
comuns, como a tristeza diante da morte de uma figura influente. “O luto não é
movimento natural da sensibilidade privada, atingida por perda cruel; é dever imposto
pelo grupo. As pessoas lamentam-se não simplesmente porque estão tristes, mas porque
são obrigadas a se lamentarem” (Durkheim 1989: 463). A sociedade adentra com tanta
força as consciências com suas regras e limitações, que acaba por nos organizar de uma
forma plena. Até mesmo as emoções – “vagas”, “inconsistentes” e “refratárias à
análise” como afirmado acima – não escapam da influência do social, indicando para o
quanto o mais biológico, individualizado e internalizado atributo humano sofre
interferências das forças societárias, externas a ele. Qualquer fenômeno tido como
idiossincrático seria, na verdade, uma forma individualizada de forças coletivas.
Muitos autores das mais diferentes correntes antropológicas dialogaram com
essa visão durkheimiana acerca do peso do social (ou da cultura para certas linhas de
pensamento) sobre as idiossincrasias dos sujeitos, procurando confirmá-la ou mesmo
refiná-la. Isso afastou em boa medida a confluência de estudos que se propusessem a
dedicar exclusivamente à investigação do campo emocional uma vez que este
permanecia sendo o último reduto biológico no socializado ser humano, mesmo diante
da constatação da existência de sentimentos coletivos
37
. Até mesmo a chamada “Escola
de Cultura e Personalidade”, cujos trabalhos se dispuseram a atentar para as dimensões
culturais das subjetividades, mantiveram a perspectiva essencialista e reificadora do
social sobre a dinâmica “interna” dos indivíduos
38
. Ruth Benedict (1934), um dos
37
É importante perceber que na teoria antropológica clássica a palavra “sentimento” é utilizada em
detrimento de “emoção” quando se busca afirmar a existência de experimentações individuais internas
compartilhadas por um determinado grupo social. É como se “emoções” fossem necessariamente aquelas
atreladas ao biológico, instintivas e naturais, enquanto que os “sentimentos” já seriam emoções
minimamente socializadas, aptas às interferências externas. Como esta dissertação tem a perspectiva de
borrar essa dicotomia, utilizo emoções como sinônimo de sentimentos e vice-versa, sem qualquer maior
distinção entre os termos, salvo quando me refiro às propostas dos autores que percebem uma distinção
entre eles.
38
O antropólogo Franz Boas, precursor da antropologia nos Estados Unidos, é considerado a grande
influência intelectual de tal corrente, na medida em que foi professor de vários de seus membros. Percebo
uma visão um pouco mais refinada do autor com relação às influências culturais em torno dos indivíduos,
destoando do mecanicismo durkheimiano. Boas tem plena consciência que a estrutura social tem poder de
determinação na maneira como os indivíduos atuam em comunhão. Mesmo acreditando que categorias
subjacentes e idéias que dominam determinada cultura fossem produtos históricos – estando, portanto,
sujeitas a mudanças e pressões – elas acabam existindo a priori, atuando no subconsciente de cada
indivíduo dessa cultura, influenciando suas opiniões e ações de variadas maneiras. Apesar disso, o autor
considera a possibilidade de que esse indivíduo reaja a essas determinações, influindo e transformando
essa cultura. Para Boas, a antropologia tem dado pouco destaque a esse outro lado da correlação que são
as respostas individuais à sua sociedade, o que não significa que ela deva abandonar a busca pelo
comportamento médio desses indivíduos. A variabilidade de possibilidades paralelas ao comum são
desvios, noção esta que além de ser utilizada posteriormente por participantes da “Escola” para refletirem
como a personalidade de alguém pode ser moldada pela cultura na qual ela está inserida, também