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UNIVERSIDADE METODISTA DE PIRACICABA
FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
RATIO STUDIORUM, EDUCAÇÃO E CIÊNCIA
NOS SÉCULOS XVI E XVII:
matemática nos colégios e na vida
IRIA APARECIDA STORER DI PIERO
P
IRACICABA
, SP
2008
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3
RATIO STUDIORUM, EDUCAÇÃO E CIÊNCIA
NOS SÉCULOS XVI E XVII:
matemática nos colégios e na vida
IRIA APARECIDA STORER DI PIERO
O
RIENTADOR
:
P
ROF
.
D
R
.
JOSÉ
MARIA
DE
PAIVA
Dissertação apresentada à Banca
Examinadora do Programa de Pós-
Graduação em Educação da
UNIMEP como exigência parcial
para obtenção do título de Mestre
em Educação.
P
IRACICABA
, SP
2008
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4
BANCA EXAMINADORA
______________________________________________
PROF. DR. JOSÉ MARIA DE PAIVA (orientador)
______________________________________________
PROF(a) DR(a) CRISTINA BROGLIA F. DE LACERDA
(UNIMEP)
______________________________________________
PROF. DR. RAIMUNDO DONATO DO P. RIBEIRO (UNIMEP)
____________________________________________
PROF(a). DR(a). MARISA BITTAR (UFSCAR)
5
Dedico esta dissertação às pessoas mais importantes da minha vida - minha família
Meus filhos Roberta e Adriano (com Danielle) e meus pais Roselis e Juliano
Sem me esquecer da Sil, do Meme, do Juca, do Mígue e da Laine
(por ordem de chegada)
E às duas flores mais novas Bibi e Duda
6
Agradeço a todas as pessoas que me auxiliaram direta e indiretamente.
Especialmente a duas pessoas maravilhosas que me acolheram em sua casa,
prontos a um mimo, um jantar, um passeio, um abraço durante a pesquisa que
resolvi realizar e a quem eu amo demais, meu filho Adriano e minha norinha querida
Danielle.
A minha lindinha Roberta, que sempre me ajudou e amparou estimulando e me
fazendo rir demais. Ai que saudade de minha filha italianinha.
Também um especial agradecimento ao Prof. Dr. José Maria de Paiva, meu
orientador, que acolheu essa professora de matemática que tentava trilhar novos
rumos (nunca dantes navegados). Muito obrigada pela paciência e auxílio.
Às minhas amigas de percurso profissional e acadêmico em especial a Leda Zinsly
que muito me incentivou e apoiou.
Às amigas da Secretaria do PPGE que sempre me orientaram, acolheram e
indicaram os melhores caminhos.
Às minhas muito queridas amigas da Biblioteca da UNIMEP com as quais sempre
pude contar no meu trilhar.
Aos professores que compuseram minha banca de defesa Profa. Dra. Cristina,
Profa. Dra. Marisa e Prof. Dr. Raimundo, um especial obrigada pela paciência e
disposição para lerem e participarem da construção desse trabalho.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de nível superior – CAPES – Brasil. Dessa forma, gostaria de efetuar um
agradecimento especial ao Programa da CAPES pela confiança e suporte financeiro,
pois sem esse auxílio me seria quase inviável a conclusão do Mestrado.
7
"No decurso do tempo, a humanidade teve de agüentar, das mãos da ciência, duas
grandes ofensas a seu ingênuo amor-próprio. A primeira foi quando percebeu que a
Terra não era o centro do universo, mas apenas um pontinho num sistema de magnitude
dificilmente compreensível... A segunda quando a pesquisa biológica roubou-lhe o
privilégio de ter sido criado especialmente, e relegou o homem a descendente do mundo
animal” (FREUD)
8
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo desvendar as possíveis conexões entre
o desenvolvimento da ciência e a educação preconizada pela Companhia de Jesus
nos séculos XVI e XVII através de revisão de literatura e leitura de documentos da
Companhia, em especial o Ratio Studiorum. O exercício da atividade científica nesse
recorte temporal foi, durante muito tempo, tratado como algo que não condizia com a
vida religiosa, nos sendo difícil imaginar um padre ou um mestre jesuíta realizando
experiências, produzindo livros científicos, lecionando disciplinas como astronomia,
física, matemática, geometria, etc. Entendemos que essa forma de pensar seria
olhar essa temática de forma anacrônica, emitindo juízos de valor a partir de uma
ótica contemporânea. Para a finalidade desse estudo, não nos esquivamos de
pensar que não incompatibilidade entre ser jesuíta, ser educador e ser cientista.
Porém, também não pensamos que os jesuítas se dedicaram ao estudo científico
prioritariamente. Descobrimos que os conhecimentos construídos, especialmente
dentro de instituições religiosas como a Companhia de Jesus e, consequentemente,
o plano de estudos adotado em seus colégios - o Ratio Atque Institutio Studiorum
Societatis Jesus nunca foi anti-científico, alcançando inúmeras nações e culturas,
servindo de embasamento e disseminação tanto de práticas educativas, como de
novos caminhos científicos (práticos e teóricos), espaço para o diálogo entre a
matemática e as outras disciplinas do currículo. Destacamos entre os jesuítas
cientistas e matemáticos: Clavius, Grienberger, Kricher e Ricci, considerados
fundadores de novas metodologias científicas, bem como introdutores do
aprendizado científico no ambiente escolar, com destaque para a Aula da Esfera do
Colégio de Santo Antão e o desenvolvimento de um currículo de matemáticas para
os colégios jesuítas. Demonstramos por meio dos autores, que se apresentaram
nessa dissertação, que os jesuítas frente às novas realidades eram flexíveis e
abertos às inovações, destacando que eles estavam, inclusive, perigosamente
próximos das mais inovadoras tendências cientificas e filosóficas.
Palavras-Chave: Educação Jesuítica; Ciência; Matemática; Ratio Studiorum.
9
ABSTRACT
This study has the objective of unraveling the possible connections between the
development of science and the Society of Jesus driven education on XVI and XVII
century. The scientific activity on this time frame was, during a long period, treated as
something dissociated of religious life, which makes difficult for us to imagine a priest
or a Jesuit master conducting experiments, writing scientific assays, teaching
disciplines such as astronomy, physics, mathematics, geometry etc., in a époque
where theology was the “Queen of Sciences”, and where philosophy was the most
important discipline taught on the Jesuit colleges. But, it’s understood that this was
thinking on this theme in an anachronistic manner, judging values from a
contemporary point of view. For this study, we didn’t ignore the idea of an
incompatibility between being a Jesuit, an educator and a scientist. Also, we didn’t
put up the idea of Jesuits having scientific study as top priority. We believe, however,
that a great majority of scientific knowledge were accumulated over the centuries
allowing what is known as “Scientific Revolution”. And that this knowledge was built
specially within religious institutions, since there were no more qualified institutions
on the period. The Jesuit Colleges and therefore the education plans adopted by
them the Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Jesus, which had reached the
four corners of the globe and were the basis and responsibles for the dissemination
of new practical and theoretical scientific knowledge. The Jesuit Colleges were
places
where the mathematics tried to dialogue with others you discipline of the
resume.
It’s clergy, among which are Clavius, Grienberger, Kricher, Ricci among
others, are considered the founders of new scientific methodologies, as well as the
introducers of the scientific learning on the school environment, with particular focus
to the Teaching of Sphere on Saint Anthony the Great College and the introduction of
a scientific curricula (mathematics) on the Orders colleges. Therefore, we intend to
clarify how the diffusion and production of scientific knowledge (specially the
mathematic) and technical (related with the need of transatlantic navigation) on the
Jesuits colleges of XVI and XVII century, hoping to demonstrate through the authors
that are shown in this study that the Jesuits when faced with novel realities were
flexible and open to innovation, dangerously close to the newest trends of science
and philosophy.
Key-words: Jesuitical Education; Science; Mathematics, Ratio Studiorum.
10
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO..................................................................................................... 11
CAPÍTULO I. A TELA DA TRAMA - Educação, Escolas e Ciência: Séculos
XVI e XVII...................................................................................... 18
1.1. Das ciências e da técnica no século XVI............................................... 25
CAPÍTULO II. A URDIDURA DA TRAMA - A Configuração de uma
Metodologia Educacional Jesuítica ...................................... 35
2.1. A parte IV das Constituições.................................................................. 50
2.2. Aspecos históricos e gerais do Ratio Studiorum................................. 55
CAPÍTULO III. O PONTO SEGREDO - Educação Jesuítica e a Ciência
nos Colégios ............................................................................. 67
3.1. As Matemáticas no Ratio Studiorum ..................................................... 97
3.2. As regras para os Provinciais e Professores de matemática.............. 103
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................. 106
REFERÊNCIAS.................................................................................................... 111
ANEXOS .............................................................................................................. 119
11
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
1. Azulejos na sala da Aula da Sphaera no colégio de Santo Antão, Lisboa ............. 18
2.
LIBRO DE ALGEBRA EN ARITHMETICA Y GEOMETRIA.......................................................
29
3. SIDEREUS NUNCIUS MAGNA – Galileu Galillei................................................... 31
4. Santo Inácio e Paulo III na aprovação da Companhia de Jesus ............................ 35
5. Ratio studiorum ...................................................................................................... 55
6. Museu Kircheriano no Collegio Romano ................................................................ 67
7. Imagem de Clavius (1538–1612) ........................................................................... 69
8. Figura de Kircher.................................................................................................... 75
9. Correspondência de Kischer .................................................................................. 76
10. Relógio magnético................................................................................................ 77
11. Lagarto encasulado em âmbar............................................................................. 77
12. Lanterna mágica................................................................................................... 78
13. Capa da Ars Magnésia......................................................................................... 78
14. Reconstrução de Kircher da legendária esfera de Arquimedes ........................... 79
15. Tarantela .............................................................................................................. 80
16. Mundus Subterraneus .......................................................................................... 81
17. Portada de Ars magna lucis et umbrae ................................................................ 82
18. Aula da Esfera...................................................................................................... 84
19. Salacisis, de Crepusculis liber unus, nũc recs & natus et editus.......................................... 88
20. COSMOGRAPHIA FRANCISCI MAVROLYCI MESSANENSIS SICVLI
............................ 88
21. Proposição 40: A superfície da esfera está para a superfície total do cone
equilátero circunscrito assim como 4 está para 9 ...................................................... 89
22. Proposição 9: A superfície da pirâmide regular circunscrita a um cone recto é
igual [em área] ao triângulo cuja base é o perímetro da base da pirâmide FHLD e a
altura é o lado BG do cone ........................................................................................ 90
23. Proposição 20. As superfícies cónicas inscritas na esfera fenecem na esfera. ... 90
12
24. Proposição 14: Cilindros (AR e CI 1) colocados sobre bases iguais (MQ e GH)
estão entre si assim como as respectivas alturas. O mesmo acontece para os
cones.......................................................................................................................... 91
25. Livro XI, Proposições 29 e 30 Se os paralelepípedos FEAGKIMC e FEBHLOMI
tiverem a mesma base EFIM e a mesma altitude, estando, em consequência, entre
os planos paralelos EFIM e GAOL, serão iguais........................................................ 91
26. Livro VI, Proposição 3 Se a recta BF cortar pelo meio o ângulo B de qualquer
triângulo ABC, serão ossegmentos da base AF e FC na mesma proporção que os
lados aderentes AB e CB. E se os segmentos AF e FC da base forem na mesma
proporção que os ditos lados, cortará a recta BF o ângulo B pelo meio. ................... 92
27. Livro V (Comentário de Tacquet), Lema 2 Se duas quantidades A e B tiverem
uma medida comum C, será A tantas vezes somada quantas C cabe em B igual a
B tantas vezes somada quantas C cabe em A........................................................... 92
28. Livro III, Escólio de Tacquet à Proposição 17 Outro modo mais expedito de
tirar, de um ponto dado O, uma tangente a qualquer círculo se colhe da Prop. 31.
que é o seguinte: Tire-se do ponto dado ao centro do círculo a recta OA e
descreva sobre ela um semicírculo o qual corte a circunferência em B. Digo que a
recta BO é a tangente que se pede............................................................................ 93
29. Detalhe do frontispício ilustrativo da obra Uranophilus Caelestis Peregrinus de
Valentin Stansel ........................................................................................................ 94
13
Homem Vitruviano. Da Vinci (1490)
14
INTRODUÇÃO
“Para a Salvação das Almas, e [...] para o melhor serviço a Deus
(Constituições)
Essa dissertação buscou historiar uma educação que se configurou pelo
documento Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Jesus, método de ensino da
Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola, e as possíveis
conexões entre a educação proposta pelo referido documento e a “ciência” que
emergia no século XVI.
Para quem estuda a história da educação pode ser até curioso tomar
consciência de que o ensino não estava nos projetos iniciais da Companhia.
Inclusive, Inácio de Loyola manifestava inicialmente reservas a esse respeito. Mas,
poucos anos após a fundação da Ordem jesuítica, a educação era um dos seus
principais ministérios e havia se transformado missão apostólica (O´MALLEY, 1993;
GIARD, 1995).
Esse direcionamento não deve ser estranhado, estamos diante de uma ordem
religiosa um tanto “sui generis” para o que se conhece das ordens religiosas daquela
época, como os dominicanos, beneditinos, etc. Desde o começo, os seguidores de
Inácio rejeitaram certos princípios orientadores da vida religiosa que eram comuns
no século XVI. Como ilustração dessa assertiva vamos mencionar apenas dois
pontos: a abolição da recitação em coro do Ofício Divino
1
, ao contrário do que
faziam outras ordens monásticas e conventuais. E, também a substituição de
mosteiros por casas ou residências, ou seja, a substituição de uma vida
contemplativa (monástica), por uma vida ativa, o homem agindo na busca de sua
salvação e a de seus irmãos (O´MALLEY, 1993, MARTINS, 1997)).
Para confirmar esse início não direcionado à educação, podemos mencionar
que segundo o Formula Instituti de 1539, estabelecia-se como missão da
Companhia, o Ministério da palavra (nominatim) por meio do ensino da doutrina
1
O Ofício Divino ou Liturgia da Horas é um conjunto de orações, salmos, antífonas, hinos, leituras bíblicas e
outras que a Igreja Católica recomenda serem efetivadas (rezadas, cantadas) em determinadas horas dos dias. Os
sacerdotes, religiosos e religiosas têm obrigação de rezar o Santo Oficio, porém Inácio pensava que a assistência
ao coro os impediria da atividade apostólica permanente, exigida pelo carisma de evangelizadores livres e
instáveis. Dessa forma aspectos cultuais e levíticos do ministério sacerdotal: coro, missas solenes, outros ofícios
cantados, que constituíam ocupação essencial de Monges, Cônegos Regrantes e membros de Ordens
Conventuais, nunca se enquadraram nos meios de evangelização, utilizados pela Companhia de Jesus.
15
cristã às crianças e ignorantes (pueri et rudes), os Exercícios espirituais, as Obras
de Caridade, mas nada falava sobre as escolas ou educação para formação de
alunos que não fossem se dedicar à vida clerical.
O que nos leva pensar que a educação não estava entre as atividades
ministeriais ou nos projetos apostólicos iniciais dos Jesuítas. Eles se identificavam
muito mais com os Apóstolos que com mestres. E, para suas vidas se identificavam
com os Evangelhos de Mateus e de Lucas
2
. Fazendo uma ponte, podemos
mencionar, por exemplo, que como os doze Apóstolos, os Jesuítas são enviados;
para pregar o Evangelho, isto é, comprometidos nos diversos ministérios da Palavra
de Deus; para curar os enfermos, aliviá-los dos males corporais e espirituais; sem
buscar qualquer recompensa econômica (O´MALLEY, 1993) [grifos nossos].
Também podemos, sob uma ótica contemporânea, aceitar de modo acrítico
algumas teses, como a de que os jesuítas exerceram o papel de adversários,
detratores e censores do ensino científico. No caso em estudo, acreditamos que ao
pensarmos dessa forma estaríamos incorrendo no equívoco de ignorar que a
necessidade de ordenamento e transmissão dos conhecimentos que afloraram nos
séculos XVI e XVII (quer ciência, quer técnica), iria ser respondida pela escola. E, a
maior rede educativa desse período foi a jesuítica.
Ou seja, a ciência perpassou as práticas as educativas desenvolvidas pela
Companhia de Jesus. Verificamos que a mesma ensinou, catalogou, pesquisou e
desenvolveu teses científicas, que não podem ser esquecidas. Se incorrêssemos
nesse equívoco tornar-se-ia muito mais difícil a compreensão da história da ciência
que se desenvolveu ao longo das centúrias mencionadas, e posteriores.
Nesse sentido, esperamos que nossa pesquisa contribua para elucidar melhor
a temática desenvolvimento da ciência e educação jesuítica, que ainda hoje suscita
debates contraditórios entre pesquisadores e estudiosos.
O recorte temporal culos XVI e XVII foi necessário porque apesar da
Companhia de Jesus e o Ratio surgirem no culo XVI, os reflexos da educação
jesuítica na difusão de conhecimentos científicos far-se-ão mais visíveis no culo
XVII devido a configuração definitiva do documento em 1599.
Iniciamos no século XVI para contar da fundação da Companhia, de seus
colégios, de sua vocação educativa, da ciência que surgia, e avançamos para o
2
Cf. O´Malley, nos Capítulos 10 e 9 dos referidos evangelistas respectivamente.
16
século seguinte, apresentando as disciplinas nos colégios e universidades jesuíticas
do século XVII, a fim de ilustrar de que forma a ciência era ensinada nos Colégios
Jesuítas.
Entre correntes opostas que tratam do tema jesuítas e ciência, uma acredita
que a educação jesuítica foi muito conservadora para estimular e/ou favorecer o
desenvolvimento científico. Outra, muito presente no mundo acadêmico atual,
principalmente na Europa e Estados Unidos, vem realizando pesquisas documentais
aprofundadas, traduzindo inúmeras fontes primárias (formada principalmente por um
grupo de estudiosos que se denominam Jesuits in Science), procurando demonstrar
que a educação jesuítica poderia ser considerada até inovadora, principalmente para
a sociedade que se apresentava no século XVI.
Nossa compreensão desse tema se alinha à segunda corrente, pois ao iniciar
esse projeto de pesquisa verificamos que nos Colégios Jesuítas desenvolveram-se
currículos que privilegiaram a matemática, as ciências naturais, a física, a geometria
espacial, o estudo dos ângulos, o estudo do movimento dos astros, bem como se
produziram inúmeras obras sobre medicina, astronomia, química, zoologia, botânica,
geografia, etc.
Pensamos que a primeira corrente pode estar a historiar a educação jesuítica
em função de critérios e preocupações que nos são contemporâneos, ou seja, com
os olhos de hoje, pois nossos estudos evidenciaram que o Ratio Atque Institutio
Studiorum Societatis Jesus propunha para seus colégios, além de uma estruturação
didático-metodológica, funcionando como espinha dorsal da educação jesuíta, uma
atuação prática que deixava bastante espaço de manobra para cada professor ou
cada colégio promover, da melhor forma, o desenvolvimento e a divulgação de
conhecimentos (científicos ou não).
Mesmo quando em alguns documentos da Companhia de Jesus, como as
Constituições e o Ratio Studiorum surgem passagens que incitam aos jesuítas que
não se afastem da filosofia Aristotélica, ou da Teologia dos Padres, encontramos
nessas mesmas passagens referências que explicitam que essa fidelidade deveria
ser mantida “quando possível”, ou seja, havia flexibilidade para o pensar autônomo e
para o diálogo entre e ciência, destacando que essa flexibilidade é coerente com
a sólida formação intelectual dos membros da ordem, bem como com os constantes
contatos dos mesmos com idéias inovadoras e novas culturas.
17
Como pensamos a ciência como uma construção humana de conhecimentos
para dar respostas às questões que lhe são postas pela realidade do seu tempo,
nossa hipótese de pesquisa sugere que a metodologia educacional jesuítica
caminhou e desenvolveu-se ao lado das necessidades de uma sociedade que
passava por inúmeras transformações, especialmente na esfera científica, e por isso
mesmo esteve aberta às necessidades de modificação na produção desse
conhecimento, que não confundimos com a ciência na sua acepção moderna.
A ciência, nos séculos estudados, foi mais uma junção do saber dos homens
da técnica (engenheiros, artífices) com o saber dos homens da ciência (filósofos).
Somente a posteriori é que se configurou um corpo estruturado de saberes
denominados de ciência.
Para elucidar a metodologia de estudo adotada para a construção dessa
dissertação, reportamos que a história da educação jesuítica descortinada nesse
trabalho foi analisada sob uma ótica que se embasa principalmente no religioso, não
porque as principais leituras realizadas advieram de religiosos ou teólogos mas,
principalmente, porque a principal tarefa da Companhia, descrita em todos os
documentos da Ordem, era a defesa e propagação da cristã e a iluminação das
almas, ou seja, precisamos elucidar que sua missão primeva não era científica, ou
mesmo educacional, era religiosa.
A escolha dos autores foi o resultado de uma tentativa de se contemplar
aspectos históricos, sociais, culturais, religiosos, políticos, intelectuais, etc., que
elucidassem como, e se realmente se processou, a produção e disseminação de um
conhecimento técnico/científico no interior dos colégios e por meio da educação
propugnada pelos jesuítas, pois pensamos como Paiva (2006, p.31), quando o
mesmo relata que
As artes (profissões e ofícios) foram desenvolvidas segundo as
necessidades vividas, e não como componentes da escola. É preciso tomar
conhecimento desse desenvolvimento, englobando Náutica, Astronomia,
Geografia, Cartografia, História, Matemática, Física, Ciências de modo
geral, e procurar entender como foram assimiladas pela instituição escolar,
feitas já prática social. Elas não nasceram escolares, mas sociais.
Realizamos uma revisão e uma compilação de literatura, ao mesmo tempo
em que investigamos dois documentos as Constituições da Companhia de Jesus e o
Ratio Studiorum (ambos já traduzidos). Sendo, as considerações aqui apresentadas,
reflexões sobre as informações já apuradas por outros pesquisadores.
18
Ao tratarmos do tema ciência nessa dissertação, vamos nos valer de relatos
sugerindo que a mesma é derivada de necessidades de uma sociedade que se
expande nos burgos e para além da Europa. Necessidades que vão surgindo muito
antes do recorte temporal proposto por essa pesquisa. Assim, em alguns momentos
podemos falar de engenhos e engenheiros do século XV, ou falar dos estudos de
astronomia, matemática, engenharia que se processaram antes do culo XVI, visto
que o que se quer demonstrar é que as técnicas, ciências ou tecnologias
3
que se
desenvolveram (ou foram criadas) desde a Idade Média
4
, transformaram o que
conheceremos por ciência, hoje. Não como separar, nesse trabalho, o que seja
técnica, ciência e conhecimento científico, pois não haveria essa divisão no século
XVI conforme o explicitado por Braga, Guerra e Reis (2003, v.1).
O que a literatura consultada sobre história da ciência sugere é que no século
XVI e XVII desenvolveram-se muitas técnicas de construção de máquinas,
mecanismos e estruturas arquitetônicas e plásticas, e esse desenvolvimento
oportunizou também o desabrochar do que se denominou de Revolução Científica.
Nesse período não temos, ainda, a ciência como corpo estruturado de
conhecimento, ou fragmentada em áreas do saber, como se faz
contemporaneamente, portanto esse enfoque de ciência não faz parte dessa
pesquisa.
Sob nosso ponto de vista, vamos falar de tecnologias principalmente as
relacionadas às navegações, bem como do desenvolvimento da matemática, da
geografia, da cartografia, de novas propostas de interpretar e explicar o mundo
natural como as de intelectuais como Copérnico, Galileu e Clavius, Grinberg, Kircher
(matemáticos, astrônomos, professores jesuítas, engenheiros, etc.).
O que trataremos por “ciência o será seu aspecto filosófico, ou a
construção de um método científico, mas sua representação concreta na vida das
pessoas daquele tempo para ilustrar como se dava o processo de criação e
transmissão desses conhecimentos. Justificando esse ponto de vista, buscamos
apoio em Charmot (apud INFANTES, 2004, p.589), que assegura que para tentar
compreender uma história da educação como a proposta pelos jesuítas, devemos
3
Nesse caso o sentido de tecnologia não é o moderno. A tecnologia aqui significa trabalho do artíficie, “arte
manual”.
4
Qualificação ou terminologia adotada por alguns autores pesquisados, e que adotamos a título de ilustração de
um período.
19
buscar “[...] uma ligação entre o pensamento dos jesuítas e as necessidades da
vida”.
Entendemos que o Ratio Studiorum foi uma resposta às necessidades de
unificação de uma metodologia educativa. A Companhia de Jesus ao se expandir
pelo mundo entrou em contato com uma diversidade de culturas, línguas e modos
de ser e, para Inácio essa diversidade poderia levar ao fracasso a missão
(educativa) da Ordem. Segundo Inácio de Loyola, sem uma boa estrutura a
educação não produziria os frutos desejados. Lendo relatos das cartas trocadas
entre Inácio e Nadal
5
verificamos essa inquietação, mesmo após a publicação das
Constituições da Companhia.
Era seu desejo configurar uma metodologia unificante para os seus colégios.
Assim, o Ratio Studiorum tornou-se o modus operandi da Companhia na área
educativa, sendo tanto modelo de formação intelectual, como instrumento de
formação integral do homem para uma vida cristã, conforme desejava Inácio (DEL
REY, 2007).
Estruturalmente essa dissertação está dividida em três capítulos, pois
acreditamos que a criação de cenários ou caminhos prévios embasam e orientam o
desenvolvimento de uma pesquisa. São eles que possibilitaram a compreensão do
tema e do objeto de estudo, bem como o amadurecimento para reflexões que não
estariam desarticuladas de contextos previamente explicitados.
De acordo com essa perspectiva, vamos traçar no primeiro capítulo um breve
panorama da educação, da sociedade no século XVI e do entendemos por ciência
nesse período para explicitar o contexto onde surgem e se desenvolvem as escolas
e práticas educativas da Companhia de Jesus, e como se dava a evolução técnica,
ou o desenvolvimento do conhecimento científico.
Como o título da dissertação enuncia, o documento analisado nesse trabalho
é o Ratio Studiorum. Para seu melhor entendimento relatamos seu desenvolvimento
histórico e, transcrevemos e analisamos, de forma breve e sintetizada, alguns
capítulos e parágrafos desse documento que pudessem elucidar de que forma se
configuraram os métodos de ensino-aprendizagem, as disciplinas que eram
ministradas nos colégios e universidades, como era a hierarquia, como deveriam se
5
Nadal foi um dos Reitores do Colégio de Messina e um dos configuradores das primeiras versões do Ratio
Studiorum
20
portar os professores, etc., para tentar elucidar se haveria flexibilidade (curricular,
metodológica) para que ocorresse o contato entre a fé e a ciência.
Iniciamos esse capítulo explicando como pensavam os inacianos à época da
constituição da Companhia, prosseguimos estudando as Constituições na sua Parte
IV, pois esse documento, anterior ao Ratio, serviu de base para o desenvolvimento
do modelo educativo dessa ordem religiosa.
Para tratar especificamente do cerne desse trabalho, traremos ao último
capítulo, pesquisadores (clássicos e contemporâneos) que debatem a temática
ciência, técnica e educação nos colégios da Companhia de Jesus, buscando
esclarecer de que forma a ciência convivia com o currículo no Ratio Studiorum.
Também de que forma esse documento,