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de cabelos loiros e perfumosos, com expressão vivaz na pureza dos seus olhos de
esmeralda, veio perguntar-me o que era saudade...
Mas eu, que sempre procuro dar uma resposta às suas perguntas, a que a
Inocência e uma precoce inteligência emprestam vida e graça extraordinárias,
adaptando tanto quanto possível minhas explicações ao seu intelecto de criança,
permaneci muda, interdita, diante daquela pergunta direta formulada com ar
sério e com uma não desengraçada gravidade.
Permaneci muda... Onde e quando o meu loiro querubim ouvira pronunciar
esta palavra que todos definem e interpretam na forma do seu Sentimento, que
exprime tanta coisa doce? Ah! Sem dúvida ouvira naquele momento mesmo e,
ansiosa por uma explicação que exigia sem mais delongas, pelos modos de sua
atitude, viera pedir-me na forma do seu hábito.
Dando costume de ser satisfeita a sua curiosidade todas as ocasiões em
que a excitavam, não há de negar que fora naquele mesmo instante que aos seus
ouvidos soou harmoniosa, cantante, a música doce e triste da palavra Saudade,
que todos nós compreendemos, que todos nós sentimos, que produz em nossa
Alma a emoção simultânea de Alegria e Dor e nos faz derramar uma torrente de
consoladores e silenciosas lágrimas, pois talvez o choro seja o símbolo da
Saudade, assim como é o da Dor e da Melancolia... elas, que lhe diria eu? Sem
querer, encheram-se me os olhos de lágrimas. É que em todo o meu Ser, em todo
o meu Coração, em toda a minha Alma - bóia uma Saudade imensa, mansamente,
melancolicamente, como “um pungir delicioso de acerbo espinho”...
Sim, como não me comover ouvindo falar da Saudade a um ser que eu
muito amo e muito adoro, ouvindo falar da Saudade a um ser, cujos sonhos são
belos como as pétalas das rosas e puros como os dos anjos, ouvindo falar da
santidade, se da Saudade eu vivo?...
Muda-se nos a vida (...)
Mas, olhando-me com os seus olhos de esmeralda rasos d’água - lágrima
que reverberava a Sensibilidade duma Alma mui amorosa, mui acessível a um a
Amor puro como o verde esmeraldino dos seus olhos - ela, descendo do fraternal
regaço, enlaçou-me o pescoço e depois, muito terna, muito meiga, com um Afeto,
bem ao vivo, pintado nas fascinadoras e mascaradas feições - deu-me nos lábios
um beijo sonoro, que me soube como o mil, um beijo bem estaladinho, verdadeiro