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Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que
continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. — Ande, tome,
dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora
diamante... Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não
podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação...
— Tome, tome...
Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao
Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei;
mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e — tanto se ilude a vontade! — não lhe
vi mais nada. Então cobrei ânimo.
— Dê cá...
Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das
calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à
perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em fazê-lo, nem
o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de
papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um
esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele
escapasse ao castigo, tudo iria bem.
De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um
riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para
ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-
se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu a testa,
o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito.
— Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.
— Diga-me isto só, murmurou ele.
Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso,
lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarçando muito; depois, tornei
a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau,
estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em brasas, ansioso que
a aula acabasse; mas nem o relógio andava como das outras vezes, nem o mestre
fazia caso da escola; este lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com
exclamações, com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá
fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado
e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a
pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a
ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a
tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os
dedos pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de
espiá-la.
— Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.
Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei
com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa,
em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.