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ANA MARIA RORIZ VERISSIMO
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE EDUCADORES DO PROJOVEM SOBRE
SUA PRÁTICA PEDAGÓGICA NO PROGRAMA
Rio de Janeiro
2009
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2
ANA MARIA RORIZ VERISSIMO
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE EDUCADORES DO PROJOVEM SOBRE
SUA PRÁTICA PEDAGÓGICA NO PROGRAMA
Dissertação apresentada à Universidade
Estácio de Sá, como requisito parcial para
a obtenção do grau de Mestre em
Educação.
Orientadora: Profª.Drª.Lucelena Abrantes
Ferreira
Rio de Janeiro
2009
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3
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
V517
Veríssimo, Ana Maria Roriz
Representações sociais de educadores do ProJovem sobre sua prática educativa no
programa. / Ana Maria Roriz Veríssimo. - Rio de Janeiro, 2009.
129 f.
Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estácio de Sá, 2009.
1. Prática de ensino. 2. Representações sociais. 3. Inclusão em educação. I. Título.
CDD 370
4
Rio de Janeiro
2009
5
DEDICATÓRIA
.
Aos meus pais Damião e Bethy.
Ao meu irmão Francisco pelo apoio e carinho.
Aos meus familiares e amigos que torceram por mim.
6
AGRADECIMENTOS
A Deus por renovar minhas forças para superar os obstáculos sem esmorecer na busca
da realização de meus sonhos.
Ao meu irmão Francisco Roriz Veríssimo e meu sobrinho Felipe Zamborline Veríssimo
por serem os primeiros a incentivarem esta conquista tão especial em minha vida.
Ao meu esposo Sandro Favassa e ao meu filho Luiz Eduardo pelo companheirismo nos
momentos difíceis.
Aos meus pais Damião Veríssimo Cassundé e Bety Mª Cassundé por estarem sempre de
mãos dadas durante todos os voos Vitória/Rio e Rio /Vitória.
Aos meus irmãos Lúcia e Afro Antonio que sempre torceram por mim, apoiando e
acreditando.
As minhas cunhadas Eliana, Luciana e Soraia por colaborarem em algumas fases do
trabalho.
Aos sobrinhos Caroline, Julia, Pedro Henrique, João Vitor e Natalia pelo amor e
alegria que fizeram a minha esperança se renovar sempre.
À orientadora Lucelena Abrantes Ferreira que participou da minha caminhada com
conhecimento, carinho e dedicação.
À minha sempre orientadora, Professora Lúcia Velloso Maurício que esteve presente
deixando marcas de competência e colaboração.
Aos professores Alda Alves-Mazzotti, Tarso Mazzotti, Rita de Cássia Pereira Lima pela
base teórica consistente em representações sociais e pelo amadurecimento da
argumentação e da postura investigativa.
Aos professores e funcionários do Mestrado pela colaboração prestada.
Aos meus amigos Márcia, Clea, Elismar, Ana tia, Adriana, Orenícia e Fernando por
me apoiarem durante as etapas desta conquista.
A minha amiga Sandra Mara Pavesi por acreditar em meu potencial.
À Secretaria Municipal de Educação de Vitória/ES e CAPES pelo incentivo.
Às Coordenações Municipais do ProJovem da Serra e Vitória onde realizei trabalho de
campo.
7
Para que a escrita seja legível
é preciso dispor os instrumentos,
exercitar a mão,
conhecer todos os caracteres.
Mas para começar a dizer
alguma coisa que valha a pena,
é preciso conhecer todos os sentidos
de todos os caracteres,
e ter experimento em si próprio
todos os sentidos,
e ter observado o mundo
e no transmundo
todos os resultados, todas as
experiências.
(Cecília Meireles – Para que a escrita seja
legível. Maio de 1963).
8
SUMÁRIO
LISTA DE GRÁFICOS ......................................................................................................... 10
LISTA DE TABELAS............................................................................................................ 11
FIGURAS ................................................................................................................................ 12
RESUMO................................................................................................................................. 13
ABSTRACT ............................................................................................................................ 14
CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO .......................................................................................... 15
1.1. Descrição do ProJovem ......................................................................................... 19
1.2. Objetivo e Questões de Estudo..............................................................................29
CAPÍTULO 2 – REFERENCIAL TEÓRICO..................................................................... 31
2.1 Compreendendo a Juventude Brasileira ................................................................. 31
2.1.1 Juventude e Trabalho ............................................................................... 34
2.1.2. Juventude e Educação............................................................................. 36
2.1.3. Juventude e Políticas Públicas ................................................................38
2.2. Saberes Docentes e Prática Pedagógica Contemporânea........................................42
2.2.1.Prática Docente e Racionalidade Técnica................................................ 50
2.2.3.Da Prática Reflexiva ao Intelectual Crítico .............................................51
2.3. A Teoria das Representações Sociais .................................................................... 56
2.3.1. Os Processos de Objetivação e Ancoragem............................................ 60
2.3.2 As Representações e a Educação ............................................................. 62
CAPÍTULO 3 METODOLOGIA ......................................................................................... 64
3.1. Campo da Pesquisa................................................................................................64
3.2. Sujeitos de Estudo.................................................................................................. 65
3.3. Procedimentos e Instrumentos............................................................................... 65
3.3.1. Observação...............................................................................................67
9
CAPÍTULO 4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS...................... 69
4.1.Perfil dos Participantes ........................................................................................... 69
4.2.Impressões e Reflexões sobre o Campo ................................................................. 78
4.3. Aplicação do Método: a Pré-análise ...................................................................... 79
4.4. Unidades Temáticas............................................................................................... 79
4.4.1 Prática da Escola Regular no ProJovem .................................................. 80
4.4.1.1. Guia de Estudo = Livro Didático ............................................. 82
4.4.1.2. Tendências Burocráticas .......................................................... 85
4.4.1.3. Ações que Promovem a (Des) reflexão.................................... 87
4.4.2. Imagem do Aluno do ProJovem ............................................................. 91
4.4.3. Currículo Básico no ProJovem. .............................................................. 93
4.4.4 Estratégias Pedagógicas no Programa .....................................................99
4.5 Objetivação e Ancoragem no Contexto da Pesquisa..............................................105
CAPÍTULO 5. CONCLUSÃO ............................................................................................ 113
REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 116
ANEXO I - FICHA SOCIOECONÔMICA........................................................................... 125
ANEXO II – ROTEIRO DE ENTREVISTA ........................................................................ 127
ANEXO III - EXEMPLO DE ENTREVISTA...................................................................... 128
10
L
ISTA DE
G
RÁFICOS
Gráfico 1
. Faixa etária..........................................................................................................
70
Gráfico 2. Sexo...........................................................................................................................71
Gráfico 3.
Onde Reside
...............................................................................................................71
Gráfico 4. Tempo de ProJovem.................................................................................................72
Gráfico 5. Área de Formação...................................................................................................73
Gráfico 6.
Estudou sobre Educação de Jovens e Adultos Durante a Graduação?
...............73
Gráfico 7. Cursa Pós Graduação?..............................................................................................74
Gráfico 8.
Estudou sobre Educação de Jovens e Adultos Durante a Formação?................75
Gráfico 9. Tempo de Magistério..........................................................................................75
Gráfico 10. Disciplina em que Atua no ProJovem..............................................................76
Gráfico 11. Opinião sobre Atuação no ProJovem...............................................................76
Gráfico 12. Onde Estudou sobre Educação de Jovens e Adultos?......................................77
11
LISTA DE TABELAS
Tabela 1. Descrição das Atividades do ProJovem ..............................................................22
Tabela 2: Dados sobre ProJovem Urbano............................................................................25
Tabela 3. Unidade Temática1 -
Prática da Escola Regular (ER)...........................................89
Tabela 4.
Unidade Temática 2 - Imagem do Aluno do ProJovem
.........................................93
Tabela 5. Unidade Temática 3.
- Conteúdos Disciplinares no ProJovem...............................99
Tabela 6. Unidade Temática 4 – Estratégias Pedagógicas (EP)........................................104
12
FIGURAS
Figura 1. Descrição das Atividades do ProJovem ..............................................................22
Figura 2. NF (Núcleo Figurativo): professor amigo..........................................................108
.
13
RESUMO
A presente dissertação tem como objetivo investigar as representações sociais de
educadores do Programa Nacional de Inclusão de Jovens – ProJovem – sobre sua
prática educativa no programa. A pesquisa se fundamenta na Teoria das Representações
Sociais proposta por Serge Moscovici, em 1961. Ao usar a abordagem qualitativa foram
coletados dados por meio de observação participante no núcleo da Serra - ES, sendo
anotadas em diário de campo informações sobre o entorno e algumas situações que
envolviam interações dos participantes como professores, alunos e funcionários da
escola/núcleo. Foi aplicado fichas para coletar perfil socioeconômico a onze professores
distribuídos em dois grupos, o primeiro com menos tempo de ProJovem, formado por
docentes ligados à Prefeitura Municipal de Vitória, e o segundo, composto por
professores atuantes e com mais de dois anos de experiência de ProJovem, vinculados à
Prefeitura Municipal da Serra. Com eles também foram realizadas entrevistas
semiestruturadas. As observações foram descritas, as fichas tabuladas e as entrevistas
analisadas com base na análise de conteúdo temática. O conjunto do material
possibilitou compreender que os professores que atuam no ProJovem associam a
prática pedagógica à sua relação de amizade com os alunos. Os dados mostram que
estes docentes responsáveis pela escolarização ao exercerem o papel de Professor
Orientador (PO) ainda estão atrelados à prática da escola regular e ancorados na
imagem que trazem de seu universo cultural sobre juventude, marcada pela ótica da
“falta”. Assim, ao apresentarem indícios de que o núcleo figurativo da representação
social sobre sua prática se estabiliza na imagem de professor amigo, estes sujeitos
deixam para um segundo plano a aplicação de conhecimentos significativos em
educação básica.
Palavras-chave: Representação Social/ ProJovem / Jovem/ Prática Educativa
14
ABSTRACT
The current essay aims to investigate the social representations of educators of the
National Program for Youth Inclusion ProJovem about their educative practice in
the program. The research relies on the Social Representations Theory proposed by
Serge Moscovici, in 1961. By using the qualitative approach data were collected by
means of participant observation in the center of Serra - ES, being made notes on field
diary some information about the surrounding and some situations which involved
participants’ interactions such as teachers, pupils and employees of the school/center.
Forms to collect social-economic profile were applied to eleven teachers distributed in
two groups, the first one with less time of ProJovem, composed by academicians
associated to the City Council of Vitória, and the second one, composed by acting
teachers with more than two years of experience in ProJovem, linked to the City
Council of Serra. With them semi-structured interviews were also done. The
observations were described, the forms tabulated and the interviews analyzed based on
the thematic analysis of the content. The series of the material enabled to understand
that the teachers who work in ProJovem associate the pedagogical practice to their
friendly relation with the pupils. The data show that these academicians responsible for
the schooling when playing the role of Orienting Teacher (OT) are still leashed to the
practice of the regular school and anchored in the image which they bring from their
cultural universe about youth, signed by the point of view of “absence”. Thus, when
presenting indications that the figurative center of the social representation about their
practice becomes stable in the image of friendly teacher, these subjects give less
importance to the application of the significant knowledge in basic education.
Key words: Social Representation/ ProJovem / Youth/ Educative Practice
15
1. INTRODUÇÃO
Segundo dados da UNESCO
1
(2008), hoje vivemos com mais de sete milhões de
jovens fora da escola no Brasil, o que equivale à população de um país como a Suíça e
ao dobro da população de nosso vizinho Uruguai. Esses jovens cresceram em meio às
contradições do processo de modernização da sociedade brasileira das últimas décadas e
experimentaram a melhoria no padrão de vida da população em geral, ao mesmo tempo
em que foram atingidos por novas desigualdades provenientes das mudanças
econômicas e sociais de um período marcado por uma intensa dificuldade de inserção
profissional (MARTINS, 1997). Diante desse quadro, várias iniciativas foram
articuladas no âmbito do Governo Federal, a partir de meados dos anos 90, como
respostas ao crescimento das situações de exclusão e empobrecimento juvenil. Tais
iniciativas acabaram sendo desarticuladas por serem geralmente limitadas aos
adolescentes (até 18 anos) e jovens em situação de risco social através de programas de
curta duração e de caráter compensatório, como mostram alguns levantamentos.
(SPOSITO e CARRANO, 2003; CASTRO e ABRAMOVAY, 2002).
Para Sposito (2003), traçar um balanço das políticas públicas destinadas aos
jovens no Brasil torna-se relevante se levarmos em conta, na atual conjuntura, o novo
período político inaugurado com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a
presidência da República, cuja posse se deu em janeiro de 2003 e que é preciso voltar o
olhar para o que foi feito e considerar que existiam no governo anterior iniciativas
que merecem atenção. Mas, é necessário considerar que o país também convive com
mudanças expressas nas políticas de juventude que nascem de iniciativas municipais
diversificadas e poderão confluir para a construção de um novo paradigma em torno da
questão. que tais políticas são destinadas a todas as demais faixas etárias, e não
estariam sendo orientadas pela ideia de que os jovens representariam o futuro em uma
perspectiva de formação de valores e atitudes das novas gerações. Esse cenário passa a
se alterar no final dos anos de 1990 e no início da década atual.
Iniciativas públicas são observadas, algumas envolvendo parcerias com
instituições da sociedade civil, e as várias instâncias do Poder Executivo Federal,
Estadual e Municipal -, dentre elas temos a implementação de programas
2
que procuram
1
http://www.unesco.org.br/areas/educacao/institucional/projetos/alfabeteja/promexpalfasol/mostra_
2
Principais programas do governo federal para a juventude: Projeto Agente Jovem , Programa
Bolsa-Atleta, Programa Brasil Alfabetizado Jovem, Programa Escola Aberta, Programa Escola de
16
amenizar este quadro. O Programa Nacional de Inclusão de Jovens - ProJovem-,
implantado em 2005, aparece como uma estratégia do Governo Federal para enfrentar a
exclusão social, na área da educação e que, agora em 2009, se configura em uma nova
versão, o que confirma o empenho federal no funcionamento do programa, mesmo
sabendo que a evasão é o problema primordial que o ProJovem enfrenta.
Conforme resultados preliminares da pesquisa de evasão do Sistema de
Monitoramento e Avaliação (SMA) e Subsistemas de Avaliação do Programa
3
(2006), o
público-alvo do ProJovem
4
é estimado em 534.198 jovens distribuídos em diversas
cidades brasileiras. Muitos destes jamais frequentaram o curso; e entre os que
frequentaram, 46% chegaram ao máximo ao segundo mês de aula e 30% ao quarto mês.
Estes resultados revelaram ainda que culpabilizar fatores externos pela evasão é
recorrente em pesquisas do gênero, além de ser essencial investigar outros elementos
relacionados à decisão de evadir.
Vale ressaltar o papel da escola quando a questão é o resgate destes excluídos ao
sistema regular de ensino. De acordo com Alves-Mazzotti (2003), em uma de suas
pesquisas realizadas a respeito das representações sociais de “meninos de rua”
(ALVES-MAZZOTTI, 1997), os excluídos rejeitam a escola, acham-na um tédio, uma
prisão ou que não serve para nada. Em suma, seja pelo aluno ser rejeitado, seja por ele
ser rejeitante, a quase totalidade dos educadores a reintegração à escola, pelo menos
à escola regular, como algo impossível. Aqueles que o acompanharam o processo
regular de escolarização normalmente são marginalizados tanto no mercado de trabalho
quanto na formação do cidadão e do próprio desenvolvimento social.
Dubet (2003), ao tratar da relação que os alunos franceses tecem com a
instituição escolar, diz que o sentido dos estudos “se constitui na capacidade de articular
vários registros de ação”. A primeira questão é que “os alunos devem construir uma
Fábrica, Programa de Melhoria e Expansão do Ensino Médio (Promed), Programa Juventude e Meio
Ambiente, Programa Nossa Primeira Terra, Programa Cultura Viva, Programa de Integração de Educação
Profissional ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (Proeja), Programa
Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego (PNPE), Saberes da Terra Programa, entre outros.
3
Apresentação Fernando - CAEd. Síntese de Indicadores Preliminares Relatório Parcial nov/06. É o
resultado de uma seleção dos trabalhos desenvolvidos ao longo de 2006 pelo Grupo de Trabalho de
Avaliação do Programa. Este Grupo é formado por pesquisadores das Universidades Federais do Pará
(UFPA), Pernambuco (UFPE), Bahia (UFBA), Brasília (UnB), Rio de Janeiro (UFRJ), Minas Gerais
(UFMG), Paraná (UFPR) e Juiz de Fora (UFJF). Professora aqui teve uma anotação dizendo que está
muito grande) O que acha?
4
Estimativas baseadas no censo 2000, na Projeção da População 2005/06 e nas tendências verificadas
nas PNADS.
17
relação de utilidade” e encontrar sentido no ato de estudar. Outra questão é que os
alunos precisam “construir uma integração subjetiva no mundo escolar”, desenvolver
identidade à cultura e à ambientação da escola. Por último, “a relação com os estudos é
também construída em termos de interesse intelectual”, ou seja, a “conciliação de suas
‘paixões’ com seus interesses pessoais”. Estas considerações tratadas por Dubet
assemelham-se à realidade brasileira, que determinados jovens ainda não veem a
escola como perspectiva de futuro.
É pontual que a escola crie uma ambientação interacional eficaz para que o
aluno passe a valorizá-la. Muitas vezes, os sentidos procurados por estes alunos estão na
prática cotidiana dos professores que tendem a legitimar a “culpa” do fracasso em
outros focos, como por exemplo, em políticas educacionais implantadas, acúmulos de
tarefas, ou até mesmo pela atuação da família, deixando de contribuir com uma
mediação eficaz na tarefa de construir conhecimento significativo.
Perrenoud (1999) argumenta que, se os professores não chegam a ser
intelectuais, no sentido restrito do termo, são ao menos os mediadores e intérpretes
ativos das culturas, dos valores e do saber em transformação. Se não se perceberem
como depositários da tradição ou precursores do futuro, não saberão desempenhar esse
papel por si mesmo. Prática reflexiva e participação crítica precisam ser entendidas
como orientações prioritárias da formação de professores.
A prática docente já foi enfocada em diversos trabalhos acadêmicos, mas o
presente trabalho pretende colher pistas que possam elucidar se o problema da evasão
do ProJovem está atrelado à prática cotidiana do professor. É através dos sentidos
atribuídos por estes educadores à sua prática que poderei perceber se eles acolheram a
proposta estabelecida pelos documentos oficiais do ProJovem. O professor preparado
para atuar em escola pública regular é o mesmo que atua no referido projeto. Sabemos
que a escola ainda não deu conta de resolver as falhas excessivas vinculadas à evasão, e
que muitas vezes são provocadas pelo processo de exclusão provindo de desigualdades
sociais ou até mesmo pela precarização do trabalho docente. Assim, as práticas
escolares, principalmente aquelas destinadas a programas de inclusão, devem ser vistas
criticamente e o presente estudo caminha nesta direção. Desta forma, na tentativa de
utilizar o apoio teórico das “Representações Sociais como um valioso instrumental para
a compreensão das complexas redes de significados presentes nos processos sociais”
(ALVES-MAZZOTTI, 2002, p. 35), a pesquisa busca analisar as representações sociais
de educadores do ProJovem sobre sua prática educativa.
18
Vincular o tema exclusão ao problema da referida pesquisa é essencial, que,
segundo Abric (1996 apud Alves-Mazzotti, 2003, p. 117), este tema deve ser analisado
como produto de uma combinação de vários fatores, não podendo ser explicado
somente pelas características dos excluídos. Entre esses fatores, o sistema social
vigente, e as reações dos grupos no qual o sujeito está inserido também devem ser
levados em consideração. Assim, pretendo investigar os elementos simbólicos que
constituem a dada realidade a fim de compreender o entorno das representações. “Existe
um comportamento adequado para cada circunstância, uma fórmula linguística para
cada confrontação e, nem é necessário dizer, a informação apropriada para um contexto
determinado” (MOSCOVICI, 2003, P.52).
Para Abric (1996 apud Alves-Mazzotti, 2003), um dos interesses da
representação se concentra na interação entre dois elementos: o próprio sujeito que é o
objeto da exclusão e aqueles a quem cabe favorecer sua integração: os agentes sociais.
Alguns pontos são essenciais em relação ao grupo dos excluídos, entre eles temos: 1.
definir a representação social que eles têm de si mesmos; 2. os fundamentos simbólicos
que definem sua identidade; 3. a representação que têm do problema com o qual são
confrontados, como o veem e o integram em seu sistema de referência e valores e 4. a
representação que têm dos objetivos e do futuro que lhes é proposto. Em síntese, para
Abric, em relação aos agentes sociais, convém que se busque a representação que eles
apresentam do seu papel e o sentido de prevenção e de inserção, bem como, a
representação que revelam sobre os grupos aos quais intervêm. Cada agente social
também apresenta uma representação sobre sua prática, e o educador do ProJovem deve
trazer em sua história marcas de uma prática de escola regular. Será que estas marcas
dificultam a incorporação de uma outra perspectiva de ação?
Ao pesquisar o tema do ProJovem nos sites Observatório Jovem
5
, Scholar
Google
6
, e no Banco de teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES)
7
constatei que a maioria dos trabalhos listados apresenta a temática
5
O Observatório iniciou suas atividades no ano de 2001, como projeto de Extensão da Faculdade de
Educação da UFF. Passou a integrar o Programa de Pós-Graduação em Educação em 2003,
caracterizando-se como grupo de estudo, pesquisa e extensão interinstitucional e multidisciplinar sobre o
tema da juventude vinculado ao Campo de Confluência "Diversidade, Desigualdades Sociais e
Educação". Além de professores e estudantes da graduação e pós-graduação da UFF, reunimos
profissionais de outras universidades (UERJ, UNIRIO, UFRRJ), organizações sociais (IBASE,
ISER/Assessoria, Instituto Imagem e Cidadania), de um Centro Federal de Educação Tecnológica
(CEFET/RJ).
6
http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/cgi-bin/PRG_0599.EXE/11064_1. PDF?NrOcoSis =35732
& CdLinPrg=es, acessado em 14 de junho/2008
7
http://www.capes.gov.br/servicos/bancoteses.html
19
juventude/exclusão e educação, mas apenas dois referem-se ao ProJovem em especial,
porém não enfocam a teoria das Representações Sociais, que é a que pretendo utilizar
em meu trabalho. Para Moscovici (1978), estas constituem visões de mundo
coletivamente elaboradas e partilhadas pelos grupos sociais, com base em sua história,
no contexto social em que se inserem e os valores a que se refere