Ao iniciarmos a empreitada de observação do melodrama como estudo sistemático, percebemos uma operação insistente: o vínculo deste
gênero com a cultura popular. Mais ainda, a sensação é a de que a própria cultura popular o formulou e engendrou seus esquematismo e
polarização. No entanto, na medida em que esta cultura popular é generalizada (tomada como universal), quando pensamos uma raiz popular
da cultura brasileira, por exemplo, e observamos os mitos africanos ou indígenas, estas polarização e esquematismo não aparecem. As
noções de Bem e Mal não se mostram opositivas, mas complementares. O movimento estereotipado das personagens derriça. Isso pode, de
igual modo, ser observado em outras culturas, como ainda os mesmos elementos expressos na mitologia oriental.
Atendo-nos ao exemplo da cultura brasileira (e aqui não queremos com isso demarcar uma certa ingenuidade purista de cultura, mas avançar
com as matrizes num raciocínio que aponte outra vertente), se observarmos a figura do Exu, que numa leitura ocidental cristã representaria
uma espécie de demônio, em contrário, dentro da mitologia de derivação afro, este ser de atitudes mundanas, de excessos e de uma certa
ironia cômica, entidade dada às festas e vinculada à alegria e diversão – além de ainda estar filiada às perversões humanas –, tal entidade se
colocará bem longe da operação maniqueísta. Entidade dada às vicissitudes é também, ao mesmo tempo, o guia, o protetor, o amigo ou
ainda o compadre como dizem os iniciados na religiosidade afro-brasileira contemporânea.
Se no aspecto da polarização encontramos uma contradição, no quesito esquematização podemos observar outra. Se a estrutura
melodramática é compreendida a partir de uma fixação das ações das personagens estereotipadas, o que vemos nos mitos afro-brasileiros
estão mais para os arquétipos postos em ações que vislumbram os dramas humanos dentro de uma perspectiva que os filósofos diriam se
tratar de essências, e da qual o mito de Oxalá, em uma de suas muitas versões, intrincado com o de Exu, é exemplar.
Diz o mito que Oxalá era muito invejado por seus vizinhos do Oyá (Terra). A causa da inveja devia-se à beleza e prosperidade de suas
plantações. Um dia decidiram enviar um espião que deveria se aproximar e ganhar sua confiança para descobrir-lhes os segredos de tal
prosperidade. O espião não só ganhou sua confiança como também passou a morar em suas terras. Passados sete anos, não tendo descoberto
os segredos desejados, este armou uma cilada para Oxalá. Colocou uma pedra no alto de um monte para que quando Oxalá fosse à sua labuta
diária, esta rolasse e o atingisse. A armadilha funcionou e Oxalá foi morto de modo que seu corpo, despedaçado, espalhou-se por toda sua
terra. Exu, sabendo do ocorrido, foi imediatamente contar para Orumilá. Ao tomar conhecimento do fato, o Deus supremo do Orum
autorizou que Exu recolhesse seus pedaços e o reconstituísse. Assim fez Exu. Mas ao juntar as partes de Oxalá, para sua surpresa, cada uma
delas deu origem a um outro Orixá. Restituído ao Orum (reino dos céus), Oxalá tornou-se o Deus da criação. Exu foi aquele que juntou-lhe
os pedaços e o devolveu para o Orum, restituindo-lhe assim o seu reino. Na cultura ocidental, católica ou cristã, estas ações não seriam
possíveis, pois o "Mal", o ser demoníaco, tripudiaria sobre seu rival, e este seria o seu caráter sempre fixo. Entretanto, neste caso, ao
contrário, esta entidade das vicissitudes e dos excessos é ao mesmo tempo o salvador de Oxalá. E isto não representa que ele, o Exu, tenha
perdido suas características peculiares. Não são poucas as histórias que narram a estrepolias de Exu para com Oxalá, no entanto, nestas,
nunca aparece na condição de vilão e sim do Trikester, deus da bincadeira e das peripécias. Mesmo que estas causem um mal extremo à sua
"vítima", isto é visto como parte da natureza de Exu, é algo já sabido e esperado.
Para além do esquematismo melodramático, a traição efetuada para com Oxalá não está acentuada no ato em si, e nem disso o mito faz
excesso, mas é no sentimento inerente ao ser e no destino que a narrativa se concentra. A inveja como sentimento destrutivo contudo
inevitável. O sofrimento não se dá como punição ao mundo iluminado de Oxalá que se opõe às mazelas da vida cotidiana de seu povo, mas
como destino. São das partes do corpo de Oxalá que o Orum comporá os reinos de cada Orixá. Era seu destino cair na armadilha. Era seu
destino ser salvo por Exu, pois só assim este ganhou também o seu reino no Orum. Sentimentos traiçoeiros e destino aparecem aqui
interligados, complementando-se. Na cultura africana, e também para os iniciados no Brasil, os sentimentos existem para cumprir um
destino, o Ifá. Ao mesmo tempo, a existência é lugar de aprendizagem e seu exercício dá a oportunidade de se aprender a lidar com todos os
sentimentos a fim de se buscar um equilíbrio de modo que não se negue o destino, pois caso contrário, Exu – o guardião do Destino –,
cobrará o seu cumprimento. Neste sentido, cada Orixá representará um aspecto destes sentimentos e reverenciá-los é aprender com eles, é
encontrar o equilíbrio. Mas este equilíbrio não se dá com a negação dos excessos. Ao contrário, é pela vivência que a experiência e o
aprendizado se fazem. Por isso a inveja era necessária aos humanos enquanto "mundo vivido" ao extremo, a ponto de trair o próprio Orixá.
Não é um gesto de vilania, mas um gesto humano. É o ser no mundo aprendendo com ele.
Como se pode ver, o mito nesta perspectiva está mais para uma interioridade que se manifesta do que para algo exterior. A exterioridade se
dará no reconhecimento da interioridade que não deve ser confundida com subjetividade, já que para esta cultura o indivíduo está para o
coletivo como o inverso também é verdadeiro. O coletivo se dá no conjunto de individualidades reconhecidas e exercitadas. Também deve-
se frisar que mais do que signos, os mitos nos trazem aí suas insígnias no sentido latino mesmo de ensignare, tomar para si. Portanto, não
são de estereótipos esvaziados, mas de arquétipos o que o mito fala. Arquétipo no sentido originário atribuído por Platão, quando ainda
compartilhava a idéia deste conceito com filósofos anteriores, em que a Arquê ganha um caráter divino, incorpórea e imutável, e o
conhecimento se constitui pela lembrança ou reconhecimento (re-encontro com os arquétipos) gradualmente recuperado. Daí seu sentido de
essências. Mas ao mesmo tempo, ao contrário da mimesis platônica, aqui o mundo sensível não está apartado do mundo inteligível. Há uma
imanência semelhante ao modelo dos primitivos pitagóricos. No mito, corpóreo e incorpóreo se dão como faces de uma mesma realidade. E
neste sentido, o encontro é inevitável. O Ifá então se apresenta como o daimon (o destino) inelutável, não por uma operação metafísica
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