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CENTRO DE EDUCAÇÃO
DEPARTAMENTO DE LETRAS E ARTES
MESTRADO EM LITERATURA E INTERCULTURALIDADE
IDENTIDADE NEGRA E MODERNIDADE NA OBRA DE
LIMA BARRETO
Jackson Diniz
Campina Grande/PB
2010
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Jackson Diniz
IDENTIDADE NEGRA E MODERNIDADE NA OBRA DE
LIMA BARRETO
Dissertação apresentada como requisito
parcial à obtenção do grau de Mestre em
Literatura e Interculturalidade, Curso de Pós-
Graduação em Letras, Departamento de
Letras e Artes, Universidade Estadual da
Paraíba.
Orientadora: Profª Drª Rosilda Alves Bezerra
Campina Grande/PB
2010
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TERMO DE APROVAÇÃO
Jackson Diniz
IDENTIDADE NEGRA E MODERNIDADE NA OBRA DE
LIMA BARRETO
_______________________________________________________________
Profª Drª Rosilda Alves Bezerra (Orientadora)
Mestrado em Literatura e Interculturalidade – UEPB
_______________________________________________________________
Profª Drª Lílian de Oliveira Rodrigues (Examinadora externa)
Programa de Pós-Graduação em Linguagem - UERN
_______________________________________________________________
Prof. Dr. Luciano Barbosa Justino
Mestrado em Literatura e Interculturalidade – UEPB
Campina Grande, 26 de março de 2010.
A meus pais, João Vieira de Sousa e Francisca Natividade Diniz Vieira, aos
quais devo a razão de minha existência. Dedico.
AGRADECIMENTOS
À minha Orientadora, Rosilda Alves Bezerra, pela paciência, brilhantismo e
carinho com que conduziu a orientação desse trabalho.
Aos professores Zuleide Duarte, Luciano Barbosa Justino, e Lilian de Oliveira
Rodrigues, por aceitarem participar das bancas de qualificação e de defesa
deste trabalho, bem como pelo auxílio nas atividades acadêmicas e
empréstimo de material.
Aos professores e funcionários do mestrado em Literatura e Interculturalidade,
pelos belos ensinamentos e pela presteza com que nos trataram.
A meu Deus, criador de todas as coisas, que me deu sabedoria e forças para
enfrentar as agruras e dissabores nos momentos difíceis, bem como por ter
preenchido o meu coração, dantes, com sonhos, agora com alegria para
desfrutar os louros da vitória.
A meus pais pela forma humilde, porém carinhosa com que me educaram e me
incentivaram na realização deste trabalho, fazendo-me crer que os sonhos
podem ser realidades.
A meus irmãos (Roselina, Maria José, Ruama, Jarison, Jadierison e Jeziel)
pelo apoio e compreensão.
À amada de minh’alma, Aflânia Dantas Diniz, pelo carinho, ternura, afeto e
companheirismo;
Aos amados colegas do mestrado, em especial Ananília Meire, Marilia Maia,
Stefanya e Luciano Nunes, pelos bons momentos em que compartilhamos
sonhos e conhecimentos.
A todos os amigos que contribuíram direta ou indiretamente, com gestos de
carinho, palavras de apoio e incentivo para que a concretização deste sonho
fosse possível. A todos, muito obrigado.
Porque... o que é verdade na raça branca, não é
extensivo ao resto; eu, mulato ou negro, como queiram,
estou condenado a ser sempre tomado por contínuo.
Entretanto, não me agasto, minha vida será sempre cheia
desse desgosto e ele farme-á grande. (Lima Barreto)
RESUMO
A problemática da identidade tem se tornado um tema relevante na
modernidade, que se apresenta como um momento de transformação do
pensamento e, consequentemente, das estruturas sociais, como também se
caracteriza por um momento de intensos debates e de teorizações sobre
etnias. Este é um período em que as teorias racistas ganham espaço em todo
o mundo, apregoando a diferença natural e biológica entre os vários grupos
humanos, utilizando a ciência como força de legitimação da inferioridade de
grupos étnicos. Nesta perspectiva, a identidade de grupo, ou do sujeito
pertencente a grupos socialmente marcados, no nosso caso o negro, ocupa
amplo espaço dentro dos estudos culturais e sociais. Neste espaço, a literatura
de Lima Barreto se apresenta como uma fonte viável para se observar de que
forma este escritor se frente à sociedade burguesa e cosmopolita de início
do culo XX e como constrói seus personagens na teia das relações sociais.
Assim, lançamos mão do instrumento da pesquisa bibliográfica, analisando
algumas obras do escritor, lançando um olhar mais aprofundado em
Recordações do Escrivão Isaías Caminha e Diário Íntimo, através das quais foi
possível perceber que uma relação muito próxima do pensamento do
escritor carioca e o de pensadores contemporâneos sobre a temática da
identidade, especialmente identidade negra. Lima Barreto se apresenta e
apresenta seus personagens como negros, provocando um processo de
afirmação da identidade negra. Através dos escritos deste autor, pode-se
perceber que ele tinha uma visão profunda da conjuntura social brasileira,
elucidando o conflito social que se estabelece nas relações sociais, procurando
sempre transcender do individual para o coletivo, do local para o universal.
Com uma boa percepção crítica da realidade e com fortes doses de sarcasmo
e ironia, Lima Barreto mostra que a identidade que se criou do negro, bem
como a forma como este se enxerga frente a outros grupos sociais é uma
construção cultural que atende aos interesses de uma elite branca detentora do
poder de formação de opinião, como também aparelhada de instrumentos
capazes de criar estereótipos humanos.
Palavras-chave: identidade, modernidade, sujeito, racismo, Lima Barreto
ABSTRACT
The problem of identity has been becoming an important theme in the modernity, that we
present as a transformation moment of thought and, consequentely, of the social structures, as
well as we characterize for an intense debates and theoretical moment about races. This is a
period in which the theories racists take space all over the world, divulging the natural and
biological difference among several human groups, using the science as inferiority legitimation
force of ethnic groups. In this perspective, the identity of group or of the belonging subject for
socially marked groups, in our case the negro, occupies wide space inside the cultural and
social studies. In this space, the literature of Lima Barreto, presents as a viable strong to
observe what form this writer front to the bourgeois society cosmopolitan at the beginning of 20
th
century is seen and as it builds his characters in the web of the social relations. We thus seize
upon the instrument of the bibliographical research, analyzing some writer's works, launching
one look deepened most in The Sad End of Policarpo Quaresma. Clerk memories Isaías
Caminha and Intimate Diary, through which ones went possible to realize that there is a very
next relation of the carioca thought writer with the one of contemporary thinkers about the
thematic of the identity, especially of the black identity. Lima Barreto presents himself and
presents his characters as black, provoking an affirmation process of the black identity. Through
the written this author, it can realize that he had a profound vision of the Brazilian social
conjuncture, elucidating the social conflict that establishins the social relations, always
searching transcend of the individual for the collective, of the location for the universal. With a
good critical perception of the reality and with sarcasm and irony strong doses, Lima Barreto
exhibition that the quality that was created the negro, as well as the form as this exaggerates
front to other social groups is a cultural construction that attends to the interests of a formation
power white elite detainer of opinion, as well as equiped of able instruments of create human
stereotypes.
Keywords: identity, modernity, subject, racism, Lima Barreto
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...................................................................................................09
CAPÍTULO 1- CULTURA E IDENTIDADE NA MODERNIDADE.....................13
1.1 Considerações sobre a identidade na modernidade...................................13
1.2 Cultura e identidade brasileira: concepções teóricas..................................21
1.3 Lima Barreto: Um estranho no Brasil da Belle Epoque...............................33
CAPÍTULO 2 - LIMA BARRETO: O ESCRITOR NEGRO E A CRÍTICA
LITERÁRIA........................................................................................................47
2.1 O escritor e sua época: o cientificismo e o fascínio da ideologia racial no
Brasil..................................................................................................................47
2.2 Lima Barreto na contramão da crítica: entre a literatura e a
sociedade...........................................................................................................57
2.3 Vida e posicionamento: a escolha pela margem.........................................72
CAPÍTULO 3 - AUTO-IDENTIDADE E IDENTIDADE ATRIBUÍDA: O NEGRO
E O OUTRO EM DIÁRIO ÍNTIMO E RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA..........................................................................................................78
3.1 Auto-identidade: imagens de si em Diário íntimo........................................78
3.2 Identidade atribuída: o negro e o outro........................................................86
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................110
5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA...............................................................114
INTRODUÇÃO
Os estudos sobre a temática da identidade têm se mostrado cada vez
mais frequentes na atualidade, graças à sua importância e pertinência nos
debates realizados, principalmente, nas áreas das ciências sociais. Os estudos
culturais promovem uma singular contribuição para uma maior amplitude dessa
discussão, procurando entender como é construída a identidade do sujeito
moderno, que passa por um processo de fragmentação, e vive um momento de
indefinição, cujas identidades fluidas são formadas a partir das negociações e
embates travados no campo das relações sociais. No entanto, quem
questione o caráter fragmentário da identidade, mediante a percepção de
atitudes do sujeito moderno que se caracterizam como forma de reafirmação
de sua identidade.
A partir dessa perspectiva, realizamos um estudo voltado para a análise
da identidade do negro, tomando como base parte da literatura do escritor
carioca Lima Barreto, que viveu e produziu sua obra no período denominado
pela historiografia literária didática como Pré-modernismo. Lançamos o nosso
olhar em duas perspectivas temáticas: o estudo da identidade, a partir dos
estudos culturais e das relações sociais; e a compreensão das relações de
raças, os conflitos político-ideológicos travados nesse campo, especialmente
no século XIX no Brasil.
Na tentativa de elucidação de alguns conceitos, tais como racismo e
discriminação, atinentes a esse campo de estudo, nosso objetivo concentrou-
se em investigar de que forma o escritor Lima Barreto se posiciona em seus
textos, um eu-narrador que identifica-se como negro e como as personagens
de seus escritos posicionam-se de acordo com seus discursos e atitudes, no
que diz respeito à construção de identidade
A literatura é um instrumento viável para se vislumbrar em tais
temáticas, uma vez que, ao escrever, o autor traz para o seu texto ecos de seu
tempo, sendo possível se perceber, através do texto literário, o pensamento de
uma
determinada época, bem como a forma de concepção das relações que se
anunciam nas tramas da produção literária.
Os princípios introjetados sobre a representação do negro na sociedade
distorcem os pressupostos básicos da identidade e refletem o retrato
desfocado de rostos há muito aviltados por supostas diferenças epidérmicas.
No que diz respeito ao contexto histórico, pomos um divisor de águas
em nossa análise, o período republicano tendo como marco histórico inicial a
Proclamação da República e como marco final a Semana de Arte Moderna.
Neste sentido, evidenciamos o pensamento de intelectuais desse período
sobre essa temática, tomando como base os aspectos culturais e sociais
plasmados na literatura produzida no período, utilizando a título de referências
alguns fatos históricos que são marcantes e decisivos na história moderna do
Brasil.
O final do século XIX é um momento significativo para a história do
Brasil, dadas as mudanças ocorridas na base política e social do país, que
passa por profundas transformações econômicas, sociais, culturais etc. Na
literatura brasileira, surgem escritores que se engajam em pensar a causa do
negro. Cite-se como exemplo Cruz e Sousa, que era filho de escrava liberta e
dedicou a sua literatura, em alguns breves momentos, a denunciar o racismo,
no exemplo de “Emparedado”, embora não tivesse um plano de redenção e
inclusão do negro na sociedade moderna.
No início do século XX, entra em cena, na literatura brasileira, Lima
Barreto. Sua literatura não é apenas de denúncia da discriminação e do
racismo, mas também de identificação com o negro, e das variadas
características modernas nas obras estudadas.
Segundo Machado (2002, p.55), em Lima Barreto, ficção e realidade se
confundem, “caminham juntas a retratar os dramas pessoais e a vida da
época”. A literatura de Lima Barreto nos leva a pensar o negro como elemento
da brasilidade, ou seja, como elemento de formação da identidade nacional.
Como observa Proença Filho (2004, p.76), Lima Barreto tem uma atitude de
comprometimento com o negro, o seu olhar sobre o negro é um olhar de dentro
para fora, ou seja, é olhar o negro do ponto de vista do negro, como o próprio
Lima se dizia ser.
O escritor carioca conseguiu perceber uma sociedade plural formada
pelas várias etnias e pelos vários povos que compõem a nossa gente,
revelando esta sociedade, convivendo juntamente, não em harmonia, com seus
problemas e seus males: a exploração do homem pelo homem, a luta das
classes menos favorecidas e o drama dos favelados, que vivem em condições
subumanas na periferia das grandes cidades e tantos outros males da vida
moderna.
Como suporte teórico, utilizamos autores modernos e contemporâneos,
a título de exemplos Homi Bhabha (1998), Stuart Hall (2001), entre outros que
tratam da questão da identidade do sujeito na modernidade tardia, e que
trazem para o campo de debates questões cruciais, principalmente como
compreender processo de construção identitária do sujeito.
A obra literária se apresenta como o meio pelo qual o sujeito expressa,
no plano literário, sua identidade. Portanto, a teoria é convocada para o texto
como forma de corroborar a perspectiva construída no texto literário. A
produção limeriana, graças à sua insistência em abordar temáticas sociais e
existenciais, evidencia uma marca da modernidade.
A temática das raças, amplamente discutida no período da Belle
Époque, evidencia o interesse de intelectuais brasileiros de final do século XIX
em pensar os conceitos de raça e entender as relações raciais no Brasil. Foi
feito um percurso histórico das ideias raciológicas, mostrando que na
contemporaneidade esta temática tem ganhado novos enfoques, mostrando-se
esgotada e inadequada aos paradigmas do pensamento moderno, pelo fato de
seus conceitos conterem uma carga semântica político-ideológica. No entanto,
procurou-se entender como o discurso racial da época influencia a produção
literária. O escritor Lima Barreto, nascido em 1881 e falecido em 1922, cresce
num momento de expansão dos conceitos ideológicos sobre raças. Contudo,
pode-se perceber em sua produção literária uma tendência em romper com os
discursos cristalizados, que atendem aos interesses de uma elite branca e
europeizada.
O entendimento da temática da identidade do negro na modernidade foi
investigado em duas obras de Barreto, que são fundamentais para a ampliação
de horizontes a respeito deste assunto. A primeira obra em análise è
Recordações do Escrivão Isaías Caminha, o primeiro romance de Lima
Barreto, escrito em 1909, mostra a luta de um mulato contra a discriminação e
as dificuldades pelas quais passou no desejo de ser doutor, numa tentativa de
alcançar ascensão social dentro de um regime excludente. Os caminhos pelos
quais Isaías Caminha passou, a configuração do personagem, os atos de fala,
a forma como é tratado pela sociedade, evidenciam o preconceito e a
discriminação praticados pela sociedade da época, bem como serão
importantes no entendimento de como o negro era visto e como se via num
espaço cosmopolita e branco, pelo menos na forma de conceber a realidade.
A segunda obra analisada foi Diário Intimo na qual identificamos a
posição paratópica do autor, graças às peculiaridades da construção literária,
em que o autor se confunde com o narrador. Como observa Maingueneau
(2006), o autor ocupa um não-lugar. Mesmo assim, na perspectiva das vozes
do autor-narrador, trabalhamos com o conceito do olhar de si, procurando
refletir sobre qual a imagem que o negro tem de si mesmo. Portanto, esta
análise abrange duas dimensões da identidade: autoidentidade e identidade
atribuída.
O primeiro capítulo faz uma abordagem teórica sobre a identidade do
sujeito, tratando também de aspectos relevantes no âmbito da cultura e da
literatura na modernidade, procurando entender os principais pontos de
discussão sobre estas temáticas e situando o escritor Lima Barreto dentro
deste contexto.
No segundo capítulo, fizemos uma reflexão sobre a interrelação
existente entre as teorias étnicas e a literatura, situando a produção literária de
Lima Barreto no contexto literário de finais do século XIX.
O Terceiro Capítulo contem a análise das obras literárias escoilhidas
para este estudo, procurando refletir sobre a expressão da identidade do
sujeito nos personagens, apresentando a identidade do negro em duas
perspectivas: a auto-identidade e a identidade atribuída.
Capítulo 1 CULTURA E IDENTIDADE NA MODERNIDADE
Mas... e a glória e o imenso serviço que prestarei a minha
gente e a parte da raça a que pertenço. Tentarei e seguirei
avante “Alea jacta est”
(Diário Íntimo)
1.1- Considerações sobre a identidade na modernidade
No vasto campo das ciências sociais, os debates mais atuais têm-se
acentuado em torno de temas voltados para a problemática da concepção do
sujeito moderno. Nesse espaço, o tema da identidade ganha relevância. Na
contemporaneidade, tem-se pregado sobre as identidades fluidas como
Bauman (2005) assim as denomina, uma tendência acentuada nos dias atuais
de se perceber a identidade num processo fragmentário. A complexidade
desse tema garante o interesse e atualidade do debate. “Atualmente, no
entanto, a identidade é o ‘papo do momento’, um assunto de extrema
importância e em evidência. Esse súbito fascínio pela identidade, e não ela
mesma, é que atrairia a atenção dos clássicos da sociologia, caso tivessem
vivido o suficiente para confrontá-lo.” (BAUMAN, 2005, p. 23). Com uma
característica de contra discurso, podemos perceber que a afirmação da
identidade tem obedecido a um processo de fixidez, através da afirmação das
identidades dos grupos minoritários. Nesta perspectiva, preferimos vislumbrar
novos horizontes nos quais a identidade pode ser entendida não apenas na
perspectiva da fluidez que tanto se prega nos tempos hodiernos.
É inegável o nculo que se estabelece entre os estudos literários e a
construção de identidade, especialmente a contribuição que tais estudos têm
dado para a redefinição do conceito de identidade, tomando como esteira
nesse debate a literatura que se vincula aos grupos minoritários. Zilá Bernd
(2003) reflete sobre a ligação entre Literatura e identidade, e afirma:
O conceito de identidade torna-se recorrente no domínio dos
estudos literários a partir do momento em que as literaturas
minorizadas no interior dos campos literários hegemônicos
recusam a classificação de literaturas periféricas, conexas e
marginais e reivindicam um estatuto autônomo no interior do
campo instituído. (p.15)
Nessa ótica, a afirmação da identidade é uma forma de reclamar direitos
e espaços negados pela hegemonia, daí entendermos que ela está numa
relação de fixidez em que precisa se fortalecer. No entanto, é de salutar
importância que destaquemos que diferenças metodológicas e conceituais
quando tratamos do conceito de identidade e da afirmação da identidade.
Procuraremos mostrar que o conceito de identidade, ou a compreensão dela,
se apresenta numa relação fragmentária. A afirmação da identidade, por sua
vez, requer meios de fixação, de solidificação. Surge desse dilema a crise de
identidade do sujeito moderno e o crescente interesse pelo estudo da
identidade se deve ao fato de vivermos essa crise, gerando a necessidade de
afirmação da identidade, individual ou grupal, pela idéia de pertencimento.
Nos últimos anos, a classe não mais tem sido vista como suficiente para
afirmar o pertencimento. Portanto, tem- se procurado essa inclusão através da
afirmação da identidade étnica, pertencimento a um grupo geopolítico etc.
Como a classe não mais oferecia um porto seguro para
reivindicações discrepantes e difusas, o descontentamento
social dissolveu-se num número indefinido de ressentimentos
de grupos ou categorias, cada qual procurando a sua âncora
social. Gênero, raça e heranças coloniais comuns parecem ser
os mais seguros e promissores (BHABHA, 1998, p. 20).
Mesmo tendo vivido quase cem anos antes de Bhabha, Lima Barreto
sinaliza na sua produção literária um entendimento da identidade nessa
perspectiva pós-moderna, quando preferia a identificação a partir do
pertencimento a um grupo étnico, e não somente isto, mas a partir do
compartilhamento da cultura do grupo ou das várias culturas que compõem o
arcabouço cultural do povo brasileiro. O romancista não estava preso a um
grupo especificamente, a uma individualidade, antes preferia se filiar a uma
instância maior, num movimento que vai do individual para o coletivo, do
pessoal para o universal, apontando para uma tendência atual.
O afastamento das singularidades de classe ou gênero como
categorias conceituais e organizacionais básicas resultou em
uma consciência das posições do sujeito de raça, gênero,
geração, local institucional, localidade geopolítica, orientação
sexual que habitam qualquer pretensão à identidade no
mundo moderno. (BHABHA, 1998, p. 20)
Encontramos aqui um ponto de intersecção entre a teoria proposta pelos
estudos culturais e a literatura. Na verdade, os estudos culturais elucidam de
forma teórica o que as narrativas literárias se propõem a fazer: construir
identidades. “Portanto, a construção da identidade é indissociável da narrativa
e, consequentemente, da literatura.” (BERND, 2003, p. 19). Daí destacar-se a
importância da análise de narrativas literárias para a compreensão da
identidade.
O conceito de Identidade, porém, é relativo e de complexa definição.
Para alguns autores, não existe uma identidade pronta, acabada, e sim uma
identidade a ser construída. Na definição de Hall, (2001, p. 38) por exemplo,
ela é socialmente construída: “[...] a identidade é realmente algo formado, ao
longo do tempo, através de processos inconscientes, e não inato, existente na
consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo de ‘imaginário’,
fantasiado em sua unidade”. Nesta perspectiva, a identidade é concebida como
algo não-inatista, mas formada nos entrechoques das relações sociais.
Para uma compreensão da identidade é necessária uma compreensão
do sujeito que, na modernidade tardia ou pós modernidade, como preferem
alguns, vive um processo de fragmentação, gerando uma identidade
fragmentada. “o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade
unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma
única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não
resolvidas” (HALL, 2001, p.12).
Na perspectiva de Hall (2001, p. 13), notificamos que a identidade é
definida historicamente, e não biologicamente. “O sujeito assume identidades
diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao
redor de um ‘eu’ coerente.” um ponto polêmico em relação ao sujeito,
uma vez que a identidade pode mudar ao longo do tempo, mas o mesmo
sujeito não ocupa épocas diferentes, ele assume posicionamentos diferentes
em espaços e momentos distintos. Neste sentido, um mesmo sujeito pode
apresentar formas diferenciadas de identidade, conforme a posição que ele
ocupa.
Hall (2001) destaca o conceito de diferença, criado por Jacques Derrida.
Segundo esse conceito, a identidade é formada a partir das diferenças.
Comunga com essa idéia Woodward (2008, p.08) quando afirma: “a identidade
é, assim, marcada pela diferença”. Dessa forma, a afirmação de uma
determinada identidade está contida na afirmação da diferença. Assim,
percebemos que essas mesmas definições e conceituações nos leva de volta a
retomar a teoria de Bhabha (1998):
A representação da diferença não deve ser lida
apressadamente como o reflexo de traços culturais ou étnicos
preestabelecidos, inscritos na lápide fixa da tradição. A
articulação social da diferença, da perspectiva da minoria, é
uma negociação complexa, em andamento, que procura
conferir autoridade aos hibridismos culturais que emergem em
momentos de transformação histórica (BHABHA, 1998, p. 20).
O autor supracitado desenvolve o conceito do “entre-lugar”, onde a
identidade do sujeito é formada a partir das negociações, rejeitando a idéia das
polaridades, dos binarismos branco/negro, exterior/interior. Na visão deste
autor, vivemos um momento de “desorientação”, de fragmentação. Assim, a
identidade está num processo constante de negociação que, como vimos, é
conflituoso. O entre-lugar é o espaço dos conflitos e das negociações entre o
eu e o outro.
Discorrendo sobre esse conflito e apoiada em Lévi-Straus (1977) para
quem a identidade é uma entidade abstrata, não possui referente empírico,
Bernd (2003, p. 16-17) aborda dois tipos de identidades: a de primeiro e a de
segundo graus. A primeira é a identidade construída com base em dados
empíricos como a cor da pele ou a pertença biológica ao sexo feminino; a
segunda, também chamada de identidade reflexiva, é aquela que “não se
concretiza em função de um único referente empírico, mas de vários”. A
identidade de segundo grau leva em consideração o principio da alteridade, a
presença do outro. Uma identidade que nega a presença do outro, que o exclui,
leva a uma visão especular e redutora.
Na obra de Lima Barreto, em Recordações do Escrivão Isaías Caminha
percebe-se este conflito na afirmação da identidade de um sujeito que se e
sente-se visto como um ser diferente dos demais.
Percebi que o espantava muito o dizer-lhe que tivera mãe, que
nascera num ambiente familiar e que me educara. Isso, para
ele, era extraordinário. O que me parecia extraordinário nas
minhas aventuras, ele achava natural; mas ter eu mãe que me
ensinasse a comer com o garfo, isso era excepcional. atinei
com esse íntimo pensamento mais tarde. (2006, p.166)
A fala do personagem narrador, Isaías Caminha, é reveladora da forma
como a identidade do sujeito (neste caso o negro) é construída sempre em
relação a um outro imaginário ou real. É a percepção que o outro faz dele que
lhe traz a consciência, a posteriori, do que ele é e como se percebe.
Nesse sentido, Ortiz (1986) discorre sobre a exterioridade da identidade,
cuja formação se por algo que é exterior ao sujeito. “Toda identidade se
define em relação a algo que lhe é exterior, ela é uma diferença” (p. 07). Não
obstante, a identidade pode se afirmar como uma resistência ao outro. Por
isso, a afirmação da identidade, se constitui uma defesa, individual ou grupal,
contra o que é alheio. “A identidade é uma realidade sempre presente em todas
as sociedades humanas. Qualquer grupo humano, através do seu sistema
axiológico sempre selecionou alguns aspectos pertinentes de sua cultura para
definir-se em contraposição ao alheio.” (MUNANGA, 1995, p.66)
Isso se evidencia pelo fato de que a relação com o outro nunca foi nem
é passiva. No que diz respeito a identidade do negro, se considerados os
aspectos históricos, tem sido formada no embate das lutas pela liberdade e
pelo reconhecimento, sendo que isso tem se tornado um fator cada vez mais
freqüente na contemporaneidade. “A sociedade contemporânea assiste à
emergência dessas afirmações de identidade com o desencadeamento de
manifestações abertas de racismo contra os antigos opressores” (BHABHA,
1998, p.15).
Ainda sobre a identidade do negro, Regina Paim Pinto (1995) comunga
com a ideia de que não uma identidade negra que seja fixa, unificada. “De
fato, não se pode falar genericamente de uma identidade negra. Ela adquire
contornos diferentes conforme o momento histórico, o espaço geográfico,
social e cultural de que participa o negro.” (p.116).
Entra aqui o debate das identidades étnicas, amplamente discutidas em
períodos pós-coloniais, uma vez que no sistema colonial os grupos minoritários
ou inferiorizados não eram vistos como elementos constitutivos da formação
étnica das colônias, como também essas identidades são pensadas em outros
contextos como nos movimentos nacionalistas e de imigração. Esse debate
não se encerra, porém, nessas instâncias, antes as transcende. “Identidades
étnicas não emergem exclusivamente em contextos tais como, situação
colonial, nacionalismo e imigração, mas expandem-se para tornarem-se
ferramentas táticas, estratégias de negociação em todas as direções.” (LEITE,
1995, p. 85). No espaço de luta pelo poder onde se travam os embates pela
pertença, as identidades vão sendo negociadas no entre-lugar.
A esse processo de lutas e de negociações, Munanga (1995) chama de
contato, através do qual, segundo ele, se institui o racismo como forma de
garantir a ocupação dos espaços. “Toda a problemática do contato entre
identidades diferentes está na questão da partilha do espaço. Nessa partilha, o
racismo visa principalmente não à intolerância daquele que é diferente, mas
sim o medo e o horror da semelhança escondida na diferença.” ( p.71). O
racismo se evidencia pelo medo do outro. No mundo moderno o outro é um
estranho que precisa ser extirpado. Nesse espaço, se faz todo um processo
para construir a imagem pavorosa, subvertida e ameaçadora do outro. Esse
procedimento se torna possível por meio do sistema simbólico.
A identidade também é construída através de processos simbólicos, por
meio dos quais o criadas as noções de valores. Nesse sentido, cada grupo
cria seus mbolos de representação, são símbolos que representam um povo,
uma nação ou um grupo que partilha um patrimônio cultural: a língua, os
costumes, a religião etc. Nesse contexto, uma das formas de se produzir e
reforçar a identidade é a linguagem, que exerce um papel central nessa
construção. “identidades adquirem sentido por meio da linguagem e dos
sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas” (WOODWARD, 2008,
p.08)
A linguagem atua de forma a corroborar a identidade. Nesta perspectiva,
pode-se afirmar que a identidade é performativa. “Os termos do embate
cultural, seja através de antagonismo ou afiliação, o produzidos
performaticamente”. (BHABHA, 1998, p. 20). A literatura cumpre papel
relevante nesse processo, podendo sacralizar os conceitos. Segundo Bernd
(2003, p. 33)
A literatura atual em determinados momentos históricos no
sentido da união da comunidade em torno de seus mitos
fundadores, de seu imaginário ou de sua ideologia, tendendo a
uma homogeinização discursiva, à fabricação de uma palavra
exclusiva, ou seja, aquela que pratica uma ocultação
sistemática do outro, ou uma representação inventada do
outro. No caso da Literatura Brasileira este outro é o negro cuja
representação é frequentemente ocultada, ou o índio cuja
representação é, via de regra, inventada.
Os sistemas simbólicos criam e reforçam identidades, sendo que podem
funcionar como uma mão dupla: ao mesmo tempo em que constroem
identidades, reforçam o preconceito e o estigma. “Os sistemas simbólicos
fornecem novas formas de se dar sentido à experiência das divisões e
desigualdades sociais e aos meios pelos quais alguns grupos são excluídos e
estigmatizados. As identidades são contestadas.” (SILVA 2008, p.19). Nesta
perspectiva, pode-se compreender as causas da discriminação e do estigma
contra o negro no Brasil. A identidade da raça negra foi construída ao longo
dos séculos sob a égide de um sistema simbólico que confere ao branco um
status de superioridade em relação ao negro.
A construção de imagens (arquétipos do negro, do branco etc) se torna
ainda mais problemática quando, no contato, se procura fazer um processo de
assimilação e unificação, em que as identidades são imbricadas, não
respeitando a diferença e a singularidade de cada uma das partes constitutivas
dessa formação.
A questão da identidade se torna mais problemática quando as
imagens se assimilam, se misturam e se unificam. Na famosa
mistura de sangue tanto recusada como procurada, o que está
em jogo é o contato entre duas identidades, sendo o contato
sexual a forma mais aguda e sagrada desse contato
(MUNANGA, 1995, p. 71).
Esse autor trata da ideia de identidade a partir da perspectiva da luta em
que os grupos minoritários têm tomado atitudes que se constituem como
políticas de afirmação de sua cultura frente à cultura dos grupos privilegiados.
Neste sentido, a identidade é afirmada a partir das relações de força, da luta
pelo espaço.
A definição de si (autodefinição) e a definição dos outros
(identidade atribuída) têm funções conhecidas: a defesa da
unidade do grupo, a proteção do território contra os inimigos
externos, as manipulações ideológicas por interesses
econômicos, políticos, psicológicos etc.” (p.66).
Essa luta por afirmação de uma identidade não existe num sentido
primordial, ou naturalista. Ela é essencialmente discursiva. As lutas de classe,
das etnias, de gênero, sejam quais forem, escolhem seus referentes, que são
construídos nos discursos.
Eles (referentes) fazem sentido quando vêm a ser
construídos nos discursos do feminismo, do marxismo, do
terceiro cinema, ou do quer que seja, cujos objetos de
prioridade classes, sexualidades ou a “nova etnicidade
estão sempre em tensão histórica e filosófica ou em referência
cruzada com outros objetivos. (BHABHA, 1998, p. 52)
Na perspectiva do multiculturalismo, a identidade é formada por
aspectos e características culturais, rejeitando a idéia de uma identidade
formada a priori por aspectos físicos, a partir de traços biológicos. Portanto,
pelo exposto, pode-se inferir que há uma forte relação entre a cultura de um
povo e a identidade nacional que pode ser construída na teia das relações dos
grupos sociais.
1.2
Cultura e identidade brasileira: concepções teóricas
Antes de localizarmos o espaço da cultura brasileira é necessário que
pensemos sobre a cultura num âmbito geral, refletir sobre os seus conceitos e
formas de expressão no mundo.
O termo Cultura é de complexa conceituação e compreensão. Segundo
Terry Eagleton (2005) a palavra cultura figura entre as duas ou três das mais
complexas de nossa língua e o termo que é comumente associado ao oposto
dela, natureza, é a palavra mais complexa de todas. Daí a dificuldade de
trabalhar os conceitos. Mas de uma forma bem geral e abrangente, a palavra
cultura tem sido associada, ao longo dos tempos, às idéias de “lavoura” ou
“cultivo agrícola”, bem como a “culto”, no sentido religioso. Na primeira
concepção de cultura a palavra está associada à sua etimologia, no latim,
cultura é colere, que abrange três campos: cultivar, habitar e adorar ou
proteger.
Em Dialética da Colonização, Alfredo Bosi (1992, p.11) trata da idéia de
cultura, partindo da raiz latina de colo (verbo colere no presente), que significou
na língua romana “eu moro, eu ocupo a terra e, por extensão, eu trabalho, eu
cultivo o campo”. O sentido original de “colo” abrangeria dois campos
semânticos o “habitus”, morar, habitar e o cultivo. No entanto, Bosi mostra que
das formas nominais do verbo, derivaram “cultus” e “cultura”. A primeira palavra
num sentido diacrônico, cumulativo, traz um significado histórico, evocando
para o passado, para a memória daquilo que se viveu ou se cultivou ao longo
dos tempos. De cultus, us, vem a idéia, não só de cultivo da terra, mas também
de culto religioso, originalmente “culto aos mortos”. Enquanto “cultus” está
associado ao passado, descentrando do aqui-e-agora para a memória coletiva
adquirida, cultura está associada ao futuro “supõe uma consciência grupal
operosa e operante que desentranha da vida presente os planos para o futuro.”
(p. 16) Assim, a palavra cultura, em Bosi, ganha três dimensões: habitar,
cultivar e cultuar. Bosi resume essas concepções na idéia de colonização que
abrange todo um processo que vai desde a ocupação de uma terra, explorando
seus recursos naturais, ao sistema de práticas simbólicas que sustenta a
ideologia de um povo.
O processo de colonização reinstaura as três ordens: do cultivo, do culto
e da cultura. A colonização começa pela ocupação de novas terras, através da
imigração, depois procede ao trabalho de exploração dos bens materiais
naturais e, por fim, impõe o sistema simbólico de dominação, contendo no seu
bojo os costumes, as crenças, língua, as formas de trabalho etc.
No processo de colonização, Bosi trata da dialética da cultura enquanto
sistema e enquanto condição. O sistema está ligado às formas de produção
econômica, enquanto a condição atinge experiências mais difusas, mais
complexas e subjetivas.
Condição traz em si as múltiplas formas concretas da
existência interpessoal e subjetiva, a memória e o sonho, as
marcas do cotidiano no coração e na mente, o modo de nascer,
de comer, de morar, de dormir, de amar, de chorar, de rezar,
de cantar, de morrer e ser sepultado (BOSI, 1992, p.27)
.
Entendida como cultivo, como habitação ou como culto, a cultura se
apóia num conjunto de práticas simbólicas. Neste sentido, “cultura é o conjunto
de práticas das técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir
às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência.”
(Idem, p.16)
O entendimento de que “cultura” está ligada às noções que foram
apresentadas acima não é suficiente para compreendermos todo o seu
significado, bem como seus usos no mundo moderno. Como diz Eagleton
(2005, p.11) “Se a palavra ‘cultura’ guarda em si os resquícios de uma
transição histórica de grande importância, ela também codifica várias questões
filosóficas fundamentais”. É preciso entender tais questões filosóficas.
Uma primeira dialética que se estabelece nesse âmbito é entre cultura
de um ponto de vista apriorista, inatista ou próprio da natureza e cultura na
ótica de construção social, uma dialética entre o natural e o artificial. Uma
questão levantada é se a cultura existe em nós, ou na natureza, ou se ela é
construída ao longo dos tempos. Muitos, a exemplo de T. S. Eliot, chegam a
crer em cultura como herança genética.
Natureza e cultura são dois pólos que, embora muitas vezes colocados
como opostos, se interrelacionam, posto que as linhas divisórias são muito
tênues, havendo sempre a interpenetração de um no outro. “natureza e cultura
pode ter funcionado como pólos nitidamente exclusivos nos modelos do
pensamento moderno em seus inícios, mas tal como as implicações orgânicas
da palavra ‘cultura’ revelam, os limites entre elas têm sido porosos” (GILROY,
2007, p.55)
Para Rosenfeld (2000), a cultura é um produto da camada espiritual do
mundo, dividindo-se este em camadas, das quais a espiritual é a mais
elevada, sendo sustentada pela camada psíquica, que, por sua vez tem como
suporte a camada orgânica dos seres vivos. Por um processo de simbologia o
homem, e somente ele tem a capacidade de simbolizar, cria um sistema de
símbolos que sentido à cultura. Então, temos que a cultura é uma
construção simbólica, mas na base dessa construção está a camada orgânica,
a natureza.
Homem e natureza estão em constantes trocas, um agindo sobre o
outro. O homem, produto da natureza e agente transformador dela, constrói a
cultura através da capacidade de simbolizar:
É, portanto, mercê dessa capacidade que o homem desenvolve
a cultura - termo que designa a soma total de fenômenos que
resultam do esforço do homem de ajustar-se ao mundo-
ambiente e melhorar as suas condições de vida. Neste sentido,
a cultura é a totalidade complexa que inclui conhecimentos,
crenças, artes, moral, lei, costumes e quaisquer capacidades e
hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma
sociedade; inclui, naturalmente, também as criações materiais,
como instrumentos, vestuários, receptáculos, armas, moradias
etc. (ROSENFELD, 2000, p.237-38).
Eagleton (2005, p. 12) concilia essas duas visões na máxima: “a
natureza produz cultura que transforma a natureza” Nesta perspectiva, a
natureza já tem algo a priori que pode ser caracterizado como cultura e esta vai
sendo moldada pela ação humana. Cultivo pode assim assumir a conotação
tanto daquilo que fazemos, como daquilo que é feito em nós. O ser humano,
neste contexto, não é nem apenas sujeito nem apenas objeto da cultura. Ele
age transformando a natureza e a cultura e é transformado por elas.
Outra dialética que tem sido levantada no âmbito dos estudos culturais é
quanto à relação entre cultura e política. Quem tem preponderância sobre
quem, a cultura determina a política ou o contrário é verdadeiro? Na visão de
Eagleton (2005), “são os interesses políticos que, geralmente, governam os
culturais, e ao fazer isso definem uma versão particular de humanidade” (p.18)
No âmbito do político, o pode ser desprezada a influência da
ideologia. Todo sistema político e de hierarquização social é sustentado por um
sistema ideológico que é construído através dos valores e práticas simbólicos.
Neste sentido, a cultura é uma das ferramentas utilizadas pelos aparelhos
ideológicos para sustentar e legitimar suas práticas. Assim, “a cultura é mais o
produto da política do que a política a serva obediente da cultura”. (idem, p.91)
Na luta pelo poder, a cultura tem sido usada pelos grupos sociais como
um meio de afirmar suas identidades através de uma tomada de consciência
do sujeito. “A cultura define, portanto, um espaço privilegiado onde se processa
a tomada de consciência dos indivíduos e se trava a luta política.” (ORTIZ,
1986, p. 56). É perceptível que a cultura está a serviço da política, sendo usada
como um meio de afirmação de identidade e como forma de pertença a um
grupo, seja ele privilegiado ou não.
Vista por esse prisma, a cultura adquire valor dentro de uma
determinada sociedade, passando a ser um capital simbólico (BOURDIEU,
1998) coletivo, um patrimônio nacional, um bem legítimo que foi construído
historicamente e se configura como uma herança para as presentes e futuras
gerações. Neste sentido, a cultura “torna-se semelhante a uma forma de
propriedade ligada à história e às tradições de um grupo específico [...] A
ênfase na cultura como uma forma de propriedade a ser possuída em vez de
vivida caracteriza as ansiedades do momento” (GILROY, 2007, p.44).
Entendida como um bem coletivo, como um patrimônio nacional, a
cultura tem servido de suporte no debate sobre identidades nacionais. Segundo
Hall (2001), cada povo, através dos seus mitos fundadores, constrói
historicamente símbolos, que funcionam como marcas identitárias da nação.
Daí termos as noções, por exemplo, de que o britânico é extremamente
metódico e pontual, de que o brasileiro é preguiçoso e malandro etc. Esses
símbolos atuam como metáforas, como representações de uma nação. No
entanto, cabe <