LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
Ayres e Vergueiro, de Machado de Assis
Edição referência: http://www2.uol.com.br/machadodeassis
Publicado originalmente em Jornal das Famílias 1871
Era muito alva, cheia de corpo, assaz bonita e elegante, a esposa de Luís Vergueiro.
Chamava-se Carlota. Contava 22 anos e parecia destinada a envelhecer muito tarde. Não
sendo franzina, não tinha nenhuma ambição de parecer vaporosa, pelo que era dada à
boa mesa, e detestava o princípio de que uma moça para parecer bonita deve comer
pouco. Carlota comia sofrivelmente, mas em compensação só bebia água, uso que, na
opinião do marido, era causa de se lhe não afoguearem as faces como convinha a uma
beleza robusta.
Reqüestada por muitos rapazes no ano da Maioridade, deu ela a preferência ao sr. Luís
Vergueiro que, posto não fosse mais bonito que os outros, tinha qualidades que o punham
muito acima de todos os rivais. Destes se podia dizer que os movia a ambição; tinham
geralmente pouco mais que nada; Vergueiro não era assim. Iniciava um negociozinho de
fazendas que lhe ia dando esperanças de enriquecer, ao passo que a amável Carlota
apenas tinha aí uns dez contos, dote feito pelo padrinho.
Caiu a escolha em Vergueiro, e o casamento foi celebrado com alguma pompa, sendo
padrinhos um deputado maiorista e um coronel do tempo da revolução de Campos.
Nunca houve casamento mais falado que aquele; a beleza da noiva, a multiplicidade dos
rivais, a pompa da cerimônia, tudo deu que falar durante uns oito dias antes e depois, até
que a vadiação do espírito público achou novo alimento.
Vergueiro alugou a casa que ficava por cima da sua loja, e para lá levou a mulher,
satisfazendo assim as obrigações públicas e privadas, consorciando facilmente a bolsa e
o coração. A casa era na Rua de S. José. Daí a pouco tempo comprou a casa, e isto fez
dizer que o casamento, longe de lhe pôr um cravo na roda da fortuna, veio antes ajudá-lo.
Tinha Vergueiro uma irmã casada no interior. Morre-lhe o marido, e a irmã veio para o Rio
de Janeiro onde foi recebida pelo irmão com todas as demonstrações de afeto. As duas
cunhadas simpatizaram logo uma a outra, e esta presença de uma estranha (para recém-
casados todos são estranhos) não alterou a felicidade doméstica do casal Vergueiro.
Luísa Vergueiro não era bonita, mas tinha uma graça especial, uns modos todos seus,
uma coisa que se não explica, e esse misterioso dom, essa qualidade indefinível
encadeou para sempre o coração de Pedro Ayres, rapaz de trinta anos perfeitos, morador
na vizinhança.
Digam-lhe lá o que pode fazer uma pobre viúva ainda moça, que apenas esteve casada
dois anos. Luísa não era da massa das Artemisas. Tinha chorado o esposo, e se tivesse
talento, podia escrever uma excelente biografia dele, honrosa para ambos. Mas isso era
tudo que se podia exigir dela; não possuía um túmulo no coração, possuía um ninho; e
um ninho deserto é a coisa mais triste deste mundo.
Não foi Luísa insensível aos olhares requebrados de Pedro Ayres, e serei justo dizendo
que ocultou quanto pôde a impressão que o moço fazia nela. Ayres pertencia àquela raça
de namoradores que não abatem armas logo à primeira resistência. Insistiu nos olhares
entremeados com alguns sorrisos; chegou a interrogar miudamente um moleque da casa,
cuja discrição não pôde resistir a uma moeda de prata. O moleque foi além; aceitou uma
carta para a viuvinha.
A viuvinha respondeu.
Daqui em diante correram as coisas com aquela celeridade natural entre dois corações
que se querem, que são livres, que não podem viver um sem o outro.
Carlota percebeu o namoro, mas respeitou a discrição da cunhada, que nenhuma