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Inclinei-me afirmativamente. Não me lembrou sequer acrescentar que a honra era toda
minha.
A verdade é que me sentia tolhido. Casa, hábitos, pessoas davam-me ares de outro tempo,
exalavam um cheiro de vida clássica. Não era raro o uso de capela particular; o que me pareceu único
foi a disposição daquela, a tribuna de família, a sepultura do chefe, ali mesmo, ao pé dos seus, fazendo
lembrar as primitivas sociedades em que florescia a religião doméstica e o culto privado dos mortos.
Logo que as senhoras saíram da tribuna, por uma porta interior, voltamos à sacristia, onde o Padre
Mascarenhas esperava com o coronel e os outros. Da porta da sacristia, passando por um saguão,
descemos dous degraus para um pátio, vasto, calçado de cantaria, com uma cisterna no meio. De um
lado e outro corria um avarandado, ficando à esquerda alguns quartos, e à direita a cozinha e a copa.
Pretas e moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto, porque naturalmente a minha
visita era desde alguns dias a preocupação de todos. Com efeito, a casa era uma espécie de vila ou
fazenda, onde os dias, ao contrário de um rifão peregrino, pareciam-se uns com os outros; as pessoas
eram as mesmas, nada quebrava a uniformidade das cousas, tudo quieto e patriarcal.
D. Antônia governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura e justiça. Nascera
dona de casa; no próprio tempo em que a vida política do marido, e a entrada deste nos conselhos de
Pedro I podiam tirá-la do recesso e da obscuridade, só a custo e raramente os deixou. Assim é que, em
todo o ministério do marido.apenas duas vezes foi ao paço. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada
no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram
os filhos,—Félix, e uma menina que morreu com três anos. A casa fora construída pelo avô, em 1780,
voltando da Europa, donde trouxe idéias de solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que também a
filha, mãe de D. Antônia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, e quebrava
a unidade da índole desta senhora, essencialmente chã. Inferi isso de algumas anedotas que ela me
contou de ambos, no tempo do rei. D. Antônia era antes baixa que alta, magra, muito bem composta,
vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e seis a quarenta e oito anos.
Poucos minutos depois estávamos almoçando. O coronel, que afirmava, rindo, ter um buraco
de palmo no estômago, nem por isso comeu muito, e durante os primeiros minutos, não disse nada;
olhava para mim, obliquamente, e, se dizia alguma cousa, era baixinho, às duas moças, filhas dele;
mas desforrou-se para o fim, e não conversava mal. Félix, eu e o Padre Mascarenhas falávamos de
política, do ministério e dos sucessos do Sul. Notei desde logo, no filho do ministro, a qualidade de
saber escutar, e de dissentir parecendo aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente
recebia a opinião devolvida por ele, e supunha ser a mesma que emitira. Outra cousa que me chamou a
atenção foi que a mãe, percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e orgulhosa.
Compreendi que ela herdara as naturais esperanças do pai, e rodobrei de atenção com o filho. Fi-lo
sem esforço; mas pode ser também que entrasse por alguma cousa, naquilo, a necessidade de captar
toda a afeição da casa. por motivo do meu projeto.
Foi só depois do almoço que falamos do projeto. Passamos à varanda, que comunicava com
a sala de jantar, e dava para um grande terreiro; era toda ladrilhada, e tinha o tecto sustentado por
grossas colunas de cantaria. D. Antônia chamou-me, sentei-me ao pé dela, com o Padre Mascarenhas.
— Reverendíssimo, a casa está às suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre
Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue pessoa capaz, mas porque os livros e
papéis de meu marido ninguém mexe neles.
— Creia que agradeço muito...
— Pode agradecer, interrompeu ela sorrindo; não faria isto a outra pessoa. Precisa ver tudo?
— Não posso dizer se tudo; depois de um rápido exame, saberei mais ou menos o que
preciso. E V. Ex.ª também há de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais íntimo. . .
— Como ?
— Espero que me conte algumas cousas, que hão de ter ficado escondidas. As histórias
fazem-se em parte com as noticias pessoais. V. Ex.ª, esposa de ministro. . .
D. Antônia deu de ombros.