Cheguei até (e digo isto para a mostrar atestados de tal ou qual valor que tenho), cheguei a fazer aposentar alguns colegas, que,
antes de mim, distribuíam o trabalho entre si, distinguindo-se um, outro sobressaindo, outro pondo em relevo alguma qualidade
particular. Não digo que houvesse injustiça na aposentação: estavam cansados' esta é a verdade E para a gente de minha classe a
fadiga estrompa e até mata.
Ficando eu com o serviço de todos, naturalmente tinha muito que acudir, e repito a V. EX.a que nunca faltei ao dever. Não tenho
presunção de bonito, mas sou útil, ajusto-me às circunstâncias e sei explicar as idéias.
Não é trabalho mas o excesso de trabalho que me tem cansado: um pouco, e receio muito que me aconteça o que se deu com os
outros. Isto de se fiar uma pessoa no carinho alheio, na generalidade dos afetos é erro grave. Quando menos espera lá se vai tudo,
chega alguma pessoa nova e (deixe V Ex.a lá falar o João ) ambas as mãos da experiência não valem um dedinho só da
juventude.
Mas vamos ao pedido O que eu impetro da bondade de V Ex.a (se está na sua alçada) é uma licença por dous meses, ainda que
seja sem ordenado; mas com ordenado seria melhor, porque há despesas a que acudir, a fim de ir às águas de Caxambu Seria
melhor, mas não faço questão disso,; o que me importa é a licença, só por dous meses; no fim deles verá que volto robusto e
disposto para tudo e mais alguma coisa.
Peço pouco, apenas um pouco de descanso. Deus, feito o mundo, descansou no sétimo dia. Pode ser que não fosse por fadiga,
mas para ver não era melhor converter a sua obra ao caos; em todo o caso a Escritura fala de descanso, e é o que me serve Se o
Supremo Criador não pode trabalhar, sem repousar um dia depois de seis, quanto mais este criado de V. Ex.a?
Não faltará quem conclua(mas não será i grande espírito de V. Ex.a) que, se eu algum direito tenho a uma herança, maiores e
infinitos têm outros colegas, cujo trabalho é constante, ininterrupto e secular. Há aqui um sofisma que se destrói facilmente. Nem
eu sou da classe da maior parte de tais companheiros, verdadeira plebe, para quem uma lei de Treze de Maio seria a morte a
lavoura (do pensamento); nem os da minha categoria têm a minha idade, e, de mais a mais, revezam-se a miúdo, ao passo que eu
suo e tressuo sem respirar.
Contando receber mercê, subscrevo me, com elevada consideração, de V Ex.a admirador e obrigado verbo Salientar.
O despacho foi este:
Conquanto o suplicante não junte documentos do que alega, é, todavia, de notoriedade pública o seu zelo e prontidão em bem-
servir a todos. A licença, porém, só lhe pode ser concedida por um mês, embora com ordenado, porque, trabalhando as câmaras
legislativas, mais que nunca é necessária a presença do suplicante, cujo caráter e atividade, legítima procedência e brilhante
futuro folgo em reconhecer e fazer públicos. Se tem trabalhado muito, é preciso fizer por outro lado, que o trabalho é a lei da vida
e que sem este o suplicante não teria hoje a posição culminante que alcançou e na qual espero que se conservará honrosamente
por longos anos, como todos havemos mister. Lavre-se portaria, dispensados os emolumentos.
Boas noites.
[75]
[26 junho]
BONS DIAS!
Eu, se tivesse credito na praça pedia emprestados a casamento uns vinte contos de réis, e ia comprar
libertos. Comprar libertos não é expressão clara; por isso continuo.
Conhece o leitor um livro do célebre Gógol, romancista russo, intitulado Almas Mortas? Suponhamos que
não conhece, que é para eu poder expor a somente da minha idéia. I á vai em duas palavras.
Chamam-se almas os campônios que lavram as terras de um proprietário, e pelos quais, conforme o
número, paga este uma taxa ao Estado. No intervalo do lançamento do imposto, morrem alguns
campônios e nascem outros. Quando há déficit, como o proprietário tem de pagar o número registrado,
primeiro que se faça outro recenseamento, chamam-se almas mortas os campônios que faltam.
Tchitchikof, um espertalhão da minha marca, ou talvez maior, lembra-se de comprar as almas mortas de
vários proprietários. Bom negócio para os proprietários, que vendiam defuntos ou simples nomes, por
dez-réis de mel coado. Tchitchikof, logo que arranjou umas mil almas mortas, registrou-as como vivas