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RITA
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RITARITA
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RITARITA
1ª. EDIÇÃO
GUSTAVO VILLAS BOAS
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Antes
Esta primeira edição de Carne Frita é de domínio público, registrado no creative
commons com uma licença Creative Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.0 . Reuni
alguns contos escritos por mim e gostaria de divulgá-los para o maior número de pessoas.
Tudo aqui foi escrito, preparado e revisto por mim, com a necessária e gentil colaboração de
Brito, Miltinho, MariCastro, meu irmão Thiago e minha namorada Luciana. Se você tem
alguma crítica, sugestão, localizou algum erro de digitação, gramática, lógica ou a
putzquiopariu por favor mande um email para
gufarias@mail.com.
Entre no meu blog também: http://www.jogodepalavras.blogger.com.br.
Boa leitura,
Gustavo Villas Boas
<!--CreativeCommons License--><a rel="license"href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/br/"><img alt="CreativeCommons License" border="0" src="http://creativecommons.org/images/public/somerights20.pt.png"/></a><br/>
This work is licensed undera <a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/br/">CreativeCommons Attribution-NonCommercial-NoDerivs2.0 Brazil License</a>.
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<dc:title>Carne Frita</dc:title>
<dc:date>2005</dc:date>
<dc:description>Literaturabrasileira- contos</dc:description>
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Sumário
Mariana tem um novo jogo ...................................................................... 5
A história de como Fagundes retomou o controle sobre sua vida............. 11
Encontro marcado ..................................................................................... 19
A Revelação .............................................................................................. 23
Bloody Mary .............................................................................................. 29
Retrato de um assassino quando jovem ...................................................... 33
Tudo tem seu preço ..................................................................................... 39
Assassinato no 402 ...................................................................................... 43
Jeremias ........................................................................................................ 47
Geovana é feliz ..............................................................................................53
Carne frita ...................................................................................................... 59
Cego .............................................................................................................. 65
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Mariana tem um novo jogo
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Toda vez que ela queria ser observada pendurava uma toalha vermelha na janela.
Mesmo que ninguém conhecesse o código de Mariana, a toalha vermelha significava muito
para ela. Seu lento balanço com as lambidas do vento a deixava excitada, e então Mariana
começava seu ritual, de olho no espelho. Admirava-se, experimentava roupas, media-se a
mulher.
Mariana era bela. Tinha carnes generosas, cabelos longos muito finos, uma boca
grande que rasgava seu rosto delicado, e uma pinta delicada acima da cintura, arma
sensual.Usava cremes, falava inglês e espanhol e ganhava melhor que o marido. O marido
trabalhava viajando, era carinhoso, atencioso e nunca a excitava. Daí, um dia, a toalha
vermelha na janela aberta, a chance se ser devorada com os olhos alheios e o gozo farto nos
banhos quentes, solitários. Não era sexo, mas tinha orgasmo.
Casou-se cedo com aquele que achava que seria o homem de sua vida, já que ele lhe
proporcionava prazer como nenhum outro havia feito. No começo, vezes por dia. Depois, com
menor freqüência, até o ato sexual se tornar escasso e dolorido. Doía a falta de prazer, doía as
atitudes mecânicas, doía a penetração, faltava o deslize quentinho e úmido de antes. Mariana
mulher, Mariana bem sucedida e Mariana, há anos, sem sexo bem feito com o marido.
A toalha vermelha apareceu de repente em sua vida, quase sem querer. Um dia saiu
do banho e a pendurou na janela. Trocou-se, fez algumas tarefas matinais e voltou ao quarto.
Deitou-se e começou a ler. O calor que incidia em seu pé esquerdo a fez notar o deslize:
deixara aberta suas intimidades, o sol penetrava o quarto e invadia seu corpo, começando pelo
pé. Assim como poderia ser com o olhar saído de qualquer um dos apartamentos mais altos.
Inquieta, saiu à rua. Sentia-se vigiada. Uma certeza martelava seus pensamentos,
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enquanto as pessoas cruzavam com ela, caminhando. Muitos daqueles homens teriam a
observado nua. Todos masturbaram-se enquanto Mariana, inocente, colocava a roupa.
Primeiro a calcinha preta e pequena, que não marcava. Depois, a calça justa que valorizava
suas curvas. Também teriam a visto escolher e colocar o sutiã, a blusa, tudo. Quando pensou
na pinta, tremeu. Os homens olharam a pinta, sensual mas indefesa. Mariana estava,
definitivamente, excitada. Atribui tudo à toalha vermelha.
Depois daquele dia, a toalha vermelha voltou, muitas vezes, a ser pendurada na
janela. Mariana nunca olhava para os outros apartamentos. Sentia vergonha de ser apanhada
colocando o sinal de que estava ali, a disposição. Mas era irresistível colocar o pano e se sentir
possuída por invasores desconhecidos. Com o tempo, passou a demorar-se mais em frente à
janela aberta. Passava cremes, olhava-se, experimentava lingeries, sempre atenta ao espelho,
sem nunca olhar para fora. Eram seus pudores: não podia encarar os olhos que a comiam, mas
tinha que saber o quê os olhos viam. Ela fazia as regras de forma autoritária e particular para
seu jogo, mas não queria estar sozinha. Porém, por muito tempo não soube se alguém
participava.
Um dia o marido chegou de viagem com modos diferentes. Estava feliz e trazia
promessas à noite. Arrumou-se e voluntariou-se para fazer a janta. Avisou: a esposa deveria
estar linda. Mariana então tomou banho e pôs a toalha vermelha para brincar com os
desconhecidos. Demorou-se mais do que o costume em frente à janela, alisava os seios,
massageava com creme farto as coxas, se abaixava, escolhia a menor calcinha. A cabeça
estava nos olhos alheios mas a intenção era dividir, pela primeira vez, a excitação com o bom
marido, que, afinal, tinha comprado a toalha. Durante o jantar Mariana pensava nos olhares
gulosos, e quase explodia precipitada com o prazer que queria reservar para o homem com
quem casara.
A janta posta, fartaram-se à mesa e correram à cama. O marido propôs seu próprio
jogo e queria o espelho do quarto, o mesmo que Mariana usava para se admirar, pensando nos
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olhos alheios. Ela aceitou. Transaram olhando-se, cada vez mais perto da imagem refletida.
Na explosão do gozo matrimonial que esperava há anos, um pé tocou o espelho, que
espatifou-se no chão. Dormiram abraçados, os amantes. Mariana satisfeita e o marido feliz.
No dia seguinte o marido tinha viagem. Despertou mais cedo, limpou o espelho
espatifado e pôs a mesa de café. Acordou Mariana com cuidado e comeram juntos. Na hora do
marido sair, as despedidas foram mais carinhosas e quentes que o costume. Já à porta, o
marido anunciou: — Já coloquei todos os cacos para fora, amor. Enrolei naquela toalha
vermelha velha, para não foder o lixeiro.
Mariana sorriu e cuidou de tocar a vida. Parecia não se importar e ficou feliz com
isso; há tempos suspeitava que a toalha no lixo era a única forma de acabar com aqela
bobagem. Naquele dia, não sentiu falta do espelho no quarto e maquiou-se vendo-se, só rosto,
no banheiro. No segundo dia, saiu sem se produzir, pois tinha a certeza de que ninguém a
notaria. No terceiro dia, ao chegar do trabalho, antes de querer seu espelho e acima de tudo
sua toalha, foi surpreendida. Havia um envelope ao pé da porta.
A mulher abriu a carta e ficou atônita. Estava escrito:
Sinto sua falta. Por que não aparece?
Com tesão, beijos.
Junto ao bilhete havia ainda algumas fotos. Todas de Mariana cuidando-se. Cremes,
cores, rendas, passos. Sua intimidade e seu jogo foram roubados.
Mariana correu para seu quarto. Abriu a janela e olhou todos os apartamentos,
estudando de que ângulos poderiam ter saído aquelas fotos, procurando seu parceiro secreto,
revoltada com a trapaça a que fora submetida. As regras eram dela. Ficou horas na janela, e só
saiu para ir ao banheiro, por necessidade absoluta.
Ao voltar do banheiro, percebeu uma invasão na paisagem que já tinha decorado,
justo no lado de onde imaginava ter sido fotografada. Alguém pendurou uma toalha também
vermelha para fora, tal qual a jogada que cabia a Mariana. A mulher contou os andares e foi
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para a rua, ainda sem saber o que fazer.
Mariana decide se sentar na calçada em frente ao prédio da pessoa que trapaceara em
seu jogo, absolutamente sem idéias. Os minutos passam e passam muitos homens na sua
frente. Mariana começa a chorar. Tudo estava acabado. Tinha a certeza de que nenhum dos
homens a conhecia mais, ninguém a invadia e muito menos cobiçava. Seu desepero se mistura
ao ódio. Odiava ter sido obrigada a entrar em um novo jogo em que não era a dona das regras.
Passa a sentir nojo do marido que também era culpado pela situação: a fez perder tudo e ainda
gozar, gozo farto na derrota. Chorava quando um estranho a cutuca.
Mariana levanta a cabeça e encara o invasor. O homem, sem graça, oferece ajuda. A
mulher examina cada olhar e seus os menores movimentos. Um senhor, menos de cinquenta
anos, bem arrumado, bonito e com aliança dourada de casamento. Tem a certeza de que não
foi ele quem lhe mandou a carta. Sorri, agradece e elogia a elegância da presteza que não
existe mais, nesses tempos mesquinhos. Ele sorri, tímido. Mariana, intencionada, o convida
para tomar um suco, talvez uma cerveja. Ele aceita. A mulher, finalmente, sente alívio.
Alguns passos e nota os olhares de desejo do senhor tímido. Se dá conta de que havia
derrotado o marido e o trapaceiro do prédio vizinho. Os dois, devassarem sua brincadeira, não
perceberam que só ela poderia ter o controle. Ergue a blusa até exibir a pinta acima da cintura
e troca olhares com o senhor solícito, que sorri, discreto e sem-graça. Mariana tem um novo
jogo.
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A história de como Fagundes retomou o
controle sobre sua vida
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A história de Antônio Carlos Fagundes começou a acabar quando faltou salame para o
sanduíche 33. Fagundes sempre fora um homem metódico e reto. Não acreditava em
improvisos, não tolerava atrasos, não acatava dúvidas. Viveu solitário a maior parte da vida
para não compactuar com possíveis deslizes de uma companheira ou quem fosse, que
poderiam alterar sua determinada rotina. Sustentava-se com os serviços de banco prestados ao
irmão, um empresário que o empregava não por fraternidade, mas por sua eficiência. Nunca
atrasava uma conta, o troco estava sempre certo e a freqüência ao trabalho era impecável.
Todos os dias, findo o expediente, Fagundes ia direto para seu modesto apartamento,
organizava os livros, limpava a casa, preparava as mesmas quantidades da mesma comida e
lia. Ler era seu maior prazer, talvez o único ao qual se permitia. Dizia que até nas mais loucas
histórias o destino era certo. Nada, nem ninguém, poderia alterar o destino traçado para cada
personagem, nem mesmo Deus.
Os sábados, reservava para cumprir o que chamava de papel social. Sentado
inevitavelmente no mesmo lugar, da mesma choperia, Fagundes, às 18:40 solicitava o
cardápio. Olhava-o por 3 minutos e fazia o pedido: Suco de laranja e o sanduíche 33. “Sem
maionese, por favor”. Era sempre atendido por um homem de pouco mais de 30 anos, passos
elegantes e sorriso fácil. Rubião, o garçom, nutria simpatia por aquele cliente sério que
largava uma boa e garantida gorjeta. Rubião era o maior interlocutor de Fagundes e nunca
deixavam de trocar algumas palavras.
“O que vai querer seu Fagundes?”, “Boas novas, seu Fagundes?”, “Como vai a vida,
seu Fagundes?”. Os outros funcionários achavam graça das respostas mecânicas e insossas de
Fagundes. Rubião ouvia com seriedade e atenção.
“Hoje não temos salame seu Fagundes. O fornecedor faltou. O que vai ser?”. Fagundes
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tremeu. Uma gota de suor escorreu por sua testa franzida, sua mão grossa apertou com força o
cardápio, ficou confuso por alguns instantes.
“O 33, garoto. Quero o 33.”
“Ora, seu Fagundes, você não pode controlar tudo. Hoje não temos salame.”
“Até hoje minha vida correu perfeita, sem nenhum imprevisto, pude programar tudo
nos mínimos detalhes. Não queria mudar minha vida por causa de oito fatias de salame.”
“Seu Fagundes, você pode controlar toda a sua vida, mas não vai decidir a hora de sua
morte. De qualquer forma, vou comprar suas oito fatias de salame na padaria ao lado.”
“A mesma marca, por favor”, Fagundes fizera questão de lembrar, antes que Rubião
deixasse, contrariado, a choperia.
O sanduíche 33 não tardou. Rubião apressara-se para atender aos caprichos do cliente.
Fagundes, porém, comeu com desgosto o lanche, apesar do salame ser da mesma marca de
sempre. Tinha um problema para solucionar, o que o incomodava muito. Fagundes estava
preocupado com a organização do seu enterro, quem estaria presente, o cemitério, o túmulo, o
epitáfio. Provavelmente, se envelhecesse mais, não teria condições de arcar com a
responsabilidade do próprio sepultamento, e nunca passaria tal problema para outra pessoa.
Nesse sábado, voltou para casa e abriu mão da leitura noturna. Mudanças como essa na
rotina, Fagundes as considerava repentinas. Um fato só aceitável se o corpo, ou a alma,
estivesse absolutamente indisponível para cumprir o determinado. Ao deitar-se, Fagundes não
conseguia parar de pensar na arbitrariedade da morte. Para ele, era impensável um
acontecimento, tão importante e com tantas consequências, ter o sabor amargo do
imponderável. Fagundes dormiu mal a noite. Acordou no horário estipulado previamente, o
grito alto do rádio-relógio anunciando o domingo. Junto com a manhã, alvoreceu a idéia que
solucionaria os problemas de Fagundes. O homem pensou que era possível, sim, acertar as
engrenagens da vida para que seu final fosse previsível. Bastava planejar seu suícidio.
“Batata! Vou me matar!”, pensou Fagundes, o falecimento com dia e hora marcada era
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imprescindível para que organizasse a contento um evento único como a entrada nos campos
do Senhor.
Durante o decorrer do domingo, fez os planos para a semana seguinte. Abriria mão das
leituras naqueles dias e até sexta cuidaria da organização do enterro: enviaria telegramas para
os poucos parentes distantes, garantiria o espaço no obituário dos principais jornais da cidade,
procuraria o cemitério e o local ideal para o descanso definitivo e escolheria um caixão ao seu
gosto: madeira escura e resistente. No sábado, iria até a choperia, comeria o 33 com suco de
laranja e daria uma gorjeta maior para Rubião. Uma última extravagância e uma forma de
agradecer ao amigo que o fizera atentar para um lapso que poderia comprometer toda uma
vida regrada. Fagundes tinha calafrios ao imaginar coroar sua trajetória como responsável por
um evento feito de forma atabalhoada, obrigando as pessoas a saírem de suas rotinas por que
ele não teve qualquer compromisso na hora de morrer.
Por tudo isso, escreveria ainda no sábado a noite uma carta com as razões de seu
suicídio. Dormiria, regaria as plantas no domingo pela manhã, deixaria chaves extras com o
porteiro, junto com a recomendação de que entrasse no seu apartamento dali a duas horas.
Depois disso, era tudo com ele. Tomaria banho, colocaria seu melhor terno e beberia um
veneno fatal. Não queria sangue, que poderia sujar o apartamento e as roupas, causando muito
confusão.
A semana correu como Fagundes previra, o que o deixou orgulhoso por sua
responsabilidade. Mesmo sabendo que não iria ter mais consequências nesse mundo, pagou as
contas de água e de luz, que venceriam na segunda pela manhã, dia de sua morte. No sábado,
na choperia, Rubião considerou Fagundes mais animado e conversador — perguntou do que
era feito o 34 antes de optar pelo 33 — e estranhou o convite para um evento no Cemitério da
Saudade, com o lugar e o horário explicados de forma detalhada. Considerava seu Fagundes
um homem estranho, mas aquilo passava dos limites. Teve ímpeto de dizer algumas coisa,
mas a gorjeta mais generosa que de costume, que veio na seqüência do convite, o calou. Ao
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guardar o dinheiro no bolso, pensou que tem certas coisas que não se contestam, ainda mais
sendo um garçom.
O domingo amanheceu ensolarado. Fagundes despertou animado e ansioso, como
sempre ficava nos dias de grandes compromissos. Regou as plantas, arrumou a casa e
verificou se os livros estavam corretamente em ordem alfabética. Depois, desceu à portaria,
para deixar a chave com o porteiro. O infeliz ficaria reponsável por encontrar seu corpo, o que
o deixava um pouco apreensivo, já que o porteiro era um rapaz um pouco confuso e desligado.
Talvez Fagundes ainda ligasse para o irmão para garantir que o corpo fosse encontrado
conforme o horário estipulado.
“Bom dia, seu Fagundes”. O porteiro ainda tinha cara de sono.
“Bom dia”. Fagundes entregou a chave na mão do rapaz e avisou que ele não poderia
se esquecer, de jeito nenhum, de ir ao seu apartamento dali a duas horas, e inventou, a
contragosto, mas por necessidade, uma história sobre um bolo, esquecimento, gás de cozinha
e explosões mortais.
“Ô seu Fagundes, por falar em esquecer... Tem uma cartinha aqui pro senhor. Foi
errado, junto com a correspondência do 402. Chegou quinta.” O porteiro falava sem alterar em
nada o tom de voz, tranquilo e relaxado.
Fagundes tirou o envelope da mão do rapaz e virou as costas, contrariado. “Quanta
irresponsabilidade!”, resmungou ao entrar no elevador.
Ficou chocado com a carta, que atrapalhava todos seus planos. Era a cobrança da
última parcela do crediário do rádio-relógio novo. Estava três dias atrasada, e se tornava um
empecilho. Nunca um homem como ele abandonaria um compromisso pela metade. Seu
desespero era crescente quando lembrou-se de que a loja em que comprara o rádio-relógio
abria aos domingos, até a hora do almoço. Ainda havia tempo, se ousasse sair de casa sem
nenhum planejamento e pagasse aquela conta que lhe atrapalhava a vida e a morte.
Quando pisou na rua, percebeu que nunca saíra no domingo pela manhã. Não fazia
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parte de sua rotina. Observou que existiam mais crianças e famílias que de costume, apesar
das ruas estarem mais vazias do que nos dias de semana. Pensou como seria se tivesse outros
arroubos como aquele, mas logo afirmou que não tinha tempo para devaneios. Apertou o
passo para não perder a loja aperta e toda a programação para aquele domingo. Caiu
atropelado por uma ambulância que rompeu o sinal vermelho. Deitado na sarjeta, a roupa
outrora impecável estava coberta de sangue. Um grupo de curiosos se reuniu em torno dele.
Entre eles, viu Rubião se aproximar, vestido como um atleta de futebol de domingos. O
garçom se ajoelhou perto do homem. “Seu Fagundes, na hora errada, Seu Fagundes”,
lamentou. Foram as últimas palavras que ouviu. A morte trouxe a vida de Fagundes de volta
aos eixos, permitindo que tudo que fora minuciosamente planejado se concretizasse. Menos a
última parcela do rádio-relógio, que nunca foi paga.
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Encontro marcado
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Campinas, 11 de março de 1988
Guilherme e Carioca estavam felizes. Caminhavam com a mão apoiada no ombro
alheio, sublinhando a amizade e protegendo-se do frio naquela madrugada de sexta-feira em
Campinas. Também estavam bebâdos, e há poucos minutos tinham perdido a virgindade,
coisa profissional. Bradavam ser a melhor noite da vida, que merecia ser guardada para
sempre.
¯ Agora somos homens! ¯ exclamou Carioca.
¯ Será que isso se repete?
¯ Cara, claro que você vai meter de novo...
¯ Não, todo o momento ¯ , interrompeu Guilherme.
Os dois amigos ficaram quietos por um instante. De repente, Guilherme, com voz
imponente, faz uma proposta. Tinha orgulho de demonstrar boas idéias aos amigos.
¯ Para sempre. Isso. Nós nunca vamos deixar de aprontarmos muito juntos. Para
garantir, que tal marcarmos um encontro para daqui a 20 anos, nesse mesmo lugar? Se
acontecer qualquer coisa que nos separe, daqui a 20 anos, aqui.
Carioca sorriu largo com a idéia de Guilherme. Pediu um cigarro, “para comemorar”.
Os amigos gostavam de dividir cigarros, como se divide confidências e alegrias. Fumar era a
forma de marcar os grandes momentos daquela amizade.
Campinas, 11 de março de 2008
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Uma lágrima correu a face de Guilherme. Parou na barba, e ele sorriu. No dia em que
combinara com Carioca o encontro naquela rua, ele ainda não tinha barba. Era um fedelho de
rosto limpo e alma imaculada. Ansioso, estava adiantado em duas horas. Considerava que o
amigo, assim como ele, pudesse aparecer antes do horário marcado, afinal, já fazia muito
tempo e o tempo confunde as pessoas. Além disso, não tinha nada melhor para fazer. Ainda
tentou demorar-se na higiene, feita na fonte de uma praça, e escolheu com esmero entre as
poucas peças de roupa. Isso também o fazia sentir-se mais confortável com sua pobreza
aparente e com a doença que o flagelava.
Imaginou Carioca gordo, rico. O amigo sempre fora objetivo e ambicioso, porém
solidário. Teve certeza de que ele lhe estenderia a mão, ofereceria ajuda e dinheiro. Cresceram
juntos e unidos, eram inseparáveis até a separação. Carioca mudara de estado, tomaram rumos
diferentes. Guilherme estava concentrado para não aceitar qualquer oferta de Carioca. Há mais
de 4 anos se preparava para dizer o não reservado para aquela noite. Seria muito difícil para
alguém na sua situação negar qualquer tipo de ajuda. Se viesse de um estranho, tudo bem.
Mas Guilherme não queria despertar piedade em Carioca. Tomariam uma cerveja e um lanche
juntos. E o mendigo, para mostrar que as coisas não eram tão ruins quanto pareciam, só
permitiria que o outro pagasse se a conta fosse maior que os trocos que carregava. Mas, em
um primeiro momento, ele arcaria com o encontro marcado usando o dinheiro conseguido nos
pequenos bicos, ou como pedinte.
Também discutiriam de futebol. Torciam por rivais. E falariam de mulheres, a paixão
pelo sexo oposto era a mesma, pelo menos quando pré-adolescentes. Guilherme contaria sobre
Eleonora, como ela entrou em sua vida, não lhe deu filhos, fugiu e o deixou sem nada, doente
de amor. Sentiu inveja do que o amigo provavelmente contaria para ele. Tinha ouvido falar
que Carioca estava muito bem casado e tinha filhos. Mas, talvez a história fosse delírio de
alguma bebedeira, já que não se lembrava como tinha tomado conhecimento do fato.
Guilherme ficou duas horas pensando em como agir, sentado ao pé de uma árvore,
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recebendo uma fina garoa. Tentava recordar as manias e gostos do amigo. Não queria
melindrá-lo de forma alguma. Até que, quinze minutos depois da hora marcada, um cidadão
bem aparentado apontou na rua. Guilherme pensou que poderia ser o amigo e empertigou o
corpo. O desejo era mostrar dignidade. O homem caminhou em sua direção e o mendigo o
reconheceu sob a luz de um poste. Era Carioca.
Quando o amigo chegou perto, Guilherme acendeu um cigarro. Não tinha palavras,
queria comemorar o encontro marcado, à moda dos tempos passados. Carioca colocou a mão
no bolso, Guilherme imaginou que o ele fumaria também. Assim que Carioca puxou um
cigarro, o mendigo ficou satisfeito: ainda conhecia o amigo.
No momento em que ficaram cara-a-cara, Carioca novamente levou a mão ao bolso.
Mas agora tirou uma nota de dinheiro. Então, estendeu a mão e a deu para Guilherme. O
mendigo não sabia como reagir, apenas olhou surpreso a cédula. Muito dinheiro.
¯ Você viu um homem esperando parado por aqui?, disse Carioca, com um sotaque
diferente daquele que tinha, interrompendo o olhar fascinado do amigo pela nota. Era
daquelas que mendigos nunca pegam.
Guilherme, atordoado, não respondeu nada. Agarrou o pedaço de papel, todo ele
dentro da palma da mão. Então, levantou-se e e passou a caminhar pelo meio da rua. O feixe
de luz do poste que incidia sobre Guilherme projetava uma sombra longa e brilhante, graças a
fina garoa que envernizava a noite. O mendigo mantinha a cabeça abaixada, a olhar a bonita
figura que o acompanhava colada ao asfalto: Narciso, sua sombra. Cuidava passar
desapercebido evitando que Carioca olhasse em seus olhos. Se fosse reconhecido como o
homem procurado, jamais aceitaria aquela fortuna.
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A Revelação
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Eu não fiquei surpreso. Sempre soube que acharia a história que me colocaria no
caminho dos louros literários, mesmo que fosse pouco antes de minha morte. Cedo tornei-me
íntimo das letras. Papai, que eu não conheci, legou-me uma vasta biblioteca. Livros jurídicos,
a maioria, é verdade. Entretanto, minha paixão eram as ficções. Romances, contos, terror,
amor. Cresci devorador de histórias alheias, a sonhar com o dia em que eu escreveria minha
própria peça de literatura: a obra definitiva.
Mamãe implicava com meu gosto pela leitura. Não podia me ver com livros na mão
que tentava desviar-me a atenção. Primeiro, me abraçava, acariciava meus cabelos,
conversava comigo. Se eu insistisse nas letras, logo começava a praguejar. E, para ocupar meu
tempo, me obrigava a tratar de tarefas domésticas. Fazia de tudo: café, passava a vassoura,
arrumava a cama. Só não podia entrar em seu quarto escuro, muita madeira marrom, cama
grande para mulher viúva. Ali era território de Dona Nenê, a empregada que nos serviu a vida
toda.
Dona Nenê, enorme e simpática. Me dava guloseimas escondido antes do almoço.
Deixava um pires, sempre com uma surpresa, às vezes doce de abóbora, outras goma, na
mesma gaveta do móvel da sala, e subia para cortar suas cebolas para a refeição do meio-dia.
A gorda senhora cozinhava enquanto entretia mamãe com histórias fantásticas, iguais as que
eu um dia queria contar. O horário de almoço era o que eu mais gostava. Comia o doce e
corria à cozinha, me aninhava no colo de mamãe para escutar Dona Nenê. Mas em alguns dias
ruins, não podia ficar para ouví-la. Mamãe me impunha algum trabalho.
Não gostava das mudanças de mamãe. Ora, era carinhosa, “que menino bonito, a cara
do pai”, ora má, queria me tirar as histórias. E eu queria todas as histórias, para um dia contar
uma saída da minha caneta. A essa história, definitiva, entregaria minha vida.
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Quando fiz quinze anos, mamãe encaixotou todos os livros da biblioteca de casa. Iria
vender a coleção de papai em um sebo. Me prontifiquei a dar cabo daqueles volumes. Ali, eu
já tinha lido tudo que me interessava. Arrumei transporte e levei os caixotes para a loja
indicada. Um novo universo, no meio do pó e das estantes altas do sebo, se abriu para mim.
Caminhei entre os corredores apertados, cheirando a mofo. Peguei um livro. Era um exemplar
de “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós. Já conhecia o romance, mas o que me interessou
foram letras forjadas a caneta na página de rosto. Um invasor escrevera uma dedicatória de
amor ali. Ao ver a data, muito antiga, tive um certeza: aquela história de amor já acabou. Ou
pela morte, ou pelas mesquinharias da vida. Fiquei fascinado pelo o quê não estava escrito, o
enredo secreto que a caneta do apaixonado denunciava, e pela descoberta de um norte para
minha própria história. Um dia, vou encontrar, nessas dedicatórias, a inspiração que me falta
para escrever, murmurei meus pensamentos.
Minha vida mudou a partir desse momento. Ao invés de vender a coleção de papai,
troquei os livros por outros. Vasculhei o sebo, incessantemente, atrás de volumes com
dedicatória. Voltei para casa coberto de pó e carregando os velhos impressos. Mamãe ralhou
comigo, não queria me ver metido em livros. Ignorei-a pela primeira vez. Principiava-se a
batalha de minha vida: encontrar nos sebos, no papel surrado, nas paixões passadas marcadas
a caneta, a inspiração derradeira.
Depois daquele dia, nada de trabalhos domésticos. Vivia no meu quarto, a organizar a
bizarra biblioteca que eu ia constituindo. Cuidei catalogar os autores e títulos que tinham mais
dedicatórias. A lista era encabeçada por Carlos Drummond de Andrade. Surprendia-me como
os enamorados gostavam de Drummond e, de forma especifíca, de “Amar se aprende
amando”. Isso me incomodava, era uma escolha muito óbvia para uma história
suficientemente interessante, mesmo que eu ainda fosse trabalhá-la. Ficava feliz quando
pegava uma dedicatória em Machado de Assis, já que considerava alguém que mandasse juras
eternas em “Dom Casmurro” merecedor de ter seu amor desenvolvido por mim. Tive tanto
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método nessa pesquisa que consegui dez livros de um mesmo autor baiano, cada um dedicado
a um amor eterno de ocasião. A caneta é muito mais versátil e perigosa que os tipos
impressos, conclui. As dedicatórias desse autor eram muito mais interessantes que sua insossa
obra.
Vivi mais de duas décadas assim, flutuando no meio do pó, do mofo, das páginas
amareladas. Gastei grande parte da herança de papai em busca da dedicatória que me traria a
história definitiva, grande peça da literatura por mim escrita.
Vivi muito solitário. Desentocava-me apenas na hora do almoço, para comer meu
doce, ainda colocado no mesmo lugar, e ouvir Dona Nenê. O resto do dia passava entre livros,
no sebo ou em casa, a catalogar, a catalogar, a catalogar. Na boca, sempre tinha um cigarro:
ajudava a me concentrar na tarefa que tinha me imposto e matava a fome, muito útil para
diminuir o tempo perdido.
A certa altura da minha vida, passei a ter tosses frequentes e violentas, doía-me o
peito. Eu sabia que minha doença era a doença dos livros: muita poeira, muito bolor, muita
velharia tinha me invadido as entranhas. Por eu ser fumante, o médico que procurei depois de
muita insistência de mamãe e Dona Nenê, culpou, absolutamente errado, o cigarro. O
profissional não entendia a verdadeira razão do problema, que eu insistia em repetir. “São os
livros doutor, as dedicatórias”. Antes eu nunca tivesse fumado, para que o motivo ficasse
evidente aos olhos do doutor. Sem enxergar a causa correta, o médico não pode passar-me os
remédios adequados. Desenganou-me: restava-me pouco tempo.
Enfiei-me totalmente na minha busca. Deveria achar a dedicatória reservada a mim
antes de juntar os pés. Só saía do quarto para ir aos sebos. Passei a exigir o almoço dentro do
meu domínio. Ficava olhando e folheando todos meus livros, assumindo que poderia ter
cometido um lapso, e não ter visto a minha história perdida nas páginas. A minha obsessão era
tamanha que considerei estar ficando doido. Por um momento, vibrei com a possibilidade: um
escritor maluco escreve sua obra sabendo que a morte o flertava. Realmente, daria uma grande
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força dramática aos meus escritos.
Certa feita, Dona Nenê recusou-se a servir-me no quarto. “Ordens de sua mãe”.
Ameacei rebelar-me, mas a empregada lançou-me um olhar carinhoso e lembrou-me de que
tudo era como antes, que eu inclusive pegasse minha guloseima no lugar combinado. Assim,
decidi ir à cozinha, ao econtro das duas únicas mulheres com as quais eu convivi. Antes, fui
buscar meu doce e tive uma surpresa. Um livro me esperava. “Quincas Borba”, Machado de
Assis.
Abri afoito o volume, temendo estar alucinado. A dedicatória me jogou em um
rodamoinho de emoções. Estava ali a história que eu contaria. Primeiro, reconheci os
garatujos de Dona Nenê, os mesmos das listas de compra quase indecifráveis. As palavras
eram mal colocadas, nem pareciam sair daquela senhora que as escolhia tão bem ao falar. A
data indicava alguns meses antes do meu nascimento. O destinário era claro: “Seo Rubens”, o
homem que se estivesse vivo chamaria de pai. A intimidade era patente, e o conteúdo claro.
Dona Nenê amaria meu pai e o filho deles para sempre, mas não podia enfrentar sozinha
aquela situação.
Subi a cozinha, e parecia presenciar a mesma cena que se repetira minha vida toda.
Mamãe sentada, atenta a Dona Nenê preparando os alimentos e pronta para contar uma
história. Sentei-me e pedi para que ela principiasse. Contou-me tudo, era minha história, de
nossa família. Mamãe, impassível. Minha reação foi bastante egoísta, reconheço. Apenas
lamentei não ter herdado a capacidade de contar histórias de Dona Nenê, que se revelava
minha verdadeira progenitora. A outra senhora, mamãe, também teve uma reação estranha.
Apenas alertou Dona Nenê para que nunca mais mexesse no seu quarto, nas suas coisas
privadas.
Depois do almoço fui para o quarto, concentrei-me na dedicatória e imaginei
tudo o que aquelas palavras representavam. Estava inspirado criatividade com muita vontade.
Então, passei a escrever a história que sempre busquei: “A Revelação”.
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Bloody Mary
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Escolheu com carinho a faca para cortar o pai. Colocou sobre a toalha branca, nova,
impecável. Tudo arrumadinho: pratos de festa, temperos cheirosos e até um vaso de flores
delicadas igual ao que viu na revista da moda. Era menina-moça e sabia cuidar da casa.
Já fazia dois anos que Ana saira de casa sem saber fritar ovo. Agora, tinha preparado suco de
amoras frescas, saladinha de rúcula e bloody mary para o drink. Uma comida visceral para
uma noite em que faria das tripas refeição. “Das tripas refeição”, Ana pensara nisso pela
manhã e repetiu durante todo o dia. Orgulhava-se de seu humor negro.
A mesa posta, colocou uma música para relaxar. Esticou-se no sofá e pensou no pai.
Lembrou-se da bola de futebol, da camiseta do Corinthians e de que poderia fazer quantos
filhos quisesse, já que o pai dizia que estava ali para isso. Sentiu raiva. Acendeu um cigarro
fino e longo, como o vestido que usava e bebericou. Apimentado, vermelho, difícil. Assim
como ela. Pensou em mudar o nome para Mary. Melhor do que Ana, Mary, faria mais sucesso
na noite, Bloody Mary.
No sofá, adormeceu.
Acordou assustada com o toque do telefone.
— Júnior?
— ...
— ...
— Mãe, já disse. É Ana.
— Desculpa filho, é o costume.
— Mãe, é filha. Sou mulher com um detalhe. Acostume-se.
— Houve um problema. Não poderemos ir. Seu pai... hospital... não sei direito... quer
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te ver. Pode morrer.
— Vou pensar.
— Pense. Ele pediu que vá vestida como nasceu.
— Nasci pelada. Acho melhor não.
— Você entendeu. Por favor, se vista como homem. Você sabe que ele não aceita.
— E o que eu faço com os peitos?
— ...
— Era para isso o jantar. Agora tenho peitos. Grandes, redondos. Perfeitos.
Comprados com meu dinheiro. Queria reencontrar a família sob meu seio.
— ...
— Vou pensar mãe, vou pensar. Te amo.
Ana desligou com lágrimas nos olhos o telefone. O filhadaputa sempre estraga seus
planos, sempre estragou. Estava decidida a picá-lo e ele quer morrer antes disso?
Desligou a música e tomou mais um drink. E mais outros. Não tocou na comida que
preparara. Ligou para o disk-pizza e pediu meia calabresa, meia aliche. Estava completamente
decidida a chamar o entregador para entrar. Alguém teria que ver os peitos novos, a toalha
branca e o vaso de flores delicadas. Era menina-moça e o mundo precisava saber.
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Retrato de um assassino quando jovem
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Foi durante a última apresentação de Paulo da Portela. O ambiente anuviado
rescendia a pinga. C. estava chateado naquele dia, foi ao Circo São Jorge se distrair. A batida
do samba e o resto de uma garrafa de cana poderiam ajudar. Gostava do batuque, das
mulheres se chacoalhando, dos bebâdos se chacolhando. Sentou-se em um canto do Circo, os
olhos seguiam atentamente as coxas requebrantes de uma negra. Porém, os ouvidos estavam
mais interessados nas canções de Paulo da Portela A voz melódica do sambista aqueceu seu
coração. Saiu de um estado de letargia e grudou os ouvidos nos versos.
O meu nome já caiu no esquecimento
O meu nome não interessa a mais ninguém
E o tempo foi passando
E a velhice vem chegando
Já me olham com desdém
Ai quantas saudades
De um passado que se vai no além
Chora, cavaquinho, chora
Chora, violão, também.
A letra o fizera refletir. Seus pensamentos, normalmente imediatistas, tomaram rumos
complicados, inóspitos. C. teve sua mediocridade chacoalhada. Pensou no tempo e em como
ele seria apagado; era mesmo patético. Decidiu, pois, que teria descendência. Para não ser
rapidamente esquecido, deixaria o nome legado à humanidade: filhos. Alguém para chorar em
seu enterro. Notou que ali no samba não tinha crianças. Mas ele, sim, queria alguém que
carregasse seu caixão. Um último trago, para matar a garrafa, confortado pela música de
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Paulo, ainda no Circo São Jorge. Depois correu à casa da família, era para eles que primeiro
contaria a decisão de ter filhos, urgentemente. Seria também uma forma de reatar com os de
casa. Dali há dois dias faria um mês que tinha deixado o lar, assim que os primeiros fogos
anunciaram a chegada do ano 1949. Saiu para buscar vida nova, longe do pai violento.
Parou em frente do portão da casa de sua família. O clima era o mesmo da momento
da despedida da mãe e irmãos, o mesmo vento, o mesma horário, igualmente bebâdo. Estava
contente em voltar. Tinha certeza da decisão, tudo claro na cabeça, ainda que os passos lhe
saíssem trôpegos. Foi em frente. No jardim, um turbilhão de emoções. O cheiro das rosas da
mãe, da terra úmida. O escuro da noite. Da janela da casa, escapavam vozes a gritar.
Lembrou-se da infância triste, repleta de berros, e mesmo assim sentiu-se feliz com a
lembrança. Para ele não importava muito o passado. Julgava a memória como são as nuvens;
uma massa disforme que moldamos conforme nossas expectativas. Mas o tempo sempre
dissipa as nuvens. O filho seria a forma de enfrentar o tempo, sua própria nuvem.
Avançou à porta.
Dentro de casa, o pai. As coisas estavam confusas. Nunca soube direito o que
aconteceu. Gritos. Os irmãos desesperados. A irmã rezava a Deus, aos santos, ogum e oxalá.
Dona Geralda, Gê, a mãe, agozinava, olhos inchados, algum sangue escorria-lha a face. O pai
também estava bebâdo, mais uma vez violento. Acusava a mãe de todos os nomes, presente,
passado e futuro. A mãe, Gê, jogada em um canto, reage e ordena. C. e a família cumprem.
Uma faca. A irmã ajoelhada em frente ao pequeno altar: santos, velas, contas. Os
irmãos como cúmplices, despem o pai. Seguram-o. Gritos. O pai merece aquilo. Sangue.
Estavam cobertos de sangue. O pai urra para as estrelas e os planetas ouvirem. Teve o
pênis decepado. C., autor da façanha, só tinha ouvidos ao tic-tac do relógio.
A irmã manteve-se ausente, inerte, durante todo o crime. Joelhos colados no chão,
olhos voltados ao altar. Nada de raiva ou dor. O corpo e a alma em extâse; retornava de um
tempo imemorial, onde fora avisada, e apenas tinha certeza quando vaticinou:
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—Meu irmão, assim como papai terás o nome desonrado pelo próprio filho.
C. sentiu muito a profecia de sua irmã. Largou-se no chão, amparou o rosto com as
mãos cobertas de sangue e chorou como criança.
Seu crime foi exposto em todos os jornais. As peculiaridades e a decepação do pênis
do pai pelo próprio filho atraíram o gosto da população. Não havia quem não comentasse.
Logo, a história entrou para a crônica da cidade. Virou lenda: ganhou diversos componentes,
nuances e motivações. Era transmitido nas pracinhas, nas reuniões de família, nas conversas
de comadres. As crianças ficavam horrorizadas e aprendiam coisas a respeito da família e
outras lições morais, dependendo de cada versão.
O crime também ficou registrado perante o Estado. Delegacia, advogados, burocracia,
cadeia; tudo. C. cumpriu pena e tentou esquecer o passado.
Casou-se com Réia e foi assassinado pelo sexto filho, o único que cresceu e se tornou
homem formado.
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Tudo tem seu preço
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— `Pai´, a vozinha do outro lado falou pai. Menina, não tinha quatro anos. Eu não
sabia, o cara tinha filhos.
— E dai?
— E dai?! E dai que pai de família é mais caro, não sabe?
— A cliente não tinha me dito.
— Foda-se. É mais caro, quero a diferença.
— Calma, cara. Aliás, por que ligou para a cliente? Não sabe que é perigoso, porra?!
— Ouvir a voz. Faz tempo que não falo com uma mulher. Gosto de novas assassinas.
Têm uma falsa superioridade na voz igual a de novos ricos. Me dá tesão.
— Você que é o assassino.
— Assassino é quem quer matar. Sou um puxador de gatilho profissional, só. Pro-fis-
sio-nal. Por isso tenho meus preços e quero tudo certinho. Profissional liberal tem que garantir
o futuro.
— Profissional? E o tesão que você disse que sentia pela cliente?
— Liguei fora do expediente...
— O cara era um filhadaputa.
— Ótimo. Por isso é mais caro. Pai vale mais por que ou é filhadaputa ou é bom. Dá a
maior diferença na família. Vale mais de qualquer jeito. E a menininha tinha amor na voz,
percebi claramente.
— Você é louco. Muitas teorias, psicologia de botequim, anda lendo demais. Às vezes
acho que você inventa esses motivos para cobrar mais caro.
— Viajou. Um padre, por exemplo, eu subo baratinho. Me arrume um padre que seja
pai que sai quase de graça. Pechincha.
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— Mas pai não é mais caro?
— Não se for padre. Seria um mérito, uma conquista profissional.
— Você precisa de um tratamento.
— Preciso que me pague o que me deve. Vai sair 10% mais caro.
— Tudo bem, porra. Você é doente.
— E tem mais. A cliente tem que saber que é mais caro, por que era pai.
— Você é doente.
— Ela precisa sentir no bolso que matou o pai da garotinha.
— Saco. Mas, vamos lá. Eu me comunico com ela.
— Ótimo, mais algum serviço?
— Claro. Nunca vai faltar serviço para você, um lunático competente. Vereador,
casado, sem filhos, parece que é viado. Encomendado pelo irmão. Quanto você quer?
— Gordo ou magro?
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Assassinato no 402
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Toc toc toc. O relógio não fazia tic. Martelava. O homem andava, pra lá e pra cá. O sol
nascia, mas o dia já quente, suor, gotas desciam desde a cabeça careca, uma brilhava na ponta
do nariz. A mulher demorava. Ela não perde por esperar. Era hoje. Foi hoje que ele teve
certeza. E tendo certeza, ia fazê-lo. Hoje ela não dorme em casa.
Toc. Trancou a porta. Ela vai ter que bater. O homem sabia que ela nunca usava a
campainha.
Espremia com ansiedades as mãos grossas. Estalou os dedos. Como ela pôde fazer
isso comigo?. Abriu todas as janelas. A luz da manhã encheu o quarto. Misturou-se com o
cheiro do café passando. Toc. Pra lá. Toc. Pra cá. Toc. Ligou a TV.
Jornal esportivo. Seu time tinha jogo importante. A melhor campanha, invicto. Se
quiser tenho até os ingressos. Orgulhou-se do cinismo. A mulher tinha comprado dois
ingressos. Ele os encontrou na gaveta, ou dentro de um livro. O homem tinha a certeza de que
não eram para ele. Por que ela não me mostrou até agora?. Ele sabia. E tinha todo o resto.
Alguns jogadores. Margarina para a família. Carros voando. Desligou a TV.
Foi à cozinha. Bebeu de um gole a xicára de café fervendo. Uma sensação horrorosa
na língua. Àgua gelada. O estômago sucumbiu. Já eram dois dias sem comer, talvez nem
tivesse dormido. Vomitou pela cozinha. Agonia. O café o deixava ansioso, sempre. Esse
vômito. Nojo. Espreme as mãos.
O homem mal podia esperar para o anúncio. A mulher estava expulsa daquela casa. Da
sua vida. Ninguém no mundo o faria de palhaço. Segurou, com ódio, os dois ingressos.
Olhou-os. Molhados pelo suor. Examinou, muita cautela, ambos. Decidiu-se por um. Tic.
Riscou um fósforo. Ateou fogo ao ingresso escolhido com parcimônia e com todos os critérios
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do mundo: textura do papel, número da cadeira, quantidade de suor. Esse é o do amante.
Queima a mão. Não percebe.
Toc toc toc. As batidas à porta. Ela chegou. O homem tira a aliança. Guarda no
faqueiro da cozinha. Corre à sala. Abre a porta. Ela entra no apartamento. Sorrindo.
Surpreende-se. As malas estão a postos e ele pede, exige, as chaves. Não vai mais precisar.
No mesmo dia, à tarde. Geninho corre. Toc. Vinte e duas mil, trezentas e vinte e sete
pessoas comemoram. Gol do time. O homem parece ser a única pessoa no estádio que não
festeja. Está concentrado, pensando a que ponto chegara e as escolhas que a vida
proporcionara. Queimei o errado. Ao seu lado a amante estranha o comportamento. Nunca
tinha sido levada ao estádio.
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Jeremias
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12/05 6:43
Jeremias ergueu-se explosivamente. O corpo estava gelado, muito gelado. Assustado,
olhou em volta: um lugar irreconhecível. Azulejos azuis, manchados por filetes cor de cobre
que desciam desde o teto. Uma pia pequena, onde estava apoiado um espelho embaçado e
rachado. Da janela, surgiam raios de luz que indicavam o dia.
Passado alguns segundos, se deu conta. Estava largado, nu, dentro de uma banheira
com pedras de gelo. Ergue-se com dificuldade, a cabeça latejava, uma dor insuportável nas
costas. Largou-se no chão e cobriu-se com um pano velho que estava ali, talvez um tapete
sujo. Começou a chorar.
11/05 22:22
Jeremias mal pode acreditar quando a Loira sentou-se ao seu lado. Nunca conhecera
uma mulher como aquela. Sua pela exalava um leve cheiro cítrico, mexia os cabelos com
delicadeza, a boca, os olhos, tudo nela harmonizava-se. E tinha o corpo: seios fartos, anca
larga. A mulher chegou logo puxando assunto, para não deixar dúvidas, como se fosse
necessário depois da demorada troca de olhares. Era óbvio. Também interessara-se por
Jeremias. Conversaram um pouco e logo estavam atracados. Entre beijos e mãos ágeis de
ambos os lados, serviram-se de vinho barato.
12/05 6:37
“Já temos o produto. Está em ótimas condições.” Essas palavras, no telefone, fizeram
os olhos do deputado Madeira brilharem. Era um homem velho e inescrupuloso. A pele
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amarelada e os olhos emoldurados olheira enorme, roxa, quase negra, davam-lhe um aspecto
assustador. A única coisa que o alegrava eram palavras como aquelas.
Gozou por alguns instantes o êxtase que a informação lhe dava e seguiu com perguntas
e instruções: “Que tipo de sangue?”, “Contate o doutor Guerra”, “Quem fez o serviço?”,
“Exija mais dinheiro do cliente, pela velocidade com que agimos”.
Desligou com uma certeza. A Loira era sua melhor funcionária.
11/05 23:27
Na recepção do pequeno hotel no centro da cidade, um homem gordo e baixo assiste
TV. As pernas curtas estavam jogadas em cima da mesa, os braços, largados, quase tocam o
chão. O ambiente escuro, apenas uma lâmpada pálida pendurada pelos fios. O cheiro de
fumaça e mofo inunda o lugar. A Loira nem pediu as chaves do quarto. O homem gordo,
assim que a viu, entregou as reservadas a ela. Divertiu-se com o olhar atônito e perdido de
Jeremias. Mais um idiota.
11/05 21:39
Jeremias estava cansado. Saira atrás de um um drink, distrair a cabeça, muitos
problemas no trabalho, a mulher incompreensiva ralhava em casa. Sentou-se em um pequeno
boteco no centro da cidade disposto a tomar alguns goles. Logo, notou uma presença que
destoava do lugar: uma exuberante mulher loira.
A Loira estava em um justo vestido vermelho. Jeremias percebeu, quando ela foi ao
banheiro, que a mulher estava sem calcinha. Excitou-se, não pôde desgrudar mais os olhos
dela. A mulher percebeu seu olhar carente e desejoso e retribuiu. Olhou-o tão
meticulosamente que parecia que o inspecionava. A atitude mais inesperada do mundo para
um homem como aquele.
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11/05 23:38
Assim que sentou-se na cama, tudo começou a girar. A Loira ria da fraqueza de
Jeremias, que ainda tentava-lhe tocar as nádegas, os seios. A mulher apenas desviava com
movimentos provocativos enquanto teclava em um telefone celular.
Assim que teve a ligação completa, a Loira afastou-se de Jeremias. Ele tentou
acompanhá-la, mas não conseguiu. Desabou no chão. A Loira sorriu e avisou no telefone:
tudo pronto.
Logo três homens entraram no quarto, com alguns equipamentos médicos. A Loira
despiu Jeremias e se despediu. O primeiro homem tirou um pouco de sangue e testou. “Ó
negativo, coisa finíssima”, disse sorrindo. O segundo homem marcava o lugar onde deveria
ser o corte, enquanto o outro pôs as luvas e preparou o bisturi. Logo toda a operação estava
feita. Jeremias, sem um rim, mas já costurado, foi colocado em uma banheira com gelo.
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Geovana é feliz
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O tom azulado no negro do céu anunciava o fim da madrugada. Trabalhadores gato-
pingados paravam, cara-de-sono, nos pontos de ônibus, buscando o pão de cada dia. Os
felinos vagabundos caminhavam sensualmente e alimentados depois de uma noite revirando
lixo. Geovana observou os animais noturnos e sentiu-se como eles. Era senhora das
madrugadas, a cumprir busca solitária nos becos da cidade que dorme.
Também diziam que tem olhos-de-gato siamesa. Amendoados, ativos, quase
desesperados. “Minha mãe sempre me compara com uma gata: diz que sou interesseira, só
volto para casa para comer. Gata de rua, evito qualquer aproximação humana. A não ser
àqueles que me alimentam: cocaína.” Era o blog de Geovana.
Aquela noite tinha sido desesperadora. Nas sombras e esquinas, pouco — nada,
exatamente — do pó para acabar com a angústia e a dor-de-barriga que a consumia, quase
todos os momentos. “O manjar dos deuses urbanos: o sabor industrial, amargo como os
remédios da sociedade. Auto-confiança em pó. Minha mãe prefere em calorias ou pílulas. Um
pequeno resumo das relações capitalitas: os pobres produzem e morrem para os ricos
aproveitarem. Uma vantagem: a distribuição de renda é direta, da mão branca para a mão
preta. Sem a burocracia como intermediária”.
A menina não se conformava. A luz azulada que destacava os pêlos de seu braço
davam o tom. Não sabia se era dia ou ainda noite. Não sabia se desistia, vontava para o
quarto, cama, cigarro, diarréia, ou continuava a busca até o sol brilhar e tocá-la de volta.
Geovana decidiu por não arriscar a deparar-se com o amarelo. O crepúsculo era o limite.
“Odeio o dia. Sol, só no campo. Na cidade, noite: só o melhor comércio, pouco carro, não tem
chatos. Gatos, não cachorros.”
Dava passadas largas em direção a sua casa, mas o caminho não era o menor. Alongou,
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para última tentativa em um bar, que, se aberto, abriria novas perspectivas para a busca. O Bar
da Rosa tinha uma porta cerrada e a outra a meia-altura. Geovana viu a metade de muitas
pessoas dentro e entrou, em um movimento rápido e decisivo, para não deixar dúvidas à dona
do estabelecimento. Rosa era uma mulher grosseira e com porte masculino. Tratava mal aos
fregueses e fingia não admitir tráfico dentro de seu bar. Mas, tinha consciência de que a maior
parte de seus vencimentos vinham da circulação de dinheiro que os vendedores de drogas
propiciavam. Cada um que entrava atrás largava algumas notas que lhe compravam leite e
sobrava algum dinheiro para sair. Era uma lei não escrita. Usuários e fornecedores também
tinham o cuidado de serem discretos, dando um pequeno passo em direção ao lado de fora no
momento de consumar o negócio.
Geovana sentou-se e pediu uma cerveja. O primeiro copo bebeu de um gole. Olhou ao
redor e não viu nenhum conhecido. Em um canto alguns homens zombavam e apalpavam uma
travesti albina, que devolvia xingamentos e pequenos favores sexuais. Geovana percebeu que
alguns se encabularam com sua presença de menina rica e se afastaram do objeto de prazer. A
travesti sorriu para ela e aproximou-se. Parecia ter cerca de 25 anos, os cabelos eram
enrolados, cor de palha, até a altura dos ombros e mal-cuidados. Usava um shorts jeans
curtíssimo e apertado, que destacava uma bunda rija e um volume impressionante entre as
pernas. Não tinha seios, e Geovana achou engraçado o top colado que a travesti usava, a
barriga rosa à mostra. — Me chamo Branca — , disse. “Bem a propósito”, pensou Geovana,
tentando não rir.
Branca pegou um copo da cerveja de Geovana sem pedir. — O que quer aqui,
menina? Geovana não moveu a boca. Abriu a palma da mão, juntou os dedos e bateu três
vezes no balcão, como num golpe de karatê. A travesti sorriu. — É comigo mesmo, afinal
soy Branca.
Logo as duas conversavam fora do bar. A dor-de-barriga em Geovana era insuportável,
seu intestino contorcendo-se e ela soltava peidos fedidos, que faziam Branca gargalhar, o quê
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tornava mais grostesca sua imagem. Muitos pássaros já cantavam, mais pessoas circulavam
pelas ruas e a luz azul flertava com o amarelo. Geovana deu todo seu dinheiro para Branca,
que notou o desespero da moça e retribuiu com apenas metade do pó que aquelas notas
poderiam comprar. Sabia que tudo que pessoas naquele estado não queriam era discutir. “Por
que não cheirar? Tenho dinheiro e me sinto feliz: por que não cheirar?”
O intestino de Geovana deu um ultimato. A garota voou para dentro do bar e se
trancou no banheiro fétido. Arriou as calças ao mesmo tempo que um jato de bosta explodia.
Não se importou com os respingos na perna e na calça. Enquanto se aliviava, tirou a
identidade da carteira e despejou todo o pó na superfície. Como já não tinha dinheiro, enrolou
uma nota-fiscal e a usou como canudo. Aspirou com avidez a cocaína. Lambeu várias vezes
sua foto, a assinatura, nome do pai e da mãe. Desperdício era burrice.
Sentiu-se tão bem que nem se importou com a falta de papel pra limpar-se. Saiu do
banheiro como uma rainha, nada podia incomodar. Quando pisou fora do bar, o sol já se
mostrava no céu, e aqueceu Geovana, que considerou carinhoso o calor do alvorecer, ideal
para a caminhada que faria até sua casa. “Inexoravelmente, para o meu desespero, a cidade
renasce: muitos ônibus, pessoas apressadas, os jornais na banca com a novela do cotidiano.
Merda para todo o lado”
Era dia, e Geovana se sentia a pessoa mais feliz do mundo.
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Carne frita
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Então ela acordou, ergueu o tronco, colocou os pequenos pés no chão e respirou fundo.
Ainda sentada na beirada da cama pegou um copo d´água no criado-mudo. A cama e o criado-
mudo mobiliavam o quarto, a janela era vedada por jornais, esse era toda o reino de Gabriela.
Uma lâmpada crua, pendurada pelos fios, iluminava as paredes: fissuras, mofo e tinta
descascada decoravam sua vida e harmonizavam o lar. A parede também ostentava um círculo
de cor mais clara, onde um dia houvera um relógio. No momento em que Gabriela optou por
ser independente de tudo, tirou as horas dali.
Calculou ser depois do meio-dia, tamanho o calor e o cheiro que inundava o ambiente:
o azedo do tempo incrustado e bife fritando com alho. Teve fome. Bebeu de um gole a água e
cuspiu dentro do copo toda a fumaça, o álcool e os paus da noite anterior.
Levantou-se.
Colocou uma camiseta — Vote Maluf — e calça de moletom. O cabelo
despenteado, olhos inchados, batom borrado. Uma mulher tão sensual quanto uma bacia de
quiabos, para atravessar o corredor da pensão. Gabriela achava que desfilando horrores
evitava o olhar constrangedor de qualquer bebâdo que morasse por ali. Ou os comentários e
toques de Irineu, filho da dona da pensão, um adulto retardado cujo braço era do tamanho do
tronco de Gabriela. Irineu tentava ser carinhoso, mas tinha a mão rebuscada de trabalho
pesado e nenhuma habilidade com as palavras.
Assim que abriu a porta, Gabriela percebeu Irineu ali, parado, em frente à escada. O
cigarro fedido, enrolado porcamente em papel engordurado, pendia dos dedos e soltava uma
fumaça amarelada que se condensava quando cruzava com os poucos raios de luz que
invadiam a pocilga. Gabriela respirou fundo. Teria que cruzar Irineu para chegar até o
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banheiro.
Grudou os olhos no chão e com passos lentos, quase sem tirar os pés dos tacos de
madeira, foi em frente. Nunca teria coragem de fechar a porta na cara de Irineu, tinha certa
pena simpática pela ingenuidade do rapaz. Era um brutamontes constantemente acossado pela
mãe, a quem Gabriela considerava uma bruxa: apostaria que a caveira magra fora coberta por
pele de frango, não fossem as manchas roxas e uma ou outra protuberância negra e coberta de
pêlos que explodiam por todo o corpo. Gabriela às vezes pensava em contar as pequenas
aberrações, pois tinha certeza de que elas mudavam de posição e quantidade. E nada tirava de
sua cabeça que eram essas pequenas bolas negras que exalavam um horrível cheiro de pomada
azeda que acompanhava Dona Birra o tempo todo. O quadro de horror se completava para
Gabriela quando Dona Birra vinha cobrar o aluguel. — Minha filha, o dinheiro do mês minha
filha. Tá sem cliente, minha filha? Parece puta velha — , a voz sufocante, baixa, sinfonia de
pequenos assobios: 60 anos de cigarro. O horror.
Quando cruzou Irineu, Gabriela surpreendera-se. Ele estava imóvel e manteve-se.
Entrou no banheiro. Mijou. Escovou os dentes. O pensamento em Irineu e sua estranha
paralisia. Saiu mais rápido que o costume e o gigantesco corpo ainda estava ali, estátua. O
cigarro já ardia nas falanges, e nem o mais leve dos movimentos. Gabriela teve a certeza de
sentir cheiro de carne queimada. A garota passou rápido por ele e entrou no quarto.
Estranhando.
Trocou-se em alguns minutos. Fumou um cigarro. O cheiro de bife já não era cheiro de
bife. Alguma coisa queimava em algum das centenas de depósitos humanos da vizinhança.
Saiu do quarto e Irineu ainda estava lá. Algo estava muito errado. Aproximou-se do
homem. Olhou nos seus olhos: abertos, vidrados, nem o mais leve movimento. Cutucou um
braços. Nada. Beliscou o lábio inferior. Irineu, endurecido.
Gabriela sorriu. Estava tensa. Desceu as escadas rapidamente. A visão da saleta da
portaria da pensão intrigou-a. Dona Birra congelada com uma vassoura quase a tocar o
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assoalho. Um dos moradores, constantemente bebâdo, entrava pela porta, um pé e uma mão
no chão, para auxiliar o equilíbrio a cada passo. A porta, ainda, emoldurava o mundo parado.
Correu ao boteco da esquina. A fumaça da chapa tomava o lugar: um presunto
enrugado e negro queimava. Na pequena televisão um jogo de futebol: 22 homens como se
fossem bonecos duros. Gabriela pegou uma coxinha, dois pacotes de cigarros e olhou no
relógio de um dos homens. Nem precisava. O tic-tac era mais audível do que nunca. O
tempo passava.
Saiu do boteco com um plano na cabeça e um cigarro na boca. Voltou a pensão.
Segurou Dona Birra pelos braços e arrastou o pequeno corpo até a cozinha. Um cubículo
engordurado no qual latas velhas faziam às vezes de panela e o arroz durava de segunda a
sexta. Gabriela tinha dificuldade em arrastar a velha naquele ambiente, já que os quatro pés
pelos quais estava responsável colavam no chão imundo. Jogou a mulher sobre um saco de
batatas e acendeu o fogão, de onde saíram as piores comidas que tinha provado em toda sua
vida. Colocou a cabeça da mulher dentro do forno e sorriu. — Tchau, minha filha — ,
suspirou, ao deixar a Dona Birra cozinhando.
Subiu as escadas saboreando cada momento daquele dia tão especial. Ao deparar-se com
Irineu, tocou seu rosto bruto com as costas da mão. Arrepiou-se toda, e teve a certeza de os
olhos estanques iluminaram-se. Um beijo molhado na boca antes de entrar no quarto.
Fumou, saboreando tragos lentos e despretensiosos. Deitou-se com a certeza de tudo
estaria normal na hora que acordasse. Talvez melhor. Ela teria cigarros para a semana inteira e
sem Dona Birra.
Gabriela sonhou naquela noite com um imenso campo de grama azul-clara e cheiro de
morangos. Ela era pequena, mas não criança. Corria, jamais cansava-se. Estava sozinha, nunca
solitária.
Livre, só acordou com as sirenes na rua e o inferno que estava a casa.
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Cego
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Matias nunca tinha visto um cadáver, e muito menos dividido a cama com um. Mas
estava escuro, muito escuro.
Os passos eram secos e cuidadosos. Resmungou com o sino que gritava alta
madrugada. Felicitou-se pelo cheiro de menta que exalava da boca, resultado de escovação
trabalhosa.Lamentou seu cabelo, que confessava tragadas, e o pau, úmido. Odiou uma
eventual marca pelo corpo, mas isso, só amanhã. Estava escuro, muito escuro. Acordaria antes
da mulher e acabaria com qualquer pista visível. O resto, discute-se.
Ao sentar-se na cama, chutou alguma coisa. O barulho, metálico. Fosse outra situação,
acordaria a mulher cobrando-lhe o desleixo. Deixou por menos.
Acertou o despertador apenas com o tato e a experiência. Acordaria antes de todos,
tomaria banho, atrás de qualquer marca ao olho, se arrumaria como um homem bom, não
aquela coisa despenteada e suja que precisava dormir. Deitou-se de roupa, e não tocou a
mulher.
O sono correu pesado, sem problemas. A manhã começou vermelha. A cama, o quarto,
a mulher estavam cobertos de sangue. Não era a morte que importava para ela, mas sim
garantir uma imagem aterrorizante e inesquecível para o resto da vida de Matias. Estava
escuro, muito escuro.
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