
o próprio autor, está muito angustiado por ter derrubado seu soldadinho no chão.
Rapidamente, me abaixei, apanhei o soldado jazido, apalpei, e olhei. Ele
não estava quebrado, e viva foi minha alegria. O que expressei exclamando:
“ ...Indabem!”
Nesse cômodo mal definido – sala de visita ou de jantar, salão nobre ou
sala comum -, nesse lugar que não era senão o lugar da minha brincadeira,
alguém com mais idade – mãe, irmã ou irmão mais velho – estava comigo.
Alguém mais avisado, menos ignorante do que eu era, e que me fez
observar, ao ouvir minha exclamação, que o que se deve dizer é “ainda
bem” e não, assim como eu o tinha feito : “ Indabem!”.
A observação cortou minha alegria ou, melhor - me deixando um breve
instante pasmado - não demorou em substituir a alegria, pela qual meu
pensamento tinha sido inicialmente preenchido por inteiro, por um
sentimento curioso, do qual mal consigo, hoje, desvelar a estranheza.
Não se diz “...indabem”, e sim “ ainda bem” .
Essa palavra, empregada por mim até então sem nenhuma consciência de
seu sentido real, como uma interjeição pura, está ligada a “ainda” e, pela
virtude mágica de tal aproximação, se viu inserida de repente em toda uma
seqüência de significações precisas. Apreender de uma vez na sua
integridade essas palavras que antes eu sempre tinha arranhado tomou
uma feição de descoberta, como o rasgar brutal de um véu ou o ofuscar de
alguma verdade. Eis que esse vago vocábulo – que até o presente me tinha
sido totalmente pessoal e permanecia como fechado- ficou, por um acaso,
promovido ao papel de elo de um ciclo semântico.
Ele não é mais agora coisa minha: participa desta realidade que é a
linguagem de meus irmãos, de minha irmã, e a de meus pais. De coisa
própria a mim, tornou-se coisa comum e aberta.
..............
No chão da sala de jantar ou de visita, o soldado de chumbo ou de papel
machê, acaba de cair. Eu exclamei: “...Indabem!” Me corrigiram. E, por um
instante, permaneço pasmado, entregue a uma espécie de vertigem.
Leiris se viu roubado em sua palavra íntima que nomeava tão bem o seu
gozo, viu-a, angustiado, desaparecer na trama da linguagem: “tênue tecido de
minhas relações com os outros, me ultrapassa, estendendo para todo lado suas
antenas misteriosas”. Assim ele conclui o texto.
Tal como o cidadão Kane
26
, todos nós temos uma “Rosebud” (a jamais ser
traduzida por botão de rosa) perdida em algum lugar da infância, não no sentido de
quando éramos pequenos, mas, lembrando da etimologia da palavra, do lugar em
que a fala falta, in-fans.
É o que nos faz ir a Agamben (2007), em texto recente publicado no livro
Profanações: “Magia e Felicidade”. Ele se delicia com o tema afirmando: “O que
podemos alcançar por nossos méritos e esforços não pode nos tornar realmente
felizes. Só a magia pode fazê-lo.” (p. 23). É de levar Kant a se revirar em seu
descanso, pois para esse pai do Iluminismo, ali citado, a felicidade é algo destinado
26
Filme dirigido por Orson Welles, 1941.