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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
ANDRÉ LUIZ DOS SANTOS
CAMINHOS DE ALGUNS FICCIONISTAS BRASILEIROS APÓS AS
IMPRESSÕES DE LEITURA DE LIMA BARRETO
RIO DE JANEIRO
2007
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ANDRÉ LUIZ DOS SANTOS
CAMINHOS DE ALGUNS FICCIONISTAS BRASILEIROS APÓS AS
IMPRESSÕES DE LEITURA DE LIMA BARRETO
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Letras (Literatura Brasileira),
Faculdade de Letras, Universidade Federal do
Rio de Janeiro, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do título de Doutor em
Letras Vernáculas, Área de Concentração:
Literatura Brasileira.
Orientadora: Professora Drª Rosa Maria de
Carvalho Gens.
RIO DE JANEIRO
2007
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Santos, André Luiz dos.
Caminhos de alguns ficcionistas brasileiros após as
Impressões de Leitura de Lima Barreto / André Luiz dos
Santos. Rio de Janeiro, 2007.
Xi, 182f.
Tese (Doutorado em Letras – Literatura Brasileira) –
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de
Letras, 2007.
2. Ficcionistas brasileiros. 2. Impressões de Leitura
3. Lima Barreto – Teses.
Gens, Rosa Maria de Carvalho (Orient.). II.
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Faculdade
de Letras. III. Caminhos de alguns ficcionistas brasileiros após as Impressões
de Leitura de Lima Barreto.
ANDRÉ LUIZ DOS SANTOS
CAMINHOS DE ALGUNS FICCIONISTAS BRASILEIROS APÓS AS
IMPRESSÕES DE LEITURA DE LIMA BARRETO
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Letras Vernáculas (Literatura
Brasileira), Faculdade de Letras, Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de
Doutor em Letras Vernáculas, Área de
Concentração: Literatura Brasileira.
Rio de Janeiro, ____ de _________ de 2007.
_________________________________________________
Rosa Maria de Carvalho Gens (Orientadora), Doutora, UFRJ
________________________________________________
Elódia Xavier, Doutora, UFRJ
________________________________________________
Sérgio Martagão Gesteira, Doutor, UFRJ
________________________________________________
Beatriz de Vieira Resende, Doutora, UNIRIO
________________________________________________
Ana Cristina de Rezende Chiara, Doutora, UERJ
Para meus pais: Heitor Nascimento dos Santos e
Maria Moreira dos Santos.
Às queridas irmãs: Marceli Moreira dos Santos
D’Almeida e Daniele Moreira dos Santos.
Thiago José, mesmo distante é uma presença
diária.
Pedro Henrique, uma presença constante.
Ana Beatriz, “entre meus erros, uma imprevista
verdade, esta é minha explicação”.
Marlene, minha companheira, minha confidente,
minha orientação.
Agradeço:
À Professora Doutora Vera Lúcia Follain de Figueiredo, que nas aulas
no Instituto de Letras da UERJ me mostrou a beleza da literatura.
Aos Bibliotecários Maria Inez Maia Oliveto (Biblioteca José de Alencar
Faculdade de Letras da UFRJ) e Sergio Eiras (Biblioteca Bastos
Tigre – Associação Brasileira de Imprensa).
Aos Professores do Doutorado da UFRJ, cujos cursos alimentaram o
interesse pela literatura.
À Professora Beatriz Resende e ao Professor Sérgio Gesteira, que
estiveram presentes no Exame de Qualificação desta Tese.
Aos Professores que compõem esta Banca, pela presença generosa.
À minha orientadora, Professora Doutora Rosa Maria de Carvalho
Gens, pelas sugestões e pelo respeito com que tratou as idéias
desenvolvidas nesta Tese.
À minha família, pela compreensão nas inúmeras ausências, nas
leituras solitárias e nas idas incontáveis aos acervos das Bibliotecas
em busca de material para desenvolver a pesquisa.
Ao apoio institucional do CNPq, que me concedeu bolsa de estudos,
sem a qual este trabalho não seria realizado.
“Saber que será a obra que se não fará nunca. Pior, porém, será
a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será
pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha
vizinha aleijada. Essa planta é a alegria dela, e também por vezes a
minha. O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns
momentos de distração de pior a um ou outro espírito magoado ou
triste. Tanto me basta, ou me não basta, mas serve de alguma
maneira, e assim é toda a vida.”
Fernando Pessoa (In: Livro do desassossego, p. 55-6).
RESUMO
SANTOS, André Luiz dos. Caminhos de alguns ficcionistas brasileiros após as
Impressões de Leitura de Lima Barreto. Rio de Janeiro, 2007. Tese (Doutorado em
Letras Área de Concentração: Literatura Brasileira) Faculdade de Letras.
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.
Este estudo traz ao conhecimento do público leitor a literatura desconhecida
de alguns escritores do início do século XX. A partir do livro de críticas de Lima
Barreto Impressões de Leitura -, que trata de artigos lançados na imprensa por
ocasião da publicação dos autores estreantes, traça-se um corpus que pesquisa os
romancistas. O critério para decidir os escritores a serem estudados é orientado
pelo teor crítico assinalado por Lima Barreto e pela repercussão das obras na
época de seus lançamentos no mercado editorial. Assim, os autores selecionados
para esta revisitação são: Domingos Ribeiro Filho, Albertina Bertha e Enéas
Ferraz. O primeiro, com o romance O Cravo Vermelho, publicação de 1907.
Albertina Bertha, autora mais conhecida dos três, com o romance Exaltação,
lançado em 1916. E, por último, Enéas Ferraz, com o romance História de João
Crispim, de 1922. Do estudo de O Cravo Vermelho, além de ressaltar a
permanência do tema amor na literatura do início do século XX, surge a
possibilidade de analisar as crônicas do autor, também desconhecidas e
publicadas na Revista Careta, no período de 1919 a 1934. Com a leitura de
Exaltação, nasce o interesse por rever o papel da mulher na sociedade brasileira,
visto que o romance é a voz ficcional que clama pela libertação dos desejos
femininos. Com História de João Crispim, ressurge Lima Barreto, pois o romance
de Enéas Ferraz é uma biografia romanceada do autor de Triste Fim de Policarpo
Quaresma. Desse percurso, conclui-se que o passado historiográfico da literatura
brasileira precisa ser revisto.
ABSTRACT
SANTOS, André Luiz dos. Caminhos de alguns ficcionistas brasileiros após as
Impressões de Leitura de Lima Barreto. Rio de Janeiro, 2007. Tese (Doutorado em
Letras Área de Concentração: Literatura Brasileira) Faculdade de Letras.
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.
This study brings to the public reader’s knowledge, the unknown literature of
some writers from the beginning of the twentieth century. From Lima Barreto’s
critiques book, called Impressões de Leitura, that treats of entried articles in the
printing, by the occasion of the beguinners authors’ publishing. It draws a scenery
that search the novelists. The criterion used to decide the writers to be studied, is
guided in the critical content marked by Lima Barreto and the repercussion of the
literary compositions, in the date of their entry in the editorial market. Thus, the
selected authors to be analyzed again are: Domingos Ribeiro Filho, Albertina
Bertha and Enéas Ferraz. The first, with the romance O Cravo Vermelho,
publication of 1907. Albertina Bertha, the authoress most knew among the three,
with the romance Exaltação, published in 1916. Finally, Enéas Ferraz, with the
romance História de João Crispim, from 1922. In the study of O Cravo Vermelho,
beyond emphasizing the permanence of the love theme in the literature from the
beginning of the twentieth century, arises the possibility of analyzing the author’s
chronicles, also unknown and published in the magazine called Revista Careta, in
the period from 1919 to 1934. Reading Exaltação, borns the interest of seeing
again the women’s role in the brazilian society. The romance is the voice that
claims for the feminine’s wishes liberation. With the book História de João Crispim,
Lima Barreto reappears, because the romance of Enéas Ferraz is a biography
novelized from the author of Triste Fim de Policarpo Quaresma. By this route, we
can conclude that the brazilian literature’s past historygraphic shall be reviewed.
RESUMEN
SANTOS, André Luiz dos. Caminhos de alguns ficcionistas brasileiros após as
Impressões de Leitura de Lima Barreto. Rio de Janeiro, 2007. Tese (Doutorado em
Letras Área de Concentração: Literatura Brasileira) Faculdade de Letras.
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.
Este estudio trae el conocimiento del público lector la literatura desconocida
de algunos escritores del inicio del siglo XX. A partir del libro de críticas de Lima
Barreto Impressões de Leitura que trata de los artículos lanzados por la
imprensa en ocasión de la publicación de los autores nuevos, se puede trazar un
corpus que pesquisa los novelistas. El criterio para decidir cúales los escritores que
van a ser estudiados es orientado por el tenor crítico asignado por Lima Barreto y
por la repercusión de las obras en la época de sus lanzamientos en el mercado
editorial. Siendo así, los autores seleccionados para esta revista son: Domingos
Ribeiro Filho, Albertina Bertha y Enéas Ferraz. El primero, con la novela O Cravo
Vermelho, publicación de 1907. Albertina Bertha, autora más conocida de los tres,
con la novela Exaltação, lanzada en 1916. Por último Enéas Ferraz, con la História
de João Crispim, 1922. De el estudio de O Cravo Vermelho, además de destacar la
permanencia del tema amor en la literatura del inicio del siglo XX, surge la
posibilidad de analizar las crónicas del autor, también desconocidas e publicadas
en la Revista Careta, en lo período de 1919 a 1934. Con la lectura de Exaltação,
nace il interés en rever el papel de la mujer en la sociedad brasileña, ya que la
novela es la voz de una ficción que llama por la litertación de los deseos
femeninos. Con la História de João Crispim, surge de nuevo Lima Barreto, pues la
novela de Enéas Ferraz es una biografía con la misma forma del autor de Triste
Fim de Policarpo Quaresma. De todo el percurso, se puede concluyr que el pasado
de la história de la literatura brasileña necesita de una revisión.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO........................................................................................................ 10
1 A LITERATURA DE DOMINGOS RIBEIRO FILHO............................................ 19
1.1
O CRAVO VERMELHO:
UM CASO DE AMOR REJEITADO NA LITERATURA
BRASILEIRA........................................................................................................... 19
1.2 DOMINGOS RIBEIRO FILHO CRONISTA...................................................... 49
2 A EXALTAÇÃO DE ALBERTINA BERTHA...................................................... 79
2.1 A PRESENÇA DE ALBERTINA BERTHA NA LITERATURA BRASILEIRA…..79
2.2 EXALTAÇÃO: NARRATIVA EXALTADA.......................................................... 95
3 HISTÓRIA DE JOÃO CRISPIM: UMA BIOGRAFIA ROMANCEADA DE LIMA
BARRETO............................................................................................................ 117
3.1 A LITERATURA DESCONHECIDA DE ENÉAS FERRAZ....... ………...…... 117
3.2 JOÃO CRISPIM: PERSONAGEM INSPIRADO EM LIMA BARRETO...…… 125
CONCLUSÃO....................................................................................................... 148
REFERÊNCIAS.................................................................................................... 154
APÊNDICES......................................................................................................... 162
ANEXO................................................................................................................. 179
INTRODUÇÃO
O livro Impressões de Leitura, de Afonso Henriques de Lima Barreto, é um
volume que reúne artigos com comentários sobre autores de variados gêneros do
início do século XX. Publicado em 1953 pela Editora Mérito S. A., com o título de
Marginália, agregou três coletâneas distintas: I Marginália; II Impressões de
Leitura; III Mágoas e Sonhos do Povo. Em 1956, com a edição das Obras
Completas pela Editora Brasiliense, Impressões de Leitura passa a ser publicado
como um único volume independente do título Marginália e Mágoas e Sonhos do
Povo, este último incorporado ao volume Coisas do Reino de Jambom, e o primeiro
também separado, classificado como um livro de crônicas.
Este curioso livro trata de críticas feitas por Lima Barreto a diversos
escritores, atendendo a diversos gêneros, como: ensaios, discurso, culinária,
religião, estudos, dissertação, crônicas, peças teatrais, contos, poesias e romances,
totalizando sessenta e nove artigos. O livro em questão é o ponto motivador para o
estudo de autores desconhecidos do público, com o intuito de resgatar tais obras. O
teor dos artigos de Lima Barreto assume, quase que na totalidade, o critério de
apresentação do texto, apontando carências no delineamento dos personagens,
ausência de profundidade na análise das questões da vida que os textos elucidam,
tudo isso dito com delicadeza. Em seu papel de crítico, parece sempre disposto a
apontar as qualidades inerentes. As observações destacadas têm como
característica resenhar os enredos, muitas vezes aprofundando; outras sendo mais
objetivo e resumido.
O próprio Lima Barreto, por meio de sua colaboração no jornal A.B.C., teceu
o nome Impressões de Leitura para a coluna em que comentava as obras recebidas
dos autores estreantes. A quantidade de livros enviados a Lima Barreto comprova o
respeito com que o escritor foi tratado em vida, uma vez que os livros eram
remetidos pelos autores com pedidos de opinião. O crítico rigoroso preocupou-se
em responder a todas as solicitações, o que aponta para uma generosidade
incontestável:
Temo muito transformar esta minha colaboração no A.B.C., em crônica
literária; mas recebo tantas obras e a minha vida é de tal irregularidade, a
ponto de atingir as minhas algibeiras, que, na impossibilidade de acusar
logo o recebimento das obras, me vejo na contingência de fazê-lo por este
modo, a fim de não parecer inteiramente grosseiro. (BARRETO, 1956b, p.
149).
Como se pode observar, a citação mostra que Lima Barreto foi um homem
atencioso para com os autores estreantes, apesar da angústia em administrar as
dificuldades de sua própria existência. Este sentimento está presente até o final de
sua vida. Em artigo publicado três meses antes de sua morte, encontra-se o
seguinte depoimento sobre “Livros”:
Recebo-os às pencas, daqui e de acolá.
O meu desejo era dar notícia deles, que fosse nesta ou naquela revista;
mas também o meu intuito era noticiá-los honestamente, isto é, depois de
tê-los lido e refletido sobre o que eles dizem. Infelizmente não posso fazer
isso com a presteza que a ansiedade dos autores pedem. A minha vida, se
não é afanosa, é tumultuária e irregular, e a vou levando assim como Deus
quer. (BARRETO, 1956b, p. 69-0).
Do total de sessenta e nove trabalhos comentados pelo escritor, como
mencionado, esta tese deter-se-á sobre os títulos que considero tratados com mais
atenção por Lima Barreto. Para a composição desta proposta foram deixados de
lado, inicialmente, cinqüenta e três títulos. Os critérios adotados eliminaram os
ensaios, que totalizam vinte e um títulos; um livro sobre culinária; um livro sobre
religião; um discurso; um livro sobre estudos; dois livros sobre crônicas; as peças
teatrais, num total de sete; os contos, representados por nove escritores; os
volumes de poesias, totalizando nove; uma dissertação (verificar quadro no
apêndice A, na página 162).
Os contos e as peças teatrais, por seus estilos próprios e diferentes do
romance, gênero este que é o objetivo deste estudo, também não serão incluídos.
Os livros sobre culinária, religião, discurso, estudos, crônicas e ensaios serão
descartados neste trabalho. Quanto às poesias, apesar de sua reconhecida
importância, o que mereceria um outro estudo, não serão contempladas.
Ainda, quanto ao gênero poesia, um obstáculo lançado pelo próprio Lima
Barreto, que se considerava incapaz para analisá-las, reafirmando sua atitude de
atenção para com os escritores estreantes:
Interrompendo o estudo de vários livros que me têm dado a honra de
mandar os seus autores, vou tratar aqui muito brevemente, de dois poetas,
cujos trabalhos tiveram a bondade de me oferecer. É uma bela exceção que
abro, porque jurei jamais dizer publicamente sobre obras poéticas; e, se as
abro, é devido à encantadora mocidade de ambos e o desejo de animá-los,
pois sei bem qual o destino que os seus trabalhos vão ter nas redações dos
jornais. Não desprezo a poesia; mas nada conheço de sua técnica, dos
seus processos, das suas escolas, das suas regras, enfim. Sou, portanto,
perfeitamente incompetente para falar de livros de versos, de criticá-los, de
dizer alguma coisa séria e digna de apreço sobre eles. Demais a
musicalidade própria às poesias, faz-me perder aquilo que querem exprimir,
para ficar embalado unicamente na sua música.(BARRETO, 1956b, p. 221-
22).
Retomando à quantidade de obras apreciadas por Lima Barreto, sessenta e
nove no total, retiradas as cinqüenta e três em um recorte inicial, restaram dezesseis
títulos, todos romances. Foi adotada a opção de trabalhar apenas com as obras dos
autores em que Lima Barreto delineia sua crítica de maneira minuciosa.
Enfim, se chega a melhores condições de delimitar o material desta tese.
Como a finalidade é reavaliar autores que não são contemplados pela crítica literária
contemporânea, analisar-se-iam estes livros com satisfação, no entanto, como se
deve atender a um limite realizável, a alternativa encontrada é atentar para um
número restrito, oferecendo possibilidades favoráveis para o aprofundamento da
questão.
Assim, depois da leitura deste pré-corpus, ou seja, os dezesseis romances, e
de uma atenção sobre os percursos desses escritores e obras após as publicações
e a análise de Lima Barreto, chegou-se à decisão de que os autores Domingos
Ribeiro Filho, Albertina Bertha e Enéas Ferraz, por não terem alcançado respaldo
por parte de leitores, como o caso do primeiro e do último autores citados, e de
críticos de seu tempo, o que se evidencia em Ribeiro Filho, serão objetos desta
revisitação. No caso de Albertina Bertha, apesar do público ter tido acesso a sua
obra no período da publicação, o que sugere pensar que o livro foi lido, seu nome
não é tão discutido na contemporaneidade.
Os capítulos foram divididos obedecendo à ordem cronológica das
publicações, logo O Cravo Vermelho, de Domingos Ribeiro Filho, publicado em
1907, será analisado no primeiro capítulo, seguido de Exaltação, de Albertina
Bertha, publicação de 1916, e História de João Crispim, de Enéas Ferraz, aparecido
no mesmo ano da Semana de Arte Moderna, isto é, 1922. Após a pesquisa nos
periódicos da época, procurou-se confrontar as posições críticas com os romances.
Tal proposta analisa os textos atualizando a grafia do tempo de suas publicações.
Como são obras do início do século XX, fica evidente a dificuldade de
encontrá-las nas Bibliotecas. A dificuldade também foi grande quanto à fortuna
crítica sobre esses autores. Pelo que pude pesquisar, não existe nenhum trabalho
que trate das obras dos autores que são objeto desta tese. A obra de Domingos
Ribeiro Filho feliz!, Vãs Torturas, Miserere, Uma paixão de mulher não
pode ser encontrada nem mesmo na Biblioteca Nacional. O romance que será
objeto de análise do primeiro capítulo deste trabalho O Cravo Vermelho foi
encontrado na Biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ.
Quanto à obra de Albertina Bertha, os romances Exaltação, interesse de
estudo do segundo capítulo e Voleta, com edição recente, foram encontrados
também na Biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ. O romance E ela brincou
com a vida foi localizado na Biblioteca Nacional.
Enéas Ferraz teve seu romance Adolescência Tropical republicado em 1978
pela Academia Paulista de Letras, e pude ter acesso a um volume na Biblioteca da
Faculdade de Letras da UFRJ. O romance Uma Família Carioca foi localizado na
Biblioteca Nacional. O livro de contos Crianças Mortas foi localizado também na
Biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ. Porém, o livro que inspira a análise do
terceiro capítulo desta tese História de João Crispim pode ser encontrado
na Biblioteca Nacional, o que me impôs fazer inúmeras visitas àquela Biblioteca,
nas várias leituras que necessitei fazer da obra. Não que seja indesejável freqüentar
a Biblioteca Nacional, um dos raros e gratuitos prazeres que a nossa cultura ainda
oferece, mas além das incontáveis greves porque aquela instituição passa, outro
problema foi mais árduo de suportar, ou seja, muitas vezes o livro consultado em um
dia, no outro desaparecia misteriosamente, o que me obrigava a retornar várias
vezes, em semanas subseqüentes, para tentar completar a leitura interrompida. Ao
ler o livro Horas de Leitura, de Brito Broca, pude compreender que o
desaparecimento misterioso de alguns tulos acontecia algum tempo, com
possivelmente muitas pessoas. Assim informa Brito Broca:
As bibliografias de Adolfo Caminha registram como obra de estréia do
escritor cearense Judite e Lágrimas de um Crente (contos), 1887. Lúcia
Miguel-Pereira, na sua História da Literatura Brasileira Prosa de Ficção,
diz não ter podido ler esse livro, por não existir nenhum exemplar nem
mesmo na Biblioteca Nacional. Lembro-me, no entanto, de, por volta de
1942, haver percorrido ligeiramente ali o referido volume, numa
brochurazinha muito ordinária. Todos nós sabemos o que são os segredos
da Biblioteca Nacional, onde obras que consultamos um dia desaparecem
às vezes para sempre. Lúcia Miguel-Pereira foi procurar o livro,
naturalmente depois de 1942, e dele nem mais rastro teria
encontrado.(BROCA, 1957, p. 225).
Parece que fui mais feliz do que a nossa Pesquisadora Lúcia Miguel-Pereira.
Apesar do desgaste, este segredo da Biblioteca Nacional foi desencantado e os
romances puderam ser lidos.
Além disso, é preciso esclarecer que nos itens dos capítulos, onde
especificamente procuro tratar dos romances, foi necessário fazer citações
extensas, visto serem textos de autores praticamente desconhecidos. Esta forma de
analisar não teve outra intenção a não ser construir para a Banca Examinadora as
imagens das narrativas.
No capítulo 1, intitulado “A literatura de Domingos Ribeiro Filho”, procuro, na
primeira parte, tratar do romance O cravo vermelho. O enredo é de estruturação
simples e facilmente compreendida. É o caso de amor entre Leonel e Carolina.
Como o rapaz demora por declarar-se, sua prima Laura chega do norte e arrebata o
seu amor. Praticamente envolvido com essa nova presença feminina em sua vida,
Leonel não tem alternativa a não ser casar-se. Mas, na outra ponta do triângulo está
Carolina. A moça, arrependida por não ter se declarado a Leonel, passa a viver uma
profunda tristeza, o que termina por deixá-la enferma. Em contrapartida, a vida
conjugal de Leonel começa a apresentar uma série de crises, o que acaba na
dissolução do casamento e o reenlace com Carolina.
Ainda neste mesmo capítulo, na segunda parte, instigado pelo comentário de
Astrojildo Pereira, publicado no jornal Diretrizes, por ocasião da morte de Domingos
Ribeiro Filho, quando diz ser o escritor mais importante pelas crônicas que publicou
que propriamente pelos