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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS
MESTRADO EM LITERATURA
MAURA EM FLOR
UMA FOTOBIOGRAFIA
REGINALDA ELI KALCKMANN
Orientador(a): Profª Drª Zahidé Lupinacci Muzart
FLORIANÓPOLIS
2007
REGINALDA ELI KALCKMANN
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2
MAURA EM FLOR
UMA FOTOBIOGRAFIA
Dissertação do Curso de Pós-Graduação em Letras da
Universidade Federal de Santa Catarina, apresentada como
requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em
Literatura.
Orientador(a): Profª Drª Zahidé Lupinacci Muzart
Data da defesa: 28/09/2007.
Florianópolis
2007
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3
Reginalda Kalckmann
M
AURA EM
F
LOR
UMA FOTOBIOGRAFIA
1904
-
1992
Agradecimentos
4
À minha orientadora, Zahidé Lupinacci Muzart, por seus conhecimentos, seu auxílio, suas observações
e por acreditar em meu potencial.
Ao professor e também presidente da Academia Catarinense de Letras, Dr. Lauro Junkes, pela ajuda
e confiança que demonstrou ter em mim, sempre que precisei trabalhar com os documentos que constam
nesta instituição.
A D. Ester e a Maria Cristina, funcionárias da Academia Catarinense de Letras, pela ajuda oferecida
em busca de livros, jornais e documentos para minha pesquisa.
À professora Zilma Gesser Nunes, que me encorajou para o início deste percurso e pela ajuda em
diferentes momentos.
A Márcia Cardeal, ilustradora de Maura de Senna Pereira, pelas preciosas informações para esta
fotobiografia.
A Inês Mafra, pelos empréstimos de alguns livros de Maura e Almeida Cousin, e pelas informações
fornecidas sobre Maura.
Aos funcionários da Casa da Memória, pelas fotos cedidas sobre a cidade de Florianópolis.
Ao Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, pelos documentos e fotos cedidas em minha
pesquisa.
Aos meus sobrinhos, Joathan e Luana, que estiveram muito próximos em momentos difíceis.
À minha família, que compartilhou comigo momentos de alegrias e de dificuldades, durante o processo
de construção desta biografia.
5
Buscar
BuscarBuscar
Buscar-
--
-me em Flor
me em Florme em Flor
me em Flor
Buscar-me solta amanhecendo
dentro da tarde na solidão selvagem.
Solta na mata cortada pelo arroio
edênico e tão próximo
do rio Biguaçu ainda longe do mar.
Em verdes e pardos bosques
embrenhada buscar-me
passando cercas de vinhas e framboesas
galgando árvores com esconderijos maternos
para ninhos fecundados dormindo.
- Lábios roxos das frutas devoradas –
cintura ornada de boninas
cabelos misturados de aragem.
Buscar-me nos mesmos sítios de
aromas afrodisíacos e águas índias
(restos do éden, sítios intocados)
e, no entanto, onde
a garganta juvenil? Adolescente cabelo?
o ímpeto dos pés pequenos?
onde a carne amanhecendo?
Dos livros: Busco a palavra. P. 41
A Díade e os Dardos - p.15
Resumo
ResumoResumo
Resumo
6
Fotobiografia da poetisa e jornalista catarinense Maura de Senna Pereira, objetivando
mostrar sua vida em forma de texto e, principalmente, por meio de imagens fotográficas e
jornalísticas, desde o nascimento até o falecimento. Diante do grande amor que a poetisa
demonstrou por Florianópolis e Santa Catarina, tornou-se importante descrever um pouco
sua terra natal e mostrá-la em imagens e fotos. Inicialmente, apresento uma reflexão
teórica sobre o gênero biográfico e fotográfico. A biografia inicia no primeiro capítulo e
vai até o terceiro, destacando períodos de sua vida pessoal e intelectual. Um pouco da
Maura feminista é mostrada nesta fotobiografia. Na quarta parte encontram-se notícias
de jornal sobre o falecimento de Maura, trabalhos e homenagens feitas a ela,
posteriormente.
Palavras-chaves: biografia; fotografia; história; feminismo; memória.
Abstract
7
The Catarinense poet and journalist Maura de Senna Pereira’s photo biography has the
objective to show her life through the text and photos since her birth day until her death.
As she showed a great and impressive love by Florianópolis and Santa Catarina, it is very
important to describe ou describing her birthplace and to show ou showing its images and
photos. In the first part, I present a theoric reflection about the biography photographic
style.
Mauras’ biography begins in the first chapter and finishes in the third. These chapters
emphasize her personal and intellectual life. This photo biography shows a little of the
feminist Maura. In the fourth part, it is possible to read about the news that were shown
in newspapers about her death, work and homeges that were done later.
Key words: biography; photo biography; history; feminism; memory.
8
S
SS
S
UMÁRIO
UMÁRIOUMÁRIO
UMÁRIO
A
PEREGRINAÇÃO BIOGRÁFICA
A Gênese da Fotobiografia de Maura .........................................................
08
Foto e Bio: Grafias ............................................................................ 10
Um olhar fotográfico
................................................................ 10
o Um olhar biográfico ..............................................................
16
o Uma pesquisa em aberto ......................................................... 23
M
AURA EM
F
LOR
:
U
MA
F
OTOBIOGRAFIA
C
APÍTULO
1
Histórias para a menininha............................................................... 29
o Infância .......................................................................... 30
o Aqueles de cujo amor nasci ...................................................... 51
o
Homem íntegro: O pai ...........................................................
54
o Scheherazade: A mãe ........................................................... 66
o Os avós .......................................................................... 73
o Os arcanjos: Os irmãos .......................................................... 77
C
APÍTULO
2
o Meus verdes anos ............................................................... 96
9
o A princesinha das letras ........................................................ 137
o O casamento .................................................................... 147
o Cântaro de Ternura ............................................................. 158
C
APÍTULO
3
Maturidade ............................................................................... 177
Um grande amor ..........................................................................
179
o O homem de sua vida ............................................................ 180
o A união ........................................................................... 189
o Os livros ......................................................................... 199
C
APÍTULO
4
Herança poética.......................................................................... 260
MAURA DE SENNA PEREIRA
1904-1982:
VIDA E OBRA
CRONOLOGIA
.............................................................................. 275
C
ASAS E LUGARES ONDE
M
AURA VIVEU
............................................................................................ 286
R
EVISTAS E JORNAIS NOS QUAIS
M
AURA COLABOROU
.................................................................. 287
L
IVROS PUBLICADOS
....................................................................... 288
R
EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
.............................................................................
289
10
11
A
G
ÊNESE DA
F
OTOBIOGRAFIA DE
M
AURA
O meu contato inicial com Maura de Senna Pereira poetisa e jornalista catarinense deu-se
logo após concluir o curso de Letras-Português, na UFSC. Durante esse curso, prevaleceu minha preferência
pela literatura, principalmente no que dizia respeito à mulher e literatura. No último semestre, fui motivada a
pesquisar textos manuscritos na Academia Catarinense de Letras, a fim de escrever o trabalho final da
disciplina de Filologia, ministrada pela Profa. Dra. Zilma Gesser Nunes. Pude verificar assim o vasto material
lá depositado dos acervos de escritores catarinenses falecidos e todos a serem um dia resgatados.
Concluído o curso, voltei à ACL para analisar o acervo da escritora visando ao mestrado.
encontrei muitos recortes de jornais, nos quais Maura trabalhou, muitas cartas e cartões de pessoas ilustres,
como Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado, endereçados a ela e também fotografias antigas e
recentes da escritora, de amigos seus e de sua família. Depois do primeiro contacto rápido, a necessidade de
resgatar esse material evidenciou-se, sobretudo examinando as inúmeras fotos do acervo. Preparei, então, o
projeto de trabalho, a fim de elaborar uma Fotobiografia da escritora.
A partir dos textos de Maura, segui o processo de leitura investigativa, concentrando-me não
somente na teoria biográfica, como também na crítica textual e referente à mulher e relações de gênero.
Durante o percurso desses estudos, configurou-se a importância de destacar a escritora
enquanto mulher que avançou destemidamente sobre os padrões patriarcais da época e quanto ao papel
feminino instituído. Além de professora, Maura trabalhou em redações de jornais, lutou pelos direitos da
12
mulher - entre outros, transitou por espaços considerados exclusivamente masculinos. A poetisa avançou
muito além dos limites considerados “normais” para uma “boa moça da sociedade”, estando sempre à frente
de seu tempo.
Passei em seguida a um exaustivo trabalho de coleta de dados (fotografias, cartas, recortes de
jornais, etc.) e leitura de textos da escritora, publicados em jornais, materiais com os quais dialoguei para a
composição deste trabalho.
Diante disso, divulgar a vida e obra de Maura de Senna Pereira, retirar das margens a escritora e
jornalista através desta Fotobiografia foi uma aventura prazerosa, pois me fez mergulhar em minhas
próprias raízes catarinenses, procurando, a partir dos passos de Maura, mostrar também um pouco da Ilha de
Santa Catarina, desde quando ainda se chamava Nossa Senhora do Desterro, terra que Maura tanto amou e
perenizou em seus escritos.
13
Foto e bio: Grafias
Um olhar fotográfico
Eu queria uma história dos Olhares.
Pois a Fotografia é um advento de mim mesmo
com o outro: uma dissociação astuciosa da
consciência de identidade
.
Roland Barthes
. In:
A Câmara Clara
.
É difícil apreciar uma caixa de fotografias sem mergulhar no contexto passado e em seu
conteúdo, sem imaginar o que há por trás daquele lugar, daquela(s) pessoa(s), daqueles olhos que muitas vezes
nos fixam enquanto as fitamos. Reconstruímos pessoas e espaços sem que nos demos conta de que estamos
exercitando nossa mente durante essa reconstrução.
Quando se visita um amigo ou uma pessoa da família, geralmente uma foto a ser mostrada,
seja de uma viagem, de um bebê recém-nascido ou de outra pessoa de quem se gosta muito.
A possibilidade de reter uma imagem de forma que ela pare no tempo foi uma grande invenção da
era industrial, que despertou, desde o seu surgimento, o interesse de cientistas, artistas e pessoas em geral.
Considerada a mais revolucionária mágica de todos os tempos, a fotografia chegou a assustar pessoas na
época da invenção, diante de tão perfeita verossimilhança.
14
Roland Barthes, ao escrever
A Câmara Clara
, em 1980, passa sua visão sobre a Fotografia
(referida com letra maiúscula). A princípio, “queria saber a qualquer preço o que ela era em ‘si’, por que traço
essencial ela se distinguia da comunidade das imagens”. Em sua busca, Barthes encontra a idéia-chave: o que
a Fotografia reproduz ao infinito ocorreu existencialmente”. Talvez esteja a mola do interesse pela
fotografia; as pessoas desejam guardar momentos e situações de vida que, a partir do
clique
, já será passado,
desejam aprisionar, tal como Proust com sua Madeleine, o tempo.
Os retratos de família e o hábito de conservar os álbuns, gavetas ou caixas de fotografias de
família existe desde o início do século XX em famílias de diferentes classes sociais; isso exprime uma
atração constante por esses retratos, explica Mirian Lifchitz Moreira Leite (1998), no ensaio
Retratos da
família: imagem paradigmática no passado e no presente.
A autora verificou que a “memória funciona através
de imagens fixas, como retratos”. Ao lembrar de pessoas amigas, o que se tem é uma imagem sem
movimentos. Cita Milan Kundera, que diz que a memória não filma, fotografa”.
1
Quando se olha retratos de
pessoas que se foram, busca-se uma identificação com a sua imagem.
Miriam Moreira Leite comenta os dois tipos de retratos de família, que são os formais e os
informais. No primeiro são registrados casamentos, batizados, formaturas, comunhões, “padronizados sobre
a dignidade do grupo familiar” desde o século XIX, enquanto que os informais registram unicamente instantes
alegres, encobrindo os conflitos e transgressões. Mas a autora alerta que alguns mal-entendidos acontecem
no processo fotográfico, diante dos fotografados e na contemplação das imagens. É como se o que se vê
1
LEITE, Mirian Lifchitz Moreira. Retratos da família: imagem paradigmática no passado e no presente. In: SAMAIN, Etiene
(org). O fotográfico. São Paulo: Huitec,1998. p.37.
15
garantisse a realidade, como se os fotografados fossem felizes e vivessem em estado interno de prazer
constante. Aí não aparece a opressão da família, casais em litígio, pais revoltados, etc., diz Moreira Leite.
Diante disso, aparecem dificuldades de uma leitura das fotos. A análise para determinados fins
“deve acompanhar de perto o contexto em que será feita essa utilização, o que revela e desdobra os indícios
fornecidos pelas imagens”. É importante, então, ter cautela para que se faça uma leitura adequada das
imagens fotográficas.
2
A autora afirma que atualmente procura-se fazer retratos mais naturais e sem pose, a fim de
que a realidade seja percebida. Diz ainda que é papel feminino fixar, analisar e distribuir fotografias, pois a
fotografia é o registro do que o espelho vê e dá a oportunidade de conhecer como as pessoas nos vêem antes
das “ausências e separações”.
“Pensar as diferentes e simultâneas realidades que a fotografia comporta” é o que propõe Boris
Kossoy (1998) em
Fotografia e memória: reconstituição por meio da fotografia.
O autor explica que imagens
fotográficas de outras épocas se transformam em fontes insubstituíveis para a “reconstrução histórica dos
cenários, das memórias de vida (individuais e coletivas), dos fatos do passado centenário, assim como o mais
recente”. Assim como Miriam L. M. Leite, Kossoy argumenta que para isso as fotografias devem ser
identificadas e analisadas objetiva e sistematicamente segundo metodologia adequada.
A reconstrução pela análise iconográfica requer a construção imaginária. A imagem não mostra a
realidade interior. Kossoy alerta para o fato de que a imagem fotográfica pode ser utilizada de forma
2
LEITE. Op.cit.1998, p.40.
16
interesseira pela credibilidade que a fotografia nos passa, pois sempre houve uma certeza de que a
fotografia é testemunha e prova de uma verdade irrefutável.
Durante as etapas da trajetória da imagem uma sucessão de construções imaginárias por
parte do receptor. É através da sensibilidade, do esforço de compreensão dos documentos e do conhecimento
do que ocorreu no momento da fotografia que se pode ir além daquele registro fotográfico.
3
Interpretar é um desafio intelectual, é mergulhar no conhecimento; esse é o ponto de chegada,
salienta Kossoy. Assim, é importante ir além do registro documental.
A Câmara Clara
, estudo que Barthes faz na busca pelo melhor entendimento sobre a fotografia,
levou-o a perceber uma distinção entre o que chamou
studium
e o
punctum
da fotografia. O primeiro é o
intelecto e o segundo elemento, nomeado de
punctum
, é o que vem quebrar o primeiro. Diz o autor: “Dessa vez
não sou eu que vou buscá-lo (como invisto com minha consciência soberana o campo do
studium
), é ele que
parte da cena, como uma flecha, e vem me transpassar. (...) O
punctum
de uma foto é esse acaso que, nela, me
punge
(mas também me mortifica, me fere)”.
4
O que Barthes desejava entender não era o
studium
, o óbvio, mas sim o
punctum
, o obtuso.
Desejava entender o que liga na fotografia o
studium
ao
punctum
, o óbvio ao obtuso, o intelecto ao afeto.
Roland Barthes escreve
A Câmara Clara
em duas partes. Ao iniciar a segunda, o autor organiza as
fotos antigas de sua mãe e relata que se encontra sozinho no apartamento onde, poucos dias antes, ela
morrera: Sozinho no apartamento em que ela pouco tinha morrido, eu ia assim olhando sob uma mpada,
3
KOSSOY, Boris. Fotografia e memória: reconstituição por meio da fotografia. In: SAMAIN, Etiene (org). O fotográfico.
São Paulo: Huitec,1998 Op.cit.1998, p.43.
4
BARTHES, Roland. A câmara clara:. Nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1984, p.46.
17
uma a uma, essas fotos de minha mãe, pouco a pouco remontando com ela o tempo, procurando a verdade da
face que eu tinha amado. E a descobri”.
5
Não esperava encontrar a “ressurreição viva da face amada”.
6
Observava, nas fotos, as roupas
que a mãe usava antes da existência dele e via a pessoa querida vestida “de outro modo”. O que o separava
daquelas fotos era a História. Procurava, dessa forma, reencontrar a mãe através de objetos em seu quarto,
buscando que os mesmos aparecessem em algumas fotos, pois isso o traria, mesmo que por pouco tempo, à
presença viva da mãe. “Assim, a vida de alguém cuja existência precedeu um pouco a nossa mantém encerrada
em sua particularidade a própria tensão da História, seu quinhão”.
Para Barthes, a “história é histérica: ela se constitui se a olharmos - e para olhá-la é preciso
estar excluído dela”. O tempo que a mãe viveu antes de Barthes é a História.
7
Surge outra questão para o autor, se realmente a reconhecia. O que distinguia eram pedaços
(uma região da face, etc.); não alcançava o ser, ao que a mãe lhe escapava. Reconhecia diferencialmente, não
essencialmente. Vinha um trabalho doloroso para ele através da fotografia: por meio das imagens, identificar
a essência. Diante da nebulosidade, havia um lugar preservado, “a claridade de seus olhos, o azul esverdeado
de suas pupilas”.
8
Uma luz que iniciava uma mediação para a identidade essencial da face amada. Descobre em uma
fotografia muito antiga duas crianças, irmão e irmã em um jardim de inverno, unidos pela desunião dos pais.
5
BARTHES. Op.cit. 1984, p.95.
6
BARTHES. Op.cit. 1984, p.96.
7
BARTHES. Op.cit. 1984, p.98.
8
BARTHES. Op.cit. 1984, p.100.
18
Na “claridade de sua face, a pose ingênua de suas mãos, o lugar que docilmente ela havia ocupado, sem se
mostrar nem se esconder (...)”. Reencontrou na menina a sua mãe; via a bondade que formara o ser da mulher
que o amou.
9
Essa fotografia, a mãe que Barthes não queria mostrar, “realizava, utopicamente, a ‘ciência
impossível do ser único’”
10
- a mãe, um ser insubstituível.
O que Barthes descobre novamente, agora em “estado de novo dominado pela imagem, é que toda
foto é de alguma forma co-natural a seu referente”. A partir de então, mistura duas vozes: a da bondade
(dizer o que todo mundo e sabe) e a da singularidade (salvar essa banalidade de todo o ardor de uma
emoção que só pertencia a ele).
Barthes explica que “o Referente da Fotografia não é o mesmo de outros sistemas de
representação”, como a pintura. Na Fotografia não imitação, pois a “coisa esteve lá” - realidade e passado,
juntos. A Referência é a ordem fundadora da fotografia.
9
BARTHES. Op.cit. 1984, p.103.
10
BARTHES. Op.cit. 1984, p.106.
19
Um olhar biográfico
Sou um evadido,
Logo que nasci
Fecharam-me em mim.
Mas eu fugi.
Fernando Pessoa
Sabemos que o gênero biográfico existe desde a antiguidade clássica e que se tornou
instrumento de grande importância no reconstruir da História. A biografia, ao longo dos anos, era vista como
um modelo de história tradicional. Os biógrafos estavam mais preocupados com o fato vivido envolvendo a
personagem do que com as dimensões sócio-econômicas, culturais e políticas. O objetivo consistia em
enaltecer a personalidade, a fim de que fosse um modelo a ser seguido ao longo do tempo. Desde então, a
biografia passou por profundas transformações das bases teóricas metodológicas da disciplina. A
preocupação em analisar a personagem dentro dessas estruturas é constante nas biografias atuais.
Giovani Levi (2005), no início do texto
Usos da biografia
, cita Raymond Queneau, que diz que
“houve épocas em que se podia narrar a vida de um homem abstraindo-se de qualquer fato histórico”. Conclui
que narrar a vida de um homem abstraindo-se de qualquer fato histórico é coisa passada; depois, em outra
época menos distante da nossa, seria possível relatar um fato histórico sem citar a vida particular do
indivíduo. Hoje, a biografia, “no centro das preocupações dos historiadores”, assume um “papel ambíguo em
20
história: tanto pode ser um instrumento de pesquisa social ou, ao contrário, propor uma forma de evitá-la
(1974)”. A biografia está, mais do que nunca, no centro das preocupações dos historiadores, afirma Levi.
Em
A ilusão biográfica
, Pierre Bourdieu (2005) trata da questão do
novo
nos relatos, isto é, as
novas formas de relatar uma vida. Explica que uma história de vida usa uma linguagem simples; o autor
descreve metaforicamente a vida como uma estrada onde o indivíduo encontra pelo caminho encruzilhadas e
até mesmo emboscadas, ou seja, um caminho que deve ser percorrido e que tem um começo, etapas e um fim
da história. Ao produzir uma história de vida, no entanto, a biografia não deve relatá-la como uma história,
apresentando uma seqüência de acontecimentos com começo, meio e fim; isso seria “conformar-se com uma
ilusão retórica, uma representação comum da existência que toda a tradição literária não deixou e não deixa
reforçar”.
11
No texto
Luz e Papel, Realidade e Imaginação: As Biografias na História, no Jornalismo, na
Literatura e no Cinema,
Benito Bisso Schmidt (2000) fala sobre esse assunto. O autor coloca que a biografia
retornou como forte tendência. Não significa, entretanto, a retomada de um gênero
velho
”; há, sim, uma
nova forma de repensar questões clássicas no que diz respeito à relação indivíduo/sociedade, entre outros.
Nesse texto, o autor faz um convite ao debate sobre o papel das biografias, apontando algumas
características que diferenciam as novas das tradicionais. A primeira trata da escolha das personagens
enfocadas; a segunda, dos objetivos a que essas se propõem; a terceira, da forma de construção da narrativa
biográfica e, finalmente, do espaço da ficção nas biografias históricas. Estas são questões importantes a
serem aqui discutidas a fim de esclarecer a biografia dentro de um contexto atual.
11
BOURDIEU, op. cit.
21
Quanto à escolha, as biografias tradicionais tinham interesse por indivíduos destacados
socialmente, por mitos ou grandes vultos históricos. Schmidt destaca a obra do historiador gaúcho Aquiles
Porto Alegre, que publicou, em 1917, a obra
Homens Ilustres do Rio Grande do Sul
, na qual apresenta
personagens riograndenses notáveis, com o intuito de que sejam exemplos dignos a serem seguidos pelos
jovens. Nas biografias atuais, a tendência dominante é a busca pelas biografias de pessoas comuns ou pelas
classes subalternas, pela gente miúda, como afirma Schmidt. E cita os seguintes exemplos: “Exemplos disto
são os estudos de Cario Ginzburg sobre o moleiro Menocchio, condenado como herege pela inquisição noséculo
XVI; o de Eduardo Silva sobre o tipo de rua Dom Obá II D'África, que viveu no Rio de Janeiro nas últimas
décadas da escravidão e do Império, e o de Regina Horta Duarte sobre o anarquista mineiro Avelino Fóscolo.
“Qual a importância de pesquisas como essas” pergunta-se o autor?”.
12
A personagem vive dentro de um
contexto mais amplo; essa escolha permite outros olhares para a história, pode-se mostrar o indivíduo comum
como “individualidade pensante e como forma de cultura popular ou mentalidade coletiva”, pois o público
procura conhecer a vida de personagens que se identifiquem com eles, ou seja, gente como a gente. Schmidt
cita outros exemplos, como as biografias de Assis Chateaubriand (o magnata da imprensa) e a de Eva Perón (a
atriz que chegou à vice-presidência da Argentina). Não que estas pessoas não dêem excelentes biografias,
diz o autor, mas há o interesse comercial por trás desse tipo de escolha, além de pessoas comuns quererem
transformar essa vida em um mito. Entre nós, destaca-se o biógrafo Ruy Castro, cujo último trabalho é a
biografia de Carmem Miranda
13
, um trabalho de lego com mais de 600 páginas e, antes deste, as biografias
12
SCHMIDT, op. cit. p. 52.
13
Biografia intitulada Carmen. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
22
de Garrincha e de Nelson Rodrigues. Com muito sucesso, também o jornalista Fernando Morais publicou
biografias muito lidas que privilegiam o ficcional na maneira de narrar -
Olga
,
Chatô - o rei do Brasil
.
A segunda diferença entre as biografias tradicionais e as novas refere-se aos objetivos destas.
As primeiras louvavam ou denegriam as personagens enfocadas, apresentando suas vidas como modelo de
conduta positiva ou negativa. Assim, os biógrafos poderiam escolher entre uma opção e outra, de acordo com
as características do biografado. Atualmente, procura-se fugir desse contexto, partindo para um trabalho
que saliente mais o lado humano da personagem, suas fraquezas, suas virtudes e paixões na vida cotidiana,
mostrando-a num contexto mais amplo, sem deixar o ambiente cultural e os aspectos do cotidiano.
Schmidt chama atenção para a construção da narrativa. A maioria das biografias busca na
infância e na adolescência a justificativa das atividades futuras das personagens biografadas. Deve-se tomar
certo cuidado quanto a isso; não que os anos de vida, a infância e a adolescência não tenham importância, diz o
autor, mas estas podem ser “armadilhas de uma coerência construída
a posteriori
”. Cita Pierre Bourdieu para
explicar que palavras como “sempre” e “desde pequeno” indicam a busca da linearidade. Schmidt concorda
com Bourdieu pois, para ambos, na biografia não é necessário fixar-se na busca pela coerência linear; deve-se
transitar entre o social e o individual, do consciente ao inconsciente, do familiar ao político, do público ao
privado, e assim por diante, dando mais liberdade para escrever a biografia.
E, finalmente, nas biografias tradicionais, o historiador não dava espaço para a ficção; no
entanto, as atuais misturam a ficção às biografias. O biógrafo reconstrói existências ao narrar vidas,
tornando-se, assim, uma mescla de informações. Schmidt diz que historiadores e jornalistas devem ter maior
compromisso com o mundo real do que os cineastas e literatos, que podem contar com maior margem de
23
invenção. O jornalista Alberto Dines, que escreveu as biografias de Stefan Zweig e de Antônio José da Silva,
o Judeu, afirma: “quem se deixa levar pela curiosidade, não deve temer a invenção (...) a fidelidade aos fatos
não é inimiga da criatividade (...). É importante assinalar que o biógrafo não é um mero colecionador de
informações, inéditas ou não, mas um reconstrutor de existências, narrador de vidas, como dizia Virginia
Woolf (...).”
14
Em
Notas sobre a crítica biográfica
, Eneida Maria de Souza (1995) explica que a crítica
biográfica engloba a relação complexa entre obra e autor, já que a este último é permitido construir
misturando fatos e ficção.
O fascínio pelas biografias literárias, segundo a autora, se justifica pelo fato de o biógrafo
poder articular entre a obra e a vida, “tornando infinito o exercício ficcional do texto da literatura, graças à
abertura de portas que o transcendem”. Assim, confirma o que Benito Schmidt, seguindo outros autores,
escreve a respeito do espaço da ficção nas biografias. Com exceção da documentação (correspondência,
depoimentos, etc.), das datas (onde e quando nasceu/morreu), muito do que aparece nas biografias é ficcional
e esse exercício ficcional é ilimitado.
Eneida diz que uma marca da s-modernidade é a proliferação da cultura de massas, as
biografias, os acontecimentos do cotidiano, que são considerados extrínsecos à literatura, e isso traz à tona
uma discussão atual, a democratização dos discursos e a quebra dos limites entre a chamada alta literatura e
a cultura de massa. Eneida diz que todos os discursos são válidos, defende os estudos culturais, pois
14
Apud Schmidt, op. cit.
24
permitem maior abertura textual. Além disso, “independem do critério de valor exclusivista e fechado
assumido pela crítica literária mais tradicional”.
Algumas “provas de fogo da biografia” são apontadas por Maria Helena Azevedo, em
Algumas
reflexões sobre a construção biográfica
, reflexões também importantes a serem analisadas. Segundo a
autora, a biografia supõe alguma forma de existência do indivíduo, não qualquer indivíduo que ressalte o
social, o coletivo, mas o indivíduo como tal. um paradoxo, diz, pois a particularidade é demarcada
exteriormente. É um indivíduo
com relações de proximidade ou distância com outros indivíduos, relações
funcionando em molduras coercivas, institucionalizadas, onde o espaço individual inexiste
(1995). A biografia
trabalha com a questão do interior/exterior do indivíduo como forma de produção e reprodução da vida
social, uma vez que não é possível estabelecer somente um espaço exterior, social.
Assim, defende que pouca coisa pode fundamentar a pertinência da biografia: um nome próprio e
as dimensões de um corpo, ou seja, “um nome próprio público, um nome que vem junto com a sua tradição”. No
que se refere ao corpo, “ele é sempre uma imaginação, um corpo virtual, pré-fotografia”. Por isso, o corpo
“está preso à personagem, ao nome próprio, que lhe garante existência, ainda que no instantâneo e variado de
coisa imaginada”. O biógrafo irá contar “histórias de um indivíduo que, no mesmo movimento, não existe como
tal no mesmo movimento que o faz existir individualmente”. O biógrafo terá que construir a narrativa
biográfica sobre essa indecisa situação, ou seja, terá que passar por essa “prova de fogo”.
Outra prova de fogo inseparável desta diz respeito à existência da personagem biografada,
analisada fora do presente. A autora diz que “nenhuma figura pode existir destacada de certa tradição”.
Supor um passado (como chama o senso comum e a história) é uma “forma convencional e eficiente de
25
ordenação de realidades”. Ora, o passado pode ser constituído no momento atual; no entanto, a
documentação é importante, pois são as provas dessa realidade passada. O biógrafo constrói as cenas do
passado de forma a ficarem livres de serem consideradas fraude. Cabe ao biógrafo fazer escolhas; deverá
articular o pensamento público (a obra) e a vida privada (o cotidiano). Há uma escolha de origem ficcional, mas
não irreal. Assim, “a biografia ressalta sua origem ficcional, mas não irreal”, diz Azevedo.
Outra questão que a autora apresenta como uma decisiva prova de fogo é a
relação delicada
entre os valores, usos, mediações entre o passado e o presente. O espaço público de hoje não é o mesmo do
tempo narrado na biografia.
O interesse do biógrafo por alguém a ser biografado, segundo a autora, se de acordo com as
“inquietações e valores do seu momento”, que a partir daí “inventa e vida ao de um outro”. Referência e
invenção devem agir em conjunto ao se reconstruir a realidade. A noção de invenção deve ser dissociada da
originalidade, imaginário e ficção, pois “trazem consigo um sujeito criador autônomo, gerando mundos desde
si mesmos”, como também a referência deve ser dissociada de imitação, reflexo ou constituição, pois isso
implicaria a “separação entre o sujeito pensante e o objeto pensado”.
A pertinência de uma biografia não está na “verdade exterior ao texto, mas sim, ao seu poder de
convencimento”.
Azevedo ainda acrescenta mais uma prova de fogo da biografia, o “cruzamento de práticas
disciplinares com suas formas de poder e saber”. Biografia é história, contar um passado, relatar a vida de
uma personagem e, para isso, precisa haver certo controle argumentativo do biógrafo e imaginação
romanesca. A autora diz que se predominar a explicação, a argumentação na biografia, irá “quebrar a
26
expectativa de parecença, ou equivalência com a realidade da vida cotidiana, aparentemente isenta de
explicativos”.
A ordenação do tempo no relato biográfico “fundamenta e faz prosseguir a percepção imediata
da vida cotidiana como um fluxo continuado de acontecimentos descritíveis narrativamente”.
Uma pesquisa em aberto
Para compor a Fotobiografia de Maura de Senna Pereira, enfrentamos questões fundamentais: de
que forma escrever a biografia de Maura? Como escolher e relacionar as fotografias com a vida da
escritora? O que seria mais importante? Como estabelecer tais escolhas?
Tendo em vista as leituras sobre a fotografia e a biografia, pode-se perceber que, ao falar sobre
biografia, muitos críticos pensam da mesma forma no que se refere a alguns aspectos, às escolhas que
motivam a biografia e os seus objetivos. Assim, procura-se mostrar pessoas comuns, personagens que vivem
dentro de um contexto mais amplo, permitindo outros olhares para a história. Salienta-se mais o lado humano
da personagem, mostrando seu cotidiano como também os aspectos culturais.
A escolha na biografia de Maura teve o objetivo de mostrar a mulher/escritora apaixonada pela
ilha onde nasceu, levando em conta o momento histórico, sabendo que, após um século do seu nascimento,
muita coisa mudou. A infância, adolescência e a maturidade da escritora serão analisadas, procurando não cair
em “certas armadilhas”, como salientaram Schmidt e Bourdieu. Palavras como “sempre” ou “desde pequena”
27
aparecem, mas a linearidade não poderá ser mantida, já que, conforme tais autores, esta é praticamente
impossível em uma biografia. O individual e o social, o público e o privado ocorrerão em alternância.
Ao construir a biografia, procurar-se-á ser o mais verossímil possível, buscando o compromisso
com o mundo real da escritora, sem a pretensão de conseguir não ser ficcional, pois, de acordo com Eneida
Maria de Souza, exceto os documentos e as datas, o ficcional é inevitável. Acrescentar-se-á a idéia de Maria
Helena Azevedo, afirmando que, ao se escrever uma biografia, supõe-se um passado que tem como provas os
documentos. Assim, tem-se uma biografia que pode ser ficcional de certo modo, mas não inverídica, e não
irreal, ou seja, esta será uma biografia, ou uma visão interpretativa da sua vida.
As fotografias selecionadas para esta Fotobiografia acrescentam muito ao texto escrito, pois a
imagem transforma o texto e o torna mais interessante, mais cativante, dando mais vida à escrita. As fotos
ajudam a reconstruir o passado, são documentos desse passado. De certo modo, as fotos também
ficcionalizam o passado da escritora, tal como um filme. Aquele substitui uma época definitivamente
revogada. Não existem mais as mesmas ruas e praças, os mesmos hábitos provincianos. A cidade
definitivamente não é mais a de Maura. A fotobiografia traz-nos essas lembranças, mergulha-nos nessa
época.
Foram selecionadas fotografias formais e informais da escritora. A leitura de Barthes, Kossoy e
Miriam Moreira Leite propiciou maior compreensão para se fazer a leitura e seleção das fotos, uma análise
cautelosa para ajudar a reconstruir a vida de Maura, já que as fotos representam uma certeza de que o que
está ali registrado aconteceu realmente.
28
Seguindo Barthes, fez-se grande esforço de compreensão dos documentos e do conhecimento do
que ocorreu no momento da fotografia, usando de sensibilidade para que a mesma não ficasse somente no
óbvio
, no intelectualismo; procurou-se ser bom
spectator
para garantir que também o
obtuso
fosse mostrado.
Não só o detalhe, como também o tempo presente na fotografia.
Assim, o estudo dos autores citados (entre outros) e a pesquisa resultaram em uma composição
fotobiográfica estruturada da seguinte forma:
Uma introdução intitulada
A peregrinação biográfica
na qual estão descritas as
motivações da pesquisa e o percurso metodológico.
A fotobiografia
Maura em Flor
, em 4 capítulos.
Maura de Senna Pereira 1904-1992: vida e obra
, no qual é permitido verificar as
referências cronológicas, as casas e lugares em que viveu, as revistas e jornais nos quais
Maura colaborou e também os livros publicados.
Na composição da narrativa biográfica, juntam-se as fotografias de Maura e das cidades em que
viveu, estudou e trabalhou. Alguns cenários foram recriados a partir de testemunhos orais ou de registros
escritos. Os fatos foram preservados conforme as peças documentais e a bibliografia subsidiária, a fim de
atender às exigências da História.
29
a) A primeira narrativa denomina-se
Histórias para a menininha
, referência a um poema da
escritora. Nesse capítulo é abordada a infância da escritora. Nesse capítulo temos a infância da
escritora.
b)
Meus verdes anos
é a segunda narrativa, também título de outro poema; conta a vida de Maura na
adolescência, na juventude, quando chegou a ocupar a cadeira 38 da Academia Catarinense de
Letras ACL, seu primeiro casamento e a mudança para Porto Alegre, o final de seu casamento, a
separação e a volta para Florianópolis.
c) Maura escritora e feminista aparecerá no capítulo intitulado
Maturidade e criação
(a escritora
apresentou características feministas desde muito jovem e isso será citado nessa parte). Nessa
terceira parte pode-se verificar a vida da poetisa desde 1939, quando Maura saiu de Florianópolis
para o Rio de Janeiro, a ligação amorosa com Almeida Cousin, até sua morte.
d) Documentos e textos de jornais publicados após a morte da escritora serão vistos em parte
denominada
A herança poética
.
30
Reginalda Kalckmann
M
AURA EM
F
LOR
UMA FOTOBIOGRAFIA
1904
-
1992
31
PRIMEIRA PARTE
FLORIANÓPOLIS
1904 – 1920
32
Histórias para a menininha
Histórias para a menininhaHistórias para a menininha
Histórias para a menininha
Menininha, estás sem sono
Menininha, estás sem sonoMenininha, estás sem sono
Menininha, estás sem sono
e eu queria te ninar.
e eu queria te ninar.e eu queria te ninar.
e eu queria te ninar.
Segura, pois, minha mão;
Segura, pois, minha mão;Segura, pois, minha mão;
Segura, pois, minha mão;
vamos longe passear
vamos longe passearvamos longe passear
vamos longe passear
vamos ver todas as terras
vamos ver todas as terrasvamos ver todas as terras
vamos ver todas as terras
e ver o fundo do
e ver o fundo do e ver o fundo do
e ver o fundo do mar
marmar
mar.
Maura de Senna Pereira
33
Maura bebê
ACERVO: ACL
INFÂNCIA
INFÂNCIAINFÂNCIA
INFÂNCIA
A poetisa Maura de Senna Pereira, que em muitos textos
cantou seu amor pela terra natal, nasceu em 10 de março de 1904.
Filha do professor José de Senna Pereira e Amélia Regis de Senna
Pereira, ambos nascidos na antiga Nossa Senhora do Desterro, veio
ao mundo na Rua Deodoro, Florianópolis, Ilha de Santa Catarina.
As duas famílias, materna e paterna, apresentavam grau
de parentesco: o pai e a mãe de Maura eram primos. Os dois, quando
criança, tiveram uma infância muito próxima. Ele era oito anos mais
velho do que ela, praticamente viu-a nascer e cresceram juntos.
Desde pequeno, José teve grande carinho pela prima, que foi sua
única namorada e, mais tarde, sua mulher.
poucas fotografias dos pais de Maura, descritos por ela. Também dos avós, o que temos são
descrições que a poetisa fez em alguns textos. Quando fala de sua família, demonstra muito carinho por
todos, o que leva a crer que era uma família na qual reinava a união, a obediência, o carinho e o amor de uns
pelos outros.
Dos primeiros anos da infância de Maura salienta-se um fato que se pode chamar de
marcante, a leitura da Bíblia. Em toda uma parte de sua obra, em prosa ou em verso, ela se refere à época de
34
leituras bíblicas ou passagens da Bíblia a partir do que é permitido afirmar que tal leitura a influenciou
bastante. Além disso, é importante notar que muitos poemas têm uma cadência bíblica, dos salmos, por
exemplo. É notável também a citação de termos bíblicos.
Em sua infância, notam-se, ainda alguns momentos tristes, dentre estes, a morte de três
irmãozinhos. Eles eram, ao todo, doze irmãos. A mãe foi muito presente, mulher de fibra que deu muito
carinho às suas crianças e mostrou sensibilidade ao saber lidar com as dificuldades da melhor forma possível.
O pai, homem bastante inteligente, educou os filhos pelo sistema patriarcal, rígido, porém o amor era visível
aos olhos deste, segundo o que é lido da escritora.
Um fato triste, que Maura não esqueceu, foi uma conversa que ouviu do pai, quando este falou
sobre uma terrível coisa, a tuberculose, herança de família e que levou muita gente. A menina Maura estava
gripada quando ouviu o pai falando isso; por qualquer doença o médico era chamado, pensavam que poderia
morrer. Tal fato foi traumatizante para ela e os irmãos.
15
Quando os pais resolvem casar-se, constroem uma casa perto do mar. O bairro ainda era deserto e
com poucos vizinhos. A casa, pequenininha, tinha em suas janelas cortinas claras, a varanda coberta do verde
das samambaias, com os pés de manacá no canteiro da frente e damas-da-noite reclinando-se sobre o muro, e
invadindo a casa e as redondezas de um perfume inefável. À noite costumavam ir até a praia de mãos dadas,
para contemplarem o céu e o mar. Os dois observavam as estrelas, que para eles eram ouro, jóias faiscantes,
lantejoulas que vinham para iluminar o passeio do casal enamorado
16
.
15
Uma poeta corpo a corpo com a vida: entrevista concedida por Maura à Colaca Grangeiro e Silveira de Souza. Jornal da
Cultura, Florianópolis, jul.1990. p.8. In: : PEREIRA, Maura de Senna. Poesia reunida e outro textos..
16
PEREIRA, Maura de Senna. Ninho na Praia. Nós e o Mundo. Gazeta de Notícias. 24 de nov. 1975.
35
Hospital de Caridade
17
- Século 19
ACERVO: Casa da Memória
17
Em 1782, iniciou-se a prática de obras de misericórdia, prestando assistência aos doentes pobres, com alimentação e cuidados médicos,
através do irmão Antônio da Silva Gomes, um dos fundadores, que prestava gratuitamente seus serviços. Os remédios eram adquiridos pela
metade do preço, numa botica que pertencia a outro irmão. Com a morte do dono, a botica passou a ser administrada pela Irmandade Senhor
dos Passos, que é uma associação beneficente, sem fins lucrativos, que obedece aos preceitos da Religião Católica Apostólica Romana. É
constituída por um mero ilimitado de "IRMÃOS", sem distinção de nacionalidade, cor ou raça, que gozem de respeitável conceito e
professem a religião Católica Apostólica Romana. O aumento da assistência tornou necessário um local adequado para o desenvolvimento
dos trabalhos. Foi enviado um requerimento à sua Majestade, D. Maria I, solicitando recursos para a construção da Santa Casa. Paralelamente,
o Irmão Joaquim Francisco do Livramento empenhou-se na arrecadação de esmolas, conseguindo metade dos recursos gastos com a
construção do Hospital. O terreno foi doado ao lado da Capela do Menino Deus. Irmão Joaquim era filho de um casal açoriano da Ilha do
Faial, nasceu na antiga Desterro, em 20 de março de 1761 e faleceu em Marselha em 1829, numa de suas viagens à Europa. A obra foi
concluída a 31 de dezembro de 1788, sendo inaugurada no dia 1º de Janeiro de 1789. A Santa Casa foi considerada Hospital Militar em 13 de
março de 1818, por ato arbitrário do Governo da Ilha, sendo os doentes expulsos e acolhidos em casas de família. Porém, no dia 13 de julho, o
Hospital voltou às mãos da Irmandade. In: http://www.hospitaldecaridade.com.br/hospital/1789.html. Acesso em 16/04/06
36
O velho ninho de amor em que Maura nasceu, cresceu e brincou com seus irmãos e amiguinhos hoje não
existe mais, em seu lugar estão arranha-céus e casas comerciais, e o mar ficou distante, diante dos aterros
que a modernização trouxe.
Maura cresceu andando pelas ruas estreitas e calmas de Florianópolis, as mesmas nas quais pisou o
grande poeta Cruz e Sousa. A rua onde morava situava-se muito próxima ao Mercado Público atual. Anos
antes, o mercado localizava-se no lugar que mais tarde se tornou a Praça XV de Novembro. Após brigas
políticas, houve mudança de local e, em 1847, o mercado foi construído no lugar em que está hoje. O prédio,
contudo, foi demolido e, em 1899, construído o atual - construção em duas etapas; inicialmente contava com
apenas uma ala, mas houve necessidade de uma segunda, esta última feita em 1915 em cima de um aterro.
Antigo Mercado, na atual Praça XV de Novembro. Século XIX
F0NTE: Domingos Fossari.
18
18
FOSSARI, Domingos.
Florianópolis de Ontem
. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1985. A partir
de agora, todas as ilustrações serão oriundas desta fonte.
37
Século 19 – Primeiro Mercado construído perto do mar em 1847 - Desterro
ACERVO: Casa da Memória
38
Ao lado:
Praça XV de Novembro 1889
ACERVO: IHGSC
Segundo Mercado Público, construído
no mesmo local, em 1899.
Foto de 1900, quando constava de
apenas uma ala.
ACERVO: IHGSC
39
Esse lugar, onde hoje podemos encontrar roupas,
alimentos, excelentes frutos do mar, artesanato, e que também
é ponto de encontro de turistas e nativos da Ilha, na época da
infância de Maura era o ponto de encontro dos ilhéus e,
principalmente, lugar no qual as mercadorias, que vinham do
interior da ilha e do continente, eram descarregadas. Assim, era
comum encontrar-se uma quantidade muito grande de veículos,
de charretes, de carroças e também de canoas e baleeiras,
animais de carga, numa grande animação de compras, negócios e trocas, pois ali ficava o centro do comércio
da cidade. E as pessoas vinham a cavalo ou em carroças, de diferentes freguesias da ilha para compras de
mantimentos ou para estabelecerem negócios.
Como ainda não havia ponte entre a ilha e o continente,
o acesso era feito por água, através da utilização de barcos e
balsas. O sol refletia nas águas esverdeadas a sombra dos barcos
ancorados próximos ao mercado, alguns saindo, outros chegando,
dando mais poesia à
Ilha Verde
. Somente mais tarde, quando o pai
José de Senna Pereira já era morto, foi construída a primeira
ponte, facilitando o acesso à ilha.
Ilustrações: Domingos Fossari
40
Catedral Metropolitana – 1906
ACERVO: IHGSC
Outro local próximo à casa de Maura era a Praça XV de Novembro. Essa praça, que
no início do século XIX abrigava o Mercado Público, com a mudança deste passou a ser
embelezada com muitas árvores.
Nesse cenário verde encontra-se a velha Figueira que, com seus imensos
galhos, seguros por hastes para lhe suportarem o peso, serve de abrigo para todos; a
árvore centenária, que abrigou e abriga muitos casais enamorados, também hoje é o lugar
onde os aposentados passam manhãs e tardes conversando sobre futebol, política ou
jogando cartas, dados, xadrez. A Praça XV, no início do século XX, era calma e tranqüila.
Hoje, ainda é um lugar que transmite tranqüilidade, paz e um ar de poesia.
Em frente à Praça XV esa Catedral Metropolitana. A princípio era uma
modesta capelinha, construída pelo fundador da cidade, o bandeirante paulista
Francisco Dias Velho; mais tarde deu lugar à Catedral Metropolitana, onde
futuramente seria realizado o casamento de Maura.
Maura menina, porém, não freqüentava a Igreja Católica. Seus pais e avós
eram presbiterianos e freqüentavam a Igreja situada à Rua Visconde de Ouro
Preto. Essa igreja iniciou suas atividades em Florianópolis no dia seis de janeiro de 1901, num domingo de
manhã, e teve como um dos membros fundadores José de Senna Pereira. Igreja Matriz: Século
XIX
41
As leis da Igreja eram rigorosas na admissão de novos membros. Deviam fazer uma “
profissão de
em Cristo
, através de argüição quanto ao conhecimento das doutrinas bíblicas e motivo de mudança de
atitude religiosa”. poderiam ser membros pessoas casadas segundo as leis brasileiras. O Conselho exercia
função disciplinar, observando as leis eclesiásticas e os princípios, que deveriam ser aceitos pelos
presbiterianos. Assim, os membros da Igreja eram vigiados para que seguissem as leis, o que era possível
porque a comunidade era pequena. Não lhes bastava somente assistir aos trabalhos da Igreja, teria que haver
uma vivência diária de acordo com os princípios bíblicos.
19
Sendo o pai de Maura um dos membros fundadores
da Igreja Presbiteriana, todos na família seguiam rigorosamente essas leis.
A Ilha era calma.
Foi nesse cenário tranqüilo e provinciano que nasceu e cresceu Maura de Senna Pereira.
1903 – Trecho da Rua Altino Correia
Florianópolis
ACERVO: Casa da Memória
19
HACK, Osvaldo Henrique. A História da Igreja Presbiteriana em Florianópolis.Período 1898 a 1930. Florianópolis:
UFSC, 1979. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Santa Catarina, 1979.
42
Florianópolis: 1904 – Ano em que nasceu
Maura de Senna Pereira.
ACERVO: Casa da Memória
43
Certidão de nascimento de Maura.
ACERVO: ACL
44
O futuro de escritora parecia traçado. Ainda no berço era
embalada ao canto da voz materna. Pequenininha, gostava de escutar as
histórias que a e criava, as cantigas e os contos de Grimm que sua mãe contava,
encantava e repetia sabiamente. Por isso chamava
a mãe de “minha adorável Sheherazade”.
20
“Eu achava que ela, a minha mãe, sabia
empolgar e encantar qualquer criança, porque não
ela repetia esses contos universais de Grimm e
outros contos universais. Ela inventava também.
Ela sabia manejar com crianças, também com
cantigas. Mas era nessa parte. Minha mãe sabia
encantar o cérebro infantil. Tanto que eu a
chamava de minha adorável e querida
Sheherazade”.
À Esquerda: Maura aos seis meses de idade.
À direita: Com um ano e nove meses, no
Natal de 1906
ACERVO: ACL
20
PEREIRA. 2004. Op. cit. p. 285.
45
Vista geral de Florianópolis - 1910
ACERVO: Casa da Memória
A menininha começa a freqüentar a escola, uma escola americana que funcionava em salas da Igreja
Protestante, cuja diretora era uma americana nata, e que estava às vésperas de encerrar as atividades em
Santa Catarina. Futuramente, Maura vai fazer severas críticas, dizendo serem as professoras mulheres
sádicas. Entre as professoras, D. Josefina, esposa de Laércio Caldeira de Andrada. Aqueles olhinhos espertos
da menina presenciaram cenas desagradáveis de repressão com esta professora e as crianças que não
46
pagavam o colégio. Mas com ela era diferente, seu pai
sempre pagava a escola. Era uma educação muito
rigorosa, mas não havia palmatória, como antigamente,
apesar de que, às vezes, machucavam as crianças.
21
“Eu aprendi a ler numa escola americana,que
funcionava junto à igreja. Eram mulheres sádicas, as
professoras. A diretora era uma americana nata e as
professoras - uma, a senhora do Laércio, D. Josefina. Vi
muita coisa que ela fez com as crianças que não
pagavam. Como eu pagava, era diferente.”
Rua Felipe Schmidt – 1910
ACERVO: IHGSC
Apesar dessa forma rigorosa, Maura dirá que o ensino era muito bom. Acrescenta que a
matemática no início era ensinada com brinquedos, pauzinhos e aprendia-se muito bem. Depois havia os
cadernos com problemas difíceis, muitos deles só engenheiro poderia resolver.
21
PEREIRA, 2004. Op. cit. p. 287.
47
A professora alfabetizadora era D. Josefina, muito inteligente, de acordo
com Maura. Reunia os alunos e os enviava para a lousa para desenharem letras de
forma - primeiro vogais, depois as consoantes mais fáceis. Maura aprendeu com
facilidade, em quinze dias estava lendo. O pai levava para casa semanalmente a
revista
Tico-Tico
22
e lia para ela e seus irmãos. A surpresa foi grande quando o pai a
viu lendo a revista. Foi assim que Maura percebeu que sabia ler. Em quatro ou cinco
meses era promovida de ano, era comum ver nos boletins mensais registrado o
primeiro lugar na classe e na escola, na época.
Tal precocidade rendeu críticas de pessoas cuja mentalidade era incapaz de julgar com isenção o
que se passava. Certo dia, uma coleguinha da igreja presbiteriana chegou aMaura e disse-lhe: “Mamãe
22
A revista O Tico Tico, lançada pelo jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva, foi a primeira a publicar histórias em
quadrinhos no Brasil. Sua primeira edição saiu no dia 11 de outubro de 1905, uma quarta-feira e não uma quinta como dizia a
capa. O modelo que a Tico Tico seguia era o da revista francesa La Semaine de Suzette, personagem que foi publicada pela
revista com o nome de Felismina. Era publicada em dois tipos de papel, com quatro páginas coloridas e as restantes, ao invés
do preto e branco habituais, eram uma combinação de branco com vermelho, verde ou azul. O primeiro exemplar custava 200
réis e como não havia inflação na época, a revista permaneceu com esse preço até a década de 1920. A personagem mais
popular da revista, Chiquinho, era uma cópia não-autorizada de Buster Brown, criado por Richard Felton Outcault. Este fato só
veio à tona nos anos 1950, quando o plágio foi denunciado por desenhistas de São Paulo. Quando a personagem Buster Brown
deixou de ser editado, sua contra-parte brasileira passou a ser desenhada pelos desenhistas brasileiros Loureiro, A. Rocha,
Miguel Hochman, Alfredo Storni e seu filho Osvaldo. A maioria dos desenhos era copiada de revistas francesas, mas assim
mesmo a revista revelou talentos nacionais, entre eles o desenhista Angelo Agostini (que desenhou o logotipo da revista). Esta
não teve rival à altura até a década de 1930, quando vários quadrinhos norte-americanos passaram a ser publicados no Brasil.
Ela perdeu ainda mais espaço quando começou-se a publicar histórias de super-heróis. A revista começou a não conseguir
manter a periodicidade, até que nos anos 1960 começou a lançar apenas almanaques ocasionais e finalmente foi fechada.
48
falou que tu tens o diabo no corpo”. A menina Maura foi criada em meio a pessoas dessa igreja, mais tarde
diria ter sido isso uma lástima.
23
Primeira página da Bíblia de Maura. Na folha recortada constam deveres a serem cumpridos:
Não mentir/desobedecer/brigar.
Ser bom/obediente.
ACERVO: ACL
FONTE DA REVISTA: http://www.ligazine.com.br/quadrinhos/materias/tico_tico_la_ca.htm
Acesso em: 13 abr. 2006.
23
PEREIRA, 2004. Op. cit. p. 287.
49
Com o fechamento da escola, ficou um tempo sem aulas e então a leitura da Bíblia foi
intensificada; lia-a diariamente. Num certo domingo, chegara de São Paulo um presbítero, o professor
Gustavo, para ser diretor do Grupo Escolar Lauro Muller, de Florianópolis. Ao ver as interpretações bíblicas
que Maura fazia na escola dominical, percebeu o seu desembaraço e vivacidade e foi conversar com ela,
perguntar-lhe onde estudava. Quando soube que estava sem aulas, à espera da volta da escola que o pai
considerava melhor porque apresentava métodos ótimos, aconselhou-o a procurar um grupo escolar.
Assim, passou a estudar no grupo mais próximo de sua casa, (Lauro Muller) dirigido pelo
professor Gustavo. Ao ser examinada, perceberam seu adiantamento e foi matriculada no terceiro ano, classe
na qual se integrou rapidamente.
As suas composições, no curso primário,
despertaram a atenção dos professores. E o
demorou muito a se destacar com uma primeira
composição, solicitada por D. Rosa, cujo tema era
“Uma boa ação”. Esperta, atenta ao que acontecia ao
seu redor, lembrou-se de uma narração que
escutara em casa, uma conversa do pai com seus
amigos sobre episódios da Primeira Guerra Mundial.
Escreveu sobre a boa ação de um soldado aliado que,
Grupo Lauro Muller – 1916
ACERVO: IHGSC
50
ao ver um companheiro cair, correu até ele, suspendeu-o nas costas, livrando-o do forte ataque, sem se
preocupar que poderia também ser atingido. Foi uma composição excelente e seu trabalho foi levado a outro
professor, Arlindo, que a chamou, fez-lhe perguntas, queria saber se ela tinha escritores na família, ao que
respondeu negativamente, mas não deixou de falar sobre os pais, que eram muito inteligentes; o pai lia muito
e a mãe contava histórias lindas.
24
A composição chegou às mãos do governador Gustavo Richard, que era
também professor nascido no Rio de Janeiro e governou santa Catarina no quadriênio 1906/1910.
O tio Julio Régis ficou muito feliz com o sucesso da sobrinha. Era orador em mais de uma
Sociedade Cultural e Recreativa no Sul do Estado. Ao voltar para sua cidade, escrevia-lhe cartas, às quais
Maura respondia. Assim, passou a publicar suas cartinhas nos jornais do Sul e
logo os trabalhos escolares. Os “Textos Matinais”,
25
assim denominados por
Maura em um poema, passaram a ser publicados em Florianópolis.
Oh por que foi meu tio Júlio Régis
publicar meus textos matinais
depois de lê-los no inflamado tom
que os embelezava?
Júlio Régis – tio de Maura
24
A saga de Maura: resposta a questionário do Prof. Giovani Ricciardi. In: Jornal da Cultura. Florianópolis, v.2, n.6, jul.1994.
25
PEREIRA, Maura de Senna. Fragmentos de autobiografia. In: Poemas-estórias. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984, p.6.
51
A menina precoce apresentava uma cabeça pensante desde criança. O pai, homem conservador,
seguia rigorosamente os ensinamentos da igreja presbiteriana. Maura tinha pensamentos, idéias muito
diferentes; não falava nada, não tinha coragem de expor suas idéias, tão à frente de seu tempo. Calava-se.
Nessa época já era muito ligada à terra.
A Ilha de Santa Catarina tem encantado desde o século XIX a todos os escritores catarinenses.
Vale lembrar aqui um escritor que, além de Maura, cantou a Ilha em seus escritos: Duarte Paranhos Schutel
(1837-1901), que assinava com o pseudônimo de
Insulano
, associando a ilha ao nome. O jovem estudante de
Medicina, quando morava no Rio de Janeiro, escreveu uma bela narrativa baseada em uma viagem de Nossa
Senhora do Desterro a Massambu. Nela, relata as belezas existentes na Ilha, descrevendo os lugares por
onde passava, de forma a enaltecer e documentar sua terra.
26
Escreve:
[...] e eu via do seio das ondas enegrecidas ao longe surgir esse punhado
de casas aninhadas entre duas colinas e do meio das quais se elevavam
pequenos outeiros, uns cobertos de casas, outros de mato. Do Lado do
Estreito
era o
Cemitério
, que alveja triste e sombrio; o do lado da ilha
era o
Menino Deus
,
27
que dominava do alto de sua encosta toda a baía:
essa cidade que ia nas ondas como uma fada banhando-se à tarde
meiga e risonha. Essa concha de esmeralda e flores, como a chamaste em
teus lindos versos; esse pequeno paraíso, onde os perfumes da natureza
fazem viver de encantos e o riso de suas viagens morrer de amores; esse
mimoso jardim brasileiro escondia-se assim nas ondas [...]
26
SCHUTEL, Duarte Paranhos. A Massambu. Florianópolis: UFSC/Movimento, 1988. p.35.
27
Colina do Menino Deus, onde hoje situa-se o Hospital de Caridade.
52
Além de Insulano, leiam-se Marcelino Antonio Dutra, Lacerda Coutinho, Delminda Silveira, João
Silveira de Souza, Rodrigo de Haro e muitos outros.
Ao falar sobre a Ilha, Maura escreve, mais tarde:
Deixo de contemplar as nuvens, que durante quatro horas foram
minhas vizinhas, no momento em que o avião começa a sobrevoar a ilha de
Santa Catarina. embaixo, aqueles recortes ilhéus parecem as bordas
de um tapete, de um tigre mal estendido no salão verde do mar. E, após a
aterrissagem e o repouso, vou rever, de perto, a bela e amada paisagem
ilhoa.
estão as praias selvagens, as pontas edênicas, os morros e as
árvores, as roseiras pesadas de corolas que, às vezes, têm cor de fruta,
as pedras que parecem datar do nascimento do mundo e terem sido
espalhadas por um cataclismo, estão as águas redondas da Lagoa Peri,
com suas ondas e espumas, lembrando um retalho gordo e prisioneiro do
mar. Mais ao Norte, a Lagoa da Conceição, sagrada e azul, a grande
lagoa, onde o sol nasce com o esplendor de um potentado bíblico e
derramando a ilusão de que é aquele o momento da gênese, o primeiro do
universo. As pequenas enseadas lá estão, mar escondido, refletindo as
matas da orla exuberante no seu verde carregado.
E eu bebo, de novo, a água do rio Tavares e, com a mesma alegria
dos tempos de criança, devoro, no pé, as últimas pitangas. Dou a volta ao
Morro da Cruz; contemplo o fim da tarde e os caminhos e vejo que
continua inigualável o pôr-do-sol na minha terra, todo de sangue e ouro e
com aquele halo violeta que transportei para os crepúsculos em Rosamor.
53
Até o vento sul, o velho, tremendo, saudoso vento sul, é o mesmo a
quem pedi um dia me levasse com ele para longe de mim, pois eis que
acaba de chegar.
“desfolhando papoulas
Vergando caules
sacudindo polens
agitando palmeiras”.
E logo
“dobram-se as frondes
as aves tremeram.
Tremeram
em pencas roxas das glicínias
e os gerânios duros dos balcões”
28
28
PEREIRA, Maura de Senna. A Ilha Natal. In: Gazeta de Notícias: Nós e o Mundo. (Sem data. Acervo: ACL).
54
Aqueles de cujo amor nasci
Acima: Recorte colado no
álbum de Maura, onde estão
fotos e cartas dos pais, fotos de
alguns irmãos e suas.
Ao lado, OS PAIS:
José de Senna Pereira e Amélia Regis de Senna
Pereira
ACERVO: ACL
55
Não perturbes agora o meu pensamento. Não me fales
agora. Deixa-me na companhia dolorosa da minha alma.
Este instante não te pertence: é para os meus mortos...
Sabes? Para aqueles que tiveram nas veias o meu
sangue e o meu sonho e que viveram no meu lar, pertinho
de mim, as horas de ouro que esta hora de dor está
ressuscitado...
Sabes? Aqueles que fecharam para sempre os olhos
à inquietação deliciosa da vida e que moram agora num
pequenino canteiro onde as violetas sonham na sua
humildade azul...
Não perturbes agora o meu pensamento. Não fales,
não rias, não soluces. Eu quero estar na companhia dolorosa
da minha alma. Este instante não te pertence: É para meus
mortos...
Maura de Senna Pereira
Da religiosa concentração.
Cântaro de Ternura, 1931
56
Texto escrito em 1962 quando falece a mãe, Amélia de Senna Pereira.
57
Homem íntegro - O PAI
PAI: Homem belo, íntegro e humano, que teve sempre a palavra acatada
mesmo pelos mais velhos desde os seus verdes anos até à aurora da
maturidade, quando morreu. Do erudito e modesto autodidata e do
mestre que tem seu nome numa escola técnica, homenagem que ex-
discípulos prestaram à sua memória. Daquele que jamais mentiu, que nos
deu toda a sua ternura e oh, não tive tempo de dizer as cálidas palavra
de minha gratidão. Muito cedo o perdemos
29
.
O pai, José de Senna Pereira, nascido em 30 de abril de 1877,
foi um homem instruído (segundo Maura), conservador e austero, mas
também humano. Era filho de Joaquim de Senna Pereira e Angélica Bousfield, pequenos fazendeiros em São
Miguel, interior de Santa Catarina. O pai de Maura teve uma infância amargurada, perdeu a mãe, a quem
idolatrava, quando ainda era menino. Isso marcou-o muito e a imagem materna permaneceu sempre em sua
memória. Não demora muito tempo, o avô de Maura, viúvo, leva o filho para morar em Desterro, na casa de um
29
De Gazeta de Notícias/Nós e o Mundo, Rio 01/05/1972, reproduzido no livro Nós e o Mundo p. 15.
58
tio, o comerciante e político João Francisco Régis Júnior. José de Senna Pereira trabalhava e estudava
quanto podia, tinha que trabalhar para pagar o teto e o pão. Prestou exames no Liceu de Artes e Ofícios e
passou com bastante brilho. Aos quinze anos, assume a responsabilidade do escritório da firma Régis & Cia., e
mesmo após a morte do tio, com muita luta e sacrifício, presta assistência à família deste, o que o levou a
prolongar o noivado com a prima Amélia. Quando jovem, foi colaborador de várias publicações e redator do
jornal
O Mercantil
. Muito responsável, recusa convite para trabalhar em São Paulo, a fim de não prejudicar a
família que o acolheu.
Autodidata, lia freqüentemente o que era publicado; estudou línguas e com esforço próprio adquiriu
uma invejável cultura. Escrevia com muita correção e elegância e, segundo discurso
30
de Maura em
homenagem ao pai, possuía bela caligrafia, como a que tivera seu irmão Carlos. Possuía uma pequena e
selecionada biblioteca, onde se encontravam livros de Shakespeare, Victor Hugo, Camões, autores latinos,
mas principalmente obras modernas de contabilidade em vários idiomas. Especializou-se em contabilidade e
possuía uma grande facilidade para realizar cálculos mentais. Por causa de seus conhecimentos, vivia cercado
de discípulos; e foi um dos fundadores e diretores do Curso Prático de Comércio, que mantinha um
jornalzinho. Mais tarde fundou o Instituto Comercial de Florianópolis, passando a lecionar Ciências Contábeis.
Seus alunos, uma vez formados, criaram novos cursos, destacando-se os irmãos Brasil, que muito
reverenciaram o mestre. Surge então, em sua homenagem, a Escola Técnica do Comércio Senna Pereira,
fundada por José Joaquim Brasil com vários amigos idealistas, entre eles, o diretor Rubens Victor da Silva.
30
PEREIRA, Maura de Senna. José de Senna Pereira, meu pai. Discurso de Centenário do professor José de Senna Pereira.
Rio de Janeiro: Itambé, 1977, p.5. In: JUNKES, Lauro (org). Poesia reunida e outros Textos. Coleção ACL, 2004, p. 349.
59
José de Senna Pereira, por ser um dos fundadores da Igreja Presbiteriana de Florianópolis, tornou-se um dos
mais acatados membros e oficiais. Participava dos cultos fielmente com a família. Ao que podemos verificar, o
casamento de José e Amélia aconteceu logo após a fundação da Igreja.
Algumas cartas que José enviou a Amélia, quando ainda solteiros, revelam um pouco de como era o
relacionamento entre os primos enamorados. Quase sempre, um tio chamado Alfredo era o portador das
cartas. Ao lê-las, observa-se muito carinho e amor entre os dois, como nesta, datada de 1897:
Estimada Prima,
É com imenso prazer que acuso a recepção de tua prezada carta pelo tio Alfredo, a qual encheu-
me de satisfação por saber que gozas saúde e que me amas! Pois tu me amavas? e qual a razão
porque não confessavas?
Ah! eu sou um estúpido, porque amava-te, ou para melhor dizer adorava-te e nunca ousei
revelar-te!... E é assim que dois corações que se amam fazem junção!
Ah! Deus meu, porque não me dais palavras para melhor poder orientar o amor que consagra a
Rainha do meu coração – a querida Meloca!
Desculpa-me estas palavras [?] em um momento de verdadeiro prazer, porque eu amava-te, mas
nunca julguei que nos nossos corações pulsassem o mesmo pensamento!
60
Acaso julgas que eu deixava-te por outra moça? Não, nunca em teu pensamento passa-te esta
idéia, porque, desde o primeiro dia que senti o fogo do amor por ti, sempre disse: Pertenço á
minha amada Meloca, portanto, amando outra, ia agastar a tua susceptibilidade.
Sobre a tua próxima mudança, parece que vejo os horizontes mais travados, por isso que o
Julião está esperando a vinda do tio João para falar-lhe na casa. Enfim é termos paciência e
vamos ver o que posso fazer.
Por hoje aqui fico, por ser terça-feira e ter muito serviço.
Receba um saudoso e estreito abraço e crê na eterna sinceridade do teu
José
20-07-97
31
Através desta, percebe-se que a revelação entre eles acontece em 1897, e nesse ano começa o
namoro. José tratava Amélia por Meloca, era todo carinho com a prima e mulher amada. Ele logo sentiu que
estava enamorado, mas a princípio não revelou seus sentimentos, permanecia em silêncio.
Quando não recebia carta de Amélia, José ficava triste e lhe escrevia reclamando, pois se ela o amava
devia escrever-lhe sempre; sentia-se pouco amado e pedia pronta resposta.
31
Carta de José de Senna Pereira para Amélia. 20 jul. 1897. ACERVO: ACL
61
Com a chegada deste muito satisfeito fiquei porque sempre julguei receber uma cartinha tua,
entretanto fiquei bem triste porque nada recebi!... E é este o amor que dizes ter-me? Assim,
crê que custa-me muito a viver; amando sem ser amado
32
.
No dia dezessete de fevereiro de 1888, José escreve de sua casa na Praia
de Fora, antes de viajar para Laguna, Sul do Estado, aonde iria permanecer durante
um mês e meio, o que para o apaixonado, era tempo suficiente para que a saudade o
sufocasse. Diz na carta:
Estimei bastante que assim fosse: a primeira, por não poderes vir; a segunda porque se houvesse
e tu viesses eu não estaria; vê, pois, que é melhor assim, porque ao contrário ficaria bem
triste.
Teria muito prazer si pudesse jogar-te uma porção de confete, como no ano passado; lembras-
te? Pois eu já te amava loucamente e a muito tempo e tu ignoravas!...
33
32
Carta de José de Senna Pereira para Amélia. 18 set. 1897. ACERVO: ACL
33
Carta de José de Senna Pereira para Amélia. 17 fev.1898. ACERVO: ACL
62
As sociedades citadas por José na carta, Filhos de Minerva e Nettos”, surgiram após o ano de 1885.
Nettos, de acordo com pesquisa, teria o nome abreviado por José, chamava-se “Netos do Diabo”. Essa
sociedade ainda existe ainda hoje em Florianópolis, chama-se “Tenentes do Diabo”.
O carnaval do Desterro do século XIX, segundo Átila Ramos, seguia os moldes europeus, predominava
a sociedade branca, terá a influência negra no século XX. Esse autor ainda explica que havia grande
consumo de artigos carnavalescos, incrementando o comércio local nos meses de dezembro, janeiro e
fevereiro, o que comprova isso é o grande número de anúncios em jornais da época. A fantasia de Dominó, em
preto e branco, era a mais procurada, talvez por ser mais barata e acessível. Também eram anunciadas nos
jornais as fantasias de Mouro, Cavalheiro e Conde
34
Sociedade Carnavalesca
Filhos de Minerva
.
Nota da Sociedade Diabo a Quatro, clube da
época.
34
RAMOS, Átila. Carnaval da Ilha. Florianópolis: Papa-Livro, 1997. (As fotografias das sociedades carnavalescas são
oriundas desta fonte)
63
Maio de 1899, dez horas da noite, José estava em Brusque e escreve para sua Meloca palavras
carinhosas na intenção de deixá-la tão feliz quanto ele fica ao receber as cartas de sua amada. Escrevia a
lápis, com pressa, pois o portador estava de saída. “P.S. Desculpa este aranzel escrito a lápis. São 10 horas
da noite, e o portador segue já. Adeus!”. Estando longe, percebe ainda mais o grande sentimento que nutre
pela prima, e diz na carta, enfatizando com um traço as palavras: “Enfim, tenhamos paciência! Não há bem que
sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. No outro dia aproveitaria o fotógrafo que estava na cidade e
tiraria seu retrato para mandar para Amélia. Escreve:
Amanhã, bem cedo, vou tirar o meu retrato para aproveitar o fotógrafo que esagora aqui;
tirarei meia dúzia em ponto maior, dos quais um te pertencerá. que coisa: queres tanto
possuir o meu retrato (assim como eu faço questão do teu), quando já és possuidora do coração!
35
35
Carta de José de Senna Pereira para Amélia. 31 maio 1899. ACERVO: ACL
64
Foto colada no álbum de Maura; no verso consta a seguinte mensagem:
À simpática e prezada prima Amélia Régis, em prova de verdadeira amizade , oferece
José de Senna Pereira
22 anos. Abril de 1899.
ACERVO: ACL
65
O
Original da carta de José de Senna Pereira para Amélia. 31 maio 1899.
ACERVO: ACL
Desterro, ano de 1900, José escreve outra carta, na qual percebemos que algo faz com que Amélia
fique insegura quanto ao amor do namorado. Ele responde a ela:
Muito prazer me deu a recepção de tua prezada cartinha de 9 do corrente, recebida no dia 12
acompanhada de um bilhete datado em 10 a qual bastante vez influir no meu espírito para que
desaparecessem logo a raiva e mau humor que de mim se apoderara pelas razoes que não
66
ignoras, infelizmente, porque eu bem quisera que de tais cousas nunca soubésseis. Mas, como
bem dizes, só Deus condena e só Ele perdoa;
P. isso entrego nas suas mãos, a justiça que houver de fazer para esses transviados da moral, da
razão, dos conhecimentos divinos, e finalmente, de tudo quanto é sublime no dia do juízo. Eu,
pois, os perdôo como manda o Sábio dos sábios!
Muitoaá meu pesar deixei de ir no dia 9; veio o 16 e também não pude ir. Si Deus quiser irei ,
então, no dia 30, sim? Tu bem sabes – pois que o confessas – que, muitas vezes, prometo ir e não
vou, que p. isso não deves te molestar comigo, porque nem sempre é possível; e essa falta não é
devida a falta de amor que tenho para contigo. Eu quisera que tu pudesses ver o meu coração,
ou que ele pudesse falar, pára, então ficares sabendo que o amor que te digo com os lábios não é
o amor de um Judas Escariotes, mas sim um amor a ti dedicado, a ti pertencente; jamais
alguém o possuirá!
– Tu, sim, o possuis em caráter triplo: 1º o amor de primo; 2º o amor que deves consagrar aquele
que escolhemos para a companheira dos meus dias; finalmente, 3º; o amor de minha mãe que to
consagrei! Si crês no amor do meigo Jesus – que deu a sua vida para nos salvar assim, também
peço-te para creres no amor que te consagro! Sei que me amas muito, e, por isso, é necessário
que saibas que eu te amo igualmente.
Nunca mais desconfies de mim, sim.
Nessa época José já escrevia para
O Mercantil
e diz na mesma carta: “Com esta envio-te o nº. 7 do
Mercantil. No nº. passado não publiquei os escritos que tinha com preguiça de passá-los a limpo... não falta
tempo para mostrar a inteligência!... não é assim?”.
67
Não se sabe ao certo quando acontece o casamento dos pais de Maura, acredita-se que foi por volta
de 1902, ela com 17 anos e ele com 25. Segundo Maura, tiveram uma vida conjugal muito feliz: “Eu e meus
irmãos somos filhos de um grande amor”, orgulhava-se.
Mas com a morte de três filhos, o pai fica arrasado.
A morte de seu arcanjo enfermo e a dos dois louros arcanjos (ambos com o mesmo nome bíblico
de Saul) o arrasaram. Ficou mais melancólico, mais esquivo, mais fechado, o rosto belo e másculo
precocemente envelhecido, mais desencantado, embora, na sua ardente fé, dizendo que se
submetia ao que ele chamava vontade de Deus
36
.
José de Senna Pereira – sem data
ACERVO: ACL – Álbum de Maura
Contava apenas 46 anos quando teve um furúnculo no rosto. Maura,
em discurso do centenário do pai, diz que este é
desastrosamente
operado pelo Dr. Fritz Goffergé
; com isso, Jo de Senna Pereira
morre no dia nove de fevereiro de 1923, sem poder conhecer o filho
Samuel, que nasce cinco meses depois.
À jovem Maura restou a dor pela perda e por não ter dito ao
pai o quanto era grata ao seu amor, não pudera abrir seu coração.
Ficava agora com o encargo de cuidar dos irmãos e da mulher que foi a bem amada do pai, a heroína que
36
Discurso de Centenário do professor José de Senna Pereira. Op. cit. p.356.
68
estava com o filho no ventre. No dia em que o pai faria anos, trinta de abril de mil novecentos e sessenta e
sete, escreve na coluna
Nós e o Mundo
:
TRINTA DE ABRIL
Como poderia eu, nesta data, não evocar aqueles de cujo amor nasci? Ele, que desapareceu com a
metade da idade que completaria hoje. Ela, que cinco anos partiu neste mesmo dia outrora
festivo, como se tivesse sido fechado um ciclo. Assim, de ambos falarei com a saudade e o
orgulho de filha. Do homem belo, íntegro e humano, que teve sempre a palavra acatada mesmo
pelos mais velhos desde os seus verdes anos aa aurora da maturidade, quando morreu. Do
erudito e modesto autodidata e do mestre inesquecível que tem seu nome num educandário,
homenagem que ex-discípulos prestaram à sua memória. Do amoroso chefe e mantenedor do
nosso ninho e oh, do pai admirável a quem não tive tempo de dizer as cálidas palavras da minha
admiração. Muito cedo o perdemos. Mas havia a presença daquela que fora a sua bem-amada
rainha – como que em parte suprindo a ausência dele. Lembrando-o desde os meninos tempos em
que nasceu o lindo amor que duraria sempre e apontando todos os dias seu exemplo como um
legado, a mãe heróica realizava o milagre de não parecer ele jamais
um pai morto. Mãe heróica, sim, e de uma natureza que culminou na
luta áspera da viuvez, diante da perda trágica de dois filhos em flor
e, mais tarde, de não poderem ver os olhos mais belos que vi (ó,
heroína, ó estrela, como podias iluminar se não enxergavas?).
Recorte da Coluna Nós e o Mundo,
Gazeta de Notícias
. 30/04/1967
ACERVO: ACL
69
SEHERAZADE - A MAE
MÃE: Minha mãe foi uma Sheherazade. Tinha o dom de inventar
atraentes enredos, que deveriam ter sido coligidos e onde apareciam
bichos e plantas, pessoas e símbolos, suas geniais criações de Anabela e
Micaela, suas fadas boas e más, a realidade e a fantasia numa sábia
combinação
37
.
Foto de Amélia de Senna Pereira
ACERVO: ACL
37
Do Folhetim do Jornal do Comércio, Rio, 29/10/1969, reproduzido no livro Nós e o Mundo, p. 135.
70
E
LEGIA PARA MINHA MÃE
Comecei a ver com dor a beleza
quando, viva e a vida
amando, não mais pudesse ver.
Dor tão funda, tão diária, lembro-a
como ventura, ventura perdida,
desde que vi – ai de mim – a suma beleza:
a terna heroína dormindo
as primeiras horas do nunca-mais
a mocidade voltando ao rosto
em estendidos lírios, o quase mistério
no sorriso doce, os pretos cílios como
se sonhassem, o fascínio, a paz.
A Díade e os Dardos
. p.121
Foto de Amélia colada no álbum de Maura.
ACERVO: ACL
71
A mãe, Amélia Régis de Senna Pereira, nascida no dia de outubro de 1885 na antiga Desterro, era
filha de Francisco Carlos Ferreira Régis e Benvinda de Azevedo Régis. poucas referências sobre ela
quando criança, o que sabemos é que na juventude teve como mestre José Brazilício,
38
o homem que musicou o
”hino de estrelas e flores”, de Florianópolis, e que também foi mestre do pai.
39
Estudou na Escola Normal
Catarinense, destacando-se principalmente em Matemática, Geografia e Francês. Por dominar esse idioma,
ensinou aos filhos, tendo procurado educá-los de forma exemplar. Não exerceu o Magistério, ao casar ficou
cuidando dos filhos enquanto o marido saía para o trabalho. Era uma jovem cheia de encantos e graça, muito
simpática, culta e bela, segundo a filha Maura. Era muito jovem quando se casou com o primo, supõe-se que
estivesse com dezessete anos e o noivo vinte e cinco.
Aos olhos da filha Maura, que deixou muitos depoimentos através de seus escritos em jornais, a mãe
possuía o dom de inventar histórias, por isso dizia ser a mãe uma Sheherazade.
40
38
José Brasilício de Souza nasceu em Pernambuco, em 1854, e morreu em Florianópolis, em 1910. Era professor de História e
Geografia, além de poeta e musicista. Mantinha, em sua casa, um pequeno observatório astronômico, o que lhe permitiu fazer
observações importantes, tendo mantido assídua correspondência com Flammarion e outros astrônomos de seu tempo. Deixou
um muito curioso diário em que, ao lado de notas sobre estrelas e cometas, registrava outras de cunho mais pessoal. Era dele,
também, no jornal Sul-Americano, de setembro de 1900 a agosto de 1902, uma abundante colaboração, assinada com as iniciais
J.B. ou com o pseudônimo que usava em seus artigos científicos: Sufi Júnior. Compôs, entre outras músicas, a do hino do
Estado de Santa Catarina. Além dessas atividades, José Brasilício se dedicava ao estudo da numismática e do volapuque,
curiosa língua criada e divulgada, em 1879, pelo Padre Johann Martin Schleyer. (SOUSA, Corcoroca de, Maria Carolina. In:
MUZART, Zahidé Lupinacci. Escritoras brasileiras do século XIX. Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC,
1999, p. 768).
39
PEREIRA, Maura de Senna. Verbo Solto. Rio de Janeiro: Livraria Kosmos Editora, 1982.
40
PEREIRA, Maura de Senna. As Mil e Uma Noites. In: Folhetim do Jornal do Comércio. Sem data.
1
À esquerda: Foto de Amélia (jovem) colada no álbum
de Maura.
No verso consta o seguinte:
Aos meus caros avós e tio João, oferece a sua feia
fotografia a obediente neta e sobrinha
Amélia Régis
Abaixo: Amélia com o filho José de Senna Pereira Filho.
Fotos coladas no álbum de Maura.
ACERVO: ACL
2
Era feliz com o marido e os filhos, mas a vida também foi dura com Amélia, pois perdeu três filhos
pequenos, a primeira Zaura adoece e morre aos dez anos. Também morreram ainda pequenos, Saul e o outro
filho com o mesmo nome, Saul. Dois outros filhos morrem tragicamente quando jovens, Carlos, que se afoga
no mar, e Carmem, que se suicida. Foi uma vida com muitas perdas e muita dor. Quando ficou viúva, ainda
estava grávida do décimo segundo filho. As dificuldades aumentam para a família, mas o amor da mãe as
superava todas.
A mãe foi uma mulher de fibra, uma heroína, segundo Maura. Ao perder o marido soube permanecer
forte e dar amor e cuidados a todos os filhos, zelando pela família. Ao
contar histórias, usando as palavras que Maura diz serem mágicas “Teu
pai”, trazia a infância de volta e a ilusão da presença deste; contava
como foi a união daquele amor lindo de crianças que se manteve no
noivado, nas bodas, no nascimento dos filhos, e também nas dores, até
os últimos dias de sua vida. Fazia parecer que o pai não estava morto. Ao
reviver o homem íntegro e humano que fora, unia ainda mais os filhos e
os protegia.
Carta de Amélia, escrita no dia do aniversário
de sua filha Maura – 10 de março 1942
Os anos vão passando e sobre os lindos olhos de Amélia desce a
noite, a escuridão. Perdendo a visão gradativamente, chegou o dia em que a guerreira não pôde mais
3
enxergar os filhos e os netos, o que não a tornou menos bela; “seu rosto sem rugas coroados pelos cabelos
brancos deixavam-na ainda mais formosa”.
41
Ainda assim, repetia as palavras de Saint-Exupéry em
O Pequeno
Príncipe
: “Só se vê com o coração. O essencial é invisível para os olhos”
42
.
Quando a mãe se foi, em 1962, era o dia em que o pai faria aniversário. Amélia morava no bairro
Leblon no Rio de Janeiro, mas estava em Florianópolis a passeio. Em um quarto do Hospital de Caridade,
Amélia Régis de Senna Pereira falece de pneumonia. Seu corpo é velado na casa de seu genro, Álvaro Campos
Lobo, esposo da filha Ruth. A celebração religiosa é feita pelo reverendo Messias Anacleto da Rosa, pastor
da Igreja Presbiteriana. A Escola Técnica do Comércio Senna Pereira reverencia a memória da viúva do
inesquecível patrono. É sepultada no jazigo da família.
Maura escreve mais tarde: “Ela partiu, como se tivesse
fechado um ciclo. Foi quando acabei de perder meu pai”. Na coluna
Nós e o Mundo
, escreve:
Em meio a correspondência que recebo, trazendo palavras o pesar pelo desaparecimento de
minha maravilhosa Mãe, vejo a missiva de uma desconhecida. Nada sabendo do golpe que abril
me trouxe, conta-me uma dolorosa história e pede-me consolo, palavras que a animem e que a
ergam, iguais as outras que já escrevi.
41
PEREIRA, Maura de Senna. Minha Mãe, Rosa Íntegra. In: Nós e o Mundo. Gazeta de Notícias (recorte sem data).
42
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 1989. O autor de O Pequeno Príncipe nasceu
em Lyon, França, em 29/06/1900 e morreu em 1944, em local ignorado. Foi aviador de profissão e escritor por devoção. Entre
1926 a 1939, o escritor e aviador francês Saint-Exupery fazia escala em um campo de pouso no Campeche, na ilha de
Florianópolis, onde operava o Correio do Sul.
4
Mas onde está a que procurou, tantas vezes, confortar o semelhante aflito? A alma vibrante,
que amava apaixonadamente a vida e procurava descobrir sempre uma esperança escondida no
mais escuro caminho – em que limbo estará mergulhada?
Sendo assim, minha amiga leitora, que lhe poderei dizer? Apenas talvez lembrar que, em menina,
eu achava tão bela as palavras que o pastor sabia repetir do ...?..... enfeitado de rosas ilhas:
“Bem aventurados os que choram porque serão consolados”.
Serão mesmo?
43
As palavras bonitas que a menina ouviu tantas vezes na Igreja, agora eram questionadas pela mulher
que sofria a dor da perda e da saudade.
Maura orgulhava-se dos pais que teve. Em discursos, saudosa,
evocava aqueles de cujo amor nasceu. Orgulhava-se de ter um pai
inteligente e de caráter, que jamais mentiu e que deu aos filhos toda a
ternura. De ter a melhor das mães.
Recorte sem referência
43
PEREIRA, Maura de Senna. Sobre uma carta. In: Nós e o Mundo. Gazeta de Notícias (recorte sem data).
5
OS AVÓS
Avós Paternos
Era uma mansão a casa situada na Praia de Fora, um bairro de Florianópolis (hoje Beira-Mar Norte);
era ali que morava Maria Inês, a bisapaterna que sempre fora chamada pela neta de Avó da Praia de
Fora”.
Maura guardou boas lembranças da bisavó que acariciava sua
mãozinha e a levava para comer os seus deliciosos manjares à mesa. Usava
batas brancas, possuía feições eclesiásticas, os olhos fechados pela
catarata. Era uma matriarca e sua autoridade se manifestava sutilmente.
Quem cuidava da casa eram as netas, primas-irmãs da mãe de Maura.
A avó paterna, de origem inglesa, que jamais foi esquecida pelo pai,
morreu muito jovem, aos vinte e poucos anos. Chamava-se Angélica.
Certo dia, Maura estava com treze anos, o pai a olhou comovido, e
disse: “Eu estou achando a minha filha muito parecida com a mãe do papai”.
Com orgulho, a poetisa vai dizer, mais tarde: “Carrego, pois, Angélica, a avó
com nome de flor”.
44
Ilustração: Praia de Fora
44
Minha Avó. In: Gazeta de Noticias/Nós e o Mundo, Rio, 9-10/7/1972, reproduzido no livro Nós e o Mundo, 1978, p. 124-
125.
6
Avós Maternos
O bisavô Régis era maragato (rebelde da Revoluçao Federalista do Rio Grande do Sul) durante a
revolução Federalista
45
(1893), fugiu para se esconder na região de Alto Biguaçu. Naquela época, Florianópolis
ainda se chamava Nossa Senhora do Desterro.
Maura adorava passear na casa da avó, vovó Benvinda, como era carinhosamente chamada. Filha de
cruéis donos de escravos, de origem portuguesa, tinha o apelido de Yayá, os negros a chamavam de anjo. Era
uma pessoa muito doce, a neta assim comparava sua
doçura, mais doce que sumo de seu pomar
biguaçuense”.
46
O anjo de fios de ouro nos cabelos e grandes olhos azuis, nunca permitiu a violência.
45
A Revolução Federalista ocorreu no sul do Brasil logo após a Proclamação da República devido à instabilidade política
gerada pelos federalistas que pretendiam "libertar o Rio Grande do Sul da tirania de Júlio Prates de Castilhos", então
presidente do Estado. A divergência se iniciou por atritos ocorridos entre aqueles que procuravam a autonomia estadual
frente ao poder federal e seus opositores. A luta armada durou aproximadamente três anos e atingiu as regiões compreendidas
entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. O Partido Federalista do Rio Grande do Sul foi fundado em 1892 por
Gaspar Silveira Martins. Em tese, defendia o sistema parlamentar de governo e a revisão das constituições estaduais,
prevendo a centralização política e o fortalecimento do Brasil como União Federativa. Desta forma, esta filosofia chocava-se
frontalmente contra a constituição do Rio Grande do Sul de 1891. Esta era inspirada no positivismo e no presidencialismo,
resguardando a autonomia estadual, filosofia adotada por Júlio de Castilhos, chefe do Partido Republicano, e que seguia o
princípio comtiano das "pequenas pátrias". Os seguidores de Gaspar da Silveira Martins, Gasparistas ou maragatos, eram
frontalmente opostos aos seguidores de Júlio de Castilhos, castilhistas ou pica-paus. Empenharam-se em disputas sangrentas
que acabaram por desencadear a revolução federalista, uma guerra civil que durou de fevereiro de 1893 a agosto de 1895 e
foi vencida pelos Pica-paus, seguidores de Júlio de Castilhos. Neste conflito, houve mais de dez mil mortos e centenas de
milhares de feridos Wikipédiahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Federalista. Acesso em 02/10/2006.
46
Minha Avó. Op.cit. 1978.
7
Vovó Benvinda perde o marido Francisco Carlos Pereira Régis muito cedo, aos 37 anos, de tuberculose.
Com a morte do marido e grávida, muito chorou. Criou os filhos em Florianópolis e depois em Biguaçu. Viu
morrer filhos e netos, suportando tudo com muita fé. Converteu-se ao protestantismo, quando missionários
americanos estiveram em Biguaçu. Assim, passou a freqüentar a Igreja Presbiteriana, ia aos cultos sempre de
preto, chapéu e saltos altos, passando uma impressão de refinamento.
A Bíblia era lida pela avó todos os dias. Como ela, também Maura foi criada entre os versículos, só que
a menina Maura rebelou-se muito cedo. Sua avó, ao ouvir a neta dizer alguma palavra mais profana, olhava-a
com seus olhos azuis e exclamava: “Ó Maura!”
47
.
Maura conta que Benvinda era a avó que fazia rendas e tudo o que podia para alegrar os netos. Certo
dia, a neta estava muito aflita, pois seria oradora da turma na cerimônia de formatura da Escola Normal e não
tinha vestido novo para ir. A aflição da adolescente acabou quando a vovó lhe um corte de tecido cor-
de-rosa.
Vovó Benvinda foi inesquecível para Maura.
47
Ibid. 1978.
1
Os Arcanjos
Com o leite das ovelhas
Com o leite das ovelhasCom o leite das ovelhas
Com o leite das ovelhas
por leão apascentadas
por leão apascentadaspor leão apascentadas
por leão apascentadas
doze filhos vou criar.
doze filhos vou criar.doze filhos vou criar.
doze filhos vou criar.
Não subirão às estrelas
Não subirão às estrelasNão subirão às estrelas
Não subirão às estrelas
não descerão às jazidas
não descerão às jazidasnão descerão às jazidas
não descerão às jazidas
que lhes tenho missão.
que lhes tenho missão.que lhes tenho missão.
que lhes tenho missão.
Em doze corcéis alados
Em doze corcéis aladosEm doze corcéis alados
Em doze corcéis alados
(para eles vão nascer
(para eles vão nascer(para eles vão nascer
(para eles vão nascer
com rubros sóis so
com rubros sóis socom rubros sóis so
com rubros sóis sobre as asas
bre as asasbre as asas
bre as asas
em doces pastos de flor)
em doces pastos de flor)em doces pastos de flor)
em doces pastos de flor)
nosso reino deixarão.
nosso reino deixarão.nosso reino deixarão.
nosso reino deixarão.
E com rosas simplesmente
E com rosas simplesmenteE com rosas simplesmente
E com rosas simplesmente
-
--
- nem espadas nem punhais
nem espadas nem punhais nem espadas nem punhais
nem espadas nem punhais-
--
-
com doze rosas sagradas
com doze rosas sagradascom doze rosas sagradas
com doze rosas sagradas
farão por terra tombar
farão por terra tombarfarão por terra tombar
farão por terra tombar
a cabeça do Dragão.
a cabeça do Dragão.a cabeça do Dragão.
a cabeça do Dragão.
Amor então se erguerá
Amor então se ergueráAmor então se erguerá
Amor então se erguerá
e rosas rebentarão
e rosas rebentarãoe rosas rebentarão
e rosas rebentarão
na terra no céu no mar.
na terra no céu no mar.na terra no céu no mar.
na terra no céu no mar.
Em doze c
Em doze cEm doze c
Em doze corcéis alados
orcéis aladosorcéis alados
orcéis alados
com rubros sóis sobre as asas
com rubros sóis sobre as asascom rubros sóis sobre as asas
com rubros sóis sobre as asas
os doze cavalgarão.
os doze cavalgarão.os doze cavalgarão.
os doze cavalgarão.
(O lábaro com Rosa
(O lábaro com Rosa(O lábaro com Rosa
(O lábaro com Rosa
suspensa sobre o dragão).
suspensa sobre o dragão).suspensa sobre o dragão).
suspensa sobre o dragão).
Em doze corcéis alados
Em doze corcéis aladosEm doze corcéis alados
Em doze corcéis alados
nosso reino deixarão.
nosso reino deixarão.nosso reino deixarão.
nosso reino deixarão.
E só depois de plantarem
E só depois de plantaremE só depois de plantarem
E só depois de plantarem
Rosamor em toda a terra
Rosamor em toda a terraRosamor em toda a terra
Rosamor em toda a terra
os doze regressarão.
os doze regressarão.os doze regressarão.
os doze regressarão.
Maura de Senna Pereira
Maura de Senna PereiraMaura de Senna Pereira
Maura de Senna Pereira
País d
País dPaís d
País de Rosamor
e Rosamore Rosamor
e Rosamor
– 1962
2
Os irmãos
A família era de classe média pobre, ao todo foram doze irmãos: Maura, Zaura, Roberto, Carlos, Ruth,
Ilka, Carmem, Saul, Saul, Zaura, José Filho e Samuel. Era comum na sua família a repetição de nomes, quando
um irmão morria, outro herdava seu nome.
A irmã Zaura sofre uma queda quando pequena, o que lhe acarretou sérios problemas de saúde. O pai
gasta suas economias, abrindo mão do sonho de construir uma casa, somente para tratar a filha. Mas todos os
esforços foram em vão. Aos dez anos Zaura morre, deixando tristes lembranças.
Roberto de Senna Pereira nasceu em 1907, em Florianópolis; era o terceiro filho do casal José e
Amélia, sendo três anos mais moço que Maura. Com sua esposa, Olívia Piracuruca Senna Pereira, teve um filho,
Mauro de Senna Pereira.
Deixou a ilha de Santa Catarina para morar em Porto Alegre, onde foi revisor do
Diário de Notícias
por mais de vinte anos, tornando-se chefe desse jornal. Também era funcionário da Assembléia Legislativa do
Estado.
Quando ficou doente (muitos da família sofriam de tuberculose) teve que se afastar do trabalho, sua
enfermidade levou-o a ser internado no Hospital Sanatório Belém
48
. Morreu em 28 de junho de 1963, um ano
48
Hoje Parque Belém, foi fundado em 1934 como hospital especializado em assistência hospitalar a pacientes tuberculosos
3
após o falecimento da mãe. Estava com cinqüenta e cinco anos. A cerimônia fúnebre contou com um grande
número de colegas, funcionários da Assembléia Legislativa e do
Diário de Notícias
, os quais prestaram
honrosas homenagens. Seu corpo é enterrado no Cemitério de Belém Velho (Porto Alegre), o qual foi criado
ainda no século XIX.
Recorte sem referência – 1963
Carlos nasce no dia vinte de janeiro de 1909. Era, segundo Maura, um
rapaz belíssimo. Quando o pai morreu contava apenas quatorze anos, foi quem
sempre esteve próximo à mãe viúva, ajudando-a em tudo que precisasse. Era
telegrafista, não se sabe se quando o pai morreu o rapaz já exercia essa
profissão.
Aos vinte e um anos, Carlos viajava pelo mar quando cai do navio e
afoga-se, em São Francisco do Sul. Um trágico acidente que causa a morte do
rapaz e traz mais sofrimento à família Senna Pereira, mais uma perda na
família.
4
Nota do jornal sobre o
afogamento de Carlos Senna
Pereira.
Ruth, a quinta filha de José
e Amélia, nasceu no dia 18 de abril
de 1910. O casal não morava mais
na Rua Deodoro, Ruth nasceu, pois,
na Rua Jerônimo Coelho, nº. 13,
Maura estava com seis anos. Ruth
era sua companheira, lia os livros
escritos por Maura e fazia
comentários sobre os mesmos.
Casou-se com Álvaro Campos Lobo. Foi a única irmã que
teve filhos, um casal: Fernanda e Álvaro Henrique Campos
Lobo. No fim de sua vida, teve Mal de Parkinson. Em carta a
Maura explica: Gostaria de me alongar, mas o mal de
Parkinson não é sopa, não”. Comenta um livro da irmã, sem citar o título:
5
Recebi hoje (15) teu lindo livro, lindo, lindo!
Desculpas pelas verdades? Onde estavas com a cabeça,
menina? Para não estar de acordo com algumas das tuas
idéias, mas nem por isso posso deixar de achar o teu livro
maravilhoso, como são os outros, fazendo belo par com os
do querido Cousin. Casal danado, parece até que estão numa
competição. Não se sabe quem escreve melhor e como vocês me comovem
49
Carta de Ruth.
Ilka nasce no dia 26 de novembro de 1911. Casa-se com o engenheiro
civil Newton Valente Costa, ficando viúva deste. O casal não teve
filhos. Com carinho, no aniversário de Maura, Ilka manda-lhe um
bilhete, dizendo: “Querida Maurinha, coloquei ontem no Crédito Real,
49
Carta sem data. Acervo: ACL.
6
por telex, 20.000.00, presente teu aniversário. Foi fácil. Espero que esteja aí, pois eles garantiram que
ontem dia 4 estaria aí”.
Ilka – verão 1930
ACERVO: ACL Carmem
ACERVO: ACL
7
Carmem de Senna Pereira era uma das irmãs mais novas, a penúltima das mulheres; nasceu em
14/07/1913. Era uma
menina-moça de prendas raras, toda graça, inteligência, valor e
juventude
.
50
Quando o pai morreu, Carmem estava com 10 anos.
À direita, jornal
O Atalaia
Maura escreve para Carmem no
dia do aniversário da irmã – 14/07/1926
Aos dezenove anos comete suicídio, trazendo mais dor aos que
ficam. A forma como aconteceu o suicídio não foi comentado por Maura
em nenhuma entrevista, também em reportagens da época não foi
encontrada a causa; provavelmente, não foi comentado por ser um
assunto doloroso à família. No dia em que Carmem faria aniversário, 14
de julho, Maura escreve na coluna “Nós e o Mundo” sobre a irmãzinha
de riso lindo, do seu encanto, dos cabelos crespos e soltos, e imagina
onde estaria a irmãzinha se não tivesse partido:
Estarias em nossa terra, cercada de filhos, onde nós criamos nossos irmãos?
onde crescemos órfãs de um pai perfeito e onde desfolhamos os primeiros sonhos sob a
asa daquela heroína do amor materno? [...] mesmo que bem longe estivesses e não mais te
visse, haveria os elos da vida, a esperança, a comunicação. Rosa íntegra , adorável ser
50
PEREIRA, Maura de Senna Pereira. Uma Vida inesquecível. Nós e o Mundo. Gazeta de Notícias.
8
humano, embelezando estarias as horas dos que te rodeassem e enviando e recebendo,
irmãzinha, as palavras todas na nossa cálida fraternidade. Em qualquer país menos no país-
do-nunca-mais para onde
foste naquela manhã trágica
de fevereiro. Menos no país-
do-nunca-mais.
51
O irmão de Maura que recebe o nome de Saul
nasce em 1914, morrendo nesse mesmo ano. O segundo
menino chamado Saul nasce, provavelmente, em 1915 e
também morre precocemente. Não temos a data exata
de quando este morre, supõe-se que seja no mesmo ano
em que nasceu, pois em 1916 morre a primeira menina
Zaura e nasce outra, a segunda Zaura
.
Zaura, 1935
ACERVO: ACL
Zaura nasce no dia 14 de junho de 1916, vem a casar-se com Octávio Dupont, cientista de renome.
Dupont era doutor em Medicina e Cirurgia e doutor em Medicina Veterinária. Nasceu na Bélgica e naturalizou-
se brasileiro. Profissionalmente, o marido de Zaura foi catedrático (por concurso) da UFRJ, da qual recebeu o
51
PEREIRA, Maura de Senna. Carmem. Nós e o Mundo. Gazeta de Notícias, [19_ _?]. Acervo: ACL
9
título de Professor Emérito”. Ao chegar ao Brasil, assumiu a chefia dos serviços veterinários do
Jókey Club
Brasileiro
. O casal não teve filhos.
José de Senna Pereira Filho, o penúltimo filho, nasceu em 1920. Quando o pai morreu, Josezinho, como
era carinhosamente chamado, estava com apenas três anos. Escreve Maura sobre o irmão:
‘É hoje que papai volta?”– perguntava ele, cortando os corações. No seu cavalo preto alemão, de
madeira pintado, com ampla embaladeira, o menino interrogava os irmãos, os amigos da casa e
principalmente a mãe viúva e prestes a dar a luz o décimo segundo filho de um grande amor.
Quando este nasceu, ninguém sabia quem mais lamentar: se o que não conheceria seu pai ou o que
padecia aquela pungente saudade. Saudade do amigo que lhe dedicava todos os lazeres: que o
punha nos joelhos e nas costas, inventando brinquedos; que fazia aqueles quepes de papel e saia
com ele a marchar o menino a imitar o pai adorado em todos os gestos e vozes e até no seu
caminhar habitual, de mãos para trás.
Imitação-retrato: no seu semblante, no alto caráter. Órfão aos três anos, aquela saudade
marcou-o e foi sempre com seriedade que encarou os problemas da vida. Tanto que, adolescente,
o partilhar festivo de um bando da lua” no carnaval catarinense significou um momento raro e
inesquecível.
Luas, porém, não teria ele, sim, estrelas, conquistadas pelo duro labor em alto mar nos anos
tormentosos da segunda Guerra Mundial. Pois cedo começou sua luta, cortou os sete mares (a
primeira sobrinha chamou-o “tio do vapor”) e quando voltava, trazia lembranças de países
longínquos, histórias marujas. (...)
52
52
PEREIRA, Maura de Senna. Um herói. Nós e o Mundo. Gazeta de Notícias, 02 fev. 1969. Acervo: ACL
10
Foto de Zaura, aos cinco anos, e Josezinho,
com um ano.
ACERVO: ACL
11
Álbum de Maura - A mãe Amélia com o filho José
ACERVO: ACL
12
Quando veio a II Guerra Mundial, partiu para alto mar,
pois era competente engenheiro de máquinas; teve seu barco
atingido duas vezes, recebendo depois o “Diploma de Medalha
de Serviços de Guerra”, com estrela, por ter prestados
valiosos serviços ao País.
Casou-se com Cassilda e tiveram dois filhos, Edson e
Sheila, que se licenciou em História Natural, tornando-se
professora e pesquisadora. Quando o coração de José de
Senna Pereira Filho parou, em 12 de janeiro de 1969, no Rio de
Janeiro, a filha casada esperava um bebê, o desejado neto que
ele não chegou a conhecer.
Maura orgulhava-se do irmão Josezinho.
José – 1934
ACERVO: ACL
13
Samuel – 1941
ACERVO: ACL
Cinco meses após a morte do pai, no dia quatro de julho de 1923, nasce Samuel.
14
Samuel foi major do Exército, por seus atos de bravura, distinguiu-se na FEB
53
e recebeu a Cruz de
Combate de 1ª. Classe. Casou-se com Mariazinha e tiveram quatro filhos: Rui, Vera, Cléia e Jorge.
Foto de Samuel.
No verso consta o seguinte:
A Maurinha muito querida uma lembrança do seu Herói em
Alessandria.
Samuel
Rio, 17/IX/45
ABAIXO: Entrega de Medalha e Diploma a Samuel.
ACERVO: ACL
53
A Cruz de combate de 1ª classe era de ouro e destinou-se a premiar os militares que se distinguiram em ação durante a 2ª
Guerra Mundial. Concedida aos militares que praticaram atos de bravura ou revelaram espírito de sacrifício no desempenho de
missões em combate e às Unidades que se destacarem na luta Brasileira. http://www.resenet.com.br/ahimtb/med12gm.htm.
Acesso em 30/08/06. http://www.resenet.com.br/ahimtb/med12gm.htm. Acesso em: 30/08/06
15
A Semana
- 24 de outubro de 1929
16
17
Foto do álbum de Maura
18
Vista panorâmica de Florianópolis – anterior a 1918
ACERVO: Casa da Memória
19
1
SEGUNDA PARTE
FLORIANÓPOLIS
1920 – 1941
2
MEUS VERDES ANOS
Praça XV de Novembro - 1920
3
Vista do Morro da Cruz - 1920
Vista panorâmica de Florianópolis – 1920
À esquerda: Mercado Público – década de 20
4
Teatro Álvaro de Carvalho – década de 20
Acervo: Casa da Memória
Maura de Senna Pereira
5
A infância de Maura fica para trás.
A menina que estudou no Grupo Escolar Lauro Müller passou a freqüentar a Escola Normal
Catarinense. Ali foi aluna de professores ilustres, que a poetisa não se cansava de elogiar: Altino Flores,
Lente de História e Geografia, Barreiros Filho, Lente de Português e Literatura, José Boiteux e Odilon
Fernandes, entre outros que formavam uma nova geração de escritores e empenhavam-se no desenvolvimento
da cultura catarinense. Além dos grandes mestres, Maura vivia entre pessoas intelectuais, como o pai e os
tios.
Escola Normal
Em 1921, aos dezessete anos, terminou o Curso Normal e, em 19 de setembro, a fim de guardar uma
lembrança das colegas de classe, preparou um álbum para que estas escrevessem poemas de livre escolha,
como era uso entre as moças da época. Nos versos, vemos o estilo preferido; a maioria são sonetos de
autores como Olavo Bilac, Camões, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Cruz e Sousa e também da poetisa
6
catarinense Delminda Silveira, entre outros. A professora da Escola São José, depois Grupo Diocesano,
Isaura Veiga de Faria, escreveu especialmente para
Maura.
À esquerda, poema de Isaura Veiga de
Faria. À direita, poema de Ruth.
Com a formatura, Maura realizou o desejo de seu pai, que era obter o diploma de professora. Na
ocasião, foi escolhida como oradora da turma, honra atribuída sempre aos melhores alunos.
Maura com alunas.
7
Assim que terminou o Curso Normal, exerceu o magistério e, para isso, fez concurso para as
cadeiras de Português e História na Escola Complementar de Florianópolis e foi destaque. Maura explicou em
entrevista:
O Aquiles Gallotti, que era o presidente da banca e o Barreiros Filho, me
disse umas três ou quatro vezes “bravo” nas respostas da prova oral e ao final
falou: “considero esta prova ótima e lhe dou distinção na prova escrita”, que ele
chamou de tratado de pontuação.
54
Maura de Senna Pereira
Nessa época, Florianópolis havia passado por melhorias, entre as quais a
iluminação pública, o saneamento de esgotos e o abastecimento de água. Algumas
reformas na arquitetura fizeram a cidade alterar-se. O governador Gustavo
Richard (1906-1910) retirou as grades que cercavam a Praça XV e a enriqueceu com
alguns espécimes exóticos. No entanto, desde então até a década de 30, a Praça
XV pouco modificou. Os sobrados foram mantidos, alguns ruíram, outros foram
substituídos. Muitos deles receberam decoração eclética de inspiração francesa,
incluindo-se neste caso o Palácio do Governo, que foi reformado”.
55
no final da
década de 30, a Praça XV apresentava a urbanização concluída.
Praça XI - 1930
Fonte: IHGSC
54
Uma poeta corpo a corpo com a vida. Entrevista concedida por Maura à Colaca Grangeiro e Silveira de Souza. Jornal da
Cultura, Florianópolis, jul.1990. p.8. JUNKES, Lauro (org). In: PEREIRA, Maura de Senna. Poesia reunida e outros Textos.
Coleção ACL, 2004, p. 290.
55
VEIGA, Eliane Veras da. Florianópolis: Memória Urbana. Florianópolis: UFSC e Fundação Franklin Cascaes, 1993, p.
210.
8
No início do século XX eram poucos os letrados em
Florianópolis. A Biblioteca, que iniciou suas atividades em 1831 como
um Gabinete de Leitura, foi transformada em Biblioteca Pública e
aberta ao público sob proposta de Diogo Duarte Silva (foto), poeta
que na época doou 800 livros. A Biblioteca blica, entretanto, não
progrediu. No início do século XX havia poucos livros, o que
dificultava o contato com a literatura estrangeira. Assim, quem se
interessasse por livros de autores estrangeiros, teria que mandar
buscar livros por encomenda.
Na década de vinte, Florianópolis possuía vários jornais circulando. O jornalismo em Florianópolis
iniciou no ano de 1831, com a publicação do primeiro jornal de Santa Catarina,
O Catharinense
, tendo como
diretor proprietário Jerônimo Francisco Coelho.
56
Muitos foram os jornais e revistas em que Maura trabalhou. Em 1923, com a morte precoce do pai,
assumiu o sustento da casa aos dezenove anos. A jovem não se deixou abater e, além de professora, tornou-
se jornalista. Em Santa Catarina trabalhou nos jornais
O Elegante
,
O Atalaia
,
O Josephense
,
O Tempo
,
A
Semana
,
Folha Nova
e
República
.
56
SACHET, Celestino. A Literatura Catarinense. Florianópolis: Lunardelli, 1985, p.88.
9
Jerônimo Coelho
Nessa época em que Maura começava a trabalhar em jornais,
existia a Sociedade Catarinense de Letras. Inicialmente, a idéia de
fundar uma Academia de Letras em Santa Catarina surgiu em 1912,
com o jornalzinho literário chamado
O Argo
, fundado por Altino Flores
e José d’Acampora. Por meio desse jornal, Othon d’Eça lançou a idéia
com o apoio de Altino Flores, ainda estudantes do Ginásio Catarinense.
Pensavam em uma Academia fundamentada na Brasileira, que por sua
vez imitava a Academia Francesa. Assim, a idéia não se concretizou,
pois seria necessário preencher quarenta cadeiras com nomes ilustres
e Florianópolis não possuía esse número de literatos.
57
Além disso,
precisavam pensar na qualidade dos sócios, e a exigência era muito grande, deveriam seguir o padrão, que era
ditado pelos intelectuais da época.
A Ilha vivia sob a influência dos parnasianos e era muito preconceituosa. Nos jornais da época
era comum encontrar vários sonetos, tanto de autores consagrados, como Bilac, como de escritores
catarinenses que os escreviam para comemorar algo, homenagear alguém ou até mesmo para passar conselhos.
Isso explica por que as colegas de Maura escreveram sonetos no caderno de recordação.
57
SACHET, Celestino. As transformações estético-literárias nos anos 20 em Santa Catarina. Florianópolis: UDESC-
EDEME, 1974, p.57.
10
A gramática puríssima era regra estabelecida, sobretudo por parte de Altino Flores e Barreiros
Filho, principais responsáveis pela clareza e domínio da linguagem que Maura possuía. Seus professores
exigiam a perfeição na escrita.
Professores de Maura:
Altino Flores, Laércio Caldeira de Andrada (de óculos) e Barreiros Filho (de chapéu).
Outro exemplo que mostra como estavam as letras em Santa Catarina diz respeito ao poeta Cruz
e Sousa, que não recebeu o devido valor em sua terra natal, tanto pelo fato de ser negro, filho de escravos,
quanto por sua poesia não ser reconhecida. Até 1923, os críticos catarinenses ainda não haviam entendido o
11
que era Simbolismo e onde estava o Simbolismo de Cruz e Sousa”
58
, apesar deste ser considerado o maior
poeta catarinense hoje.
Cruz e Sousa
Assim, as exigências para ser sócio da Academia eram muitas e
Florianópolis teve que esperar. Somente em trinta de outubro de 1920 é que se
concretizou a
Sociedade Catharinense de Letras
.
Em 1920, Altino Flores, Laércio Caldeira de Andrada e Barreiros Filho
criaram a revista mensal
Terra-Revista de Artes e Letras
, destinada a preencher
uma lacuna nas letras catarinense. Pretendia ser um porta-voz desses escritores,
que se achavam “maduros” para organizar a Sociedade Catharinense de
Letras.
59
A revista, que deveria ocupar-se apenas de assuntos culturais, no número
quatro passou a tratar de assuntos gerais. Segundo Sachet, “a revista Terra não durou mais que o ano de
1920; faltou-lhe garra para sobreviver num ambiente pouco, ou nada, literário. Faltou-lhe conteúdo para
engajar os que estavam de fora que, se pouco sabiam de belas letras, nada de nada lhes interessavam os
versos”.
60
Maura destacava-se por ser uma jovem instruída e com idéias à frente dessa época, pela ousadia
em seus escritos e pela facilidade em manusear as palavras, além de ser bela.
58
SACHET, 1985. op cit. p.44.
59
SACHET, 1974. op cit. p. 66.
60
Ibid. p.
74.
12
Jornalismo
O primeiro trabalho jornalístico foi no jornal
O Elegante
, entre 1923 e 1925. A princípio usou o
pseudônimo
Alba Lygia
. Em de julho de 1923, publicou o artigo
FLOR... no álbum de Zulma
, dedicado a uma
ex-aluna, “uma menina de muitas prendas”, mas que “o que atraía é a bondade da menina”.
O Elegante - 06/05/1923
Em
Saudades e Lágrimas
, publicado em quinze de julho de 1923, assim como no primeiro, o
pseudônimo foi usado:
Hoje alguém que eu amo muito e muito adoro; alguém, cujos sonhos são
puros como os dos anjos e belos como as pétalas das rosas, uma linda criaturinha
13
de cabelos loiros e perfumosos, com expressão vivaz na pureza dos seus olhos de
esmeralda, veio perguntar-me o que era saudade...
Mas eu, que sempre procuro dar uma resposta às suas perguntas, a que a
Inocência e uma precoce inteligência emprestam vida e graça extraordinárias,
adaptando tanto quanto possível minhas explicações ao seu intelecto de criança,
permaneci muda, interdita, diante daquela pergunta direta formulada com ar
sério e com uma não desengraçada gravidade.
Permaneci muda... Onde e quando o meu loiro querubim ouvira pronunciar
esta palavra que todos definem e interpretam na forma do seu Sentimento, que
exprime tanta coisa doce? Ah! Sem dúvida ouvira naquele momento mesmo e,
ansiosa por uma explicação que exigia sem mais delongas, pelos modos de sua
atitude, viera pedir-me na forma do seu hábito.
Dando costume de ser satisfeita a sua curiosidade todas as ocasiões em
que a excitavam, não de negar que fora naquele mesmo instante que aos seus
ouvidos soou harmoniosa, cantante, a música doce e triste da palavra Saudade,
que todos nós compreendemos, que todos nós sentimos, que produz em nossa
Alma a emoção simultânea de Alegria e Dor e nos faz derramar uma torrente de
consoladores e silenciosas lágrimas, pois talvez o choro seja o símbolo da
Saudade, assim como é o da Dor e da Melancolia... elas, que lhe diria eu? Sem
querer, encheram-se me os olhos de lágrimas. É que em todo o meu Ser, em todo
o meu Coração, em toda a minha Alma - bóia uma Saudade imensa, mansamente,
melancolicamente, como “um pungir delicioso de acerbo espinho”...
Sim, como não me comover ouvindo falar da Saudade a um ser que eu
muito amo e muito adoro, ouvindo falar da Saudade a um ser, cujos sonhos são
belos como as pétalas das rosas e puros como os dos anjos, ouvindo falar da
santidade, se da Saudade eu vivo?...
Muda-se nos a vida (...)
Mas, olhando-me com os seus olhos de esmeralda rasos d’água - lágrima
que reverberava a Sensibilidade duma Alma mui amorosa, mui acessível a um a
Amor puro como o verde esmeraldino dos seus olhos - ela, descendo do fraternal
regaço, enlaçou-me o pescoço e depois, muito terna, muito meiga, com um Afeto,
bem ao vivo, pintado nas fascinadoras e mascaradas feições - deu-me nos lábios
um beijo sonoro, que me soube como o mil, um beijo bem estaladinho, verdadeiro
14
ósculo de Amor, para, com indefinível expressão na malícia fugidia e amorosa dos
seus olhos verdes, dizer-me a meia-voz:
- Já sei, meu bem. Saudade é qualquer coisa que nos faz chorar.
Depois, com os cabelos loiros a voar a fresca brisa daquela tarde estival -
cheia de Flores, de Sol e de Luz - correu, correu, na perseguição de uma
borboleta azul.
Os soluços encheram, então, meu incontido peito; o Pranto me orvalhou
mais em desafogo “abrasado” das faces, cristalizando em lágrimas a minha
Saudade enorme, intensa, intraduzível, - intraduzível como o Afeto, como o
imenso Afeto que me prende àquela loira e querida criança, de sonhos puros
como os dos anjos e belos como as pétalas das rosas...
Alba Lygia
Nos textos seguintes, deixou de usar o pseudônimo e passou a ser reconhecida pelo próprio nome
assinando os artigos. O jornal
O Elegante
passou para a
Segunda Fase
e, em 1925, Maura escreveu a seção
quinzenal
Feminismo
; no dia 31 de maio de 1925 publicou o texto
Volvamos nossas vistas para o porvir
, falando
às mulheres. Esse texto foi posteriormente publicado em outros jornais.
Nestes últimos tempos, com especialidade, muito se há pregado uma
profissão para a mulher. Que ela se não dedique exclusivamente à aprendizagem
de encargos domésticos e prendas essencialmente feminis.
E o que é mais: que não vivam unicamente a cuidar de si, para aparecer
bem, bem mascarada, à força de rouge, carmim e crayon”, vivendo a vida
material das futilidades e do coquetismo, das mentiras de salão, cuidado de
modas e de “flirt”, em busca do marido rico, de invejável posição social, a quem
15
levianamente entregará o coração e a vida, sem a menor reflexão, quase sempre
sem amor, e que lhe assegurará a mesma existência cômoda e “chic”.
Não é a primeira vez que uma mulher enxerga esse princípio ruim,
cumprido tão fielmente pela maioria do mundo feminino, nem é a primeira vez que
o declara.
O que a mim me pareceu, porém, é que, absolutamente, não é
desnecessário que mais uma vez se levante e clame contra esse mal da educação,
infelizmente, tão generalizado. É mesmo necessário que o façam ouvir neste
momento, para a regeneração social, para o bem do lar e das gerações, para a
felicidade da mulher.
É pensando assim que componho este artigo, com toda a minha
franqueza e lealdade.
A mulher necessita - está claro - de dar um novo rumo à sua vida.
Necessita de instrução.
vai perdendo a graça e os adeptos, estão caindo da moda o velho
conceito, ainda enunciado, com certos ares de presunção, por alguns
representantes do sexo oposto: “A mulher precisa, só e exclusivamente, de
saber ser boa dona de casa”. Isto não basta! É iníquo, é duro, é absurdo! Quando
solteira, precisando manter-se que será mulher se ela, tão somente, souber ser
“boa dona de casa”?
E quando casada, quando por uma dessas infelicidades tão comuns, o
marido perde o emprego, justa ou injustamente, adoece ou fica inutilizado, que
será do seu lar, que será dos filhos da alma”, se ela não os amparar, pondo-os a
salvo da miséria com sua profissão? E quando enviúva, se arrimo, falta de
recursos, carregada de filhos?
Em qualquer circunstância, enfim, a que lhe falte o apoio do pai ou do
esposo ou que não lhe baste esse apoio material - como tão frequentemente
sucede - se não tiver ela aptidões que lhe permitam ganhar honesta e
independentemente a sua vida, prover a sua manutenção e salvaguardar da
miséria, do frio, da fome, do vício, da nudez, os queridos entes a quem tem a
enorme e sagrada responsabilidade de alimentar, vestir e proteger, será forçoso
optar: ou ser parasita, sofrer dependência ou abraçar a desonra!
16
Como eu quisera, como eu desejava que todas as mulheres se
levantassem, se unissem, para a real efetivação do belo sonho: buscar a
felicidade no aproveitamento do tempo, não educação das faculdades, no
trabalho. E é mesmo muito, muito preciso o soerguimento mínimo para esse surto
reparador, porque o homem, creio - creio-o convictamente - não faz nada pela
mulher.
Dos que falam em favor dela e do seu progresso, muito poucos o fazem
com sinceridade e convicção, olhando com simpatia para a causa tão justa da mais
casta e da mais sacrificada metade do gênero humano.
A maioria é por galanteio, lisonja, para agradar aquela que nasceu para
o seu prazer, que precisa de mimos, esse ente inferior na inteligência, incapaz de
pensar, incapaz duma iniciativa mais forte e mais viril, para o qual olho com os
olhos de superioridade.
Outros deixam escapar, sobre a mulher, expressões dúbias, opiniões
humorísticas, engraçadas, irônicas, de causar nojo e indignação. Outros ainda,
sem rebuços, muito às claras, formalmente se manifestam contra todo e qualquer
progresso intelectual feminino.
bem poucos dias, conversando com um distinto rapaz de sociedade, em
abono do meu sonho delicioso de mulher que sente e deseja o melhoramento do
seu sexo, tratando, pois, o assunto ora em foco, expus-lhe, em traços gerais,
resumidamente, o que acabo de escrever para as minhas conterrâneas.
Concordou, ou pareceu concordar, mas acabou dizendo que a mulher, na hora
horrorosa, critica da necessidade, “trabalhe em doces ou na costura”.
É alarmante!
Precisamos, portanto,de reagir, companheiras! Formemos, catarinenses,
uma tenda de trabalho, de abnegação, de amor, de desenvolvimento moral,
econômico e social, de intelectualidade sugestiva e boa. Rompamos com os
prejuízos e volvamos nossas vistas para o porvir, companheira!
Maura de Senna Pereira
Do Centro Catarinense de Letras
17
Jornal
O Elegante
31/05/1925
Se ainda menina sua literatura inclinava para uma escrita
inteligente e de qualidade, buscava em livros de escritoras
feministas como Maria Lacerda de Moura, Nísia Floresta, entre
outras, uma maneira de entender a situação vivida pela mulher ao
longo dos séculos; agora se sentia capaz de fazer alguma coisa para
que a mulher conquistasse seus direitos como ser humano. Agora
tinha em mãos o que precisava: o jornalismo.
Com esse texto de início de carreira jornalística,
confirmou seu pensamento sobre a mulher, o que perduraria até o fim
de sua vida. A Maura feminista que tentaria ao máximo conscientizar
a mulher catarinense de que é preciso libertar-se das amarras do
preconceito no qual a mulher é educada, tentar tirá-la do comodismo
em que vivia, abrindo-lhe os olhos para um fator importante para suas
vidas: a instrução. A mulher não deveria se acomodar, precisava instruir-se e construir uma vida
independente.
Além do jornalismo, Maura participava de debates, palestras, cursos, pesquisas, manifestações
culturais, tudo o mais que propiciasse esclarecer às mulheres a opressão em que viviam.
18
Atuando no jornalismo florianopolitano, freqüentemente escrevia sobre as mulheres em destaque,
fosse ela do meio social ou mesmo aquela mulher de vida mais simples, que vivia em casa para cuidar e servir à
família ou a que deixava os filhos para um trabalho não valorizado socialmente.
Outra inconformidade de Maura dizia respeito à mulher frágil, que deveria ficar em casa entretida
em seus bordados ou afazeres domésticos, à espera de um marido que a conduzisse por toda a vida. Desde
cedo, teve intensa participação na vida pública, no mercado de trabalho e isso permitiu divulgar novos
caminhos para as mulheres. Procurava mostrar que a educação seria o melhor meio de aumentar as chances de
emancipação, de transformação, no qual a mulher não ficaria restrita apenas ao papel de esposa e mãe, mas
teria também sua independência em ralação ao marido.
Sobre Maria Lacerda de Moura, escreveu no jornal
República
em 20 de julho de 1928:
Maria Lacerda de Moura é um nome que a literatura feminina e o
feminismo brasileiro devem, em tudo, amar e respeitar. (...) Sua bagagem
literária e, nos seus livros e nas suas conferências, grita o seu sonho, canta-o,
ilumina-o, anunciando o advento de uma organização econômica mais doce e mais
justa, escrevendo ‘Lições de Pedagogia’ e páginas de exaltação do papel social da
mulher. Seu livro de mais fôlego é, porém, ‘A Mulher é uma Degenerada’,
contestação documentada, forte, sem medo, sem prejuízos, sem avareza de
ensinamentos, ao célebre postulado de Borbarda. Já ouvimos, a um formoso
espírito, a opinião de que, nos últimos tempos, mais belo e masculino que esse
outro livro não surgiu na literatura brasileira.
Maria Lacerda de Moura... Expoente máximo do pensamento feminino no
Brasil.
19
Também em 1976, ao comentar a conferência que Diva Machado Pereira Kaastrup pronunciaria na
Academia Literária do Rio Grande do Sul, destacou a obra dessa feminista, que marcou sua adolescência com
“seus livros corajosos e abridores de caminhos”. Para Maura, Maria Lacerda de Moura foi a escritora
brasileira mais importante no assunto
mulher
, apesar de ter sido injustamente esquecida.
Sobre o trabalho que Diva apresentou, este foi dedicado à Maura, o qual rendeu um artigo em
Nós e
o Mundo
logo em seguida:
Mulher - metade de um todo.
Ao lado: Maria Lacerda de Moura
13/09/1931 – Jornal
República
: Página Domingo Literário
20
À esquerda:Julia Lopes de Almeida
À direita: Nísia Floresta
Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), que também foi muito
valorizada por Maura, foi educadora, escritora e poetisa. Sobre esta, escreveu
também no
República,
no dia 1º de agosto de 1928:
Entre as mais fulgentes e criadoras mentalidades do Brasil de todos os
tempos, figura a vitoriosa pensadora rio-grandense-do-norte Nísia Floresta.
Oriunda de um lar obscuro e pobre e apesar de agrilhoada pela miséria e
pelos preconceitos que, no século passado, mais que hoje, atuavam no espírito
social numa ofensa escravizadora ao espírito da mulher, fez-se esse grande
nome, essa poderosa expressão cultural, apoteosada dentro e fora do seu Estado
e da sua Pátria.
Nísia Floresta professava o positivismo e correspondia-se com o próprio
Augusto Comte, tendo deixado preciosíssimas obras em que se revelam as suas
altíssimas idéias e os seus conhecimentos filosóficos e que, seja dito de
passagem, foram escritas em vários idiomas. (...)
21
1925 – Revista do Centro Catarinense
de Letras.
Foto de Margarida Lopes de Almeida, filha de Julia Lopes de Almeida – 1933.
(ACERVO: ACL)
Ainda em 1924, trabalhou em outro jornal mensal vinculado à Igreja Presbiteriana de
Florianópolis, chamado
O Atalaia
. A primeira publicação aconteceu no mês de março e na primeira página um
artigo de Maura intitulado
Meu aplauso aos bravos Atalaias
, saudando os jovens no primeiro número. Nesse
artigo, incentivou os moços Atalaias “- ativos e valentes soldados de Jesus - a sonhar com um porvir
22
O Atalaia
– março 1924
venturoso e róseo (...) ambiente em que a felicidade
projeta as suas luzes quentes de sonho, de riso, de
glória, de magnificência”.
61
Maura assumiu a Presidência
da Sociedade Auxiliadora dos Moços e passou a ser
professora da Escola Dominical. Estava muito ligada
ainda à Igreja Presbiteriana e escrevia com a finalidade
de mostrar aos jovens que a mocidade acabara e que era
preciso valorizar os ensinamentos da Igreja. Seus
textos jornalísticos apresentavam caráter religioso, e esse era o objetivo do jornal.
É freqüente encontrar citados na página de aniversários dos jornais de Florianópolis os irmãos de
Maura em suas respectivas datas natalícias, como também a própria Maura. Na página “Sociaes” do número I
do jornal,
O Atalaia
cumprimentou a colaboradora, elogiando-a:
Srta. Maura de Senna Pereira
Completou, no dia dez deste mês, mais um ano de vida a distinta
senhorita Maura de Senna Pereira.
A aniversariante, que vem desempenhando com inteligência e
brilho o cargo de presidente da fruturosa Sociedade de Moços da nossa
muito amada Igreja é, pelas suas peregrinas e belas qualidades,
estimadíssima por todos que têm o prazer de sua privança.
61
PEREIRA, Maura de Senna. Meu aplauso aos bravos Atalaias. O Atalaia. Março de 1924, p.1.
23
“O Atalaia”, que tem a senhorita Maura de Senna Pereira como
uma de suas colaboradoras, sente-se feliz em cumprimentá-la, pedindo a
Deus que lhe conceda perenes bênçãos.
Texto de Roberto de Senna Pereira, irmão de Maura.
Na segunda edição de
O Atalaia
, no mês de abril, há um artigo
de Roberto de Senna Pereira, o irmão jornalista, intitulado “A mocidade
deve preparar-se para a velhice e a morte”. O irmão contava apenas
dezessete anos.
À medida que o tempo passava, o trabalho jornalístico de
Maura era ampliado; novos jornais e, nesses, intercalava textos sobre
seus familiares (homenageando-os por algum motivo), respondia cartas de
leitoras, exaltava a ilha de Florianópolis e abordava assuntos que
envolviam sentimentos e, principalmente, textos feministas, como
Volvamos nossas vistas para o porvir
.
Em julho de 1926, quem recebe o seu carinho é a irmã
Carmem, que no dia quatorze de julho completava treze anos. Maura
escreveu:
A ti, irmãzinha Carmem, o meu sorriso amigo e caricioso: acolhe-o,
querida, com amor e com jubilo, pois ele é a saudação de minha alma ao
natal teu, à data dos teus anos. Ele leva para o teu rosto todos os meus
24
ósculos sem fim e à tua vida de pequenina mulher-abelha, laboriosa e
risonha, conduz todas as minhas bênçãos exultantes.
(...)
O meu sorriso te beija, o meu sorriso te abençoa!
Maura
Em 1925, então com vinte e um anos, foi redatora e colaboradora da Revista do Centro
Catarinense de Letras, a partir do segundo número. A Revista tinha por objetivo ser o porta-voz de suas
aspirações e registrar a cultura
catarinense. O preconceito racial e
social de antes não era mais
constante, Cruz e Sousa havia
garantido seu lugar e seus poemas
eram publicados na revista do
Centro.
Trabalhou para os
jornais
Folha Nova
,
O Josefense, O
Tempo
e
República
em 1926.
13/11/1927 –
Folha Nova
25
O
Folha Nova
iniciou sua publicação no dia dezoito de novembro de 1926, tendo como diretor
proprietário Crispim Mira, jornalista muito querido em Florianópolis. O jornal tinha como propósito denunciar
injustiças. no
Ano I, Número I
do jornal, foi publicado o seguinte texto, a fim de esclarecer ao leitor seu
propósito:
Preferimos informar a comentar, preferimos elogiar a censurar, mas o
elogiaremos o erro, nem censuraremos o bem. Em qualquer caso, desejamos ser,
sempre, oportunistas, tolerantes e corteses. Temos um horizonte: a bondade, o
afeto ou o cavalheirismo em todas as emergências e o jubilo da vida em todas as
situações. É nosso ideal congraçar, construir, resistir à treva e homenagear a
luz. Dê-nos o povo, seu amparo, e certo que não soçobraremos em meio da
jornada.
Cumprindo a promessa, assim, denúncias que o levaram à morte foram feitas pelo proprietário -
assassinado no ano seguinte, em fevereiro de 1927, defendendo seus ideais.
O escritor catarinense Francisco José Pereira relatou esse
episódio, que ficou marcado na história catarinense no livro
As duas mortes
de Crispim Mira
. Por meio de buscas em muitos documentos da época e
também de pesquisa de como vivia a sociedade naquele tempo, recriou o
ambiente para os personagens reais e fictícios.
Na apresentação do livro, a escritora catarinense Eglê Malheiros
escreveu:
Ao lado, Maura em
Folha Nova
.
26
(...) os homens da imprensa (as mulheres eram raras e corajosas
exceções) levavam uma vida instável e arriscada. As lutas políticas, na
maioria das vezes, traduziam condições intra-oligárquicas e os problemas
sociais eram “caso de polícia”.
Aqueles que detinham o poder tratavam a imprensa de duas
maneiras: a pão-de-ló quando a controlavam; a chicote e à bala quando
não lhe punham rédeas. Empastelar jornais era esporte muito em voga.
Ao descrever Florianópolis na década de 20, Francisco José Pereira cita, entre outros, o
Café
Java
, na Praça XV, que era o local onde se encontravam os políticos locais, os profissionais liberais,
magistrados, etc.; esse local era concorrido e requintado por essas pessoas. Também havia o
Café
Commercial
, no Mercado Público, sem o refinamento do primeiro, mas com serviço especial e quitutes de
ótima qualidade. Maura de Senna Pereira é uma das personagens. No capítulo LV, o narrador diz:
Maura de Senna Pereira era professora do Curso Complementar
anexo ao Grupo “Lauro Muller” e reconhecida como
dedicada educacionista e
um dos perfis de maior destaque de nosso meio literário(...) dona de grande
intelligencia, e, sem dúvida, a mais forte mentalidade do meio feminino
, na
definição do Jornal
O Estado
.
Maura residia numa agradável casa, à frente uma varanda
acolhedora de confortáveis cadeiras. Foi ali, no fim da tarde, que recebeu Hugo
e Bruno Otávio. Mais jovem do que eles, Maura era bonita e inteligente, e se
conduzia com aquela determinação de quem decide reescrever, sem ajuda de
Deus, seu próprio destino.
62
62
PEREIRA, Francisco José. As duas mortes de Crispim Mira. Florianópolis: Lunardelli; F.C.C. Edições, 1992. p. 98.
27
Maura trabalhou para o jornal
Folha Nova
desde o primeiro número, com a seção
A La Garçonete
,
de sua responsabilidade. Crispim Mira, antes do trágico ocorrido que o levou à morte, traça o perfil da
escritora:
É um punhado de luz, a cintilar num corpo esbelto e forte. Talvez seja, ao
sul do país, uma das maiores mentalidades femininas. Apaixona-se possivelmente,
por algum exagero, por seu ideal libertário. Mas suas frases, como dos
mananciais cristalinos e sussurrantes, jorra-se magnífica sinceridade. Posto não
de [?] ao luxo de desenhar corações lábios e [...] róseas auroras faces, não
perdeu, ainda, a graça donaire do sexo. Fala com fulgor, escreve com
originalidade e brilho. Mas percebe-se que procura conter-se e destrói muito
dos seus ímpetos de arte, para não ferir demasiado as restrições ambientes. E é
meiga, acessível, franca arrebatada. Externando sempre uma encantadora
feminilidade. No lar faz de provida formiga. Entre os intelectuais, é pequeno
astro desprendendo luz. Convívio selecionado com os livros e com os espíritos
fortes há de fazê-la breve, a maior das catarinenses.
63
Estas palavras do jornalista revelam que, muito jovem, Maura era valorizada pelo colega por seu
desempenho de jornalista e escritora. E foi muito grata por tudo que Crispim Mira lhe fez, pois ele abriu as
portas do seu jornal, foi até a casa da jornalista, juntamente com sua esposa, convidá-la para trabalhar no
jornal. Inicialmente deu-lhe a seção
A La Garçonete
, uma página de mulheres. Depois, o jornalista quis que
Maura lecionasse e é por essa época, em 1927, que se encontra no jornal
República
o anúncio: “Maura de
Senna Pereira - Aulas particulares - Rua Crispim Mira, 7”.
63
Jornal Folha Nova. Seção A ’La Garçone. 1926.
28
Nos artigos de
A La Garçonete
, Maura destacava as jovens
mulheres, tecendo elogios às mesmas. Em seu primeiro artigo sobre
Zilda Costa, em dezenove de novembro de 1926, escreveu: “É
teosofista, tem o entusiasmo da emancipação feminina e sonha, de
olhos semicerrados, entre espessas sobrancelhas negras, um mundo à
parte, esquisito, transbordante de beleza e fé. (...)”.
Quando
Folha Nova
completava um ano, em dezoito de
novembro de 1927, comemorou o aniversário e agradeceu às muitas pessoas que visitaram o jornal a fim de
parabenizá-lo, apesar de seu fundador não mais se encontrar presente. Maura foi uma das ilustres visitas que
Folha Nova
recebeu e foi destaque na primeira página, juntamente com Celia Wendhausen, Rainha dos Moços,
e o Dr. Walmor Ribeiro. Na segunda página, as duas mulheres foram referidas com o artigo “A graça feminina
- Célia e Maura”.
A Acadêmica Maura publicou, nesse dia, no mesmo jornal:
Caro leitor, tu também te deste um dia, em que esqueceste por algum
momento as lides da política ou das lutas do esporte, ao trabalho - que para mim
é um prazer - de ir visitar a exposição de mentes de ouro da intelectualidade de
Santa Catarina.
Se não o fizeste, que nos valeremos ambos mutuamente de nossas
sapiências de “cicerone”, em país quase desconhecido para mim.
Olha, cada vitral destes tem atrás de si um vulto cujo cérebro de ouro
resplandece...
29
Nessa página de Maura encontram-se fotos e
escritos de muitos intelectuais de Santa Catarina, cérebros
de ouro”, como salientava Maura: Acadêmico Dr. Oliveira e
Silva, Acadêmico Dr. Joe Collaço, Colbert Malheiros, entre
outros.
O Josefense
– 14/02/1926
Para o jornal
O Josefense
, Maura publicou textos em 1926. Em quatorze de fevereiro desse ano,
foi publicado novamente o texto sobre feminismo
Volvamos nossas vistas para o porvir
, com seu nome e
especificando: “Do Centro Catharinense de Letras”. E foi no ano de 1927 que Maura aderiu à causa em favor
das professoras que, na época, não poderiam ser casadas. Para ela, isso era uma expressão maior de desprezo
à mulher. No Hotel Moura realizava-se uma Conferência de Ensino e ela esteve à frente de um movimento
para pôr fim a essa lei que impedia a mulher de trabalhar sendo
casada. Mesmo contando com a ajuda do deputado Arthur da Costa, o
movimento, no entanto, não obteve sucesso, pois o líder do governo,
deputado Marcos Konder, expôs suas razões para não atender a
proposta da Conferência: “as professoras casadas trazem embaraços
à Instituição Pública”. Demorou ainda alguns anos para que essa lei
Jornal
O Tempo
– janeiro de 1926
30
fosse derrubada, mas Maura não desistiu das causas em favor das mulheres.
Dos jornais de Florianópolis,
República
foi onde se encontrou um número maior de publicações de
Maura; neste, trabalhou desde 1926 até 1933. Órgão do Partido Republicano,
República
tinha como diretor
geral Tito Carvalho que, além de jornalista e escritor, era membro da Academia Catarinense de Letras. Maura
fazia parte do corpo de redatores, juntamente com Barreiros Filho, Antenor Moraes e Baptista Pereira.
A escrita de Maura nos artigos jornalísticos apresentava um tom poético. Em doze de outubro de
1926, falou às crianças em seu dia (repete em 1927) através do texto
Anjos
. “Crianças da minha terra: beijo-
vos com todo o carinho que, se acolhe na minha alma afetuosa de mulher, com o meu coração a pulsar junto
dos coraçõezinhos vossos, com a minha vida debruçada sobre as vossas vidas em botão... Beijo-vos
suavemente, demoradamente, maternalmente... (...)”.
04/01/1929 –
República
Ainda no
República
, na coluna
Artes e Letras
,
em julho de 1927 foi Samuel quem recebeu o afeto
através das palavras de Maura. “(...) dias que ouves
falar nos teus anos, na festinha do teu natal, dias que
escutas um mundo de palavras afetuosas sobre a tua
minúscula pessoa - amado reizinho, no entanto, do nosso lar (...).”
31
Além do tom poético, que deixava os textos mais encantadores, Maura demonstrava muito
carinho, dedicação e muito gosto pelo trabalho que realizava. E o mesmo carinho recebia, como se vê no texto
de João da Penna, publicado em cinco de janeiro de 1927, inteiramente dedicado à Maura:
Beijo-lhe, agradecido, as mãos pela bondade com que me dedicou os seus
brilhantes conceitos de pensadora e artista, respeito ao Amor e ao Proletário.
O primeiro é assunto complexo, espécie de estátua Nabucodonossor,
dividida de jeito que o material vário signifique a dignidade de estados da alma.
a inveja, o egoísmo, a renúncia e a paixão veemente e iluminada na sua
sinceridade.
O segundo pede observação, por que lhe conheçamos o ritmo, na obscura
luta em que vige e morre.
No seu coração cabem a piedade e o compadecido sentimento de
solidariedade que não esquecem os que sofrem.
A pena que traceja estas linhas pouco amáveis na sua crueza, talvez, tem
o orgulho de haver, em numerosos artigos, batido a boa causa a favor do
operariado.
No sul catarinense é ele uma força, desagregada, sufocada pela fome,
brutalizada pela dor, sem consciência de que tem direitos estabelecidos, nem do
que logrará conseguir, através da união indestrutível, debaixo do espírito de
associação.
Que linda campanha aí está!
Bela e patriótica!
Educá-lo, arrancando à resignação que o desfibra, que o mecaniza, que o
torna humano unicamente no lar, em horas de descanso, ao amoroso carinho da
prole, o organismo cansado, a alma entristecida na desesperança dos vencidos,
que frutos opimos não produziria!
Aos intelectuais cabe a tarefa de meter ombros à luta, soerguendo-o,
galvanizando-o, safando-o a atonia em que mergulha mais e mais.
(...)
32
Maura dizia que a e Amélia possuía o dom de encantar com suas histórias fantásticas; a filha
escritora possuía também esse dom de encantar, que através de textos, discursos e ao declamar suas
poesias.
Educada de acordo com a Igreja Presbiteriana, era comum em seus textos a religiosidade. Em
outubro de 1928, escreveu: “Este domingo... como todos os domingos, significa que os devotos rezam (...)
todos nós, religiosos de todas as seitas (...)”. Em nove setembro de 1929 escreveu na coluna
Vida Social
do
República
um diálogo entre mãe e filho:
Afilhadinho das rosas
O pequenino trigueiro subiu para o seu colo, fez-lhe carícias, dirigiu-lhe
perguntas. Ela, muito a custo, sorriu o seu sorriso de mãe, mas as lágrimas
continuaram a rolar, dolorosas, irrefreadas, dos seus belos olhos rasgados, que
possuíam uma qualquer coisa de religioso e de longínquo que fazia pensar nos
olhos das mulheres bíblicas.
O pequenino trigueiro não se conformou. Queria-lhe o sorriso sem
lágrimas, aberto, luminoso, dos outros dias. Redobrou então as carícias, repetiu
então as perguntas. Subiu-lhe para o ombro, feito um cântaro, e beijou-lhe
depois, entre travesso e triste, as lágrimas que enchiam os seus dois lindos
aquários verdes.
- Por que tu choras tanto hoje, mãezinha? É verdade que assim ficas mais
bonita, isso é verdade. Mas eu não gosto de te ver chorar.
Ela conteve um soluço e alisou-lhe o capacete negro e inquieto dos
cabelos.
- Meu bebezinho!
33
- Minha boneca! E ficas ainda mais bonita quando estás chorando. Mas eu
não gosto de te ver chorar porque sei que, assim, tu tens uma dor qualquer no
coração. Mas escuta uma coisa de que eu me lembrei agora: aquela santa moça
que está lá no oratório, sabes? - com um crucifixo todo enfeitado de rosas...
E o pequenino trigueiro bateu palmas, como se tivesse recebido o mais
rico presente no natal.
- Ah! Agora eu sei que as de ficar alegre como dantes, porque tu mesmo
me disseste que ela é muito, muito poderosa... Escuta, eu vou lá, e vou rezar
assim, bem baixinho, olhando para ela: ‘Santa bonita, eu peço à senhora que
minha mamãe não tenha mais vontade de chorar’ ...
Zaura e Ruth – 1932
Nesse texto, realçou, por meio de uma criança, a importância da fé,
comprovando que ainda acreditava na religiosidade e que os ensinamentos da Igreja ainda
estavam presentes em Maura. É comum poemas dessa época que falam sobre Deus e a
religião; publicou poemas de vários autores com esse tema, como no poema
Minha Religião
,
de Mieta Santiago, publicado em três de outubro de 1931, na página
Domingo Literário
.
Até o início de 1931, publicou artigos para o jornal
República
e, a partir dessa
data, foi destaque com
Domingo Literário
, página que a consagrou e que manteve sob sua
responsabilidade até 1933, quando se mudou para Porto Alegre. Semanalmente, trazia
poemas e textos em prosa de vários autores. Foi no dia três de maio de 1931 que se deu a
primeira publicação de
Domingo Literário
, e nesse dia, Maura explicou:
34
Aqui, neste pequeno parque de ritmos, o qual semanalmente abriremos
para que nele passeie, graças ao muito dominical privilégio de passear, a
curiosidade boa de nossos leitores - haverá a nobre árvore velha de passadas
escolas e também os rebentos ousados da arte moderna.
Tendo a preocupação regional de apresentar as rosas catarinenses, não
deixaremos, no entanto, de possuir também as frondes robustas que são as
criações dos grandes escritores deste nosso grande Brasil, bem como a bizarra
florescência da poesia nova e, até mesmo, algumas belas ramarias do pensamento
estrangeiro.
Maura não privilegiou nenhum estilo literário em sua coluna, publicando poemas de autores
românticos, simbolistas, parnasianos ou modernistas. A todos acolheu. Com o propósito de diversificar, nesse
primeiro dia trouxe um soneto de Araújo Figueiredo,
Lenda de um beijo
, um poema em língua espanhola da
uruguaia Juana de Ibarbourou - tornou-se conhecida pela sua poesia como Joana da América - sob o título
Cenizas
, o texto em prosa
Escolha
, de Henriqueta Lisboa, Poemas Modernos, de Carlo Paloma (
Momento
música) e do pernambucano Adelmar Tavares (
Pensar
) e, finalmente, três poemas em prosa de Álvaro
Moreira.
Assim, ganharam espaço poetas de todas as escolas literárias e de todos os lugares. Sua escrita
sempre foi moderna. Mesmo que o Modernismo tenha demorado a chegar em Florianópolis, Maura escreveu
apenas alguns sonetos em sua vida, o mais eram versos livres, ricos em poesia. No entanto, não deixou de
publicar poemas de autores românticos, parnasianos ou simbolistas. Em dez de maio de 1931, quem ganhou
destaque foram os catarinenses. Escreveu:
35
Aqui está o que é nosso. A terra catarinense abrindo-se em emoção, em ritmo, em
pensamento. Aqui está um pouco da nossa seiva e um pouco do perfume que sobe dos nossos
chãos adolescentes. Na ternura ou na meditação desses trechos em prosa e verso, inéditos
uns e outros, es a nossa própria alma, na ânsia esbelta de um completo personalismo,
ancharcada pela luz que desce de nosso céu ilustre, dizendo a toda gente: Eu mesma.
Ao lado, reportagem sobre Açy Coelho – República, 13 de setembro de 1927.
Assim, a jornalista traz Odilon Fernandes, Othon d’Eça, Carlos Côrrea,
Oswaldo Mello, Laércio Caldeira de Andrade, sendo que deste está grafada sua
assinatura, e a própria Maura, com o texto em prosa
Alegria
. Muitos dos textos de Maura, publicados em
jornais e revistas, não foram publicados em seus livros e continuam inéditos.
Em 12 de julho de 1931, encontram-se em sua página poemas de escritoras que Maura chama de
“Musas Americanas”: Rosalina Coelho Lisboa, novamente Juana de Ibarbourou, Henriqueta Lisboa, Adelaide
Crapsey, Olga Acevedo de Castilho, Rosário Sansores e, da República de Salvador, Alice Lardé de Venturino.
Muitos outros nomes de poetas e escritores conhecidos apareceram nas diversas publicações de
Domingo Literário
, como Rabindranath Tagore, Carles Dornier, Edgard Alan Poe, com o conto
Retrato Oval
,
Monteiro Lobato, Raul Pompéia, Érico Veríssimo, Manuel Bandeira, Barreiros Filho, Laércio Caldeira de
Andrada, Gilca Machado, Maria Eugênia Celso, Acy Coelho, Maria Lacerda de Moura e, entre tantos outros,
Dorval Lamote, o futuro Marido.
36
Destacou também “Os nossos grandes mortos”, sempre evidenciando os escritores e a cultura
catarinense. São eles: Luis Delfino, Cruz e Sousa, Crispim Mira, Carlos de Faria, Araújo Figueiredo e Lacerda
Coutinho.
Maria Eugenia Celso escreveu para Maura o poema
Femina
, que foi publicado em treze de
setembro de 1931, no Domingo Literário:
Para Maura de Senna Pereira
Eu recebi o teu sorriso, Maura
Esse lindo sorriso que traduz
Uma alma de entusiasmo e esperança,
Que já começa a se sentir profunda
Nessa aura
De espiritualidade a que circunda
De uma tão clara e promissora luz!
Eu recebi, sorrindo, o teu sorriso,
Raio de sol de uma vivaz manhã,
Tão límpido e tão
quente,
Que mais não foi
preciso
Para que, de
repente,
Ó sonhadora, se
sentisse irmã!
Domingo Literário
– 03/05/1931
37
O jornal
A Semana
, no qual Maura trabalhou entre 1928 e 1930, tinha como diretor gerente
Oscar de Oliveira Ramos.
Também, tenho sim, em casa uma boneca. Se é linda como essa? Pois se
é a mais bela das bonecas! Não tem esse vestido azul, enfeitado de fitas, que a
faz parecer uma senhora, nem esse chapéu enfeitado de flores. Tem uma
camisolinha branca, de nenê, sapatinhos de cor de rosa e uma touca muito
bonita, com rendas brancas, que sua madrinha lhe deu. Não pode ser mais linda
que a sua boneca? Mas é! Sabe por quê? A minha boneca chora, ri com os seus
quatro dentinhos e é louquinha pelo seu biberon cheio de leite. Você está dizendo
que sou mentirosa? Que sou uma menina pobrezinha e não posso ter uma boneca
assim? Pois venha comigo, vamos até a minha casa e eu lhe mostrarei! A minha
boneca deve estar dormindo agora... A minha boneca é a outra filhinha de mamãe.
Maura de Senna Pereira.
A boneca
. Publicado em
A Semana
, no dia
28 de agosto de 1930.
38
Jornal
A Semana
Revista
Vida Doméstica
– 1931
Na capa,
Maura de Senna Pereira
39
Revista
O Globo
Foto de Maura com Laércio Caldeira de Andrada
(de óculos)
40
Acima, ao centro da foto: Maura de Senna Pereira.
Acy Coelho – Revista do Centro Catarinense – 1929.
41
Escritoras e artistas brasileiras
reunidas para a fundação de uma sociedade de
arte. Ao centro, sentada, a pintora Sarah de
Figueiredo.
Maura é a segunda, sentada, da
esquerda para a direita.
Tarde Castro Alves. Maura está em pé,
atrás da irmã de Castro Alves, Adelaide Castro Alves -
1931.
(ACERVO: ACL)
42
Maura com as irmãs
Assinatura de Érico Veríssimo
43
A princesinha das Letras
Jornalista excelente, Maura trabalhava tão bem quanto os colegas do sexo masculino. As palavras
de Crispim Mira no primeiro número do jornal
Folha Nova
, em fevereiro de 1927, de certa forma antecipavam
o sucesso que estava perto de acontecer. Crispim Mira sabia que estava diante de uma jovem de talento e
sucesso garantido.
Othom d’Eça
Não demorou muito para Maura ser indicada para a casa dos
imortais. A indicação por Henrique Fontes, Othom
d’Eça, Clementino de Brito e Laércio Caldeira de
Andrada foi feita em 27/08/1927. Após trabalhos
literários de grande valia para esses literatos,
fizeram a proposta para sócia efetiva da Academia
Catarinense de Letras, sendo que em três de
setembro foi eleita pela unanimidade dos presentes,
num total de onze votos.
Proposta dos membros da Academia
44
A posse de Maura na Academia Catarinense de Letras aconteceu três anos depois, em
30/11/1930. O
República
informou detalhes sobre o acontecimento em 02/12/1930. Segundo o jornal, Maura
entrou para a cerimônia acompanhada de Nereu Ramos e José Dinis. O Palácio do Congresso, hoje Assembléia
Legislativa, encontrava-se repleto de autoridades e pessoas do meio social, entre elas muitas mulheres. A
mesa da Diretoria achava-se ornada de flores naturais; à frente do edifício tocava a banda musical do 14º
Batalhão e em seu interior, a banda de música da Força Pública.
Foto da posse da Cadeira nº. 38 da Academia Catarinense de Letras.
45
No discurso de recepção de José Boiteux (ex-professor) é permitido perceber que o estado de
Santa Catarina estava aberto para receber as mulheres intelectuais, pois sabia que elas iriam em muito
enriquecer as atividades sociais.
(...) As reivindicações femininas, sobretudo, caminham a passos largos. Nossas
gentis patrícias fazem questão de mostrar que a elas não cabe a missão da graça e da
beleza; entram a cooperar com o homem no terreno, que até hoje lhe foi reservado, da
atividade política e social. (...)
A eleição da senhorita Maura de Senna Pereira para a Academia Catarinense de
Letras de seu estado representa o uma vitória do feminismo, mas também da
inteligência da mulher catarinense.
General Roberto Trompowsky
Ao entrar, Maura foi aplaudida durante alguns minutos. O
República
explica que após tomar seu
lugar, proferiu seu “lindo e magnífico discurso” e foi ouvida com emoção pelos presentes. Conclui em meio a
“aclamações vibrantes, ruidosas e demoradas, recebendo, por essa ocasião, lindas
corbeilles
oferecidas por
seus admiradores e admiradoras”.
No discurso, Maura falou da honra de estar recebendo a coroa, da amargura e dos sacrifícios
com a perda do pai “quando era menina e moça, mais criança que mulher” e idolatrou o seu patrono, Roberto
Trompowsky. Finalmente disse:
Deixe-me ainda sonhar:
Eu edifiquei a minha tenda sobre um pedaço de terra ensolarada. Estou
sozinha com a minha arte, que é simples como eu própria cheia de falas de
46
criança, poemas de amor, espumas de pensamento. E a minha tenda é de rosas. E
o meu sonho é de fogo e mel e arde na minha testa e canta na minha boca. Mas,
em torno de mim vela uma multidão de lanças e de escudos, de elmos e de
broquéis. São os grandes méritos varonis do meu Patrono: é a sua vontade
construtora de homem, é o seu garbo altaneiro de soldado, é a sua erudição
profunda de cientista, é o seu apostolado sereno de mestre.
(...)
Quando a paixão pelas artes começou a florir na minha alma em flor de
adolescente, eu sonhei, com a fantasia a galopar, percorrendo num minuto os
anos e os lustros, feita uma princesa louca, de tranças orgulhosas
desmanchando-se aos ímpetos do vento; eu sonhei que havia de entrar para a
vossa assembléia, numa noite assim, abençoada de estrelas, com a minha cabeça
toda branca e toda gloriosa.
Deixai-me recordar esse sonho, que eu repeli como a um pecado e que vejo
realizado agora de um modo diverso: porque, se trago a lembrança vazia de
louros fartos a tombarem-me pelo vestido, trago, no entanto, a minha mocidade.
E, sentindo-a palpitar no meu sangue e no meu coração de mulher, eu prometo, eu
juro - aqui, na companhia aristocrática dos vossos espíritos - que, dominando a
formiguinha que tenho sido, ah! hei de ser, mais do que nunca, a cigarra ignorante
e alada a cantar, para a alma da minha terra e para a ilusão da minha vida; e
cantar, escrava de uma dor obsediante ou castelã de uma alegria jovem; e
cantar, no encontro de mim mesma e na simplicidade de um ritmo novo - o velho
sonho da beleza eterna.
A intelectual foi saudada pelo presidente Sr. Desembargador José Boiteux, que expôs os méritos
da nova acadêmica e de seu patrono, o matemático General Roberto Trompowsky, discurso esse publicado no
República
em 31/12/30.
47
A segunda mulher a ocupar uma cadeira na Academia Catarinense de Letras foi Delminda Silveira,
catarinense que nasceu em 1854 e faleceu em 1932. A poetisa tornou-se professora de Português e Francês
no Colégio Coração de Jesus, de Florianópolis, lecionando até uma idade avançada; preocupava-se com o
ensino e com os
bons princípios
da época”. Segundo pesquisa feita por Zahidé Lupinacci Muzart, Delminda
Silveira ficara ressentida por não ter sido a primeira mulher a ocupar o cargo acadêmico. Diz Zahidé:
Maura
foi uma mulher bonita e sua poesia trazia, para a época em Santa Catarina, algo de novo, um pouco na linha de
erotismo de Gilca Machado. É de presumir que Delminda, com 77 anos e com muitas publicações, se
ressentisse, com justa razão, dessa tardia escolha, que demonstra um esquecimento injusto de quem se
dedicara por toda a vida às letras e ao ensino
.
64
Delminda Silveira
Ainda não havia publicado seu primeiro livro quando Maura tomou posse na
Academia Catarinense de Letras e era notícia em vários pontos do país. Era jovem e
bonita, enquanto Delminda Silveira era uma escritora com 77 anos, sem a beleza da
juventude de Maura. Além disso, Maura era muito vaidosa, andava bem arrumada, cabelo bem penteado,
colares e brincos e jamais saía de casa sem batom. Assim foi sempre. Essa escolha da primeira mulher na
Academia revelou machismo por parte dos homens acadêmicos, que deixaram Delminda Silveira em segundo
plano.
64
MUZART, Zahidé Lupinacci. Escritoras Brasileiras do culo XIX: antologia. Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul:
EDUNISC, 1999. p.637.
48
A primeira acadêmica catarinense conseguiu cada vez mais espaço como jornalista, escritora e
mulher. Sua página no jornal
República
e seus textos eram conhecidos em vários pontos do país e a posse foi
assunto em jornais e revistas brasileiras. A Academia Carioca, e outras, que até então não aceitavam
mulheres, agora seguiam o exemplo da Academia Catarinense. No entanto, a Academia Brasileira de Letras
somente em 1977 deu espaço a uma mulher. Em quatro de agosto Raquel de Queiroz foi eleita e, em quatro de
novembro, ocupou a cadeira nº.5.
Maura era declamadora que encantava o público. Logo após seu ingresso na Academia, viajou para
o Rio de Janeiro no paquete Carl Hoepcke, em companhia da esposa do diretor da Penitenciária de
Florianópolis, Dr. Donato Mello. A viagem foi notícia nos jornais de Santa Catarina e da Capital da República.
Por essa época, escrevia para algumas revistas do Rio de Janeiro. A amiga e escritora Acy
Coelho, que desde o início da carreira de jornalista de Maura admirava sua escrita, a convidou para hospedar-
se em sua casa, no Rio. Foi em época de férias. Lá, realizou seu recital de poemas em prosa no Estúdio
Nicolas, apresentada pelas senhoras Maria Eugenia Celso e Acy Coelho e pela senhorinha Henriqueta Lisboa e
senhores Paschoal Carlos Magno, Mario Poppe e Dinis Júnior. Todos, autores muito importantes. A imprensa
comentava o acontecimento: o
Diário da Noite
anunciava: “É hoje, às 21horas, no ‘Studio Nicolas’, que a jovem
e festejada escritora catarinense realiza seu recital de poemas em prosa”. O
Jornal do Comércio
previa o
sucesso: “Com tais padrinhos, pode-se prever o êxito que alcançará tal audição”. O
Diário Carioca
: “Na
geração nova de escritoras brasileiras, a senhorita Maura de Senna Pereira tem o seu lugar marcado, como
expressão das mais fortes da cultura catarinense...”. O
Correio da Manhã
publicou, após o recital, como foi o
acontecimento. A sala iluminada e cheia de flores no Studio Nicolas... apresentada ao público por Maria
49
Eugenia Celso, filha do conde Afonso Celso; “a escritora disse debaixo de aplausos os seus poemas em prosa,
de um intenso sabor moderno, nos quais não se sabe o que mais apreciar, se a sutileza da técnica nova ou se os
motivos de amor que se valeu a encantadora ‘diseuse’, que foi uma musa inspirada e terna... ingressou na
ilustre Academia Catarinense e que é tida como uma das expressões mais altas do
feminismo intelectual da sua terra (...)”.
65
Obteve sucesso e, a pedidos, realizou outros recitais e com isso seu
nome estava se tornando muito conhecido na imprensa e, entre os intelectuais do
Brasil, se tornara a
Princesinha das Letras Catarinenses
. Em entrevista para o
jornal
Dia e Noite
, do Rio, deu os nomes dos mais festejados da Academia
Catarinense de Letras. Maura sabia da dimensão de seu sucesso e, ao retornar para
Florianópolis, manifestou aos leitores do
República
a alegria que sentiu ao ver seu
nome ser solicitado para recitais e eventos de festas lítero-musicais, como foi a
“Tarde Castro Alves”, entre outros. Seu nome agora figurava entre os nomes das
principais escritoras brasileiras. Seu contato com poetisas brasileiras como Acy
Coelho, Maria Eugenia Celso e Henriqueta Lisboa tornara-se maior e foi muito
querida entre elas.
Recorte sem referência.
(ACERVO:ACL)
65
BEROLINO, Pedro. Viagens com Maura. Florianópolis: A.C.L., 1993. p.82-83.
50
O ano de 1931 chegou e foi marcante para Maura. A jornalista anunciou seu noivado, publicou seu
primeiro livro,
Cântaro de Ternura
e se casou no último mês do ano. Esses acontecimentos foram importantes
na vida de Maura, no entanto, chegou a repudiar o primeiro livro. Mais tarde iria declarar ser contra a
Academia. Justificava dizendo que era muito restrita aos moldes da Academia Brasileira de Letras, que
seguia a Francesa. Para Maura, a Academia era ultrapassada. O argumento da escritora por ter aceitado uma
cadeira: “eu não era gente quando entrei lá”.
66
Foto de Maria Eugenia Celso em jornal com texto
de Maura de Senna Pereira Lamotte.
Porto Alegre - Década de 30
(ACERVO: ACL)
66
Uma poeta corpo a corpo com a vida. In: Jornal da Cultura. jul.1990. op. cit.
51
Carta da poetisa e amiga Henriqueta Lisboa – 1930
Henriqueta mostra solidariedade à amiga com a morte do irmão Carlos.
52
Diploma de Maura - ACL
A poetisa e amiga, Henriqueta Lisboa.
À esquerda, foto de Maura a bordo do navio Carl
Hoepck, em viagem para o Rio de Janeiro, onde ficou por um
período de um mês.
(ACERVO: ACL)
53
O casamento
... é o animado símbolo que eu contemplo e adoro, perante a única
assistência das horas...
Costumo olhá-lo com um humilde olhar de monja, com um olhar lírico de
enamorada, enquanto minhas mãos o enfeitam de perpétuas, que a mim me
parecem materializadas devoções...
Olhar murmúrio de rezas, ó meu gênio bom, que invoca a tua benção para o
meu sonho em genuflexão, ígneo, purificado, súplice, musical; e para as
religiosidades sacrílegas do meu pensamento, plasmadas pelo teu pensamento; e
para as harmoniosas beatitudes da minha alma, noiva e escrava de tua alma...
... mudas, sagradas, as Horas espiam o enlevo e a contrição fetichista que eu
voto ao teu retrato num humilde olhar de monja, num olhar lírico de enamorada...
Teu retrato
- Maura de Senna Pereira
Teu retrato
. Textos como este, publicado no
República
em seis
de maio de 1928, revelam uma jovem enamorada, romântica e sonhadora,
confiante num amor verdadeiro. Estava com vinte e quatro anos, Maura
buscava um amor.
Conheceu Dorval Lamotte em Florianópolis. Por essa época,
fazia parte dos imortais de Florianópolis e trabalhava para ajudar no
sustento da família. Lamotte era natural do Rio Grande do Sul e estava de
passagem em Florianópolis quando leu um texto de Maura. Segundo
entrevista a Colaca Grangeiro, Maura explicou:
Maura e Dorval Lamote
54
Depois ele me contou que por ocasião de uma manifestação no 5 de julho,
onde eu ia falar - também porque eu sempre falava -, presidida pelo Nereu
Ramos, ele leu o que eu escrevi. E comentou: ‘mas esta senhora aqui, como
escreve bem!’ - E responderam: ‘não, não é uma senhora, é uma moça, olha ela vai
passando lá’ ... eu não dava a menor bola, mas começou assim. Ele olhou, gostou do
tipo, procurou saber onde eu morava e começou a levar flores.
Lamotte era Acadêmico de Direito, nasceu em 21 de agosto de 1903, em Bagé, RS. Escrevia
artigos para jornais; ao interessar-se pela jovem catarinense, soube o que fazer para cativá-la. Visitas,
flores, mentiras. O noivado não demorou, o
Cântaro de Ternura
estava para sair. E saiu antes do dia do
casamento”.
67
O rapaz foi persistente até ganhar sua atenção e o seu amor.
No
República,
em 1931, encontravam-se textos do acadêmico, e no dia 21 de agosto desse mesmo
ano, constava na página de aniversários:
Passa hoje a data natalícia do acadêmico gaúcho Sr. Dorval Lamotte,
nosso distinto colaborador.
Estando algum tempo em nossa Capital, o talentoso aniversariante
conquistou um largo círculo de relações e mereceu há pouco de nosso público uma
verdadeira ovação quando se fez ouvir na sessão cívica em homenagem à memória
do imortal João Pessoa.
Serão, pois, muitas as felicitações que receberá dos que largamente
admiram a sua palavra eloqüente e o seu realismo revolucionário.
Lamotte era colaborador do
República
e as palavras acima mostram quanto já era apreciado por
muitos florianopolitanos Foi no dia do aniversário de Lamotte, em 1931, que aconteceu o noivado entre ele e
Maura.
67
A saga de Maura. Entrevista. In: JUNKES, Lauro (org). Poesia reunida e outros Textos. Coleção ACL, 2004, p.311.
55
Em novembro, poucos dias antes do casamento, foi impresso o primeiro livro de Maura,
Cântaro
de Ternura
, no qual se encontra a referência: “Acabado de imprimir aos trinta dias do mês de novembro do
ano de mil novecentos e trinta e um, nas oficinas gráficas da Livraria Moderna, de Paschoal Simoni S.A. -
Florianópolis. A capa é de Correia Dias”.
Ao lado, texto de Trajano
Margarida, escrito para Maura.
Abaixo: carta de Maria Eugenia Celso a Maura,
saudando a amiga pelo noivado. Publicado no
Domingo Literário
– outubro de 1931
Em cinco de dezembro o
casamento se realizou.
República
noticiou no dia 09 de dezembro de 1931: “Enlace Dorval Lamotte - Maura de
Senna Pereira”, explicando os horários e os locais do casamento no civil e religioso, e também os padrinhos
dos noivos.
56
Recorte de jornal, no qual Amélia Senna Pereira comunica o
noivado da filha. Abaixo, foto dos noivos.
(ACERVO: ACL)
57
Lembrança do enlace
Foto dos noivos
Notícia do
casamento no jornal
República
05/12/1931
58
Certidão de casamento de Maura.
ACERVO: ACL
59
No dia nove de dezembro, a notícia do enlace recebeu uma página especial do jornal, dando os
detalhes do casamento. Maura casou-se com o acadêmico de Direito Dorval Lamotte às 19h30min no civil e às
20h30min no religioso. O ato civil realizou-se na casa dae viúva, Amélia, à Rua General Bitencourt, 17, com
a presidência do juiz, Sr. major Gustavo Pereira. Serviram de padrinhos da noiva o Sr. Nereu Ramos,
presidente do diretório central do Partido Liberal Catarinense e diretor do jornal
República
e sua esposa D.
Beatriz Pederneiras Ramos e o Sr. Otávio Oliveira, diretor do Tesouro do Estado e sua Exma Esposa D.
Edwirges Torres de Oliveira. Os padrinhos do noivo no civil foram o Sr. Dr. Manoel Pedro da Silveira,
secretário do Interior e Justiça e a Exma viúva D. Amélia gis de Senna Pereira e o cirurgião dentista Sr.
Achiles Wedekindos Santos e sua Exma esposa D. Regina Miranda dos Santos.
O ato religioso foi realizado na Catedral, tendo como celebrante Frei Evaristo Schurmann, que
leu a mensagem do Exmo Arcebispo Metropolitano. Segundo o jornal, o templo estava literalmente cheio. Os
padrinhos da noiva foram o Sr. Luiz Gonzaga Valente e a Exma Sra. D. Marta Silva Simas. Por parte do noivo
foram padrinhos o Sr. Dr. Néri Kurtz, chefe de polícia do Estado e a gentil senhorinha Yara de Senna Pereira.
As almofadas e alianças foram conduzidas pelas meninas Maria do Carmo Mira Gomes e Maria
Salomé Pereira. Após a cerimônia religiosa, os noivos seguiram para a casa da mãe da noiva para receberem
seus convidados. O
República
forneceu em detalhes a lista dos presentes que o casal ganhou dos convidados
para o enlace.
A partir desta data, Maura assinou a sua página
Domingo Literário
usando o sobrenome do
marido. Os textos que escreveu manifestam muito amor por ele.
60
Recorte da década de 30
O casal viveu pouco tempo em Florianópolis, pois Dorval Lamotte precisou
assumir um cargo em Porto Alegre e teve que mudar de cidade, mas Maura se recusou a
ir com o marido. Por insistência de sua mãe, que não queria ver uma filha separada, foi
morar em Porto Alegre, mas não foi feliz. Em entrevista, contou como o marido era
violento:
Ele era um sujeito que não prestava. Mas de
qualquer forma eu nem queria casar com ele e nem ir para
Porto Alegre, mas... pensava... também levada pelo
sexo...(...)
Ele estava longe de ser o meu tipo. (...)
Aquele homem era um hipócrita, um demônio de
ciumento. Eu acho que era doença, ele funcionava
com dois revólveres. Sim, os revólveres estiveram
apontados para mim muitas vezes.
61
Em Porto Alegre, Maura continuou sendo professora, lecionando Português, e escrevendo para
jornais gaúchos. Na curta estadia nessa cidade produziu apenas
um livro,
Discursos
; por essa época, a poesia ficara de lado. A vida
de casada parece ter-lhe eliminado a veia poética.
À esquerda: cartão de Maura,
quando residia em Porto Alegre.
Permaneceu pouco tempo
casada; Maura não pôde prosseguir com o casamento ao lado de um homem tão
ciumento. Antes de viajar para Porto Alegre, Lamotte queria que Maura pedisse
exoneração de seu cargo de professora na Escola Complementar, o que não
aconteceu. Diante de tanta violência contra a escritora, deixou o marido e voltou
para Santa Catarina. Em Florianópolis, abriu um pequeno curso e ministrava aulas
para turmas que iriam fazer concurso. Os poemas voltaram a fluir, e ela voltou a
publicá-los em revistas e suplementos. Mas permaneceu pouco tempo em sua
62
cidade natal. Quando foi para o Rio de Janeiro, sua vida mudara completamente, pois naquela cidade não havia
tanto preconceito como na pequena Florianópolis.
Carta da revista FON-FON solicitando a
colaboração de Maura para o número de Natal de 1934.
Revista
Vida
Capixaba
– 1932
Revista
Do Globo
63
Bilhete de Érico Veríssimo (Sem data) Fonte: ACL
64
Maura de Senna Pereira
65
Cântaro de Ternura
O sucesso do livro
Cântaro de Ternura
veio reafirmar o talento da
Princesinha das Letras
. Seu nome apareceu mais na imprensa e jornais noticiaram o
lançamento. Na época, não havia tarde de autógrafos e o
lançamento foi simples, mas muito festejado. Nas
livrarias e nos jornais estava uma nova foto de Maura.
Foi uma edição primorosa lançada pela
Livraria Moderna, com capa ilustrada por Correia Dias,
marido de Cecília Meireles. Os dezoito poemas em prosa,
com exceção do último, falam do amor de uma mulher apaixonada, que por vezes
é correspondida, outras sofre por esse amor.
Sobre a obra, diz Léo Júnior, de
O Dia
: (...) transbordante de
poemas em prosa, gemas de finíssimo louvor, onde a sensibilidade artística da
autora se impõe à admiração do mundo intelectual”.
O Pharol
: “uma coletânea de
onde é difícil destacar o melhor porque todos se equivalem no valor da idéia e da
forma”. Ribeiro Pontes escreveu para o
República
e
Liberal
, de São Francisco:
“são as rosas que engrinaldam a inteligência, ricas de sonoridade e acentos
raros”.
Cântaro de Ternura
: esse é o título que Maura de Senna Pereira,
cintilante artista da prosa, oferece aos admiradores do seu peregrino
66
talento”.
68
Os acadêmicos catarinenses também não deixaram de elogiar a escritora e, tanto em Porto
Alegre como em outros estados, também foi notícia em jornais e revistas. No Rio Grande do Sul, a revista
Renovação
, o jornal
Correio do Povo
, o
Diário Popular
de Pelotas,
O Cachoeiro
, a
Revista do Globo
, o
Diário da
Noite
, todos elogiavam a jovem catarinense. Da
Academia de Letras do Rio Grande do Sul
e do
Instituto
Histórico
, Dante de Laytano comenta:
“Cântaro de Ternura” é um livro macio quase místico, mas dum
místico leve e gracioso. Poetisa duma ilha sonhadora, guardando o
encantamento sublime do mar, ela encara a sensibilidade dessas
criaturas que namoram as ondas... Seus poemas são como os arrepios das
águas, m a música delicada e sussurrante... Maura escreveu uma série
deliciosa de poemas em prosa. Quintessências, impregnadas ainda
daquele grande poeta negro, que foi Crus e Sousa. (...)
Em Vitória do Espírito Santo, o
Diário da Manhã
escreveu sobre a poesia feminina de Maura.
A Gazeta
e
Correio do Sul
(Cachoeiro do Itapemirim) também teceu elogios à poetisa. Do diretor
da
Revista Capixaba
, de Vitória, recebeu carta dizendo ser o Cântaro um livro “vibrátil e intensamente
feminino... que a samaritana vai levando para sua casa, consagrando a sede feliz da boca úmida e amada que
lhe inspirou aquela descida à fonte de Jacob, maravilhosa da sua feminilidade”.
69
Foi capa da Revista Capixaba, e a sua foto apareceu em página inteira com a legenda:
68
BERTOLINO, op. cit. p.103-104.
69
BERTOLINO, op. cit. p.110.
67
MAURA DE SENNA PEREIRA
A artista sensibilíssima de um dos livros femininos mais lindos. Foi ela
quem trouxe ao ombro, transbordante, derramando-o na alma da gente o
“CÂNTARO DE TERNURA”...
No Rio de Janeiro Maura já era conhecida na imprensa com sua página
Domingo Literário
, pois em
Florianópolis muitas vezes trocara com jornalistas com os quais era colaboradora. O
Diário de Notícias
, a
revista
FON-FON
, o
Correio do Povo
,
O Malho
, o
Jornal do Brasil
, entre outros, comemoravam a chegada do
livro. Também a imprensa argentina e uruguaia noticiou o lançamento do
Cântaro de Ternura
, chegando a
publicar poemas traduzidos para a língua espanhola.
Na entrevista
A saga de Maura
, ela comentou sobre o livro: “Casamento desastrado, mas o livro
pingando seiva, tocado pela exuberante natureza de Jurerê Mirim. Alegro-me em confessar que a minha terra
catarinense engravida as
páginas do livro”.
2
1931 – Maura de Senna Pereira
3
Recortes sem referência
Fonte: ACL
4
Junho 1931 – revista
O Globo
Quase do outro lado
: texto de Maura - Revista
O Globo
274
Cântaro de Ternura
é de um primor criado por uma jovem escritora de vinte e sete anos. Em
1931, o amor florescia nessa jovem ardente, que acreditava poder ser feliz ao lado de um grande amor.
Ressurreição
diz:
(...) nesses momentos terríveis da minha pobre juventude em flor, eis que
tu chegas nos teus lindos versos e te debruças todo para a minha alma em transe
(...) os teus versos foram quase um milagre de Jesus...
Como nos textos jornalísticos, também em seu primeiro livro muitas palavras bíblicas estão nos
poemas, fruto da educação religiosa que acompanhou sua vida, desde o nascimento: abençoada manhã”,
“crucificações”, “meu príncipe e meu pastor”, “panteísmo”, “os salmos da tua reverência”, “meu amor é todo
feito de obediência e de religião”, “cantavam hosanas e evoés às doidices do deus vitorioso”, “uma grande
festa pagã”, entre outros.
Mesmo com tanto sucesso, mais tarde Maura repudiaria esse primeiro livro; sequer considerava o
primeiro, pois chegara numa época triste de sua vida. Havia perdido o irmão Carlos um ano antes do
lançamento; sentia uma dor imensa e foi assim que, inconformada, surgiram os primeiros momentos de revolta
contra Deus e a religião. Essa revolta despertou a atenção de um vizinho chamado Ênio, um rapaz de muita
cultura e inteligência. Aquela jovem revoltada com a vida, com Deus, com tudo que havia acreditado até então,
deixou o rapaz compadecido e, sem saber o que fazer para ajudar, passou a visitá-la e, com isso, houve um
namoro. Foi inspirada nesse breve romance que Maura escreveu
Cântaro de Ternura
. Justificava que o livro
fora escrito nessa época; estava enamorada pelo rapaz e, assim, o livro seguia uma linha romântica, mais para
275
moderna, mas não era poesia. Além da perda do irmão, o livro foi lançado no ano de um casamento fracassado
e que lhe trouxe muita infelicidade, por isso trazia uma história que não gostava de lembrar.
Em 1933 contou um pouco de sua história através do poema
Miragem
:
Vesti a minha alma de esperança, pus ao ombro um cântaro dourado
e fui correndo, com aquela ansiedade com que em pequena
eu perseguia as borboletas,
até a fonte em que cantava a água de alegria.
Fui correndo, correndo como uma doida.
Meus cabelos escuros sentiam as carícias do ar perfumado da manhã
e meus olhos estavam iluminados de esperança.
Tinham me falado na fonte da alegria
e eu tinha pressa de encher o meu cântaro.
Abençoei a vida quando cheguei ao meu destino
e vi correr, entre flores do mato, a água por que eu suspirava.
Cheguei até a fonte minha boca vermelha e bebi com sofreguidão.
Depois, com olhos luminosos de esperança e meus cabelos
escuros sentindo as carícias do ar perfumado da manhã,
enchi alegremente o cântaro dourado.
Voltei então para minha casa querendo cantar...
Mas a minha boca só disse amarguras
e meus olhos se encheram de lágrimas.
Meus pés pisados e meus sonhos bonitos estavam tintos de sangue.
276
...Foi então que eu compreendi
que havia enchido o meu cântaro de dor.
Cântaro de Ternura
foi sucesso, mas houve quem não aceitasse sua poesia, como Trajano de
Souza que, no jornal
A Época
, de Lages, mostrou-se contra o panteísmo
de Maura.
O poema
Miragem
também rendeu comentários negativos.
Maura acabara de passar por uma decepção amorosa ao escrever
Miragem
; estava fragilizada e se expôs no poema. Sob o pseudônimo de
Philomenon, criticou o pessimismo idealista e reacionário.
Nenhum comentário fez com que a poetisa pensasse de
forma diferente. No entanto, com o casamento e ao morar em Porto
Alegre, a poesia ficara para trás. Na capital gaúcha continuou o
trabalho como jornalista e publicou por sua conta o livro
Discursos
e só
em 1949, após quase duas décadas e morando no Rio, é que voltou a
publicar poesia.
277
Poema
Miragem
, publicado na revista
FON-FON
(ACERVO: ACL) recorte sem data
Maura com as irmãs - 1939
Zaura – década de 30
278
À esquerda: Maura inicia seu trabalho na revista
Brasil Feminino
.
À direita: Revista
Vida Doméstica
– 1932
(ACERVO: ACL)
279
Maura – década de 30
280
Zaura -1935
Ruth - 1934
Maura com irmãos
281
1940 – Nomeada representante do município de Tubarão no
Conselho Estadual de Cooperação da Cruzada Nacional de Educação.
À direita: Cruzada Nacional de Educação – Santa Catarina
Campanha contra o analfabetismo - 1937
Abaixo: O Centro Literário Raul Machado solicita um exemplar
do Cântaro de Ternura
282
1932 A. Côres parodiando o
poema de Maura (com o mesmo
título)
Cartão de agradecimento da Biblioteca Pública de
Santa Catarina pela doação do Cântaro de Ternura Texto de Maura – 04/02/1940
283
Reportagem de Maura em 1940.
284
Jornal
República:
Domingo Literário – 14/06/1931
285
TERCEIRA PARTE
RIO DE JANEIRO
1941 -1992
286
Acima: Florianópolis
- 1940
À esquerda, Maura
no Rio de Janeiro
anos 40.
À direita, foto do
Rio de Janeiro
(Acervo de Maura).
287
Com os irmãos Zaura e José
Rio de Janeiro, 1943
288
Navio Carl Hoepcke
Um grande amor
A bordo do navio Carl Hoepke, Maura viajou para o Rio de Janeiro em
1942, em busca de uma nova vida. Alojou-se em uma pensão familiar e saiu à procura
de trabalho como jornalista, o que conseguiu sem demora. Fez entrevistas para o
jornal
A Manhã
, para a revista
Vida
e, na revista
Esfera
(mensário de cultura e
arte), tornou-se secretária. Aos poucos foi se integrando à vida intelectual da
cidade.
E foi no Rio, cidade que a acolheu e onde viveu até os últimos dias de sua
vida, que aconteceu o primeiro encontro entre ela e Cousin, na Livraria José Olympio.
Ainda na Ilha de Santa Catarina, Maura, indiretamente, conheceu aquele que viria a se transformar
no grande amor de sua vida. Almeida Cousin era amigo de um rapaz de Florianópolis e, por intermédio dele,
enviou à escritora o livro
Odes de Anacreonte
(traduzido por ele). Nessa época, Maura tinha uma coluna,
aos domingos, no jornal
República
e publicava sobre literatura e resenhava os livros recém lançados, tal como
fazia no
Domingo Literário
. E quando recebeu
Anacreonte
, logo publicou notícia bastante elogiosa sobre o
livro. Depois, enviou a Cousin o seu livro
Cântaro de Ternura
; Cousin pediu-lhe uma foto, a qual foi publicada
na capa da revista
Vida Capixaba
, uma revista social de Vitória, dirigida por ele. Cousin elogiou o livro e a
convidou para publicar trabalhos. Sobre a literatura de Maura, ele diz: “Tu que escreves, excitas os homens e
estudos...”.
70
70
Uma poeta corpo a corpo com a vida. Jornal da Cultura. jul.1990. op. cit.
289
O homem de sua vida
Eu quis o livre infinito
Sobre a amplidão dos espaços
Fui achá-lo circunscrito
No limite dos teus braços.
À Maura
Almeida Cousin. Do livro
Troveirinho
, 1978
.
José Coelho de Almeida Cousin nasceu em Sacramento, no
Triângulo Mineiro, no dia 15 de dezembro de 1897. Seus pais eram Maria
Sebastiana e Leão de Aquino. Seu bisavô materno chamava-se Manuel de
Paula Marques Pereira (natural do Norte) e a bisavó, Maria Cândida.
Tiveram cinco filhos: Vital, Augusto, Guilhermina, Zé Marques e Dona
Mariana Marques Pereira, a avó de Cousin.
A avó materna Dona Mariana era a melhor modista de
Sacramento. Ficou viúva aos vinte e dois anos. Era chamada de “Dindinha”, a
avó cabocla, sensível e desconfiada. O menino Cousin brincava embaixo da mesa e folheava as revistas de
moda, enquanto a e costurava com outras moças. O avô materno chamava-se JoAlves Moreira, o Zeca
Boticário. Eram filhos de Dona Mariana e de Zeca Boticário Melquíades e a mãe de Cousin, Maria Sebastiana.
Maria Sebastiana, a Mariquinha, casou-se com dezoito anos, enquanto o marido, mais de trinta.
Eram apaixonados, ela morreu muito jovem, de tuberculose. Através de uma única fotografia guardada,
290
descrevia a mãe: um pouco magra, alta, usando ricos vestidos, elegante, era uma princesa encantada. Radiosa,
tinha os olhos grandes sobre as sobrancelhas bem arqueadas, o rosto suave, ovalado. A boca era um botão, um
beijo: pequena, arredondada, de lábios carnudos.
71
Cousin aprendeu as primeiras letras com Victorine Cousin, ou Dona Vitorina, a a francesa,
quando passou por Sacramento. A princípio, a avó mostrava-lhe as letras por brincadeira. Como o menino
aprendia rapidamente, imediatamente, lhe trouxeram a cartilha de Arthur Thiré, e a aprendizagem foi muito
rápida. Logo ganhou três livros em francês, com os quais lia e se exibia para as pessoas; alguns trechos jamais
esqueceu. Dona Vitorina presenteava o neto com livros que o faziam viajar pela Europa, até a Revolução
Francesa, por meio das personagens. O menino chegou a iniciar um romance intitulado “Entre dois mundos”, o
qual abandonou por achar que jamais conseguiria terminar.
O pai, Leão de Aquino, o
Léo
, nasceu em São João da Barra e morreu aos noventa anos. Possuía
“fisionomia avoenga e bondosa, larga testa inteligente, grande barba imperial, inteiramente branca”.
72
Eram
duas as irmãs de Leão: Leônia Coelho de Almeida, a tia Tatá, e Noelina.
O avô de Cousin morreu cedo, e a avó mudou de cidade várias vezes, até voltar para São João da
Barra. Viúva e severa, criou o filho Leão - num sistema muito rígido, pois esse sistema era tido como o
melhor; achava que cumpria com seu dever. O menino Leão vivia com medo: por pouca coisa apanhava de vara
de marmelo e vertia lágrimas pela dor física e moral. Dessa forma, não podia gostar da mãe, Dona Vitorine, e
isso foi verbalizado mais tarde para os filhos.
71
COUSIN, Almeida. Cem anos de memórias. Rio de Janeiro: Cátedra, 1979. p.96.
72
Ibid. p. 24.
291
O pai de Cousin era uma criança solitária e triste, ficava sentado olhando a Igreja. Avistava da
casa o engenho, a senzala, um cubículo escuro para isolamento e castigo dos negros, entre outros. Zazá era a
mucama e Leão gostava muito dela. Certo dia ouviu uns gritos, era Zazá; estava nua e apanhava amarrada a um
poste. Leão jamais esqueceu, dizia: “Era a minha pobre Zazá!”.
73
Com seis anos, em 1872, Leão saiu de Campos e passou a morar no Rio de Janeiro. Freqüentou por
um ano o Colégio Vitório, colégio de muito rigor. Foi companheiro de Euclides da Cunha, que esteve também
nesse colégio. Depois, estudou no Instituto Aquino. Saindo dali, trabalhou na Rua do Ouvidor, em uma casa de
comércio, onde era “tratado a pontapés, xingatórios e bofetadas”
74
e recebia muito pouco pelo trabalho.
Mesmo assim, logo perdeu o emprego.
Quando Leão se emancipou, foi para Paris, levando consigo seu sobrinho Bibi (Victor), o filho de
Noelina. Lá freqüentou a escola de Artes Decorativas e voltou gravador. Bibi, mais tarde, foi para o seminário
em Goiás, de lá foi para Roma, de onde voltou padre.
Leão desenhava muito bem e representava como ator, embora não exercitasse o ficcionismo
criador. Publicou um livro intitulado Filmes”. Adulto, de volta a Sacramento, profissionalizou-se e tornou-
se professor. Em Uberaba, prestou exames de habilitação e trabalhou nas escolas das fazendas para
sustentar os filhos. Estava já viúvo.
Raquel era prima de Cousin, filha de Tia Noelina, e era cortejada por Tioga, um rapaz de
Sacramento que quis namorá-la. No entanto, o namoro não foi adiante, pois o irmão de Raquel, Padre Victor,
73
Ibid. p. 16.
74
Ibid. p. 27.
292
teria desprezado o rapaz por sua profissão, um tipógrafo. O rapaz vinha aos domingos e trazia para Cousin a
revista
Tico-Tico
; certo dia trouxe
O Malho
. Assim, sem poder casar com a pessoa de quem gostava, a prima
tornou-se freira.
Cousin estudou no colégio do Matoso, tinha sete anos e foi essa uma triste recordação de sua
vida. “O uniforme era calça branca, paletó fechado, preto, comprido, com um cinto de verniz e um boné de
oficial do exército francês, de pala grande, com bordados dourados. Cabeça militarizada por fora e
clericizada por dentro. E de que maneira! No dormitório (...) vinha a irmã Eugênia, depois de recitar novas
rezas: - Durmam do lado direito. O esquerdo é o lado do demônio”.
75
A Irmã Eugênia fora o terror para os meninos do colégio. Cousin, criança que não tinha medo, com
a entrada dessa personagem em sua vida, mudou totalmente. Fazia muito calor no Rio de Janeiro e dormia
enrolado nos cobertores, cabeça coberta, só deixando o nariz para fora para não sufocar.
Estudava Catecismo, Gramática, Aritmética, História do Brasil e Gramática Francesa, em
francês. Também lia a História Bíblica, de Dom Antônio Macedo Costa. O aluno tinha que decorar o Catecismo
de perguntas e respostas e as lições do dia seguinte, deveria repetir tudo que havia decorado; caso o aluno
não soubesse, ficaria de no canto da sala e, na segunda vez, de joelhos. Cousin possuía boa memória e
repetia tudo sem saber o que estava dizendo, pois ninguém o explicava.
O sexo despertou de forma precoce no menino Cousin, que sofria com complexos de pecado e de
culpa e que, mais tarde, foi dizer ter efeitos de tragédia sexual e neurose. Cousin foi estudar na Itália com
os jesuítas. Lá, traumatizado em conseqüência do colégio onde estudara, comungava diariamente para
75
Ibid. p.117.
293
impedir-se de pecar; logo adoeceu, teve histeria infantil, um caso raro. Certo dia sofreu um acidente no
recreio, bateu com a cabeça numa parede e perdeu os sentidos. Com isso, exteriorizou-se a neurose; voltou
para o Brasil e para ele mesmo.
Moravam no Rio de Janeiro quando a mãe piorou de sua doença; o médico aconselhou-a então a
morar em Minas Gerais. Em São Pedro de Uberabinha Leão possuía uma escola. Havia também um salão, onde
Leão armava cenários e ensaiava peças do “Teatro Infantil”, de Olavo Bilac e Coelho Netto. Cousin estreou
com o monólogo “Quando eu for grande” e num papel de “O Corvo e a Raposa”. Foi sucesso e alegria para o
menino, que comprou com o prêmio uma rapadura e uma roupinha de brim.
Na época, Minas era pioneira de renovação pedagógica e o governo distribuía livros escolhidos.
Cousin iniciou seu encantamento com a linguagem perante a literatura de autores como Coelho Netto, Olavo
Bilac e Júlia Lopes de Almeida.
A mãe morreu quando Cousin contava dez anos e, com isso, Dona Mariana cuidou das irmãs. A avó,
que era brava, agora era uma a dedicada e resmungona. Por essa época, o cônego Victor queria que o
sobrinho fosse padre e mandou chamá-lo. O ambiente era bom, religioso, mas sem fanatismo. E foi assim que
cônego Victor levou Cousin para Roma, onde ficou sozinho; quando o tio voltou, encontrou o sobrinho falando a
língua italiana. O mesmo aconteceu com a língua francesa; como os jesuítas da Bélgica não tinham lugar para
Cousin, indicaram a
École Apostolique Notre Dame dês Anges
, na cidade de Lanzo Torinese, na Itália, uns
trinta quilômetros de Turin e uns vinte da fronteira francesa (1911 a 1912). Cousin contou que nesse colégio
não se tomava café, em compensação, tomavam vinho. Banho também não fazia parte da rotina das pessoas do
lugar. Era franceses a maioria dos alunos, porém havia alguns ingleses, italianos, alemães, entre outros. A
294
cultura era religiosa e clássica: Grego, Latim, Gramática, Lógica, Retórica, Literatura, Filosofia, alguma
História, Geografia, Matemática, noções de Ciências Naturais e muita Teologia. A pronúncia do grego e do
latim era à moda francesa; o garoto decorava o vocabulário Grego cantando em coro. Havia um professor
para todas as matérias. A escola era formalista sem que fosse opressiva.
Nas férias, Cousin conversou com o Padre Victor a respeito de sua falta de vocação, do desejo de
não ser padre, o qual lhe prometeu que o faria estudar Direito em São Paulo. Foi
quando o garoto sofreu o acidente e bateu com a cabeça, adoecendo dos nervos.
Ficou na casa de saúde, em San Maurizio Canavese, antes de voltar. Quando
chegou a Santos, padre Victor o
esperava no cais.
José Coelho de Almeida Cousin; com
ele, o irmão, Padre Victor.
Cousin tinha três irmãos: Maria, Veriana e Victor. Maria, a Maruchinha, era branca, de feições
tipicamente européias e cabelos castanhos-louros. Tornou-se professora primária em Minas Gerais e
trabalhou em uma fazenda, sendo muito estimada pelos alunos e fazendeiros. Depois, trabalhou em um grupo
escolar em Araxá. Mariazinha, como era chamada, nunca se casou. Veridiana era loura, de olhos azuis de
francesa do norte, uma menina “viva e namoradeira”
76
e estudou na Escola Normal. Depois que terminou o
76
Ibid. p. 200.
295
curso nessa escola, Veridiana foi para o colégio das irmãs e mudou muito, a ponto de não querer mais sair.
Assim, aderiu à vida religiosa e foi para o Bom Pastor, no Rio, onde vivia cheia de misticismo; sacrificava-se
pelos pecadores, abrigava-se no calor, despia-se no frio, martirizava-se de todas as formas, principalmente
pela família. Era muito sensível emocionalmente e comovia-se ao falar em Jesus. Morreu de tuberculose, como
sua mãe, em uma casa de convento. Victor era um menino ruivo quando pequeno. (Ainda teve outro irmão,
Leãozinho, que morreu cedo). Eram muitos meninos com o nome Victor na família. Vitinho, o irmão, não
escapou de ser padre, influenciado por padre Victor. Este levou Victor Coelho de Almeida e o deixou no
colégio dos redentoristas, em Aparecida, de onde nunca mais saiu. Completou os estudos na Alemanha e voltou
padre.
Ao lado, o irmão de Cousin, Padre Victor, de Aparecida.
De volta ao seu país, Cousin viveu entregue a si mesmo e perdeu a fé
católica. Mesmo cursando a Escola de Farmácia, em Ouro Preto, o próprio
escritor dizia-se autodidata. Em Outro Preto, estudou de 1916 a 1920, e a
Faculdade de Direito foi entre 1931 e 1936. “As disciplinas do curso farmacêutico
plasmaram seu espírito no rigor das ciências positivas, vencendo todos os
vestígios teológicos de sua inicial formação religiosa”.
77
77
COUSIN, Almeida. Poemas da Terra e da Vida. Prefácio da 2ª edição. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1983.
296
O primeiro casamento de Cousin não foi feliz. Ele diz: “Eu não tive a ventura de encontrar uma
mulherzinha de amoroso trato, dessas capazes do sacrifício de compreender e aturar os maridos, ajudando-
os a superar as crises sentimentais e as fantasias passageiras de machos ou de artistas”. A incompreensão, a
intolerância e o preconceito trouxeram a angústia e o fim do casamento. O poeta escreveu
O Amor de Don
Juan
, livro que, segundo ele, “não é ficção, encerra um episódio sangrante do coração e da vida”.
78
Cousin foi brilhante jornalista, foi redator da revista
Vida Capixaba
, em Vitória, colaborava com
toda a imprensa do Espírito Santo e também no Rio de Janeiro, onde residiu a partir de 1940. Foi professor
catedrático de Química Analítica na Faculdade de Farmácia e Odontologia do
Espírito Santo e no Rio de Janeiro lecionou História no Colégio Pedro II e no Liceu
Nilo Peçanha, em Niterói.
Foi membro da Academia Espírito-santense de Letras, do Instituto
Histórico e Geográfico do Espírito Santo, da Federação das Academias de Letras
do Brasil. Escreveu livros de poesia, de memória, de história, obras didáticas e
científicas, teses e traduziu livros. Um importante trabalho foi a tradução de
Odes
de Anacreonte,
traduzido diretamente do original grego.
Almeida Cousin
José Coelho de Almeida Cousin foi um homem inteligente e, como Maura de
Senna Pereira, envolvido com o mundo jornalístico e com as letras. Provavelmente, essa afinidade deve ter
sido uma das causas que aproximou o casal. Escreveu vários livros, alguns, dedicado a Maura.
78
COUSIN, 1979. op.cit. 149.
297
Almeida Cousin e Solano Trindade
Alguns livros de Cousin:
Poemas da vida e da terra, 1983 –
Para MAURA de mãos piedosas salvando uns restos de naufrágios.
Cem anos de memórias,
Para Maura
O amor de Don Juan, escrito em 1929 e publicado em 1938.
Odes de Anacreonte, 1983 –
A Maura, muito querida, que foi incentivo constante a este trabalho
.
Trouveirinho, 1978
A Maura.
298
A união
Recorte sem data – Acervo: ACL
299
Não houve casamento formal entre Maura e Cousin. Ele estava desquitado, mas ela não; assim,
uniram-se; Maura foi morar no apartamento dele, sem preocupação com o que pudessem falar sobre essa
união. Diferente da experiência que os dois viveram em seus primeiros casamentos, agora seria o amor de
verdade. “O amor começou com ele, Cousin. Porque ele é o grande amor na minha vida, na nossa vida”, diz a
poetisa. Em
Poesia reunida e outros textos
, Lauro Junkes escreve:
Novamente transgredindo normas e mentalidades contrárias ao divórcio e
contrária ao casamento não legalizado, Maura e Cousin vivem intensa paixão
carnal que os conduz à mais plena comunhão de corpos e de almas, assumida no
equilíbrio e não igualdade.
79
Era realmente uma paixão, estavam entregues de corpo e alma um ao outro e
assim permaneceram para sempre. Quando Maura era ainda uma mocinha enamorada e
morava em Florianópolis, escrevia poemas de amor em prosa, mas os poemas de amor com o
verdadeiro sentido da palavra brotaram com o aparecimento de Cousin em sua vida. No livro
Poemas do Meio-dia
escreve
Em verdade te digo
, poema que mais tarde foi publicado com o
título
Amor
, e que descreve uma entrega entre dois seres que se amam:
Em verdade te digo que não foi naquela
hora que te pertenci:
79
A saga de Maura. Entrevista. In: JUNKES, Lauro (org). Poesia reunida e outros Textos. Coleção ACL, 2004, p. 31.
300
quando me tomaste nos teus braços poderosos
e me tiveste sob teus beijos e tua respiração.
Em verdade te digo que não foi naquela
hora mas quando, diante do teu, surgiu meu
espírito livre e novo
de rebento inquieto deste século
e descobrimos todas as comunhões das nossas almas.
Quando conheceste as minhas derrotas
e disseste que eram triunfos.
Quando viste pulsar meu coração nu
e o festejaste.
Quando soubeste que nem sempre
os teus pensamentos são os meus pensamentos
nem os teus caminhos são os meus caminhos.
Mas o amor brilhou como nunca em tua face
e me surpreendeste com a cascata de palavras
de que eu tinha sede
desde a minha primeira hora consciente.
Foi quando te pertenci.
A legalização do casamento entre Maura
e Cousin nunca aconteceu, era uma formalidade desnecessária para o casal, que vivia
intensamente seus momentos juntos. Todos respeitaram a decisão de ambos. No entanto,
por parte das irmãs de Maura havia a preocupação com os comentários que pudessem
surgir e diziam que o casal havia se casado na Embaixada.
80
Bilhete deixado por Maura ao marido. Sem data.
80
Ibid p.294.
301
A separação legal de Maura veio somente mais tarde. A averbação do
desquite entre Dorval Lamote e Maura foi realizada em 1960, no estado da
Guanabara. Com isso, voltou a ter o nome de solteira.
Averbação do desquite de Maura – 1960
Leblon e Ipanema
Década de 50
Acima: Rio de Janeiro Av. Atlântica
década de 50
302
No verso: “Queridos
irmãos e sobrinhos, aqui estou
com meu amor e nosso querido
Roberto e Mocinha, Jorge e
Cléia. Rio, março, 58”.
No verso: “Aqui estou com meu amor e com a
prima Raquel (Sóror Maria de S. João Evangelista) no
dia 7 de setembro de 1958. Maura”
Acervo: ACL
Assim como Maura, Cousin não teve filhos no primeiro casamento e assim permaneceram os dois,
um dedicado ao outro.
Como acontece com a maioria das mulheres, Maura sonhava ter um filho, um ser saído de seu
ventre. A impossibilidade a deixava entristecida, mas não a impedia de escrever sobre o assunto. Até o fim
de sua vida, lamentava-se por não ter filhos. No poema
Maternidade
fala sobre sua esterilidade:
303
Arrepender-te-ás talvez
como de uma suprema profanação
de teres um dia me vestido
de bagos e de gomos
e para eles depois te atirado
como um fauno sem lei.
Oh, não te arrependas não
que me deste glória e honra
pois eu só via o milagre da árvore estéril
carregada de frutos
e o sumo das uvas escorrendo
dos seios que nunca amamentaram.
Na década de 60, escreveu para
Nós e o Mundo
(jornal
Gazeta de Notícia
,s) o texto
Fantasia de
uma mãe sem filhos
. Não se pode afirmar que a situação vivida no poema seja de Maura; seu coração de poeta,
todavia, mantinha o instinto maternal e o levava a criar textos contextualizando o “ser mãe”.
- Quatro filhos? Não diga. E eu que pensava que você não tivesse nenhum...
- Por quê? Será que eu tenho cara de mulher sem filhos?
- Não é isso. É que alguém me havia dito. Não me lembro quem; mas me
recordo de ouvir que você podia aparecer tanto no mundo artístico, porque não
tinha filhos.
- Pois tenho quatro.
- Meninos?
- Dois casais: um de cada matrimônio. O meu filho mais velho é Appio
Cláudio, já é universitário.
- Appio Cláudio?
- Sim, quando ele nasceu, eu ainda trazia bem viva e fresca [...]
304
E as mães sempre foram lembradas em seus artigos e também em poemas.
Canto das mães
As mulheres levavam os filhos pequenos pela mão
e, a seu lado, os que já tinham sonhos e namoradas.
Levavam até mesmo os recém-nascidos
que haviam arrancado dos berços
e erguiam nos braços como bandeiras.
Filhas de todos os povos, milhões de mães unidas,
pararam diante da face lívida
dos que estavam preparando a destruição
da carne de sua carne.
Pararam de cantar.
Apertando os filhos ao peito
elas diziam com suas vozes límpidas
que não os dariam para a matança.
(Esperavam pedras e pragas, dardos e maldições
os donos das fábricas da morte?)
No entanto, o que tiveram pela frente foi mais forte,
pois o verbo simples do amor, o salmo indefeso da paz os derrotou.
Naquele encontro face a face,
enquanto as mães cantavam, os monstros compreendiam
que era a própria fonte de vida que cantava,
que eles nada mais podiam.
Forças cósmicas se haviam desencadeado
contra os seus desígnios
e os brotos da terra, que eles pretendiam cortar,
queriam crescer e amar.
Olharam, por fim, com vergonha e desolação
as suas grandes fábrica inúteis.
Os meninos estavam salvos.
E começou então
uma nova terra e um novo céu
305
com flores e frutos e trigais e risos
e pombos brancos voando sobre a cabeça dos povos.
De certa forma, a poetisa foi um pouco mãe de seus irmãos, principalmente os mais novos,
Samuelzinho e Josezinho. Percebe-se o carinho maternal nos artigos que escrevia sobre os irmãos.
Torna-se membro da Sociedade de Homens e Letras do Brasil
Rio de Janeiro:1942
(ACERVO: ACL)
Ao lado, reportagem de Maura sobre a campanha da Lã.
Jornal
A Noite
– 21/05/1956
(ACERVO: ACL)
306
(ACERVO: ACL)
Foto colada em um álbum de recortes. Abaixo, lê-se:
“Linda noite na Associação Brasileira de Relações Humanas.
Retrato reproduzido na revista ‘Singra’, do
Correio da Manhã
.”
1957
307
O Centro Catarinense presta
homenagem à senhorita Layla
Freyesleben, jovem escritora barriga-
verde e representante de seu Estado
no Concurso de Elegância Bangu.
Compareceram à homenagem figuras
representativas da colônia catarinense,
parlamentares e jornalistas,
admiradores da homenageada e
pessoas de sua família.
Na foto, Layla Freyesleben
aparece ladeada por Maura de Senna
Pereira e pelo almirante Pinto da Luz.
Início da década de 60.
(ACERVO: ACL)
308
Os livros
Meus poemas nascem quando um pensamento quer ser canto. Meu
processo de criação é totalmente mental. O pensamento me persegue e o canto
se forja na mente. Quando ele aparece escrito estava pronto. o há
propriamente momento especial. períodos de explosão e outros de
esterilidade. E os cadernos e cadernos perdidos, que existiram no meu
cérebro...
Maura de Senna Pereira
A diferença de idade entre o casal era de sete anos, no entanto, Maura jamais falava a idade,
dizia ser indelicado perguntar isso a uma mulher e não respondia. Gostava de passar a idéia de que era bem
mais jovem que o marido.
Quando se deu o encontro entre o casal, não demorou muito e Maura transferiu-se para o
apartamento de Cousin.
O jornal em que trabalhava,
A Manhã
, era dirigido por Plínio Bueno e gerenciado por Alarido
Lisboa. Trabalhava na revista
Vida
e na revista
Esfera
; este último emprego surgiu a partir do convite de um
grupo de escritores e foi por meio dessa que conheceu muitas pessoas do meio literário. Foi para a revista
Vida
que escreveu o poema
Quero ajudar a construir
, o qual chamou a atenção de Carlos Drummond de
Andrade e que levou esse poeta a querer conhecer pessoalmente a autora de tão belo poema. Maura contou
em entrevista que ele disse: “Olha, Maura, foi uma das coisas que me agradaram imensamente. Seu poema
309
Quero ajudar.
Eu quero ver se encontro poemas desse nível que eu quero fazer uma antologia sobre poesia
social boa”.
Quero ajudar a construir o mundo futuro
e colocar a minha pedra
no lugar exato e na hora certa:
Quero conter a pressa de ajudar,
deter os passos vãos e as mãos sôfregas,
ordenar minhas paixões de desajustes,
ser vigilante, compreensiva, tenaz.
Deixar no grandioso edifício a minha pedra
com a mão segura para que ela não vacile
e role nos espaços, tombando com um ruído soturno,
feita escombro, antes de ser coluna.
Quero deixar segura a minha pedra.
Altos frisos a revestirão,
esculpidos por sábias mãos alheias.
Mas, pequena e anônima, direita e firma,
ela estará lá dentro ajudando.
Quero ajudar a construir o mundo futuro,
o mundo sem fascismo e sem miséria,
luminoso, rasgado, justo.
Quero permanecer aberta
e colocar a minha pedra
no lugar exato e na hora certa.
Integrada ao meio jornalístico, participava de reuniões literárias, o que
propiciou seu primeiro contato com o poeta Jorge de Lima. O poeta era diretor da
Assembléia Legislativa quando houve uma exposição de livros femininos e Maura levou
Poemas do Meio-Dia
. Jorge de Lima o leu e, vendo que era poesia moderna, ficou com livro.
310
De formato pequeno, intitulado
Poemas do meio-dia,
foi o primeiro da
Coleção
Poesia Moderna
, do editor Vitor Brumlik. A coleção apresentava livros manuscritos com
produção heliográfica, feito de forma artesanal, o que tornou a coleção muito atraente. O
objetivo era divulgar os mais representativos poetas da época e Jorge de Lima, por quem
Maura tinha admiração, publicou a seguir
Vinte sonetos
, ilustrados pelo próprio autor.
Todos os livros da coleção tiveram uma tiragem pequena.
As ilustrações desse livro de Maura, assim como em
Cântaro de Ternura
, são de Quirino
Campofiorito. Possuía apenas oito poemas manuscritos pela poetisa, entre eles
Libertação
,
Em verdade te
digo
e
Quero ajudar
.
Também muito comentado pela imprensa, Abelardo Montenegro, da
Gazeta de Notícias
, escreve: “Nos
‘poemas’ circula como árvores frondosas, a seiva porente. É a vitalidade de uma mulher que afirma a sua
sensibilidade e o seu desprendimento, convocando-nos para uma original campanha panteísta. (...)” 130
Bertolino
Maura criticava a subliteratura e não participava de reuniões que desta tratavam. Era exigente no
que dizia respeito à literatura e verbalizava, era mulher de dizer o que pensava. Essa maneira de ser, ou seja,
de expressar suas idéias, trazia dificuldades nos relacionamentos com as pessoas, principalmente com as
mulheres, quando ainda estava em Florianópolis. Mas no Rio de Janeiro tudo estava melhor em relação a isso,
que a época era outra. Havia liberdade para fazer o que gostava e era convidada a participar de eventos
importantes da literatura e da sociedade do Rio. Sendo uma pessoa dinâmica, sabia falar em público,
311
palestrava e discursava muito bem. Era uma mulher de iniciativa e as pessoas gostavam disso. Um dos palcos
que serviu de discursos para Maura foi o
Pen-Club
, como também o
Centro Catarinense
, no Rio de Janeiro.
O
Centro Catarinense
, a princípio situado no Méier, congregava os catarinenses residentes no Rio e
tinha por presidente o Deputado Jorge Lacerda, membro do Conselho Fiscal. Em 1952 houve uma reunião e,
com ela, a criação de departamentos assistenciais. Ao Sr. Altamiro de Oliveira coube a Assistência Médica,
ao Sr. Lionel Thiame a Assistência Jurídica e o cargo Social, Cultural e Recreativo ficou com Maura de Senna
Pereira.
Ao lado: Centro Catarinense Um grupo de senhoras e
senhoritas que participaram da festa litero-musical, em
comemoração ao Dia de Santa Catarina. Abaixo, Maura de
Senna Pereira declamando poemas.
O Dia de Santa Catarina
foi ali comemorado muitas vezes, como no ano de 1952, quando houve uma festa
litero-musical, na qual Maura declamou os poemas
Jurerê-Mirim
e
Canto da
Companheira
. Esses eventos eram noticiados nos jornais do Rio de Janeiro.
Em 1953, Maura viajou para sua terra natal e ficou por alguns dias ao
lado de sua e, descansando. Nessa ocasião, recitou poemas aos catarinenses
312
por meio da
Rádio Guarujá
. Escolheu os seguintes poemas para recitar em sua meia hora artística:
Jurerê-
Mirim
, dedicado à Ilha de Santa Catarina,
Canto da Companheira
,
Poesia Negra
,
Glória
e
Louvação para
Santa Catarina
. Notas de agradecimento pelo recital foram publicadas em jornais catarinenses. O Diretor
Artístico da rádio, Dr. Dib Cherem, recebeu elogios pela iniciativa de levar a poetisa a declamar seus poemas
para os ouvintes de sábado.
Filha da pequena ilha catarinense, depois que foi morar no Rio de Janeiro jamais esqueceu sua terra,
cantada tantas vezes em seus textos. Santa Catarina era parte de sua vida e era evidenciada por Maura em
poemas, textos jornalísticos e discursos. Deixava claro que não era apenas em virtude das belezas que
pulsava seu amor a Santa Catarina, mas também pelas atitudes e gestos de tantos filhos de sua terra, e cita
nomes como Virgílio Várzea, Victor Meireles, Cruz e Sousa, Luiz Delfino, Jerônimo Coelho, entre tantos
outros. Jamais esqueceria de vultos femininos como a grande poetisa Delminda Silveira, Anita Garibaldi e
Amália Bainha.
81
Ao retornar dessa viagem à sua ilha, escreveu em
Nós e o Mundo
:
Deixo de contemplar as nuvens, que durante quatro horas foram minhas
vizinhas, no momento em que o avião começa a sobrevoar a ilha de Santa
Catarina. embaixo, aqueles recortes ilhéus parecem bordas de um tapete, de
um tigre mal estendido no salão verde do mar. E, após aterrissagem e o repouso,
vou rever, de perto, a bela e amada paisagem ilhoa.
estão as praias selvagens, as pontas edênicas, os morros e as árvores,
as roseiras pesadas de corolas que, às vezes, m cor de fruta, as pedras que
parecem datar do nascimento do mundo e terem sido espalhadas por um
81
PEREIRA, Maura de Senna. Verbo Solto. Rio de Janeiro: Kosmos, 1982.
313
cataclismo. estão as águas redondas da Lagoa do Peri, com suas ondas e
espumas, lembrando um retalho gordo e prisioneiro do mar. Mais ao Norte, a
Lagoa da Conceição, sagrada e azul, a grande lagoa onde o sol nasce com o
esplendor de um potentado bíblico e derramando a ilusão de que é aquele o
momento mesmo da gênese, o primeiro dia do universo. As pequenas enseadas
estão, mar escondido, refletindo as matas da orla exuberante no seu verde
carregado.
E eu bebo, de novo, a água do rio Tavares e, com a mesma alegria dos
tempos de criança, devoro, no pé, as úblimas pitangas. Dou a volta ao Morro da
Cruz: contemplo o fim da tarde e os caminhos e vejo que continua inigualável o
pôr-do-sol na minha terra, todo de sangue e ouro e com aquele halo violeta que
transportei para os crepúsculos em Rosamor.
Até o vento, o velho, tremendo, saudoso vento sul, é o mesmo a quem pedi
um dia que me levasse com ele para longe de mim, pois eis que acaba de chegar.
“desfolhando papoulas
vergando caules
sacudindo polena
agitando palmeiras”.
E logo
“dobram-se as frondes
as aves tremeram.
Tremeram.
as pencas leves das glicínias
e os gerânios duros dos balcões”.
82
82
PEREIRA, Maura de Senna. A ilha natal. In: Gazeta de Notícias: Nós e o Mundo. Rio de Janeiro, 25.10.1953.
314
No verso: “Ruthinha, aqui estou com ‘tio’ Jorge. Tia Maura.
Leblon, março 56”.
Fonte: ACL
Cartão/foto de Maura para Cousin – 1953
Escreve com caneta de tinta verde, sua preferida.
Os sobrinhos Fernanda e Álvaro Henrique, filhos da irmã Ruth.
315
Vista aérea da Baia Sul, Florianópolis – década de 60
Fonte: RETRATOS DE FLORIANÓPOLIS, Beto Abreu
Um assunto que esteve presente nos textos jornalísticos de Maura foram as festas nas quais
compareciam muitas mulheres bonitas e inteligentes da sociedade. Os concursos de Miss Brasil e Miss Santa
Catarina eram divulgados pela jornalista, muitas vezes mostrando, em sua coluna, a mais bela catarinense ao
Brasil. Esse era assunto também para o jornal
A Manhã
, além das entrevistas que fazia. A manchete, datada
de janeiro de 1953, diz:
É jornalista a moça mais elegante de Santa Catarina
. Escreve que Layla Corrêa
Freyesleben representaria seu estado na escolha das duas mais
Elegantes de Bangu
, no ano de 1952. Em
dezessete de maio de 1953 divulgou a Festa das Rosas, mostrando belas mulheres e descrevendo seus trajes
316
magníficos. Nessa mesma página, comentou a coroação da Rainha Elizabeth II, que seria assistida pelo
brasileiro marechal Mascarenhas de Moraes.
Extremamente feminina, publicava páginas dando dicas de como vestir-se bem. Se costurar era
um ofício feminino, também era uma forma de incentivar a mulher a adquirir uma profissão. Em 1958, faz uma
doação ao Orfanato Pedro Richard, no Rio de Janeiro, de vinte exemplares do livro “Aprendendo a costurar”.
De certa forma, percebe-se que Maura tentava de todas as maneiras fazer com que
a mulher se superasse, mesmo que a profissão estivesse restrita ao papel feminino.
Se na época não havia muitas possibilidades à mulher, não deveria desperdiçar o que
tinha em mãos. Por outro lado, incentivava a educação, que seria a melhor forma de
superar-se.
Para saudar figuras femininas, Maura usou a célebre frase da poetisa,
escritora e feminista americana Gertrude Stein (Pittsburgh, EUA: 1874 - Paris,
França, 1946), que naquele ano de 1974 comemorava o seu centenário; uma líder
renovadora, segundo Maura:
Uma rosa é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa
. E escreveu
em seu artigo: “Ruth é uma rosa. Ruth Laus, romancista, decoradora e responsável
por um rol imenso de coisas belas no mundo da arte (...)”. Assim, nomeou outras
mulheres, homenageando-as na coluna
Nós e o Mundo
.
Gazeta de Notícias
, Nós e o Mundo, de Maura de Senna Pereira.
317
Revista Mundo Livre.
(ACERVO: ACL)
Fonte:
Villa Rica, um tempo feliz
. Ruth Laus
À direita,
Jornal do Brasil
, 21/04/1957 – A MULHER NAS ARTES E NAS LETRAS - PARTO SEM DOR
318
Acima:
gazeta de Notícias
. 24/03/1957
Foto de Maura com uma parturiente e seu bebê. Abaixo,
Simões, editor do livro
Parto sem dor
.
319
À esquerda:
Revista do Sul
Abaixo,
Maura autografando “O Parto sem Dor” na
Feira do Livro da Cinelândia – 1959.
(ACERVO: ACL)
320
Assim como os assuntos da sociedade e os literários, outros temas interessantes e atuais eram
tratados pela jornalista, como fez com o que resultou no livro
O Parto sem dor
, lançado em 1956 pela
Organização Editora Simões, recuperando reportagens escritas para o jornal
A Noite
sobre as primeiras
aplicações do método psico-profilático no Rio de Janeiro.
A princípio, a intenção da jornalista seria fazer uma reportagem sobre esse assunto na
Maternidade Clara Basbaum, no Rio de Janeiro. Ao conversar com o médico encarregado, sentiu que havia a
necessidade de falar mais sobre esse tema e fez quatro reportagens que, aos olhos do diretor da
Organização Editora Simões, deveriam se transformar em livro. Tornou-se e foi sucesso de venda na Feira do
Livro do ano.
A primeira reportagem foi intitulada
Vencido pela medicina o problema do parto sem dor
,
apresentando problemas em suas linhas gerais. Logo, Maura escreveu
O parto sem dor explicado em seis
lições
, envolvendo a parte teórica. Continuou seu trabalho jornalístico e, com isso, após muitas conversas com
o diretor da maternidade, o professor Francisco Carlos Grelle, e também com o principal assistente do
diretor, o Dr. Jean Claude Nahoum, escreveu a terceira reportagem para
A Noite
, intitulada
Diminui o
número de partos anormais
. E por fim, Maura entrevistou parturientes que vivenciaram o método psico-
profilático. As gestantes faziam um curso na maternidade do sétimo ao nono mês de gestação a fim de
preparem-se para o parto. Convencida de que o método de Pavlov
83
obtinha resultados, escreveu a última
reportagem:
Elas dizem que não sentiram dor
.
83
Ivan Pavlov, (1849 - 1936) fisiologista e médico russo, criador do conceito de reflexo condicionado.
321
O prefácio do livro é do diretor da Maternidade, F.C. Grelle, profundo conhecedor e estudioso
dos problemas de parto. Escreveu:
E, assim, altamente louvável a iniciativa da Organização Editora Simões de
reunir em volume as magníficas reportagens que a brilhante e culta jornalista,
senhora Maura de Senna Pereira, realizou recentemente na Maternidade Clara
Basbaum para o vespertino
A Noite
. (...)
Foto sem referência de Cousin e Maura.
(ACERVO: ACL)
322
Maura recebe
Medalha ao Mérito Anita Garibaldi
pelos relevantes serviços prestados ao
estado.
323
À direita: coluna de Maura no jornal
Gazeta de Notícias
. - 1961
À esquerda: Revista do Sul “O Vale do Itajaí” - 1961.
(ACERVO: ACL)
324
Com Dina Teresa Cruz e Sousa, uma bisneta de Cruz e Sousa, homenageada no centenário do
nascimento do poeta catarinense. - 1961
(ACERVO: ACL)
325
O quinto livro (o terceiro de poemas) foi
Circulo Sexto
, publicado
pela Organização Simões Editora em 1959. Dedicado ao marido Almeida Cousin,
teve seu lançamento em dezembro desse ano. As ilustrações são de Quirino
Campofiorito e foi dividido em quatro partes:
Canto da Companheira
,
contendo
nove poemas,
Círculo Sexto
, contendo oito poemas,
Rosa do Caminho
,
apresentando quatro poemas e, finalmente,
Terra catarinense,
com cinco
poemas.
A crítica foi positiva também nesse livro. Agripino Grieco escreveu
a orelha do livro:
agora tive ensejo de conhecer os seus versos
em conjunto, e encantei-me. Que ardor lírico e, ao mesmo
tempo, que fervor diante das causas sociais que apaixonam
o mundo de hoje! Sente-se bem, na artista, o desejo de
que não tardemos a descobrir a Canaã moral onde todas as
almas se saciem de igualdade e ternura. E, pela riqueza do
conteúdo, avivada na agilidade do ritmo, sua poesia “Rosa
da Feira” parece-me digna de figurar nos florilégios mais
escrupulosos.
Um aperto de mão do sincero admirador.
Esse depoimento foi transcrito em outras ocasiões, várias vezes.
326
Outro poeta que leu o livro nos originais e manifestou seu encantamento foi Guilherme de
Almeida, o
Príncipe do Poetas Brasileiros
. Escreveu uma carta à poetisa, que foi transcrita no jornal
Gazeta
de Notícias
em 08/01/1960, enfatizando a beleza dos poemas
Histórias para a menininha
,
Rosa da Feira
e o
Marujo em três tempos
.
Com muitos elogios, a poetisa foi comentada em Portugal por Ferreira de Castro. Em 1966,
Amândio Naia escreveu para o
Jornal de Almada
, também de Portugal, destacando Maura de Senna Pereira.
84
Quando houve a festa de lançamento, o livro circulava nas livrarias vários meses e a crítica
já havia manifestado sua opinião.
Era comum acontecer as tardes de autógrafos na Livraria São José. Carlos Ribeiro, o
proprietário da livraria, intencionava criar o hábito da boa leitura e aproximar os escritores do público, e
chegara a vez de Maura, que foi apresentada por Carlos Ribeiro, o qual enalteceu a poetisa e jornalista.
Elogios também vieram de outros grandes escritores, como Guilherme de
Almeida e Ferreira de Castro.
Esse grande acontecimento literário contou com a presença
de personalidades como Orígenes Lessa, Astrogildo Pereira, o
Desembargador Henrique Fontes, o Senador Carlos Gomes de Oliveira, a
viúva de Graciliano Ramos, entre outros.
84
BERTOLINO, op.cit. p.154.
327
Maura e Cousin
Ilustração do livro
País de Rosamor
.
“Não saio deste caminho:
este caminho me leva
ao País de Rosamor”.
Assim Maura de Senna Pereira iniciou o
País de Rosamor
.
Publicado em Florianópolis pela Edições do Livro de Arte e apresentando
vinhetas originais em madeira, esteve sob a responsabilidade de Hugo Mund
Jr. e João Paulo Silveira de Souza. Foram tirados trezentos exemplares de
luxo, numerados e assinados pela autora.
328
Esse livro, publicado em 1962 e considerado a obra prima da poetisa, foi dedicado a Almeida
Cousin, sendo comentado pela imprensa e por grandes autores brasileiros. Foi apresentado à Academia
Brasileira de Letras por Álvaro Moreyra, que na ocasião leu o texto:
O mapa do mundo onde Platão construiu a sua “República”, e onde Epicuro
plantou o seu “Jardim”, cresceu depois uma ilha da “Utopia” descoberta por
“Thomas Morus” e “A Cidade do Sol”, por “Tommaso Campanella”. Em tempo ainda
juntos de nós, foi nesse mapa que Manuel Bandeira pôs o prestígio de um reino,
logo feito estada de alma: “Passárgada”. Tantos lugares de pouco turismo
ganharam um céu “d’O Pequeno Príncipe”, visto por Antoine de Saint Exupéry. (...)
Agora, Maura de Senna Pereira de poesia armada, está vivendo no “País de
Rosamor”, novo e feliz. De manda notícias no idioma dos naturais, cheio de
cores, balançado pelas vozes da gente que chegou do mar, da que ouviu nos
trovadores de Portugal e da que aprendeu nos cantos africanos. (...) O livro das
notícias do “País de Rosamor é para se ter perto. Envolve de belezas os olhos, de
esperança o coração.
85
Murilo Araújo diz: “País de Rosamor é um dos
reinos da Poesia”.
Carlos Drummond de Andrade escreveu à Maura:
85
Ibid. p.159.
329
Eram muitos os críticos que comentavam os poemas, mostrando sempre um entendimento maior e
um novo motivo para exaltar cada pedacinho daquele País de Rosamor.
Essa obra prima de Maura não pôde ser festejada, como fez com os livros lançados
anteriormente. Na ocasião, fazia poucos meses que sua mãe havia falecido e preferiu ficar com sua dor e
deixar que o livro tomasse seu caminho.
Escreveu sobre o livro em Gazeta de Notícias:
Inventei um país de ventura, sonho e beleza, todos irmãos, as castanhas
saltando festivas em todos os pratos, as bodas simples e belas (“rosas em torno
de nós”) - tão puros - a cirandar com os pombos e as serpentes, as mulheres
cobertas de esmeraldas, a primavera durando cem anos e a lua perto. Proscrevi
todas as coisas abomináveis: o dinheiro, a guerra, a doença, a tortura, a fome. E
os cemitérios, está claro. Como existir triste cidade dos mortos no reino da vida
plena?
86
Gazeta de Notícias
– 1962
86
PEREIRA, 2004, op.cit. p.31.
330
Recortes sobre a morte da mãe, Amélia de Senna Pereira.
Ao lado, poema de Maura.
331
1963 – Maura vem a Florianópolis prestigiar a II Feira do Livro.
Coral Infantil da E.B. Maura de Senna Pereira
Em homenagem à poetisa, em 1967 o Governador Ivo Silveira
assinou um decreto no qual o então Ginásio Normal Pinheiro Preto passaria
a denominar-se
Professora Maura de Senna Pereira
. Maura manteve
contato com essa escola trocando cartas com a direção e com alunos. Em
1972, Maura foi convidada para ser paraninfa dos formandos da escola.
Não podendo participar, enviou saudações ao grupo.
Doava seus livros à biblioteca e também aos alunos. Em carta datada de julho de 1983, o então
diretor Euzébio Cavalcante respondeu a carta de Maura, agradecendo o livro do escritor Nereu Correia que a
332
poetisa enviou ao aluno Mario Bressan, e foi grato também pelas flores que
chegaram com seu perfume. A escritora mostrava-se preocupada com os
acontecimentos locais, com a grande enchente ocorrida em 1983 e que afetou o
município.
Recorte de jornal - 1968
FATOS MARCANTES:
MAURA SENNA: Ai de quem pára no tempo e não dialoga com as novas gerações.
José Teixeira Peroba
MAURA DE SENNA PEREIRA, autora de dois livros de reportagens, um de
discurso e quatro de poesia. Exerceu nos seus verdes anos o magistério secundário em santa
Catarina, onde nasceu, sendo atualmente membro da Academia Catarinense d e Letras. Como delegada da mesma, foi
recebida pela Federação das academias de letras do Brasil, ocasião em que pronunciou um discurso que vai integrar uma
antologia sobre Santa Catarina. Em palestra, com esta coluna, Maura de Senna explica, inicialmente, uma significativa
homenagem em sua terra natal, que lhe foi auferida.
- Segundo o Presidente do centro Catarinense, tive foi uma promoção. O Governador Celso Ramos deu a um
grupo Escolar o meu nome, e há meses, na cidade de Pinheiro Preto, um Ginásio Normal, com o mesmo nome.
- Maura, como você vê os jovens de nossos dias?
- Eu sou das que acreditam na juventude e não posso deixar de admirar essa maioria em flor que trabalha,
estuda, luta por um lugar ao sol, espera por um dia melhor. Quanto as suas rebeldias e inovações, de que tantos se
queixam, acho natural que rapazes e moças as tenham e as manifestem.
- Mas nós podemos não apreciá-las, pos não?
- Podemos muitas vezes não apreciá-las, mas é necessário entendê-las, pois ai de quem pára no tempo e se
torna incapaz de dialogar com as gerações mais novas.
- Mas quando essas rebeldias assumem caráter nocivo?
- Bem, a marginalidade tem raízes sociais e econômicas. Penso que na literatura brasileira, por exemplo,
ninguém melhor do que Santos Moraes analisou em termos de romance-primeiro “O Menino João” e depois em Os Filhos
do Asfalto”, o tema dos jovens marginais do morro e da sociedade.
333
- E o que diz da chamada juventude transviada?
- Ela é uma conseqüência, um sintoma. Não é árvore, é fruto.
- Qual o maior escritor brasileiro, Maura?
- Para mim ainda é Machado de Assis.
Com a morte de Laércio Caldeira de Andrade, o saudoso professor que acompanhou sua infância,
Maura escreveu a Theobaldo Costa Jamundá (12/03/1971) lamentando a perda. Laércio foi um dos
fundadores da
Escola Técnica Senna Pereira
, juntamente
com seu pai José de Senna Pereira,
e a esposa de Laércio, D. Josefina,
que a ajudou a preparar-se para a
Escola Normal.
Convite do Centro Catarinense, 1970
Às 19:00 horas, na sede, palestra da
consagrada poetisa catarinense,
Profa. Maura de Senna Pereira, abordando o tema “LACERDA COUTINHO E A POESIA “OS ESBOÇOS”.
334
Em 1972 Maura de Senna Pereira foi recepcionada na Federação das
Academias de Letras do Brasil, passando a atuar como Delegada de Santa Catarina.
Na ocasião, recebeu a Medalha da Academia Catarinense de Letras das mãos de
Almiro Caldeira de Andrada.
Carteira do INPS - 1971
Zaura e Dupont - 1971
Ao lado: Maura e Cousin – 1973
335
Ao lado: Março 1974 – Gazeta de Notícias
Abaixo: Lançamento de
Nós e o Mundo
.
Em 1974, editado pela Livraria São José, do Rio de Janeiro, lançou
o livro de crônicas
Nós e o Mundo
, título de sua página no
Gazeta de Notícias
no qual resgatou seus textos jornalísticos. No dia da tarde de autógrafos
desse livro, Maura e Cousin receberam a medalha comemorativa do
centenário da
Gazeta de Notícias
, com a companhia de mais de cem
amigos que a prestigiaram na livraria São José. Essa foi uma das
medalhas mais importantes que a jornalista recebeu, pois o marido estava
a seu lado e os dois receberam medalhas iguais.
Gazeta de Notícias
- 4 de agosto 1974
336
Carta de Jorge Amado, parabenizando pelo livro
Nós e o Mundo
, e,
anexo, um bilhete de Zélia Amado.
O livro, com a capa de Ely Braga, que constava de pequena parte das
crônicas, resenhas e artigos de sua coluna com o mesmo nome, foi bem recebido
pelo público. Em 19 de julho, Maura recebeu uma carta do ex-presidente Juscelino
Kubischek, dizendo tais palavras: “O seu mundo se compõe do mundo dos outros e
neste você se mostrou inteligente, hábil e mais do que tudo com uma rara
capacidade de criar e de escrever”.
No ano seguinte houve uma homenagem a José de Senna Pereira,
comemorando o centenário de seu nascimento. Maura não pode comparecer à
cerimônia, enviou aos homenageantes mensagem escrita, na qual mostrava ternura
pelo pai, passava informações biográficas e transmitia à juventude da época a
figura do grande mestre, cheia de grandeza moral e cívica. A mensagem foi lida
na cerimônia pelo diretor da
Escola Técnica de Comércio Senna Pereira
, Dr.
Rubens Victor da Silva. Cópias-lembranças foram distribuídas a mais de mil
alunos. Na ocasião, houve a inauguração do retrato do professor Senna Pereira e
uma placa comemorativa de prata. A cerimônia realizou-se no auditório da Escola
Técnica de Comércio Senna Pereira, em 30 de abril de 1977.
1977 –
Nós e o Mundo
: sobre o Centenário de nascimento de seu pai.
337
Foto do Centenário de José de Senna Pereira.
Maura não pôde comparecer.
Correio do Povo – 1977
Também pela Livraria São José, em 1978,
surgiu o quinto livro de poemas,
A Dríade e os Dardos
,
com poemas dos livros
Poema do Meio-dia
,
Círculo Sexto
,
País de Rosamor
, de
antologias e algumas poesias inéditas - também dedicado ao Marido: “para ALMEIDA
COUSIN meu amor”. A capa é de Ely Braga, as ilustrações de Quirino Campofiorito e
as vinhetas de Hugo Mund Júnior. O lançamento foi na ABI, Associação Brasileira de
Imprensa.
338
Ilustrações do livro
A Dríade e os Dardos
Nomes importantes da literatura escreveram à Maura felicitando-a
pelo livro. Carlos Drummond de Andrade enviou cartão em 23 de julho de 1978,
Henriqueta Lisboa, Margarida Lopes de Almeida, Pizarro Drumond, Jorge Amado,
sendo que este último enfatizou a preferência pelo poema “Quero ajudar”. Também
da Argentina, Julia Gadea e Júlio G. de Alari escreveram cartas à poetisa,
elogiando-a.
Além da imprensa do Brasil, a imprensa de Portugal e dos Estados
Unidos comentaram a poesia da catarinense. Teresinka Pereira, da Universidade do
Jornal
Gazeta de Notícias
- 4 de agosto 78
339
Colorado, escreveu sobre Maura de Senna Pereira: “Buscar-me solta amanhecendo/ dentro da tarde na
solidão selvagem”.
87
Cartão de Quirino Campofiorito – 1978
(ACERVO: ACL)
O lançamento de
A Dríade e os Dardos
ocorreu em 27 de julho de 1978, a partir
das 17 horas, na ABI, meses após o livro entrar em circulação; a poetisa autografou seus
livros para inúmeras pessoas ilustres.
Jornais que comentavam o livro foram recortados por Maura a fim de
montar uma plaquete, que foi editada também pela livraria São José. Essa plaquete e
o livro serviram de textos para as aulas do professor Glauco Rodrigues Corrêa, na
Universidade Federal de Santa Catarina. Literatos das Academias de outros estados
manifestaram seu gosto pela
Dríade e os Dardos
. Também o prefácio de Manoel
Caetano Bandeira de Melo foi elogiado por Carlos Drummond de Andrade e outros.
Questionada sobre a escolha do título, Maura respondeu que “a Dríade é
uma evocação da Maura em flor solta nos bosques natais”. Teresinka Pereira, professora de literatura
brasileira na Universidade do Colorado, em artigo chama-a ‘dádiva erótica’. “Descobrimos a poeta libertando-
87
BERTOLINO, op.cit. p.177.
340
se da sensação corporal e alcançando o nível cósmico do pensamento ultra-universal e descobrimos mais,
achamos a companheira que canta de mãos dadas com o povo na rua buscando o pensamento do mundo’. É
quando, talvez, começam os Dardos...”.
88
Cartão de Zélia e Jorge Amado – Natal 1977
31/01/1978 - Entrevista concedida a
Miguel Jorge ao Suplemento Cultural do jornal
O
Popular, de Goiânia.
88
Entrevista concedida a Miguel Jorge. Suplemento Cultural de O Popular - Goiânia: 31/12/1978.
341
O livro
Despoemas
chegou ao público em 1980, com poemas de temas variados.
Na ocasião, a poetisa passava por uma situação difícil: Cousin havia sido atropelado e ficara
um mês internado. A esposa estava totalmente voltada ao marido, preocupada em atendê-
lo. No acidente, Cousin sofrera traumatismo craniano e a recuperação foi lenta. Estava
entre o hospital e a sua casa. Ruth escreveu à irmã no dia 22 de março de 1979:
Minha querida irmãzinha.
Mando-te esta com o endereço da Zaurinha, porque sei que ainda estás no
hospital, com o nosso querido Cousin. Infelizmente ainda não te posso
acompanhar e imagino como o estás cansadinha! Mas Deus há-te recompensar
as tuas ânsias e o nosso querido muito em breve poderá voltar pra casa. O
principal é que ele está bem assistido e nada lhe tem faltado; é uma questão de
dar tempo ao organismo para reabsorver o coágulo e o resto vai entrando nos
seus eixos. Sei que a dedicação e o desvelo que tens por ele, esses dias estão
parecendo séculos. (...)
Ao amigo Nereu Corrêa escreveu no dia 13 de julho de 1979 e comentou o estúpido acidente”
que mudou suas vidas. Cousin já estava salvo e lúcido, mas ainda muito magro e fraco. O edema cerebral havia
sido reabsorvido graças à competência dos dicos. Quatro meses passaram, - ou quatro séculos? -
perguntava-se ela. Ficou inteiramente dedicada ao marido. Quando voltavam à vida normal, tiveram a perda de
um cunhado, irmão de Cousin.
342
Antes do acidente, Cousin costumava praticar exercícios físicos e, quando encontrava alunos,
deixava-os surpreendidos com o vigor que o professor mantinha, apesar da idade. O acidente deixou seqüelas
de um coágulo no cérebro, impossibilitando o professor de continuar a exercer as atividades sicas
costumeiras.
Nota sobre o atropelamento de Cousin no
Jornal da Associação Espírito-Santense de Imprensa
343
Assim,
Despoemas
é dividido em partes:
Do Amor
,
Lua e Luta
,
Terra minha sob o signo da poesia
e
Os adeuses
. Inicia com o poema
No vale samaritano
, no qual descreve a luta enfrentada durante o mês em
que cuidara do marido no hospital.
Eis que me despeço deste vale
onde a tragédia nos fez aterrissar
por todo um mês (ou todo o século?)
Ele, em seu leito, por hábeis mãos cuidado,
recebendo no soro as substâncias
que foram reabsorvendo o sangue extravasado
Eu era toda aflição contida e esperança
na ação dos dois médicos perfeitos
Já tarde, quando, sedado ou não, ele dormia
em vigília sempre eu ia contemplar a noite:
a rua de casas belantigas (elas existem?)
o morro de pedra e verdes novos pela frente
o grande edifício à esquerda, os outros menores,
e sobretudo o céu estrelado, a lua às vezes
e, bem no alto, aquele que foi crucificado
por tanto amar a gente
A pouco e pouco as luzes das casas se apagavam
(Dormem? Sonham? Fazem amor?)
Depois era o céu que esmorecia: as constelações,
os planetas, a lua, quando aparecia, tinham ido embora
Só então ficávamos nós dois sozinhos, ó Cristo!
Ai de mim, não te fiz nenhuma prece
mas naquele repetido encontro face a face
parecia ouvir-te: Descansa mulher,
ele sairá daqui pelo teu braço
É o que vai acontecer agora
pois que dois seres raros conseguiram a vitória de
344
[recuperá-lo
Somente na ciência eu creio, sim,
porém jamais esquecerei, ó Cristo,
que teus luminosos braços abertos
estiveram sempre abertos para mim
Os Adeuses
, a última parte, encerra com o poema
Testamento
, no qual expõe repúdio por algo
inevitável: a morte.
Alguns dos poemas são inéditos. Como foi com seus livros anteriores, esse livro de capa verde e
formato pequeno, e que também foi publicado pela Editora Achiamé, foi sucesso e motivo de interesse entre
escritores. Recebeu diversas cartas e cartões; Drummond escreveu à sua amiga, José Loureiro Francisco de
Carvalho, o poeta catarinense Alcides Buss, o também catarinense Carlos Ronald e até Antonio Houaiss
escreveu em papel timbrado da Academia Brasileira de Letras. Diz Houaiss:
Os
Despoemas
me tocaram, pois são canto forte de quem sabe o que valem
as palavras e os pensamentos e as ações também, as havidas e as futuras. Sua
mestria vai ombro a ombro com um predicado fundamental, a concisão, a
brevidade densa de conteúdo: cada poema seu diz muito, e esse muito, que o
poeta quis, vibra em nós por muito tempo.
89
89
BERTOLINO, op.cit. p.198.
345
Despoemas
foi notícia em várias partes do país, entre tantos,
Gazeta de Notícias
, na qual Maura
era colunista, e também acadêmicos de várias Academias do Brasil mandaram suas publicações ao jornal.
Segundo Pedro Bertolino, o escritor de
Viagens com Maura
, Pizarro Drumond foi quem melhor explorou um
dos temas do livro, o sentimento religioso de Maura. O texto escrito logo após apresentar
Despoemas
na
“Federação das Academias de Letras no Brasil” foi mandado à Maura sob o título Maura e a Religião da
poesia”.
Maura e Almeida Cousin, em frente à Igreja de Aparecida (sem data)
No poema Pedras para o templo”, publicado no livro
Círculo
Sexto
, Maura fala sobre a religiosidade; no entanto, uma primeira versão
foi publicada na revista cultural carioca
Esfera
, em 1946, modificada e
deixando mais clara sua posição diante da religião:
Não tenho deuses, mar.
Terra,
céu,
homem,
pedra,
selva,
não tenho deuses.
A dúvida andou sempre enroscada
nos meus hinos , minhas orações.
Porque fui embalada com salmos e cantos sagrados
cresci decorando os belos versos bíblicos,
346
interpretando parábolas, recitando preces.
(Eram as minhas lições nas manhãs de domingos.)
Eu precisava, contudo, de não pensar
no conteúdo e na direção dos meus cânticos de louvor,
para dizê-los inflamadamente.
Mesmo nas horas profundas das cerimônias,
maus hinos estiveram vazios de Deus.
Mas, no dia em que a dúvida crescente rompeu todos os
muros,
comecei a ser eu mesma
e, assim, posso, proclamar:
não tenho deuses, mas
Tenho, porém, uma fé capaz de remover montanhas:
- num mundo melhor aqui na terra.
Uma fé que transborda em mim como um rio cheio:
num mundo sem classes, onde a ventura coletiva reine.
Trago uma lama ardente de Tereza de Jesus, mas
Não tenho deuses, mar.
Terra,
céu,
homem,
pedra,
selva,
não tenho deuses.
90
90
BERTOLINO, op.cit. p.156.
347
Aos 76 anos e apesar dos problemas enfrentados, Maura permanecia com a mesma garra para
escrever de quando era jovem.
Um ano após
Despoemas
, uma nova publicação pela Editora Achiamé surgia nas livrarias:
Cantiga
de Amiga
, que trouxe ilustrações de Márcia Cardeal. Maura dedicou o trabalho para seu “grande
companheiro”, Almeida Cousin, para os “irmãos muito amados, Ilka, Ruth, Samuel e Zaurinha”, aos “amigos” e
para seus “pássaros”. As epígrafes são de Ezra Pound: “A poesia é um centauro” e de Fernando Pessoa: “Sou
um evadido / logo que nasci / fecharam-me em mim. / Ah, mas eu fugi”.
A ilustradora Márcia Cardeal teve
bom relacionamento com a escritora. Antes de se
conhecerem pessoalmente, a artista morava em
Brusque, Santa Catarina, e publicava um
jornalzinho mimeografado de arte, literatura e
cultura em geral, chamado
Cogumelo Atômico
,
juntamente com um grupo de amigos, entre eles,
Luís Teixeira - e foi por meio desse jornal que se
conheceram. A poetisa era o contato do grupo no
Rio de Janeiro e se correspondia com eles. Em 1978, Márcia foi morar no Rio e procurou Maura para conhecê-
la pessoalmente, pois admirava seu trabalho. Maura conhecia algumas ilustrações que Márcia havia
publicado no jornalzinho de Brusque, e a convidou para algumas ilustrações e capas de livros. Com isso, houve
348
uma aproximação; a jovem visitava com freqüência o casal no Leblon. Nos domingos, ao final de manhã, Márcia
Cardeal ia almoçar com eles no restaurante Real Astória, onde o casal era muito estimado.
Havia um carinho especial pela jovem catarinense que saíra de sua cidade para fazer faculdade
de Comunicação Visual na Escola Belas Artes da UFRJ. Carinho percebido nas cartas, cartões e bilhetes
enviados à poetisa. Como Maura, Márcia se referia a Cousin por
Paizola
. Talvez a impossibilidade de ter filhos
fez com que houvesse uma certa transferência, pois Maura dedicava atenção e certo amor maternal por
aquela jovem que estava longe de sua família. Márcia Cardeal ilustrou
outros livros de Maura.
O livro
Cantiga de Amiga
apresenta os poemas numa bela
edição em folhas soltas dobradas e uma capa de forma a protegê-las.
Na outra capa, vê-se um bilhete fac-similado do amigo Carlos Drummond
de Andrade, no qual elogia seu livro anterior,
Despoemas
. Na parte
interna da capa, foram impressos opiniões e críticas sobre os livros
A
Dríade e os Dardos
e
Despoemas
. São comentários de catarinenses
como Alcides Buss, Lauro Junkes, Nereu Corrêa e outros escritores e
críticos do Brasil, como Jorge Amado, Henriqueta Lisboa, Teresinka
Pereira, etc.
Carta de Márcia Cardeal
Acervo: ACL
349
A
À esquerda: Carta de Márcia Cardeal
Á direita: Carta de Jorge Amado
350
Cartão de Drummond a Cousin e Maura - dezembro 1981
Acima: Foto de Drummond com a filha Maria Julieta e cartão de
Maria Julieta Drummond
351
A representante das letras catarinenses comemorava, nesse ano de 1981, juntamente com o
lançamento de
Cantiga de Amiga
, o cinqüentenário da sua primeira publicação em livro,
Cântaro de Ternura
.
Em novembro de 1982, recebeu correspondência oficial do então Presidente do Conselho Federal de Cultura,
Oswaldo Ferreira de Mello Filho, comunicando que na Sessão Plenária daquele mês havia sido aprovada por
unanimidade a proposta de Sylvia Amélia Carneiro da Cunha, “um voto de regozijo pelo merecido destaque que
lhe foi conferido no estudo do ensaísta Ivan Cabral, sobre cronistas e poetas da ngua portuguesa em vários
séculos”. Nesse estudo de Ivan Cabral, Maura foi apontada entre as melhores poetisas e cronistas
brasileiras.
O livro
Cantiga de Amiga
foi traduzido
para a língua inglesa e editado por Teresinka Pereira da
Universidade de Colorado, na série Internação Poetry.
Nessa versão, a capa foi impressa na cor rosa, com o
formato original, apenas um pouco menor.
Versão em inglês de
Cantiga de Amiga
352
Cartão de Massaud Moisés, sobre Cantiga de Amiga.
Os cinqüenta anos da literatura de Maura foram
comemorados pela Academia Catarinense de Letras em 18 de
novembro de 1982, em sessão especial.
A Livraria Kosmos Editora, do Rio de Janeiro, publicou em 1982 um
livro que reúne discursos e palestras de Maura, sob o título
Verbo Solto
. Neste,
Maura fala sobre sua terra, Santa Catarina, Anita Garibaldi, os 120 anos de livro
Babica
, de Bozena Nemcova, sobre o poeta Cruz e Sousa, Lacerda Coutinho,
humanista e poeta catarinense e, finalmente, “Remembranças”, tudo com a
intenção de lembrar uma fase de sua vida e homenagear figuras importantes.
Maura escreve dedicatória, com
caneta de tinta verde:
À talentosa Inês Mafra – jovem amiga desde os
tempos do “Cogumelo Atômico” – este livro quase todo catarinense. Com
carinho de Maura – Rio, Primavera de 82
.
353
Ao lado, carta de Samuel no dia do aniversário de Maura - 1983
Em 1984, aos oitenta anos de idade, surge
Poemas-Estórias
, livro de poemas publicado pela
Editora Achiamé, do Rio de Janeiro. Esse livro,
ilustrado por Márcia Cardeal, traz a epígrafe de
Almeida Cousin: “Eu fui o semeador / que não voltou
para colher”, e apresenta traços biográficos, como no
poema
Fragmentos de autobiografia
:
Nascida em Santa Catarina
nela estou plantada
e tenho ainda a glória
de amar e ser amada
por aquele a quem amo mais que a vida
Pais extremos mais infância triste
com irmãozinhos mortos
e a velha Bíblia em riste
Aprendi a ler quase brincado
e logo entrei num concurso infantil
de versículos de cor:
disse-os tantos que me mandaram parar
e deram-me, os pastores, o primeiro lugar
Prêmio maior e a primeira decepção:
354
outra Bíblia preta com a mesma história
do povo hebreu e seu Deus dos Exércitos
onde havia, é certo, a Poesia (que ninguém mata)
e a grandiosa figura do Cristo
mas a este eles mataram. Por isto
nunca mais eu lutei por prêmio algum
Pão farto só tivemos até que cedo Pai morreu
Outros golpes vieram - e ao luto
a luta brava sucedeu
Oh por que foi meu tio Júlio Régis
publicar meus textos matinais
depois de lê-los no inflamado tom
que os embelezava?
E por que aqueles varões ilustres
alguns dos quais meus mestres
pouco tempo antes
encontraram “valia” em meus escritos
e me fizeram entrar na Academia?
Deram-me como patrono um sábio homem:
Roberto von Trompowsky, marechal
(por que não um poeta pobre?
ou um esquecido mestre?)
Mas - embora distante do seu perfil e renome -
cumpri o dever de fazer-lhe o elogio
na noite da posse
a mais bela
da minha juventude:
355
quando entrei no Palácio da Assembléia
bandas de música me saudaram
chuvas de pétalas me festejaram
e uma enorme assistência me ovacionou
quando cheguei à poltrona para mim marcada
de rosas em botão
e quando terminei minha oração
Quanto ao discurso de José Arthur Boiteux
que fora amigo de meu amado Pai
e que a mim - como tantos dos seus pares -
me superestimava
seu discurso foi uma louvação
Dirão que tive a estréia acolhida com flores
Sim, mas com pedras também
... e a pedra fere, machuca
mas pode fazer emergir
o chão áspero da luta
A primeira chegou na manhã daquele dia
em repelente carta anônima
na qual se dizia
que eu não devia ir à festa
para não ser humilhada
pois gente indignada com o meu sucesso
ia tumultuá-la no momento certo
denunciando minha vida desregrada
Ardi de ódio e dor
ante aquele processo vil (e vão)
de me intimidar
mas logo reagi
356
Ninguém saber em casa
era o primeiro passo
pois minha Mãe querida
formosa e austera
não me deixaria sair
e eu precisava ir!
Eu precisava ir!
Aquela súbita ansiedade contrastava
com a demora em marcar o dia
de levar, como dizia Boiteux,
“sangue novo à Academia”
(um de meus irmãos lembrou).
e eu murmurei:
meu sangue hoje é velho)
interpretaram talvez como
em sendo acadêmico
envelhecia - o que não é vero
A verdade é que eu lembrava alguém
que não conhecera:
meu bisavô maragato
escondido no mato do Alto-Biguaçu
cerca de um mês dentro de um buraco
mas a quem o vitorioso tirano não pegou
E o sangue derramado em Anhatomirim
ferveu naquela manhã dentro de mim
Ah que as horas voassem a noite
descesse o carro chegasse
para me levar e meus gratuitos
inimigos vissem na minha simples
presença o meu desafio
357
o que eu não sabia (mas previa)
é que estariam calados sempre
e derrotados sentiram que
a mão que me atirou a pedra
foi quem a pedra feriu
No final, traz algumas opiniões sobre
Verbo Solto
Cousin sendo homenageado pela Federação das Academias de Letras do Brasil – 05/11/1982
358
Em 1985, participou do Projeto Sanfona, de Flávio José Cardozo e Silveira de Souza, em
Florianópolis, publicando
Sete poemas de amor
. Nesse mesmo ano publicou pela Fundação Catarinense de
Cultura
Busco a Palavra
, com capa de Márcia Cardeal, ilustrações de Quirino Campofiorito e introdução de
Lauro Junkes. Dedicou o livro ao marido: “Para Almeida Cousin / Que me disse as palavras / Mais belas que
ouvi”; para o governador Esperidião Amim e a todos os seus amigos.
359
Lançamento do livro
Busco a Palavra
,
no Rio de Janeiro.
Esse livro é uma antologia e dedica alguns poemas a amigos, como Celestino Sachet, Alcides Buss,
Teresinka Pereira, Flávio José Cardozo, Lauro Junkes, Sylvia Amélia, Leatrice Moellmann, Pizzarro Drumond
e Penha e, entre outros, dedica à Zaurinha o poema
Colheita
e à memória do irmão Roberto o
Poema para Ziró
.
360
Cartão de Cecília Meireles a Maura
São Paulo, Verão, 88.
Querida grande amiga e Poeta, Maura
Recebi o teu lindo poema “Busco a Palavra”. Se
eu soubesse escrever como escreves, sentiria-me muito
feliz. Tens o dom da palavra. Como disse, a considera a
maior poeta da nossa geração. Se eu conseguir editar meu novo livro, faço questão de colocar na
orelha, o teu louvor a cavala marinha”. Isso até me envaidece pelo peso do teu valor.[...] Beijos da
irmã Cecília.
Foto de Cecília Meireles
Foto de Maura. (Sem referência)
361
Dois fatos importantes aconteceram ainda em 1985; pelo livro
Busco a Palavra
, recebeu medalha
do Mérito Anita Garibaldi, categoria bronze, por “serviços prestados ao Estado de Santa Catarina”, e tomou
posse no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina como sócia honorária, representada por seu
amigo e poeta Carlos Ronald Schmidt.
362
No verso, Maura escreve:
Maura, entre os bacharéis, (seu marido, Dr. Drumond Morais,
devidamente credenciado pelo Espírito Santo, advogado Cely Regis e escrevente juramentado
representando o tabelião) quando assinava a escritura de doação de seu apartamento ao Instituto
Histórico e G. do Espírito Santo. Em troca, o Instituto publicará as obras inéditas do seu marido.
16.12.89 (D
oação do apartamento de Almeida Cousin).
Maura - 1980
Um novo livro fluía aos 83 anos de idade. Maura tivera um sonho
com “muito realismo mágico”. Ao contar esse sonho à sua amiga e
conterrânea, a artista Márcia Cardeal, esta lhe fez uma ilustração que a
“obriga a escrever”
91
; o projeto estende-se e, em 1988, está praticamente
pronto.
Em julho de 1990 concedeu a entrevista
Uma poeta corpo a
corpo com a vida
, publicada em
Cultura
, pela Fundação Catarinense de
Cultura, em Florianópolis. Nessa entrevista, além dos importantes dados
referentes à sua vida, comentou seu novo livro:
91
PEREIRA, op. cit. p.36.
363
Foi um sonho que eu tive r-e-a-l. Eu conto o sonho como eu tive. Esse
sonho vinha me perseguindo desde Florianópolis. Sabe, Florianópolis tem aquelas
ruas bem estreitinhas e eu sonhava porque eu era perseguida. Ah! Eu era
perseguida lá. Era, sem dúvida. Mas então vinha em forma de sonho. Eu percebia
que era uma interpretação da minha vida. Era sempre noite, eu nem sabia quem
era e andava por aquelas ruas e virava esquinas e o sabia que lugar era aquele.
Era assim. Começou ali. Depois acordava e não pensava
mais naquilo.
Agora este sonho que eu tive dois anos
originou a
Andarilha da Noite
. Eram aquelas ruas, as
casas fechadas, ligadas umas nas outras, casas dos dois
lados da rua estreita. Eu andava, virava, era outra rua;
as casas a mesma coisa. E não encontrava ninguém e nem
era possível, porque eu não sabia quem era, não tinha
identidade. E também não levava nada nas mãos e tinha
a sensação de toneladas. Este sonho explica muito a
minha vida. E, de repente, me vejo numa praia extensa e
o mar, assim, da minha altura, e eu fiquei com tanto
medo e disse: ah!, se eu pudesse voltar para perto
daquelas ruas, pra andar naquelas ruas! eu já estava com
saudades daquelas ruas e elas não podiam fazer nada
por mim.
E assim eu dizia: o mar vai me acabar. Isto
porque meu irmão morreu no mar. (...)
364
A letra de Maura agora não apresentava a forma de antes; o tremor de suas mãos mostrava que a
idade e a doença pesavam-lhe. A vaidade ainda existia mesmo com a mão trêmula; passava batom, que muitas
vezes ultrapassava um pouco o contorno dos lábios, usava colares e brincos, sempre elegante. E nada a
impedia de continuar seu trabalho.
Em 17 de janeiro de 1990, Maura escreveu “à
Ilustre mestra e amiga Zahidé Muzart” sobre uma exposição na
Biblioteca Estadual de Santa Catarina, para a qual foi convidada
a participar. Nessa carta, enviou recorte de jornal anunciando o
próximo livro, que pretendia lançar em naquele ano. Explica o
jornal
Gazeta de Notícias
que o livro teria o selo da Livraria e
Editora Taurus, do Leblon e a capa seria de Márcia Cardeal.
Recorte enviado na carta.
365
Carta enviada a Zahidé Muzart.
17 de janeiro de 1990.
366
Em 11 de março de 1991, um dia após o
aniversário da poetisa, faleceu no Rio de Janeiro o
poeta, escritor, jornalista e humanista José
Coelho de Almeida Cousin, aos noventa e quatro
anos de idade.
Andarilha da Noite
não pôde ser
publicado. A dor pela perda daquele que foi seu
companheiro por meio século fez com que Maura
destruísse o manuscrito desse livro. Rasgou-o em
pedacinhos. Explicou à Zaura Dupont, a única ir
viva na época:
Este livro era dedicado ao Cousin.
Ele não está mais aqui. Não quero mais imprimi-lo
.
Do livro, sobrou apenas o poema “Os Adereços”.
Esse foi o motivo que a fez desistir de trabalhar.
A mulher lutadora não tinha mais motivos para
continuar.
Manuscrito do poema
Os Adereços
.
367
Foto atual do prédio onde Maura morou no Rio de Janeiro, localizado à Rua
Jerônimo Monteiro, 216, Leblon.
No ano seguinte, em
janeiro de 1992, Maura foi
hospitalizada no Rio de Janeiro.
Faleceu no dia vinte e um do
mesmo mês, às dezenove horas, no hospital da Rua Juquiá, nº.
18. A causa da morte, atestada pelo dico Dr. Fernando da
Rocha Marques, foi septicia, atrofia cerebral.
Seu intento de ser “espalhada pelos ventos, num
gesto de quem espalha semente”, como retrata em seu poema
“Testamento”, não se realizou. Maura de Senna Pereira foi
enterrada no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
Certidão de óbito de Maura de Senna Pereira.
368
Cemitério São João Batista e túmulo onde Maura está
enterrada.
369
QUARTA PARTE
PÓS-MORTE
Testamento
TestamentoTestamento
Testamento
O que me punge não é propriamente a morte,
embora me revolte:é a tumba, a podridão
Quando tudo deveria ser feito para alegrar a vida,
que só a vida importa,
nada se omite para tornar menos triste a morte
ao ponto de fazer a terra cúmplice
do banquete macabro que eu não quero ser
A terra é para se abrir em flor e fruto,
dar a espiga o cacho o grão a fonte o bosque.
a terra é para nutrir, não consumir.
(Como, em verdade, definir a vida
se me transformarei em lembrança? e a eternidade
se, quando por sua vez morrerem os que me amam,
de todo me finarei? Porém o que não é inevitável
é a degradação de apodrecer)
370
Ora, dirão, a cremação não tarda
e poderás escolher... Pois, se assim for,
que eu arda morta como ardi em vida
por meu amor, meu sangue, meu amigo, pelo ser humano,
[por um mundo melhor
Mas, por favor, não me prendam depois em nenhuma arca
seja de madeira ou de lata, nem de ouro nem de prata
Não me guardem (cruzes!)
E – já em cinzas livres e quentes –
num gesto natural de quem espalha sementes
eu seja espalhada pelos ventos
É este o meu intento, é isto só que eu peço
Estarei toda no universo
e não serei nada
Maura de Senna Pereira
371
Janeiro de 1992, os jornais da capital e de outras cidades noticiavam a morte da mulher que trouxe
mais poesia à Ilha Verde, lugar em que Maura viveu e que muito amou.
A Notícia
, 23/01/1992
Diário Catarinense
, 23/01/1992
À esquerda, o jornal
A Notícia
homenageia Maura
com dois poemas e trechos de uma entrevista. 26 de
janeiro de 1992.
372
Jornal de Santa Catarina
, 26 de janeiro de 1992, com depoimento de Pascoal Apóstolo Pitsika,
presidente da
Academia Catarinense de Letras
na época.
373
07/05/1992 - Sessão de Saudade
Convite para a posse ao novo membro da Academia Catarinense de Letras, Salomão Ribas
Júnior. Passa a ocupar a cadeira da cadeira nº. 38, que fora de Maura.
A posse aconteceu no dia 11/11/1993.
374
Jornal Universitário
, refere-se a
Maura - 06/06/1997
O livro
Viagens com Maura
, de Pedro Bertolino, ensaio de
esboço biográfico.
375
Jornal
A Notícia
– 20/07/2003
Maura “Feminista e revolucionária”.
Diário Catarinense
,
Caderno Variedades
.
No centenário de seu nascimento, em 10 de março de 1994, os
jornais homenagearam a poetisa. O diário Catarinense publica nesse dia
uma página inteira sobre Maura, com a foto no dia de sua posse. Explica
que apesar de ter sido uma poetisa que renovou a literatura catarinense
na época, ainda não é reconhecida pelo público.
376
A Notícia
, 30/06/2004
À direita: jornal
Diário Catarinense
: 31/07/2004
O jornal publica o lançamento do livro
Maura de Senna Pereira: Poesia Reunida
,
organizado por Lauro Junkes, em homenagem ao Centenário ao nascimento da
poetisa. Esse livro faz parte da Coleção ACL e resgata os poemas, as entrevistas
e os textos importantes de Maura. Muito bem organizado pelo professor da
Universidade Federal de Santa Catarina e também presidente da Academia
Brasileira de Letras, traz os títulos dos poemas organizados em quadros, de
forma que fique claro ao leitor como os poemas se repetem nos livros de Maura.
377
Salim Miguel escreve “Maura Vanguardeira”, e comenta a homenagem prestada à Maura na Assembléia
Legislativa, pelo centenário de nascimento da poetisa. Foi nessa ocasião o lançamento do livro
Maura de Senna
Pereira: Poesia Reunida
, organizado por Lauro Junkes.
Convite para sessão solene em homenagem ao centenário de nascimento de Maura. 30/06/2004
378
VENTO SUL
100 x 73 – óleo sobre tela – Paris – 1997
Obra de Juarez Machado, inspirado numa
balada de Maura.
Vento Sul
O vento sul chegou
desfolhando papoulas
vergando caules
sacudindo pólens
agitando palmeiras.
As águas se levantaram em cóleras plebéias
as aves tremeram.
Tremeram
as pencas leves das glicínias
e os gerânios duros dos balcões.
No meio do jardim convulsionado
toda entregue ao seu desvario
fico de pé como uma árvore flexível
- as ânsias e os cabelos em desordem
as mangas largas voando –
a parecer uma alegoria do vendaval.
O vento sul chegou
379
abanando possesso
a minha velha cidade menina
roçando casas
virando esquinas
levando areias, folhas, conchas.
Sou tua namorada, vento!
Leva-me também
leva-me contigo
para longe de mim.
Busco a Palavra
- 1985
380
Praça XV de Novembro – década de 90
Fonte:
Retratos de Florianópolis
. Beto Abreu
381
382
Considerações finais
Considerações finaisConsiderações finais
Considerações finais
Uma mulher à frente de seu tempo, uma figura singular do feminismo catarinense por sua fina
espiritualidade e por sua brilhante atuação no jornalismo e na literatura. Uma pioneira! Assim Maura de
Senna Pereira é citada por escritores de sua terra.
Se em menina era destaque por sua inteligência, sua capacidade de memorização e pela desenvoltura
quando recitava textos de cor, quando adulta continuou a destacar-se por tais qualidades e sobretudo pela
força de trabalho e pela luta por suas idéias.
E sua luta começa nessa época, pois passou a trabalhar em jornais catarinenses, o que propiciou
manifestar seu apoio pelas causas dos menos favorecidos, como o desejo de libertar a mulher da submissão.
Por meio de seus textos jornalísticos, procurava mostrar às mulheres o seu verdadeiro valor, incentivava-as a
estudar, pois seria uma forma de libertá-las da opressão em que viviam. Lutou por causas feministas,
mostrando garra e coragem para enfrentar as barreiras do preconceito. O que Maura idealizava para a
mulher, assim como Maria Lacerda de Moura, Nísia Floresta e tantas outras feministas, não era ser superior
ao homem; era, sim, acabar com a opressão vivida pelas mulheres ao longo dos séculos.
Além das causas feministas, a valorização à terra natal era tema recorrente em seus textos e
poemas. Ao morar no Rio de Janeiro, procurava mostrar ao grande público o valor dos escritores
catarinenses, divulgando os livros dos conterrâneos em algumas livrarias cariocas, onde tinha amigos. Sua
terra jamais foi esquecida. Encontrou no Rio de Janeiro aquele que foi o grande amor de sua vida, Almeida
Cousin, e foi feliz com ele, mesmo amargando a tristeza de não ter filhos. O amor do casal, segundo
383
depoimentos de quem conviveu com eles, foi um amor sereno e forte, constante até o fim. Um dedicado ao
outro, um verdadeiro amor.
Criada sob a pressão das regras de sua Igreja, com a morte prematura do irmão Carlos perdeu a
crença religiosa e passou a acreditar que viera do e ao pó tornaria. Não gostava de pensar que a morte era
inevitável; queria ser lembrada e tudo fez para que seus textos sobrevivessem após sua morte. Mas a mulher
que muito fez pela literatura catarinense e pelo jornalismo não teve o reconhecimento do público brasileiro
em vida.
Assim, diante da valorização que a poetisa deu a Florianópolis e toda Santa Catarina, nada nos foi mais
justo e gratificante do que compor essa fotobiografia que, além de reviver a poetisa e jornalista, mostra um
pouco da terra que ela tanto amou. Apesar do pouco tempo para a pesquisa, por meio desse trabalho
conseguiu-se mostrar uma mulher de talento e que teve muita importância para a cultura catarinense.
Transcorridos dois anos de incansável busca sobre a vida e a obra de Maura, sabe-se que muitos
estudos ainda podem ser feitos e que o breve período de tempo de um mestrado não permitiu. A pesquisa não
se esgota aqui, seriam necessários, talvez, outros tantos anos para melhor estudar a obra jornalística, que é
tão rica, e dela tirar muitas outras informações. Um estudo aprofundado sobre a atuação feminista de Maura
na imprensa impõe-se para futuras incursões no mundo desta mulher extraordinária.
A pesquisa realizada em várias instituições como a Biblioteca Pública e, principalmente a Academia
Catarinense de Letras, onde está depositado o acervo de Maura, doado pela família, permitiu que o presente
trabalho se concretizasse.
384
CRONOLOGI
CRONOLOGICRONOLOGI
CRONOLOGIA
AA
A
1877
No dia 30 de abril
nasce José de Senna Pereira, o
pai de Maura, em Nossa
Senhora do Desterro, que em
1894 passa a denominar-se
Florianópolis.
1885
Nasce no dia 1º de
outubro Amélia Régis de Senna
Pereira, mãe de Maura, em
Desterro.
1901
No dia 6 de janeiro é
fundada a Igreja Presbiteriana
de Florianópolis; um dos
fundadores é José de Senna
Pereira.
1902
Data provável do
casamento entre Amélia e José
de Senna Pereira.
1904
Maura de Senna
Pereira nasce às 03h30min do
dia 10 de março, à Rua
Deodoro, Florianópolis.
Primeira filha do professor e
contador José de Senna
Pereira e de Amélia Régis de
Senna Pereira, ambos naturais
de Florianópolis, antiga
Desterro. Seus avós paternos
eram Joaquim Senna Pereira e
Angélica Bousfield (de origem
inglesa), e maternos Francisco
Carlos Ferreira Régis e
Benvinda de Azevedo Régis (de
origem portuguesa). Seu bisa
materno, Régis, era maragato;
durante a Revolução
Federalista fugiu para
esconder-se na região de Alto-
Biguaçu.
1905
Data provável do
nascimento de Zaura, a
segunda filha do casal Senna
Pereira.
1907
No dia 29 de
dezembro, nasce à Rua
Deodoro o irmão Roberto de
Senna Pereira.
1909
Nasce no dia 20 de
janeiro o irmão Carlos, também
na Rua Deodoro.
1910
Nasce a quinta filha do
casal Senna Pereira, Ruth, no
dia 18 de abril, na Rua
Jerônimo Coelho.
Maura a revista semanal
Tico-Tico, que aprendera a
ler em casa.
Passa a freqüentar a Escola
Americana, junto à Igreja
Protestante. Criada com os
valores dessa igreja, freqüenta
com assiduidade a Igreja
Presbiteriana, sediada na Rua
Visconde de Ouro Preto.
Recebe da esposa do prof.
2
Laércio Caldeira de Andrada
uma blia com dedicatória,
como prêmio por recitar
versículos decorados.
Posteriormente, passa a
freqüentar o Grupo Escolar
Lauro Muller.
1911
Nasce Ilka, ir de
Maura, no dia 26 de novembro.
1912
Othon Gama D’ a,
então com vinte anos, tem a
idéia da criação de uma
Academia Literária em Santa
Catarina. A idéia foi lançada
através do jornalzinho literário
O ARGO
, de propriedade de
Altino Flores e José
D’Acampora. Todos faziam
parte de um grupo de jovens
estudantes do Ginásio
Catarinense, do qual
participava também Francisco
Barreiros Filho. Estes jovens,
voltados e preocupados com a
literatura, não se satisfaziam
com a literatura nacional e iam
em busca de escritores
estrangeiros, pois a venda de
livros era precária em
Florianópolis e não dava
escolha aos leitores. No
entanto, a idéia não se realiza
de imediato.
1913
Nasce Carmen, irmã de
Maura, no dia 14 de julho.
1914
Nasce o irmão Saul, no
dia 24 de dezembro, que morre
criança.
1915
Data provável do
nascimento de outro irmão, que
terá o mesmo nome do
falecido; também morre
criança.
1916
Data provável da morte
de Zaura, a segunda filha. A
menina sofre uma queda quando
pequena e fica doente por sete
anos.
Nesse mesmo ano, no
dia 14 de junho, nasce outra
irmã que receberá o mesmo
nome.
1918
Freqüenta a Escola Normal de
Florianópolis, onde conclui sua
formação em 1921. É oradora
da turma em sua formatura.
1919
Nasce o irmão Jode
Senna Pereira Filho, no dia 02
de dezembro.
1920
Em março, é lançada a
revista mensal
TERRA de
Artes e Letras
, dirigida por
Altino Flores, Ivo D’ Aquino e
Othon Gama D’Eça, e
secretariada por Luiz Osvaldo
Ferreira de Melo. A revista
TERRA deu oportunidade à
reunião dos intelectuais de
várias tendências e com
3
atividades diferentes,
proporcionando o surgimento
da Sociedade Catharinense de
Letras, que é fundada em 30
de outubro, por iniciativa de
José Arthur Boiteux. A este
coube a presidência. Segundo
Altino Flores, a idéia de Gama
D’Eça não teria dado certo oito
anos antes, pois em Santa
Catarina não existiam
escritores em número
suficiente para preencher as
40 vagas.
A partir desse ano (1920),
Maura foi aluna de Altino
Flores, Lente de História e
Geografia, Barreiros Filho,
Lente de Português e
Literatura, José Boiteux e
Odilon Fernandes.
1921
Em maio, com os
estatutos aprovados, são
escolhidos os Patronos para
cada uma das Cadeiras da
futura Sociedade Catarinense
de Letras. Os nomes foram
distribuídos por ordem
alfabética.
Em 19 de dezembro,
Maura entrega às colegas de
Curso da Escola Normal um
álbum para guardar como
lembrança. Nele, as amigas
transcrevem poemas de livre
escolha, muitos sonetos. Isaura
Veiga de Faria, professora da
Escola São José, depois Grupo
Diocesano, escreve um poema
metrificado especialmente
para Maura.
1923
Morre aos 46 anos de
José de Senna Pereira, seu pai,
no dia nove de fevereiro,
deixando a esposa grávida.
Maura assume o trabalho e o
sustento de seus irmãos.
Torna-se professora e, nessa
data, decide-se pela sua
produção literária, iniciando
sua participação em jornais.
Cinco meses após a morte do
pai, no dia 04 de julho, nasce
Samuel, seu irmão.
1924
A Sociedade
Catarinense de Letras passa a
ser chamada Academia
Catarinense de Letras.
Maura assume a
presidência da Sociedade
Auxiliadora dos Moços na
Igreja Presbiteriana e torna-
se professora da Escola
Dominical. Passa a escrever
textos de caráter religioso,
com participação intensa nas
atividades da sua Igreja.
1925
Torna-se uma
participante ativa como
redatora e colaboradora da
Revista do Centro; trabalha
com seu mestre Barreiros
Filho.
Defendia abertamente os
direitos da mulher, a
democracia, as minorias, os
oprimidos, o divórcio, a
liberdade de imprensa, uma
nova moral. Na primeira
4
matéria que escreve para a
Revista do Centro Catarinense
de Letras
, analisa duas
mulheres bíblicas, sugerindo
concepção da relação amorosa
para além da definição
heterossexual. No número dois
da revista trata da libertação
da mulher. Ao número três
defende veemente o voto
feminino. Depois, sua posição
em favor do divórcio. Maura
trata dessas questões em seus
textos jornalísticos até as
últimas edições da sua coluna
“Nós e o Mundo”.
1926
Inicia seu trabalho no
jornal
República
.
1927
Em 03 de setembro é
eleita para a Academia
Catarinense de Letras, por
proposta de Henrique Fontes,
com apoio de Othon D´Eça,
Clementino de Brito e Laércio
Caldeira de Andrada, sem que a
mesma se candidatasse.
1928
Foi a primeira mulher a
tornar-se paraninfa na Escola
Normal.
Estando no magistério
e no jornalismo, empenha-se
em mudar a sociedade e a
condição da mulher.
1930
Ano de comemoração
de dez anos da Academia
Catarinense de Letras.
Morre no mar, no norte
do Estado, Carlos, seu irmão de
apenas 21 anos.
1931
Em fevereiro, quatro
meses após sua posse na ACL,
viaja no paquete “Carl
Hoepcke” para o Rio de Janeiro
em companhia da esposa do Dr.
Donato Mello, diretor da
Penitenciária do Estado. A
imprensa registra:
Deve
seguir hoje para o Rio a
passeio, a senhorita Maura de
Senna Pereira, colaboradora
assídua e muito apreciada de
República
e uma das figuras
mais brilhantes da Academia
Catarinense de Letras
”.
Através dos vários recitais
realizados, consolida seu
espaço na Capital da República.
Em maio, ganha uma
página no jornal
República
,
“Domingo Literário”, página que
a consagrou.
Em fevereiro deste
ano, escreve:
em Santa
Catarina não se verificou esse
movimento modernista, que
está florindo não nos
grandes centros do país, como
ainda em Estados menores,
como, por exemplo, no de
Alagoas, mantendo-se a nossa
literatura, por assim dizer,
clássica e quieta
...”.
Em 21 de agosto
acontece o noivado com Dorval
Lamote. Esse fato foi notícia
de sociedade tanto em
Florianópolis como na capital
federal. A revista FON-FON,
do Rio de Janeiro (entre
5
outras), publicou:
A senhorita
Maura de Senna Pereira, jovem
e brilhante escritora de Santa
Catarina, nossa apreciada
colaboradora e figura de
destaque na sociedade de
Florianópolis, ficou noiva(...) e
mandou, gentilmente, (...) a
participação desse contrato de
casamento, que é uma nota
interessante para a vida social
brasileira
”.
Casa-se no civil, às
19h30min do dia 01 de
dezembro, na casa de sua mãe,
situada à Rua Gal. Bitencourt,
número 17. A cerimônia
religiosa ocorreu no mesmo dia,
às 20h30minh, na Catedral de
Florianópolis, sendo celebrante
o Revmo. Evaristo Schurmann
que leu expressiva mensagem
do Exmo.sr. Arcebispo
Metropolitano, em que Maura
foi referida como “um grande
talento num coração boníssimo
de menina”. Passa a assinar-se
Maura de Senna Pereira
Lamote.
Publica o primeiro livro:
Cântaro de Ternura
, conjunto
de textos em prosa poética,
editado pela Livraria Moderna
de Paschoal Simone, capa de
Correia Dias, marido de Cecília
Meireles.
1932
O Rotary imprimiu em
bronze o poema “Ilha Verde”,
que foi publicado no
Domingo
Literário
, do jornal
República
,
em 07/08, e na Revista
FON-
FON,
do Rio de Janeiro, à
mesma época.
Suicida-se a irmã
Carmem.
1933
Por ocasião da vinda da
declamadora Margarida Lopes
de Almeida (filha de Julia
Lopes de Almeida) a
Florianópolis, que deslumbrou a
intelectualidade da época,
Maura publica no
Domingo
Literário
, em 23 de abril,
versos dedicado à escritora.
Esses versos foram reeditados
em sua coluna
Nós e o Mundo
,
em 17/10/1977.
No dia 17 de setembro
é publicada pela última vez a
sua página
Domingo Literário
.
Vai morar com o marido em
Porto Alegre (contra a sua
vontade), onde passa a militar
na imprensa ativa e
profissionalmente.
1934
Em janeiro deste ano,
toma posse na Academia
Catarinense de Letras a
poetisa Maura de Senna
Pereira, vindo a ocupar a
cadeira nº. 38, tendo por
Patrono o matemático e
marechal Roberto von
Trompowsky. É conduzida ao
recinto por Nereu Ramos e
José de Diniz; o discurso de
recepção foi pronunciado pelo
Presidente, Desembargador
José Boiteux. Foi a primeira
mulher a ser eleita para uma
Academia de Letras no Brasil.
6
Morre José Boiteux, fundador
da ACL. Com o falecimento de
seu fundador e sem ajuda
governamental, a Academia
recolheu-se.
1940
Lança o livro
Discursos
em Porto Alegre, com edição
da própria Maura.
Termina seu casamento com
Dorval Lamote. Aproveita a
ausência do marido, volta para
Florianópolis, deixando-o em
Porto Alegre. Em entrevista
concedida a Colaca Granjeiro e
Silveira de Souza, publicada em
Cultura
(FFC, 1990), diz:
Houve
um erro. A gente é mulher, não
é
? Foi um erro ter ido para
Porto Alegre e também ter se
casado.
1941
Maura deixa Florianópolis; é
verão, viaja no navio
Carl
Hoepck..
Transfere-se para o
Rio de Janeiro, onde passa a
atuar profissionalmente na
imprensa.
Conhece pessoalmente
o poeta e humanista mineiro
José Coelho de Almeida Cousin,
com quem refaz sua vida
amorosa. Em Florianópolis,
havia publicado vários textos
do poeta em sua página
Domingo Literário
.
Trabalha em vários jornais,
entre eles,
Gazeta de Notícias
,
no qual se manteve por mais
tempo com a coluna
Nós e o
Mundo
.
1949
Publica seu segundo
livro de poesias,
Poemas do
Meio-Dia
, inaugurando a
Coleção Poesia Moderna
,
editada por Victor P. Brumlik,
com ilustração de Quirino
Campofiorito.
1951
Participa do Congresso
Nacional de Escritores, em
Porto Alegre, representando a
Academia Catarinense de
Letras. Nessa ocasião, é
fotografada ao lado de
Graciliano Ramos.
1953
Na companhia da
poetisa Sylvia Amélia, vem para
Florianópolis visitar sua mãe e
a imprensa local.
Apresenta um recital
pela Rádio Guarujá, muito
elogiado pelos jornais.
1956
Lança o livro de
reportagens ilustradas
Parto
se Dor
, publicado pela Simões
Editores. Passa a colaborar no
suplemento Dominical do jornal
O Estado
, dirigido pelos irmãos
Paschoal e Nicolau Apóstolo.
1957
Com um grupo de jovens, assina
o manifesto do “Movimento
Litoral”, passando a
considerar-se parte integrante
do novo grupo literário de
Santa Catarina, em
Florianópolis.
7
1959
Lançamento de seu
terceiro livro de poemas
Círculo Sexto
, publicado pelas
Edições Simões. As ilustrações
do livro o de Quirino
Campofiorito e orelhas de
Agripino Grieco e Eliezes
Demenezes. Homenageia o
Prof. Henrique Fontes, seu ex-
professor, com o autógrafo do
primeiro exemplar. O evento
festivo acontece às 17 horas
na Livraria São José, no Rio de
Janeiro.
1960
É feita averbação da
sentença de desquite do
primeiro casamento, a pedido
da Dra. Sylvia Amélia Carneiro
da Cunha, advogada e poetisa
da Academia Catarinense de
Letras. A averbação é
processada no Fórum do Rio de
Janeiro. Passa a assinar-se
Maura de Senna Pereira (com
dois “n”)
1962
Em edições de luxo, é
publicado pela
Livros e Arte
,
de Florianópolis, o livro
País de
Rosamor
, considerado por
Pizarro Drumond, da Federação
das Academias de Letras do
Brasil, como sendo a obra
prima de Maura. O livro
apresenta vinhetas originais
em madeira da autoria de Hugo
Mund Jr.
Na ocasião, falece D.
Amélia Regis de Senna Pereira,
mãe da poetisa, de pneumonia,
decidindo assim não fazer
lançamento do livro.
1963
Declama o poema
Rosa
da Feira
no recital poético de
Margarida Lopes de Almeida,
no Teatro Municipal do Rio de
Janeiro, às 17h15min do dia 05
de julho. Esse poema, em 1959,
é selecionado por Agripino
Grieco para “figurar nos
florilégios mais escrupulosos”.
Morre o irmão Roberto,
jornalista profissional e
redator dos anais da
Assembléia Legislativa do
Estado, em Porto Alegre.
1967
O Governador Ivo
Silveira, pelo Decreto nº.
6.078, denomina “Professora
Maura de Senna Pereira” o
Ginásio Normal do Município de
Pinheiro Neto, em SC. Maura
manterá correspondência com
a direção até o final de sua
vida.
É recepcionada por
Pizarro Drumond, na Federação
das Academias de Letras do
Brasil, como delegada de Santa
Catarina. Para fazer a entrega
da medalha da Academia
Catarinense de Letras,
compareceu à sessão Almiro
Caldeira de Andrada.
1968
8
É publicada a Revista
da Academia Catarinense de
Letras, sob a denominação de
SIGNO
. Em 1988, a revista
passa a se chamar
Revista da
Academia Catarinense de
Letras.
1969
Morre no Rio de
Janeiro o irmão José de Senna
Pereira Filho, oficial da
Marinha Mercante, que
recebeu o Diploma da Medalha
de Serviços de Guerra “pelos
valiosos serviços prestados ao
País”.
1973
Atendendo sugestão de
Maura, é publicada no Diário
Oficial da Assembléia
Legislativa do Rio de Janeiro”
(
Gazeta de Notícias
, 03/09) a
proposição do Deputado
Ferreira da Silva, denominando
“Araújo Figueiredo” a antiga
Rua Piabanha, em Vila Isabel.
1975
Para comemorar os 120
anos de Babicka, de Bozena
Nemcová (escritora
Tchecoslováquia), acontece no
dia 11 de novembro uma
palestra de Maura no auditório
do PEN CLUBE DO BRASIL.
1976
Lançamento do livro de
crônicas
Nós e o Mundo
, no dia
27 de julho, na Livraria São
José, do Rio de Janeiro, edição
da mesma empresa.
Em 18 de novembro,
palestra sobre “Lacerda
Coutinho Poeta para ser
lembrado”, realizada no Club
Engenharia do Rio de Janeiro.
1977
Comemoração do
centenário de nascimento de
José de Senna Pereira.
É escolhida para paraninfa dos
formandos em Técnicos em
Contabilidade e Assistentes de
Administração, em
Florianópolis, ns Escola Técnica
de Comércio Senna Pereira, a
qual tem por Patrono seu pai,
José de Senna Pereira.
1978
Promove, no dia 27 de
julho, tarde de autógrafos na
ABI (Associação Brasileira de
Imprensa), lançando
A Dríade
e os Dardos
, seu quinto livro de
poesias, editado pela Livraria
São José, do Rio de Janeiro. A
capa é de Ely Braga, ilustração
de Quirino Campofiorito,
vinhetas de Hugo Mund Júnior,
prefácio de Manuel Caetano
Bandeira de Mello. Faz
dedicatória a seu amor,
Almeida Cousin.
1979
O professor Dr. José
Coelho de Almeida Cousin,
marido de Maura, é vítima de
um atropelamento
automobilístico nas
proximidades de sua
residência, à Rua Jerônimo
Monteiro, número 216, sendo
hospitalizado em estado grave.
Sofreu contusões e
9
traumatismo cerebral. Ficou
internado por mais de um mês,
quando volta para casa para se
restabelecer, ficando aos
cuidados da esposa.
1980
Publicado pela Achiamé,
do Rio de Janeiro, o sexto livro
de poesias
Despoemas
. O tema
do livro é o drama vivido por
ocasião do acidente e
hospitalização do marido,
Almeida Cousin.
1981
Também pelas Edições
Achiamé, do Rio de Janeiro,
vem a público o sétimo livro de
poesias,
Cantiga de Amiga
.
Apresenta formato maior,
constituído por uma capa e
folhas dobradas no seu bojo.
Na última capa, Carlos
Drummond de Andrade escreve
belas palavras de
agradecimento pelos versos da
poetisa. Esse livro foi
traduzido para o inglês e
editado pela University of
Colorado, por Terezinka
Pereira, na série International
Poetry, em 1982.
1982
Em sessão especial na
Casa da Cultura, a Academia
Catarinense de Letras
comemora, em 18 de novembro,
seus 50 anos de literatura,
lembrando a publicação de
Cântaro de Ternura
.
Publica mais um livro de
prosa,
Verbo Solto
, pela
Editora Kosmos, do Rio de
Janeiro. O livro reúne
palestras e discursos da
autora, objetivando re-
homenagear figuras e fatos, e
lembrar uma fase de trabalho
constante.
1984
Aos oitenta anos de
idade, lança pela Achiamé seu
último livro de poemas
originais,
Poemas-Estórias
,
contendo inúmeros traços
autobiográficos. As ilustrações
são de Márcia Cardeal.
1985
Sete Poemas de Amor
é
publicado nesse ano em
Florianópolis, aos cuidados de
Flávio José Cardoso e João
Paulo Silveira de Souza, pela
Edições Sanfona, fazendo
parte do projeto Sanfona. São
poemas selecionados pela
autora.
1986
Às 16 horas do dia 30
de janeiro, a Fundação
Catarinense de Cultura de
Santa Catarina lança a segunda
e definitiva antologia de
Maura,
Busco a Palavra
, na
Livraria Taurus, no Leblon,
organizada pela autora. O livro
apresenta estudo introdutório
de Lauro Junkes, da Academia
Catarinense de Letras e da
UFSC, analisando a obra. A
capa é de Márcia Cardeal e as
10
ilustrações são de Quirino
Campofiorito.
A revista
Cultura
, da
Universidade Federal do Ceará,
publica em seu nº. 17 um
estudo sobre Maura de Senna
Pereira. A capa contém o
desenho de seu rosto a bico de
pena.
Pelo Decreto nº.
124/86, do Governador
Esperidião Amim, recebe a
“Medalha do Mérito Anita
Garibaldi”, categoria bronze,
pelos relevantes serviços
prestados ao Estado de Santa
Catarina.
Em 05 de dezembro
toma posse no Instituto
Histórico e Geográfico de
Santa Catarina, na categoria
de Sócio Honorário. É
representada pelo poeta e
amigo Dr. Carlos Ronald
Schmidt, que discursou na
oportunidade.
1987
Escreve carta para
Lauro Junkes comentando o
livro que se chamaria
Andarilha
da Noite
: “Eu pensava dar um
novo livro este ano, pois tive
um impressionante sonho com
muito realismo mágico e, ao
contá-lo à inteligente artista,
amiga e conterrânea, que tem
ilustrado meus últimos livros,
ela fez uma ilustração muito
adequada. E eu disse então:
Você me obriga a escrever um
novo livro este ano de 1987,
mas verifiquei que o sonho não
passava da metade de um livro
comum. Ao mesmo tempo o
editor adoeceu e eu tive que
adiar. O livro se chamará
A
Andarilha da Noite
. o sonho
está escrito. Vou juntar
páginas em prosa e verso. Sou
inteiramente sadia, mas que
tenho de melhor é a cabeça.
Sei de cor tudo que vou
escrever...”.
1990
Maura e o marido
recebem em sua casa, no Rio de
Janeiro, o escritor João Paulo
Silveira de Souza e a jornalista
Colaca Granjeiro para uma
entrevista.
Uma poeta corpo a
corpo com a vida
é publicada
no jornal
Cultura
, que é editado
pela Secretaria de Cultura do
Estado de Santa Catarina. São
sete páginas (p.8-11) de grande
valor para o estudo da
biografia da poetisa.
1991
Falece no dia 3 de
março o poeta e humanista
Almeida Cousin, segundo
marido de Maura e grande
sentido de sua vida. No dia 10
do mesmo mês, destrói os
originais do livro
Andarilha da
Noite
, o que seria mais uma
obra poética sua, restando
apenas o manuscrito do poema
Adereços
. Em quatro de maio
de 1992, sua ir Zaura
Dupont escreve para Paschoal
Apóstolo Pítsica comentando o
fato: “Rasgou-o em pedacinhos
sem que ninguém o visse.
Quando eu, horrorizada, pela
manhã, lhe perguntei por que
11
fizera aquilo, ela respondeu:
`Este livro era todo dedicado
ao Cousin. Ele não está mais
aqui. Não quero mais imprimi-
lo´”.
1992
Maura é internada e
atendida pelo Dr. Fernando da
Rocha Marques. Falece no Rio
de Janeiro, às dezenove horas
do dia 21 de janeiro, no
hospital situado à Rua Juquiá
nº. 18. É enterrada no
cemitério São João Batista,
RJ.
Para a presente cronologia,
além de documentos originais,
foram utilizadas as seguintes
fontes:
BERTOLINO, Pedro.
Viagens
com Maura: ensaio de esboço
biográfico em Maura de Senna
Pereira
. Florianópolis: Edição
da Academia Catarinense de
Letras, 1993.
CORRÊA, Carlos Humberto P.
Lições de Política e Cultura: A
Academia Catarinense de
Letras, sua Criação e Relações
com o poder
. Florianópolis:
Coleção da Academia
Catarinense de Letras, 1986.
PEREIRA, Maura de Senna
.
Poesia reunida e outros textos
.
Organização do Prof. Dr. Lauro
Junkes. Florianópolis: Coleção
da Academia Catarinense de
Letras, 2004
.
..
.
12
CASAS E LUGARES ONDE MAURA VIVEU
CASAS E LUGARES ONDE MAURA VIVEUCASAS E LUGARES ONDE MAURA VIVEU
CASAS E LUGARES ONDE MAURA VIVEU
1904 FLORIANÓPOLIS
Rua Deodoro
1910 FLORIANÓPOLIS
Rua Jerônimo Coelho
1919 FLORIANÓPOLIS
Rua Marechal Fox
1923 FLORIANÓPOLIS
Rua 24 de Dezembro (depois Crispim Mira)
1931 FLORIANÓPOLIS
Rua Gal. Bitencourt, nº. 17.
1933 PORTO ALEGRE
1939 FLORIANÓPOLIS
Rua Gal. Bitencourt, nº. 17.
1941 RIO DE JANEIRO
Av. Bartolomeu Mitre
Rua Jerônimo Monteiro, nº. 216, Apto 203, Leblon.
13
R
RR
R
EVISTAS E JORNAIS NO
EVISTAS E JORNAIS NOEVISTAS E JORNAIS NO
EVISTAS E JORNAIS NOS QUAIS
S QUAIS S QUAIS
S QUAIS
M
MM
M
AURA COLABOROU
AURA COLABOROUAURA COLABOROU
AURA COLABOROU
Jornais
JornaisJornais
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Esfera
(foi secretária)
301
L
LL
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IVROS PUBLICADOSIVROS PUBLICADOS
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Carta de José de Senna Pereira para Amélia. 17 fev.1898. ACERVO: ACL
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