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instrumento de intercomunicação e de propaganda religiosa. Não houve, entretanto,
preocupação do jesuíta em descrever os fenômenos lingüísticos, mas codificar e descrever as
regras lingüísticas a partir do uso cotidiano da língua indígena.
Desde o início da catequese do gentio, no século XVI, ficou patente aos missionários
jesuíticos que não seria através de sua própria língua – espanhol e/ou português e, para certos
fins, o latim – que a catequese poderia ser levada a cabo. De outro lado, graças à compreensão
altamente gramatilizada do latim – codificado, preceptivo, mnemotécnico–, que eles
praticavam e conheciam metalingüisticamente, estavam eles mais do que ninguém aptos ao
tempo para ver as “unidades nas diversidades” que havia no território em certos grupos de
línguas mas não em outros (Houaiss, 1992:53).
Praticava-se essa língua geral, também conhecida como língua geral do Sul,
abanheenga
ou paulista, e língua geral do Norte,
nheengatu
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ou amazônica, como instrumento
de comunicação oral, formando uma
koiné
de base tupi, que, para Câmara Júnior (1979:101),
“não é exatamente aquele que os indígenas exatamente falavam: é uma sistematização
simplificada, feita para se proceder à propaganda religiosa dentro do ambiente indígena”.
Essa
propaganda religiosa obedece a um processo de evangelização pelo catecismo, principalmente
com as crianças, às quais a oração “Pai Nosso” é ensinada nas versões tupi e portuguesa. O
descaso com a educação e a cultura, a escassez de unidades escolares e a sistematização dessa
língua geral, cujos primeiros rudimentos foram passados aos jesuítas pelos nossos indígenas,
vão aprofundar a estratificação social, acentuando a diglossia de forma lenta e progressiva:
de um lado, a língua popular, entregue à sua sorte na boca de tantas e tão variadas
comunidades de analfabetos que se espalhavam pela imensidão do Brasil; de outro, a língua
dos doutores e dos padres, dos bacharéis bem-falantes, mosaico de fragmentos do passado
literário que essa elite de “bons latinos” aprendia em Coimbra, ou nas tradições portuguesas
conservadas nos colégios dos jesuítas – “signum” de superioridade cultural e também, mais
do que nunca de distância social (Cunha,1970:20).
Assunção e Fonseca (2005:169) acusam que o Pe. Anchieta já anotara na sua
Grammatica
: “nesta lingoa do Brasil não há f.l.s.z.rr dobrado nem muta com liquida, vt cra,
pra & c. Em lugar do s. in principio, ou médio dictionis seur, ç. Com zeura, vt Aço, cata”.
Acentua que os indígenas apresentavam grande dificuldade para pronunciar o /l/ e o /r/,
especialmente em final de palavras, levando-os a suprimi-los sempre que aparecessem. O
fenômeno foi registrado também Gabriel Soares de Sousa, entre outros cronistas da época:
faltam-lhes três das letras do ABC, que são F,L,R grande ou dobrado, coisa muito para se
notar, porque, se não tem F, é porque não têm fé em nenhuma coisa que adorem (...) E se não
têm L na sua pronunciação, é porque não têm lei alguma que guardar (...) E, se não têm esta
letra R na sua pronunciação, é porque não têm rei que os reja (...); para dizerem Francisco,
dizem Pancico; para dizerem Lourenço, dizem Rorenço; para dizerem Rodrigo, dizem
Rodigo, e por este modo pronunciam todos os vocábulos em que entram essas três letras
(apud Freire e Rosa, 2003:28).
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A Lei 145, de 11/12/2002, permitiu ao Município amazonense São Gabriel da Cachoeira adotar além do português, o
nheengatu, o tucano e o baniwa como línguas oficiais, embora a Constituição determine ser a língua portuguesa a língua
oficial do Brasil, in “Revista Ocas”-
Saindo das ruas.
Rio de Janeiro, nº 4, Maio de 2005, pp. 8-9.