Download PDF
ads:
CHICO
Artur Azevedo
Um dia o Chico, moço muito serviçal, muito amigo do seu amigo, foi chamado à
casa do Dr. Miranda, que o conhecia desde pequeno, e abusava sempre do seu
caráter obsequioso e humilde.
- Mandei-te chamar, meu rapaz, para te incumbir de uma comissão que só tu
poderás desempenhar a meu gosto.
- Estou às suas ordens.
- Conheces a Maricota, minha irmã. É uma tola que, em rapariga, enjeitou bons
casamentos, sempre à espera de um príncipe, como nos contos de fadas, e
agora, que vai caminhando a passos agigantados para os quarenta, embeiçou-
se por um tipo que costuma passar cá por casa e nem ela, nem eu, sabemos
quem é.
- Ele chama-se...?
- Alexandrino Pimentel. É o nome com que assinou a carta, assaz lacônica, em
que declarou à Maricota que a amava e desejava ser seu esposo. Já me
disseram - e é tudo quanto sei a seu respeito - que esteve empregado na estrada
de ferro, onde não esquentou lugar. Preciso de mais amplas e completas
informações a respeito desse indivíduo e, para obtê-las, lembrei-me de ti que és
esperto e conheces meio mundo.
O Chico dissimulou uma careta.
- Minha irmã, continuou o Dr. Miranda, já fez 37 anos, mas é minha irmã, e eu,
como chefe de família, farei o possível para evitar que ela se ligue a um homem
que não seja um homem de bem, não achas?
- Certamente.
- Portanto, meu rapaz, peço-te que indagues e me venhas dizer quem é, ao
certo, esse Alexandrino Pimentel, que quer ser meu cunhado. Peço-te
igualmente que desempenhes essa comissão com a brevidade possível, pois
uma senhora de 37 anos, quando lhe falam em casamento, fica assanhada que
nem um macaco a quem se mostra uma banana.
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
O Chico pôs-se a coçar a cabeça e não disse nada. Bem sabia quanto era
espinhosa tal comissão, mas não tinha forças para recusar os seus serviços a
pessoa alguma, e muito menos ao Dr. Miranda, que era o seu médico, já o havia
sido de seus pais e nunca lhes mandara a conta.
- Está dito?
- Está dito. Vou indagar quem é o tal Alexandrino Pimentel, e pode contar que
dentro de três ou quatro dias terá os esclarecimentos que deseja.
No mesmo dia, o Chico foi ter com um velho camarada, empregado antigo da
Central, e perguntou-lhe se conhecia um sujeito que ali tinha estado algum
tempo, chamado Alexandrino Pimentel.
- Um bêbado! - respondeu prontamente o outro.
- Bêbado?
- Bêbado, sim! Foi por isso que o Passos o pôs na rua!
- Mas não se terá corrigido?
- Não sei; nunca mais ouvi falar nele. Quem te pode informar com segurança é o
Trancoso. - Sim, que ele era casado com a filha do Trancoso, por sinal que não
se dava com o sogro.
- Casado?
- Casado, sim!
- Quem é esse Trancoso?
- Um ex-colega meu, aposentado há uns quatro anos. Mora lá para os lados de
Inhaúma.
- Podes dar-me um bilhete de apresentação para ele?
- Pois não!
ads:
No dia seguinte o Chico estava em Inhaúma, à procura do tal Trancoso, que já lá
não morava; havia seis meses que se mudara para Copacabana, onde adquirira
uma casinha; entretanto o pobre rapaz não esmoreceu diante de uma tremenda
maçada, e no outro dia, depois de duas horas de indagações, batia à porta do
Trancoso.
Veio abrir-lha um velho asmático, envolvido numa capa, lenço de seda ao
pescoço, carapuça enterrada até às orelhas, barba por fazer, cara de poucos
amigos.
Quando o Chico pronunciou o nome de Alexandrino Pimentel, o velho enfureceu-
se, gritando que nada tinha de comum com "esse bandido"!
- Mas não é ele seu genro?
- Foi por desgraça minha, mas já o não é, pois deu tantos desgostos à minha
filha, que a matou!
- Eu desejava apenas tomar algumas informações a respeito desse homem.
Trata-se de coisa grave. Ele pretende casar-se em segundas núpcias, e foi a
família da noiva que me pediu para...
- Pois, meu caro senhor, as informações que lhe tenho a dar são as seguintes: o
sujeito de quem se trata é malandro, bêbado, devasso jogador e bruto. Bruto a
ponto de bater, como batia na sua própria mulher! Se a tal senhora, com quem
ele se pretende casar, quiser passar fome e ser armazém de pancada, não
poderá escolher melhor! E agora, meu caro amigo, que tem as informações que
desejava, passe muito bem! Deixe-me em paz, porque sou doente, e as visitas
aborrecem-me!...
Dizendo isto, o velho foi empurrando o Chico para a porta da rua.
Este saiu perfeitamente edificado a respeito de Alexandrino Pimentel, mas, ao ar
livre, refletiu que todas essas informações, partindo de um homem tão
apaixonado e tão grosseiro, poderiam ser, pelo menos até certo ponto, injustas;
por isso pôs-se de novo em campo e, indaga daqui, pergunta dacolá, chegou,
depois de conversar com dez ou doze pessoas fidedignas, à firme convicção de
que tudo aquilo era a pura expressão da verdade.
Essas pesquisas tomaram-lhe mais tempo do que três ou quatro dias dentro dos
quais prometera voltar à casa do Dr. Miranda. Quando voltou, já os amores de
Maricota e Alexandrino haviam assumido proporções consideráveis, e o Dr.
Miranda tinha revelado à irmã que o obsequioso Chico se incumbira de tomar
informações a respeito do pretendente.
- Que diabo! Julguei que você não me aparecesse mais. - exclamou o médico ao
ver então o seu cliente gratuito.
- A coisa deu mais trabalho do que eu supunha, e eu não quis fazer nada no ar.
Trago-lhe informações seguras!
- Boas ou más?
- Péssimas.
O Dr. Miranda chamou a irmã, que acudiu logo.
- Olha, Maricota, aqui tens o Chico; vai dizer-nos quem e o teu Pimentel.
- Pois diga! - resmungou Maricota com um olhar zangado, adivinhando os
horrores trazidos pelo Chico.
Este voltou-se para o Dr. Miranda e disse-lhe:
- O senhor coloca-me numa situação difícil. Julguei que isto não passasse de
nós dois, mas agora, em presença de D. Maricota, sinto-me acanhado e receoso,
porque não posso dizer senão a verdade, e a verdade é muito desagradável.
- Minha irmã é a principal interessada neste assunto, redarguiu o doutor, e deve
até agradecer-lhe o trabalho que você teve com esse inquérito. O seu dever de
amigo está cumprido; ela que o ouça e faça o que entender; é senhora das suas
ações.
O Chico, arrependido já de se haver metido naquele incidente de família, contou
minuciosamente as diligências que fizera e o resultado a que chegara.
Quando ele acabou o relatório:
- Tudo isso é calúnia, calúnia, calúnia torpe! - bradou Maricota, fula de raiva e
batendo o pé. - E quando seja verdade, gosto dele. Ele gosta de mim, e havemos
de ser um do outro, venha embora o mundo abaixo!
Não houve palavras que a convencessem de que tal casamento seria um
desastre. Diante da vergonha, com que ela ameaçou o irmão de sair de casa
para ir ter com o seu amado, o Dr. Miranda curvou a cabeça, e o casamento fez-
se.
Fez-se, e não há notícia de casal mais venturoso!
Alexandrino, que se empregara numa importante casa comercial, era um marido
solícito, dedicado, carinhoso e previdente; não ia a passeio ou a divertimento
sem levar Maricota; não bebia senão água; não jogava senão a bisca em família
- e todas essas virtudes eram naturalmente realçadas pela terrível perspectiva de
que ele seria o contrário.
- Maricota apanhou a sorte grande! - diziam os amigos e parentes, inclusive o Dr.
Miranda.
Este, desde que as virtudes do cunhado se manifestaram, começou a tratar com
frieza o informante.
O pobre Chico perdeu o amigo e o médico, foi odiado por Maricota por ter
pretendido frustrar a sua aventura, e o regenerado Pimentel, quando soube da
comissão que ele desempenhara, segurou-o um dia com as duas mãos pela gola
do casaco, e sacudiu-o dizendo-lhe:
- Eu devia quebrar-te a cara, miserável, mas perdôo-te, porque és um
desgraçado!.
Moralidade do conto: ninguém se meta na vida alheia, principalmente quando se
trate de evitar um casamento serôdio.
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo