no bairro; diziam que não gastava mais de uma quarta parte dos vencimentos,
emprestava a juros outra quarta parte, e aferrolhava o resto. A mãe possuía uma casa:
era um bom casamento para Henriqueta. Ela, porém, recusou; deu como razão que não
simpatizava com o pretendente, e era isso mesmo. A mãe disse-lhe que a simpatia viria
depois; e, uma vez que ele não lhe repugnava, podia casar. Conselhos vãos; Henriqueta
declarou que só casaria com quem lhe merecesse. O candidato ficou triste, e foi verter a
melancolia no seio da irmã de Henriqueta, que não só acolheu a melancolia, como
principalmente o melancólico, e os dous casaram-se no fim de três meses.
— Então? dizia Henriqueta rindo. O casamento e a mortalha... Eu, pela minha parte, fiquei
contente com a recusa da moça; mas, ainda assim, não atinei se era isto uma sensação
de amor. Vieram as férias, e fui para o Sul.
No ano seguinte, tornei à casa de D. Cora. Já então a outra filha estava casada, e ela
morava só com Henriqueta. A ausência tinha feito adormecer em mim o sentimento mal
expresso do ano anterior, mas a vista da moça acendeu-o outra vez, e então não tive
dúvida, conheci o meu estado, e deixei-me ir.
Henriqueta, porém, estava mudada. Ela era alegre, muito alegre, tão alegre como a mãe.
Vivia cantando; quando não cantava, espalhava tanta vida em volta de si, que era como
se a casa estivesse cheia de gente. Achei-a outra; não triste, não silenciosa, mas com
intervalos de preocupação e cisma. Achei-a, digo mal; no momento da chegada apenas
tive uma impressão leve e rápida de mudança; o meu próprio sentimento encheu o ar
ambiente, e não me permitiu fazer logo a comparação e a análise.
Continuamos a vida de outro tempo. Eu ia conversar com elas, à noite, às vezes os três
sós, outras vezes com alguma pessoa conhecida da vizinhança. No quarto ou quinto dia,
vi ali um personagem novo. Era um homem de trinta anos, mais ou menos, bem-parecido.
Era dono de uma farmácia do Engenho Velho, e chamava-se Fausto. Éramos os únicos
homens, e não só não nos vimos com prazer, mas até estou que nos repugnamos
intimamente um ao outro.
Henriqueta não me pareceu que o tratasse de um modo especial. Ouvia-o com prazer,
acho eu; mas não me ouvia com desgosto ou aborrecimento, e a igualdade das maneiras
tranqüilizou-me nos primeiros dias. No fim de uma semana, notei alguma cousa mais. Os
olhos de ambos procuravam-se, demoravam-se ou fugiam, tudo de um modo suspeito.
Era claro que, ou já se queriam, ou caminhavam para lá.
Fiquei desesperado. Chamei-me todos os nomes feios: tolo, parvo, maricas, tudo.
Gostava de Henriqueta, desde o ano anterior, vivia perto dela, não lhe disse nada; éramos
como estranhos. Vem um homem estranho, que nunca a vira provavelmente, e fez-se
ousado. Compreendi que a resolução era tudo, ou quase tudo. Entretanto, refleti que