com o receio do que com a esperança, não tanto porque acredite na explosão referida, como porque desejo
vender a minha droga. Pode ser que haja nesta confissão uma ou duas gramas de cinismo; mas o cinismo,
que . a sinceridade dos patifes, pode contaminar uma consciência reta. pura e elevada, do mesmo modo
que o bicho pode roer os Mais sublimes livros do mundo.
Vamos, porém, à droga, e comecemos por dizer que estou em desacordo com todos os meus
contemporâneos, relativamente ao motivo que leva o capoeira a plantar facadas nas nossas barrigas. Diz-
se que é o gosto de fazer mal, de mostrar agilidade e valor, opinião unanime e respeitada como um
dogma. Ninguém vê que é simplesmente absurda.
Com efeito, não duvido que um ou outro, excepcionalmente, nutra essa perversão de entranhas, mas a
natureza humana não comporta a extensão de tais sentimentos. Não é incrível que tamanho número de
pessoas se divirtam em rasgar o ventre alheio, só para fazer alguma coisa. Não se trata de vivissecção, em
que um certo abuso, por maior que seja, é sempre científico, e com o qual, só padece cachorro, que não é
gente, como se sabe. Mas como admitir tal coisa com homem e fora cio gabinete?
Bastou-me fazer esta reflexão, para descobrir a causa das facadas anônimas e adventícias, e logo o
medicamento apropriado. veja o leitor se não concorda comigo?
Capoeira é homem. Um dos característicos do homem é viver com o seu tempo. Ora, o nosso tempo
(nosso e do capoeira) padece de uma coisa que poderemos chamar—erotismo de publicidade. Uns
poderão crer que ¿ achaque, outros que é uma recrudescência de energia, porque o sentimento é natural.
Seja o que for, o fato existe, e basta andar na aldeia sem ver as casas, para reconhecer que nunca esta
espécie de afeição chegou ao grau em que a vemos.
Sou justo. Há casos em que acho a coisa natural. Na verdade, se eu, completando hoje cinqüenta anos,
janto com a família e dois ou três amigos. por que não farei participante do meu contentamento este
respeitável público? Embarco, desembarco, dou ou recebo um mimo, nasce-me um porco com duas
cabeças. qualquer caso desses pode muito bem figurar em letra redonda, que dá vida a coisas muito
menos interessantes. E. depois. o nome da gente, em letra redonda. tem outra graça, que não em itera
manuscrita; sai mais bonito, mais nítido mete-se pelos olhos dentro sem contar que as pessoas que o hão
de comemorar as folhas, e a gente fica notória sem despender nada Não nos envergonhemos de viver na
rua; é muito mais fresco.
Aqui tocamos o ponto essencial. O capoeira está nesta matéria como Crébillon em matéria de teatro.
Perguntou-se a este, por que compunha peças de fazer arrepiar os cabelos; ele respondeu que, tendo
Racine tomado o céu para si e Corneille a terra, não lhe restava mais que o inferno em que se meteu. O
mesmo acontece ao capoeira. Não pode distribuir mimos espirituais, ou drogas infalíveis, todos os porcos
nascem-lhe com uma só cabeça, nenhum meio de ocupar os outros com a sua preciosa pessoa. Recorre à
navalha, espalha facadas certo de que os jornais darão notícias das suas façanhas e divulgarão os nomes
de alguns.
Já o leitor adivinhou o meu medicamento. Não se pode falar com gente esperta; mal se acaba de dizer
uma coisa, conclui logo a coisa restante. Sim, senhor, adivinhou, é isso mesmo: não publicar mais nada,
trancar a imprensa às valentias da capoeiragem. Uma vez que se não dê mais notícia, eles recolhem-se às
tendas, aborrecidos de ver que a crítica não anima os operosos.
Logo depois a autoridade, tendo à mão algumas associações, becos e suspensórios ainda sem título, entra
pelas tendas e oferece aos nossos Aquiles uma compensação de publicidade. Vitória completa: eles
aceitam o derivativo, que os traz ao céu de Racine e à terra de Corneille, enquanto as navalhas, restituídas
aos barbeiros, passarão a escanhoar os queixos da gente pacífica. Ex fumo dare lucem.