
2 Esse sentimento de italianidade, evidenciado em algumas caricaturas de Voltolino, é traço mais cô-
mico, patético, quando nos apercebemos de seu caráter defensivo, constituindo uma resposta ao tra-
tamento discriminatório muitas vezes dispensado ao imigrante. Torna-se risível na caricatura a
artificialidade desse comportamento, pois é aqui, já em franco processo de adaptação à nova pátria de
adoção, que o imigrante desenvolveria mais fortemente esse sentimento de apego à sua terra de origem.
Exemplo antológico é IIXX Settembre, em que o caricaturista flagra o típico colono italiano enrique-
cido no Brasil, comemorando espalhafatosamente a data significativa para os italianos, vestindo o
filho constrangido de bersaglière.
3 A coluna foi criada inicialmente por Oswald de Andrade, que assinava "Annibale Scipione"; o nome
é "referência ao bairro do Brás, antiga região que, segundo se sabe, integrava amplas posses da
abastada família Piques, da tradicional nobiliarquia paulistana. A área, em que pese a denominação
nascente de Brás, ainda continuava indicada como o Piques, segundo alguns por força da expressão
ter pique com alguém, isto é, implicar com alguém, o que teria inspirado Oswald". (HOHFELDT, A.
A cultura italiana e a literatura brasileira. In: BONI, L. A. de (Org.) A presença italiana no Brasil.
Porto Alegre: Escola Superior de Tecnologia, 1987. p.416).
4 A propósito, é bastante cômica a irreverente resposta dada por Juó à questão acerca de Fradique
Mendes, criação de Eça de Queirós, em enquete promovida por Oswald de Andrade; em O Pirralho
(a resposta de Juó está no jornal de 1º.5.1915). Eram dirigidas aos escritores as seguintes questões:
"Acha Fradique Mendes um tipo representativo de vida superior? Em caso contrário, qual na sua
opinião o tipo perfeito?" Brito Broca transcreve e comenta alguns trechos: "Mas já então Juó Bananére
(Alexandre Marcondes Machado) no seu dialeto ítalo-brasileiro atingia em vivo o formalismo 'raffiné'
de Fradique. Começava declarando: 'A pergunta inzima non sta bê feita, pur causa che si podi intendê
divaras manièra. Podi sê rappresentativo d'aquilos chi tê inzislença reale, aripresentada inzima da a
Sucietà"'. E concluía que o "Frederico Mendeso - 'non passa di um tippo indiale, uma criaçó
literarima, sé pé nê cabeza'" -juízo decerto justo, que muitos críticos de Eça, como atualmente João
Gaspar Simões, assinariam.
Não sendo Fradique um tipo representativo de vida superior, qual, pois, na opinião de Juó Bananére
o tipo perfeito? "Na migna pinió - responde ele - 'un uómo p'ra sê perfetto pricisa te cinco qualidadi:
1) non sê molhere; 2) sê xique e inleganti; 3) tê talentimo; 4) sabê p'ra burro; 5) afazê a barba nu
migno saló.' Depois disso, seria difícil ao 'Frederico Mendeso' resistir." (BROCA, B.A vida literária
no Brasil -1900, 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1960. p.124-5.)
5 Leia-se, a propósito, o poema "Nò mi spia assi", assinado por Juó Garrapato, na Gazeta do Povo
(26.2.1926), de Araraquara.
6 A respeito das atividades do arquiteto em Araraquara, encontram-se algumas informações no texto
"Juó Bananére, architecto", de René Antônio Nusdeu, apresentado na Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo da Universidade de São Paulo, como trabalho para o curso "Estruturas ambientais
urbanas", em julho de 1978. (Mimeogr.)
7 Miroel Silveira, em A contribuição italiana ao teatro brasileiro (1895-1964) (São Paulo: Quíron/Bra-
sflia: INL. 1976, p.l66) refere-se à primeira edição at La divina increnca como sendo de 1924.Mário
Carelli (1985) e Vera Chalmers (1990) reportam-se a uma primeira edição possivelmente ainda in-
completa, de Ia divina increnca, com 44 páginas, de 1915, seguida de outras edições e estando em
1924 já na 8ª (com 134 páginas). A versão por nós consultada é a da Folco Masucci, publicada em
São Paulo, em 1966, com prefácio de Mário Leite, provavelmente baseada nas edições de 1924 e 1925,
publicadas pela Globo.
8 A respeito, é sugestivo o depoimento de Décio Pignatari "Era um caricaturista verbal, muito lido pela
classe média. Lembro-me do pessoal mais velho, com quem eu convivia na minha infância, que lia e
comentava Juó Bananére. Ele era o porta-voz do Bexiga, ou melhor, da colônia italiana de São Paulo"
(apud LEMOS, 1979, p.50).
9 Não só por Juó, pois, segundo Nelson W. Sodré, esse é um tempo extremamente fecundo e inspirador
à verve caricaturesca: "o governo Hermes da Fonseca assinalou o apogeu da crítica política em cari-
catura no nosso país" (SODRÉ, N. W. A história da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1966. p.379).