritar "Desgraça!" ao dizer eu qual seja - a rainha, a rainha, a mais
querida e inefável criatura, já não vive... E a vingança ainda não caiu sobre ele!
PRIMEIRO NOBRE - Que os poderes de cima o não consintam!
PAULINA - Já disse que morreu, e agora o juro. Mas se nem juras, nem palavras, podem convencer-vos,
vós mesmos ides vê-la. Se conseguirdes dar-lhe cor aos lábios, ou brilho aos olhos, o calor externo, por
dentro o hálito vivo, hei de servir-vos como o faria a deuses. Mas não tenhas remorsos, ó tirano, por tudo
isso! São fatos por demais pesados, para que com tua dor consigas abalá-los. Entrega-te somente ao
desespero. Mil joelhos, dez mii anos sem parada, inteiramente nu, jejuns terríveis numa montanha
desolada, inverno perpétuo, tempestade irreprimível, não poderiam demover os deuses a olhar para o
lugar em que estiveres.
LEONTES - Vai-te, vai-te; jamais dirás bastante. Mereço quanto de pior disserem todas, todas as línguas.
PRIMEIRO NOBRE - Ficai quieta! Por mais que tenha acontecido, falta mui grave cometeste, com
tamanho despejo de linguagem.
PAULINA - Dá-me pena; quando cometo alguma falta, logo que venho a conhecê-la, me arrependo. Que
desgraça! Mostrei como as mulheres são, no comum, demais precipitadas O nobre coração mostra
abalado. O que passou e já não tem remédio, lastimar não devemos. Dor alguma deveis mostrar, senhor,
ante o que eu disse. Pelo contrário, peço-vos punir-me por vos haver lembrado o que devíeis deixar no
esquecimento. Meu bondoso soberano, senhor, meu real senhor, perdoai a uma estouvada; mas o afeto
que a vossa esposa... Oh! novamente louca! Maior estouvamento! Não desejo falar dela outra vez, nem
dos meninos, vossos filhos; não hei de recordar-vos, também, de meu senhor, que está perdido, do
mesmo modo. Sede, pois, paciente, que não direi mais nada.
LEONTES - Não, falaste somente o que se deu. Prefiro todas essas verdades a que me lastimes. Por
obséquio, levai-me para a sala onde está o corpo dela e o do menino. Terão um só sepulcro; sobre a
lápide gravada vai ficar a verdadeira causa da morte de ambos, para nossa vergonha sempiterna.
Diariamente, hei de a capela visitar em que eles se acharem repousando. Meu consolo vai consistir nas
lágrimas vertidas sobre essa laje. E enquanto a natureza me permitir fazer esse exercício, prometo
repeti-lo diariamente. Conduzi-me a essas dores.