Assim, a leitura é corporal posto que perpassa pelo corpo do autor e do leitor,
pela fala do autor e do leitor. Se, como disse Merleau-Ponty (2002, p. 180), a fala
“nos atinge de viés, nos seduz, nos arrebata, nos transforma no outro, e ele em nós,
porque ela abole os limites do meu e do não-meu”, então é possível afirmar que a
leitura tem a capacidade de realizar semelhante façanha, pois no ato de ler o autor
seduz e arrebata o leitor e atravessa a fronteira entre seu corpo e o corpo do leitor.
De acordo com Merleau-Ponty (2003, p.133), “meu corpo é,
concomitantemente, corpo fenomenal e corpo objetivo”, ou seja, sensível e
sentiente. Há um entrelaçamento entre a visão e a percepção, entre o visível e o
vidente, já que o olhar envolve o texto e o desvela, pois “olhar, dizíamos, envolve,
apalpa, esposa as coisas visíveis.” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 130).
Ora, se a visão é “a apalpação pelo olhar”, se “quem vê não pode possuir o
visível a não ser que seja por ele possuído” e se “sou um ser sonoro”, conforme
afirma Merleau-Ponty (2003, p. 131, 140), no ato da leitura não apenas vejo as
paisagens e as personagens, mas também as toco, escuto seus sons e ruídos;
participo, enfim, de tudo o que se sucede no texto. Assim, a algaravia das palavras
no texto não me desnorteia, posto que as organizo de maneira a lhes inferir sentido,
sentido este inicialmente dado pelo autor por meio da estrutura textual, mas
enriquecido pelos sentidos que eu, leitor, insiro no momento da leitura.
Segundo Merleau-Ponty (2002, p. 32), na leitura vamos além do “pensamento
do autor, de tal modo que retrospectivamente acreditamos ter conversado com ele
sem termos dito palavra alguma, de espírito a espírito” e, foram as palavras que “nos
falaram durante a leitura [...] sustentadas pelo movimento de nosso olhar e de nosso
desejo, mas também sustentando-o [...].”
Destarte, conquanto o leitor traga consigo a linguagem falada, ou seja, a
linguagem que adquiriu ao longo da vida, a expressão acontece quando o livro
instiga o leitor, quando o texto dá margem à dimensão criativa do leitor, quando,
ajudado pelo autor, o leitor transforma as significações conhecidas em novas
significações. Existe, portanto, uma parceria no processo da leitura: o texto – que
apresenta signos, embriões da significação; o autor – que apresenta idéias, signos
transmudados em significações; e o leitor – que partilha dos signos fornecidos pelo
autor e, junto com este, transforma a linguagem falada em linguagem falante. Ora,
isso significa que, para Merleau-Ponty, as palavras do autor são lançadas no texto
com calor e paixão, sendo sustentadas pelo desejo do leitor, ou, dito de outra