83
a diferença no suporte e na forma e rapidez de acessamento (KOCH, 2005; POSSENTI, 2002;
COSCARELLI, 2003, 2005, 2006, 2007; RIBEIRO, 2005, 2008); de outro, os que defendem que
o hipertexto possibilita um novo modo de enunciação – o digital – (XAVIER, 2002, 2007;
ARAÚJO, 2003, 2006a; KOMESU, 2005a, 2005b; BRAGA, 2003, 2005), que “tende a produzir,
em seus hiperleitores, percepções jamais antes experienciadas em qualquer outro modo de
enunciação analógico” (XAVIER, 2002, p. 29).
Um dos argumentos que podem ser encontrados na primeira corrente dos estudos
sobre hipertexto pode ser lido em Koch (2005, p. 61), segundo a qual “todo texto constitui
uma proposta de sentidos múltiplos e não de um único sentido, [...] todo texto é plurilinear
na sua construção, [então] pelo menos do ponto de vista da recepção, todo texto é um
hipertexto”. Para fomentar esse argumento, a autora se utiliza do exemplo do gênero
reportagem, no qual há boxes, gráficos, tabelas, fotos etc. que completam o sentido do
texto, fazendo uma clara analogia à multissemiose da qual fala Xavier (2002), ou seja, essa
característica não é exclusiva do hipertexto digital. Além disso, para argumentar que a
característica da não-linearidade não é um fenômeno que apareceu com o hipertexto, Koch
(2005, p.62) argumenta que
o texto se constitui de um conjunto de pistas destinadas a orientar o leitor na
construção do sentido e, para realizar tal construção, ele terá de preencher
lacunas, formular hipóteses, testá-las, encontrar hipóteses alternativas em caso de
“desencontros” entre o dito e o não dito, [ou seja] a compreensão terá de dar-se
de forma não linear.
Para a linguista, então, muitas das novidades atribuídas a esta tecnologia digital já
existiam muito antes de os computadores chegarem ao mundo. Possenti (2002, p. 64), por
exemplo, além de frisar que o hipertexto não constitui novidade, ainda faz uma crítica à
nova forma de construção de sentido, dita pelos linguistas do segundo grupo:
não estou querendo dar a entender que penso que o hipertexto não significa
novidade alguma ou não implica diferenças relevantes, ou, principalmente, que
não implicaria mudanças de atitude ou de atividades. [...] O que estou querendo
dizer é que é minimamente necessário dar-nos conta de que certas expressões
podem estar fazendo pensar que a mudança de suporte [do impresso para o
digital, basicamente] é suficiente para alterar o texto, tornando central, sem razão,
a meu ver, um elemento que até recentemente era de fato desconsiderado ou
considerado absolutamente secundário no debate sobre o sentido.