— Olhe que é pior!
Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns
por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas
vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma cousa; não lhe
poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro
sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se
repetíssemos o negócio apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar
para todo o sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!
Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos
os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando, fustigado pelos
impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror; posso dizer que naquele
dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de
medo. Não olhei logo para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara,
na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dous serem cinco.
Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas
desviou a cara, e penso que empalideceu. Compôs-se e entrou a ler em voz
alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa,
coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter
denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em que é que lhe
tirávamos alguma cousa?
" Tu me pagas! tão duro como osso!" dizia eu comigo.
Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria
brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio; havia de ser na Rua
larga São Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi;
provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica,
espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me
deu notícia. De tarde faltou à escola.
Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas,
menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a lição. Dormi nessa
noite, mandando ao diabo os dous meninos, tanto o da denúncia como o da
moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia
seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem escrúpulos...
De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir
depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando,
sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram
amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono
de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à
escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não,
que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos
encontros, ao lixo da rua...
Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à
frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o
pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por
mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir
atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para
um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som
do rufo, creio que cantarolando alguma cousa: