
importância em se deixar de observar o fantástico como um produto da
doença terminal do escritor.
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No estudo “Maupassant, un homme
énigmatique”, ela argumenta sobre este ponto de vista:
Mas o leitor francês é tão desconfiado diante do irracional que
ele gostaria, de toda maneira, de colocá-lo em uma categoria
especial, deixá-lo inofensivo: veja, é um louco que escreve
histórias de loucura; nós podemos lê-las sem sermos
atingidos por elas! Tal asserção não resiste ao exame. Na
curta e tão intensa carreira literária de Maupassant, os contos
fantásticos estão presentes desde o início (“ Sur l’eau” faz
parte de La maison Tellier, “Fou ?” de Mademoiselle Fifi) e
conhecem um máximo de freqüência em 1885-1886, no
momento do Horla, para diminuir, em seguida, como se
Maupassant tivesse precisamente recuado diante de
narrativas que encenassem um destino que ele sentia que
seria o seu. Ele não deu um lugar especial aos seus contos
fantásticos, que fez aparecer em coletâneas nas quais eles
estavam juntos com narrativas ditas “realistas”. E quando os
escreveu, ele não estava “louco”. Ele dominava perfeitamente
seu assunto e sua escrita; ele se distanciava. O momento em
que Maupassant mergulha na loucura é precisamente aquele
em que ele pára de interessar à literatura: ele hesita, começa
romances que ficaram inacabados; depois não escreve mais
nada, toda criação artística dependendo de um controle que
ele não é mais capaz de ter. Os contos fantásticos são o
indício de um temperamento sensível, chegando ao
sofrimento; mas para explicar o talento deles, o talento, esse
temperamento não saberia servir como fio condutor. Criado
nas mesmas condições, atingido pelo mesmo mal, morto no
asilo três anos antes de Maupassant, seu irmão Hervé nunca
escreveu nada. […] Maupassant baseia suas narrativas
fantásticas nos riscos de alienação constantes de nosso ser.
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BANCQUART, Marie-Claire. Maupassant conteur fantastique. Paris: Minard, 1976.
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« Mais le lecteur français est tellement méfiant devant l'irrationnel qu'il voudrait à toute
force le caser dans une catégorie spéciale, le rendre inoffensif : voyez, c'est un fou qui écrit
des histoires de folie ; nous pouvons les lire sans être entamés par elles ! Pareille assertion
ne résiste pas à l'examen. Dans la courte et si remplie carrière littéraire de Maupassant, les
contes fantastiques sont présents dès le début (« Sur l'eau » fait partie de La maison Tellier, «
Fou ? » de Mademoiselle Fifi) et connaissent un maximum de fréquence en 1885-1886, le
moment du Horla, pour diminuer en nombre ensuite, comme si Maupassant avait
précisément reculé devant des récits qui mettraient en scène un destin dont il sentait qu'il
serait le sien. Il n'a pas donné de place spéciale à ses contes fantastiques, qu'il a fait
paraître dans des recueils où ils avoisinaient des récits dits « réalistes ». Et quand il les a
écrits, il n'était pas « fou ». Il maîtrisait parfaitement son sujet et son écriture ; il prenait
distance. Le moment où Maupassant sombre dans la folie, c'est précisément celui où il cesse
d'intéresser la littérature : il hésite, il commence des romans, restés inachevés ; puis il
n'écrit plus rien, toute création artistique procédant d'un contrôle dont il est désormais
incapable. Les contes fantastiques sont l'indice d'un tempérament sensible jusqu'à la
souffrance ; mais pour expliquer leur talent, le talent, ce tempérament ne saurait servir de