acontecimentos. Já eu não podia fugir inteiramente a essa preocupação: era
involuntária, subjugava-me, arrastava-me. Era a curiosidade do coração, esse
primeiro sinal das tempestades em que sucumbe a nossa vida e o nosso
futuro.
Parece que aquele homem lia na minha alma e sabia apresentar-se no
momento mais próprio a ocupar-me a imaginação como uma figura poética e
imponente. Tu, que o conheceste depois, dize-me se, dadas as circunstâncias
anteriores, não era para produzir esta impressão no espírito de uma mulher
como eu!
Como eu, repito. Minhas circunstâncias eram especiais; se não o soubeste
nunca, suspeitaste-o ao menos.
Se meu marido tivesse em mim uma mulher, e se eu tivesse nele um marido,
minha salvação era certa. Mas não era assim. Entramos no nosso lar nupcial
como dous viajantes estranhos em uma hospedaria, e aos quais a calamidade
do tempo e a hora avançada da noite obrigam a aceitar pousada sob o teto do
mesmo aposento.
Meu casamento foi resultado de um cálculo e de uma conveniência. Não
inculpo meus pais. Eles cuidavam fazer-me feliz e morreram na convicção
de que o era.
Eu podia, apesar de tudo, encontrar no marido que me davam um objeto de
felicidade para todos os meus dias. Bastava para isso que meu marido visse
em mim uma alma companheira da sua alma, um coração sócio do seu
coração. Não se dava isto; meu marido entendia o casamento ao modo da
maior parte da gente; via nele a obediência às palavras do Senhor no
Gênesis.
Fora disso, fazia-me cercar de certa consideração e dormia tranqüilo na
convicção de que havia cumprido o dever.
O dever! esta era a minha tábua de salvação. Eu sabia que as paixões não
eram soberanas e que a nossa vontade pode triunfar delas. A este respeito eu
tinha em mim forças bastantes para repelir idéias más. Mas não era o
presente que me abafava e atemorizava; era o futuro. Até então aquele
romance influía no meu espírito pela circunstância do mistério em que vinha
envolto; a realidade havia de abrir-me os olhos; consolava-me a esperança
de que eu triunfaria de um amor culpado. Mas, poderia nesse futuro, cuja
proximidade eu não calculava, resistir convenientemente à paixão e salvar
intactas a minha consideração e a minha consciência? Esta era a questão.
Ora, no meio destas oscilações, eu não via a mão do meu marido estender-se
para salvar-me. Pelo contrário, quando na ocasião de queimar a carta,
atirava-me a ele, lembras-te que ele me repeliu com uma palavra de enfado.