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Colecionar, escrever a história:
A história de Portugal e de suas possessões na perspectiva do bibliófilo Diogo
Barbosa Machado
Ana Paula Sampaio Caldeira
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-
graduação em História Social do Instituto de Filosofia e
Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção
do título de Mestre em História Social.
Orientador: Manoel Luiz Salgado Guimarães/ Rodrigo
Bentes Monteiro
Rio de Janeiro
2007
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Colecionar, escrever a história:
A história de Portugal e de suas possessões na perspectiva do bibliófilo Diogo
Barbosa Machado
Ana Paula Sampaio Caldeira
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em História Social do
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como
parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em História Social.
Aprovada por
_______________________________________________
Prof. Dr. Manoel Luiz Salgado Guimarães
(Orientador)
_______________________________________________
Prof. Dr. Rodrigo Bentes Monteiro
(Co-orientador)
_______________________________________________
Profa. Dra. Andréa Viana Daher
______________________________________________
Profa. Dra. Íris Kantor
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III
Ficha catalográfica
CALDEIRA, Ana Paula Sampaio.
Colecionar, escrever a história: A história de Portugal e de suas possessões na
perspectiva do bibliófilo Diogo Barbosa Machado/ Ana Paula Sampaio Caldeira. Rio de
Janeiro: UFRJ/ PPGHIS, 2007.
v, 175f.; 29,7 cm.
Orientador: Manoel Luiz Salgado Guimarães/ Rodrigo Bentes Monteiro
Dissertação (mestrado) UFRJ /IFCS/ Programa de Pós-graduação em História Social,
2007.
Referências bibliográficas: f. 163-175
1. Historiografia. 2. Colecionismo. I. Guimarães, Manoel Luiz Salgado II. Universidade
Federal do Rio de Janeiro. III. Programa de Pós-graduação em História Social. IV.
Título
IV
RESUMO
No século XVIII português, um erudito chamado Diogo Barbosa Machado dedicou-se
a colecionar materiais sobre a história de Portugal e de suas possessões. Nesta minuciosa
tarefa de selecionar aquilo que era digno de sobreviver ao tempo, aquele antiquário constituía,
por meio da prática colecionista, uma relação com o passado. Este trabalho de compilação foi
levado a cabo por Barbosa Machado até os últimos anos de sua vida, quando, então, vendeu a
sua coleção pessoal e toda a sua livraria para a Coroa portuguesa. Com a invasão napoleônica
e a vinda da Corte para o Brasil, muitas das obras da Biblioteca Real foram transferidas para o
Rio de Janeiro, dando início aqui à atual Biblioteca Nacional. Entre estas obras, estava toda a
coleção daquele erudito.
Nesta dissertação, buscaremos refletir, em primeiro lugar, sobre a história desta
própria coleção, percebendo as mudanças que sofreu já no Brasil. Cremos que estas mudanças
relacionam-se às diferentes maneiras como os homens dos séculos XVIII e XIX se
relacionavam com o seu passado e elaboravam a sua experiência do tempo. Nos capítulos
seguintes, buscaremos mostrar que esta mesma coleção pode ser entendida, a partir das
demandas historiográficas de sua época, tanto como um arquivo, capaz de fornecer vestígios
para uma escrita do passado, quanto como uma forma peculiar de escrita da história, na
medida em que conferia um sentido ao passado português.
ABSTRACT
At the Portuguese 18th century, an erudite named Diogo Barbosa Machado, has
devoted himself to collect materials about Portugal’s history and possessions. Through the
precise task of selecting what should survive at time, by a antiquarian practice, the erudite
built a relation with the past. This work of compilation has been done by Barbosa Machado
until the last days of his life. Then, he sold his personal collection and all his library to the
Portuguese Crown. With the Napoleonic invasions and the Crown’s arrival to Brazil, lots of
the Royals libraries productions were transferred to Rio de Janeiro. That way began the
National Library. Between these productions was all the erudite’s collections.
This dissertation will try to reflect, at first place, about this collection’s history,
noticing the changes suffered in Brazil. We believe that these changes are relate to the
different manners which men from the 18
th
and 19
th
centuries used to deal with their pasts and
build their experience of time. Through the next chapters we will try to show that this same
collection can be understood such as a archive capable of giving elements to a written of the
past, and such as a peculiar way of writing history, because it gave a meaning to the
Portuguese past.
5
SUMÁRIO
Agradecimentos ............................................................................................................................ 6
Introdução .................................................................................................................................. 10
Capítulo 1: Uma coleção em diferentes regimes de historicidade ................................................... 19
A coleção e a prática do antiquariado................................................................................................20
A trajetória da coleção e as mudanças sofridas por ela na cultura histórica oitocentista .................39
Capítulo 2: A Coleção como Arquivo ............................................................................................ 64
A Academia, o Decreto e o projeto de uma escrita da história pautada em documentos.................66
A constituição de um ambiente erudito em Portugal e a busca por testemunhos do passado.........85
A autoridade do documento: o arquivo de Barbosa Machado ..........................................................93
Capítulo 3: A Coleção como Escrita da História........................................................................... 106
A escrita de Diogo Barbosa Machado: os elogios ...........................................................................110
A dimensão do conflito: combates nos campos de batalha e embates de testemunhos................120
Os lugares da história ......................................................................................................................131
Conclusão ................................................................................................................................ 156
Fontes ...................................................................................................................................... 163
Bibliografia................................................................................................................................ 164
Obras de caráter teórico-metodológico............................................................................................164
Obras Gerais....................................................................................................................................166
6
Agradecimentos
Os agradecimentos, certamente, constituem a parte mais prazerosa de ser feita em
qualquer dissertação. Quando finalmente vemos que o trabalho foi concluído, podemos, então,
sentar e pensar nas pessoas que contribuíram, cada uma a sua maneira, para ele. Mas, ao
mesmo tempo, é uma tarefa difícil, pois, para aquele que o escreve, fica evidente o quanto as
palavras são limitadas quando se quer expressar o que algumas pessoas representaram não
para a realização desta etapa, mas sobretudo para a minha vida e a minha formação.
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer aos funcionários da Biblioteca Nacional.
Tive a sorte de encontrar alguns que ajudaram bastante ao longo da pesquisa, pegando aqueles
volumes enormes e pesados que eu consultava, fornecendo relatórios dos bibliotecários do
século XIX (que eu jamais encontraria na base de dados da biblioteca) e tirando dúvidas a
respeito da minha documentação e da organização daquele acervo. Gostaria de agradecer
especialmente aos funcionários da Iconografia (sobretudo Deividy e Mônica) pela tão
preciosa ajuda, e a D. Lygia Cunha pela entrevista concedida.
Também na Biblioteca Nacional tive o prazer de conviver diariamente com pessoas
que se tornaram fundamentais para a realização deste trabalho. Desses amigos recordo não
apenas os divertidos almoços juntos, mas o incentivo enquanto ainda preparava o projeto de
mestrado. Um agradecimento especial vai para Walter Marcelo Ramundo, Ana Cristina
Rodrigues, Guido Fabiano Pinheiro Queiroz e os “excellentissimos e digníssimos varões
insignes” Pedro Fonseca de Araujo, Jorge Miranda Leite, Gustavo Kelly de Almeida e
Jerônimo Duque Estrada de Barros. Sempre dispostos a me ajudar, compartilhando suas
pesquisas e também os preciosos resumos e tabulações dos livros de Barbosa Machado, eles
foram essenciais para a conclusão desta dissertação. Obrigada também a David Felismino por
ter compartilhado conosco os materiais coletados nos arquivos portugueses.
Agradeço a Paula Cruz e Cíntia Almeida Ramos que, ainda na etapa de seleção de
mestrado, leram meu projeto, contribuíram com suas críticas e compartilharam dúvidas
teóricas e existenciais comigo. Adriana Clen e Ísis Pimentel, fizeram o mestrado ser menos
maçante e mais divertido. À nossa “Pequena Notável”, sou grata também pela força que me
deu, sobretudo na conturbada reta final de escrita da dissertação. Imprescindíveis também
foram Rafael, Valéria, Amália, Ilton, Marcos César, Sérgio Henrique, Aline, Ricardo
Alexandre, Beto, Léo, Carlos e demais agregados do “cream de la cream”, que me enchiam de
cerveja e caipirinha e nunca me perguntavam (com exceção do Léo, é claro!) sobre minha
7
dissertação, pois sabem muito bem que isso não é papo evoluído o suficiente para uma mesa
de bar. Meus agradecimentos também a Irina Aragão, Ricardo Pinto e Erika, minha amiga-
irmã que por vezes me socorreu diante da precariedade do meu inglês.
Uma pessoa fundamental, não apenas como um dos responsáveis por um dia eu ter
escolhido fazer história, mas por ter participado da minha vida durante tanto tempo foi Fabio
Candido dos Santos. A ele agradeço a grande amizade que tivemos e também o
companheirismo que demonstrou nos momentos bons e ruins em que esteve comigo.
Gostaria ainda de ressaltar o papel de alguns professores neste processo. Em primeiro
lugar, meus orientadores. Manoel Salgado, de quem fui aluna tantas e tantas vezes, me
ensinou, mais do qualquer conteúdo de história, a pensar e problematizar o tempo todo as
minhas concepções e certezas. Certamente ele não sabe mas poderá ter uma noção a partir
desses agradecimentos o quanto eu refleti sobre o que me ensinou não apenas para preparar
meus projetos acadêmicos, mas para minha vida como um todo. A Rodrigo Bentes Monteiro
agradeço a enorme dedicação, a generosidade intelectual, a paciência e também a
sensibilidade de entender a vida atribulada que tive nesse último ano de mestrado. Mais do
que um contato entre aluno e professor, tornou-se uma relação de amizade.
Agradeço a Íris Kantor, sempre tão acessível e atenciosa, seja por e-mail, seja
pessoalmente, e a Margarida de Sousa Neves, por ter aceitado participar da minha banca de
qualificação e ter feito considerações importantes para o crescimento do trabalho. A Andréa
Daher gostaria de agradecer as valorosas sugestões, algumas das quais tentei incorporar à
dissertação, mas também de atribuir a ela influência em muitas das minhas escolhas e
interesses dentro da área de história. Não gostaria de esquecer a professora Andréia Frazão, a
quem sou grata pela leitura do projeto e por boa parte da minha formação e aprendizado
dentro do IFCS.
A meus pais, Antonio (in memoriam) e Beth, que nunca entenderam muito bem que
negócio era esse de mestrado, mas ainda assim ficaram contentes quando me viram ingressar
na pós-graduação, agradeço a presença constante e todas as loucuras que fizeram por mim ao
longo da vida. Obrigada a meus sobrinhos João e Pedro, por terem me alertado tantas vezes
que era nosso papel, como super-heróis, salvar a terra de monstros ligados às forças do mal e,
portanto, que eu não poderia ficar sossegada lendo um livro diante de um perigo tão iminente.
A eles sou grata por este importante alerta. Agradeço aos meus cachorros Mel e Xisto, tantas
vezes enxotados do quarto, e Scooby, privado dos seus passeios noturnos nos últimos meses.
Gostaria de ressaltar ainda o companheirismo de meus gatos, Penélope e John Lennon, que
8
sempre estavam ao meu lado na mesa do computador, dando uma grande utilidade aos
rascunhos da dissertação quando dormiam sobre eles.
Propositalmente por último, um agradecimento especial a Douglas Attila (aquele que
me tirou da história para a vida), para quem, toda vez que eu olho, eu me convenço de que a
vida, isso que a gente tanto planeja e tenta controlar, é realmente engraçada e, sobretudo,
imprevisível.
9
Os fregueses da taverna acotovelam-se em torno à mesa que se foi
aos poucos cobrindo de cartas, esforçando-se por tirar dessa
barafunda de tarôs a sua própria história, e quanto mais confusas e
desconjuntadas se tornam essas histórias tanto mais as cartas
esparramadas vão encontrando seu lugar num mosaico ordenado.
Será apenas resultado do acaso, este desenho, ou talvez algum de nós
o estará pacientemente estruturando?
(CALVINO, Ítalo. O Castelo dos Destinos Cruzados).
10
INTRODUÇÃO
11
No século XVIII, em Portugal, um homem chamado Diogo Barbosa Machado
dedicou-se praticamente por inteiro aos estudos. Em sua casa, situada à rua Direita a
Rilhafoles, em Lisboa, ele foi ao longo da vida enchendo as estantes de sua biblioteca com
muitos livros. Interessava-se por vários assuntos, mas, sobretudo, pela história eclesiástica e
secular do reino. Teve de dividir seu interesse pelos estudos com a vocação eclesiástica,
paixões de forma alguma excludentes, mas, antes, complementares, pois a carreira religiosa
certamente lhe garantia acesso a saberes e um acúmulo ainda maior de erudição. Dessa forma,
além de ser um homem das letras, foi também um homem de Deus. Quando jovem, entrou
para a Congregação do Oratório. Em 1724, foi ordenado presbítero e, quatro anos depois, foi
nomeado abade da Paroquial Igreja de Santo Adrião de Sever. A vida na abadia não era algo
que Diogo Barbosa quisesse para sempre. Amante das letras, não era seu desejo ficar muito
tempo longe de Lisboa, cidade onde tudo acontecia, abrigo das academias literárias e dos
grupos letrados. Não demorou, portanto, para que ele largasse seus afazeres naquela pequena
igreja de madeira e voltasse a respirar o ar libertador da cidade.
1
Sua vocação para o estudo acabou tornando-o reconhecido no ambiente erudito
lisboeta. Primeiramente, foi indicado como membro da uma academia literária nova, que tinha
tudo para dar certo, afinal fora criada pelo próprio rei com o auxílio de proeminentes eruditos
da época. Chamava-se Academia Real da História Portuguesa. Mais tarde, já como
acadêmico, compôs obras de grande fôlego, como a Biblioteca Lusitana e as Memórias para a
História de D. Sebastião. Morreu aos 92 anos e, ao longo de sua trajetória, pode vivenciar
muitas coisas: acompanhou três reinados, viu o reino entrar e sair de muitos conflitos, assistiu
o alvorecer e o crepúsculo dos estudos históricos em Portugal, surpreendeu-se com a tentativa
1
BAIÃO, Antonio. O Testamento de Diogo Barbosa Machado. Porto: Tipografia Siqueira, 1937; COSTA,
Manuel Alberto Nunes. Diogo Barbosa Machado e a bibliografia portuguesa. Anais da Academia Portuguesa de
História, Lisboa, p. 291-340, 1986; MOTA, Isabel Ferreira da. A Academia Real da História. Os intelectuais, o
poder cultural e o poder monárquico no século XVIII. Coimbra: Edições Minerva Coimbra, 2003; MONTEIRO,
Rodrigo Bentes. Reis, príncipes e varões insignes na coleção Barbosa Machado, in Anais de História de Além-
Mar. Lisboa, Centro de História de Além-Mar, v. VI, 2005, p. 215-51.
12
de regicídio contra o monarca português e, se não bastasse isso tudo, também pôde
literalmente sentir o terremoto que assolou Lisboa em 1755. Quase no fim de sua vida, ainda
teve um momento de grande prazer e reconhecimento intelectual, quando viu ninguém mais
ninguém menos que o rei D. José I interessado em comprar a biblioteca que cultivou durante
tantas décadas.
Hoje, de alguma maneira, Barbosa Machado encontra-se no Brasil, mais precisamente
na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde, nas seções de Iconografia, Cartografia, Obras
Raras e Manuscritos nos deparamos com várias obras que um dia foram suas. Elas
atravessaram o Atlântico e aportaram aqui alguns anos depois da vinda da família real. Junto
com sua biblioteca, foi transferido para também um acervo de mapas, imagens e folhetos
que Barbosa Machado colecionou e organizou em volumes encadernados, com direito a folha
de rosto, título e adornos.
O primeiro contato com esta coleção se deu um pouco por acaso. Fui chamada pela
Biblioteca Nacional para estagiar em um dos vários projetos que, em meados de 2003,
estavam iniciando com financiamento daquela instituição. Eram pesquisas, em sua maior
parte, pautadas no acervo da própria biblioteca e dirigidas por professores de diversas áreas e
universidades. Aleatoriamente, acabei sendo mandada para o projeto Recortes de Memória,
coordenado pelos professores Rodrigo Bentes Monteiro (Universidade Federal Fluminense) e
Pedro Cardim (Universidade Nova de Lisboa). A pesquisa era pautada integralmente nos
materiais da coleção pessoal de Diogo Barbosa Machado, sobretudo nos opúsculos e imagens
amealhados por ele. O objetivo inicial era saber o que tínhamos ali, o que aquele abade tanto
colecionou e pensar as possibilidades de estudos que aqueles materiais poderiam trazer sobre
a monarquia ou mesmo o império português. Dessa forma, era minha função, e também do
outro estagiário que trabalhava comigo, ficar algumas horas sentados descrevendo imagens,
lendo folhetos e relatando o que víamos e líamos ali.
13
O trabalho que poderia ser maçante acabou chamando a nossa atenção. Perdíamo-nos
em meio às várias imagens, trazendo rostos de reis, eclesiásticos e nobres portugueses.
Quando chegamos aos opúsculos, a segunda fase de nosso projeto, líamos cada folheto,
alguns com linguagens e caracteres dificílimos, muitos dos quais exigiam um trabalho de
decifração daqueles jovens estudantes de história tão pouco acostumados a lidar diariamente
com arquivos e fontes de época. Ao manusear aqueles materiais, intrigava-me o impulso que
teria levado alguém a dedicar tanto tempo da sua vida coletando e ordenando papéis antigos.
Posteriormente, meu estranhamento mudou: incomodava-me também que pessoas
manuseassem diariamente aqueles folhetos e imagens sem nunca se perguntarem de onde eles
vieram e como foram parar ali. Pesquisadores entravam e saíam na biblioteca, examinavam
aqueles materiais para seus trabalhos como se tudo estivesse naturalmente esperando para se
tornar fontes, referências e citações em suas teses e artigos.
Fruto do acaso ou não, aquela coleção acabou ganhando sentido e despertando mais
meu interesse, pois, de alguma maneira, casava-se com (ou, talvez tenha ajudado a formular)
as questões historiográficas que trazia na época. Minhas preocupações giravam em torno de
como os homens, ao longo do tempo, davam sentido a si mesmos e ao seu presente a partir
das imagens que faziam do passado; como histórias de determinados povos, eventos ou
mesmo de indivíduos eram elaboradas e reelaboradas constantemente, das mais diversas
formas, a partir das demandas de cada época; e, por fim, como eu mesma, na ambição de ser
historiadora, também estava inserida neste movimento. Percebi, assim, que a coleção que
tinha em mãos poderia me ajudar não a responder totalmente essas interrogações, o que seria
muito pretensioso, mas, pelo menos, a pensá-las a partir de um objeto e de uma cultura
específica.
O objeto eram, justamente, os materiais colecionados por Diogo Barbosa Machado.
Em sua compilação, nosso abade juntou imagens e folhetos que representavam e tratavam da
14
vida de reis, rainhas, clérigos, nobres e outras personalidades do passado e também do seu
presente. Ele ainda colecionou mapas sobre o território luso, além de muitos opúsculos que
contavam histórias fantásticas e feitos magníficos obrados pelos portugueses em terras não
do reino, mas também na Ásia, África e América. Tudo que dissesse respeito à grandeza
daqueles que fizeram de Portugal o vasto império no qual se tornou deveria ser colecionado.
Sobre esta coleção, falaremos de maneira mais detida ao longo dos capítulos da dissertação. O
que nos interessa destacar aqui é o fato de Barbosa Machado ter se debruçado sobre o passado
português e um presente que um dia tornar-se-ia passado. Seu desejo era de que essa
experiência não morresse, mas chegasse até às gerações futuras. Aquele abade coletou os
vestígios de um tempo que se foi e, a cada folheto e imagem que recortava e colava, ia
construindo a sua história de Portugal.
Por outro lado, a sua coleção nos remetia também para uma sociedade e um tipo de
relação específica com o passado, em que este era tomado e sentido na materialidade de sua
presença.
2
Dessa forma, aquele acervo nos conduzia para uma certa tradição antiquária e para
a sua existência como prática difundida entre os eruditos portugueses do Setecentos.
De acordo com Jean-Marie Goulemot, o século XVIII era obcecado pela história,
sobretudo pelo medo da finitude histórica e do perecimento. O tempo, sinônimo de destruição
e esquecimento, deveria ser vencido, num esforço, por parte daqueles homens, de
sobreviverem a si mesmos. Neste embate, a memória e a lembrança tinham uma aliada
poderosa, a escrita, que cada vez mais ganhava terreno como forma de comunicação na
sociedade moderna. Associada ao ato e à atividade de preservar e compilar, ela tornava-se
2
GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. Reinventando a Tradição: sobre antiquariado e escrita da história.
Humanas, Porto Alegre, v. 23, n. 1/2, p. 111-143, 2000.
15
uma maneira de não permitir que as experiências do passado e do presente se perdessem no
tempo.
3
Em Portugal, essa preocupação com o perecimento das experiências passadas também
esteve presente para seus eruditos, que se queixavam do fato de grandes personagens e feitos
do passado reinol estarem esquecidos e sepultados nos arquivos. Se essa injustiça fora
cometida contra os homens de outrora, o mesmo poderia acontecer com os daquele presente.
Dessa forma, era preciso tomar medidas para que se pudesse reparar esta situação e que
ajudassem a preservar a memória dos homens e dos eventos que contribuíram para a grandeza
do reino português. Contando com o apoio da monarquia, foi criada, portanto, a Academia
Real da História.
Para conduzir este trabalho, era necessário lidar com os restos do passado e, é claro,
averiguar se aquilo que os textos diziam sobre outras épocas era, de fato, verdadeiro. Para
isso, foi promulgado também um decreto, em 1721, que tornava obrigatória a conservação de
vestígios e testemunhos antigos. Os documentos encontrados eram dispostos e organizados
em coleções, importante ferramenta para que os acadêmicos pudessem, de acordo com seus
interesses, pesquisar sobre um tema ou um momento da história portuguesa. As coleções
fixavam o que era importante ser conservado, além disso, imortalizavam e preservavam
contra a corrupção do tempo. Muitos acadêmicos, individualmente, constituíam as suas
coleções, entre eles o próprio Diogo Barbosa Machado.
Dessa forma, este acervo nos abria a possibilidade de discutir sobre a escrita da
história em Portugal no século XVIII e, mais especificamente, sobre uma certa escrita
peculiar, colecionista e antiquária. Interessava-nos entender que prática foi aquela que atribuiu
um valor histórico aos resquícios do passado, preocupando-se em salvaguardá-los, mantendo,
assim, uma relação com dois tempos desconhecidos: um passado pedido, mas mediado
3
GOULEMOT, Jean-Marie. Bibliotecas e angústia da perda: a exaustividade ambígua das luzes. In: BARATIN,
Marc e JACOB, Christian (Org.). O Poder das Bibliotecas. A memória dos livros no Ocidente. Rio de Janeiro:
UFRJ, 2000. p. 257.
16
pelos documentos, e um futuro desconhecido e invisível.
4
No entanto, a coleção poderia nos
levar também para além do mundo erudito do século XVIII. Como dissemos, ela acabou
vindo parar no Rio de Janeiro e passou a figurar nas estantes da Biblioteca Nacional. Era
preciso se interrogar, portanto, não pela cultura histórica que possibilitou o surgimento
daquela coleção, mas também por aquela que permitiu que ela chegasse até nós hoje.
Para discutirmos essas interrogações, estruturamos nosso trabalho da seguinte
maneira. O capítulo inicial reserva-se, em primeiro lugar, a elaborar uma tipologia da
Coleção Diogo Barbosa Machado, mostrando no que ela se difere e se aproxima de outras de
sua época, o tipo de material que a compõe, como eles acham-se dispostos e, ainda, de que
maneira foram encontrados e reunidos pelo seu colecionador. Em seguida, partimos da
própria coleção para abordar a atividade de bibliófilo de Barbosa Machado, destacando o
trabalho exaustivo de compilação feito por ele em diversas frentes. Por fim, vemos também
como esta coleção tem uma história que vai além da vida de seu idealizador. Nesta última
parte do capítulo, mostramos os caminhos percorridos por este conjunto de documentos até
fazer parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no século XIX. O intuito
não é apenas contar uma trajetória, mas, antes de tudo, mostrar como as mudanças que esta
coleção sofreu ao longo de algumas décadas podem nos ajudar a refletir a respeito de como as
sociedades se relacionam com o seu passado.
Nos capítulos seguintes, depois de já termos compreendidas a sua trajetória e as
modificações sofridas a partir das demandas de uma outra sociedade, voltamo-nos para a
época em que a coleção foi feita justamente para entender seus usos e a relação que nosso
colecionador mantinha com o passado.
Chegamos, assim, ao capítulo dois, no qual, a partir do projeto historiográfico da Real
Academia e do estudo do ambiente letrado português, buscamos dar um primeiro significado
4
POMIAN, Krzysztof. Coleção. In: Enciclopédia Einaudi. v.1. Memória-História. Lisboa: Imprensa Nacional-
Casa da Moeda, 1984. p. 51-86.
17
àquela coleção, entendendo-a a partir das novas demandas que se impunham ao historiador,
sobretudo quando da fundação daquela Academia. A principal delas era a escrita da história
pautada em documentos, o que pressupunha a recolha de papéis e a montagem de coleções
como elementos centrais para que os historiadores-antiquários daquele tempo realizassem a
sua tarefa. Nosso objetivo foi localizar a coleção dentro de um conjunto de questões da época
e, sobretudo, dentro de uma proposta de escrita da história pautada não mais na tradição, mas
nos testemunhos. Em seguida, procuramos mostrar que o interesse pelo passado e o
colecionismo não são idéias que surgiram no século XVIII, mas existiam entre os letrados
portugueses, como verificamos a partir do exemplo de Manuel Severim de Faria. Veremos
que, dentro de uma proposta de história agora pautada em testemunhos e na validade dos
textos escritos, a coleção Diogo Barbosa Machado pode ser entendida como um arquivo, em
consonância com o projeto de escrita da história da Academia Real. Na sua tarefa de compilar
folhetos, imagens e mapas, nosso abade trabalhava em sintonia com as propostas da
instituição da qual fazia parte. Além de compor um cânone de personagens importantes da
história portuguesa, nosso erudito, ao procurar e coletar documentos para a sua coleção,
ajudava na tarefa de conhecer e organizar os arquivos portugueses e a documentação referente
ao reino e suas possessões.
No capítulo três, propomos dar uma segunda chave para entender essa coleção,
concebendo-a como uma escrita da história na medida em que não somente guardava
testemunhos de um passado, mas também o organizava dentro de uma lógica e de um
significado. Trata-se de uma escrita própria, como regras e peculiaridades, como qualquer
outra. A maneira que escolhemos para pensar esta questão foi abrir os tomos da coleção, ler
seus folhetos, contar algumas de suas histórias, para mostrarmos, sobretudo, que a escrita da
Barbosa Machado é pautada na idéia de documento. A história de Portugal é o conjunto de
diversas outras: de reis, rainhas, nobres, batalhas
, etc. Todas elas contadas por uma infinidade
18
de textos diferentes. Todos esses folhetos, agrupados em coleção, postos lado a lado,
compõem um quebra-cabeça, em que as peças vão se juntado, formando um todo coerente:
uma história de aventuras e sucessos. Em outras palavras, uma história exultante.
19
CAPÍTULO 1:
UMA COLEÇÃO EM DIFERENTES REGIMES DE
HISTORICIDADE
20
“A história é a testemunha do tempo, a luz da verdade, a vida da memória,
a mestra da vida, e a mensageira da Antiguidade
(BLUTEAU, Raphael. História. In: Vocabulário Português e Latino,
Áulico, Anatômico... Coimbra: Colégio das Artes da Cia de Jesus, 1712,
v.4).
A coleção e a prática do antiquariado
A Coleção Diogo Barbosa Machado é composta por mapas, folhetos e retratos em sua
maioria dos séculos XVI, XVII e XVIII. Não é possível saber exatamente o período em que
foi montada, mas, pela datação dos folhetos, podemos supor que o colecionador, além de ter
levado muitas décadas para compô-la, também se empenhou neste trabalho até, pelo menos,
1770, data do opúsculo mais recente que consta nesta coleção e ano em que o abade também
se desfez da mesma.
Diogo Barbosa Machado dedicou boa parte de sua vida à erudição. Nascido em
Lisboa no ano de 1682, ele morreu nesta mesma cidade em 1772. Embora não pertencesse à
nobreza portuguesa, Diogo era um homem muito bem relacionado. Com a ajuda de um dos
grandes do reino, Rodrigo Annes de Almeida, o marquês de Abrantes, ocupou o cargo de
abade da Igreja Paroquial de Santo Adrião de Sever, da qual a casa de Abrantes detinha o
padroado.
5
É certo que ele não permaneceu muito tempo neste posto, pois isto implicava ficar
distante de Lisboa, cidade por excelência dos eruditos portugueses do século XVIII. Por outro
lado, também é certo que a pensão que adquiriu como abade lhe garantiu renda suficiente
para formar uma considerável biblioteca pessoal e também para empenhar-se integralmente a
práticas eruditas de sua época, tais como a correspondência com outros homens de saber, o
5
MOTA, Isabel Ferreira da. A Academia Real da História. Os intelectuais, o poder cultural e o poder
monárquico no século XVIII. Coimbra: Edições Minerva Coimbra, 2003. p. 227-9.
21
interesse pela história pátria e, sobretudo, o colecionismo. Seus irmãos, José e Inácio Barbosa
Machado, também se dedicaram aos estudos e às práticas eruditas. O primeiro distinguiu-se
ante D. João V como célebre orador e foi nomeado cronista oficial da casa de Bragança. o
segundo, veio para o Brasil e aqui, além de ter exercido o cargo de juiz de fora da Bahia, foi
também nomeado para a Academia Brasílica dos Renascidos.
6
Com a morte de Inácio, sua
biblioteca, composta por cerca de dois mil volumes, foi anexada a de Diogo, uma vez que os
dois irmãos moravam juntos.
Assim como seus irmãos, Diogo Barbosa Machado ascendeu socialmente por meio
das letras. Foi a partir do contato com membros da alta nobreza portuguesa que ele, em 1720,
foi nomeado pelo rei D. João V como membro da recém fundada Academia Real de História,
instituição interessada em escrever a história do reino português e promover as glórias de
Portugal para toda a Europa. Seu papel dentro desta academia parecia ser tímido se levarmos
em conta a presença pouco expressiva do abade de Sever nos documentos referentes às
reuniões de seus membros-acadêmicos. No tomo um da Historia da Academia Real da
História Portuguesa obra escrita por Manoel Telles da Sylva, também acadêmico da dita
instituição, e que reúne vários documentos referentes ao primeiro ano de funcionamento da
Academia, como atas de reuniões e conferências Diogo aparece somente duas vezes.
7
Na
primeira, ele é apenas referido em uma lista trazendo os nomes de todos os acadêmicos que
faziam parte da instituição. Ao contrário dos demais membros, que ao lado de seu nome
tinham a especificação de um cargo ocupado ou de um título adquirido, Diogo Barbosa
Machado não traz indicação alguma, nem mesmo a de abade de Sever.
8
Mais adiante, o
erudito é citado novamente por Manoel Telles da Sylva quando, em meio a uma reunião dos
6
Sobre esta Academia Literária formada na Bahia em 1759, ver KANTOR, Íris. Esquecidos e Renascidos.
Historiografia acadêmica luso-americana (1724-1759). São Paulo: Hucitec; Salvador: Centro de Estudos
Baianos/ UFBA, 2004. A respeito da trajetória de Diogo Barbosa Machado, ver MOTA, Isabel Ferreira da. Op.
Cit.
7
SYLVA, Manoel Telles da. Historia da Academia Real da Historia Portugueza. Lisboa: Officina de Joseph
Antonio da Sylva, 1727, v.1. Prólogo
8
Ibid.
22
acadêmicos, levanta uma questão a respeito do desaparecimento de D. Sebastião na batalha
de Alcácer Quibir.
9
Seu interesse era apenas o de expor uma dúvida a respeito da morte do
Desejado, dúvida esta que deveria ser respondida pelos membros de maior vulto dentro da
Academia. Dessa forma, parece que, naquela instituição, alguns acadêmicos destacavam-se
mais do que outros e possuíam um maior poder de decisão no que se refere à escrita da
história e ao esclarecimento de alguns eventos pouco elucidados do passado português. Estes
membros, em geral, ou faziam parte dos grandes” da nobreza como Francisco Xavier de
Meneses (conde da Ericeira) e Francisco Paulo de Portugal e Castro (marquês de Valença)
ou eram eclesiásticos responsáveis pela fundação daquela academia como Manoel Caetano
de Sousa.
Como acadêmico real, uma das tarefas que o cargo ocupado por Diogo Barbosa
Machado exigia era a de produzir as memórias de D. Sebastião, de D. Henrique e dos reis
Felipe I, II e III. No entanto, seu trabalho foi muito além. Entre seus escritos mais
importantes, destacam-se as Memórias para a História de Portugal, que comprehendem o
governo delRey D. Sebastião e a Bibliotheca Lusitana. O abade elaborou também um
catálogo manuscrito de todos os livros que possuía. Atualmente, esta lista encontra-se na
Biblioteca Nacional e, a partir dela, podemos não conhecer as obras que eram de interesse
daquele colecionador e figuravam em sua livraria, mas, sobretudo, saber de que maneira ele
dividia a sua biblioteca e o peso que dava para cada assunto.
A livraria do acadêmico era composta por 4301 obras e 5764 volumes.
10
Estes livros
dividiam-se em 34 classes, a saber: Escritura Sagrada; teologia especulativa, dogmática e
moral; teologia sacra e profana; história eclesiástica; história eclesiástica das regiões orientais
e ocidentais; história profana; história profana das regiões orientais e ocidentais; vidas de
Cristo, santos e santas, príncipes eclesiásticos e seculares e de homens e mulheres ilustres em
9
Ibid. p. 316-8.
10
Cf. GALVÃO, Ramiz. Diogo Barbosa Machado. In: Anais da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca
Nacional, 1876-77, v.1. p. 1-43.
23
virtudes e ações militares; elogios de pontífices, príncipes e varões insignes em santidade,
letras e armas; bibliotecários; genealógicos; heráldicos; cronólogos; geógrafos; ortógrafos;
gramáticos; retóricos e oradores; discursos concionatórios; poetas latinos; poetas portugueses,
castelhanos e italianos; símbolos, emblemas e empresas; dicionários; antiquários; autores que
compreendem diversas matérias em suas obras; autores antigos de língua latina em prosa e
verso; pompas triunfais na entrada de príncipes e funerais dos mesmos; políticos; ascéticos,
itinerários; escritores de cartas; apologias; críticas invectivas; miscelânea e livros de
estampas.
11
O peso em termos de mero de livros por classificação varia bastante. No entanto,
nos interessa aqui destacar que à história, seja ela eclesiástica ou profana, segundo a própria
classificação de Barbosa Machado, são reservadas 1169 obras, isto é, cerca de 27% de sua
livraria. Se incluirmos nesta categoria os livros referentes a vidas de personagens ilustres,
este número cresce para 34%.
Estes dados tornam-se interessantes, sobretudo, quando comparados a levantamentos
realizados em outras livrarias do mesmo período. Uma proposta neste sentido foi
desenvolvida por Ana Cristina Araújo em seu artigo intitulado Livros de uma vida. Critérios
e modalidades de constituição de uma livraria particular no século XVIII.
12
Ela também se
interessou em pesquisar as bibliotecas portuguesas do setecentos centrando-se na livraria
particular de José da Silva Pais, sargento-mór que, assim como Barbosa Machado, conseguiu
ascender socialmente e conquistar prestígio. Esta biblioteca era composta por 437 volumes,
papéis soltos e algumas gazetas. Dentre este material, Ana Cristina Araújo destaca que 252
volumes eram dedicados à história e a vidas de príncipes. Embora a livraria deste último
personagem seja bem modesta se comparada à de Barbosa Machado, elas, juntas, mostram
11
MACHADO, Diogo Barbosa. Cathalogo dos Livros da Livraria Diogo Barbosa Machado distribuídos por
matérias e escrito por sua própria mão. Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional.
12
ARAÚJO, Ana Cristina. Livros de uma Vida. Critérios e modalidades de Constituição de uma Livraria
Particular no Século XVIII. Revista de Historia das Idéias, Coimbra, v. 20, p. 149-185, 1999.
24
duas coisas importantes. Em primeiro lugar, o interesse dos letrados daquela época pela
história. Em segundo lugar, a indicação da existência de um mercado livreiro se voltando
também para este interesse.
13
Dentre os livros que compunham a sua biblioteca pessoal, o abade de Sever destacou
em seu catálogo uma coleção organizada por ele mesmo e que reúne documentos
relacionados à história de Portugal e de suas possessões na África, América e Ásia. Esta
coleção, em especial, parece se diferenciar em alguns aspectos de outras do mesmo período.
Referimo-nos principalmente àquelas estudadas por especialistas como Adalgisa Lugli,
Antoine Schnapper, e, no que se refere a Portugal, João Carlos Pires Brigola.
14
Seus trabalhos
destacam o interesse dos colecionistas do dezoito por materiais relativos à história e à história
natural. De um modo geral, estes autores se detêm nas coleções naturalistas, uma vez que, a
partir delas, é possível refletir a respeito das mudanças científicas ocorridas na virada do
século XVIII para o XIX. Ao contrário dos colecionistas do Oitocentos, que se preocupavam
em classificar os materiais coletados e desvendar as leis da natureza, os naturalistas de início
e meados do Setecentos tinham como motivação mostrar as maravilhas da criação divina
(através, sobretudo, de materiais que representassem o extraordinário, como o chifre de
unicórnio ou a mandíbula de um gigante) e a onipotência de Deus.
No que se refere às coleções de história ou antiquárias, podemos perceber, de acordo
com os estudos e os inventários feitos pelos pesquisadores citados acima, que predominavam
nas coleções do século XVIII os objetos materiais, isto é, moedas, medalhas, ou até mesmo
estampas. Acreditava-se que estes objetos, justamente por seu caráter material, seriam menos
13
Isabel Ferreira da Mota destaca que a História é um dos gêneros que mais dinamizou o mercado livreiro na
primeira metade do século XVIII e foram justamente estas obras que organizaram e projetaram para o público
uma imagem elaborada do rei, da própria Academia e da Corte. (MOTA, Isabel Ferreira da. Op. Cit.).
14
LUGLI, Adalgisa. Naturalia et Mirabilia. Les cabinets de curiosités en Europe. Paris: Adam Biro, 1998;
SCHNAPPER, Antoine. Le Géant, la Licorne et la Tulipe. Paris: Flammarion, 1988; BRIGOLA, João Carlos
Pires. Colecções, Gabinetes e Museus em Portugal no Século XVIII. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian;
Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2003.
25
passíveis de manipulação.
15
Blandine Kriegel, no entanto, complexifica esta idéia. Para esta
historiadora, as medalhas e os monumentos eram materiais colecionados, sobretudo pelos
antiquários interessados nas grandes civilizações do passado. Por outro lado, havia o interesse
crescente, em especial por parte de alguns colecionadores ligados às ordens religiosas ou
ainda juristas, em relação aos documentos escritos, notadamente as atas, produções típicas
das sociedades modernas.
16
Para estes últimos, os documentos escritos não eram menos
verdadeiros que as medalhas ou moedas antigas. Pelo contrário: através da utilização das
técnicas trazidas pela crítica documental era possível estabelecer, com rigor, a autenticidade
dos testemunhos.
Diferentemente das coleções estudadas por Lugli, Schnapper e Brigola, mas
semelhante às estudadas por Kriegel, a Coleção Barbosa Machado tem como ponto central a
reunião de documentos escritos. Nesta característica, ela se difere, inclusive, de outras
coleções compostas pelos pares do abade de Sever. O gabinete dos condes da Ericeira, por
exemplo, era especializado em antiguidades, moedas e, sobretudo, em história natural.
17
Da
mesma maneira, o duque de Cadaval, embora mantivesse uma coleção de manuscritos,
dedicava-se também aos objetos naturais e à numismática.
18
A coleção dos marqueses de
Abrantes era referência em medalhas,
19
enquanto o gabinete de D. João V centrava-se nos
objetos de arte e na mineralogia.
20
A coleção montada pelo abade de Sever é, por seu turno, exclusivamente dedicada a
objetos históricos, se quisermos utilizar uma nomenclatura que, sem vida, não é a mais
apropriada para o século XVIII, época em que não havia uma divisão muito clara entre
história e história natural. No entanto, queremos destacar que este colecionador não se
15
LUGLI, Adalgisa. Op. Cit.
16
KRIEGEL, Blandine. L´Histoire à l´Age Classique. La défaite de l´erudition. Paris: PUF, 1988, v.2. p.165.
17
BRIGOLA, João Carlos Pires. Op. Cit. p. 507.
18
Ibid. p. 511.
19
Ibid. p. 513.
20
Ibid. p. 508.
26
interessava por instrumentos científicos ou por objetos naturais, mas por documentos
relativos ao passado português, por imagens de homens valorosos deste passado e por mapas
dos territórios portugueses. A sua questão, portanto, não dizia respeito ao mundo da natureza,
mas à história de Portugal.
A Coleção Diogo Barbosa Machado é composta por 2.039 imagens, 3.134 folhetos e
81 mapas.
21
Ela é também dividida dentro da classificação da livraria de seu compositor. Na
parte referente à história profana, Barbosa Machado não só listou alguns tomos da coleção de
opúsculos organizada por ele, mas também deu o seu próprio parecer sobre a mesma:
Collecção singular, e de summa estimação que consta de sucessos
pertencentes a historia de Portugal formada de vários livros de prosa e
verso da dita historia, e reduzida a folhas em volumes divididos nas classes
seguintes (...)
22
Barbosa Machado passa, então, a listar os seguintes volumes que compõem a sua
coleção de opúsculos:
Genethliacos dos Reys, Raynhas e Príncipes de Portugal – 5 tomos
Aplausos dos annos de Reys, Raynhas e Príncipes de Portugal – 2 tomos
Entradas em Lisboa de Reys e Raynhas – 2 tomos
Epithalamios de Reys, Raynhas e Principes de Portugal – 5 tomos
Elogios dos Reys, Raynhas e Príncipes de Portugal – 4 tomos
Aplausos oratórios, e poéticos pella saúde dos Reys – 1 tomo
Ultimas ações e exéquias de Reys, Raynhas e Príncipes de Portugal 3
tomos
Elogios fúnebres dos Reys, Raynhas, e Príncipes de Portugal – 4 tomos
Noticias militares de D. João IV – 2 tomos
Noticias militares de D. Afonso VI – 3 tomos
Noticias militares de D. Pedro II – 2 tomos
Noticias militares de D. João V – 2 tomos
Noticias militares de D. José I – 1 tomo
Noticias militares da Índia Oriental – 3 tomos
Noticias militares da América – 1 tomo
Noticias militares da África – 1 tomo
21
É muito provável que alguns folhetos, imagens e mapas tenham desaparecido depois que o abade de Sever
vendeu a sua coleção para o rei D. José I. Dessa forma, os números que indicamos dizem respeito ao que
podemos encontrar atualmente na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
22
MACHADO, Diogo Barbosa. Op. Cit. p. 33.
27
Historia dos cercos que sustentaram os portugueses nas quatro partes do
mundo – 5 tomos
Aplausos genethliacos de fidalgos portugueses – 1 tomo
Epithalamios de duques, marqueses e condes de Portugal – 3 tomos
Elogios de duques, marqueses e condes de Portugal – 2 tomos
Elogios fúnebres de duques, marqueses e condes de Portugal – 4 tomos
Elogios fúnebres de duquesas, e marquesas de Portugal – 1 tomo
Elogios oratórios e poéticos de cardeais, e bispos – 2 tomos
Elogios fúnebres de cardeais e arcebispos de Portugal – 1 tomo
Elogios fúnebres de eclesiásticos portugueses – 4 tomos
Elogios fúnebres de diversos portugueses – 2 tomos
Elogios históricos, e poéticos de eclesiásticos e seculares – 1 tomo
Manifestos de Portugal – 3 tomos
Tratado de pazes celebradas em diversas cortes – 2 tomos
Autos de cortes, e levantamento de reys – 2 tomos
Noticia genealógica da casa real – 1 tomo
Noticia genealógica de famílias portuguesas – 2 tomos
Noticia genealógica de missões orientais – 2 tomos
Noticia genealógica de procissões, e triunfos sagrados – 4 tomos
No entanto, a sua coleção de folhetos ainda é composta por outros títulos, que Diogo
listou em partes diferentes de seu catálogo manuscrito. Os sermões de sua coleção, o
bibliófilo os classificou em “Discursos concionatorios” e estão divididos da seguinte forma:
Sermões de aclamação Del rey D. João IV – 2 tomos
Sermões do Nascimento de reys, e príncipes de Portugal – 4 tomos
Sermões de desposorios de príncipes de Portugal
Sermões gratulatros pella vida, e saúde dos reys de Portugal – 5 tomos
Sermões de exéquias dos reys de Portugal – 7 tomos
Sermões de exéquias de raynhas de Portugal – 3 tomos
Sermões de exéquias de príncipes e infantes de Portugal – 3 tomos
Sermões de exéquias de duques de Portugal
Sermões de exéquias de marqueses e condes de Portugal – 2 tomos
Sermões de exéquias de duquesas, marquesas e condessas de Portugal
Sermões de exéquias de senhoras de Portugal
Sermões de exéquias de varoeñs portugueses
Sermões de exéquias de cardeais e arcebispos portugueses – 2 tomos
Sermões de exéquias de bispos portugueses – 3 tomos
Sermões de exéquias de eclesiásticos portugueses – 1 tomo
Sermões de exéquias de fidalgos portugueses
Sermões pregados nos autos de fee celebrados em Lisboa, Coimbra, Évora e
Goa – 6 tomos
28
os Vilancicos, também presentes em sua coleção, constam na parte de sua biblioteca
reservada aos “Poetas portugueses, castelhanos e italianos” e estão divididos da seguinte
maneira:
Villancicos da festa do natal cantados na capella real desde o anno de 1640
athe 1715 – 3 tomos
Villancicos da conceição de nossa senhora cantados na capella real desde o
anno de 1652 athe 1715 – 3 tomos
Villancicos da festa dos santos reys cantados na capella real desde o anno
de 1646 athe 1716 – 3 tomos
Villancicos da festa de S. Vicente cantados na cathedral de Lisboa desde o
anno de 1700 athe 1723
Villancicos de Santa Cecília do anno de 1702 athe 1722.
Villancicos de S. Gonçalo do anno de 1707 athe 1722.
Villancicos de varias festividades.
Foram omitidos do catálogo manuscrito de Diogo Barbosa os três tomos referentes às
Notícias das Embaixadas que os reis de Portugal mandaram aos soberanos da Europa. Os
Sermões Vários de D. José Barbosa, também não figuram na listagem da sua compilação de
sermões, mas atualmente, depois da coleção ter sofrido algumas transformações e
atualizações, esses volumes são considerados parte daquele conjunto.
Os retratos, por sua vez, encontram-se classificados na seção reservada aos “Livros de
estampas” e sobre eles o abade fez a seguinte observação, mostrando o apreço e o valor que
ele conferia ao seu empreendimento:
Retratos de reys, raynhas e príncipes de Portugal – fol. Imperial – 2 tomos
Retratos de varoens portugueses insignes em santidade, litteratura, sciencia
militar e política – fol imperial – 4 tomos
Esta colecção que consta de seis volumes he de summa estimação pella
raridade dos m
tos
retratos, e estarem a mayor parte delles metidos em tarjas
primorosas q. lhe augmentão m
to
as figuras q. representam.
23
O catálogo elaborado por Barbosa Machado não traz nenhuma indicação do ano em
que foi produzido. Podemos, no entanto, lançar algumas hipóteses. Pela indicação dos livros,
23
Ibid. p. 112v.
29
é possível supor que ele tenha sido feito depois de 1767, pois as obras mais recentes datam
desta época.
24
A partir desta data, portanto, a coleção do abade já deveria estar quase que
totalmente organizada, uma vez que ela foi listada no seu catálogo e, três anos depois,
vendida para o rei D. José. Por outro lado, podemos supor também que tanto este catálogo
quanto a sua coleção de opúsculos, mapas e retratos, poderiam ser atualizados
periodicamente, conforme Barbosa Machado fosse adquirindo mais materiais. Cremos que é
possível que isto possa ter ocorrido com seu catálogo manuscrito, mas torna-se mais
complicado estender esta hipótese à sua coleção, pois Barbosa Machado a organizou temática
e cronologicamente. Se o seu método de trabalho fosse o de “atualizar” constantemente a
coletânea, ele teria de refazer os volumes a cada novo folheto ou imagem que conseguisse
obter.
Sabemos, no entanto, que Barbosa Machado viveu um episódio importante para a
história da erudição em Portugal. O evento referido é o terremoto que acometeu Lisboa em
1755, que acabou destruindo não a Biblioteca Real, mas também rios palácios, como os
pertencentes às casas dos duques de Aveiro e dos marqueses de Alegrete, Angeja, Louriçal,
Távora e Valença, entre outros. Apenas parcialmente atingidos terão sido os dos duques de
Cadaval.
25
Nestes palácios eram abrigadas várias bibliotecas e coleções que, com o terremoto
e o incêndio que se seguiu a ele, foram total ou parcialmente destruídas.
Este incidente marcou o o mundo erudito português, mas a República das Letras
européia, pois repercutiu em obras como Cândido, ou o Otimismo, escrita em 1758 por
Voltaire. Podemos nos interrogar aqui a respeito do significado e da interferência que um
evento como este poderia ter no trabalho colecionista do abade de Sever. Teria sido Barbosa
Machado impelido, pelo curso dos acontecimentos, a tomar para si a tarefa de organizar e
preservar a memória portuguesa, uma vez que a sua biblioteca foi uma das poucas que
24
Trata-se de uma obra de Lucan, chamada Cum suplem
to
maii pareniy e outra sem autoria, cujo título é
Dedução chronologica analytica contra os jesuítas.
25
BRIGOLA, João Carlos Pires. Op. Cit. p. 52.
30
sobreviveu ao sismo? É muito provável que Diogo tenha começado a colecionar suas peças
muito antes do terremoto, talvez quando fora nomeado para a Real Academia. Mas será que,
após este evento, sua coleção poderia ter tomado um outro rumo, outras características e
interesses? É importante frisar que o terremoto praticamente não aparece na compilação de
folhetos. Nenhum deles trata diretamente do assunto. Quando existem referências, elas são
indiretas e enfatizam sempre a reconstrução da cidade de Lisboa desenvolvida pelo marquês
de Pombal. Certo é, portanto, que em seu trabalho ativo de lembrança e esquecimento
Barbosa Machado preferiu passar por cima deste episódio.
Um evento como o sismo de 1755 pode ser entendido como um evento-limite, um
acontecimento imprevisível capaz de ocasionar rupturas violentas na ordem histórica ou, se
quisermos utilizar uma expressão de Hannah Arendt, como uma brecha do tempo.
26
O
terremoto, nesta perspectiva, pode ser interpretado como um momento de crise que causou
profundos impactos entre os eruditos portugueses e europeus, entre eles Diogo Barbosa
Machado. Enquanto organizava sua coleção e sua biblioteca, o bibliófilo, a cada folheto,
imagem ou livro que manuseava e catalogava, reconstruía muito do que Lisboa tinha perdido
em relação à sua história e à vida de seus varões ilustres. A importância de seu
empreendimento parece muito clara para o próprio Diogo, que, como vimos, não mediu
palavras para valorizar o seu labor e a coleção que produziu quando se referia a ela em seu
catálogo manuscrito. Se Pombal reconstruiu as ruas e os prédios de Lisboa, Barbosa Machado
teria ajudado a reconstruir a sua memória.
Torna-se importante, depois de entendermos de que maneira a coleção pessoal de
Barbosa Machado liga-se à sua biblioteca, mostrar, de forma pormenorizada, as partes e os
materiais que compõem esta compilação sobre o passado português.
26
Reflexões desenvolvidas em: MONTEIRO, Rodrigo Bentes e CALDEIRA, Ana Paula Sampaio. A Ordem de
um Tempo: folhetos na coleção Barbosa Machado. Topoi (Revista do Programa de s-Graduação em História
Social da UFRJ), no prelo.
31
A coleção de retratos, atualmente, possui oito volumes e contém gravuras dos séculos
XVII e XVIII. Com exceção de uma imagem colorida e algumas poucas em sangüínea, a
grande maioria delas encontra-se em preto e branco e foi gravada em madeira ou em chapas
de cobre.
Os dois primeiros volumes da coleção tratam da monarquia portuguesa e trazem
estampas de reis, rainhas e príncipes, desde Wamba, rei visigodo, até D. José. Nesta coleção,
Barbosa Machado parece se preocupar com os mitos do passado, como D. Afonso Henriques,
e não tanto com os reis de seu tempo, como D. José. Por outro lado, constam na coleção
várias imagens do rei D. João V, patrono da Academia Real de História e monarca cujo
reinado, que durou de 1707 a 1750, foi acompanhado por Barbosa Machado.
O terceiro volume da coleção de retratos trata dos santos e dos prelados de várias
épocas, alguns deles, inclusive, do tempo da dominação romana, como Santa Engrácia e
Santa Quitéria. Se nos dois primeiros livros de gravuras a cronologia é levada mais a sério,
neste o tempo e o espaço aos quais estão relacionados