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forma moderna, sobreviver a um ataque nuclear. Nem
mesmo o mais engajado dos ideólogos poderá distinguir as
cinzas capitalistas das cinzas comunistas – embora, se
houver ideólogos sobreviventes, certamente haverá alguns
que tentarão.” (GALBRAITH: 1989, pg. 10).
O tom apocalíptico, alcançando até mesmo a intelectualidade,
mostra o sucesso do discurso produzido pela doutrina Reagan, difundindo-se
por toda área de influência norte-americana, ainda que na Europa tenha sido
filtrado pelo chamado movimento pacifista, cuja principal voz seria de Edward
Palmer Thompson, historiador autor de A formação da classe operária inglesa
(THOMPSON: 1987). Em defesa do desarmamento nuclear, Thompson
publicou durante este período, diversos textos panfletários contra a corrida
armamentista, sobre a incapacidade da ONU em fazer valer os acordos de
redução de arsenal nuclear propostos pelos acordos do Strategic Arms
Limitation Talks
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(SALT), com o SALT I e, principalmente, SALT II. Mesmo
sendo um autor notadamente de esquerda, sua crítica feroz possui como alvo
tanto os Estados Unidos como quanto a União Soviética. Seu texto mais
célebre Notas sobre o exterminismo, o estágio final da civilização
(THOMPSON: 1985), desenvolve o conceito de exterminismo que, segundo ele
(...) designa aquelas características de uma sociedade –
expressas, em diferentes graus, em sua economia, em sua
política e em sua ideologia – que a imprelem em uma
direção cujo resultado será o extermínio de multidões. O
resultado será o extermínio, mas isso não ocorrerá
acidentalmente (mesmo que o disparo final seja “acidental”),
mas como a conseqüência direta de atos anteriores da
política, da acumulação e do aperfeiçoamento dos meios de
extermínio, e da estruturação de sociedades inteiras de
modo a estarem dirigidas para esse fim. Evidentemente, o
exterminismo requer, para sua consumação, pelo menos
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Tradução livre: Conversação de Limitação de Armas Estratégicas. Os SALT foram tratados entre EUA e
URSS que visavam a estagnação no número de ogivas e lançadores de artefatos nucleares, sendo
assinado o SALT I em maio de 1972. Já o acordo SALT II, assinado em 1979, previa a redução dos
arsenais, bem como a limitação de instalações balísticas antimísseis. Apesar das boas intenções, o
acordo não foi ratificado pelo congresso americano e novas negociações do gênero só seriam retomadas
nos últimos anos da guerra fria, com os acordos START (Strategic Arms Reduction Treaty, ou, Tratado de
Redução de Armas Estratégicas). Para mais informações ver: CIRINCIONE, Joseph. Bomb scare: the
history & future of nuclear weapon. New York: Columbia University Press, 2007.