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só deus verdadeiro existe, o Deus Javeh ou Jeová dos antigos
hebreus, cujo filho Jesus Cristo, nascido de uma virgem, morto numa
cruz, instituiu uma confraria de sacerdotes chamada Igreja. Os três
ramos dessa Igreja, supermencionados, divergem acesamente,
sobretudo o romano e o protestante, que se excomungam e odeiam
mutuamente. Os sacerdotes romanos chefiados pelo papa de Roma,
têm a seu cargo salvar as almas humanas, separadas do corpo pela
morte, dos castigos infligidos eternamente, num lugar de suplícios, o
inferno. Para furtar-se a tais torturas, devem os homens, acima de
tudo, observar os mandamentos da lei de Deus e os dogmas da Igreja.
Esses mandamentos e dogmas encaminham os homens ao respeito à
propriedade e à obediência aos superiores, considerados
representantes de Deus na Terra.
Onde melhor podemos ver esse caráter protetor do capitalismo é
nas exceções escandalosamente abertas pela Igreja aos mandamentos
mais taxativos. Exemplo: um dos mandamentos ordena
peremptoriamente: não matarás. Se, porém os trabalhadores se
revoltam contra os patrões, os cidadãos contra o governo, ou se uma
nação declara guerra a outra, por mais injusta que seja, a polícia pode
matar e os exércitos se estraçalharem sem pecado. A Igreja em
muitos casos, abençoa, nos templos, as espadas dos oficiais, os
exércitos em marcha para as batalhas, e ela própria já teve exércitos
para defender as suas terras e os seus bens. Demais, a Igreja é
essencialmente capitalista: e seu papa, seus cardeais, seus arcebispos,
bispos, cônegos, monsenhores, vigários, padres, sacristãos vivem
parasitariamente, sem trabalho útil, das contribuições dos fiéis.
Tal religião é inimiga dos trabalhadores, porque lhes peia a
mentalidade, lhes ensina absurdos e mentiras mediante as quais lhes
vai sugando uma porção dos seus já minguados recursos.
As religiões longe de unirem os homens, desunem-nos, como se
vê na história do passado e no presente. Povos se entregladiaram por
causa das heresias, populações inteiras de protestantes foram
expulsas por ódio sectário, nações foram perseguidas, como os judeus
queimados pela Inquisição e, ainda hoje, trucidados nos celebres
pogroms. Os maometanos não suportam os hindus, os protestantes
não tragam os católicos romanos, estes não transigem com seita
alguma, anatematizam teósofos, espíritas, positivistas, novo-
jerusalemitas, etc. Além disso como seus ensinamentos não se
fundam em evidencias, afirmações que, todos sejam forçados a
aceitar pelo simples raciocínio ou pela experiência, fácil é surgirem
dúvidas, interpretações heterodoxas, heresias. Cada heresia é uma
nova fonte de discórdias, animosidades conflitos em famílias, entre
vizinhos, entre nações.
Por isso as religiões não podem resolver o problema da
fraternização dos homens. Tomando como exemplo a religião
católica, apuramos que, durante vinte séculos trabalhou ela por
moralizar a Europa, policiar o Ocidente, solucionar o problema
social. Que vemos? Sua ação, embora muito sensível e até mesmo
dominadora, foi ineficaz, pois a crise permanece, as guerras se
tornam de mais em mais devastadoras, redobram-se os vícios,
inventam-se novos, intensifica-se a prostituição com as dificuldades
econômicas, a luta entre os homens assumem proporções inauditas
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OITICICA, J. A religião – em: LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro da libertação social – Rio de
Janeiro; Mundo Livre, 1963. p. 202 -203.