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do público, do objetivo. A decisão pelo ensaio é aquela que deve
ser contemplada (DR: 94-5).
Por essa opção “sem rigor acadêmico” e por seu estilo “literopensante”
como diziam os professores da USP na década de 60
24
, Flusser configurou-se
como um pensador fora dos moldes da academia
25
, em desacordo com a
comunidade filosófica brasileira do momento.
(...) há muito tempo estou com a idéia de que o tratado filosófico
(texto alfanumérico sobre) não mais se adequa à situação da
cultura; de que os filósofos acadêmicos são gente morta, e que a
verdadeira filosofia atual é feita por gente como Fellini, os
criadores de clips, ou os que sintetizam imagens. Mas como eu
próprio sou prisioneiro do alfabeto, e como sou preso da vertigem
filosófica, devo contentar-me em fazer textos que são pré-textos
para imagens. A maneira de fazê-lo é escrever fábulas, porque o
fabuloso é o limite do imaginável
26
.
O que ocorre é que a filosofia brasileira ficou aquém de sua literatura, por
ter se tornado muito tímida e acadêmica, a segunda se desenvolveu e alcançou
níveis de excelência, o que não aconteceu com a primeira por medo de ousar, o
que nosso autor certamente não tinha. A filosofia e a literatura deveriam dialogar
no mesmo nível de igualdade:
Na verdade, Flusser compreende que a literatura não faz
propriamente um levantamento da realidade, antes cria realidade
nova – com o que, aliás, concordam os principais teóricos da
24
MENDES, R. Flusser: uma história dos diabos, 48 a 57.
25
Depoimento de José Arthur Giannotti em. Flusser: uma história dos diabos: “(...) O que se
choca, o que Flusser vem se chocar com nosso projeto, é que nós éramos técnicos e interessados
em formar carreira de filósofos, isto é, formar um departamento que pudesse fornecer ao ensino
de Filosofia, pessoas bem formadas na universidade, porque a rede universitária estava se
expandindo enormemente (...) (p. 51-52). Porque para nós a Filosofia passava por uma disciplina
do texto e, sobretudo, o que foi muito importante na nossa geração, passava pela alienação num
pensamento alheio, isto é, nós precisávamos perder a virgindade. A nossa virgindade significava
de tal forma ver o mundo, ou da perspectiva de Aristóteles, ou da perspectiva de Kant ou Husserl,
que não permitia esse narcisismo que é fazer com que todas as coisas pudessem ser refletidas
pelo meu olhar (MENDES, p. 49).
26
Vilém Flusser em texto de Maria Lília Leão em “Vilém Flusser no Brasil”, p. 18.