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liberdade de mudar e subir na vida, ou seja, de cultivar visões,
sonhos e devaneios de aventura e sucesso. E, desde o prospecto
do emigrante, a oferta vem se aprimorando. A partir dos anos
60, a televisão forneceu os sonhos para que o campo não só
devesse, mas quisesse, ir para a cidade.
O requisito para que a máquina neoliberal funcione é mais
refinado do que a venda dos mesmos sabonetes ou filmes para
todos. Trata-se de alimentar um sonho infinito de
perfectibilidade e, portanto, uma insatisfação radical. Não é
pouca coisa: é necessário promover e vender objetos e serviços
por eles serem indispensáveis para alcançarmos nossos ideais de
status, de bem-estar e de felicidade, mas, ao mesmo tempo, é
preciso que toda satisfação conclusiva permaneça impossível.
Para fomentar o sujeito neoliberal, o que importa não é lhe
vender mais uma roupa, uma cortina ou uma lipoaspiração; é
alimentar nele sonhos de elegância perfeita, casa perfeita e
corpo perfeito. Pois esses sonhos perpetuam o sentimento de
nossa inadequação e garantem, assim, que ele seja parte
inalterável, definidora, da personalidade contemporânea.
Provavelmente seria uma catástrofe se pudéssemos, de
repente, acalmar nossa insatisfação. Aconteceria uma queda
total do índice de confiança dos consumidores. Bolsas e
economias iriam para o brejo. Desemprego, crise, etc.
Melhor deixar como está. No entanto, a coisa não fica bem.
Do meu pequeno observatório psicanalítico, parece que o
permanente sentimento de inadequação faz do sujeito neoliberal
uma espécie de sonhador descartável, que corre atrás da
miragem de sua felicidade como um trem descontrolado, sem
condutor, acelerando progressivamente por inércia – até que os
trilhos não agüentem mais.
(Contardo Calligaris, Terra de ninguém.
São Paulo: Publifolha, 2002)