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responde: “Não tem muita (...) as pessoas supõem que o livro tem um pré-texto que não
existe. É sempre um sarilho explicar isto”. A entrevistadora, então, pergunta: “A Lillias
apareceu primeiro?” A resposta de Hélia Correia é a seguinte:
Primeiro veio a minha viagem a Culloden e não teve nada a ver com
escrita. Foi um passeio de lazer, um ano antes de começar a escrever,
de busca de raízes, porque tenho sangue escocês. As afinidades que
tenho com aquelas terras célticas devem-me ter caído todas em cima
nessa viagem e foi por causa desse chamamento que fui lá.
As palavras da autora ratificam o que dissemos sobre a narrativa surgir
inicialmente como uma provocação da memória. Sua visita ao campo de Culloden foi,
na verdade, uma busca em conhecer mais sobre a sua história pessoal. Mais uma vez
percebemos que sua viagem não era apenas uma visita turística, mas sim uma tentativa
de resgatar uma memória perdida. Ainda nessa entrevista, Correia deixa claro que,
apesar de odiar o século XVIII, gosta de História e que teve que pesquisá-la para
compor o romance. Porém, garante que Lillias Fraser não é um romance histórico, pois
não parte da História para o romance, e que a História somente “veio por arrasto”
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Como forma de elucidação, transcrevo um trecho da entrevista. As frases em negrito são da
entrevistadora, Marisa Torres da Silva, e as outras são as respostas de Hélia Correia:
"Lillias Fraser" é um romance histórico?
Acho que não. O romance histórico parte da história para o romance e aqui a história veio por arrasto,
aliás muito violentamente. Percebi que era a Lillias no século XVIII...
...um século que odeia...
Sim, detesto-o! Não sei nada sobre o século XVIII, não gosto dele...
Mas ficou a saber entretanto.
Sim, mas não muito. Quando percebi que isto se passava no século XVIII, fiquei sem saber o que fazer.
Mas a Lillias estava nesse século e eu tinha de ir ter com ela, não a podia tirar de lá. Fui para a Biblioteca
Nacional, em pânico, a pensar como é que ia fazer a gestão de todo o conhecimento que ia adquirir.
Justamente porque não se tratava de um romance histórico, as coisas não podiam ser debitadas, tinha de
ser algo muito digerido, quase esquecido. Apanhei um susto com a bibliografia sobre a época pombalina,
porque só o index dos títulos existentes sobre esse assunto já era, ele próprio, um livro enorme. Mas
aquele não podia ser o caminho. Então optei por outra coisa, que já conhecia relativamente, porque tinha
lido muita coisa a propósito de Sintra, uma das minhas paixões. Tinha bastante literatura em casa, de
documentos autênticos, notas de viagem, sobretudo dos ingleses, que foram quem redigiu mais
impressões sobre o século XVIII português. Comprei mais um livro ou dois, que tive a sorte de encontrar,
com relatos autênticos sobre o terramoto [de 1755, em Lisboa]. E limitei-me a isso. A informação que
tinha era essa, não teve como base uma pesquisa exaustiva.