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a modernidade, mas é uma cidade que parou a si mesma no tempo – sua estrutura urbana
é velha, ultrapassada, e defronta-se com numerosos problemas de desenvolvimento. Foi
uma época agitada, entre o saneamento, revoltas, a derrubada de velhos prédios, abertura
de avenidas: enfim, O “Rio civiliza-se” em determinados pontos da superfície, mas a miséria
continua. (OLIVEIRA & GENS, 1987, p. X)
O Rio de Marques Rebelo – capital, cosmopolita, burocrata – aponta para um processo de
transformação do país, em face da modernidade industrial. E, nesse percurso, vai deixando
no caminho as marcas da ruína que subjazem à euforia do progresso. Microcosmo e
síntese do país, para onde convergem todos os ecos e de onde partem, no âmbito
institucional, todas as decisões, o Rio de Janeiro ultrapassa o sujeito: enciclopédia da
desorganização social configurada na falta de consciência das classes populares,
concomitante com uma rígida organização totalitária do Estado, que, sob o disfarce do
populismo, nutre, de maneira espetacular e com astúcia, a impostura de uma harmonia, de
uma identidade inexistente, usando o recurso de um risível chauvinismo. Resta, ante a
separação entre Estado e sociedade, o Carnaval, a esperteza do malandro, a coragem
ingênua de um tipo de mulher, numa forma de resistência difusa.
(RODRIGUES FILHO, 1986, p.115)
A respeito das mudanças pelas quais passavam a cidade retratada por
Marques Rebelo, é bastante claro o trecho a seguir, extraído de A guerra está em
nós, o terceiro volume de O espelho partido:
Para que passasse __é um exemplo__ a grandiosa Avenida Presidente Vargas
primeiramente derrubaram a igreja da Imaculada Conceição e a de São Domingos; nem os
católicos reclamaram muito, Nem a Cúria, eles crentes de que se tratava de progresso- e o
progresso é natural, como canta o sambista -, ela satisfeita com os bagarotes das
desapropriações, no fundo, um dez-réis de mel coado. Depois, pouco adiante, outras duas
velhas igrejas desapareceram, vítimas dum vandalismo que poderia ser evitado: a de São
Pedro Apóstolo, redondinha, com paredes largas de dois metros, argamassados a óleo de
baleia, e a do Bom Jesus do Calvário, duas vezes secular e que muito aparece nas
Memórias de um sargento de milícias.
Não adiante reclamar contra a transformação grosseira e desnecessária da fisionomia da
cidade__, os poderes são surdos pensando que são sábios. Fomos de passo triste para as
ruínas como quem visita um morto. Fomos vizinhos. Os operários arfavam no meio da
caliça. O montículo de tijolos parece um túmulo. Bom Jesus do Calvário, perdoai! A escada
de pedra que conduzia à torre do sino, curiosa obra de alvenaria, escada livre,
ousadamente sobre o vácuo, guardava ainda as marcas dos pés dos sineiros, que, através
dos anos por ela subiram. Sólida, granítica, destemerosa, resistia ainda como um protesto!
Mas os operários não paravam (REBELO, 2002c, p. 434-435).
Depreende-se, a partir das citações acima, a semelhança entre o Rio de
Janeiro de Marques Rebelo e o de João do Rio. A cidade que ambos representam é
idêntica e separada apenas temporalmente. É o “Rio Patológico”, segundo
denominação de Nelson Rodrigues Filho em referência às obras de Marques
Rebelo, antecipada por João do Rio em sua crônica “Visões d’Ópio”.
Respectivamente:
O Rio de Marafa e A estrela sobe é um Rio patológico que subjaz ao discurso e à
historiografia oficiais. No momento “heróico” da Revolução de Trinta, avulta __a exemplo do
que decorre com Manuel Antônio de Almeida, com relação ao “tempo do rei” ou Lima
Barreto com a chamada Primeira República__ uma população que não tem direito ao
discurso. (RODRIGUES FILHO, 1986, p.102)