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escritora faz um recorte de sua vida. Demonstra a sua mirada sobre o amor. Ela
invoca os seus eus, mulher/escritora/mãe/amante, e “com elementos autobiográficos
livremente apropriados e reelaborados” (FIGUEIREDO, 2007, p. 89), Lya Luft fabula a
sua própria existência numa história de amor e trajando a veste de amante,
confidencia: “De tal modo/ me torna parte de ti/ que não sei mais quem sou, que faço,/
de que lado me volto para te ver/ de longe ao menos, os olhos de promessa/ e as
mãos que mal tocando as minhas,/ conformam os meus dias” (LUFT, 1997, p. 115).
Ao analisar o sentido de si mesma e o sentido do amor, matéria poético-
ficcional enraizada nas relações humanas, Lya Luft estabelece relações do “eu” com o
mundo, do “eu” com os outros e dos múltiplos “eus” que habitam o “eu” mesma, e “En
esta red, las poéticas personales dan fe de uma notable pluralidad tonal y de múltiples
identidades”
18
(BOLAÑOS, 2008, p. 34). Assim, a autora arquiteta a sua identidade
narrativa, categoria apontada por Paul Ricoeur, que se revela através da dialética da
identidade pessoal/reflexiva talhada pela alteridade (RICOEUR, 1990, p. 167).
Este sujeto aparece en su estatuto discursivo de identidad, en la
emergencia del concepto de si mismo, fenomenológico y socializado,
ni homogéneo, ni autotélico, sino en las inflexiones de la praxis,
siempre relacional, pues comporta una alteridad externa, en relación
con los otros, e interna, su propia otredad, que también lo identifica
19
(BOLAÑOS, 2008, p.62).
Ao marcar a identidade narrativa através de seu nome, Lya Luft concebe a
sua dimensão discursiva em uma história de amor e se torna viva no plano ficcional.
A identidade narrativa não desagrega o si – próprio da experiência da alteridade –
do outro. A escritura, desse modo, é o espaço onde se encontra a constituição do si
mesmo, da sua interpretação, da relação dos outros e com o mundo.
Focalizando en las dimensiones discursivas y constructivistas, el
concepto de Ricoeur permite comprender de manera más advertida
la historia, a la par, la naturaleza de la enunciación, las peculiares
maneras de rememorar y percibir, de inventar y fabular. Da cuenta de
18
”Nesta rede, as poéticas pessoais dão fé de uma notável pluralidade tonal e de múltiplas identidades”
(tradução SC).
19
“Este sujeito aparece em seu estatuto discursivo de identidade, na emergência do conceito de si
mesmo, fenomenológico e socializado, nem homogêneo, nem autotélico, mas sim nas inflexões da
práxis, sempre relacional, pois comporta uma alteridade externa, em relação com os outros, e interna,
sua própria alteridade, que também o identifica” (tradução SC).