Download PDF
ads:
232
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de
Trompenaars (1994) Predominantes na Área de
Controladoria em Empresas Familiares do Ramo
Têxtil
Vanderlei dos Santos
1
Ilse Maria Beuren
2
Nelson Hein
3
Ananias Francisco dos Santos
4
Resumo
O estudo objetiva identificar os tipos de análise da cultura organizacional de
Trompenaars (1994) predominantes na área de controladoria em empresas
familiares do ramo têxtil. Realizou-se pesquisa descritiva, com abordagem
qualitativa e quantitativa, por meio de um estudo multicasos. Os dados foram
coletados através de entrevista com o controller das empresas. Em relação aos
quatro tipos básicos de cultura sugeridos por Trompenaars (1994), conclui-se que
não existe um tipo puro, mas há forte presença da cultura familiar entre as empresas
pesquisadas nas dimensões Relação entre Empregados, Atitude em Relação à
Autoridade, Formas de Mudanças, Formas de Motivação e Recompensa.
Palavras-chave: Cultura organizacional. Tipologia de Trompenaars.
Controladoria.
1 Introdução
Aspectos comportamentais e culturais das organizações são temas am-
plamente pesquisados na área da Administração. Entretanto, o relacionamento
1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis da Universidade Regional de Blumenau - FURB. Endereço: Rua Antônio
da Veiga, 140 - Sala D 202 – Bairro Victor Konder. CEP 89012-900 – Blumenau/SC. E-mail: [email protected].
2
Doutora em Controladoria e Contabilidade pela FEA/USP. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis da Universidade
Regional de Blumenau – FURB. Endereço: Rua Antônio da Veiga, 140 – Sala D 202 – Bairro Victor Konder. CEP 89012-900 – Blumenau/
SC. E-mail: [email protected].
3
Doutor em Engenharia de Produção pela EPS/UFSC. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis da Universidade
Regional de Blumenau - FURB. Endereço: Rua Antônio da Veiga, 140 – Sala D 202 – Bairro Victor Konder. CEP 89012-900 – Blumenau/
SC. E-mail: [email protected].
4
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis da Universidade Regional de Blumenau – FURB. Endereço: Rua
Antônio da Veiga, 140 – Sala D 202 – Bairro Victor Konder. CEP 89012-900 – Blumenau/SC. E-mail: [email protected].
Artigo recebido em: 11/04/2010. Aceito em: 05/06/2010. Membro do Corpo Editorial Científico responsável pelo processo editorial: Rolando
Juan Soliz Estrada.
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
233
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
entre a cultura organizacional e as práticas contábeis nas empresas é um tema
ainda pouco explorado nas áreas das Ciências Contábeis. Em algumas situa-
ções, o setor contábil de uma organização funciona de acordo com as neces-
sidades culturais, as quais envolvem o ambiente onde a organização está
inserida (TARIFA, 2008).
Tarifa (2007) pesquisou a relação entre a cultura organizacional e as
práticas de controladoria de uma empresa de capital aberto da cidade de
Londrina, estado do Paraná. As práticas de controladoria da empresa foram
identificadas com base nas etapas de planejamento, controle e execução. Para
a avaliação da cultura organizacional da controladoria da empresa, utilizou
o Modelo de Valores Competitivos de Cameron e Quinn (1999), aplicado
aos colaboradores das áreas administrativas, financeiras, contábeis e de cus-
tos. Concluiu que a cultura organizacional identificada por meio das estrutu-
ras de crenças e valores que sustenta as características da empresa influencia
as práticas de controladoria na companhia de café solúvel, ficando visíveis
as classificações atuais de cultura hierárquica e ideais de cultura de clã, se-
gundo o modelo de Cameron e Quinn (1999).
Santos, Almeida e Crozatti (2007) pesquisaram o processo de
institucionalização da área organizacional de controladoria e a influência da
psicologia humana e da cultura organizacional. Trata-se de um ensaio fun-
damentado em pesquisa bibliográfica. Observaram que os indivíduos têm
suas ações caracterizadas por processos psicológicos e fatores socioculturais,
os quais exercem papel relevante na institucionalização da área organizacional
da controladoria e para entender como são formadas as demais instituições
nas organizações.
Freitag et al. (2008) investigaram como a cultura influencia a opção
por práticas da contabilidade gerencial, especificamente na utilização de ins-
trumentos como orçamento e custeio. Foram pesquisados dois arranjos pro-
dutivos locais (APLs). Aplicaram questionário em 43 grupos empresariais da
Região Metropolitana de Curitiba e em 26 grupos empresariais localizados
no Município de Terra Roxa, no Paraná. Verificaram que a busca de melho-
res resultados por meio de instrumentos contábeis para a gestão de custos e
a utilização de orçamentos como forma de controle são características das
empresas em que o gestor possui qualificação de nível superior na área de
negócios. Também constataram que a cultura predominante em cada região
é decisiva para a adoção das práticas de orçamento e custeio.
Observa-se nesses estudos que há relacionamento entre cultura e as
práticas contábeis adotadas pelas organizações. Conforme Schneider (1996),
ads:
234
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
a cultura da empresa é o elemento essencial para ela chegar ao sucesso
organizacional, porque é em si que estão centrados seus valores, crenças,
regras de funcionamento e procedimentos internos. As características cultu-
rais estão presentes em todos os setores das organizações, dentre eles, a área
organizacional denominada controladoria.
Mosimann e Fisch (1999) visualizam a controladoria sob dois enfoques:
a) como órgão administrativo, com missão, funções e princípios norteadores
definidos no modelo de gestão do sistema empresa; b) como área do conhe-
cimento humano, com fundamentos, conceitos, princípios e métodos advindos
de outras ciências. No primeiro enfoque, a controladoria representa um ór-
gão formalmente constituído na estrutura da empresa, com funções
estabelecidas, tendo por finalidade garantir informações adequadas ao pro-
cesso decisório. O segundo enfoque, como área do conhecimento humano,
representa um conjunto de princípios, procedimentos e métodos das ciênci-
as da administração, economia, psicologia, estatística, contabilidade, no qual
se ocupa da gestão econômica das empresas, com o objetivo de orientá-las
para eficácia.
Há várias formas de se analisar a cultura no ambiente organizacional,
chamadas de tipologias de cultura organizacional. Destaca-se neste estudo a
tipologia de Trompenaars (1994), que sugere a existência de quatro tipos
básicos de organizações: cultura familiar, cultura torre Eiffel, cultura míssil
guiado e cultura incubadora. Esses tipos de culturas empresariais variam con-
sideravelmente na forma como as empresas pensam e aprendem, como se
modificam e motivam, recompensam e solucionam conflitos. Leal, Souza e
Rocha (2008) investigaram as características mais preponderantes dos tipos
de culturas propostos por Trompenaars (1994) de uma fábrica de fertilizan-
tes situada no estado da Bahia. De acordo com os autores, a organização
estudada evidenciou traços mais marcantes das culturas Torre Eiffel e Famili-
ar e alguns traços da cultura Míssil Guiado e Incubadora.
Diante do exposto, elaborou-se a seguinte questão-problema: Quais os
tipos culturais da tipologia de Trompenaars (1994) são predominantes na
área organizacional controladoria em empresas familiares do ramo têxtil?
Nesse intuito, o estudo objetiva identificar os tipos de análise da cultura
organizacional de Trompenaars (1994) predominantes na área de
controladoria em empresas familiares do ramo têxtil.
A pesquisa justifica-se por relacionar a cultura organizacional com a
área de controladoria, tema que ainda requer mais estudos para desvendar
235
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
os reflexos da cultura no funcionamento dessa área organizacional. Portanto,
a pesquisa pretende contribuir para o conhecimento da relação da cultura e
as práticas da controladoria em empresas. A motivação do estudo decorre do
fato desse tipo de estudo não estar amplamente discutido no Brasil, poden-
do contribuir para maiores esclarecimentos.
O estudo está organizado em seis seções, iniciando com esta introdu-
ção. Na sequência, apresenta a plataforma teórica, com uma contextualização
de cultura organizacional e a exposição da tipologia de Trompenaars. Após,
demonstra o método e os procedimentos da pesquisa. Em seguida, apresen-
ta os resultados da pesquisa efetuada em três empresas do ramo têxtil que
possuem a área organizacional controladoria. Por fim, expõe as conclusões
do estudo realizado e recomendações para futuras pesquisas sobre o tema
investigado.
2 Tipos de Análise da Cultura Organizacional Segundo
Trompenaars (1994)
Cultura organizacional é conceituada por Schein (1984, p. 93) como
sendo “um conjunto de pressupostos básicos que determinado grupo inven-
tou, descobriu ou desenvolveu ao aprender a lidar com os problemas de
adaptação” ao meio externo e de integração e organização interna, e que
funcionaram bem o suficiente para serem considerados válidos e ensinados
aos novos membros como a maneira correta de perceber, pensar e agir em
relação a esses problemas.
De acordo com Trompenaars (1994), a cultura é a maneira por meio da
qual um grupo de pessoas resolve problemas. Ela se apresenta em diferentes
níveis. No nível mais alto, encontra-se a cultura de uma sociedade nacional
ou regional, francesa ou europeia, ocidental versus oriental. Em seguida,
consta a cultura empresarial ou organizacional, que é a forma como as atitu-
des são expressas dentro de uma organização específica. Por último, há a
cultura de certos departamentos das organizações, como marketing,
controladoria, pesquisa e desenvolvimento. A tendência das pessoas de de-
partamentos é compartilhar determinadas orientações profissionais e éticas.
Há várias formas de se analisar a cultura no ambiente organizacional,
denominadas de tipologias de cultura organizacional. O presente estudo foi
236
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
baseado nos estudos de Trompenaars (1994), o qual é abordado nos tópicos
seguintes. Trompenaars (1994) propôs primeiramente uma análise cultural
inter-relações, e, em segundo lugar, uma tipologia para análise organizacional,
sendo esta o foco deste estudo. Para construir uma tipologia de análise da
cultura organizacional, isto é, voltada para o estudo de organizações e não
de nações, o autor sugere o uso de duas dimensões: a) igualdade versus
hierarquia; e b) orientações em relação às pessoas versus tarefas.
Conforme Trompenaars (1994, p. 144),
[...] essas dimensões permitem definir quatro tipos de cul-
turas empresariais, que variam consideravelmente na for-
ma como as empresas pensam e aprendem, como se mo-
dificam e motivam, recompensam e solucionam conflitos.
Os quatros tipos podem ser descritos da seguinte forma: a Família (cultu-
ra voltada ao poder), a Torre Eiffel (cultura orientada à função), o Míssil Guia-
do (cultura voltada ao projeto) e a Incubadora (cultura voltada à satisfação).
Conforme Trompenaars (1994), a cultura familiar possui caráter pesso-
al com relações próximas, porém, é ao mesmo tempo hierárquica, tendo uma
cultura voltada ao poder. Na cultura do tipo Torre Eiffel, as relações são im-
pessoais e a hierarquia está baseada nos cargos e não nas pessoas. Na cultu-
ra míssil guiado, há mais igualdade entre as pessoas, porém, possui certo
grau de impessoalidade, com ênfase nos objetivos estratégicos da organiza-
ção. Já na cultura do tipo Incubadora, os objetivos organizacionais estão su-
bordinados aos objetivos pessoais do grupo, trata-se de uma cultura mais
igualitária e voltada à pessoa.
Trompenaars (1994, p. 144) ressalta que
[...] esses tipos de culturas empresariais são “ideais”. Na
prática, os tipos são misturados ou sobrepostos por uma
cultura dominante. Entretanto, essa separação é útil para
explorar a base de cada tipo em termos de como os em-
pregados aprendem, mudam, solucionam conflitos, recom-
pensam, motivam, etc.
As características das quatro culturas empresariais propostas por
Trompenaars (1994) estão sintetizadas no Quadro 1.
237
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
Relações
entre empre-
gados.
Atitude em
relação à
autoridade.
Formas de
pensamento e
aprendizado.
Atitude em
relação às
pessoas.
Formas de
mudança.
Formas de
motivação e
recompensa.
Reprovação
e resolução
de conflitos.
Família
Relações difusas
com o todo
orgânico ao qual
está relacionado.
Status atribuído
aos pais que são
próximos e
poderosos.
Intuitiva,
holística, lateral e
corretora de erros.
Membros da
família.
O “pai” muda o
curso.
Satisfação
intrínseca em ser
amado e respeita-
do.
Administração
por aspectos
subjetivos. Dar a
outra face, limpar
a barra dos
outros, não
perder o jogo do
poder.
Torre Eiffel
Papel específico
no sistema
mecânico de
interações neces-
sárias.
Status atribuído
aos papéis superi-
ores que são
distantes, embora
poderosos.
gica, analítica,
vertical e racional-
mente eficiente.
Recursos huma-
nos.
Modifica regras e
procedimentos.
Promoção a uma
posição melhor,
papel mais amplo.
Administração por
descrição do
trabalho. A crítica
é acusação de
irracionalismo, a
não ser que
existam procedi-
mentos para
arbitrar o conflito.
Míssil Guiado
Tarefas específicas
no sistema
cibernético,
visando objetivos
compartilhados.
O status alcançado
por meio dos
membros do grupo
do projeto, que
contribuem para as
metas almejadas.
Centrada em
problemas,
profissional,
prática,
interdisciplinar.
Especialistas.
Troca de objetivos
à medida que a
meta se desloca.
Remuneração ou
crédito pelo
desempenho e
problemas resolvi-
dos.
Administração por
objetivos.
Construtiva e
relacionada à
tarefa apenas, só
depois admite o
erro e corrige
rapidamente.
Incubadora
Difusa, relações
espontâneas
crescendo a
partir do
processo
criativo com-
partilhado.
Status alcança-
do pelos
indivíduos que
são exemplos
de criatividade
e crescimento.
Voltada ao
processo,
criativa, ad hoc
e inspiracional.
Cocriadores.
Improvisa e
inova.
Participa do
processo de
criação de
novas realida-
des.
Administração
pelo entusias-
mo. Deve
aprimorar a
criatividade, e
não negá-la.
Quadro 1: As características dos tipos culturais de Trompenaars
Fonte: Trompenaars (1994, p. 166)
238
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
Na sequência, apresentam-se com maiores detalhes as características
dos quatro tipos de cultura organizacional propostos por Trompenaars (1994).
2.1 Cultura Familiar
Neste tipo, a cultura é voltada ao poder: o líder é considerado um pai
carinhoso que sabe mais do que seus subordinados, o que deve ser feito e o
que é bom para eles. A ideia é sempre fazer mais do que a obrigação imposta
por um contrato ou acordo. A relação com a empresa é de devoção a longo
prazo. O líder da cultura Familiar cria o padrão, define o tom, serve de mode-
lo para a postura apropriada dentro da empresa e espera que os subordina-
dos estejam sintonizados “no mesmo comprimento da onda”, sabendo intui-
tivamente o que é necessário (TROMPENAARS, 1994).
As relações tendem a ser difusas. O pai ou o irmão mais velho influen-
cia todas as situações, independente de ter conhecimento do problema ou
não, do evento ocorrer no trabalho, na cantina ou no caminho para casa e
até de existir alguém melhor qualificado. A empresa se preocupa com os fun-
cionários, com o fato de seus salários serem suficientes para que vivam ade-
quadamente (TROMPENAARS, 1994).
As decisões neste tipo de cultura devem ser tomadas pela pessoa de
maior autoridade presente. Também quase não há limite para as responsabi-
lidades da empresa em relação aos seus funcionários. Isso se estende até
mesmo ao local onde moram. Há a ideia de quanto mais a empresa fizer pela
família de seus subordinados, mais sua família desejará que o responsável
pelo seu sustento faça pela empresa. A cultura familiar está mais interessada
no conhecimento intuitivo do que no racional, mais preocupada com o de-
senvolvimento das pessoas do que com seu aproveitamento ou utilização.
A pessoa que está fazendo alguma coisa é mais importante do que o que está
sendo feito (TROMPENAARS, 1994).
Como os membros da família apreciam suas relações, podem se sentir
mais motivados pela apreciação do que por dinheiro. Dificilmente se adap-
tam à remuneração pelo desempenho ou a qualquer outra forma de motiva-
ção que ameace os laços familiares. A resolução do conflito depende da ha-
bilidade do líder. As críticas raramente são expressas publicamente. O mode-
lo familiar dá baixa prioridade à eficiência (fazer certo as coisas), mas alta
prioridade à eficácia (fazer as coisas certas) (TROMPENAARS, 1994).
239
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
Machado e Carvalho (2008) resumem este tipo de cultura mencionan-
do que se trata de uma cultura pessoal, com relações próximas e diretas,
mas, ao mesmo tempo, hierárquica. Esta cultura é voltada ao poder exercido
pelo líder considerado como um pai experiente, responsável e bondoso.
2.2 Cultura Torre Eiffel
Neste tipo, a cultura é orientada à função. Sua hierarquia é muito dife-
rente da utilizada na familiar. Os níveis mais altos possuem a função clara e
demonstrável de manter os níveis inferiores unidos. O objetivo racional da
empresa é transmitido ao subordinado por meio do chefe: este possui autori-
dade legal para dizer o que aquele deve fazer, cujo contrato de serviços, ex-
plícita ou implicitamente, obriga-o a trabalhar de acordo com essas instru-
ções. O trabalho é definido formalmente e sua execução é avaliada de acor-
do com essa definição. Pouco é deixado a cargo da sorte ou das idiossincrasias
dos indivíduos (TROMPENAARS, 1994).
Machado e Carvalho (2008) enfatizam que se refere ao tipo de organi-
zação caracterizado como burocracia formal, com divisão de trabalho, no qual
cada um é responsável pela execução de seu papel. Há um extremo
racionalismo, de acordo com métodos e regras, e a hierarquia está baseada
nos cargos e não nas pessoas.
Quase tudo o que a cultura Familiar aceita, a Torre Eiffel rejeita.
As relações pessoais são propensas a atrapalhar os julgamentos, criar favori-
tismos, multiplicar exceções às regras e obscurecer as fronteiras claras entre
funções e responsabilidades. Todas as funções em todos os níveis da hierar-
quia são descritas e classificadas segundo sua dificuldade, complexidade e
responsabilidade, e existe um salário associado a cada uma delas. Ao consi-
derar candidatos para ocupação de determinada vaga, o departamento de
pessoal tratará todos de forma semelhante e neutra, comparará as habilida-
des e aptidões de cada pessoa aos requisitos do cargo e o dará a quem me-
lhor se adequar à função. Igual procedimento é seguido nas avaliações e
promoções (TROMPENAARS, 1994).
As pessoas são consideradas semelhantes aos recursos de capital e cai-
xa. Pessoas com qualificações conhecidas podem ser planejadas, programa-
das, utilizadas e recarregadas por conjunto de técnicas, como qualquer enti-
dade física. A função do planejamento da mão de obra, centros de avalia-
ção, sistemas de avaliação, esquemas de treinamento e rotatividade de car-
240
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
gos é ajudar na classificação e produzir recursos para a adequação às fun-
ções conhecidas (TROMPENAARS, 1994).
A mudança na Torre Eiffel é efetuada por meio de regras de mudança.
Junto com qualquer alteração do propósito da empresa, devem ocorrer mu-
danças nas exigências formais feitas aos empregados. A mudança na cultura
do tipo Torre Eiffel é imensamente complexa e leva muito tempo. É preciso
reescrever manuais, modificar procedimentos, alterar descrições de cargos,
reconsiderar promoções, reavaliar qualificações. Essas empresas resistem à
mudança e, quando ela se torna inevitável, sofrem transtornos como
consequência. Os conflitos são considerados irracionais, patologias do pro-
cedimento organizado, ofensas contra a eficiência. As críticas e reclamações
são normalmente canalizadas e tratadas por meio de outras regras e procedi-
mentos para levantamento dos fatos (TROMPENAARS, 1994).
2.3 Cultura Míssil Guiado
Neste tipo, a cultura é voltada ao projeto. Caracteriza-se por ser iguali-
tária, impessoal e voltada à tarefa. O racional nesta cultura está nos fins.
É preciso fazer todo possível para manter seu intento estratégico e alcançar
seu objetivo. A cultura do míssil guiado é voltada às tarefas, tipicamente exe-
cutadas por equipes ou grupos de projetos. Difere da cultura funcional por-
que os trabalhos executados pelos membros não são fixados com antece-
dência. Eles devem fazer o que é preciso para concluir uma tarefa
(TROMPENAARS, 1994).
As culturas do tipo Míssil Guiado são caras, porque os profissionais são
caros. Os grupos tendem a ser temporários; as relações possuem a mesma
duração do projeto e são altamente instrumentais no que se refere a concluí-
lo. O critério de valor humano na cultura do tipo Míssil Guiado é como você
se sai e até que ponto contribui para o resultado final desejado por todos.
Na verdade, todos os membros do grupo compartilham a resolução dos pro-
blemas (TROMPENAARS, 1994).
Frequentemente a avaliação é feita pelos colegas ou subordinados, e
não por alguém que ocupa uma posição mais alta na hierarquia. A mudança
ocorre rapidamente na cultura do tipo míssil guiado. A meta se movimenta,
novas metas surgem, novos grupos são formados, antigos grupos são dissol-
vidos. Frequentemente, os que passam de um grupo para outro também pas-
sam de um trabalho para outro, de forma que a rotatividade tende a ser alta
241
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
e a lealdade à profissão e ao projeto é maior do que a lealdade à empresa.
Em muitos aspectos, a cultura do tipo míssil guiado é a antítese da cultura
familiar, na qual os laços são próximos e as ligações são duradouras e envol-
vem profunda afeição (TROMPENAARS, 1994).
A motivação tende a ser intrínseca, isto é, os membros da equipe se
entusiasmam, se identificam e lutam pelo produto final. Esta cultura tende a
ser individualista, porque permite que uma ampla variedade de pessoas com
especializações diferentes trabalhem juntas temporariamente. Os rostos es-
tão sempre mudando. Apenas a busca das linhas de desenvolvimento pesso-
al escolhidas é constante. A administração por objetivos é a linguagem fala-
da e as pessoas são remuneradas pelo desempenho (TROMPENAARS, 1994).
No geral, constata-se que neste tipo de organização há mais igualdade
entre as pessoas do que nas culturas tipo Torre Eiffel, porém, a ela se asseme-
lha em seu grau de impessoalidade. O racionalismo desta cultura, ao contrá-
rio da Torre Eiffel, que enfatiza os cargos, ressalta os objetivos estratégicos da
organização. Assim, os indivíduos trabalham em grupos, mas sem roteiros
nem procedimentos pré-definidos, ou seja, devem agir como a situação exi-
gir, contanto que atinjam suas metas (MACHADO; CARVALHO, 2008).
2.4 Cultura Incubadora
Neste tipo, a cultura é voltada à satisfação. Baseia-se na ideia existenci-
al de que as empresas são secundárias à satisfação dos indivíduos. As fun-
ções das pessoas na incubadora são cruciais. Elas estão lá para confirmar,
criticar, desenvolver, encontrar recursos e ajudar a concluir o produto ou ser-
viço inovador (TROMPENAARS, 1994).
Geralmente, essas empresas são empreendedoras ou fundadas por uma
equipe criativa que saiu de uma empresa maior, um pouco antes do fecha-
mento das portas. Como são individualistas, essas pessoas não são limitadas
pela lealdade à empresa. Possuem uma estrutura e hierarquia mínima. Essa
autoridade, de fazer com que os indivíduos executem comandos, é estrita-
mente pessoal. Geralmente as incubadoras operam em um ambiente de in-
tenso compromisso emocional (TROMPENAARS, 1994).
Frequentemente, a motivação é sincera, intrínseca e intensa. Há uma
competição quanto a contribuir com o surgimento de algo novo. Todos que-
rem colocar as mãos no negócio. Não há grande preocupação com a segu-
rança pessoal e poucos querem se aproveitar ou ficar de fora do processo
242
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
criativo em expansão. A liderança, na Incubadora, é conquistada, e não atri-
buída. Os conflitos são resolvidos pela divisão do grupo ou pela tentativa de
propostas alternativas, a fim de verificar qual funciona melhor
(TROMPENAARS, 1994).
Em síntese, as organizações da cultura Incubadora moldam-se com o
objetivo final de possibilitar a realização pessoal de seus indivíduos, isto é,
os objetivos organizacionais estão subordinados aos objetivos pessoais do
grupo. Essas organizações são ao mesmo tempo pessoais e igualitárias, isto
é, são voltadas para as pessoas, mas todas as pessoas são vistas como iguais,
sem regalias ou preconceitos individuais (MACHADO; CARVALHO, 2008).
Trompenaars (1994) ressalta que as empresas não são totalmente
enquadráveis em uma das tipologias propostas, mas tendem a se apresentar
como uma mistura das características de cada tipologia, porém com maior
intensidade de um tipo específico. Afirma que as empresas bem-sucedidas
utilizam características de todos os tipos e lutam incessantemente para conciliá-
las. Conforme o autor, as empresas menores, onde quer que estejam locali-
zadas, são mais propensas a tomar a forma Familiar e de Incubadora.
As empresas maiores, que precisam de estrutura coerente, são mais propen-
sas a optar pela Torre Eiffel ou Míssil Guiado.
3 Método e Técnicas da Pesquisa
O presente estudo foi desenvolvido por meio de pesquisa descritiva
com abordagem qualitativa e quantitativa. Conforme Cervo e Bervian (1996,
p. 66), “a pesquisa descritiva observa, analisa e correlaciona fatos ou fenôme-
nos (variáveis) sem manipulá-los”. Afirmam ainda que a pesquisa descritiva “pro-
cura descobrir, com a previsão possível, a frequência com que um fenômeno
ocorre, sua relação e conexão com outros, sua natureza e características”.
Abordagem qualitativa foi utilizada na primeira etapa da pesquisa, para
decodificar as entrevistas realizadas. De acordo com Richardson (1999), a
pesquisa qualitativa descreve a complexidade de determinado problema,
analisa a interação de certas variáveis, compreende e classifica processos di-
nâmicos vividos por grupos sociais. Destaca que ela pode contribuir no pro-
cesso de mudança de determinado grupo e possibilita, em maior nível de
profundidade, o entendimento das particularidades do comportamento dos
indivíduos.
243
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
Na segunda etapa da pesquisa, foi adotada a abordagem quantitativa
para o agrupamento dos dados conforme as dimensões dos tipos de cultura
propostos por Trompenaars (1994) e a identificação da tipologia de cultura
prevalecente nas empresas pesquisadas. O método quantitativo
[...] representa, em princípio, a intenção de garantir a pre-
cisão dos resultados, evitar distorções de análise e inter-
pretação, possibilitando, consequentemente, uma margem
de segurança quanto às inferências (RICHARDSON,
1999, p. 70).
A pesquisa descritiva foi realizada por meio de um estudo multicasos.
Conforme Triviños (1987), o estudo multicasos diferencia-se do estudo com-
parativo de casos por propiciar ao pesquisador a possibilidade de estudar
dois ou mais sujeitos, organizações, sem a necessidade de perseguir objeti-
vos de natureza comparativa. Foram selecionadas três empresas do ramo têxtil,
de origem familiar e que possuem o órgão controladoria formalmente cons-
tituído. As empresas são sociedades anônimas, duas delas (Empresas A e B)
são de capital aberto e outra de capital fechado (Empresa C), sendo que esta
última é coligada de uma organização de capital aberto.
Optou-se por empresas familiares pelo fato de que um dos tipos de cul-
tura da tipologia analisada refere-se à cultura Familiar. Essa opção poderia
sugerir a exclusão das demais tipologias de análise da cultura organizacional,
mas também se considerou na escolha a possibilidade de profissionalização
das empresas e, portanto, podendo assumir outras configurações.
Os dados foram coletados por meio de entrevista com o controller das
empresas. Procurou-se entender o funcionamento da área organizacional
controladoria, sua posição hierárquica, missão, funções, artefatos, forma de
relacionamento com outras áreas e com seus funcionários. Dessa maneira,
verificaram-se aspectos culturais existentes nessa área organizacional e efe-
tuou-se uma classificação nos tipos de culturas propostos por Trompenaars
(1994).
Utilizaram-se as sete dimensões (D) evidenciadas no Quadro 1 da pla-
taforma teórica do estudo para efetuar a classificação nos tipos de culturas
propostos por Trompenaars (1994). Para estas dimensões foram atribuídas
questões, as quais foram investigadas na entrevista, conforme demonstrado
no Quadro 2.
244
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
Relação entre
empregados
D
1
Atitude em
relação à
autoridade
D
2
Formas de
pensamento e
aprendizado
D
3
Atitudes em
relação às
pessoas D
4
Formas de
mudança D
5
Formas de
motivação e
recompensa D
6
Reprovação e
resolução de
conflitos D
7
Média de permanência dos empregados na empresa. Verificação se há
rotatividade ou não.
Verificação se os funcionários estão cientes dos objetivos a serem alcan-
çados na organização.
Forma de convivência dos empregados da controladoria e forma de rela-
cionamento dos empregados da controladoria com os coordenadores e o
controller da empresa.
Reação, comprometimento e participação das pessoas em um processo
de implantação de sistema.
Interferência dos membros da família na controladoria.
Subordinação da controladoria.
Áreas organizacionais em que a controladoria possui algum grau de par-
ticipação e a forma dessa participação.
Poder de tomada de decisão dos coordenadores da controladoria.
Motivação para a criação da controladoria.
Participação da controladoria na tomada de decisão.
Áreas subordinadas à controladoria.
Missão da controladoria.
Objetivos da controladoria.
Forma de acesso e consolidação dos dados entre matriz/filiais.
Áreas de abrangência da controladoria.
Funções e atividades desempenhadas pela controladoria.
Padronização nos procedimentos adotados pela controladoria.
Formação acadêmica dos funcionários e coordenadores da controladoria.
Constatação se há pessoas aptas a substituir uma as outras.
Cargos ocupados pelos membros da família.
Critérios utilizados para promover alguém a um cargo superior ou outra
função.
Forma de seleção dos funcionários da controladoria e responsável pela
decisão.
Responsável pela ideia da criação da controladoria.
Responsáveis pela decisão do uso dos artefatos.
Responsável por mudanças na área organizacional controladoria.
Forma de motivação e recompensa.
Forma de solução de eventuais conflitos.
Maneira como as críticas são expostas e quem as faz.
Quadro 2: Relação das dimensões e das questões pesquisadas
Fonte: Elaborado pelos autores
245
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
Na análise dos dados, desenvolveu-se um modelo apoiado nas ideias
desenvolvidas por Trompenaars (1994) para incrementar o entendimento
da classificação nas dimensões das tipologias de cultura organizacional pro-
postas, além de visualizar e quantificar os resultados obtidos no questionário
utilizado. O ferramental matemático utilizado no desenvolvimento não vai
além de simples artifícios advindos da geometria analítica, que sustentam a
técnica que se apresenta abaixo. Os resultados obtidos podem ser verifica-
dos nas tabelas constantes na descrição e análise dos dados.
Como principal limitação do estudo, destaca-se que os dados da pes-
quisa não podem ser generalizados, ou seja, restringem às empresas
pesquisadas por meio do estudo multicasos. Outra limitação é que a pesqui-
sa abrangeu uma tipologia de cultura existente na literatura, mas há outras
tipologias que podem evidenciar aspectos culturais da área organizacional
controladoria das empresas. Uma terceira limitação refere-se à subjetividade
presente na classificação nos tipos de cultura propostas por Trompenaars
(1994) a partir das respostas das empresas, já que envolve interpretações e
decodificações pessoais por parte do pesquisador.
4 Descrição e Análise dos Dados
Na descrição e análise dos dados, primeiramente apresentam-se a ca-
racterização das empresas pesquisadas e o perfil dos respondentes da pes-
quisa. Após, demonstra-se a classificação do tipo de cultura conforme a
tipologia de Trompenaars (1994) na área organizacional de controladoria
das empresas pesquisadas.
4.1 Caracterização das Empresas Pesquisadas
Apresenta-se no Quadro 3 o perfil das empresas pesquisadas, reportan-
do o início das atividades, mercado de atuação, média de faturamento dos
últimos três anos, número de empregados e nível de governança corporativa.
246
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
Quadro 3: Caracterização das empresas pesquisadas
Fonte: Dados da pesquisa
Verifica-se no Quadro 3 que todas as empresas pesquisadas atuam no
mercado interno e externo. Apenas a empresa A participa de um nível de
governança corporativa, o Novo Mercado. A empresa mais nova é a C, que
já está há 59 anos no mercado, e a mais antiga é a empresa A, existente
desde 1880.
Constata-se que as empresas A e B possuem o mesmo número de fun-
cionários, 4.700 trabalhadores. Enquanto a empresa C possui 2.359. O nú-
mero de funcionários da empresa C é de uma unidade fabril, sendo esta
coligada de uma companhia de capital aberto. Já os dados dos funcionários
das demais são consolidados, considerando todas as unidades da empresa.
4.2 Perfil dos Respondentes da Pesquisa
Demonstra-se no Quadro 4 o perfil dos respondentes, suas funções
denominadas na empresa, tempo na função, idade e formação acadêmica.
Características
Início das atividades
Mercado de Atuação
Média de Faturamento Anual
Número de Empregados
Nível de Governança
Empresa A
1880
Interno e Externo
R$ 447.144 milhões
4.700
Novo Mercado
Empresa B
1926
Interno e Externo
R$ 363.081 milhões
4.700
Não possui
Empresa C
1950
Interno e Externo
R$ 189.700 milhões
2.359
Não possui
Questões
Função
Tempo na função
Idade
Graduação
Pós-Graduação
Empresa A
Controller
6 meses
41 anos
Ciências Contábeis
Finanças. Controladoria.
Empresa B
Gerente de Controladoria
2 anos
46 anos
Ciências Contábeis
Não possui
Empresa C
Controller
5 anos
43 anos
Ciências Contábeis
Não possui
Quadro 4: Perfil dos respondentes
Fonte: Dados da pesquisa
247
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
Constata-se no Quadro 4 que é possível encontrar algumas semelhan-
ças entre os entrevistados: todos os três são formados em ciências contábeis,
praticamente possuem a mesma idade, e suas funções na organização têm
denominações assemelhadas.
Uma diferença encontrada refere-se ao tempo na função. Na Empresa
A, a pessoa que exerce a função de controller está no cargo há seis meses,
demonstrando que esta área organizacional sofreu mudanças recentemente.
Na Empresa B, a pessoa exerce a função de controller há dois anos, entre-
tanto, trabalha na organização há 18 anos. Na Empresa C, a pessoa que está
exercendo a função de responsável pela controladoria o faz há cinco anos.
4.3 Tipo de Cultura Prevalecente em Cada Dimensão da
Tipologia de Trompenaars (1994)
O primeiro procedimento adotado para identificar o tipo de cultural
predominante em cada dimensão proposta por Trompenaars (1994) foi en-
quadrar as respostas dos entrevistados em algum dos quatro tipos culturais,
de acordo com as características verificadas no referencial teórico. Em deter-
minadas respostas, há características de mais de um tipo de cultura, nesses
casos houve a classificação em todos os tipos em que se enquadravam.
O Quadro 5 evidencia a classificação das respostas das empresas por tipo de
cultura e dimensão.
248
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
Quadro 5: Classificação por tipo de dimensão e tipo cultura
Fonte: Dados da pesquisa
Após a classificação das respostas por tipo de cultura, procedeu-se à
análise de verificação do tipo cultural predominante. Para verificar qual tipo
cultural prevalece em cada dimensão, a avaliação das empresas consiste em
estabelecer em que quadrante ela possui maior presença, considerando-se
249
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
as respostas por elas oferecidas no questionário. Seguindo o esquema de-
senvolvido por Trompenaars (1994, p. 145), optou-se em utilizar o primeiro
quadrante do esquema como sendo a região no plano cartesiano que res-
ponde pelas empresas com as características do tipo Míssil Guiado, o segun-
do quadrante foi destinado às características empresarias do tipo Incubado-
ra, o terceiro quadrante foi destinado às características das empresas do tipo
Familiar e o quarto quadrante para as características do tipo empresarial Tor-
re Eiffel.
A rotação dos eixos coordenados permitiu a introdução de escalas so-
bre os quatro quadrantes propostos. A função y = x, conhecida matematica-
mente como reta identidade, atende o primeiro e terceiro quadrantes. Já a
função y = -x faz a ligação entre o segundo e o quarto quadrantes. Sobre
essas retas foi construída uma escala ordinal que muda segundo a quantida-
de de questões utilizadas por variável. A dimensão Formas de Pensamento e
Aprendizado (D3), por exemplo, possui uma escala de 11 possibilidades (11
questões), ou seja, de zero (nenhuma resposta no quadrante) até um total de
11, que implica na presença de todos os atributos daquele tipo de empresa.
As dimensões Relação com Empregados (D1) e Atitude com Relação à Auto-
ridade (D2) possuem quatro questões, logo, em cada quadrante haverá uma
escala de zero a quatro. As dimensões Atitudes em Relação às Pessoas (D4) e
Formas de Mudança (D5) possuem três questões. A dimensão Reprovação e
Resolução de Problemas (D7) possui duas questões e o item Formas de Mo-
tivação e Recompensa (D6) com apenas uma única questão, sendo assim de
possibilidade binária.
A partir da pontuação em cada quadrante, construiu-se a figura relativa
às respostas obtidas. Assim, em havendo pontuação nos quatro quadrantes,
a figura formada foi um polígono de quatro lados, pontuando apenas em três
quadrantes obteve-se um triângulo. Caso apenas dois quadrantes tivessem
resposta, foi construída a reta que liga os dois pontos-resposta. No caso da
dimensão binária (Formas de Motivação e Recompensa), apenas um
quadrante foi utilizado. Contudo, houve casos em que as características não
foram unívocas, ou seja, há casos em que o número de respostas ultrapassa
o número de possibilidades, fato esse que não inviabilizou a técnica, mas,
sim, acrescentou informação para o entendimento.
O método caracteriza-se por calcular a área ocupada pelas respostas
aos questionários em cada quadrante. O modelo pode ser entendido como
sendo um sistema de classificação difuso, embora não seja essa sua preten-
250
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
são, mas tão simplesmente em se apoiar nas ideias desenvolvidas por
Trompenaars (1994) para incrementar o entendimento da classificação
sugerida e visualizar e quantificar os resultados obtidos no questionário utili-
zado. O ferramental matemático utilizado em seu desenvolvimento não vai
além de simples artifícios advindos da geometria analítica e que sustentam a
técnica que se apresenta. Por último, e não menos importante, está a vanta-
gem do método em estabelecer uma classificação que vai além da simples
contagem, ou formação de médias, permitindo, segundo o esquema estuda-
do, avaliar tendências de uma empresa. Assim, classificações idênticas em,
por exemplo, três quadrantes, podem ser desempatadas pelo método, visto
que ele se apoia na ideia de área utilizada, ou seja, não se trata de uma
medida linear.
Para exemplificar, toma-se a Empresa B na dimensão Formas de Pensa-
mento e Aprendizado (D3), com 11 possibilidades em cada quadrante. Geo-
metricamente a representação pode ser visualizada conforme Figura 1.
Figura 1: Representação Gráfica da Empresa-B segundo a dimensão D3
Fonte: Elaborado pelos autores
A Figura 1 representa as respostas dadas pela Empresa B na entrevista
em sua dimensão D3. Ela possui seis características como sendo uma empre-
251
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
sa do tipo Míssil Guiado (M), uma característica no quadrante Incubadora (I),
duas características no quadrante Familiar (F) e quatro características no
quadrante Torre Eiffel (T).
Utilizando-se de ferramentas de cálculo de área, advindas da geome-
tria, verificou-se que o polígono de vértices M=(6,6); I=(-1,1); F=(-2,-2) e
T=(4,-4) possui área de 42 unidades (u.a.). Desse total, 19,54 u.a. se locali-
zam no primeiro quadrante, ou seja, 46,5% em valores relativos. No segun-
do quadrante, que é o das empresas do tipo Incubadora, a área do polígono
é de apenas 1,53 u.a., o que equivale a 3,6% do total. No terceiro quadrante,
a presença do polígono é de 6 u.a., que representam 14,4%. Por último, o
quarto quadrante possui 14,93 u.a., o que representa 35,5% do total.
De forma simplificada, pode-se afirmar que a Empresa B pode ser ca-
racterizada como sendo 46,5% do tipo Míssil Guiado, 35,5% como Torre
Eiffel, 14,4% como Familiar e apenas 3,6% do tipo Incubadora.
Dessa maneira foram realizados os enquadramentos nos tipos culturais
em cada dimensão relacionada. Localizaram-se os pontos no plano cartesiano
no tipo cultural classificado a cada questão, constituindo-se assim os vértices da
figura. Em seguida, traçaram-se retas para possibilitar os cálculos das áreas e
assim determinar a porcentagem pertencente a cada tipo de cultura estudada.
Na dimensão Relação entre Empregados (D1), por exemplo, das qua-
tro questões elaboradas, a Empresa C teve duas questões que se enquadra-
ram no tipo de cultura familiar, duas no tipo de Torre Eiffel e uma no tipo de
cultura Incubadora. Nota-se neste caso, que em uma questão houve a classi-
ficação em dois tipos de culturas. Prosseguiu-se traçando os pontos no plano
cartesiano e as retas, constituindo-se a figura geométrica do triângulo, uma
vez que houve a pontuação em apenas três quadrantes (Incubadora, Famili-
ar e Torre Eiffel). Com as retas traçadas, procedeu-se ao cálculo das áreas e
da porcentagem de predominância em cada quadrante ou tipo cultural.
Na dimensão Atitude em Relação à Autoridade (D2), a Empresa A teve
duas questões enquadradas como Familiar, outras duas como Torre Eiffel,
uma em Míssil Guiado e uma em Incubadora. Neste caso, houve a pontua-
ção nos quatro quadrantes, constituindo-se assim a figura geométrica de um
polígono. Da mesma forma, calculou-se a área do polígono e verificou-se a
porcentagem de participação do total da área em cada quadrante. E assim
sucessivamente foram realizados os cálculos a cada dimensão e por empre-
sa. De modo geral e sucinto, os resultados obtidos podem ser verificados nas
tabelas constantes na descrição e análise dos dados.
252
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
4.4 Enquadramento na Tipologia de Trompenaars (1994)
Apresenta-se a seguir o enquadramento das respostas nos tipos de cul-
tura propostos por Trompenaars (1994) da área organizacional controladoria
das empresas pesquisadas, de acordo com as áreas calculadas em cada di-
mensão proposta.
4.4.1 Relação entre Empregados4.4.1 Relação entre Empregados
4.4.1 Relação entre Empregados4.4.1 Relação entre Empregados
4.4.1 Relação entre Empregados
Demonstra-se na Tabela 1 a classificação geral das empresas referente
à dimensão Relação entre Empregados (D1).
Tabela 1: Classificação geral das empresas na dimensão D1
Fonte: Dados da pesquisa
Verifica-se na Tabela 1 que, quanto à dimensão Relação entre Empre-
gados, o tipo predominante de cultura da Empresa A é Familiar, com grande
proximidade do tipo Incubadora. Isso demonstra que a forma de convivên-
cia dos funcionários da controladoria em geral com o controller da empresa
é espontânea, difusa, ou seja, é igualitária, porém, há uma hierarquia, res-
peitando sempre a pessoa de maior autoridade.
Enquanto na empresa B, o tipo predominante é míssil guiado com pro-
ximidade na torre Eiffel, demonstrando que há uma cultura igualitária no
quesito relação entre empregados, uma vez que abrange tarefas específicas.
Na Empresa C, há predominância da cultura Familiar com proximidade na
Torre Eiffel, ou seja, é uma cultura mais igualitária, mas há uma hierarquia.
Constata-se nesta dimensão que, em geral, a cultura Familiar predomi-
na ficando próxima da cultura Torre Eiffel.
4.4.2 Atitude em Relação à Autoridade4.4.2 Atitude em Relação à Autoridade
4.4.2 Atitude em Relação à Autoridade4.4.2 Atitude em Relação à Autoridade
4.4.2 Atitude em Relação à Autoridade
Evidencia-se na Tabela 2 a classificação geral das empresas referente à
dimensão Atitude em Relação à Autoridade (D2).
253
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
Tabela 2: Classificação geral das empresas na dimensão D2
Fonte: Dados da pesquisa
Constata-se na Tabela 2 que a Empresa A possui a mesma proporção
de cultura Familiar quanto de cultura Torre Eiffel na dimensão Atitude em
Relação à Autoridade. Demonstra-se, assim, que em alguns quesitos o poder
de decisão concentra-se na pessoa de maior autoridade, que em alguns ca-
sos recai no membro familiar e que a subordinação nesta empresa é clara-
mente racional.
A Empresa B tem a predominância da cultura Torre Eiffel com proximi-
dade na Familiar. Nela há uma burocracia formal e as relações referentes aos
itens de interferência dos membros da família na controladoria, à subordina-
ção da controladoria, às áreas em que a controladoria possui algum grau de
participação e ao poder de tomada de decisão dos coordenadores da
controladoria são impessoais.
A Empresa C tende a ser mais Familiar, com muita proximidade do tipo
Torre Eiffel, igualando, dessa forma, com a Empresa A. Evidencia-se nos ca-
sos expostos que há grande proximidade entre a cultura Familiar e Torre Eiffel.
4.4.3 F4.4.3 F
4.4.3 F4.4.3 F
4.4.3 F
ormas de Pormas de P
ormas de Pormas de P
ormas de P
ensamento e Aprendizadoensamento e Aprendizado
ensamento e Aprendizadoensamento e Aprendizado
ensamento e Aprendizado
Demonstra-se na Tabela 3 a classificação geral das empresas referente
à dimensão Formas de Pensamento e Aprendizado (D3.).
Tabela 3: Classificação geral das empresas na dimensão D3
Fonte: Dados da pesquisa
Evidencia-se na Tabela 3 que há predominância da cultura Míssil Gui-
ado em todas as três empresas quanto à dimensão Formas de Pensamento e
254
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 208-231, maio/ago 2010
Luciane Finger • Luís Moretto Neto • Bruna Ghizoni Vieira
Aprendizado. Isso demonstra que o órgão controladoria das empresas é pro-
fissional, prático e interdisciplinar, com ênfase nos objetivos estratégicos da
organização. Verifica-se também que a cultura Torre Eiffel está próxima do
tipo Míssil Guiado nos casos das Empresa A e B, enquanto na C, há tanto a
proximidade da Torre Eiffel quanto Incubadora.
4.4.4 Atitudes em R4.4.4 Atitudes em R
4.4.4 Atitudes em R4.4.4 Atitudes em R
4.4.4 Atitudes em R
elação às Pelação às P
elação às Pelação às P
elação às P
essoasessoas
essoasessoas
essoas
Expõe-se na Tabela 4 a classificação geral das empresas referente à di-
mensão Atitudes em Relação às Pessoas (D4).
Tabela 4: Classificação geral das empresas na dimensão D4
Fonte: Dados da pesquisa
Verifica-se na Tabela 4 que há predominância da cultura Torre Eiffel
nas Empresas A e B, com proximidades idênticas tanto da cultura Familiar
quanto Míssil Guiado. Infere-se que essas empresas possuem características
semelhantes entre si. Demonstra-se que as pessoas são promovidas e/ou con-
tratadas principalmente por suas qualificações e que há padronização para
seleção de pessoas. Constata-se também que a cultura predominante da
Empresa C é Míssil Guiado com proximidade na Torre Eiffel.
4.4.5 F4.4.5 F
4.4.5 F4.4.5 F
4.4.5 F
ormas de Mudançasormas de Mudanças
ormas de Mudançasormas de Mudanças
ormas de Mudanças
Demonstra-se na Tabela 5 a classificação geral das empresas referente
à dimensão Formas de Mudanças (D5).
Tabela 5: Classificação geral das empresas na dimensão D5
Fonte: Dados da pesquisa
255
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 208-231, maio/ago 2010
Análise do Sistema de Gestão Ambiental do Laboratório de Camarões Marinhos da Universidade Federal de Santa Catarina
Constata-se na Tabela 5 que predomina a cultura Familiar nas Empre-
sas A e C, com proximidade na Torre Eiffel, referente às formas de mudança.
Isso significa dizer que os membros da família são responsáveis pela criação
da controladoria e pelo uso dos artefatos. Quanto às mudanças no órgão
controladoria, há uma divisão de trabalho em que cada um é responsável
pela execução de seu papel. Na Empresa B há predominância da cultura
Torre Eiffel, com proximidade tanto na Familiar quanto no Míssil Guiado.
4.4.6 F4.4.6 F
4.4.6 F4.4.6 F
4.4.6 F
ormas de Motivação e Rormas de Motivação e R
ormas de Motivação e Rormas de Motivação e R
ormas de Motivação e R
ecompensaecompensa
ecompensaecompensa
ecompensa
Apresenta-se na Tabela 6 a classificação geral das empresas referente à
dimensão Formas de Motivação e Recompensa (D6).
Tabela 6: Classificação geral das empresas na dimensão D6
Fonte: Dados da pesquisa
Verifica-se que nesta dimensão há predominância em diferentes tipos
de cultura nas empresas. A Empresa A é 100% Míssil Guiado, por possuir o
método de remuneração por desempenho. A Empresa B também é Míssil
Guiado, mas por existir promoção por uma posição melhor. Já a Empresa C
é Familiar, pelo fato de que os empregados são motivados por meio de elogi-
os, havendo uma satisfação intrínseca em ser respeitado.
4.4.7 Reprovação e Resolução de Conflitos4.4.7 Reprovação e Resolução de Conflitos
4.4.7 Reprovação e Resolução de Conflitos4.4.7 Reprovação e Resolução de Conflitos
4.4.7 Reprovação e Resolução de Conflitos
Apresenta-se na Tabela 7 a classificação geral das empresas referente à
dimensão Reprovação e Resolução de Conflitos (D7).
Tabela 7: Classificação geral das empresas na dimensão D7
Fonte: Dados da pesquisa
256
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
Demonstra-se na Tabela 7 que há predominância da cultura Míssil Gui-
ado com proximidade da Familiar na Empresa A, referente a forma de repro-
vação e resolução de conflitos. Isso significa dizer que as críticas e a forma de
solução de eventuais conflitos são construtivas, relacionada à tarefa apenas
e quem geralmente as faz é o controller. A Empresa B é totalmente Míssil
Guiado neste quesito. Na Empresa C predomina Torre Eiffel, por não existi-
rem praticamente conflitos e exposição de críticas, mas há características tan-
to de Familiar quanto de Míssil Guiado.
5 Conclusões
O estudo objetivou identificar os tipos de análise da cultura
organizacional de Trompenaars (1994) prevalecentes na área de controladoria
em empresas familiares do ramo têxtil. Pesquisa descritiva, com abordagem
quantitativa, foi realizada por meio de estudo de multicasos. Foram avalia-
das três empresas do ramo têxtil de origem familiar, que possuem a área
organizacional de controladoria formalmente constituída.
Constatou-se que há forte presença da cultura Familiar entre as empre-
sas pesquisadas nas dimensões: Relação entre Empregados, Atitude em Re-
lação à Autoridade, Formas de Mudanças, Formas de Motivação e Recom-
pensa. A média de permanência dos empregados na controladoria pode ser
considerada de longo prazo, não havendo rotatividade nos cargos e nem nas
funções, e sua forma de convivência é por meio de relações difusas. Verifi-
cou-se ainda que os membros da família possuem interferência na área
organizacional controladoria e que os coordenadores desse órgão sempre se
reportam ao controller para a tomada de decisão. Evidenciou-se ainda que o
responsável pela criação da controladoria e pelos usos de seus artefatos são
as pessoas de maior autoridade, geralmente membros da família, ocupando
o cargo de presidente e/ou conselho de administração nas organizações. A
forma de recompensa e motivação para seus empregados é por meio de sa-
tisfação intrínseca em ser amado e respeitado.
Quanto à cultura do tipo Torre Eiffel, predominou nas dimensões: Ati-
tude em Relação à Autoridade, Atitudes em Relação às Pessoas, Formas de
Mudança, Formas de Motivação e Recompensa, Reprovação e Resolução de
Conflitos. Verificou-se também que na empresa em que o cargo de presiden-
te não é ocupado por um membro da família, mas por alguém devido a sua
257
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Tipos de Análise da Cultura Organizacional de Trompenaars (1994) Predominantes na Área de Controladoria em Empresas ...
qualificação, não há interferência dos familiares na área organizacional
controladoria. Além disso, averiguou-se que a subordinação da controladoria
é atribuída às áreas que possuem grande importância nas empresas e que
muitas vezes a controladoria participa em outras áreas da organização por
meio de normatização e procedimentos. Constatou-se também que as pesso-
as são selecionadas para trabalhar na área de controladoria dessas empresas
por suas qualificações, e que faz parte da função do controller decidir por
mudanças dentro desse órgão. Recompensam seus funcionários por meio de
promoção a uma posição melhor e também é comum não existir conflitos
nessa área da organização em certas entidades. Ressalta-se ainda que a cul-
tura Torre Eiffel fica bem próxima em algumas dimensões predominantes
das empresas.
Referente à cultura Míssil Guiado, prevaleceu nas dimensões: Relação
entre Empregados, Formas de Pensamento e Aprendizado, Atitudes em Re-
lação às Pessoas, Formas de Motivação e Recompensa, Reprovação e Reso-
lução de Conflitos. Demonstrou-se, assim, que há tarefas específicas na
controladoria dessas empresas, visando sempre objetivos compartilhados.
Constatou-se também que a maior parte das características da controladoria,
seja sua missão, objetivos, funções, áreas de abrangência, entre outros, en-
quadram-se nesta cultura. Há mais igualdade entre as pessoas do que nas do
tipo Torre Eiffel, porém, possuem certo grau de impessoalidade. Verificou-se
que a área de controladoria das empresas atua com profissionalismo, é prag-
mática e enfatiza os objetivos estratégicos da organização. Recompensam seus
empregados por meio de remuneração por desempenho e as críticas expos-
tas nessas empresas sempre são construtivas, visando apenas tarefas, e não
pessoas.
Constatou-se que a cultura Incubadora não foi predominante em ne-
nhuma das sete dimensões estabelecidas, o que já se esperava, visto que
este tipo de cultura geralmente concentra-se em empresas menores. Na sele-
ção das empresas, foram priorizadas familiares do setor têxtil com uma área
de controladoria formalizada na estrutura da organização, o que não é co-
mum em empresas de pequeno porte.
Conclui-se que não existe um tipo puro de cultura, conforme fora pre-
conizado na teoria por Trompenaars (1994). Entre as empresas pesquisadas,
verificou-se uma mistura da cultura Familiar, cultura Torre Eiffel e Míssil
G,uiado. A partir das entrevistas com o controller das empresas pesquisadas
observou-se que, embora essas empresas sejam de origem familiar, são alta-
258
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010
Vanderlei dos Santos • Ilse Maria Beuren • Nelson Hein • Ananias Francisco dos Santos
mente profissionalizadas. Verificou-se também com base nas respostas dos
entrevistados que a cultura organizacional influencia fortemente as práticas
de controladoria dessas empresas.
Dadas as limitações deste estudo, recomenda-se para futuras pesquisas
efetuar uma investigação em empresas não familiares e fazer a comparação
dos resultados. Ressalta-se ainda que há várias tipologias de cultura
organizacional que podem ser relacionadas com a área organizacional de
controladoria, as quais recomenda-se sejam pesquisadas em empresas e os
resultados comparados com os achados deste estudo.
Types of Analysis of Trompenaar's (1994)
Organizational Culture Prevailing in the Area of
Controllership in Family Businesses in Textile
Industry
Abstract
The study aims to identify the types of analysis of Trompenaar's (1994)
organizational culture prevailing in the area of controllership in family businesses
in textile industry. Descriptive research was performed, with quantitative and
qualitative approach, using a multiple case study. Data were collected through
interviews with the controller of the companies. In the four basic culture types
suggested by Trompenaars (1994), it is concluded that there isn´t a pure kind, but
there is a strong presence of family culture among the companies surveyed in
dimensions relationship between employees, attitude in relation to the ways of
change, forms of motivation and reward.
Key words: Organizational culture. Trompenaar’s types. Controllership.
Referências
CAMERON, Kim S.; QUINN, Robert E. Diagnosing and changing
organizational culture. Reading, MA: Addison Wesley Longman, 1999.
259
Revista de Ciências da Administração • v. 12, n. 27, p. 232-260, maio/ago 2010