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VALDIRA
MEIRA
CARDOSO
DE
SOUZA
“SEDE
DE
NOMEADA:”
O
AMOR
DA
GLÓRIA
NA
PRODUÇÃO
LITERÁRIA
DE
MACHADO
DE
ASSIS
ASSIS
2007
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VALDIRA
MEIRA
CARDOSO
DE
SOUZA
“SEDE
DE
NOMEADA:”
O
AMOR
DA
GLÓRIA
NA
PRODUÇÃO
LITERÁRIA
DE
MACHADO
DE
ASSIS
Tese apresentada à Faculdade de
Ciências e Letras de Assis UNESP
Universidade Estadual Paulista para a
obtenção do título de Doutor em Letras
(Área de Conhecimento: Literatura e
vida social).
Orientadora: Profa. Dra. Cleide Antonia
Rapucci
ASSIS
2007
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S729s Souza, Valdira Meira Cardoso de.
Sede de nomeada: o amor da glória na produção
literária
de Machado de Assis / Valdira Meira Cardoso de
Souza. –
Assis: UNESP, 2007.
166f.
Orientadora: Profª Drª Cleide Antonia Rapucci.
Tese (Doutorado) – Universidade Estadual Paulista,
Programa de Pós Graduação em Letras, 2007.
1. Literatura brasileira. 2. Machado de Assis
obras. 3. Intertextualidade. I. UNESP. II. Rapucci,
Cleide Antonia. III. Título.
CDD: 809.92381
VALDIRA
MEIRA
CARDOSO
DE
SOUZA
“SEDE
DE
NOMEADA
NA
PRODIÇÃO
LITERÁRIA
DE
MACHADO
DE
ASSIS
Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis UNESP Universidade
Estadual Paulista para a obtenção do tulo de Doutor em Letras (Área de
Conhecimento: Literatura e vida social)
COMISSÃO EXAMINADORA
Profa. Dra. Cleide Antonia Rapucci(UNESP/Assis)
Profa. Dra. Maria de Lourdes Ortiz Gandine Baldan (UNESP/Araraquara)
Profa. Dra. Regina Célia dos Santos Alves (UEL/Londrina)
Prof. Dr. Luiz Roberto Velloso Cairo (UNESP/Assis)
Profa. Dra. Daniella Mantarro Callipo (UNESP/Assis)
Assis, 10 de julho de 2007
Ao meu esposo Edvaldo,
Que participou de um momento tão singular
em minha carreira profissional, compartilhou
da experiência de execução deste projeto,
sempre ao meu lado, adotando como seu
este sonho e acreditando que seria possível.
AGRADECIMENTOS
Manifesto minha gratidão a todas as pessoas que contribuíram para a
realização deste trabalho:
ao autor da minha Fé: Jesus. Amigo inseparável, Maravilhoso, Conselheiro,
Deus Forte: a Ele a Honra, a Glória e o Louvor;
aos meus pais, esposo, sobrinhos, tias e irmãos, especialmente a Joás Meira
Cardoso, pelo incentivo, compreensão, apoio emocional e espiritual;
à Profa. Dra. Cleide Antonia Rapucci, minha orientadora, que cumpriu o seu
papel e soube orientar esta pesquisa com objetividade, sabedoria e sensibilidade;
aos professores, Dr. Luiz Roberto Velloso Cairo, do Departamento de
Literatura, Dra. Daniela Callipo do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de
Ciências e Letras de Assis, pelo incentivo e pelas valiosas sugestões para este
trabalho;
aos colegas do Departamento de Ciências Humanas e Letras (Jequié), da
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, especialmente a Dra. Maria Afonsina
Ferreira Matos;
aos colegas do Departamento de Estudos Lingüísticos e Literários (Vitória da
Conquista) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, especialmente aos
professores Dr. Diógenes Cândido de Lima, Maria da Glória Cardoso Chéquer e Msc.
Mariângela Borba Santos;
às colegas e amigas pelas discussões teóricas e literárias, em especial Dra.
Lea Mara Vallese e Dra. Neriney Meira Carneiro Belline;
aos funcionários da Biblioteca da Universidade Estadual do Sudoeste da
Bahia, especialmente à bibliotecária Gabriela de Souza da Silva;
aos funcionários da Biblioteca da Faculdade de Ciências e Letras de Assis,
especialmente à bibliotecária Lucelena Alevato.
Somos tão presunçosos que desejaríamos ser
conhecidos por toda a Terra, e mesmo por aqueles
que existirem quando não formos deste mundo; e
somos tão vãos que a estima de cinco ou seis
pessoas que nos rodeiam basta para entreter-nos e
contentar-nos. A vaidade está tão fortemente
ancorada no coração do homem que um soldado,
um vagabundo, um cozinheiro, um carregador se
gaba e quer ter os seus admiradores. Os próprios
filósofos não fazem exceção à regra, e os que
escrevem contra isso querem ter a glória de
escrever bem; e aqueles que os lêem querem ter a
glória de haver lido; e eu, que escrevo isto, não me
eximo talvez dessa intenção; e quem sabe se os que
me lerem... .
Pascal
SOUZA, Valdira Meira Cardoso de. “SEDE DE NOMEADA:” O “AMOR DA GLÓRIA NA
PRODUÇÃO LITERÁRIA DE MACHADO DE ASSIS.” Assis: 2007. 166 f. Tese
(Doutorado) Faculdade de Ciências e Letras de Assis UNESP Universidade
Estadual Paulista, Assis, 2007.
RESUMO
A “sede de nomeada” ou o “amor da glória” é um tema que se repete na obra de
Machado de Assis. O objetivo deste trabalho é analisar a ação das personagens
machadianas que buscam a “nomeada.” Partimos do pressuposto de que na busca da
glória, as personagens tentam construir uma imagem social vencedora. Por meio do
elemento temático identificamos as relações intertextuais estabelecidas entre o
romance Memórias póstumas de Brás Cubas e as outras narrativas que constituem o
corpus desta pesquisa, a saber: “O alienista, “O segredo do bonzo”, “A sereníssima
República,” “Conto alexandrino,” “Cantigas de esponsais,” “Um homem célebre” e
“Teoria do medalhão”. A seleção das narrativas literárias foi baseada nas semelhanças
das estratégias empregadas pelas personagens para alcançar a fama. Para realização
desta proposta utilizamos noções básicas inerentes ao tema e à crítica temática.
Abordamos os princípios teóricos referentes à intertextualidade que apoiaram as
análises literárias desenvolvidas nesta pesquisa. Por fim, foram estudadas as
concepções de personagem e narrador como elementos da narrativa ficcional.
PALAVRAS
-
CHAVE
: Machado de Assis; Crítica temática; “Amor da glória”; Personagem;
Intertextualidade; Narrativa ficcional.
SOUZA, Valdira Meira Cardoso de. “A THIRST FOR FAME”: THE LOVE OF
GLORY IN THE LITERARY PRODUCTION OF MACHADO DE ASSIS.
Assis: 2007. 166 p. Ph. D. Thesis. Faculty of Sciences and Languages. São
Paulo State University.
ABSTRACT
The “thirst for fame” or the " love of glory " is a recurrent theme in the work of Machado
de Assis. The objective of this thesis is to analyze the action of the Machadian
characters in that search for fame. We presume that in the search for glory, the
characters try to build a winning social image. Through the thematic element we have
identified the intertextual relationships established between Memórias póstumas de
Brás Cubas [Posthumous Memoirs of Brás Cubas, often subtitled as The Epitaph of a
Small Winner] and the other narratives that constitute the corpus of this research: "O
alienista, "O segredo do bonzo ", "A sereníssima República," Conto alexandrino,"
"Cantigas de esponsais”, "Um homem célebre" and “Teoria do medalhão”. The
selection of the literary narratives was based on the similarity of the strategies used by
the characters in order to reach fame. For accomplishment of this proposal we have
used basic notions related to theme and to thematic criticism. We approached the
theoretical principles related to intertextuality that supported the literary analyses
developed in this research. Finally, conceptions of character and narrator were studied
as elements of the fictional narrative.
KEY WORDS: Machado de Assis; Thematic criticism; " Love of glory;" Character;
Intertextuality; Fictional Narrative.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...............................................................................................................11
CAPÍTULO I...................................................................................................................21
1
REITERAÇÃO
TEMÁTICA:
“SEDE
DE
NOMEADA”
NA
PRODUÇÃO
LITERÁRIA
DE
MACHADO
DE
ASSIS......................................................................21
CAPÍTULO II..................................................................................................................46
2
PROPOSIÇÕES
TEÓRICAS.....................................................................................46
2.1
Temática: Algumas Considerações......................................................................46
2.2 Intertextualidade: Noções Básicas......................................................................50
2.3 Categorias Narrativas: Modo e Voz.....................................................................57
2.3.1 Modo Narrativo...................................................................................................57
2.3.2 Enunciação Narrativa: Voz................................................................................60
2.4 A Personagem Na Narrativa Ficcional...........................................................
....
..62
CAPÍTULO III ................................................................................................................70
3
PSEUDOEXPERIÊNCIAS:
MEMÓRIAS
PÓSTUMAS
DE
BRÁS
CUBAS,
O
ALIENISTA”
,
“O
SEGREDO
DO
BONZO”,
A
SERENÍSSIMA
REPÚBLICA”
E
“CONTO
ALEXANDRINO”....................................................................................70
CAPÍTULO IV...............................................................................................................116
4
UMA
PRODUÇÃO
ORIGINAL
ESCRITURA
E
MÚSICA:
MEMÓRIAS
PÓSTUMAS
DE
BRÁS
CUBAS,
“CANTIGAS
DE
ESPONSAIS”
E
“UM
HOMEM
CÉLEBRE”..................................................................................................................116
CAPÍTULO V................................................................................................................140
5
UM
LEGADO
PATERNO:
MEMÓRIAS
PÓSTUMAS
DE
BRÁS
CUBA
E
“TEORIA
DO
MEDALHÃO”
APROXIMAÇÕES.....................................................................140
CONCLUSÃO ........................................................................................................ .....162
REFERÊNCIAS............................................................................................................166
11
INTRODUÇÃO
[...] Se puserdes as mais sublimes
virtudes e os mais profundos
conhecimentos em um sujeito solitário,
remoto de todo contato com outros
homens, é como se eles não existissem.
Os frutos de uma laranjeira, se ninguém
os gostar, valem tanto como as urzes e
plantas bravias, e, se ninguém os vir, não
valem nada; ou por outras palavras
enérgicas, não espetáculo sem
espectador.
Machado de Assis
Machado de Assis aborda vários temas em sua criação literária, muitos dos
quais são retomados, “virados e revirados,” na expressão de Lucia Miguel Pereira.
Dentre eles, veremos que o tema da “sede de nomeada” não ocorre de forma gratuita
na ficção machadiana. Buscando compreender esse aspecto, algumas indagações se
impõem: qual o significado da recorrência desse tema em várias obras do escritor?
Ou ainda, qual a interpretação possível para a busca da “nomeada” pelas
personagens esses seres ficcionais? Nossa hipótese está formulada da seguinte
maneira: uma das razões para a busca da “nomeada” pelas personagens
machadianas reside na tentativa da construção de uma imagem social vencedora
porque, para elas, o que tem valor em suas existências são a fama, a admiração, o
louvor, visto que, longe do olhar do outro não há glória e, para atingi-la, usam
estratégias variadas, não se importando com os meios se eles são éticos ou não,
repetindo assim a máxima maquiavélica em que “os fins justificam os meios.”
A “nomeada” pode ser definida como o amor que cada personagem dedica a si
própria, revelando a preocupação em apresentar ao outro uma imagem de vencedor.
São elas próprias (as personagens machadianas) responsáveis pela definição do que
seja o “amor da glória.” A confissão de Brás Cubas, do romance homônimo, esclarece
12
o significado do termo “nomeada,” aqui tomado de empréstimo para desenvolver esta
pesquisa:
Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-
se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro [...].
Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime,
um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica
humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do
governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei
aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de
um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou
do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu
principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores,
folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras:
Emplasto
1
Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do
cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me argúam esse defeito;
fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a
minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o
público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede
de nomeada. Digamos: amor da glória. (ASSIS, 1997, v.1, 515, grifo do
autor).
A busca da “nomeada” configura-se como principal objetivo de muitas
personagens do universo ficcional machadiano, pois representa a mola que
impulsiona a ação, porque a vida para elas é “representação,” na medida em que
estejam em evidência a vida é um “espetáculo” ao qual não pode faltar o
“espectador.” A necessidade de um palco para a “representação” das personagens
pode ser percebida, por exemplo, nos contos “A chinela turca” e “O segredo do
bonzo.” No primeiro, destacamos uma afirmação que encerra o conto e traduz o
desejo de aplauso da personagem: “o melhor drama está no espectador e não no
palco” (ASSIS, 1997, v.2, p.303); no segundo texto, a confissão do bonzo Pomada,
personagem/filósofo afirma:
Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos
em um sujeito solitário, remoto de todo contato com outros homens, é como
se eles não existissem. Os frutos de uma laranjeira, se ninguém os gostar,
valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguém os vir, não
valem nada; ou, por outras palavras mais enérgicas, não espetáculo sem
espectador. (ASSIS, 1997, v.2, p.324-5, grifo nosso).
1
Optamos por empregar o termo “emplasto”, tal qual aparece na edição da Nova Aguilar, 2007, utilizada em todo este
trabalho. FACIOLI (2002, p.8) alude à terminologia “emplasto” empregada por Machado de Assis e explica que
possui o mesmo significado de “emplastro”, ou seja, era colado ao corpo para atenuar dores musculares. O estudioso
trata ainda da expressão “emplasto hipocondríaco” compreendendo-a como uma invenção de Brás Cubas e como uma
“impostura de charlatão, ou como uma picaretagem, como se diria hoje.”
13
As declarações das personagens apresentadas acima (Brás Cubas, Duarte e o
bonzo Pomada) revelam que a fama e o aplauso representam o que de mais
valioso para elas. Mas por que Machado de Assis teria se dedicado à criação de
personagens tão amantes de si próprias, tão vaidosas? Observando sua obra literária
podemos encontrar algumas sugestões de respostas para tal questão: em primeiro
lugar, a preocupação do autor sempre esteve voltada para a análise do ser humano,
com seus conflitos e aspirações; em segundo lugar, Machado de Assis procura
desmascarar os sentimentos mais íntimos do ser humano, revelando objetivos e
intenções ocultas; o escritor também é um observador da conduta humana, e por isso
demonstra que as personagens trazem a “sede de nomeada” dissimulada em suas
atitudes porque “[...] o amor da glória é a cousa mais verdadeiramente humana que
no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição
(ASSIS, 1997, v.1,
p.515). A “sede de nomeada” aparece aliada à busca de ascensão social em quase
todas as narrativas machadianas aqui analisadas, além do que reflete a necessidade
que muitas personagens têm de estar em evidência, de “brilhar.”
Ao longo deste trabalho tentaremos comprovar por meio das análises literárias
que a “idéia fixa” de nomeada” constitui um dos fundamentos das personagens
machadianas. Com base nesse pressuposto, analisaremos os variados matizes nos
quais a busca da glória é revelada na ação das personagens.
Alguns estudiosos demonstraram a necessidade que várias personagens
machadianas sentem de estar em evidência. Nos rastros deixados por Lúcia Miguel
Pereira em seus estudos, identificamos tal aspecto e, ao referir-se ao conto “O
espelho,” a estudiosa afirma: “o homem precisa sair de si, pôr-se em contato com o
mundo, ver-se em função deste para se manter em equilíbrio” (1939, p.228).
Certamente as observações da estudiosa são pertinentes à maioria das obras que
trazem personagens ávidas pela “nomeada,” porque poderão alcançá-la no
momento em que são aplaudidas.
Dirce Cortes Riedel, ao analisar a obra machadiana, parte do pressuposto de
que várias personagens apresentam uma “[...] sensibilidade carnavalesca” (1974,
p.95). A estudiosa analisa os processos pelos quais Machado de Assis realiza a
14
carnavalização literária em suas obras, tanto em romances quanto nos contos. Outros
elementos apontados por Dirce C. Riedel estão relacionados ao emprego da polifonia,
do dialogismo, da paródia e da sátira. A condução dos estudos machadianos
realizada por ela fundamenta-se na metáfora como elemento estruturador. Nessa
perspectiva, aparece a figura do “medalhão” definida como
[...] uma metáfora-programa, que se concretiza no comportamento da
maioria dos personagens machadianos que alcançam prestígio social,
levantando-se ‘acima da obscuridade comum e firmando-se como
ornamento indispensável’ da sociedade. (RIEDEL, 1974, p.95).
Compartilhamos da concepção da estudiosa ao apontar a preocupação das
personagens machadianas em sair da obscuridade. No caso dos textos estudados
por ela, os contos “O espelho,” “Teoria do medalhão” e os romances Quincas Borba e
Memórias póstumas de Brás Cubas, a busca da “nomeada” se justamente por
meio da figura do medalhão. Já em nossos estudos selecionamos as narrativas
Memórias póstumas de Brás Cubas, “O alienista,” “O segredo do bonzo,” “A
sereníssima república,” Conto alexandrino,” Cantigas de esponsais,” “Um homem
célebre” e “Teoria do medalhão” que serão trabalhadas numa perspectiva diversa,
primeiro porque nosso estudo não será fundamentado na teoria da metáfora, embora
não discordemos dessa pesquisa, e segundo, estabeleceremos as relações
intertextuais na obra de Machado de Assis tomando por base a análise de outras
imagens; além desses aspectos, ampliaremos o número de narrativas e as imagens
serem estudadas a do charlatão, do falso cientista, do músico, do escritor, entre
outras.
Alfredo Bosi, por sua vez, ao referir-se ao conto “O espelho,” analisa o
desempenho social da personagem, cujo comportamento está intimamente ligado ao
fato de ser admirado, de estar em evidência: “O espelho’ é matriz de uma certeza
machadiana que poderia formular-se assim: consistência no desempenho do
papel social; aquém da cena pública a alma humana é dúbia e veleitária” (1999,
p.102). Concordamos com a afirmação de A. Bosi, posto que sinaliza para a ação da
personagem (Alferes Jacobina/“O espelho”) fundamentada na necessidade do
15
aplauso e da admiração, aspecto que observamos em vários contos machadianos e
que apontaremos no desenrolar desta tese.
Iniciamos nossos estudos a respeito da “nomeada” na obra machadiana
quando realizávamos nossas leituras para a elaboração da dissertação de Mestrado,
O papel do leitor no conto fantástico de Machado de Assis
2
, defendida no ano de
1998, na qual analisamos os contos “Uma excursão milagrosa” e “A chinela turca.”
Nas referidas narrativas, a ação de algumas personagens está voltada para um único
objetivo: alcançar a “nomeada.” Embora não tenhamos aprofundado esse tema em
nossa dissertação, alguns aspectos referentes a essa questão foram analisados,
como por exemplo, a busca incessante de “nomeada” das personagens por meio da
arte poética e dramática.
Nesta pesquisa optamos pelo estudo das ações das personagens e do
narrador machadianos porque tais elementos nos permitem estabelecer
aproximações entre as narrativas. Após a leitura das mesmas, percebemos que havia
uma invariante que servia de elo entre os textos: o tema da “sede de nomeada.”
Embora variem as estratégias e as circunstâncias, o objetivo das personagens
permanece o mesmo em várias narrativas: sair da obscuridade. Tomando por base as
relações intertextuais, foi possível estabelecer a seleção dos textos literários e
teóricos que compõem o corpus deste trabalho.
A abordagem das relações intertextuais na obra machadiana foi empreendida
por alguns estudiosos que, no entanto, seguem uma perspectiva diferenciada da
proposta deste trabalho. Gilberto Pinheiro Passos, por exemplo, aponta a presença
de relações intertextuais na obra de Machado de Assis e identifica a presença
francesa nos romances Memórias póstumas de Brás Cubas, Esaú e Jacó, Memorial