Download PDF
ads:
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Edson Luiz Defendi
Homoconjugalidade masculina, revelação e redes sociais:
um estudo de caso
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
São Paulo
2010
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Edson Luiz Defendi
Homoconjugalidade masculina, revelação e redes sociais:
um estudo de caso
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
Dissertação de Mestrado apresentada à Banca
Examinadora da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, como exigência parcial
para a obtenção do título de MESTRE em
Psicologia Clínica sob orientação da
Professora Dra. Rosa Maria Stefanini
Macedo.
São Paulo
2010
ads:
BANCA EXAMINADORA
___________________________________________
___________________________________________
____________________________________________
IV
AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE
TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO,
PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.
DEFENDI, Edson Luiz.
Homoconjugalidade masculina, revelação e redes sociais: um estudo de caso.
141 f.
Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) São Paulo. 2010. Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo.
“Gay male couple, disclosure and social network: a case study”
Palavras-chave: conjugalidade homossexual, processo de revelação, redes
sociais.
V
Para os casais homossexuais por seus ricos depoimentos e participação.
VI
AGRADECIMENTOS
E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar.
Gonzaguinha
Ao Silvio Diniz meu companheiro 17 anos, com quem aprendo
diariamente os prazeres e agruras de uma vida a dois.
A minha família de origem, minha avó materna Cacilda, meus pais Natal e
Neuza e meus irmãos Paulo e Alexandre pelo incentivo e apoio.
À Professora Dra. Rosa Maria Stefanini Macedo, minha orientadora, pela
confiança depositada em mim e em meu projeto e pelo carinho e sabedoria com que me
auxiliou na construção deste trabalho.
À Professora Dra. Rosane Mantilla de Souza, o meu muito obrigado pelo
carinho, competência com que me ensinou a ver o mundo cada vez mais “mix”, bem como
pelas valiosas orientações, sugestões e ensinamentos ao longo do curso de pós-graduação e na
qualificação deste trabalho.
À Professora Dra. Ana Lucia Moraes Horta que prontamente aceitou meu
convite para a banca de qualificação e que contribuiu imensamente para redesenhar alguns
pontos de minha dissertação. Obrigado pela acolhida e respeito.
À Professora Dra. Ida Kublikowski com quem tive o prazer de trocar e
construir conhecimento durante o curso de pós-graduação.
Aos meus amigos do curso de pós-graduação e de vida: Vera Moris, Márcio
Santa’Anna , Eurídice Bergamaschi, Maristela Fiel, Mara Rossi, Jeanne Baião rede social
imprescindível em minha jornada.
Aos meus amigos e companheiros de ofício: Harumi Nemoto, Sandra
Schewinsky, Rita Lobo, Bia Coelho, Célia Maria Amorim, Tatiana Sanchez, Tânia Jung,
Rosalina Moura, Marina Paranhos, Valdir Tamion: suor, lágrimas e muita competência no
dia-a-dia do fazer psicológico.
As minhas companheiras de trabalho na Fundação Dorina Nowill, Cristina
Felippe, Marcia Kretzer e Eliana Cunha obrigado por me agüentarem sempre tão pertinho.
À Gilda Morassutti que gentilmente me auxiliou na elaboração do abstract.
A todos os meus clientes pelo respeito e confiança depositados em mim
enquanto psicoterapeuta. Vocês nem sabem o quanto enriquecem as minhas experiências.
VII
Enfim, quero agradecer a muitos amigos(as) com os quais construi e
continuo construindo redes extremamente importantes de pertença. São eles(as): Rubens
Cury, Pedro Alvarenga, Pedro Silva, Evair Milaneze, Aluísio Prebelli, Renato Amorim,
Sérgio Cereser, Telma Ferrari, Ana Drudi, Cristina Bataglioli, Elaine Niero, Irineu Engler,
Rosaninha, Sandro Masson (in memorian), Nelson (in memorian), Osvaldo (in memorian),
Maurildo Brolese, Denise Marques, Rosa Abate, Marco Leme, Paulo Cunha, Ricardo Diniz,
Jacques Jesus (agora Jaqueline Jesus), Luiz Scoboza, José Domingos Ragazzo, Ademir
Tuffani , Andrea Granado, Tina vocês fazem e sempre farão parte de minhas histórias de
vida!
VIII
Gracias a la vida que me ha dado tanto....
(Violeta Parra)
IX
DEFENDI, Edson Luiz. Homoconjugalidade masculina, revelação e redes sociais: um
estudo de caso. 2010. 141f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010.
RESUMO
Este estudo teve como objetivo compreender como o processo de revelação da conjugalidade
homossexual masculina reflete na construção da rede social do casal e na dinâmica de seus
relacionamentos. Para a construção deste estudo realizamos uma pesquisa qualitativa e
interpretativa enfatizando a natureza socialmente construída da realidade e a importância de
compreender o fenômeno de forma contextualizada e sistêmica. A estratégia metodológica
adotada para este trabalho foi o estudo de caso que buscou conhecer o caso a ser pesquisado
sem a pretensão de esgotar e ou fazer generalizações, atendo-se à singularidade e riqueza do
caso escolhido. Os instrumentos utilizados foram a entrevista semiestruturada, o Mapa de
Rede de Social proposto por Sluzki (1997) e a Linha do Tempo do casal. Foram entrevistados
dois casais homossexuais masculinos e, para fins deste estudo, foi escolhido um casal que
apresentou riqueza e diversidade de informações para o tema proposto. Com este casal foram
realizados três encontros, sendo um encontro individual com cada membro da díade e um
encontro em conjunto. A análise e os resultados da pesquisa apontam que construir uma
relação conjugal homossexual requer de seus membros uma consciência de suas identidades e
uma clareza quanto ao desejo conjugal. Para o casal participante, revelar não significa
necessariamente contar sobre a relação para qualquer pessoa da rede social. Viver como um
casal, coabitar, estarem sempre juntos socialmente e também contar explicitamente sobre sua
conjugalidade, preservando certa privacidade quanto a vida pessoal, são formas de legitimar
socialmente a relação e dar visibilidade a mesma. Apesar da diferença de significado e
conseqüentes atitudes sobre revelar ou não suas conjugalidades, cada membro do casal
respeita a posição do outro e tal situação não é geradora de conflitos na relação. Revelar
aproxima as pessoas da rede e não revelar mantém limites entre o casal e sua rede social.
Limites esses mais aparentes em relação à família de origem com reflexos de rejeição ao
casal, até incorporação do mesmo por parte da família de um dos participantes, porém com
pouca intimidade entre as partes. As relações de amizade são as que oferecem maior
intimidade e proximidade ao casal quando cientes da sua condição, e nas relações de trabalho,
preservar a identidade do casal pela não revelação da situação aparece como condição de
convivência mais confortável entre o casal e os colegas. Consideramos que o conhecimento
de tais características sobre a homoconjugalidade masculina é relevante para o trabalho na
área de saúde mental.
Palavras-chave: conjugalidade homossexual, processo de revelação, redes sociais.
X
DEFENDI, Edson Luiz. Gay male couple, disclosure and social network: a case study.
2010. 141p. Dissertation (Clinical Psycology) Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, São Paulo, 2010.
ABSTRACT
This study aimed to understand how the process of disclosure of gay male couples reflects in
the construction of the couple's social network and the dynamics of their relationships. For the
construction of this study we conducted a qualitative and interpretive research emphasizing
the socially constructed nature of reality and the importance of understanding the
phenomenon in a contextualized and systemic way. The methodological strategy adopted for
this work was the case study, without exhausting it and/or making generalizations, but only
considering the uniqueness and richness of the chosen case. The instruments used were a
semi-structured interview, the Map of Social Network proposed by Sluzki (1997) and the
Timeline of the couple. We interviewed two gay male couples and for purposes of this study a
wealthy couple with diversity of information was chosen. We had three meetings with this
couple an individual meeting with each member of the dyad and a joint meeting. The
analysis and the results of the research show that building a gay male couple relationship
requires of its members a sense of identity and clarity as to the desire to live together. For the
participating couple, disclosing does not necessarily mean that they must tell everyone of their
social network about their relationship. Living as a couple, living together, being always
socially together and also rely on each other, preserving a certain personal life privacy are
ways of socially legitimate their relationship and turn it visible. Despite the difference in
meaning and the consequent attitudes about disclosing or not their relationship, each member
of the couple respects the other's position and that does not generate conflicts in their
relationship. Disclosing brings people closer, keeping their relationship secret builds
boundaries between the couple and their social network. These limits are more visible in the
family of origin, reflecting on the rejection of the couple, and when the family of one of the
participants incorporates the couple but with little intimacy between the parties. Friendly
relationships offer more intimacy and closeness to the couple when they are aware about their
condition, and at work, the more comfortable coexistence between the couple and their
colleagues is when they do not disclose their gay male couple condition. We believe that the
knowledge of such features of gay male couples is relevant to the work in the mental health
area.
Keywords: gay male couple, disclosure process, social network.
XI
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Desafios enfrentados por casais do mesmo sexo e suas implicações ao
desenvolvimento de problemas e atendimento psicoterápico.......................pg.56
Tabela 2 - Identificação do casal.....................................................................................pg.82
Tabela 3 - Países que promulgaram ou possuem legislação especifica que contemplam a
parceria civil entre homossexuais no mundo..............................................pg.135
XII
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Mapa da Rede Social...........................................................................pg.78
XIII
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
APA Associação Americana de Psicologia
ABGLT Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais
AIDS Síndrome de Imunodeficiência Humana Adquirida
CORSA Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor
CRP Conselho Regional de Psicologia
GLS Gays, Lésbicas e Simpatizantes
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
LGBT Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis
ONG Organização não-governamental
PAS-IF Percepção de Apoio Social Inventários de Funções
PT Partido dos Trabalhadores
14
Sumário
INTRODUÇÃO ................................................................................................... 15
CONJUGALIDADES EM TRANSFORMAÇÃO ................................................................ 16
TEMA DE PESQUISA ................................................................................................. 20
PROBLEMA DE PESQUISA ......................................................................................... 24
OBJETIVO ................................................................................................................ 25
1. CONJUGALIDADES HOMOSSEXUAIS .................................................... 26
1.1 ASPECTOS SOCIAIS ............................................................................................. 27
1.2 QUESTÕES PARA A PSICOLOGIA CLÍNICA ........................................................... 36
1.2.1 A CONSTRUÇÃO CONJUGAL .......................................................................................... 37
1.2.2 ESTRESSORES ESPECÍFICOS DA CONJUGALIDADE HOMOSSEXUAL .................... 40
2. REDES SOCIAIS, IDENTIDADE HOMOSSEXUAL E
HOMOCONJUGALIDADE ............................................................................... 57
2.1 REDES SOCIAIS: EPISTEMOLOGIA E CONCEITOS .................................................. 58
2.2 A IMPORTÂNCIA DAS REDES SOCIAIS. ................................................................ 62
2.3 IDENTIDADES HOMOSSEXUAIS E HOMOCONJUGALIDADE EM REDES. .................. 64
3. MÉTODO ......................................................................................................... 73
4. ANÁLISE DAS ENTREVISTAS ................................................................... 81
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................ 116
6. REFERÊNCIAS ............................................................................................. 121
7. APÊNDICE .................................................................................................... 134
8. ANEXOS ......................................................................................................... 138
15
Introdução
16
Conjugalidades em transformação
Para este autor, o ano de 2009 foi repleto de convites para cerimônias de
casamento. Um deles aconteceu em janeiro de 2009. Dois homens, um deles professor
universitário e o outro coordenador pedagógico, brancos, ambos na casa dos 40 anos,
comemoraram seu enlace com um encontro de amigos mais íntimos em seu apartamento.
Detalhe: o casal já se conhecia há 6 anos, coabitavam já tinha 4 anos e o motivo da celebração
se deu para marcar o contrato de parceria que ambos fizeram em um cartório da cidade de São
Paulo
1
, documento este ostentado com muito orgulho e emoção durante o encontro.
Numa outra cerimônia de casamento duas mulheres também brancas que
haviam se conhecido um ano, resolveram também viver sob o mesmo teto e fizeram uma
pequena festa para amigos e familiares, para marcar o início de sua conjugalidade.
Num outro casamento, celebrado como manda o figurino social, o casal, um
homem e uma mulher, ambos também brancos, casaram-se em uma igreja e depois receberam
seus convidados em uma recepção, onde não faltaram “chuvas de arroz”, “madrinhas,
padrinhos e damas de honra”, corte de gravata do noivo para angariar dinheiro para a lua de
mel”, etc.
Permite-nos citar um último episódio, porém uma inusitada narrativa do
qual este autor também compartilhou. Um homem e uma mulher heterossexuais comunicaram
a sua rede social de amigos, familiares, via internet, que a partir daquela data estavam vivendo
juntos, se autodenominavam casados e que esperavam uma visita ao novo espaço do casal, e
que um pequeno presente, designado pelo próprio casal, selasse como um símbolo essa visita.
Inusitadas ou não, as histórias das uniões conjugais anteriormente ilustradas,
mostram o quão diverso e rico encontra-se atualmente o universo das conjugalidades. Nunca
em outra época se observou tanta diversidade na maneira e na forma como os casamentos se
configuram, e no alargamento e flexibilidade em seus valores, crenças e características.
Podemos dizer, em um contexto amplo, que o casamento é uma instituição
social, e está relacionado á outras instituições da sociedade, influenciando e sendo
influenciado pelas transformações históricas, sociais, econômicas e políticas. As mudanças
contemporâneas no casamento se apresentam tanto no nível funcional da instituição, que
evidencia a forma como foram e estão estruturadas as relações entre os casais na vida pública
1
Cabe esclarecer que em alguns cartórios de notas em São Paulo e em outras cidades do País, já é possível fazer
um registro que declare a união do casal homossexual, porém tal registro não apresenta valor legal, pois não há
legislação civil específica que o sustente.
17
e privada, bem como no nível simbólico, que inclui o que está no imaginário, na ideologia, na
cultura a respeito do casamento, dos papéis e lugares do casal (ARIÈS, 1985; VAINFAS,
1986; NORGREN, 2002; COELHO, 2005).
a conjugalidade, segundo Dihel (2002), pode ser entendida como uma
união, uma ligação entre duas pessoas, termo cunhado para nomear além das relações legais,
as novas formas de relacionamentos amorosos que vem surgindo em decorrência das
transformações sociais e culturais na atualidade.
Vários estudos sobre casamento, conjugalidades e família (Macedo, 1994,
2007; Figueira, 1986; Samara, 2002, 2004; Souza e Ramirez, 2006; Souza, 2006; Coelho,
2005; Féres-Carneiro, 2001; Giddens, 1993, 1999; Vaistman, 1995) apontam para importantes
mudanças no casamento e na revisão de regras no relacionamento conjugal contemporâneo,
bem como na adequação dessas novas regras às expectativas do próprio casal e de sua
convivência social mais ampla, ratificando que o modelo de conjugalidade baseada no
controle patriarcal, no qual confinava a mulher ao trabalho doméstico e privado e o homem o
domínio público está cada vez mais enfraquecido devido a diversas mudanças no âmbito das
conjugalidades. Coelho (2005), por exemplo, descreve as seguintes mudanças que vêem
afetando sobremaneira a vida dos casais:
-redefinições de áreas de responsabilidades domésticas e redistribuição de
tarefas dos casais, principalmente os de dupla carreira;
- redistribuição do poder nas relações de gênero;
- maior adaptabilidade ás mudanças entre o casal, devido ao valor dado à
efemeridade do mundo contemporâneo, á diversidade e complexidade das demandas da
convivência coletiva, em contraponto ás exigências do indivíduo á maior satisfação de suas
necessidades pessoais;
- Sexualidade desvinculada da reprodução;
- Autonomia econômica da mulher e a valorização de projetos individuais;
- Legitimação do divórcio, criando possibilidades de busca de satisfação em
novos casamentos;
- Valorização das relações afetivo-sexuais e pessoais do casal;
- Mudanças de poder nas relações entre homem e mulher, afirmando o ideal
de igualdade e flexibilizando os domínios femininos e masculinos rigidamente demarcados;
-Surgimento de arranjos conjugais variados.
Um dos autores mais citados quando o assunto é sobre transformações na
conjugalidade e na intimidade é o sociólogo Anthony Giddens. Na década de 1990 Giddens
18
escreveu o livro “A Transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas
sociedades modernas”, no qual desenvolve uma série de conceitos acerca do amor e
sexualidade como importantes elementos dos relacionamentos conjugais e afetivos e
desenvolve conceitos os quais chamou de “amor confluente”, “sexualidade plástica”,
“relacionamento puro”.
Para Giddens, na atualidade, as pessoas escolhem viver as relações afetivas
e conjugais tentando extrair delas satisfação suficiente para sua manutenção, as relações são
pautadas no amor, em seu sentido igualitário.
(...) o amor confluente é um amor ativo, contingente e por isso entra em choque com
as categorias “para sempre” e “único” da idéia do amor romântico. A “sociedade
separada e divorciada” de hoje aparece aqui mais como um efeito da emergência de
um amor confluente do que como sua causa. Quanto mais o amor confluente se
consolida em uma possibilidade real, mais se afasta da busca da pessoa especial” e
o que mais conta é o “relacionamento especial” (Giddens, 1993:72)
Quanto a conceito de sexualidade plástica, o autor situa a vivência sexual na
conjugalidade como uma vivência atrelada a experiências de prazer e satisfação. O sexo na
conjugalidade deixa de ser percebido somente como sinônimo de reprodução. As mulheres
passam a ter maior domínio sobre seus corpos e seus desejos, beneficiando-se com avanços de
medidas contraceptivas modernas e também das novas tecnologias reprodutivas. A vivência
da intimidade nesse aspecto implica numa democracia do domínio interpessoal, estabelecida
por uma maior noção de igualdade e negociação transacional de vínculos pessoais e sexuais.
Fala-se mais abertamente sobre sexo e sexualidade, temas esses sempre tratados como tabu e
que se tornam pauta essencial no diálogo do casal.
Giddens (op. cit.) fala também em relacionamento puro justamente para
mostrar o contraponto com a idéia de casamento e família tradicional, em que esse tipo de
vínculo está baseado na comunicação emocional e valoriza a intimidade emocional de seus
pares.
Porém Giddens (1999) situa que as mudanças que acontecem na vida das
pessoas, principalmente as relacionadas ao casamento, família e sexualidade vem ocorrendo
de forma desigual em diferentes regiões e culturas. É um fenômeno ocidental, pois, apesar das
mudanças acontecerem de forma globalizada, às mesmas não afetam em intensidade e prática
países com forte tradição cultural do oriente, como China ou Índia por exemplo.
Como coloca Bauman (2003) vivemos atualmente em um mundo fluído,
líquido, no qual a organização de espaço e tempo vem se modificando rapidamente, um
mundo em constante mudança e marcado por inseguranças e incertezas advindas dos efeitos
19
da globalização e de novas condições subjetivas que impactam diretamente o indivíduo, a
conjugalidade e os relacionamentos familiares. Diz Bauman ...a definição romântica do amor
como “até que a morte nos separe” está decididamente fora de moda, tendo deixado para
trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas de parentesco ás
quais costumava servir e de onde extraía seu vigor e sua valorização (2003, p.19).
Essas mudanças trazem então o entendimento que a identidade e a
construção da conjugalidade perpassa por um processo constante de negociação, de
questionamentos e de legitimação do eu e do nós, levando a transformações subjetivas na
construção do cotidiano e vivência conjugal, impondo aos casais desafios tais como: a
individualidade de cada membro do casal no processo de construção da conjugalidade, a
definição de identidades por intermédio das vivências amorosas, ajustes constantes de
expectativas sobre o projeto conjugal (FÉRES-CARNEIRO,1998; FÉRES-CARNEIRO,
2001; FÉRES-CARNEIRO, PONCIANO E MAGALHÃES, 2007 ; COELHO, 2005).
Percebe-se então que a partir de uma maior igualdade entre os sexos, no
momento em que homens e mulheres passam a se definir como iguais, o casamento toma um
sentindo diferente; mais em função da satisfação individual, do que pautado na divisão sexual
de trabalhos ou da família enquanto instituição, valorizando-se na contemporaneidade uma
pluralidade de convivências afetivas que dão nova cara às conjugalidades, que são produzidos
pela expansão da individualidade de ambos os sexos, para além das dicotomias de gênero
(VAISTMAN, 1994, 1995). Cita a autora:
(...)generalizaram-se as relações conjugais não formalizadas legalmente. As
separações e os novos casamentos aumentaram o mero de pessoas que vivem
com parceiros que não são os pais ou as mães dos próprios filhos. Cresceu omero
de crianças que não vivem com o pai ou com a mãe (...) casais homossexuais,
pessoas que vivem sós, livres de estigmas de “solteirões” , mães solteiras,
“descasados” de ambos os sexos assumindo a criação dos filhos sem a presença
cotidiana de um parceiro, tudo isso se incorporou ao imaginário e ás práticas sociais
( VAISTMAN, 1995:348).
Assim, lidamos na contemporaneidade com uma série de arranjos conjugais
que extrapolam em muito o significado de casamento apenas em seu sentido legal. O
significado de casamento hoje é entendido muito mais como uma escolha, uma união pautada
no afeto, nos projetos pessoais e não necessariamente vinculada a formalizações legais ou
religiosas. Assim, casamento assume uma pluralidade de significados, tanto no âmbito
público, como privado e está a sujeito a mudanças e transformações muito rápidas e fluídas
como citamos acima. Segundo Norgren (2002) o casamento no âmbito público tem como
objetivo formalizar e normatizar uma praxe existente e no âmbito privado tem o sentido de
20
consolidar o vínculo entre os parceiros, que inclui muitas possibilidades de formação,
manutenção e dissolução de relacionamentos conjugais.
Muito além de “até que a morte nos separe”, incluímos um sem- numero de
situações para dissoluções conjugais e formação de novos arranjos; até que falta de amor nos
separe, até que os projetos individuais se tornem incompatíveis e nos separem etc. e com a
possibilidade de casar uma, duas, três vezes; inclusive passando de um casamento
heterossexual para um casamento homossexual, como bem mostrou Moris (2008) em sua tese
sobre paternidade homoafetiva e Noda (2005) em sua dissertação sobre mães lésbicas.
Portanto, como frisa Norgren (2002) e Féres-Carneiro (2009) é nesse contexto complexo,
repleto de contradições que se instaura o terreno que fundamenta as relações conjugais
confrontando várias ideologias (cristã, romântica, moderna, pós-moderna) que sustentam essa
instituição e que coexistem na contemporaneidade, ou seja, são múltiplos os arranjos
conjugais, dos mais tradicionais aos mais modernos, que se constroem, se desconstroem e se
reconstroem em ritmos muito acelerados.
Com isso, adotamos nesse estudo o significado privado de casamento tendo
como referência a vivência e experiência singular de cada pessoa envolvida nessa escolha,
protagonistas de suas histórias, percebendo esses protagonistas dentro de um universo cultural
e relacional específico, bem como na organização de um espaço de convivência e
conjugalidade no qual o sendo construídas as narrativas que definem uma história amorosa
escrita a quatro mãos (GRANDESSO, 2002).
Reafirmando, consideramos casamento e conjugalidade o significado que o
indivíduo envolvido nessa relação considera , valorizando sua percepção e sua experiência
conjugal e afetiva, entendida também aqui como um vínculo amoroso reconhecido por duas
pessoas e publicamente expresso numa convivência...a maior aspiração é a relação amorosa,
a conjugalidade satisfatória (SIMÕES, 2007 p. 19).
Tema de Pesquisa
Podemos dizer que dentre todas as possibilidades de arranjos e modelos, as
conjugalidades e a famílias homoafetivas estão entre os modelos que vem se tornando cada
vez mais visível, incrementado a pluralidade do significado de conjugalidade e famílias no
mundo atual. Partindo dessas premissas o tema desse estudo aborda um dos tipos desse
21
arranjo a homoconjugalidade masculina e uma de suas vicissitudes- sua inserção no meio
social e a experiência desses casais com a rede social.
Sabemos que a absorção social e legitimação dessas novas conjugalidades
não acontecem na prática de maneira rápida e sem conflitos e resistências. A conjugalidade
entre pessoas do mesmo sexo vem alcançando destaque, principalmente porque traz à tona, a
discussão, de que o direito de viver uma relação amorosa extrapola a questão da orientação
sexual, e coloca em pauta o surgimento de novos núcleos familiares na contemporaneidade.
Como afirma Mello (2006) as resistências á aceitação de famílias e
casamentos homossexuais desafiam estruturas milenares a partir das quais as sociedades
humanas foram construídas tais como a repressão sexual e a heterossexualidade compulsória e
“naturalizada”.
Entendemos que à medida que a relação conjugal vai se estabelecendo e os
parceiros amadurecendo em suas relações, entendemos que ele vai “ganhando corpo” nas
relações sociais. A partir desse contexto o desafio de revelar e assumir ou não, suas relações
conjugais passa a fazer parte da vivência e dinâmica do casal, pois a convivência, o tempo e a
construção da relação dão maior visibilidade ao casal.
Esse dilema em assumir-se ou não como casal frente a determinados grupos
sociais é um desafio constante ao casal homossexual. Muitas vezes, os membros do casal
mantêm múltiplas identidades, dispensam energias salvaguardando suas condições e podem
viver sentimentos de perda, confusão e sofrimento tentando controlar e separar “aqueles que
sabem”, “daqueles que não sabem” e “daqueles que nunca devem saber” (SLATER in
CONNOLY, 2004). Isso sem levar em conta que revelar e para quem revelar, passa pela
experiência e decisão individual de cada membro do casal, aa decisão compartilhada, em
preservar, tornar público ou guardar a “sete chaves” o segredo da relação conjugal.
Sabemos que a homofobia, tanto a institucionalizada como a internalizada e
a heteronormatividade
2
afetam sobremaneira a dinâmica da conjugalidade entre casais
homossexuais, pois constituem uma fonte crônica de estresse para esses casais. Existe menos
suporte social e familiar, assim como poucos modelos de relacionamento, o não
reconhecimento legal da relação e conseqüente não validação, legitimação e aceitação pública
da mesma (NUNAN, 2007a; GREEN, 2004).
2
Heteronormatividade se refere a uma ideologia que promove uma perspectiva convencional das relações de
gênero e da heterossexualidade e uma visão tradicionalista de família, como a maneira certa e correta das
pessoas viverem. (OSWALD, BLUME E MARKS, 2005).
22
Desta forma, avaliar o custo-benefício em revelar sobre suas conjugalidades,
manter e ou preservar informações a um grupo social determinado ou ainda manter em
segredo
3
a relação conjugal por medo de hostilidade e perda de relacionamentos importantes
geram um constante dilema sobre revelar ou não e, em muitos casos um afastamento e um
isolamento do casal homossexual da rede social, aqui entendida como um conjunto de pessoas
e vínculos afetivos importantes para a pessoa e conseqüentemente para o casal e que é fonte
de saúde , pertencimento e qualidade de vida a seus membros (SLUZKI ,1997).
Neste estudo daremos voz aos casais homossexuais masculinos, o que
implica em desmistificar preconceitos existentes nessa relação e entender de que maneira os
casais encontraram caminhos e estratégias para lidar com as discriminações sociais com a
situação da revelação de seus casamentos para grupos de pertencimento importantes como
família de origem, família extensa, trabalho, avaliando também a relação “custo-benefício”, as
vantagens e desvantagens da revelação para o casal.
Entendemos que o presente trabalho possa contribuir para os profissionais
das mais diversas áreas de conhecimento, que m como interesse questões relacionadas a
gênero, sexualidade, novas configurações familiares, ampliando a construção de
conhecimento em torno de um tema tão embrionário em estudos, especificamente na área de
Psicologia Clínica. Esperamos colaborar para que os profissionais psicólogos possam ampliar
e conhecer dinâmicas específicas do casal homossexual masculino, promovendo saúde e bem-
estar do mesmo por intermédio de intervenções contextualizadas e pertinentes à situação.
Para tanto a estrutura da presente dissertação está dividida da seguinte
forma: após a apresentação do problema e objetivo de pesquisa, no primeiro capítulo,
falaremos especificamente sobre a conjugalidade homossexual masculina, abordando-a sob o
ponto de vista das diversas disciplinas que vem se debruçando sobre essa questão com
destaque para as contribuições de sociólogos, psicólogos clínicos e informações referentes ao
panorama legal da conjugalidade homossexual. Neste capítulo exporemos também as questões
relacionadas à formação dos novos casais na contemporaneidade e os estressores específicos
da homoconjugalidade.
3
Entende-se por segredo o conceito elaborado por Imber-Black (1994, p.21) Os segredos são fenômenos
sistêmicos. Eles estão ligados ao relacionamento, moldam as díades, formam triângulos, alianças encobertas,
divisões, rompimentos, definem limites de quem está dentro e de quem está fora e calibram a intimidade e o
distanciamento nos relacionamentos”.
23
No segundo capítulo traremos o conceito de redes sociais, as implicações
da rede para homossexuais e casais homoafetivos masculinos com ênfase na produção de
conhecimento feita por teóricos alinhados com uma perspectiva Sistêmica e Construtivista.
Em seguida apresentaremos o método, os procedimentos de pesquisa, as
análises e interpretações das entrevistas e as considerações finais.
24
Problema de Pesquisa
Apesar da crescente visibilidade da conjugalidade homossexual masculina,
poucas pesquisas são feitas no Brasil, na área de Psicologia Clínica, que produzam
conhecimento acerca das vicissitudes, estressores e dinâmicas psicológicas e sociais
específicas desse tipo de arranjo conjugal.
Como é um tipo de relacionamento conjugal marcado por muito preconceito
e discriminação, sem suporte social e legal, a vivência e a experiência de homossexuais
masculinos que vivem conjugalmente ainda permanecem cobertos/obscurecidos por uma
ideologia heteronormativa. Portanto essas experiências precisam ser exploradas e melhor
compreendidas para que possamos obter mais recursos e suporte para promoção de saúde e
melhoria da qualidade de atendimento psicológico a esses casais.
Um dos desafios que se configuram nessas relações é a forma como o casal
homossexual masculino se relaciona com o meio social mais amplo , bem como o processo de
contar, revelar e assumir para grupos sociais importantes seu compromisso conjugal.
Fica-nos a questão: de que forma o casal homossexual masculino lida com a
questão da revelação social de seu casamento, ou seja, como vivenciam a “saída do armário”
em seus cotidianos e de que forma esse processo afeta a relação e sua redes sociais?
Então, o que se coloca como problema é: como os casais homossexuais
masculinos negociam em suas intimidades para quem, com quem, como se revelam como
casal e o significado dessas experiências em seus cotidianos.
25
Objetivo
Compreender como o processo de revelação da conjugalidade homossexual
masculina reflete na construção da rede social do casal e na dinâmica de seus
relacionamentos.
26
1. Conjugalidades Homossexuais
27
1.1 Aspectos sociais
Não existe uma estatística, ou dados demográficos que aponte a quantidade
de casais homossexuais masculinos ou femininos vivendo atualmente no Brasil. Em 2007 o
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística realizou uma pesquisa que incluiu a
contagem de casais homossexuais em cidades brasileiras com até 170 mil habitantes,
revelando que existem 17 mil casais do mesmo sexo vivendo juntos nessas cidades. A
contagem não incluiu cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro que concentram grande
número de casais homossexuais vivendo juntos a idéia é que essa pesquisa sirva como um
piloto para o censo de 2010 que terá incluída essa contagem em todas as cidades brasileiras.
4
Como diz um velho slogan do movimento político homossexual Somos
milhares, estamos em toda a parte e o futuro é nosso” (MOTT, 2006). Com toda certeza a
partir do momento em que os casais homossexuais passam a fazer parte da contagem
estatística da população brasileira e por conseqüência seu arranjo conjugal aparecer nos
censos, a validação social e a visibilidade aumentam, contribuindo cada vez mais para a
sociedade perceber sua existência.
A conjugalidade homoafetiva, como fenômeno de estudo no Brasil,
começou a surgir na década de 1990 e mobilizou várias áreas do conhecimento
principalmente a Sociologia, a Antropologia e a Psicologia.
Um breve histórico nos mostra que partir da década de 1970 e 1980 um
grande número de pesquisas e produções acadêmicas sobre sexualidade, começou a alterar o
status da homossexualidade vista até então como doença, desvio de conduta e
comportamento. Grande parte dessas pesquisas na década de 1980 envolveu os estudos sobre
homossexualidade e questões relativas à AIDS em decorrência da grande incidência da
doença em homens homossexuais e outros temas tais como revolução sexual e movimentos
homossexuais (CITELLI, 2005; NUNAN, 2007a).
Porém diante da diversidade de estudos e pesquisas que emergiram no início
desse século 2000, optou-se em trazer para esse capítulo alguns resultados e achados das
4
Sites: http://www.cinform.com.br/noticias/38057 e
http://gonline.uol.com.br/site/arquivos/estatico/gnews/gnews_noticia_20218.htm
28
principais áreas de conhecimento que vem produzindo acerca desse tema, e que destacamos
anteriormente as ciências sociais, com destaque para sociólogos e antropólogos e estudos na
área de Psicologia Clínica, visto a discussão interdisciplinar que o tema propõe.
Entendemos que por seu caráter interdisciplinar, não as conjugalidades
homossexuais devem ser compreendidas de uma forma interconectada, mas os campos de
estudos e as disciplinas que se debruçam sobre essa questão também. Como bem diz Green
(2004), para compreender as vicissitudes de casais do mesmo sexo os aspectos políticos e
psicológicos são inseparáveis, e cremos que para qualquer casal.
Portanto, para ampliar o debate e enriquecer o campo do conhecimento
desse fenômeno vamos dialogar com várias áreas do conhecimento sobre as conjugalidades
homossexuais, percebendo aproximações, diferenças, similitudes e conseqüentemente
utilizando de suas análises e interpretações para clarear nosso caminho nessa dissertação.
Em 1995 a então deputada Federal pelo PT de São Paulo Marta Suplicy
apresentou na Câmara dos Deputados o projeto de Lei n. 1.151/95 que em sua versão original
estabelece uma série de direitos a homossexuais vinculado a união civil versando sobre
questões de patrimônio, deveres, impedimentos e obrigações mútuas (MELLO, 2005a). Foi
também em 1995 que foi fundado a ABGLT Associação Brasileira de Gays, Lésbicas,
Bissexuais, Travestis e Transexuais, importante organização social e política que congrega
várias instituições e organizações brasileiras e que tem como missão “Promover a cidadania e
defender os direitos de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, contribuindo para a
construção de uma democracia sem quaisquer formas de discriminação, afirmando a livre
orientação sexual e identidades de gênero”.
5
Foi nesse panorama histórico que os anos 1990
viu nascer e florescer muitos grupos, ONGs , movimentos e entidades voltadas a defesa dos
direitos de homossexuais
6
promovendo maior visibilidade e trazendo a tona uma série de
debates e discussões, em parte provocados pela pelo Projeto de Lei n. 1.151/95 levado a
discussão no legislativo brasileiro.
Conciliado a essas mudanças os anos 1990 foram marcados também pelo
investimento científico em novas drogas e medicamentos e as estratégias de enfrentamento da
epidemia da AIDS, fortalecida pelo surgimento de vários grupos organizados como citado
anteriormente. Trevisan (2000) em um artigo provocativo chamado “O vírus, nosso irmão”
mostra como a epidemia da AIDS que assolou muitos homossexuais masculinos, fez
5
Para maiores informações acessar www.abglt.org.br.
6
Não é nosso objetivo nesse trabalho discutir e ou analisar o surgimento dessas organizações, porém , trata-se de
um campo de estudo riquíssimo e instigante como podemos notar nos trabalhos de Trevisan (2000), Facchini
(2005), Ferrari (2006) e Santos (2006).
29
fortalecer o movimento político homossexual brasileiro e como também, de certa forma, fez
com que os próprios homossexuais questionassem suas crenças e valores, repensando
relacionamentos, práticas sexuais, amorosas, o que , acreditamos , fez da possibilidade da vida
conjugal um porto mais seguro para a vivência sexual e afetiva para homossexuais.
Como afirma Grossi (2003), existem várias explicações para o fenômeno de
maior desejo de conjugalidade entre indivíduos do mesmo sexo, com destaque para o
surgimento de um modelo de individualismo moderno presente no cotidiano de vida de gays e
lésbicas vivendo em grandes centros urbanos e corroborando com a idéia descrita acima por
Trevisan, o impacto da AIDS sobre a comunidade homossexual masculina, no qual a
conjugalidade serviu como uma saída para autoproteção à contaminação, além de que, por
conta de inúmeros casos de morte por AIDS, muitas pessoas que viviam em uma relação
estável perderam moradia, bens construídos conjuntamente, devido à falta de amparo legal
para com essas uniões.
Numa perspectiva sociológica, o periódico Revistas Estudos Feministas
lançou em 2006 um dossiê denominado Dossiê Conjugalidades e Parentalidades de gays,
lésbicas e transgêneros no Brasil (UZIEL, MELLO, GROSSI, 2006). O presente dossiê reúne
artigos de pesquisadores que investigam a questão das conjugalidades e parentalidades de
gays, lésbicas e transgêneros, tendo como objetivo ampliar o debate no meio acadêmico sobre
os temas e compreender as mudanças e significados sobre a família, casamento e
conjugalidade atualmente.
Como sugerem os organizadores do Dossiê, os debates políticos e
acadêmicos sobre novas formas de família e conjugalidades estão avançados nos países
europeus e nos EUA, e a expectativa é que esse dossiê aprofunde mais o debate no Brasil,
ampliando o universo de conhecimento sobre casamento e família para além do monopólio
heterossexual, estimulando mais pesquisas sobre a temática e que enfim, a academia possa
colaborar efetivamente para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária que acene
para a possibilidade de direitos equânimes a população LGBT.
Mas especificamente três artigos desse dossiê são de relevância para este
trabalho, pois abarcam a temática da conjugalidade homossexual. Num deles Mello (2006)
lança reflexões de caráter político e teórico acerca das relações afetivas e sexuais entre
homossexuais como uma forma da diversidade do modelo de família. Em sua análise fica
evidente que a família, em termos legais ainda é um monopólio heterossexual.
O pontapé inicial do artigo refere-se ao vazio legal que cerca as relações
afetivas entre homossexuais tendo como marco os dez anos de apresentação do Projeto de lei
30
de Marta Suplicy até hoje arquivado. Os avanços favoráveis aos homossexuais vieram do
Judiciário que beneficiaram gays e lésbicas, porém o Legislativo ainda continua retrógrado e
sem acenar para mudanças práticas que favoreça homossexuais em seus casamentos. Um caso
emblemático, foi o ocorrido com a disputa da guarda do filho da cantora Cássia Eller, falecida
em 2001. A decisão judicial apontou sua companheira Eugênia, no qual Cássia mantinha um
relacionamento estável há anos, como a pessoa mais indicada para ficar com a criança. Apesar
da família de origem da cantora, tentar obter a guarda da criança, a justiça determinou que a
mesma ficasse com a companheira de Cássia.
Num dos tópicos do artigo intitulado Injustiça erótica, opressão sexual e
diversidade familiar Mello (op. cit.) afirma que a grande resistência a famílias formadas por
gays e lésbicas deve-se ao fato que esse tipo de arranjo desafia normas milenares a partir da
qual as sociedades humanas foram construídas como a repressão sexual e a
heterossexualidade compulsória (p. 499)
Nos relacionamentos afetivos entre pessoas do mesmo sexo existe a
renúncia da construção de família apenas pautada na diferença entre os sexos e a reprodução.
O que ocorre é um alargamento dessas vivências e experiências reafirmando os parâmetros de
uma sexualidade domesticada em seu potencial transgressor. Conclui Mello (2006, p.506).
(...) o que se observa hoje no Brasil é que os homossexuais não adentraram na arena
dos sujeitos socialmente reconhecidos como cidadãos no âmbito dos direitos
conjugais e parentais. Manter relacionamentos amorosos, algo que nos faz
intrinsecamente humanos, ainda é, em termos legais, uma prerrogativa
heterocêntrica, marca da injustiça erótica e da opressão sexual que atingem gays e
lésbicas no Brasil e na maior parte do planeta.
Outro importante artigo do dossiê é o escrito pelo antropólogo e militante
homossexual Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia
7
. Falando sobre preconceito e
destacando números sobre homofobia e crimes a homossexuais, o artigo analisa a situação em
que vivem a população LGBT no Brasil e a luta para a cidadania plena, direitos sexuais e
afetivos de gays, lésbicas e travestis.
Numa linguagem engajada e política o pesquisador considera os
homossexuais como a “última tribo romântica” do mundo enquanto todos se divorciam os
homossexuais querem se casar e faz um discurso afirmativo justificando a emergência em se
olhar com atenção para os casais homossexuais e relaciona os 10 motivos principais que
7
O Grupo Gay da Bahia, o GGB, como é conhecido, vem realizando um trabalho primoroso e sistemático de
denuncia sobre preconceito, discriminação e crimes contra homossexuais. Essas denúncias culminaram em
relatórios que reforçam a necessidade de se criar mecanismos públicos contra a violência que assola a
comunidade LGBT. Para maiores informações consultar Mott (2000), Mott e Cerqueira (2001) e o próprio site
da organização www.ggb.org.br.
31
fundamentam a necessidade urgente em legalizar o casamento homossexual no Brasil, sendo
eles:
1) Nenhuma lei pode discriminar os homossexuais: Não há nenhum
adendo na Constituição que discrimine a população LGBT. Pelo
contrário, a própria Carta Magna Brasileira tem como premissa de que
todos são livres e gozam de mesmo direitos sociais porque então
pessoas de sexo diferente podem casar de maneira reconhecida pelo
Estado?
2) O exemplo de países mais modernos: Em vários países do Ocidente
Bélgica, Holanda, Espanha o respeito aos direitos humanos e sexuais se
estendem a todos independente de sua orientação sexual ou identidade
de gênero, são padrões modernos de cidadania. Os direitos de casais do
sexo oposto são os mesmos para casais do mesmo sexo.
3) Uma instituição praticamente universal: Em todas as sociedades em
todas as épocas o casamento é uma instituição presente de alguma
maneira. Ensina a Antropologia que em algumas sociedades havia
casamento entre pessoas do mesmo sexo, portanto negar esse direito na
atualidade é desconsiderar essa universalidade histórica.
4) Um costume antiqüíssimo: O autor refere que a homossexualidade é
tão antiga quanto a humanidade e que havia casamentos entre pessoas
do mesmo sexo já há muito tempo.
5) Uma aspiração de muitos homossexuais: Milhões de homossexuais
defendem a união civil, como um ato de escolha, de poder optar por uma
vida conjugal. É um sentimento de pertença.
6) Com as benções de Deus: A Igreja não barrou a lei do Divórcio, dos
anticoncepcionais, e num futuro se quedará frente à legalização do
casamento homossexual. Muitos pastores, padres, igrejas reformadas na
Europa, EUA e outras religiões como Candomblé, Umbanda
abençoam pessoas do mesmo sexo que querem se casar.
7) Estratégia Anti-Aids: Embora, casamento não signifique
necessariamente fidelidade casar pode criar novos códigos de
convivência entre os homossexuais, inclusive a monogamia, que pode,
até certo ponto controlar expansão da AIDS. O próprio autor reconhece
que tal argumento é um tanto preconceituoso, mas é um argumento.
32
8) Segurança social e legal: O Reconhecimento do casamento traz
inúmeros benefícios sociais auxílio INSS, seguridade social do
parceiro, declaração conjunta de imposto de renda etc.
9) Aumento à respeitabilidade de homossexuais: Esse argumento ajuda
a desconstruir a imagem preconceituosa de que todo homossexual é
promíscuo, vivem apenas de sexo e que não sabem amar, portanto não
tem competências para construir um casamento e ou uma família.
10) O Direito á fantasia: Apesar da crise do casamento mundial, não se
pode tirar o direito de alguém querer casar o casamento atualmente é
beneficiado por seu caráter mais fluido e plural.
Importante observar que os dois autores fazem uma análise política e social
sobre os entraves e os problemas que a conjugalidade homossexual acarreta na sociedade, seja
sob o ponto de vista da reivindicação de direitos humanos e sociais básicos, e ainda, acerca da
denúncia do preconceito e da discriminação que cerca a homossexualidade, bem como, o
amor e a conjugalidade entre pessoas do mesmo sexo.
Outro artigo do Dossiê denominado Acesso ao casamento no Brasil: uma
questão de cidadania sexual, Lorea (2006), discute que do ponto de vista jurídico e social o
casamento enquanto instituição protegida pelo Estado não pode ser restrito a apenas
heterossexuais; ele deve ser estendido também a homossexuais. Beneficiado por
jurisprudência, as uniões conjugais entre pessoas do mesmo sexo vem sendo cada vez mais
reconhecida, pois, não conceder esse mesmo direito a homossexuais é um ato discriminatório
que fere os princípios básicos de direitos humanos e sexuais.
Como dito anteriormente, o projeto de Lei n. 1.151/95 encontra-se
arquivado até os dias de hoje, não havendo nenhum avanço legal para casais homossexuais,
que o seja por intermédio de jurisprudência. Como bem coloca Kotlinski et. al. (2007) em
seu levantamento sobre legislação e jurisprudência LGBT, no que tange a união civil entre
pessoas do mesmo sexo, pode-se perceber ainda uma forte tendência conservadora, que de
forma injustificável resiste em aceitar e respeitar os cidadãos e as cidadãs que vivem sua
organização familiar fora do padrão heteronormativo. Países europeus, como a Dinamarca,
Espanha e Holanda e alguns Estados Americanos como Vermont já possuem legislação
específica que garantem a parceria civil entre pessoas do mesmo sexo (Apêndice A).
Fica-nos uma reflexão. Apesar de todos os debates, escritos acadêmicos,
denúncias de violação de direitos humanos básicos, políticas públicas voltadas à população
33
LGBT
8
e ainda por cima a força do movimento, das paradas de orgulho LGBT que pipocam
em todo o Brasil
9
, em que vespeiro esse tipo conjugalidade toca que provoca tanta resistência,
violência, medo e bloqueio social? Do ponto de vista social, qual (is) estruturas se vêem
ameaçadas ante a legalização ou maior tolerância a conjugalidade homossexual? De que
forma e como grupos sociais contrários as conjugalidades homoafetivas vem se mobilizando
para impedir os avanços e conquistas dessa população na prática?
Bem, teríamos inúmeras respostas às perguntas acima e novamente vamos
nos guiar por uma visão macro-social baseada em análises sociológicas que nos ajude a dar
conta desse vespeiro. Mello (2005b) e Miskolci (2007) são os estudiosos que nos auxiliarão
nessa tarefa.
Em seu artigo “Outras famílias: a construção social da conjugalidade
homossexual no Brasil” Mello (2005b) traz uma reflexão acerca dos problemas que cercam os
debates sobre as conjugalidades homossexuais quanto ao seu reconhecimento como entidade
familiar e social. Um dos pontos que esse tipo de arranjo conjugal desafia é a idéia de que
casal e família fazem-se necessariamente através da complemetariedade dos sexos e dos
gêneros, ou seja, está restrita a relação homem e mulher, questionando desse modo a norma
heterocêntrica que vem estruturando ao longo do tempo a forma e a ideologia imposta como
correta, relativas a casamento e família forma essa assentada num modelo patriarcal, no
poder irrestrito do masculino, que determinou e determina regras, papéis, tarefas ao homem e
a mulher no âmbito das relações.
Outro ponto ou embate ideológico como denomina Mello (op. cit.) é acerca
da concepção de um estado laico de direito em contraponto com ideologias religiosas que
acirradamente vem lutando contra qualquer tipo de avanço social ou jurídico que beneficie
homossexuais em suas conjugalidades. As ideologias religiosas reforçam a idéia “naturalista”
de família e casamento, entendem a união conjugal e sexual como imperativo de reprodução,
vêem à homossexualidade como uma “imoralidade” ou “perversão” e que não pode existir
amor e possibilidade de união conjugal entre pessoas do mesmo sexo.
É tão forte essa oposição que o Vaticano em 2003 publicou um documento
chamado “Sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas
homossexuais”, o documento reafirma o discurso que Deus criou o homem e a mulher para
8
Destacamos aqui o Programa Brasil sem Homofobia, elaborado pelo Ministério da Saúde/Conselho Nacional
de Combate a discriminação da Secretaria Estadual dos Direitos Humanos- SEDH (2004).
9
Tendo como referencia o ano de 2008 ocorreram 127 Paradas do Orgulho LGBT no Brasil, um número recorde
em todo o mundo. A parada GLBT de São Paulo é considerada a maior do mundo, recebendo 3,4 milhões de
pessoas em 2008 e repetindo esse feito em 2009 .Para maiores informações ver
http://glsplanet.terra.com.br/pride/progpar2008.shtml
34
fazerem filhos e evoca a tradição e autoridade bíblica para rechaçar e condenar a
homossexualidade, dizendo que a união entre pessoas do mesmo sexo fere a lei natural e
fecha o ato sexual ao dom da vida, concluindo que tal união é imoral e nociva ao progresso da
família e da sociedade humana (TREVISAN, 2006).
Miskolci (2007) utilizando do conceito de pânico moral que na sociologia
remete ao medo social em relação às mudanças e a forma como vários segmentos sociais, tais
como a mídia, opinião pública e os agentes de controle social reagem a determinados
rompimentos de padrões tidos como normativos, demonstra como o casamento homossexual
tornou-se um temor a sociedade à medida que coloca em cheque a questão do casamento
como ordem social, hierarquia entre os sexos, meio para transmissão de propriedade e valores
tradicionais, paradigmas esses compartilhados por Arán e Corrêa (2004) que afirmam que a
laço afetivo entre homossexuais se transforma numa ameaça social no momento que apaga
fronteiras e transgride os limites da referência compulsória e “naturalizada” que são a
heterossexualidade-casamento-filiação.
Em contraponto a essas premissas o casamento homossexual está
diretamente associado à construção histórica e social da imagem do gay e da lésbica como
ameaças ao status quo, culminando no famoso tripé - que desde sempre vem marcando e
estigmatizando a identidade homossexual: crime-loucura-pecado (SPENCER, 1996).
Baseado nessa tese a sociedade tem pânico e receio que a conjugalidade
entre pessoas do mesmo sexo “desmonte” as premissas dadas sempre com certas de
casamento, ou seja, a reprodução biológica, divisão tradicional de papéis sociais entre homem
e mulher, a moralidade. Diz Miskolci:
(...) o pânico moral, porque se teme é uma suposta ameaça á ordem social ou a uma
concepção idealizada de parte dela, ou seja, instituições históricas e variáveis, mas
que detém um status valorizado como a família ou o casamento(2007:112).
Porém o que autor traz como diferencial é justamente o fato de que apesar
da suposta ameaça representada pelas conjugalidades homossexuais para a sociedade, o
impacto para os próprios homossexuais frente a essas mudanças também tem sido fruto de
muitas discussões e divergências.
A luta pelos direitos civis vem acontecendo em termos hegemônicos, como
o direito ao casamento. Tal luta tem um grande poder de mobilização, mas ao mesmo tempo
é percebida também como uma “domesticação” desse tipo de relações.
Assim, gays e lésbicas se enquadraram se tornam mais “respeitáveis”
aqueles cujo casamento se iguala ao modelo heterossexual estável. Se indivíduos com
35
orientação homossexual não podem mesmo se tornar heterossexuais, então a ordem social
encontrou um meio de fazê-los viver como se fossem. Portanto, aqueles que foram temidos
como anunciadores da mudança social agora são vistos como a última esperança de
instituições em crise.
Dessa forma Miskolci (op. cit) abre uma interessante discussão a própria
conjugalidade homossexual reflete sim o anseio de muitos gays e lésbicas a viverem e terem
direito a escolha da conjugalidade, porém tais relações podem representar também uma
adequação, uma “domesticação” dessa conjugalidade. O que a principio prometia ser
transgressor, e que surgia como uma forma e possibilidade de reinvenção da instituição do
casamento podem significar também um “ajustamento” de gays e lésbicas a ordem social.
Nessa mesma linha de pensamento Roudinesco (2003) em seu livro “A
família em desordem” discute o desejo que gays e lésbicas tem de normalizar” suas relações
reivindicando o direito ao casamento, a adoção e propõe reflexões instigantes; porque os
homossexuais querem se enquadrar, formarem famílias, se as mesmas os excluíram ao longo
de séculos e tanto contribuíram para seus infortúnios?
Porém, o que não temos como negar é que os casais homossexuais estão
cada vez mais visíveis, e muitos deles vem constituindo núcleos familiares através de adoção,
novos casamentos, tecnologia de reprodução assistida e outros recursos que a
contemporaneidade propicia. Também não temos como negar que viver um casamento
homoafetivo produz por si uma série de estressores a esses indivíduos que necessitam
administrar suas relações no cotidiano, em mundo francamente homofóbico e que funciona
com uma ideologia heteronormativa.
Portanto como afirma Silva (2005), a conjugalidade entre pessoas do mesmo
sexo toca fundo no nosso preconceito e revela todos os problemas ligados aos diretos civis,
políticos, religiosos e culturais de nossa sociedade. Por intermédio de problemas sociais
como esses que podemos compreender o sofrimento psíquico de milhares de “sujeitos em
busca de um lugar”. O autor lança as seguintes reflexões:- Como viver bem em um mundo
que torce a cara e a afetividade de duas pessoas? Como não apresentar depressão, angústia,
tristeza, desamparo ou até mesmo revolta contra um mundo que diz não ao seu desejo? Como
se reconhecer como cidadão de uma dada sociedade se esta não permite o reconhecimento
público do status de sujeito de direito?
Todas essas questões produzem grande impacto subjetivo seja na formação,
manutenção e cotidiano de quem vivem conjugalmente com alguém do mesmo sexo. A
necessidade em criar estratégias sejam elas cognitivas, afetivas e relacionais se impõem de
36
forma imperiosa para esses casais e entendemos que o trabalho psicoterápico pode ser um
recurso de grande valia para situações de crise e promoção de saúde e qualidade de vida a
esses casais.
Para finalizar, recorremos a uma metáfora muito bem elaborada por
Sant’Anna (2002), que preconiza que casais homossexuais vivem como se fossem
equilibristas, tentando o tempo todo se equilibrarem em uma corda, pois de um lado a
sociedade impõe valores, crenças, estereótipos, preconceitos e desqualificações frente a esse
grupo e por outro, os próprios casais que devem criar um relacionamento amoroso que carece
de modelos e que necessitam se proteger, porém, sem se isolarem do mundo.
1.2 Questões para a Psicologia Clínica
Em 22 de março de 1999, o Conselho Federal de Psicologia baixou uma
resolução que cria e estabelece normas de atuação para o psicólogo em relação à questão da
orientação sexual. A resolução determina que psicólogos não considerem a
homossexualidade como doença, distúrbio ou perversão e que não recomende “tratamento”
e/ou “cura” para a homossexualidade. Como publica o próprio Conselho (2008) a decisão foi
histórica, pois o Conselho Federal de Psicologia foi o primeiro conselho profissional a
publicar uma norma de defesa a livre orientação sexual e questões de gênero, pois como
afirma o artigo 2 da resolução os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento,
para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e
estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.
Além da resolução estabelecida pelo Conselho Federal de Psicologia, o
Conselho Regional de São Paulo CRP_SP mantém desde janeiro de 2008 um grupo de
trabalho sobre as questões LGBT que se propõe a discutir o sofrimento psíquico decorrente da
homofobia, do preconceito e da discriminação oriundos da não-aceitação de outras expressões
sexuais diferentes da heterossexual e de indivíduos que possuem identidades de gênero
diferentes das tradicionais (CRP, 2008). Contemplando essas iniciativas foi também publicada
pelo Conselho Federal de Psicologia uma cartilha que versa sobre adoção e
homossexualidade, discutindo também questões de famílias e pais/mães homossexuais.
Vale citar que a American Psycological Association (APA), por
intermédio da Sociedade de Psicologia para questões LGBT mantém desde da década de
37
1970 um site
10
específico com normas estabelecidas e orientações para o trabalho, pesquisa e
prática do psicólogo com a população LGBT, bem como para casais e famílias homoafetivas,
pois as questões psicológicas e o trabalho do psicólogo clínico com essa população vêm
sendo amplamente debatida na sociedade americana e envolve temas relacionados à postura
terapêutica, ressonâncias de terapeutas no trabalho com homossexuais, casais e famílias
homoafetivas, treinamento específico, supervisão e a criação de diretrizes contendo as
especificidades em trabalhar com essa população (GODFREY et. al, 2006 ; LONG E
LINDSEY, 2004 ; GREEN, 1996 ; HANCOCK, 1995).
É importante destacar que em virtude das mudanças ocorridas nas
conjugalidades, o trabalho psicológico com casais e famílias torna-se mais complexo e exige
do profissional uma constante revisão de seus valores, crenças e conseqüentemente
conhecimento especializado para manejar junto aos clientes questões psicológicas que
envolvem as construções e transições conjugais e familiares tão diversas e plurais, como é,
por exemplo, a conjugalidade homossexual.
Concordamos com Macedo (2004) que preconiza que a capacidade de
reconhecer a diversidade, respeitá-la, e agir de acordo com ela, e a competência cultural são
itens indispensáveis na formação e atuação do psicólogo clínico no trabalho com casais e
famílias. Segundo a autora:
(...) atuar e pesquisar em contextos diversos significa ter como clientes pessoas
pertencentes a vários grupos, o que subentende uma multiplicidade de valores,
crenças e costumes adquiridos no processo de socialização de cada um, nas
sociedades de origem, grupos, subgrupos, comunidades, famílias a que pertencem e
que constituem as lentes culturais com que cada qual o mundo, o outro e a si
mesmo (MACEDO, 2001:41).
Apresentamos a seguir questões que envolvem a construção das
conjugalidades, entendendo as mesmas como vínculos afetivos importantes para o ser -
humano e as especificidades que cercam as conjugalidades homossexuais e a relação com
trabalho psicológico com esse grupo.
1.2.1 A Construção conjugal
Partimos da premissa básica que o processo conjugal é um processo
construído. É nos dizeres de Féres-Carneiro (2009), um processo de fascínio e desafios, pois
10
www.apadivision44.org.br
38
traz, ao mesmo tempo em sua dinâmica, duas individualidades e uma conjugalidade. Nos
dizeres da autora:
(...) o casal conter dois sujeitos, dois desejos, duas inserções no mundo, duas
percepções do mundo, duas histórias de vida, dois projetos de vida, duas identidades
individuais que, na relação amorosa, convivem com uma conjugalidade, um desejo
conjunto, uma história de vida conjugal, um projeto de vida de casal, uma identidade
conjugal (2009:3).
Como vimos na abertura deste trabalho, na atualidade, muitas mudanças
afetam a construção da conjugalidade e segundo Norgren (2002) na interação e experiência
conjugal são valorizados aspectos tais como: a comunicação aberta e assertiva entre os pares,
o amor, a satisfação sexual, a intimidade, as demarcações pessoais e autonomia de cada
cônjuge, o projeto conjugal.
A aspiração, o desejo de construir uma vida a dois, de compartilhar, amar e
ser amado numa relação conjugal nos remete diretamente sobre a uma condição e necessidade
básica de sobrevivência do ser humano, que é construir vínculos afetivos.
Na construção conjugal e na busca de parceiros existe uma expectativa entre
os pares acerca de cuidados, proteção, carinho, troca afetiva, enfim que o estabelecimento
desse vínculo afetivo também possa suprir e ou satisfazer necessidades afetivas básicas.
Tendo como base as idéias de Bowlby (1997 [orig.1979]) e Ainsworth
(1989), Souza e Ramirez (2006) descrevem sobre a importância em se compreender o vínculo
e a interação conjugal adulta como sendo laços afetivos duráveis, caracterizados pela
reciprocidade e um intercâmbio fluido e dinâmico entre os papeis de apego e cuidado entre os
pares, situando o amor romântico como uma emoção, um vínculo de apego que é estimulado
pela familiaridade do outro, pela satisfação de necessidades do self que este outro possibilita
e pela confiança e segurança que ele inspira” (Souza e Ramirez, 2006 p. 45).
Na visão de Hazan e Shaver citado em Norgren (2002), o amor conjugal é
conceituado como um vínculo de apego, como uma ligação, um laço afetivo duradouro
caracterizado por uma dinâmica emocional e complexa de troca entre iguais adultos que
envolvem os sistemas de apego por intermédio da manutenção de proximidade física e contato
com o par que lhe forneça segurança física e psicológica, que possa prover cuidados
recíprocos e a vivência da sexualidade.
Assim percebemos que o desejo da conjugalidade esta diretamente
relacionada à necessidade das pessoas em estabelecimento de vínculos e laços afetivos
duradouros, de sentir-se ligado a alguém, que proporcione apoio emocional, material,
continência.
39
Por essa ótica podemos argumentar que a construção conjugal, submetida a
relações mais flexíveis e igualitárias mostra-se um desafio para as pessoas. Desafio no sentido
de vivenciar o processo de conhecer alguém, namorar, noivar e enfim casar transições que
outrora era tão bem delimitadas que constituíam o processo de uma construção afetiva e,
quiçá conjugal.
Sabemos que hoje em dia, esses processos e transições não ocorrem
necessariamente na seqüência citada acima. Como exemplo disso podemos citar o fenômeno
do “ficar” tão difundido atualmente em nossa cultura, principalmente entre os adolescentes
e os jovens. Féres-Carneiro (2009) descreve a atitude de ficar como uma relação de
experimentação entre as pessoas que a priori tem como característica principal a falta de
compromisso entre os parceiros que buscam obter prazer a partir da vivência da sedução. Em
estudos realizados com adolescentes sobre a atitude do ficar, revelou que muitas vezes esse
tipo de comportamento funciona como um teste, uma verificação de possíveis afinidades
entrando em jogo a possibilidade de desenvolver sentimentos de amor e desejo pelo parceiro
que levaria a um possível enlace de enamoramento situação essa considerada como ideal e
preferida por adolescentes e jovens (MATOS, FÉRES-CARNEIRO, JABLONSKI, 2005;
JUSTO, 2005).
Porém o que se persegue na busca de um relacionamento amoroso com o
outro é a possibilidade de viver vínculos afetivos, pois, apesar do fascínio da experimentação,
independência, autonomia, diversidade e igualdade preconizada no afrouxamento de crenças,
condutas e atitudes que incidem sobre a construção de tais relacionamentos, o ideal do
amor romântico que traz em seu imaginário promessa de segurança, confiabilidade, fidelidade
é muito presente e também objeto de busca nesses relacionamentos contemporâneos levando a
uma paradoxo e uma coexistência de aspectos tradicionais e modernos nas transições e na
construção desses vínculos afetivos (GIDDENS, 1993; FÉRES-CARNEIRO, 2001, 2009;
FÉRES-CARNEIRO, PONCIANO E MAGALHÃES ,2007; BAUMAN, 2003; SOUSA E
RAMIREZ, 2006; NORGREN, 2002; NORGREN, SOUZA, KASLOW et. al., 2004 ;
SIMÕES, 2007 ).
A respeito da construção conjugal e das transições que envolvem esse
processo, Simões (2007) em sua dissertação de mestrado buscou compreender de que maneira
se processa a transição pré-nupcial para a conjugalidade legal extraindo de seus participantes
três homens e três mulheres heterossexuais, todos adultos jovens, suas experiências sobre as
demarcações rituais desses processos. Através de entrevistas a autora captou a impressão
desses jovens sobre o significado de sentir e estar casado. Encontrou como resultado que o
40
“morar juntos” antes de uma formalização legal foi muito importante para esses casais, que
funcionou como um teste de convivência e ajustes antes de optarem pela legalidade do
casamento. A festa de casamento e outros rituais foram vistos como importantes elementos
para esses casais que legitimaram suas relações frente a amigos e familiares. Simões (op.cit.)
concluiu que esses arranjos conjugais oscilam entre o casamento moderno e o tradicional
que possuem elementos característicos dessas duas modalidades de relações.
Essas transições acontecem também com os homossexuais na construção de
suas conjugalidades, porém como descreve Féres-Carneiro (2009) não modelos, rituais ou
normas disponíveis como exemplos para a integração de casais do mesmo sexo á família,
estes casais têm de inventar seus próprios “rituais de pertencimento” que servirão para
fortalecer e validar a sensação de ser membro de uma família.
Torna-se importante concluir que a construção da conjugalidade, o desejo
de viver uma vida a dois acontece independente da orientação sexual do sujeito, pois revela
uma condição essencial que nos faz humanos a de construir vínculos afetivos, portanto os
homossexuais constroem seus vínculos afetivos e conjugais a despeito de uma série de
estressores que cercam esse tipo de arranjo, aspectos esses que exploraremos a seguir.
1.2.2 Estressores específicos da conjugalidade homossexual
Sant’Anna (2002) refere que no Brasil, apesar do aumento em estudos
sobre esse fenômeno- a conjugalidade homossexual, existem poucas pesquisas na área de
Psicologia Clínica que tratam da questão dos relacionamentos afetivos e conjugais entre
homossexuais, bem como a funcionalidade dessas relações, evidenciando uma discriminação
sexual e social sobre esse assunto. O pesquisador desenvolveu pesquisa qualitativa que
investigou como se constroem os relacionamentos amorosos entre pessoas do mesmo sexo
(masculino) e como o casal concebe essas relações tendo em vista as questões de gênero e os
estereótipos sociais referente à homossexualidade e a construção de seus relacionamentos. O
autor entrevistou três casais homossexuais masculinos, de classe média, residentes na cidade
de São Paulo. O resultado do trabalho apontou a possibilidade da construção do
relacionamento entre pessoas do mesmo sexo desde que ambos tenham a identidade sexual
definida, estejam satisfeitos e seguros, mesmo apresentado dificuldades em definir e assumir a
identidade para a família de origem e para a sociedade em geral, pois enfrentam e
contradizem as expectativas da família e do social.
41
Segundo Sant’Anna (2002) quando dois homens resolvem viver juntos,
várias dificuldades se intensificam, e que funcionam como estressores para o casal
homossexual, a saber:
- ausência de sanções legais e sociais da união homossexual que os
reconheçam como um casal que têm direitos e deveres;
- a dificuldade de aceitação da família e da sociedade (por exemplo local
de trabalho);
- falta de modelos aceitáveis para as relações homossexuais, pois considerá-
los pela visão dos casais heterossexuais, não significa somente discriminá-los, mas sim, não
atender ás especificidades de suas necessidades;
- forte ênfase latina na dicotomia do gênero masculino e feminino, no qual
muito homossexuais utilizam a relação heterossexual como modelo;
- forte estereótipo de promiscuidade associado à homossexualidade
masculina.
Na prática clínica, são questões como essas que levam os casais
homoafetivos, a buscarem ajuda para suas aflições e sofrimento, e, é no dia do dia do fazer
psicológico que nos deparamos com a complexidade de conflitos e problemas que afetam a
dinâmica dos relacionamentos conjugais homossexuais e que criam estressores específicos
para com essa modalidade de relação.
Alguns estudiosos (McGoldrick, 1995; Conolly, 2004; Tunnell e Greenan,
2003, 2004; Green, 2004) são categóricos em afirmar que casais do mesmo sexo quando
buscam ajuda psicológica para seus relacionamentos apresentam problemas semelhantes a
casais heterossexuais, ou seja, questões vinculadas a qualquer casal, tais como: problemas
financeiros, satisfação/insatisfação, problemas com sexualidade, convivência, ajustamentos,
individualidade/conjugalidade etc. e que não devem ser tratados de maneira especial ou
diferente por conta disso, mas também concordância entre os estudiosos citados acima que
existem peculiaridades no trabalho e atendimento psicológico a casais do mesmo sexo, como
já descrito e corroborado anteriormente por Sant’Anna (2002).
Esses estressores específicos para os casais homossexuais, bem como os
desafios cotidianos em viver uma relação conjugal homoafetiva, podem ser assim
categorizados:
1) Enfrentar a homofobia, tanto internalizada como institucionalizada e
lidar com o heterossexismo vigente na sociedade;
42
2) Manter o senso de casal apesar da falta de apoio legal e normativo para
relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo;
3) Criar redes sociais que promovam suporte social e suporte emocional e
interconexões entre os membros deste grupo;
4) Manter flexibilidade das regras de gênero a fim de evitar o aumento de
riscos emocionais da fusão e super-dependência em casais femininos ou o
desengajamento emocional e competição entre casais masculinos, no qual se
observa a repetição das regras tradicionais de gênero.
Passaremos então a descrever esses estressores específicos que afetam
sobremaneira a vida psicológica e social dos casais homossexuais.
Em seu sentido lato homofobia significa medo irracional da
homossexualidade ou dos homossexuais. O termo foi cunhado pelo Psicólogo americano
George Weinberg na década de 1960 e usado por ele em seu livro “A Sociedade e o
homossexual saudável” de 1972, no qual Weinberg tece críticas a profissionais que
consideravam a homossexualidade uma doença, defendendo que a homossexualidade deveria
ser compreendida com uma orientação sexual e não como um viés patológico (PEDROSA,
2006).
De acordo com Von-Smigay (2002) e Borrillo (2009), a homofobia é um
conceito ambíguo associado à homossexualidade que indica uma postura de rejeição, de medo
de contato com homossexuais. Os autores dizem que homofobia é um termo bastante
complexo, pois se o tomarmos em sua etimologia, a palavra homo, seja em grego ou latim,
quer dizer o mesmo, o idêntico, mas também homem; e fobia o medo nesse caso o medo de
outros homens, ou mais precisamente, o medo do mesmo, do idêntico a si.
No cotidiano a palavra homofobia vem sendo utilizada para designar a
opressão, o preconceito seja ele social ou internalizado - o medo, a discriminação, a
violência contra homossexuais e por conseqüência a todos aqueles que expressam orientação
sexual ou identidade de gênero diferente dos padrões determinados pela sociedade
heteronormativa. É uma forma de violência invisível que atinge a todos os próprios
homossexuais, o casal homossexual, suas famílias de origem, a família que constituem, e
isso, em vários segmentos sociais, seja no trabalho, na escola, nas instituições e dentro da
própria casa (MORIS, 2008).
Heterossexismo pode ser entendido como a idéia de que a
heterossexualidade é a orientação sexual “normal” e “natural” e que comportamentos e
43
atitudes “não-heterossexuais” constituem em um desvio da regra social, uma anomalia,
atribuindo vantagens e total soberania a heterossexualidade (KOTLINSKI et. al., 2007).
Para além das dificuldades individuais, a cultura homofóbica e o
heterossexismo geram sofrimento psíquico e social aos casais homossexuais.
A lógica do preconceito e da homofobia assume formas insidiosas e
complexas ao casal homossexual principalmente relacionada à falta de apoio legal e social a
essas relações. Existe uma falta de proteção social e legal aos casais homossexuais e suas
famílias se comparando aos direitos civis de pessoas heterossexuais casadas. Podemos citar,
por exemplo, o direito a herança, comprovação ou composição de rendas para aquisição de
bens, a inclusão do companheiro em programas de auxílio doença ou planos de saúde etc.
11
Vale lembrar a história de um casal homoafetivo masculino, no qual um dos
cônjuges passava por uma situação de saúde delicada e necessitava tomar uma decisão se
fazia ou não uma cirurgia. A equipe hospitalar não considerou a opinião do companheiro, pois
não considerou a relação conjugal existente entre ambos, esperando a família de origem para
decidir o procedimento médico a ser tomado, mesmo com a pessoa correndo risco de morte.
Falando especificamente da formação do casal homoafetivo, a ausência de
uma união civil legalizada e a falta de um ritual que marque esse ciclo de vida contribuiu para
a não validação social e legal gerando sentimentos de confusão e ambigüidade para o próprio
casal. A experiência conjugal e o tempo da relação tornam-se uma das principais ferramentas
que o casal dispõe para validar seus relacionamentos, ampliar sua confiança e legitimar para si
e para os outros suas conjugalidades (CONOLLY, 2004; BROWN e ZIMMER, 1987).
Atualmente muitos casais homossexuais têm realizado celebrações, como
uma maneira de marcar essa passagem, um ritual no qual buscam legitimar socialmente suas
relações, e vem encontrando inclusive respaldo de algumas religiões principalmente as de
origem afro-brasileira no Brasil.
Como coloca Nunan (2007a) a ausência de uma festa, ou de alguma
cerimônia tende a confirmar o estigma com relação aos homossexuais, reforçando a idéia e a
crença de que essa relação afetiva e conjugal deve ser mantida em segredo. Porém um dado
bastante curioso é que em países onde o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legalizado
a decisão de realizar uma cerimônia de compromisso vem sendo relatada pelos casais
11
Vale citar que a revista Super Interessante em sua edição 202 lista vários direitos, mas precisamente 37, que
são negados a homossexuais se comparados aos seus pares heterossexuais casados (Gwercman, 2004), porém é
importante destacar também que essa realidade vem mudando gradualmente. Hoje existem empresas do setor
Público e Privado que já oferecem uma política de benefícios a homossexuais e seus parceiros em união estável,
podemos citar a IBM Brasil, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.
44
homossexuais como uma vivência também difícil e dolorosa, descrita como a “abertura de
uma nova ferida”, pois os familiares, amigos que sabiam, toleravam ou até não sabiam sobre a
homossexualidade do casal se defrontam com essa situação eminentemente social, ou seja,
compartilhar da cerimônia de casamento faz com que todos tenham que novamente rever seus
conceitos e preconceitos acerca de significados como casamento, homossexualidade etc.
(SMART in NUNAN, 2007a).
A cultura homofóbica e a falta de validação social podem dificultar
sobremaneira a forma como a díade se reconhece como casal, o gerenciamento da identidade
de estar casados, bem como o medo de sofrerem retaliações e violência, seja físico ou
psicológico quando comunicam abertamente sobre suas conjugalidades. É muito raro ver
casais homossexuais trocando afeto em público, expondo carinhos e podendo mostrar suas
intimidades fora do âmbito privado e de locais de freqüência eminentemente homossexual.
Por medo, muitos casais também podem apresentar excessiva atenção quanto a seus
comportamentos e vigilância constante para que seus gestos, atitudes, linguagem não sejam
“reveladores”.
Vale aqui introduzir um aspecto importante sobre a homofobia e a cultura
hetoronormativa, no que diz respeito ao modelo introjetado por homossexuais sobre como é
viver uma relação conjugal e os modelos e crenças sobre o que é conjugalidade e família. Os
homossexuais são o único grupo que sofre o que chamamos de preconceito horizontal, pois
diferentemente de negros ou judeus, por exemplo, os homossexuais crescem e são educados
por uma família heterossexual e assimilam esse modelo de relacionamento conjugal e
familiar.
Portanto, desconstruir esses padrões e crenças é um desafio permanente a
gays e lésbicas, no que diz respeito à construção de uma relação afetiva sem tantos modelos e
que requerem um constante lidar com suas homofobias internalizadas. Esse desafio cotidiano
é o que ao casal homossexual o senso e a percepção que de fato são um casal e que devem
criar estratégias de enfrentamento e de diferenciação enquanto díade, ou como colocam
Salomé, Espósito e Horta (2007) o casal necessita rever seu significado de casamento e de
família e criar um estilo particular e criativo de conjugalidade, e muitas vezes reinventá-las
(PAIVA, 2007; MOSCHETA, 2004).
A construção da identidade do casal homossexual, nesse caso
especificamente o masculino, é um dos aspectos que vem orientado o trabalho de dois
psicólogos americanos e terapeutas familiares David Greenan e Gil Tunnell. O trabalho
45
realizado por esses psicólogos é fundamentado na Teoria Estrutural de Salvador Minuchim,
teórico pioneiro da Terapia familiar e de casal.
Na teoria Estrutural, o casal, a família é compreendida como um sistema
aberto operando em vários contextos e possuindo fronteiras, limites estruturais e de
funcionamento que definem os subsistemas (conjugal, parental, filial) que por sua vez
determinam quem e como as relações se estabelecem, as hierarquias e a organização desse
sistema, pautadas em várias categorias tais como idade, papéis, gênero, função e outros
(MINUCHIM, 1982).
Greenan e Tunnell (2003) expõem que uma das principais tarefas do casal
homossexual masculino é criar fronteiras para a construção e diferenciação de sua identidade
enquanto casal, tanto para os próprios membros da díade como para os outros, pois é
necessário que o casal se proteja das interferências de outros sistemas e consiga avaliar o grau
de permeabilidade e flexibilidade da relação conjugal com o meio social mais amplo,
incluindo aí os estressores específicos que cerca a vida desses casais.
As fronteiras, os limites e a diferenciação social de um sistema para outro
são elementos essenciais para o desenvolvimento da identidade de um novo sistema, portanto
a construção do sistema conjugal, é criado a partir da identidade individual de cada parceiro e,
é na interação entre o casal e os diversos contextos sociais, que a identidade de ambos como
casal é formada e fortalecida, ou dependendo das experiências, ameaçada e fragilizada.
A legitimidade da identidade para o casal se faz com o suporte da
comunidade, portanto casais homossexuais são em grande escala prejudicados quanto
comparados com os níveis de suporte social que existem para os casais heterossexuais. Os
casais heterossexuais não se preocupam em “autenticar” sua identidade como casal, pois
vários rituais sociais já os dão o status de casal.
A homofobia internalizada pode fazer com que o casal homossexual
masculino sinta-se reticente em se apresentar como um casal para a comunidade, o que
justifica em partes a invisibilidade no qual alguns casais permanecem. Eles se fecham e é
muito mais difícil para o casal homossexual masculino se revelar do que para o homossexual
solteiro, pois a revelação nesse caso, além da orientação sexual inclui também a revelação do
relacionamento conjugal (GREENAN E TUNNELL, 2003, 2004).
Outros aspectos importantes a se considerar no relacionamento afetivo entre
pessoas do mesmo sexo masculino e que são fortemente influenciadas pela homofobia
internalizada são: a ambigüidade relacional, a falta de parâmetros de construção de identidade
conjugal, pois muitas vezes os próprios homossexuais têm internalizado a crença de que um
46
relacionamento conjugal pode ocorrer entre um homem e uma mulher, criando o
sentimento de que suas conjugalidade são inferiores e pouco funcionais, enfim que “não
podem” ou “não devem” construir um relacionamento afetivo por serem homossexuais.
Tanto Santa’Anna (2002), como Greenan e Tunnell (2003) apontam para a
importância da construção da identidade individual, aceitação da orientação sexual,
geralmente definindo-se no ciclo de adulto jovem, sendo essa aceitação um diferencial e um
fator preponderante para maior possibilidade de construção de uma relação conjugal.
Outra questão importante a ser considerada e que gera impacto nas relações
conjugais homossexuais diz respeito à fragilidade e até ausência de redes de suporte e falta de
espaços de pertença para os casais. Em grande parte esse fenômeno também está relacionado
à cultura homofóbica, e a um dos grandes desafios para o casal que é comunicar e manter
uma relação aberta com os outros garantindo maior visibilidade da relação e
conseqüentemente ampliação de suas redes.
Esse ponto é um dos centrais nessa dissertação e vale ressaltar a importância
que esse tema tem no trabalho psicológico com casais homossexuais.
São poucas as pesquisas que tratam da relação do casal homossexual e redes
sociais, mesmo porque, entendemos que revelar, contar, falar sobre a relação conjugal
também é um ponto de negociação importante para o próprio casal, pois o preconceito, o
medo fazem com que casais tenham que negociar constantemente em que grau devem ou não
assumir seus relacionamentos, avaliando sempre os riscos de tal decisão (NUNAN, 2007a) .
O que se conhece com mais propriedade é o processo de saída do armário,
de revelação individual do homossexual para pessoas e grupos sociais. Cancissu (2007), por
exemplo, realizou um estudo sobre redes de relacionamentos lésbicos, tratando a experiência
individual e analisando a importância da rede de amizades, os conflitos relacionados à
vivência lésbica com a família de origem, e a importância dos relacionamentos sociais como
rede de suporte e apoio. Quanto à questão da homoconjugalidade masculina e redes sociais
existem poucos trabalhos científicos específicos que aprofundem essa temática.
Um trabalho que versa sobre esse tema é a dissertação de mestrado de
Lomando (2008). O autor investigou a correlação entre qualidade conjugal e a percepção de
apoio social na família de origem, nos amigos e nas relações de trabalho/escola de gays e
lésbicas. Foi utilizado como instrumento de pesquisa um inventário construído e validado
pelo próprio autor (Lomando e Wagner in Lomando 2008) denominado PAS IF Percepção
de Apoio Social - Inventário de funções, que descreve de forma quantitativa a percepção de
apoio social em sete dimensões: companhia social, apoio emocional, guia cognitivo,controle
47
social, ajuda material, acesso a novos contatos e aceitação de orientação afetivo-sexual, sendo
essas áreas delineadas através de informações de apoio da família, amigos, relações de
trabalho/escola. Os resultados apontaram que a qualidade conjugal se desenvolve
positivamente a partir do momento em que os casais homossexuais percebem-se apoiados e
aceitos em suas conjugalidades.
Sabemos que a quebra da invisibilidade e ampliação das redes e apoios ao
casal homossexual está diretamente ligado ao processo de assumir-se como casal e ao
processo de coming-out. Viver como um casal e revelar essa condição é mais do que uma
decisão individual; é uma importante fonte de construção de identidade do casal, fonte essa
de mobilização e dinamismo para a relação e ao mesmo tempo tal revelação deve ser uma
escolha estratégica tendo em vista a importância para qual grupo revelar, em que momento e
os custos-benefícios advindos desse processo. (PATTERSON, CIABATARRI e SCWARTZ,
1999).
Revelar ou não, decidir para quem revelar e até mesmo a forma e a maneira
com que cada membro do casal entende sobre essa questão demonstra a importância da
negociação e acordos que o casal necessita fazer para encampar tal situação.
Muitos casais homossexuais mantêm múltiplas identidades, dispendem
muita energia escondendo suas orientações e relacionamentos e em conseqüência disto suas
vidas ficam fragmentadas em compartimentos. Como afirma Slater in Conolly (2004), a
dinâmica de separar os que sabem dos que não sabem, e aqueles que nunca podem saber, pode
gerar confusão, sentimentos de perda e de discordância entre o casal. É como se o casal em
muitas situações vivesse em universos distintos, gerando muitas vezes dificuldade em
administrá-los. É o que Sedgwick (2007) chama de Epistemologia do armário, que é um
regime que regula as relações sociais, com suas regras contraditórias sobre privacidade e
segredo, público e privado, pois mesmo o homossexual ou o casal mais assumido sempre que
se depara com um grupo novo de pessoas necessita fazer novos cálculos e levantamentos
sobre o binômio exposição/sigilo é o famoso “segredo aberto”.
O processo de revelação e assunção das conjugalidade está relacionado
também aos estágios em que se encontram cada parceiro na relação conjugal. Conolly (2004)
coloca que as diferenças dos companheiros no processo de revelação, sejam elas por questões
geracionais, significados pessoais sobre a revelação, estágios em que cada membro se
encontra em relação ao seu processo interno de identidade e aceitação de sua orientação
sexual influenciam o processo de coming-out do casal
48
Mattison e McWhiter (1987, 1996) identificaram o que chamam de conceito
de estágio de discrepância relacional, sendo, esses estágios, aspectos próprios de casais
homossexuais masculinos. Os autores identificaram seis estágios de desenvolvimento do casal
homossexual masculino, que são os seguintes: 1)mistura e ligamento, 2) aninhamento,
3)manutenção, 4) construção, 5) liberação e 6) renovação. Os autores sugerem que uma
“discrepância de estágio” ocorre com freqüência e que pode influenciar sobremaneira a
revelação do casal. Por exemplo, um dos pares pode não estar confortável na posição de
manutenção da relação enquanto o outro já está num estágio de liberação querendo comunicar
e revelar a relação de ambos para vários grupos sociais.
Mesmo que os estágios não sejam exatamente os mesmos para os casais
femininos, eles também ocorrem e as discrepâncias também estão presentes nesses casais.
Sem a compreensão do estágio de coming-out, ou das discrepâncias de estágios, casais
masculinos geralmente consideram suas dificuldades como uma falha pessoal ou relacional,
ao invés de reconhecerem que as diferenças estão tipicamente correlacionadas ou o
gerenciadas pelo crescimento e desenvolvimento da relação (MATTISON & MCWHIRTER,
1996).
Nunan (2007a) também postula que diferenças em estágios de auto-
aceitação entre os pares, níveis de homofobia internalizada e situações de violência, por
exemplo, vividas por um dos pares ou pelo casal podem influenciar a decisão do casal
homossexual em que nível revelar ou não, e até promover um fechamento do casal quanto
essa questão.
O processo de revelação para o casal homossexual também difere
substancialmente dependendo do grupo ou rede social a qual é dirigido à revelação.
Inegavelmente um dos grupos que mais causam estresse para essa situação é
a revelação do casal homossexual e (des) acordos com as famílias de origem.
Em trabalho anterior (Defendi, 2006), pode-se observar o quão complexo é
o universo de revelação entre casais do mesmo sexo masculino e suas famílias de origem. Os
significados da revelação podem ser múltiplos e as reações e atitudes dos casais e dos
familiares são desde uma aceitação e respeito pelo casal, variando para cada família de origem
até a exclusão e o silêncio de outras famílias o que chega até colocar em cheque a “validade”
da revelação. Um dos pares dos casais entrevistados disse que se soubesse que revelar afastá-
lo-ia de sua mãe e produziria raiva em relação à seu companheiro, jamais teria comunicado ou
revelado acerca de sua relação conjugal, mesmo se cobrando da importância disso, já que para
seu companheiro a situação era aberta a toda família de origem e família extensa.
49
LaSala (2000b) e Sanders (2002), afirmam que os pares geralmente sofrem
muito preconceito por parte da famílias de origem de seu cônjuge bem como de suas próprias.
Geralmente os companheiros são apresentados como amigos sendo excluídos ou não
valorizados em festas consideradas de “família”, por exemplo Natal, aniversário de algum
membro da família de origem, eventos que estão presentes outros parentes e amigos da
família de origem. Se para os membros da família de origem, a crença de que a conjugalidade
homossexual não pode existir, é com muita dificuldade que o casal conseguirá se colocar
como casal e o agenciamento por parte da família de origem para com o casal dificilmente
ocorrerá, aumentando sentimentos de rejeição, solidão e em muitos casos depressão e
incidência de outros problemas psiquiátricos.
Defrontar-se com a conjugalidade de um filho homossexual é um processo
que envolve muitas mudanças para todos os familiares. Geralmente a situação de uma relação
afetiva e conjugal é muitas vezes percebida como a “sentença” final de que a
homossexualidade do filho (a) não terá volta. Muitas famílias têm a crença de que a
homossexualidade de seu filho (a) pode ser um fenômeno passageiro, uma aventura, um
pequeno desvio. Porém ao perceberem que existe uma relação duradoura e estável necessitam
rever suas posturas e seguir para um processo que exigirá uma compreensão para além da
homossexualidade, o que incluirá também o da conjugalidade de seu filho (a). Não raro
muitos sentimentos como vergonha, culpa, medo, sensação de impotência para mudanças,
falta de estratégias dão o panorama dessas relações. Como afirma LaSala in Nunan (2007a),
revelar e comunicar sobre a relação conjugal para os familiares, além de ser um risco, é um
fator importante para a proteção do companheiro e conseqüentemente para a relação, mesmo
sendo essa situação analisada e percebida com muito controvérsia para outros pesquisadores
que trabalham com conjugalidades homoafetivas (GREEN, 2000).
Como coloca Paiva (2007), existe um aproveitamento de oportunidades dos
pares em aproximar seu companheiro dos familiares, aproximação essa que se faz de forma
progressiva, com recuos e avanços, jogos de palavras e linguagem, no qual se constitui
experiências de não ditos e reservas nessas relações. São relacionamentos marcados pelo
silêncio, mensagens contraditórias e de um invisível jamais abordado (p.29). Paiva diz que
em sua pesquisa com casais homossexuais masculinos encontrou repetidamente o seguinte
relato dos casais: em casa nunca ninguém perguntou nada, mas com certeza todos sabem.
Afirma Paiva que é nesse universo, nesse interjogo de dito e não dito de silêncios e evidências
não confirmadas, que muitas vezes ocorre à conexão do casal homossexual junto a suas
famílias de origem e outras redes sociais. São inter e intra-relacionamentos tão complexos que
50
nos obrigam a ver esses contextos para além do simples dualismo sabe/não sabe, revelou/não
revelou, assumido/não assumido, enfim , dentro ou fora do armário.
Outra experiência vivida por casais homossexuais e relatada por Paiva
(op.cit.) refere ao fato de que a coabitação confere maior visibilidade ao relacionamento
conjugal e que visitas de familiares são feitas sob a égide da discrição, seja de olhares e de
palavras. o raro ouvimos relatos de casais que ao receberem visita de familiares, amigos e
outros se sentem divididos, pois essas pessoas muitas vezes não comentam sobre evidências
que descortinam que ali vive um casal, por exemplo a cama de casal, retratos do casal etc.
Não raro também é ouvir dos casais que coabitam algum tempo que receberam poucas
visitas ou até nenhuma visita por parte de seus familiares. O pesquisador mostrou que muitas
vezes se desenvolve um silêncio, uma evidência muda no qual a conjugalidade é administrada
sem que as pessoas falem sobre isso, o que na visão de alguns participantes da pesquisa não
significa necessariamente um “não-assumirseus casamentos, mas sim uma característica de
reserva e privacidade, pois muitos casais homossexuais vivem conjugalmente anos e o
revelaram ou contaram abertamente sobre suas relações a redes sociais, sem que isso carregue
o significado de segredo a esses casais
Esses aspectos levam-nos a pensar o que Schalger (1998) e Clunis e Green
(2003) chamam de being-out, que tem como significado o processo no qual os casais
homossexuais vivem suas vidas e nessa convivência constróem seus relacionamentos sem
necessariamente falar, contar para as pessoas sobre o mesmo. Na prática muitos casais
acreditam que essas atitudes já constituem em si uma revelação, e como ratifica Paiva (2007)
para alguns casais homossexuais o se trata de salvaguardar um segredo, esconder o
relacionamento, mas de livrá-lo de uma exposição e um desgaste desnecessário.
Outro ponto de sociabilidade que traz tensões e negociações entre o casal
sobre a comunicação da conjugalidade é a relação com o ambiente de trabalho dos cônjuges.
Existem poucas pesquisas no Brasil que tratam desses relacionamentos, ou
como afirmam Siqueira e Zauli-Fellows (2006) elas praticamente inexistem. Porém sabemos
que também é uma área no qual a revelação e as vantagens e desvantagens da mesma se
revelam importantes. Atualmente com algumas empresas oferecendo benefícios extensivos a
companheiros em relação conjugal estável, esse processo de abertura tem sido facilitado,
porém por medo, constrangimento e opressão muitos casais não tem se beneficiado desses
programas, incluindo um reflexo da própria decisão do casal em abrir suas relações no âmbito
51
profissional
12
. Muitos argumentam que a revelação pode prejudicar suas carreiras e que
podem sentir-se desprestigiados frente aos colegas de trabalho, pois além da
homossexualidade também revelam que vivem com uma pessoa do mesmo sexo (ARRAIS,
2008).
Para muitos executivos gays ou lésbicas casados, o “silêncio” ajuda a
preservar sua imagem frente à corporação, porém não é raro que muitos se façam passar por
heterossexuais quando necessitam estar em jantares sociais com colaboradores da empresa ou
quando recebem alguma proposta de viagem e até mesmo de mudança de cidade. Lembramos,
em nossa experiência clínica, o relato de um executivo gay que expõe seu sofrimento ao ter
que esconder seu companheiro dos compromissos sociais do trabalho e o quanto isso se
mostrava como um sofrimento também para o companheiro.
Outro importante estressor nas conjugalidades homossexuais diz respeito à
socialização dos papéis de gênero e o impacto que ela produz na construção dos
relacionamentos amorosos homossexuais.
Para uma cultura machista e marcada por uma divisão rígida dos papéis
masculinos e femininos como a brasileira, o desenvolver um equilíbrio sobre esse aspecto nas
relações homossexuais torna-se importante, pois a convivência de dois homens ou duas
mulheres pode acirrar ou potencializar as prescrições de gênero dadas como corretas.
Mostra-se importante aqui trazer alguns conceitos acerca de gênero e
masculinidade, já que estamos tratando sobre homoconjugalidade masculina.
De forma sucinta, podemos definir nero segundo Maciel Junior (2006)
como um modo de “olhar” para a realidade da vida de homens e mulheres, buscando
compreender as relações sociais existentes entre eles, especialmente as relações de poder entre
os homens, entre as mulheres e entre os homens e as mulheres. É segundo Macedo (2009,
2007, 2004) um conceito construído e desenvolvido pelas ciências sociais, para tratar de
questões relacionadas ao masculino e ao feminino, sem se prender a mitos e estereótipos,
sendo, portanto uma categoria social, histórica, de análise do comportamento de homens e
mulheres.
Em sua tese de doutorado Tornar-se Homem: o projeto masculino na
perspectiva de gênero Maciel Junior (2006) discute como “ser” e “tornar-se” homem na
sociedade impõe aos mesmos uma série de condições que o definem como homem. Condições
e características associadas à força, resistência, competência física e heterossexualidade
12
http://www.armariox.com.br/conteudos/artigos/014-chefesougay.php
52
definem o ser masculino e sua posição hegemônica nas relações sociais. Assim, o homem
homossexual, também foi socializado dentro de regras e lógicas do ser masculino e constrói
sua “masculinidade” de acordo com o que é prescrito e esperado socialmente do que é ser
homem.
Portanto antes de serem gays, e serem definidos por sua orientação sexual,
homens gays o homens e foram socializados sob a lógica masculina, ou seja, espera-se que
sejam fortes, controlem suas emoções, sejam competitivos e poderosos, mais ligados a sexo e
menos a intimidades etc., então como dito anteriormente dois homens vivendo juntos podem
acirrar essas características e promover crises em suas relações conjugais.
Um dos problemas mais comuns ligadas a essa questão está no mito que
homens gays são desengajados em seus relacionamentos afetivos e conjugais e que as lésbicas
tendem a ser fusionada em suas relações, isso devido à socialização de gênero em nossa
cultura que ensina que o homem deve ser mais interessado em sexo e controlar suas emoções
e que a mulher deve ser mais afetuosa, carinhosa e passiva nas relações afetivas. Porém sabe-
se que essas “diferenças” que afetam os homossexuais estão diretamente ligadas ao fato de
serem homens e mulheres e não por sua orientação sexual.
Um estudo clássico que aborda essa temática foi o desenvolvido por Green,
Bettinger e Zachs em 1996. Os autores exploraram três pressupostos referentes às relações
conjugais homossexuais, buscando desconstruir alguns mitos que cercam esses
relacionamentos, que são os seguintes:
1)devido a socialização de gênero, casais de lésbicas tem a tendência a ser
emocionalmente fusionais;
2) devido a socialização de gênero casais masculinos tem tendência em
serem emocionalmente desengajados;
3) é essencial para o bem estar e qualidade relacional que casais do mesmo
sexo tenham se assumido para suas famílias de origem.
Os resultados da pesquisa empreendida pelos autores com casais
homossexuais masculinos e femininos, baseados na aplicação do Califórnia Inventory for
Family Assessment, e analisada com pressupostos teóricos dos conceitos de coesão, fusão,
diferenciação, flexibilidade, estrutura, fronteiras e padrões relacionais elaborados por Bowen
e Minuchim, demonstram que os casais homossexuais se comparados com seus pares
heterossexuais são mais coesos e flexíveis e tendem a ser mais abertos quanto à dinâmica
relacional e as prescrições tradicionais de gênero.
53
Pode-se concluir que casais homossexuais tendem a possuir alta coesão e
flexibilidade em seus relacionamentos. A pesquisa também mostrou que essas características
estão ainda mais presente nos casais homossexuais femininos se comparados com os casais
homoafetivos masculinos, resultados esses também encontrados na pesquisa realizada no
Brasil por Heilborn (2004). Portanto a pesquisa contribui para dar novos significados aos
relacionamentos homossexuais, validando sua funcionalidade e demonstrando também o
seguinte: os problemas relacionados à rigidez nos papéis de gênero não estão relacionados à
orientação sexual e sim ao fato de serem homens e mulheres vivendo conjugalmente
portanto, devem-se resignificar os pressupostos de que lésbicas em seu relacionamento são
fusionadas e gays desengajados conferindo-lhes outras características tais como coesão,
apresentação de papéis de gênero menos gidos, existência de satisfação nos relacionamentos
conjugais e que tais relacionamentos funcionam muito bem, recebendo ou não apoio de suas
famílias de origem e tendo seus membros assumidos ou não para suas famílias. Portanto não
uma relação direta entre o assumirem-se para as famílias de origem e a possibilidade da
vivência da conjugalidade, ao contrário, muitos casais vivem muito bem suas relações
independente da revelação e apoio de suas famílias de origem e que esse aspecto não é
determinante para a construção de suas relações (GREEN, BETTINGER e ZACHS, 1996;
GREEN, 2000; SANT’ANNA, 2002).
Falando especificamente da homoconjugalidade masculina sob a questão de
socialização de gênero, quando dois homens vivem juntos o desafio em construir um
relacionamento de intimidade se faz bastante presente. Como na cultura ocidental, os homens
são educados para a competitividade, poder e a eles é permitido e estimulado maior interesse
pela sexualidade e menos pela intimidade, este é um ponto central na vida conjugal desses
casais e um aspecto importante a ser explorado em um atendimento psicológico à casais
homossexuais masculinos.
Greenan e Tunnell (2003) descrevem que umas principais tarefas do casal
homossexual masculino é negociar entre si proximidade e intimidade na relação conjugal.
Esses aspectos são comuns em todos os relacionamentos conjugais sejam eles
heterossexuais ou homossexuais, porém, se observaremos tais questões sob uma perspectiva
de gênero, o foco de entendimento muda.
Dentro de uma perspectiva de gênero nos casais heterossexuais os homens
estão na relação para maior autonomia, mulheres são mais emocionais, pois são ensinadas a
agirem dessa forma. Para homens gays existe um desafio constante para construírem suas
intimidades, pois aprendem desde sempre que por serem homens não podem se envolver, ou
54
devem se envolver com limites, aspecto esse que pode dificultar sobremaneira o
relacionamento amoroso entre dois homens.
Perceber o quanto a prescrição e normas de gênero tradicionais afetam o
casal é perceber que existe desigualdade, relações de poder e tipos de subordinação não
entre casais de sexo diferente, mas também entre casais do mesmo sexo.
Quando homens vivem conjugalmente podem-se acirrar características
atribuídas e socialmente exercidas pelo “masculino” tais como, competitividade, menor
tolerância para a manutenção de intimidade conjugal, imposição de um dos pares na repetição
de papéis de gênero presentes nas conjugalidades heterossexuais, desqualificação do parceiro,
infidelidade sexual constante, conflito relacionado ao dinheiro pois ainda é muito designado
ao masculino essa função e disputa constate de poder (GOMES, 2009; NUNAN, 2007a;
GREEN, 2004; GREENAN e TUNNELL 2003; SANT’ANNA, 2002; SANDERS, 2002;
BROWN & ZIMMER, 1987).
Frente a esses estressores faz-se de extrema importância o posicionamento
do psicoterapeuta no trabalho com casais homossexuais, validando suas relações conjugais e
alertando para as armadilhas que surgem advindas destes contextos. White (2005) diz que
precisamos estar atentos as poderosas forças sociais, econômicas, políticas, legais e
ideológicas que estão em jogo e que muito contribuem para a depreciação e desqualificação
de outras formas de conjugalidade, que não a heterossexual e que pode limitar e
“desautorizar” os casais homossexuais .
Para casais homossexuais masculinos, no processo psicoterápico mostra-se
importante refletir acerca de novas atitudes e mudanças que envolvam redefinição das
fronteiras da relação para reforçar, validar e tornar forte a identidade do casal; um balanço e a
manutenção da conexão emocional com a autonomia individual em outras palavras
conjugalidade e individualidade e a aprendizagem da tolerância das diferenças individuais
minimizando os jogos de poder masculinos (gênero). Para isso o terapeuta deve focar no
processo psicoterápico o que Sanders (2002) chama de “Tríade Tirana” que englobam o
Patriarcalismo, o Heterossexismo e a Homofobia, sejam eles institucionalizados ou
internalizados, como impedimentos maiores para o desenvolvimento de relações afetivas
bem-sucedidas e saudáveis entre homossexuais. Num processo terapêutico para casais
homossexuais o autor considera importante trabalhar os seguintes aspectos: solidão, sensação
de invisibilidade do casal impactado pela cultura homofóbica, ampliação da rede de suporte
social, as negociações de limites no relacionamento e problemas de sexualidade e afetividade
55
sob uma perspectiva de gênero e desconstrução de que um casamento homossexual tem
menor valor e está fadado ao fracasso relacional.
Para finalizar este capítulo, apresentaremos uma ntese sobre os estressores
para o casal homossexual, seus desafios e tarefas na psicoterapia (GREEN, 2004).
56
Desafios
Problemas potenciais
Interv. Terapeuticas
Metas/resultados
Homofobia e
Heterossexismo.
Homofobia
internalizada medo
ambivalência na
construção dos
relacionamentos
afetivos e conjugais.
Externalização do
problema.
Homossexualidade e
casamento não é
problema, mas sim o
preconceito e
discriminação social.
Aceitação da
Identidade.
Habilidade para
formar um casal sem
medo, ambivalência.
Falta de aspectos
legais e
“normatividade” na
relação ,invisibilidade.
Ambigüidade
relacional ,falta de
compromisso entre o
casal, fronteiras,
expectativas e
compromissos;
ansiedade/dependência.
Exploração e
colaboração sobre o
que significa se tornar
um casal (códigos do
casal, juramentos
regras, fronteiras,
expectativas e
compromissos).
Compromisso,
comprometimento
claro.
Funcionando como
um time.
Compromisso
primordial de cada
um.
Plano a longo-prazo
com efeitos para o
futuro.
Segurança, confiança.
Geralmente baixos
níveis de suporte
familiar e falta de uma
rede social coesa.
Isolamento social.
Falta de uma
identidade de casal
definida na
comunidade.
Dificuldade de apoio
social e emocional.
Dificuldade de acessar
suporte/sistema social
quando necessário.
Encorajamento e
preparação para
construir famílias
escolhidas.
Suportes sociais e
redes e conexões entre
os membros.
“Embutir” no casal
senso de identidade e
de comunidade (rede
social coesa,
reciprocidade de
suporte, aumentar os
níveis e
instrumentalizar
suporte emocional.
Casais do mesmo sexo
podem ter seus
problemas
aumentados se entre
os pares estabelecer
regras de gênero
muito rígidas.
Problemas de fusão
emocional e redução de
conflitos para casais
femininos.
Problemas de
desengajamento
relacional ou
competição em casais
masculinos.
Desconstruir junto ao
casal socializações de
gênero tradicionais.
Encorajar a resistência
e subversão aos papeis
tradicionais de gênero.
Flexibilidade,
Equidade.
Formato diferente
emocional e
instrumental para as
regras de gênero nos
casais, maior
colaboração do casal
na resolução de
conflitos, abordagem
menos competitiva.
Tabela 1: Desafios enfrentados por casais do mesmo sexo e suas implicações ao desenvolvimento de
problemas e atendimento psicoterápico (Fonte: Green, 2004).
57
2. Redes sociais, identidade homossexual e homoconjugalidade
58
2.1 Redes sociais: epistemologia e conceitos
O campo de estudos sobre rede social é vasto e rico.
Tal como a homoconjugalidade, diversas áreas científicas vem utilizando
esse conceito para compreender a importância, a funcionalidade e a organização das relações
e das redes sociais em diversas áreas da vida (MENESES e SARRIERA, 2005).
A propósito deste trabalho, focaremos nosso entendimento sobre o conceito
de redes sociais dentro do âmbito das ciências humanas e mais especificamente dialogaremos
com autores no campo da Psicologia que utilizam este conceito aplicado ao trabalho
psicológico com indivíduos, casais, grupos sociais e comunitários.
De forma sucinta, podemos definir rede social como sendo a soma de
todas as relações que um indivíduo percebe como significativa ou define como diferenciadas
da massa anônima da sociedade... e, que contribui substancialmente para seu próprio
reconhecimento como indivíduo e para sua auto-imagem(Sluzki 1997, p.41). Também
podemos conceituar rede social como “um conjunto de relações que possuem uma pessoa e
um grupo, e que são fontes de reconhecimento, de sentimento, de identidade, do ser, da
competência, da ação (MENESES e SARRIERA, 2005, p. 54).
As redes sociais constituem um elemento central na vida das pessoas, são
fontes de experiência individual relacionada à construção da identidade, bem-estar,
agenciamento, protagonismo, incluindo os cuidados com a saúde, recursos poderosos de
adaptação a situações de crise, provê segurança e sentimentos de pertença, bem como
incrementa e promovem qualidade de vida as pessoas (SLUZKI, 1990, 1997; SCHNITMAN,
2006; FEIJÓ, 2002, 2006, 2008).
De acordo com Dabas (1993) a rede social é um processo de construção
permanente, tanto individual como coletiva. Segundo a autora a rede social pode ser
entendida com um sistema aberto, que por meio de um intercambio dinâmico entre seus
membros e integrantes de outros grupos sociais possibilitam o enriquecendo e potencialização
de recursos.
A epistemologia e a os pressupostos básicos no entendimento do conceito de
rede social estão vinculado ao fato de que o mundo, e as relações deste mundo, são um todo
complexo e organizado, e que as conexões entre as pessoas acontecem num determinado
contexto, construído e significado por intermédio da linguagem que afeta e é afetada por
aspectos sociais, históricos, culturais e relacionais (ANDERSON E GOOLISHIAN,1988;
GRANDESSO, 2000).
59
Na visão de Najmanovich (1995) podemos pensar ou metaforizar o universo
como uma grande rede, um emaranhado complexo, tecido nas relações que são
interdependentes e conectivas abrindo o que a autora chamou de cultura da complexidade.
Inserida nessa cultura complexa as pessoas fazem parte e constroem suas redes de
relacionamento, sendo o indivíduo parte de múltiplas redes de interações, tais como a família,
pessoas no ambiente de trabalho, amigos, associações etc.
Reafirmando a idéia de Najmanovich, Esteves de Vasconcelos (2002, 2005)
coloca que vivemos em um mundo complexo e sistêmico que é construído por intermédio das
relações, das redes que conectam as coisas, as pessoas. Segundo a autora existem três
importantes dimensões que constituem o que se denomina visão sistêmica de mundo que
sustentam as múltiplas redes das quais fazemos parte, que são as seguintes:
Ver sistemicamente o mundo é ver e pensar a complexidade do mundo.
É ver e pensar as relações existentes em todos os níveis da natureza e
buscar sempre a compreensão dos acontecimentos físicos, biológicos
ou sociais em relação aos contextos em que ocorrem. É reconhecer a
complexidade organizada do universo, evitando a simplificação linear de
causa e efeito.
É perceber sempre o dinamismo das relações, das situações,
reconhecendo que o mundo está em um “processo de tornar-se”, e que
isso nos leva a conviver com situações que não podemos prever e com
acontecimentos físicos biológicos ou sociais cuja ocorrência não
podemos controlar. Mas também é acreditar nos recursos de auto-
organização dos sistemas e em suas possibilidades de mudança e
evolução, bem como a ação do acaso na construção da realidade.
É reconhecer que não existem realidades objetivas: vamos constituindo
as realidades físicas biológicas ou sociais à medida que interagimos
com o mundo. É, por meio das nossas percepções, conversações e
relações com nossas redes que vamos definindo situações como
desejáveis, e, enquanto vão sendo constituídas, essas realidades vão se
instalando. E, ao mesmo tempo em que se instalam, vão agindo também,
recursivamente, sobre nossas interações com essas situações ou com
essas redes sociais. Portanto, a construção da realidade é intersubjetiva.
60
É dentro dessa complexidade que acontecem as relações e é onde as redes
sociais são constituídas e se constituem para garantir ao individuo e ao grupo seu lugar de
pertença nesse mundo.
Feijó (2006) descreve que as redes sociais são móveis, complexas e de
difícil delimitação e que sempre que falamos em pessoas em rede, ou de redes significativas
específicas falamos em um parte desta rede, em uma micro-rede que esinterconectada a
muitas outras redes. Assim, quando estudamos ou tentamos compreender um fenômeno
devemos sempre ter em mente que o mesmo recebe influência de um contexto bastante amplo
e que quanto mais ampliamos nossa visão mais o conhecemos e mais informações e
interpretações podemos obter sobre o mesmo, ou seja, quanto mais informações e contextos
pudermos incluir, maior será a possibilidade de conhecer determinado fenômeno, sua história,
sua constituição, seus vínculos (DABAS, 1993; NAJMANOVICH, 1995). É o que já afirmava
Bateson (1976 [orig. 1972]): o significado pode ser compreendido em seu contexto e que
quanto mais ampliamos esse contexto mais possibilidades temos em compreendê-lo.
Nesse sentido observamos que compreender as conjugalidades
homossexuais e sua inserção em um mundo formado por infinitas redes de significação é de
extrema valia e constitui uma proposta desafiadora. Como afirmam Macedo e Feijó in Feijó
(2006), temas que se entrelaçam tais como relacionamentos amorosos, gênero, classe, família,
diversidade cultural quando estudados sob a perspectiva da rede social, expõem seu potencial
de apoio, bem como a complexidade das relações entre as pessoas que precisam conviver com
as diferenças.
Assim como a rede propaga ideologias que afetam diretamente as pessoas
em seu cotidiano, ao falarmos de homofobia, heteronormatividade, heterossexismo , estamos
falando de posições ideológicas que são sustentadas e propaladas por pessoas em relação, com
suas redes sociais, que ajudam a manter visões preconceituosas que não contribuem para
inclusão de casais homossexuais no âmbito social.
Cancissu (2007) ao estudar sobre a rede de relacionamentos homossexuais
lésbicos utiliza as idéias de Bronfenbrenner (1996) sobre sistemas ecológicos para
compreender a questão levantada anteriormente. Como o indivíduo encontra-se inserido em
sistemas ou redes, que vão desde seu convívio imediato (familiares, amigos, trabalho), até os
macro- sistemas que são formados pelas ideologias, leis, costumes pode-se perceber que no
caso da homossexualidade e das conjugalidades homossexuais, o sistemas ideológicos
(homofobia, heteronormatividade) em nível macro sustentam os dilemas, conflitos, paradoxos
61
da convivência da pessoa e do casal gay com suas redes sociais mais significativas e próximas
interesse e foco de nossa investigação.
Sluzki (1997) criou o que chamou de Mapa mínino de rede social, no qual
de maneira instrumental e pragmática permite considerar as relações da pessoa com sua rede
social mais próxima, bem como conhecer a estrutura e características da rede, avaliar suas
funções e perceber a maneira como uma pessoa, e em nosso caso o casal homossexual, se
relaciona com sua rede social e como as pessoas que compõe essa rede considerada como
significativa se relaciona com o casal. De forma sucinta, o mapa de redes traz um panorama
das relações interpessoais, considerando os seguintes pontos: a) as características estruturais
da rede; b) funções da rede; c) atributos vinculares ou propriedades específicas de cada
relação.
As características estruturais da rede compreendem:
Tamanho: número de pessoas que compõem a rede;
Densidade: conexão entre os membros da rede;
Composição ou Distribuição: Significa a proporção em que cada membro
da rede ocupa na vida da pessoa ou do casal, levando em conta aspectos de proximidade,
distância e intimidade;
Dispersão: Distância entre as pessoas da rede;
Homogeneidade e Heterogeneidade: Diz respeito a variabilidade da rede
quanto a sexo, idade, nível socioeconômico.
Os tipos de funções da rede compreendem:
Companhia Social e Apoio Social: Refere-se à companhia social
propriamente dita. O estar junto, realizar atividades conjuntamente, ter na rede pessoas que
dão apoio em momentos de crise e estresse;
Apoio Emocional: Está ligado a relações interpessoais que denotam
empatia, compreensão, apoio emocional positivo;
Guia Cognitivo e Conselhos: Interações destinadas a compartilhar
informações pessoais ou sociais, esclarecer expectativas, ajustar modelos e papéis;
Regulação Social: Relações que reafirmam responsabilidades, legitimam
papéis sociais, estão ligados a ritos sociais que demarcam uma regulação.
Ajuda Material e de Serviços: Ligada a assistência de saúde, educação, ou
seja, colaboração e acesso a serviços e ajuda inclusive financeira;
Acesso a novos contatos: Habilidade e abertura para novos contatos,
ampliação de pessoas que possam exercer função na rede.
62
Os atributos do vínculo compreendem as seguintes características:
Funções predominantes: Relaciona-se ao tipo de função ou a função
primordial que uma pessoa tem na rede;
Multidimensionalidade: Caracterizada como versatilidade, representa
quantas funções uma pessoa pode desempenhar na rede;
Reciprocidade: Demonstra se a pessoa desempenha o mesmo tipo de
função para outras pessoas da rede;
Intensidade (Compromisso): Interação de compromisso e intimidade, que
pode significar o grau de comprometimento das pessoas da rede;
Freqüência dos contatos: Está relacionada ao número, facilidade de
contato, manutenção dos mesmos no relacionamento com as pessoas da rede;
História: Tempo de existência do vínculo, história da relação, experiências.
A partir da análise dessas características é possível limitar e adentrar em um
micro universo relacional da pessoa ou do casal e, portanto “mapear” pontos específicos da
rede no que diz respeito a rias características relacionais da pessoa com sua rede e a forma
com que a mesma constrói suas relações interpessoais.
2.2 A importância das redes sociais.
Como vimos, vivemos imersos em múltipas redes, que nos legitimam, dão
nosso sentido de existência.
Desde nosso nascimento, e posterior desenvolvimento intercambiamos com
várias pessoas, contextos e situações, no qual criamos nossas histórias e narrativas
(Grandesso, 2006), pois como afirma Maturana (1990) nosso viver humano acontece inserido
nas redes de conversações, na linguagem, que constituem nossa cultura, organizam nossas
experiências, nossas relações, nossas histórias e narrativas, enfim nossa vida.
Nesse sentido quando vivemos situações de crise e estresse intenso é na rede
de relações que buscamos nosso alento e apoio para seguirmos em frente.
Podemos destacar vários estudos que comprovam a importância da rede em
situações de crise (FEIJÓ, 2002; MARRA E FEI, 2004; PRADO, 2006; DABAS, 1993;
SLUZKI, 1997).
Sluzki (op. cit.) estudou o impacto que os problemas e situações de crise
tais como a migração, o divórcio, estresse por doenças crônicas, desemprego, situações de
63
violência, lutos mobilizam o indivíduo e sua rede. A pessoa com uma rede muito restrita pode
apresentar dificuldades em resolver e encaminhar problemas e em casos extremos ter sua
saúde afetada e o favorecimento de estresses e outros transtornos.
Como coloca Sluzki (1997, p. 67):
Existe uma forte evidência que uma rede social pessoal estável, sensível, ativa e
confiável protege a pessoa contra doenças, atua como agente de ajuda e
encaminhamento, afeta a pertinência e a rapidez na utilização de serviços de
saúde,acelera os processos de cura, aumenta a sobrevida, ou seja é geradora de
saúde.
Portanto quando conhecemos e analisamos a micro rede de uma pessoa
estamos observando como se organiza suas relações num determinado momento e contexto e
de que forma se extraiam dessas relações em rede momentos de convivência, entretenimento
ajuda e apoio mútuo, relações de intimidade, confiança, competência para resolução de
problemas, regulação social etc.
Porém, a rede pode trazer empecilhos aos indivíduos, a partir do momento
em que também não oferecem apoio e legitimação para as escolhas e condições de vida e é
nesse ponto que a homossexualidade e a homoconjugalidade encontram pouco apoio ou uma
total rejeição de redes sociais significativas, como a família de origem, por exemplo.
Feijó (2006), afirma que a rede que sustenta e apóia troca e oferece
soluções, pode também enredar, ou seja, dependendo da situação, a rede não legitima, o
colabora na solução de problemas e ainda pode dificultar sobremaneira o desenvolvimento de
identidade da pessoa, restringindo apoio e espaço de troca. Nessa mesma direção Sarti (2008),
estudando as relações familiares entre os pobres faz uma interessante análise do
funcionamento em rede no qual se configuram essas relações familiares, destacando como as
desigualdades de gênero, condições econômicas precárias faz com que essa rede ajude essas
famílias, porém dependendo da situação essas famílias se vêem enredadas, emaranhadas em
seu contexto.
No tocante à homossexualidade e à homoconjugalidade, faz-se mister
pensar a forma como a rede social percebe essas orientações e de que forma encaminham,
auxiliam, ou ,em sua grande maioria rejeitam, fazem pressão para mudanças, relegando
muitas vezes essas pessoas a condições de isolamento e falta de rede de apoio e validação,
funcionando como um estressor aos homossexuais, tanto solteiros como casados.
64
2.3 Identidades homossexuais e homoconjugalidade em redes.
Considerando a importância das redes sociais formadas pela gama de
relacionamentos significativos em nossa vida, como podemos pensar as conjugalidades
homossexuais tendo em vista esse contexto? Como ser/viver como homossexual em um
sistema que ainda considera essa orientação como algo “patológico”, “pecaminoso” , que
fere diretamente ideologias como a heteronormatividade, a homofobia? Quais os impactos
dessa situação para a pessoa e o casal homossexual? Quais os desafios desses sujeitos para
construção e desenvolvimento de suas identidades? Quais alternativas e mecanismos
encontram (ou não) para viverem e expressarem seus desejos e anseios afetivos e sexuais
ponto central de um desenvolvimento psicológico e social salutar?
Esses são alguns questionamentos que irão nos guiar para a compreensão
dessa complexa rede de relacionamentos e significações que envolvem a conjugalidade
homossexual e as relações estabelecidas com redes sociais significativas.
No início da década de 1980, o antropólogo Eduardo MacRae escreveu um
artigo, já clássico nos estudos sobre homossexualidade, intitulado “Em defesa do gueto” sobre
a importância do “gueto” para a comunidade homossexual á época (MAcRAE,2005
[orig.1983]). O autor, neste artigo, defende como a existência de espaços de convivência e
socializações homossexuais se revestem de importância a partir do momento que
proporcionam um ambiente de contatos, a vivência protegida de experiências e possibilidades
de expressão de afetos entre homossexuais. “O gueto é um lugar onde pressões sociais são
afastadas e o homossexual tem mais condições de assumir e testar sua identidade” (p. 299),
ou seja, o gueto, nessa perspectiva representa um território onde gays e lésbicas podem
expressar seus afetos, criar a possibilidade de construir relacionamentos afetivos e vivê-los
minimamente protegidos de uma sociedade repressiva e violenta á seus afetos e desejos.
De para muito coisa mudou, a visibilidade social em torno da
homossexualidade e das conjugalidades homossexuais se ampliaram, e o famoso “gueto”
apresentado por MacRae têm outros significados, alcances e expressões. Podemos dizer que
de uma vivência “protegida” e até certo ponto “clandestina” o conceito de gueto atualmente se
expande e como analisam Simões e França (2005) passa-se a falar em conceitos de manchas e
circuitos urbanos, observando o considerável aumento de espaços de socialização para e entre
homossexuais, principalmente em grandes centros urbanos, impulsionada em partes, pela
crescente importância do chamado “mercado homossexual” (Nunan, 2003) e pela difusão de
65
estilos, hábitos e atitudes associados à política de identidades e as emergentes culturas
identitárias, que cunhou, por exemplo, a sigla GLS
13
na década de 1990.
A partir de maior visibilidade e tolerância aos homossexuais, a da vivência
restrita aos guetos para uma ampliação social e cultural, podemos dizer que se modificou
sobremaneira a articulação entre homossexuais e suas redes sociais significativas,
possibilitando maior contingência e respaldo social para construção de uma identidade
homossexual no que tange a desejos, escolhas e a assunção da mesma para pessoas e grupos
sociais. São mudanças sociais importantes, transformando o gueto em território e o estigma
em orgulho (LOURO, 2001).
Como sabemos que as redes sociais são fundamentais para a formação e
construção de nossas identidades, e que esse processo necessita ser observado ao longo do
ciclo vital do individuo, para os homossexuais esse processo se caracteriza por nuances
específicas em seu desenvolvimento.
Segundo Santa’Anna e Daspet ( 2007, p. 166) descobrir-se homossexual em
uma sociedade preconceituosa e homofóbica torna-se um processo lento e muitas vezes
doloroso. Essa “descoberta” e percepção de que se é diferente frente aos ditames
hegemônicos heterossexuais envolve um processo de auto-percepção e da vivência da pessoa
com as redes sociais, pois essa percepção também se de forma comparativa ao que é
considerado padrão e “normal” no contexto social.
na infância como observa Savin-Wilians (1996) a criança pode se sentir
diferente, não ter os mesmos interesses que os pares do mesmo sexo, sentindo-se atraído e
interessado pelas coisas do sexo oposto e apresentando dificuldade em compreender tais
sentimentos. Essas atitudes geralmente são extremamente reprimidas por pais, familiares e
sociedade em geral, que determina rigidamente na educação, o que é considerado certo e
errado para o masculino e o feminino.
Simões (2004), afirma que pesquisas sobre os processos de
desenvolvimento de uma identidade homossexual marcaram boa parte dos estudos
relacionados ao tema na década de 1970/1980.
Estudos contemporâneos, porém, (Costa, 1995; Butler, 2003) criticam o
conceito de identidade homossexual, argumentando principalmente que a identidade de um
13
Segundo Facchini (2005) a sigla GLS que significa Gays, Lésbicas e Simpatizantes foi criada no inicio dos
anos 90 e está associada a André Fischer jornalista, criador do portal mix Brasil www.mixbrasil.com.br
O conceito GLS nasceu tendo uma visão de mercado voltado ao público homossexual, algo semelhante à idéia
americana de estabelecimentos comerciais gay friendly , ou seja que são direcionadas ou “simpatizantes” ao
público homossexual. A sigla e o conceito de GLS nos anos 90 não possuíam o caráter político e sim
mercadológico inclusive era criticada por membros do movimento homossexual brasileiro.
66
indivíduo não pode ser entendida somente por sua orientação sexual. Vale citar que a
polêmica em torno dessa temática vem culminando em debates ricos e transdisciplinares
emergindo novos olhares sobre essa questão. A teoria “queer”, por exemplo, e as novas
políticas de orientação sexual no início do século XXI dão conta da diversidade em torno
desse tema, pois ampliam o debate para além da dicotomia homo/heterossexual e outras
posições binárias, pois permitem pensar as identidades como múltiplas, fluídas e socialmente
construídas, problematizando as noções clássicas de sujeito, identidade e considerando
estratégias que desconstruam categorias fixas de identidades, tanto, que são denominadas de
pós-identitárias. (LOURO, 2001, 2004; ALDEMAN, 2000; OSWALD, BLUME e MARKS,
2005).
Para complementar, dentro de uma perspectiva sistêmica é o que
Kublikowski, (2004) descreve como uma identidade narrativa que é construída por intermédio
de uma visão de mundo e de si mesmo, num processo experiencial cunhado pelo próprio
individuo e legitimado nos espaços interpessoais das negociações e transações de significado
dados pela linguagem e imerso no contexto cultural.
Porém, apesar das críticas, a questão da existência ou não de uma
identidade homossexual, consideramos que esse conceito não pode ser abandonado, pois
representou e representa marco importante para a compreensão dos processos psicológicos e
sociais relacionados à homossexualidade (NUNAN, 2003).
As pesquisas sobre identidade homossexual fizeram surgir vários modelos
de compreensão acerca do desenvolvimento e identidade gay e lésbica. Um dos principais
modelos para a compreensão da construção de uma identidade homossexual foi o
desenvolvido pela psicóloga australiana Viviane Cass, na década de 1970, que, em seu
modelo enfatizou o impacto do preconceito, homofobia internalizada e institucionalizada e o
estigma sobre a trajetória de vida de gays e lésbicas, postulando o desenvolvimento da
identidade homossexual dividido em seis estágios e associado a um conjunto de
possibilidades alternativas de construção de identidade (SIMÕES, 2004). Os estágios
sugeridos pela autora são:
1) Confusão de identidade: Atos e pensamentos que o indivíduo possui e
que percebe que está em dissonância com a sociedade mais ampla. Ainda não se percebe
como homossexual.
2) Comparação de identidade: O indivíduo começa a perceber que talvez
seja gay ou lésbica. Pode aceitar sua orientação ou buscar outros caminhos como se tornar
bissexual, reprimir seus sentimentos e sofrer com essas escolhas.
67
3) Tolerância de identidade: Nessa fase o indivíduo começa a se identificar
como homossexual. Nesse estágio as experiências são muito importantes para a continuidade
de seu processo de formação de identidade.
4) Aceitação da identidade: Do estágio anterior de tolerância, passa-se então
progressivamente para a aceitação de sua orientação, aumenta o senso de pertencimento e
identificação com a comunidade homossexual. Tende nessa fase a rejeitar os segmentos anti-
gays da sociedade e a se aproximar cada vez mais de outros grupos de homossexuais,
adotando comportamentos, hábitos, linguagem própria destes grupos e identificando-se com
eles.
5) Orgulho de identidade: Nessa fase o individuo identifica-se totalmente
como homossexual. Amplia seus contatos na comunidade.
6) Síntese de identidade: Prevalece a aceitação pessoal. Sentimentos de
raiva e frustração são substituídos por formas mais tranqüilas de aceitação e integração da
afetividade e sexualidade, melhora da auto-estima e valorização dos que são diferentes - fase
em que a revelação social é mais presente.
O desenvolvimento da identidade homossexual como descrito por Viviane
Cass privilegia estágios que culminam na revelação da orientação sexual, ou seja, os
caminhos trilhados por homossexuais desde a percepção e auto-aceitação de sua
homossexualidade até a realização ou não do coming-out, da saída do armário para o meio
social mais amplo, passando a pessoa a viver em suas redes sociais como homossexual
“assumido”. Porém cabe dizer que as vicissitudes desse processo muitas vezes não cabem em
estágios tão bem delineados e definidos e que, se entender, se aceitar, se assumir, se revelar e
viver homoafetivamente é um processo que não obstante perdura por toda a vida.
Savin-Willians (1996, 2001) descreve que jovens homossexuais enfrentam
duas importantes tarefas em seu processo de desenvolvimento. A primeira está relacionada ao
reconhecer-se e perceber-se homossexual, iniciando com a percepção de que é diferente da
maioria de outros jovens em um aspecto importante de sua personalidade, desejando pessoas
do mesmo sexo, e a outra tarefa diz respeito ao processo de revelação social da
homossexualidade.
Geralmente percebem-se diferente durante a infância, mas a percepção
completa do processo de aceitação ocorre durante a adolescência e na fase de jovem adulto. A
segunda tarefa é contar ou revelar para as pessoas seus desejos homoeróticos, experiências
sexuais e sua identidade sexual partilhando sua orientação com pessoas de sua convivência e
confiança, ou seja, o reconhecimento e sentimento de pertença oferecido pela rede social.
68
É muito comum que esses jovens sintam-se diferentes dos outros pares de
sua idade. Não obstante sentem-se isolados e com dificuldade em dividir sentimentos que em
primeiro momento são muito confusos. Os jovens e adolescentes homossexuais têm como
principal tarefa em seu desenvolvimento psicológico desconstruir o que chamamos de
homofobia internalizada, ou seja, o jovem incorpora as regras, valores e normas ditadas por
uma sociedade que é heterossexual e que preconiza formas corretas de se relacionarem. O
trabalho psicológico advindo do conflito em relação a essas percepções assume uma força
grande nesse momento do desenvolvimento e não raro aliada às outras mudanças inerentes a
adolescência puberdade, cognições, emoções, levam o jovem a uma condição de grande
vulnerabilidade em desenvolver problemas psiquiátricos, abuso de álcool e drogas e em casos
extremos, o suicídio (SANDERS, 1994; SAVIN-WILLIANS, 1996; GONSORIEK, 1995).
É muito comum que o jovem homossexual coloque em cheque sua
normalidade, pois a percepção de suas diferenças às vezes é um choque bastante grande, que
fazem com que questionem sua orientação sexual e muitas vezes culpem-se por considerar
esse um sentimento errado, se depreciando, percebendo sua orientação sexual de forma
negativa e muitas vezes achando que a mesma é passageira.
Muitos homossexuais usam de mecanismos psicológicos rígidos como
maneira de tentar controlar desejos e , pensamentos homossexuais. O medo e o pavor sobre
isso muitas vezes leva o jovem a sensações de pânico e a ruptura de estratégias de
enfrentamento psicológico e para disfarçar, muitas vezes tende a agir como heterossexual,
levando a conflitos de construção de identidade.
Nesse contexto, muitos jovens não revelam suas identidades porque sentem
temor, não sabem quais são as conseqüências dessa revelação em longo prazo, sentem medo
do imprevisível e desconhecido, evitam desapontar pessoas importantes com a revelação e
evitam sentirem-se rejeitados e sofrerem violência de pais e amigos e outras pessoas de suas
redes sociais (SANT’ANNA e DASPET, 2007; ISAY, 1998; RIESENFELD, 2002). A vida
fica dividida entre os grupos que sabem geralmente outros homossexuais e os que não sabem
geralmente a família de origem, amigos heterossexuais colegas de trabalho etc., porém cabe
ressaltar que o processo de revelação é um processo de importância vital ao homossexual,
pois contribui imensamente para seu desenvolvimento psicológico e social, pois entra em jogo
uma série de questões básicas importantes para o ser - humano, tais como pertencimento,
agenciamento, ligação a redes sociais, construção de identidade e orientação sexual
(GONSORIEK, 1995; HANCOCK, 1995; SAVIN-WILLIANS, 1996, 2001; SCHAGLER,
1998; LaSALA, 2000a ; NUNAN, 2003).
69
Como aponta Hancock (1995) uma das táticas mais comuns utilizadas por
homossexuais é distância geográfica, a saída da casa dos familiares para viver em grandes
centros urbanos, como uma forma de se protegerem e protegerem suas identidades e poderem
viver sua orientação sexual de forma mais livre e expressiva. Vale citar que os participantes da
pesquisa de Sant’Anna (2002), tinham suas famílias de origem e vinham do interior do Estado
de São Paulo, sendo a distância geográfica um fator apontado pelos sujeitos como importante
para a construção de suas conjugalidades.
Como sabemos que a migração e a mudança geográfica provocam forte
rompimento com a rede social significativa e exige a construção de uma nova rede, no caso
dos homossexuais esse fator toma uma grande dimensão, pois muitos deixam para trás suas
famílias de origem, amigos e necessitam refazer, muitas vezes sozinhos, seus relacionamentos
sociais.
Como carecem de suporte social, muitos homossexuais solteiros ou casados
como alternativa ás pressões familiares e sociais criaram “o conceito de família escolhida”,
que vem representando uma diferenciação de grande valia.
Segundo Sanders (2002) o conceito de família escolhida incorpora a noção
de que outros relacionamentos pessoais, além da família de origem (denotando aceitação e
valorização da condição homossexual), na vida de uma pessoa, contribuem para formar um
núcleo ou uma rede social para o casal homossexual que os ajudem a enfrentar de maneira
mais concreta sentimentos de rejeição e abandono da família de origem, bem como representa
uma rede de suporte importante e fundamental para gays e lésbicas.
Os amigos, as redes de amizade têm importância fundamental nesse
conceito de família escolhida ou família de suporte, pois os mesmos são percebidos como
substitutos a membros da família de origem, contribuindo para superar perdas e oferecer
apoio a situações de crise ou ainda compartilhar situações de vida (WEINSTOCK, 1998;
ROSTOSKY et. al, 2004).
No tocante a redes sociais e a homoconjugalidade pode-se dizer que
praticamente inexistem mecanismos sociais que subsidiam homossexuais casados. Tais como
os homossexuais solteiros, casais gays, também utilizam do apoio de amigos, família
escolhida e necessitam negociar constantemente seus relacionamentos no contato com a rede
social. Em trabalho com casais masculinos (Defendi, 2006) foi muito comum ouvir os relatos
que demonstram a importância da família de suporte a esses casais. Recordamos o um relato
de um casal aqui denominado com os nomes fictícios de Reinado e Silvio:
70
...quando a gente pensa em família a gente sempre fica em busca do nosso próprio
meio familiar...mas ás vezes pela própria resistência do meio familiar...a gente
sempre busca uma família...como se pegasse algumas pessoas e pegar e formar uma
família, como se elegesse uma família, a família eleita, aquela que não se elege com a
proximidade, mas é aquela onde você vai ter um grau de pessoas, vocês vão poder ter
uma afinidade maior, e grau maior de proximidade que eu tenho é com o S., é o
núcleo familiar como os agregados, os amigos.(R.).
Amigos... é o que às vezes poderíamos ter como irmãos, nós temos um casal hetero...é
o que seria nosso irmão e nossa irmã...porque eles são os nossos almoços de domingo,
nossas viagens...o compartilhar o familiar (S.).
Rostosky et. al. (2004), estudando a percepção que casais homossexuais
possuem acerca do suporte recebido das pessoas consideradas como sendo de suas “famílias
escolhidas” revelam que o apoios recebidos pode ter um efeito positivo, ambivalente e até ser
de pouca valia, porém a falta desse apoio ou da “família escolhida” refletem na qualidade do
relacionamento conjugal segundo os participantes do estudo. Não segundo os autores um
modelo genérico de “família escolhida”, ou até mesmo que essa família possa prestar suporte
a todas as necessidades dos casais.
Nesse sentido o apoio e a rede de amizades e especialmente as pessoas
consideradas como sendo da “família” ajudam a combater o isolamento social e contribuem
para que o casal experimente sentimentos de validação e bem estar.
Como sugere Nunan (2007a) diferente do que supomos, os casais gays
encontram pouco apoio da própria comunidade homossexual. A justificativa é baseada no fato
de que os espaços de socialização de gays acontecem em bares e boates e que muitos casais
deixam de freqüentar esses espaços como forma de protegerem seus relacionamentos. Além
disso, cabe também salientar que parte da comunidade homossexual o casamento como
uma repetição de modelos heteronormativos, portanto pouco apóia esses casais.
Outro recurso muito usual na atualidade é a possibilidade de integrar a rede
de apoio digital como uma forma de encontrar apoio e suporte aos homossexuais casados e
solteiros. Moris, Defendi e Rossi (2007) realizaram uma pesquisa com vistas a avaliar a
maneira como a internet supre a necessidade de um homossexual que queira se informar sobre
revelação para seus familiares e para filhos ou buscar informações sobre a existência ou não
de uma rede de suporte social ou legal, fazendo uma minuciosa varredura nos sites
disponibilizados em inglês, português e espanhol. Os resultados da pesquisa mostram que
existem vários serviços direcionados ao público homossexual em sites na internet tais como:
para a família que deseja se orientar e obter apoio porque soube da condição homossexual de
71
um filho; para família homoafetiva que deseja encontrar atividades com seus iguais, de lazer,
religiosas ou políticas; um pai ou mãe homossexual que busca orientação e suporte para se
revelar para filhos. Dependendo da ngua que o usuário utiliza uma infinita gama de
possibilidades de serviços disponibilizados em links, que vão desde livros e artigos científicos
ao apoio direto prático e pontual com webblogs diversos, além de produtos e uma imensa rede
de serviços sociais, profissionais e legais. Os resultados também apontam que em português e
espanhol uma significativa redução dessas ofertas e que necessidade de fortalecimento
de uma rede de suporte digital como auxilio e promoção de qualidade de informações a
população homossexual.
Na rede digital, em língua portuguesa, inexistem sites específicos que tratam
das questões da conjugalidades homossexuais. Na pesquisa realizada por Moris, Defendi e
Rossi (2007) foi encontrado apenas um site em português que era especificamente
direcionado aos casais, porém, o mesmo encontra-se atualmente em seu formato original fora
do ar e seu conteúdo foi em partes incorporado pelo site do Grupo CORSA
14
, idealizador
deste portal.
O site em questão é o www.casaisgays.com.br. O site foi visitado por esse
autor em 24/04/2007 e 05/05/2007. A rede de casais gays foi criada pelo grupo homossexual
CORSA de São Paulo com objetivo de criar espaços de encontro e informação para
convivência e ampliação de rede pessoal e social para o casal, bem como discutir temas
ligados ao relacionamento, questões jurídicas, de saúde e bem-estar, sexualidade, lazer etc. O
site fornecia também informações sobre saúde, relacionamento afetivo estável, questões
jurídicas e de adoção e artigos escritos por profissionais da área de Psicologia, postado em um
link chamado “Psicologia do casal”, que abordava principalmente temas ligados a
conjugalidade homossexual.
Em visita recente ao site do grupo Corsa, novembro de 2009, constatou-se
que houve pouco avanço em conteúdos e mobilização sobre questões acerca da conjugalidade
homossexual, demonstrando que esse tema ainda é pouco explorado nos territórios digitais
apesar de um grande demanda dessa população por informações e serviços específicos.
Podemos concluir que quando o casal homossexual necessita acionar sua
rede social são poucas as possibilidades de ajuda e apoio e, que dependendo da situação e da
condição do casal o mesmo terá que acessar a rede de relacionamentos disponível que se
14
O grupo CORSA foi criado nos anos 90 e significa Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor. O
site do grupo é o www.corsa.org.br
72
construída de acordo com as características e contexto e vida de cada casal, como abordamos
no capítulo sobre conjugalidades homossexuais.
Para finalizar, é importante mostrar que tais como outros arranjos conjugais,
os casais homossexuais estão cada vez mais visíveis apesar das resistências sociais que
cercam esse fenômeno. Fechar os olhos para essa situação é mostrar-se desconectado das
vicissitudes contemporâneas acerca de relacionamentos amorosos e conjugais.
Como sabemos que a academia e a produção de conhecimento científico
têm relevante papel nas transformações sociais e na minimização de preconceitos (pelo menos
é a expectativa) acreditamos ser possível que ao aprofundarmos temas de pesquisa como esse,
possamos contribuir para melhor entendimento da pluralidade dos arranjos conjugais na
atualidade, bem como suas estruturas, características e principalmente funcionalidades.
73
3. MÉTODO
74
Para compreender a dinâmica e a vivência do casal homossexual masculino
quanto à revelação e redes sociais realizamos uma pesquisa qualitativa e interpretativa,
pois o fenômeno a ser estudado refere-se a experiências e vivências às quais as pessoas
atribuem significados.
Entendemos que a utilização da pesquisa de natureza qualitativa é
coerente com os objetivos deste estudo, pois como afirmam Guba e Lincoln (1994), na
pesquisa qualitativa é dada ênfase aos processos e significados, ou seja, enfatiza-se a natureza
socialmente construída da realidade e a íntima relação entre o pesquisador e o pesquisado. É
possível nesse tipo de pesquisa trabalhar com diferentes informações, pois, a pesquisa
qualitativa abarca múltiplas possibilidades e práticas, evitando o uso de uma ferramenta única
de investigação, estimulando o pesquisador a construir seu trabalho na medida em que vai
conhecendo o universo a ser pesquisado (DENZIN e LINCOLN, 1994, 2006).
Nessa forma de pesquisar, o pesquisador faz parte do sistema observado na
construção da compreensão do fenômeno, entendendo que a neutralidade na investigação
científica é um mito e uma falácia. Buscou-se então olhar o fenômeno a ser pesquisado como
um todo complexo e interconectado, situado em um contexto local específico, contemplando a
teia de significados que envolvem o problema a ser investigado.
O delineamento e a estratégia metodológica escolhida para este trabalho foi
o estudo de caso. Segundo Kublikowski, 2007, p.1 o estudo de caso é, assim como a
entrevista, um dos métodos mais antigos e mais utilizado nas ciências humanas, tanto na
prática quanto na pesquisa clínica... apresentado de forma a alcançar a lógica de uma
história de vida singular, que se constitui em situações complexas e necessita de leitura em
diferentes níveis.
O Estudo de caso é o processo de aprender sobre o caso a ser investigado e
como diz Stake (1994), como não é possível compreender um caso em toda a sua
complexidade, cabe ao pesquisador compreender a singularidade do mesmo, inserido em um
contexto próprio que influencia e do qual recebe influência do ambiente mais amplo.
Importante considerar que a pesquisa qualitativa que utiliza o estudo de caso
não tem como finalidade fazer generalizações e sim dar um pequeno passo para compreender
o fenômeno que se está estudando. Nesta pesquisa utilizamos o estudo de caso instrumental,
que é aquele no qual se busca um estudo aprofundado da situação do caso em questão,
examinando minuciosamente o contexto, com intuito de aguçar o olhar sobre um determinado
75
fenômeno, sempre com o propósito de perseguir e enriquecer o objetivo da pesquisa (STAKE,
1994).
Segundo Martins (2006) os estudos de caso são particularmente úteis
quando os pesquisadores querem obter uma visão contextual detalhada sobre um fenômeno a
ser investigado, sendo essa estratégia de pesquisa sempre holística (sistêmica, ampla,
integrada) buscando compreender o caso como um todo, sem perder de vista sua unicidade,
ou seja, o estudo de caso é uma forma de organizar as informações preservando o caráter
único do objeto social em estudo. Portanto de acordo com Martins (op. cit.) as características
básicas de um estudo de caso compreendem:
● Fenômenos observados em seu ambiente natural;
● A complexidade da unidade é estudada intensamente;
●Resultados e análise dependem do poder de integração do pesquisador;
● Enfoque em eventos contemporâneos;
● Dados coletados por diversos instrumentos.
Os Participantes.
A escolha dos participantes desta pesquisa foi feita por intermédio da rede
social do pesquisador, e indicação de outros casais feita pelos participantes. Esse processo de
cooptação de participantes é chamado “bola de neve” (TURATO, 2003). A participação por
bola de neve ou em cadeia é uma abordagem para localizar informantes e participantes
chaves, que possam enriquecer com suas informações o estudo em questão (PATTON, 2002).
Participaram desta pesquisa dois casais homossexuais masculinos,
residentes na cidade São Paulo. Dos dois casais entrevistados, um casal homossexual foi o
escolhido para efeitos deste estudo, por ser aquele que melhor permitiu alcançar o objetivo
proposto e por apresentar maior riqueza e diversidade de informações. Faz-se importante
descrever que foram adotados alguns critérios para escolha e participação dos casais nesta
pesquisa, são eles:
a) casais homossexuais masculinos de camadas médias da população
segundo IBGE;
b) que vivam e residam juntos há mais de um ano;
c) que se considerem um casal;
76
d) e que tenham vivido como casal a experiência de assumirem-se como
casal frente a segmentos sociais e grupos de pertencimentos importantes como família de
origem, trabalho, comunidade.
Os Instrumentos.
Os instrumentos utilizados neste trabalho foram a entrevista
semiestruturada que seguiu um roteiro prévio de questões, como guia, para orientar o
pesquisador sobre os temas importantes a serem abordados, e, para complementar a coleta das
informações foram utilizadas a Linha do tempo do histórico de relação do casal permeada
pela questão da revelação social e a construção do Mapa da Rede Social do casal
homossexual, utilizando o modelo de mapa de redes proposto por Sluzki (1997).
A entrevista semiestruturada no processo de pesquisa qualitativa é entendida
como uma prática discursiva, como uma ação, uma interação que se em certo contexto,
numa relação constantemente negociada entre pesquisador e participante (PINHEIRO, 2004).
Nos dizeres de Kvale “um empreendimento subjetivo de duas pessoas falando sobre temas de
interesse comum” (1996 p.183).
A entrevista foi construída por temas, geradoras de perguntas e
questionamentos. Esse tipo de entrevista possibilitou compreender a experiência do ponto de
vista dos entrevistados numa conversação de mútuo interesse e com possibilidade de
enriquecer a conversação.
Roteiro de Entrevista
Dados de Identificação do Casal:
Nome, Idade, Escolaridade, Profissão, Religião, Tempo de relacionamento,
tempo que residem juntos, Algum tipo de contrato/registro de parceria civil, Residência
própria ou alugada etc.
Percepção do desejo homossexual
Construção da identidade sentimentos, apropriação revelação e assunção.
Processo de revelação individual rede de relacionamentos.
Identidade homossexual, revelação e as redes sociais família de origem,
rede amigos, relações na comunidade, trabalho, escola etc.
Percepção do desejo de conjugalidade
Processo de construção da conjugalidade
Significado da conjugalidade
77
Revelação ou não revelação da conjugalidade
Decisões e negociações do casal
Redes sociais: Família de Origem, Família extensa, trabalho, amigos,
vizinhos.
Como é a rede de apoio relacionamento com os amigos, família tipo de
contato, tipo de atividades que realizam juntos, reciprocidade, encontros sociais, festas,
comemorações de datas importantes.
Decisão de onde, como, quando e com quem se revelar.
Diferenças e igualdades do casal quanto a essa questão.
Como foi a reação das pessoas e como lidaram com tais reações.
Como a revelação refletiu em seu casamento.
Como a não-revelação refletiu.
Estratégias do casal para lidar com pressões sociais.
Para complementar as informações coletadas nas entrevistas utilizamos
também como instrumentos a Linha do Tempo e o Mapa de Rede Social.
A Linha do Tempo (ANEXO C) constitui-se numa forma de organizar fatos,
datas e acontecimentos importantes na vida do casal, contribuindo para levantar informações
importantes que marcaram o relacionamento conjugal dentro de uma seqüência de tempo, no
qual se atribui significados a histórias sobre tais marcadores e eventos escolhidos pelos
participantes. Como afirma Cerveny (2001) a Linha do tempo, tem se mostrado um
instrumento simples, útil, prático e de fácil elaboração que complementa informações
necessárias à pesquisa e à entrevista.
O Mapa da rede social pode ser sistematizado em quatro quadrantes que
identificam a proximidade e ou distância da pessoa ou do casal em relação a: família,
amizade, relações de trabalho ou escolares, relações comunitárias, de serviços, ou religiosos.
O Mapa de rede social como instrumento de pesquisa fornece importantes
informações acerca das características estruturais, funções da rede social e atributos
específicos do vínculo com as pessoas da rede social (SLUZKI, 1997).
Foi perguntado aos participantes sobre quais as pessoas mais importantes
em suas vidas, como essas pessoas reagiram quando souberam da sua homossexualidade,
como reagiram quando souberam de sua conjugalidade e de que maneira essas pessoas se
encontram ao longo do tempo na relação com o casal, bem como o casal constrói e reconstrói
sua rede social.
78
A partir dessas respostas foi assinalado no mapa de rede quem são essas
pessoas e que grau de distância e ou proximidade (marcados nos quadrantes quanto mais
próximos ao centro, mais intimidade em relação à pessoa).
Mapa da Rede Social (SLUZKI, 1997)
AMIZADES
FAMÍLIA
RELAÇÕES DE
TRABALHO OU
ESTUDO
RELAÇÕES
COMUNITÁRIAS
RELAÇÕES COM
SISTEMAS DE
SAÚDE E
AGÊNCIAS SOCIAIS
79
Os Procedimentos.
O casal participante faz parte da rede social do pesquisador. Os mesmos foram
informados sobre a pesquisa primeiramente por intermédio de contato telefônico, no qual o
pesquisador esclareceu acerca do tema, objetivo e procedimentos. Como preencheram os
critérios estabelecidos e concordaram em participar, os encontros foram agendados.
Foram realizados três encontros, dois deles na residência do pesquisador
local esse que foi sugerido pelos participantes e um encontro na residência do casal. Ambos
os locais ofereceram condições favoráveis para o desenvolvimento do procedimento de
pesquisa, garantido um ambiente confortável, sigiloso e sem interferências de outras pessoas
durante o processo. Foi então realizada uma entrevista individual com cada participante e
uma entrevista com o casal, em dias diferentes, sendo que uma entrevista individual com um
membro do casal foi realizada em sua residência, outra entrevista individual com o outro
participante aconteceu na residência do pesquisador e a terceira entrevista com o casal
conjuntamente também foi realizada na residência do pesquisador.
Por tratar-se de entrevistas com homens atentamos para o impacto dos
aspectos de gênero no contexto relacional de pesquisa como descrito por Maciel Jr. e Sousa
(2008), observando que homens em situação de entrevistas podem sentir-se ameaçados ou
frágeis por não terem o controle da situação e por exporem suas intimidades.
Portanto no momento das entrevistas os participantes foram novamente
informados sobre o objetivo da pesquisa e esclarecidos sobre as questões éticas que
envolveram o procedimento. Foi assegurado aos participantes sigilo e privacidade quanto as
informações fornecidas, buscando criar um clima confortável e seguro para a realização do
procedimento.
Além da explanação e orientação verbal, foi entregue ao casal o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (ANEXO A), que seguiu estritamente as exigências éticas
de pesquisa envolvendo seres humanos conforme Resolução 196/96 do CONEP, com
consentimento e aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da PUC SP sob numero de
protocolo 313/2008 (ANEXO B).
Com o consentimento dos participantes as entrevistas foram gravadas com a
utilização de mídia digital (sistema MP3) sendo as gravações posteriormente ouvidas e
transcritas na integra para análise.
80
Análise das entrevistas.
Após o processo de coleta de informações, as conversações foram
transcritas e transformadas em texto. Efetuou-se a leitura do material com intuito de analisar
de uma maneira geral os significados trazidos pelo casal homossexual sobre a revelação e
suas experiências com a rede social. Esse processo foi feito destacando as crenças, atitudes,
relatos de sentimentos, vivências e emoções, diferenças e similitudes do fenômeno em
questão.
A partir desse processo foram construídas categorias de análise e
interpretação descritas no capítulo seguinte, análise das entrevistas.
81
4. Análise das Entrevistas
82
Condizente com o procedimento metodológico utilizado, o estudo de caso,
faremos a análise das entrevistas, primeiramente apresentando informações de identificação
do casal. Todos os nomes são fictícios para preservar e garantir sigilo aos participantes desta
pesquisa.
Como relatado no método, os conteúdos das entrevistas foram transcritos e
transformados em texto. Após várias leituras foram elaboradas a partir dos conteúdos três
categorias temáticas com várias subcategorias, cuja interpretação, foi baseada nas narrativas
dos participantes, e que nos forneceu uma boa versão dos significados atribuídos por eles a
sua experiência conjugal. Para melhor ilustrar os conteúdos de cada categoria ou subcategoria
utilizamos trechos das entrevistas/narrativas como suporte e apoio para a descrição e
interpretação.
Categorias e Subcategorias
1 - Do Eu ao Nós - a construção do homoconjugalidade. Esta categoria de
análise foi subdividida nas subcategorias:
1.1: Percepção do desejo homossexual;
1.2: As transições na relação afetiva e a formação do casal;
1.2.1: O Encontro;
1.2.2: O Namoro;
1.2.3: O Casamento.
2 - Da Revelação e da homoconjugalidade
3 - Rede social e revelação. Dividimos essa categoria nas seguintes
subcategorias:
3.1: A família de origem;
3.2: As relações de amizade e as relações comunitárias;
3.3: As relações de trabalho e estudo.
Tabela 3 - Dados de Identificação: Régis e Caio
Nome
Idade
Profissão
Escolaridade
Régis
47 anos
Coordenador Pedagógico
Superior
Completo
Caio
44 anos
Professor
universitário/Pesquisador
Pós-doutor
83
1) Do Eu ao Nós : a construção da homoconjugalidade.
1.1 Percepção do desejo homossexual.
Quando um indivíduo decide se vincular conjugalmente com alguém do
mesmo sexo, partimos do pressuposto básico que seu desejo e sua orientação sexual permita
categorizá-lo como alguém com desejos homoafetivos, ou seja, existe uma percepção
consciente e construída de sua homossexualidade.
A construção da “orientação homossexual” faz parte do processo de
desenvolvimento do individuo e se caracteriza como importante componente de pertença para
a construção de vivências e a busca de vínculos conjugais homoafetivos. Sant’Anna (2002)
demonstrou que a possibilidade de construção de relacionamentos afetivos entre pessoas do
mesmo sexo requer que os indivíduos estejam em parte com sua orientação sexual assumida e
que estejam seguros dessa condição psicológica e social. Portanto unir-se conjugalmente com
alguém do mesmo sexo requer antes de tudo a percepção e assunção individual da
homossexualidade.
Para Caio e Régis, participantes desta pesquisa podemos observar que o
processo de construção e percepção de suas identidades e orientação sexual se deram de
maneira bastante peculiar.
Caio relata que desde criança percebia seu desejo em relação a pessoas do
mesmo sexo, porém era uma percepção confusa, vivenciada com muito temor, e tanto na
infância como na adolescência não dividia esses sentimentos com ninguém. Esta narrativa
reforça o que Savin-Willians (1996, 2001) e Gonsoriek (1995) descrevem sobre o
desenvolvimento de uma identidade homossexual, apontando que uma grande parte dos
homossexuais, mesmo que de forma difusa. tem as primeiras impressões sobre seu desejo
na infância, porém o processo de construção, aceitação e assunção de sua orientação sexual
acontece durante sua adolescência e na fase de adulto jovem.
“Eu não sabia ao certo o que era aquilo, eu era um moleque de rua, saía na rua, eu
saía para namorar, via revista de mulher pelada e falava, eu quero pegar essa
menina, mas eu sentia que com homem era diferente, eu gostava mais... (Caio)”.
...lembro que na minha adolescência, esse medo até existiu e o homossexual era
mais discriminado, o que o seja hoje, mas naquela época era mais, ele era
abertamente discriminado. (Caio).
Com mais ou menos vinte anos Caio deixa a casa dos pais e vai viver
sozinho, em parte como uma maneira de melhor experienciar e testar seu desejo homossexual,
porém refere que ainda sentia medo do preconceito e da homofobia.
84
Diz o participante que sempre viveu suas experiências muito solitariamente,
tinha poucas pessoas para dividir suas idéias e percepções em relação à sua
homossexualidade. Tinha uma rede social restrita, e começou a “sair do armário” e fazer
amigos homossexuais quando estava adulto. Refere que para se aceitar como homossexual
fez um trabalho interior consigo mesmo observando o relacionamento entre as pessoas e
quebrando alguns estereótipos e estigmas.
“É porque a idéia de gay, era assim de um cara promíscuo, que vai com qualquer
um, aquela coisa meio abandonada, aquela bichinha abandonada...(Caio)”
Mas depois que eu percebi que relacionamentos comuns também acabavam,
começavam e terminavam e tinham também crises e os mesmos problemas, eu
comecei a trabalhar interiormente comigo...(Caio)”
Esse trabalho interno a que se refere Caio está relacionado à percepção e o
reconhecimento que o individuo homossexual empreende para sua aceitação. Uma das
importantes tarefas nesse sentido é lidar com a percepção de que ser homossexual não denota
uma doença ou uma perversão. É como nos coloca Gonsoriek (1995) e Hancock (1995),
homossexuais são socializados em uma sociedade heteronormativa e homofóbica e, além do
medo do preconceito social e conseqüente violência como relata Caio, existe também uma
demanda psicológica e subjetiva que é lidar com a homofobia internalizada que gera
sentimentos negativos e depreciativos e que afeta sobremaneira a construção da identidade e
da auto-imagem do individuo homossexual.
Caio manteve antes de seu casamento com Régis outras relações de namoro,
sempre com pessoas do mesmo sexo. Destaca uma relação de namoro de oito anos com um
parceiro, porém não confere a essa relação o significado e o status de casamento justificado
pelo fato de não coabitarem e também pelo fato do namorado não assumir o relacionamento e
sua própria orientação sexual. Esse relacionamento foi desfeito quando Caio foi viver nos
Estados Unidos para cursar seu pós-doutorado.
Sai de um relacionamento muito antigo de 8 anos e nos Estados Unidos eu tinha
conhecido algumas pessoas, mas sabia que eram relacionamentos que não iam para
frente; eu ia para um lado e a outra pessoa ia para outro lado, para o estrangeiro...
Eu sempre procurei uma relação estável, o gosto de relacionamentos que tenham
dificuldades, que tem que sempre trocar de parceiro (Caio).
Diferentemente de Caio, Régis refere que sua percepção em relação ao seu
desejo homossexual aconteceu na fase adulta. Primeiro teve um casamento heterossexual,
referindo o participante que sua primeira relação sexual com outro homem aconteceu quando
estava recém-separado de sua ex-esposa.
85
Régis relata que durante a sua infância e adolescência não percebia
nenhuma inclinação ou desejo por pessoas do mesmo sexo; sempre namorou várias meninas
desde a escola, relacionamentos esses tão intensos que eram percebidos por Régis e por sua
rede social como “micro-casamentos” (Sic).
...se eu te contar que desde que eu tenho oito anos de idade eu casado com
alguém...no primário, no pré-primário, no primário da escola, primeiro, segundo e
terceiro ano da escola uma menina se apaixonou por mim e a gente passou as
quatro séries “juntos”. Então eu era casado com a Kelly. Não tinha como. Nós
éramos percebidos no núcleo escolar, como par. Eu fui pro ginásio e no ginásio
engraçado é que as meninas se apaixonavam por mim e uma outra menina se
apaixonou por mim e eu passei o ginásio como par com a Rebeca. Eu tive ainda
pequenos flertes com outras pessoas, mas as pessoas sabiam que o meu par, era a
Rebeca, você entendeu? Eu fui pro colégio e aconteceu a mesma coisa...(Régis).
Após vários relacionamentos e namoros com mulheres, Régis conheceu
Ruth, com a qual se casou e teve dois filhos. Foi após o rompimento desta conjugalidade que
Régis começou a procurar outros homens para um relacionamento sexual. Relata que nesses
encontros não havia a pretensão de envolvimento, eram percebidos como relações
despretensiosas, puramente sexuais, que Régis chamava de fast-foda (Sic.).
Refere o participante que foi por intermédio dessas experiências que
começou a relacionar-se sexualmente com outros homens e que esse desejo passou a existir de
forma mais evidente e clara em sua vida, porém Régis pouco compartilhava com as pessoas
sobre esses desejos. Os mesmos eram mantidos sob sigilo em relação à sua família de origem,
ex-esposa, filhos e amigos.
Ao observar a fala de Régis, notamos que o mesmo vivia em universos
paralelos. A vivência homossexual era reservada e completamente desconectada de grande
parte de sua rede social, segredo que não podia ser revelado.
Quando relata sobre a percepção do desejo homossexual, Régis diz que
“olhando com os olhos de hoje” (Sic.) pode notar que havia vários indícios de sua
homossexualidade em seu processo de desenvolvimento, porém não tinha consciência e
percepção desse desejo.
Eu hoje acho que sim, mas na época eu não percebia. Hoje, se eu for olhar, com os
olhos de hoje, para trás, eu acho que sim, porque, por exemplo, eu nunca tive
problema nenhum com amigo gay, nem gay nem ninguém...então, hoje eu acho que
tinha um desejo subliminar, mas naquele época eu não percebia (Régis).
Régis conta que a “transição” de uma orientação sexual heterossexual para
uma orientação sexual homossexual não foi percebida como um processo de ruptura ou
mudança intensa em sua vida. Diz que foi acontecendo naturalmente e que a partir da
86
experiência com outros homens foi se definindo como um homem homossexual,
identificando-se com essa orientação e suas escolhas.
...todo mundo diz que passa, eu não passei. Não é o que se fala? Que houve uma
transição, houve uma ruptura nos seus conceitos e aí eu passei a fazer isso? Eu não
tive isso. Se todo mundo passa e eu ainda não tive, eu vou passar porque eu não sou
diferente dos outros, então eu não acho nada, mas conclui-se que é a norma, porque
a pessoa diz que “tava assim, mas aí eu não tava suportando, rompi com tudo e fui
me descobrir.” Pra mim não teve esse papo de “vou me descobrir” nada. Foi
normal. É o que eu te falei, eu acho que eu vivi num núcleo familiar que foi muito
permissivo nesse sentido. A gente sabia que, dentre os amigos dos meus pais, tinha
os casais e também tinha os que eram gays que apareciam com namorada, com
namorado e eram recebidos da mesma forma. Eles não eram recebidos nem melhor,
nem pior, nem numa situação separada (Régis).
Pelo discurso de Caio e gis, podemos notar que a construção da
orientação sexual e conseqüentemente da formação de uma identidade homossexual
aconteceu de maneira diversa e complexa. A percepção do desejo nas histórias relatadas pelos
participantes evidencia que independente do momento de vida em que se percebe o desejo,
apropriar-se do mesmo é um processo que demanda mudanças psicológicas, vivências e
experiências em relação ao mesmo.
Podemos dizer que a apropriação do desejo e conseqüente formação de
identidade homossexual é um processo importante para a saúde, bem estar psicológico, social
e qualidade de vida do indivíduo, pois a orientação sexual é parte fundamental na escolha de
vínculos amorosos. Nesse sentido, como postulam Gonsoriek (1995), Nunan (2007b),
Hancock (1995), Sanders (1994), Isay (1998) e Savin-Willians (1996), aceitar-se homossexual
é um processo de transformação que não obstante gera sofrimentos e angústias, e é marcado
por vários fatores estressantes psicológicos e sociais decorrentes da homofobia
institucionalizada, das crenças heteronormativas e heterossexistas, bem como dos processos
individuais e subjetivos do sujeito com destaque para a homofobia internalizada e própria
percepção e construção e aceitação de uma orientação sexual “diferente”. Esses processos,
externos e internos, potencializam as possibilidades de ocorrência de transtornos psicológicos,
propensão ao uso de drogas e em casos extremos até o suicídio.
É evidente que para assunção da homossexualidade, tanto Caio como Régis
passaram por transformações e lidaram com uma série de perdas nesses processos. Caio fala
que teve que trabalhar a imagem que tinha sobre o que é ser homossexual, refletiu sobre os
estereótipos sociais acerca da homossexualidade, e de maneira solitária e com medo foi se
permitindo a experiências com outros homens e construindo sua identidade.
87
para Régis, assumir-se homossexual foi um processo que implicou na
separação de sua ex-esposa e em importantes mudanças em sua vida. Houve um afastamento
do núcleo familiar e um redimensionamento de suas escolhas e atitudes. Régis foi se
apropriando de sua nova condição inicialmente com experiências sexuais rápidas com outros
homens, porém o desejo afetivo de viver com outro homem levou Régis a construir
possibilidades de vinculação mais estáveis e seguras culminando na sua conjugalidade com
Caio.
Apesar de referir que sempre conviveu com homossexuais devido a sua rede
familiar e social, Régis começou a compreender e aceitar esse desejo em um momento de
vida no qual havia construído uma família com mulher e filhos. Esse processo foi vivenciado
de maneira secreta, pois como refere Régis, essa transformação poderia prejudicar a relação
com os filhos e provocar problemas com sua família.
1.2 As transições na relação afetiva e a formação do casal.
1.2.1 - O Encontro
Caio e gis se conhecerem pela internet no início de 2003. Régis relata
que estava em Santos SP quando resolveu checar sua caixa de correspondência eletrônica
em uma Lan House. Acessou uma sala de bate-papo e começou a conversar com Caio.
Marcaram novamente um horário para conversar via digital no dia seguinte. Segundo Régis,
nesse dia puderam conversar melhor, trocaram telefones e marcaram um encontro em São
Paulo.
Encontraram-se em São Paulo e após se conhecerem foram para o
apartamento de Caio. Ficaram juntos e combinaram de se encontrar outra vez. Caio estava
prestes a fazer aniversário e convidou Régis para sua festa de aniversário.
Quando se conheceram Régis estava em processo de separação de seu
casamento anterior (heterossexual). Caio estava solteiro, porém mantendo uma “meia relação
(Sic Caio) com outra pessoa, um médico que havia conhecido tinha seis meses. Caio refere
que essa pessoa tinha muitos conflitos com o fato de ser homossexual, tinha medo de se
assumir e por qualquer pressão familiar ou social ele encontrava uma namorada.
Régis nesse período morava na casa de seus pais em São Paulo, estava
separado, não formalmente de sua ex-esposa e mantinha uma boa relação com a mesma e com
seus dois filhos e sua família de origem. Caio morava sozinho.
No dia do aniversário de Caio, Régis foi à festa que aconteceu na casa de
uma amiga de Caio e chegou com bastante antecedência. Refere que como não conhecia os
88
amigos de Caio e sabia que o outro pretendente de Caio estaria lá, chegar com antecedência
ao evento foi sua estratégia para se ambientar e “marcar seu território (Sic Régis). Na festa
Régis disse aos convidados que estava apaixonado por Caio. A partir desse encontro, Régis e
Caio começaram a namorar. Régis diz que pressionou Caio para tomar uma decisão. “Quando
eu o beijei eu sabia que estava apaixonado e que ia fazer o necessário para ter o Caio (Sic
Régis).”
1.2.2 - O namoro
Após esses encontros iniciais, Caio e Régis foram construindo uma relação
de namoro, foram experimentado como era fazer as coisas juntos (Régis)”. Régis nesse
período cuidava de seus genitores e vivia com eles após sua separação. Nos finais de semana
Régis ficava com seus filhos e via Caio durante a semana. Quando começou a intercalar
quinzenalmente a visita aos filhos, Régis ia para o apartamento de Caio e também passava o
final de semana com ele. Disse que faziam muitas coisas juntos iam ao supermercado,
viajavam nos finais de semana, cuidavam da casa, porém Régis relata que não tinha a intenção
de coabitar e nesse período ninguém de sua família sabia sobre seu relacionamento com Caio,
tendo essa situação durado mais ou menos dois anos.
Régis diz que desde que conheceu Caio sabia que era um namoro sério,
não era uma brincadeira.
“... foi tão rápido que quando eu deixei claro o que eu queria e ele aceitou; a partir
daquele momento não era um namorinho não, era um namoro com propósito
recreativo, era namoro mesmo. Namoro pra perpetuar uma relação. Então desde
sempre eu me sinto casado com o Caio. A partir do momento, desde a festa de
aniversário, eu não era um amigo, eu não era um pretendente a namorado, eu
me posicionei com um motivo, se ia dar certo ou não era outra coisa. (Régis).
Nessa fase, Régis tinha que administrar o relacionamento com sua ex-
esposa, seus filhos, sua família de origem, ao mesmo tempo, tinha o desejo de viver uma
relação amorosa homossexual, mantida sobre segredo.
Configura-se nessa situação uma grande ambigüidade e estresse para Régis,
pois a manutenção de um segredo gera muito desgaste e como afirma Imber-Black (1994) a
pessoa se torna refém e prisioneira dessa situação que necessita acobertar a qualquer custo.
Além do medo da ameaça de ver essa situação revelada, acontece uma restrição a
comunicação e uma ameaça à confiança nos relacionamentos.
Na percepção de Régis esse foi um dos fortes motivos que deixava Caio
inseguro durante o período de namoro, mesmo que Régis deixasse claro que não havia
89
nenhum contato afetivo, físico com sua ex-esposa. Mesmo assim essa situação provocava
ciúmes em Caio, que por sua vez solicitava a Régis para resolver essa situação.
... então quando eu falei pro Caio: eu não tenho mais nada com ela, eu não tenho
mesmo. Até esse momento, apesar de não ter mais nada com ela, as coisas iam a
banho maria, poderia ter isso pro resto da vida. Quando eu percebi que meu
sentimento com o Caio era um sentimento genuíno, eu procurei a mãe dos meus
filhos e disse assim: olha, eu estou nesse momento rompendo definitivamente com
você e com qualquer expectativa que possa haver, porque eu estou num outro
momento da minha vida. Não tem nada a ver com você, é um problema meu. Eu não
vou atender mais às suas necessidades, tão pouco você as minhas então a partir
desse momento teremos apenas uma relação cordial pra tocar o projeto de criação
dos meninos apenas. Ela ainda ficou achando que não, que não, que não por um
ano, mas eu não tinha nada, absolutamente nada com ela apenas um contato
meramente cordial. Então o Caio sofreu um pouco com isso achando na fantasia
dele, de que como eu passava o final de semana à gente conversava tal, que eu
ainda pudesse ter alguma coisa com ela. Mas não. Pra mim as coisas estavam muito
resolvidas...”(Régis).
Para Caio essa situação foi causando um grande desconforto durante o
período de namoro, pois o mesmo refere que começou a sentir ciúmes da relação de Régis
com sua ex-companheira mesmo acreditando que seu companheiro não tinha mais nada com
ela. Outro fator que deixava Caio inseguro é que quando não passava os finais de semana com
o namorado não tinha acesso a ele, percebendo também que Régis não queria assumir a
relação por causa dos filhos, tinha medo de retaliação e de perder o amor dos mesmos.
...no decorrer do nosso relacionamento, começou a aparecer coisas que não me
agradava, no final de semana ele passava com a mulher e os filhos, dormiam no
mesmo quarto e ele dizia que não acontecia nada. Isto me incomodou bastante”
(Caio).
...ele estava separado, bom era isso que ele me dizia né. Não era oficialmente,
mas ele morava com o pai dele e ela com o pai dela. Mas no final de semana ela ia
para a casa do pai dele e o discurso era o seguinte: é que eles faziam isso para o
bem dos filhos e que ele nunca ia poder se assumir, por causa dos meninos. Nunca
ia poder morar comigo junto, por causa dos meninos (Caio).”
...ele não queria se assumir, claro, por causa dos meninos e isso estremeceu a
nossa relação. Estremeceu porque olha, eu tenho 40 anos e quero um
relacionamento sério. Não era nem a questão de morar junto, embora fosse um
desejo meu, mas ele dizia que era por causa dos filhos e eu aentendo, o que me
incomodava era o aspecto do contato com a mãe, porque eu não sei.(Caio)”.
Percebemos que a construção da relação conjugal de Régis e Caio passou
por uma série de decisões importantes que ambos necessitaram tomar. Para Régis assumir um
relacionamento homossexual estável e crer na expectativa de vivê-lo integramente passava
pela compreensão da mudança de seu desejo e orientação sexual. Apesar de referir que
havia tido experiências sexuais com outros homens, de maneira fast-foda (Sic), o que havia de
90
ser manejado na relação com Caio era o forte desejo e vínculo afetivo que existia. Régis
necessitava então administrar além de seu próprio desejo as implicações que o mesmo teria
para sua família atual, família de origem e outros relacionamentos importantes. Como
sabemos tais situações são geradoras de muito estresse e vulnerabilidade.
Caio, por sua vez havia tido um relacionamento anterior de oito anos que
não considerava como um “casamento” e tinha a expectativa de encontrar alguém que pudesse
morar junto, ter uma relação estável, alguém que pudesse assumir uma conjugalidade.
Esses dilemas em parte se modificaram no momento em que Régis recebe
uma carta solicitando o divórcio. Esse foi um momento decisivo na história da conjugalidade
de ambos, pois veio à tona a informação sobre a homossexualidade de gis o que ocasionou
um forte rompimento com sua família de origem, sua família atual, sua ex-mulher e filhos.
Régis relata que seus irmãos aliaram-se à sua ex-companheira, e que não recebeu apoio de sua
rede social, pelo contrário, houve muita hostilidade e rechaço.
Para Caio essa ruptura significou a possibilidade de Régis vir morar em seu
apartamento. Morar junto tem para Caio um significado importante para o vínculo conjugal; o
mesmo refere que após o divórcio e o desentendimento familiar ocasionado por esse fato
Régis pode assumir de fato sua relação e segundo a percepção de Caio assumir também sua
identidade homossexual.
“... mediante uma crise, mas foi uma oportunidade dele assumir o que ele era.
Claro que não foi cil, eu também entendo que não foi fácil para os filhos
aceitarem o fato do pai viver com outro homem, por mais inteligente , desencanada
e desprendida que fosse a criança , até pela criação, eu entendo que não foi fácil,
porque essa aceitação é difícil, eu entendo isso (Caio).”
Mediante essas crises, Caio e Régis passaram a coabitar, a viverem juntos.
Como houve um rompimento radical por parte da rede social de Régis, viver com Caio
representava um lugar seguro e a perspectiva de começar uma nova relação afetiva.
Tanto para Caio como Régis essa situação impôs o desafio de estruturar a
relação e legitimar uma convivência relacional, obstruída em parte pelos segredos existentes
na relação de gis e sua rede social, pois Régis vivia uma vida dupla e não conseguia
assumir plenamente sua relação amorosa com Caio.
Situações como essas são descritas na literatura por Slater in Conolly,
(2004) e por Mattison e McWhirter (1996), que relatam que quando um dos cônjuges vive
momentos díspares de auto-aceitação , como Régis que mudou sua vida de uma perspectiva
heterossexual para uma orientação homoafetiva e Caio que tinha se apropriado de sua
orientação, tais diferenças podem gerar conflitos que incidem diretamente na relação do casal
91
gerando sentimentos de confusão, medos e inseguranças, como relatado acima pelos
participantes, que necessitaram se fortalecerem para encontrar recursos e estratégias para o
enfrentamento desses problemas.
1.2.3 O Casamento.
Tanto Régis como Caio relatam que sempre tiveram desejo em construir
uma relação conjugal estável.
Estar casado, para Régis e Caio tem vários significados. Para Régis estar
casado significa construir um espaço de convivência amorosa, de ajuda e companheirismo,
experiência essa muito gratificante quando Régis compara o relacionamento amoroso com
Caio com seu relacionamento conjugal heterossexual.
“...construção, planejamento que é o que a gente vive hoje. Que é difícil também,
mas que te ampara. A gente constrói pra gente, eu não construo pra mim nem
tampouco construo pra ele eu construo pra nós dois qualquer coisa isso aqui ou
tudo isso aqui, entendeu? Em virtude disso se eu tivesse que repetir eu ia querer
repetir isso não ia querer repetir o casamento anterior que foi muito desgastante o
tempo todo...(Régis)
Régis relata que com Caio vive um casamento de verdade (Sic).
“...no ponto de vista gratificação pessoal eu sou muito mais gratificado hoje, do
que fui no casamento anterior, no entanto, também tem aquelas considerações a
fazer: eu estou mais maduro, eu estou mais velho, eu me casei de verdade agora.
Aquele casamento não era um casamento de verdade...(Régis)”
O processo de divórcio, a percepção que não vivia uma relação conjugal
satisfatória (heterossexual) e o processo de formação de uma identidade homossexual foram
eventos determinantes para Régis construir sua conjugalidade com Caio.
Para Caio seu casamento com Régis se fortalece quando passam a morar
juntos. Para Caio residir junto, compartilhar e dividir o mesmo espaço tem um sentido
importante do “estar-casado”, representa uma legitimação e confere maior segurança a sua
relação com Régis. Percebe-se que para Caio, investir em uma relação e conseqüentemente
em uma pessoa com uma história conjugal heterossexual é acreditar numa mudança e lidar
conjuntamente com os estressores vividos por Régis nessa transição. Coabitar é tão
significativo para Caio no que diz respeito a sentir-se casado, que o mesmo não confere o
status de casamento ao relacionamento afetivo de oito anos que teve antes de conhecer Régis,
justamente pelo fato de não terem morado juntos.
92
Caio conta que sente muito prazer em estar casado, de estar junto e que a
amizade é um ponto significativo para a relação.
Nós temos muita amizade, tem final de semana que nós viajamos, vamos passear,
nos abraçamos, eu gosto de dormir abraçado com alguém , de ficar na cama com
alguém, de estarmos sempre juntos , de estar com ele, de sentir o corpo dele (
Caio).”
Após completar seis anos que haviam se conhecido e três anos convivendo
sob o mesmo teto, o casal, em janeiro de 2009 celebrou um contrato de união/parceria civil,
lavrado em cartório atestando a relação. Essa decisão foi compartilhada pelo casal, porém
motivada por interesses divergentes.
Caio relata que em parte resolveu fazer o contrato após viver uma crise
conjugal com Régis que deixou-o muito chateado pois descobriu que o mesmo estava se
correspondendo com outros homens pela internet. Apesar de justificar que não mantinha
nenhuma relação extraconjugal tal incidente gerou uma proposta de separação, pois a
confiança e a fidelidade valores fundamentais para Caio numa relação conjugal tinham sido
ameaçadas. Diz Caio:
Ele acha que eu tenho que confiar nele, confiar integralmente, assim , por
exemplo: Quando ele marca um encontro com um cara e fala que não é nada, que
ele marca um encontro mas que ele não vai. E na minha cabeça eu acho que ele
vai sim nós brigamos e anos separamos , houve proposta de separação ,
quando em uma ocasião que ele saiu com um cara e nós até nos separamos. Foi no
retorno dessa briga que nós resolvemos nos casar (Caio).”
Após o entendimento e reconhecimento da importância do contrato de
parceria entre ambos, Caio situa essa iniciativa como um marco para relação, importante ritual
de confirmação do casamento e dos sentimentos que alicerçam seu vínculo, seu laço com
Régis.
Um marco mesmo é como se falássemos eu te amo e quero ficar com vo (Caio).
Caio entende a importância da celebração e da confecção do documento,
porém entende que o mesmo não protege a relação, mas fez porque para Régis era importante
essa questão de papel, aquele casamento, aquela formalidade, aquele ritual, aquela festa (Sic
Caio). Por ser importante para o companheiro Caio resolveu então fazer o contrato de
parceria civil, narrando que o mesmo foi lavrado no momento de crise e brigas do casal.
“... foi depois de uma briga e ele comentou que s nem éramos casados, e que ele
não ficava sem casar, então eu falei: vamos casar, assim: com um papel , um
documento. E foi uma maneira de eu revelar o meu amor por ele (Caio).”
93
Régis percebe o documento como uma maneira de proteger a relação e de
ter algumas garantias como a possibilidade de usufruir do plano de saúde do companheiro ou
como beneficiário em seu seguro de vida cláusulas essas constantes do contrato. Outro
aspecto importante citado por Régis diz respeito a possíveis cuidados e determinações em
relação à sua saúde. Régis vem cuidando e fazendo tratamento de um câncer e relata que tem
muito medo de ficar à mer de pessoas nas quais não confia e que porventura possam
determinar algum procedimento em relação a seu tratamento, especialmente os membros de
sua família de origem.
Se eu to com uma mulher a sociedade entende, que ela, se ela estiver comigo a
mais de cinco anos, que é a pessoa que pode determinar coisas, mas a sociedade
não está preparada para entender que um homem na mesma posição também pode
determinar o que me colocaria sujeito à vontade da mina família de origem cm
quem eu não tenho mais contato (Régis).”
Então, amanhã se eu entrar em coma tem uma cláusula no meu contrato de
casamento que diz que quem toma todas as decisões é o Caio. Se desliga o aparelho
se não desliga, se doa órgão, se não doa órgão, quem entra pra visitar quem não
entra pra visitar é o Caio (Régis)”.
Régis mostra-se paradoxal em relação ao sentimento de estar casado com
Caio, pois afirma que sempre se sentiu numa conjugalidade com o parceiro, porém como
relata Caio em um momento de crise a necessidade de registrar essa parceira foi fundamental
para Régis demonstrando que a celebração, o ritual é um elemento de importância para que de
fato Régis sinta-se casado e possa ter “ganhos” dessa condição.
Mesmo não sendo tão importante para Caio o mesmo se dispôs a fazer o
contrato de parceira o que significou como dito acima uma revelação de amor que sente pelo
companheiro.
Como descreve Green (2004) a inexistência de uma validação social e
ausência de rituais são fatores que se configuram como estressores para o casal homossexual,
sendo que esses estressores podem gerar uma ambigüidade relacional, falta de compromisso
entre o casal e dificuldade em estabelecer fronteiras da díade com meio social mais amplo.
A história da construção conjugal de Régis e Caio demonstram o quanto
casais homossexuais carecem de rituais sociais que demarcam o “início de um casamento”, ou
seja, um rito de passagem, do “ser solteiro” para o “ser casado” aspecto que revela a
discriminação e a ilegitimidade social à qual a conjugalidade homossexual é relegada. Como
salienta Féres-Carneiro (2009), Moscheta (2004) e Paiva (2007) não existem modelos, rituais
ou normas disponíveis para que os casais homossexuais sintam-se validados como casal. Tal
94
validação deve em parte ser construída pelo casal que muitas vezes necessitam que “inventar”
seus próprios rituais de pertencimento.
Somado a esses fatores, o modelo heteronormativo introjetado de
casamento e relacionamento dos cônjuges podem gerar dificuldades na construção de
identidade do casal. Régis necessitou desconstruir um modelo heterossexual de casamento
tanto do ponto de vista social como psicológico, lidando com suas crenças heteronormativas e
sua homofobia internalizada e se lançar nessa nova experiência. Os ciúmes, a insegurança e
os temores de Caio começaram a atenuar na medida em que tem Régis mais próximo de si, e
com isso construir uma relação de confiança de que o companheiro de fato o deseja como
cônjuge, o que conferiu pertença e solo fértil para a construção conjugal.
Para celebrarem seu contrato de parceria, gis e Caio fizeram uma festa.
Não havia ninguém das respectivas famílias de origem dos participantes. Apesar da
insistência de Régis em que Caio convidasse sua irmã ou outras pessoas de sua família que
sabem sobre a relação conjugal, os convidados da festa eram essencialmente os amigos e
amigas do casal. Portanto as “testemunhas” que estavam presentes na festa realizada por Caio
e Régis resumiam-se à rede de amigos, relações estas consideradas de extremo valor para o
casal.
2) Da Revelação e da homoconjugalidade.
O foco nesta categoria de análise é tratar da questão da revelação e
conjugalidade homoafetiva bem como o panorama e os significados que esse “outing”
imprime aos cônjuges e suas redes sociais.
A questão da revelação da homossexualidade é considerado um importante
rito de passagem, uma realidade que permeia a vida de homossexuais e que representa
importante passo para auto-aceitação e construção de uma identidade homossexual positiva
(NUNAN, 2003; SAVIN-WILLIANS, 2001).
Porém, como nos coloca Imber-Black (1999), a revelação para os casais
homossexuais não se resolve somente por um ato, não se encerra apenas em contar uma vez
sobre a relação, pelo contrário, na revelação, apenas se inicia um processo. Para os casais
homossexuais a decisão de revelar a relação deve ser dos dois. A autora elucida algumas
perguntas, muito comuns na vida de casais gays. Um homem homossexual pode colocar a
foto de seu companheiro em um porta-retrato em sua mesa de trabalho? Um dos cônjuges
pode dividir com outras pessoas o que aconteceu em seu final de semana em companhia de
95
seu parceiro? Podem expressar afeto mutuo e carinho numa festa de Natal na casa da família
de origem de um deles? Qual é o efeito sobre o casal vivenciar esses dilemas?
Para discutir esse tema consideramos pertinente entender o significado do
processo de revelação para Régis e Caio e como a díade lida com essa realidade.
Entendemos que essa situação, a de revelar ou não, implica no respeito à opinião do
companheiro e às atitudes sobre o processo de contar, falar explicitamente sobre a
conjugalidade, o que se reflete diretamente na dinâmica conjugal e que é considerada por
autores como Green (2004), Conolly (2004), Patterson, Ciabatarri e Schwartz (1999),
importante tarefa que se configura para o casal homoafetivo.
Na história da conjugalidade de Régis e Caio a questão da revelação da
homossexualidade e da relação conjugal teve importância capital para os participantes.
Como referiu Caio, foi por intermédio da descoberta/revelação da situação
de Régis que o mesmo pode viver de maneira integral sua relação afetiva e conseqüentemente
assumi-la. Não obstante a situação de revelação trouxe muitas conseqüências para o casal.
Não houve uma decisão espontânea de Régis quanto à sua revelação,
mesmo porque sua vivência homossexual sempre aconteceu de forma clandestina, com temor
da descoberta por parte de sua rede social, familiares, ex-companheira e filhos. A revelação
para Régis implicava sempre num cálculo, numa reflexão sobre os custos-benefícios dessa
atitude e uma tentativa de proteger uma imagem construída, aspecto esse demonstrado por
Sant’Anna e Daspet (2007) e Sanders (1994) que preconizam que para muitos homossexuais
sua identidade é um segredo bem guardado e vigiado com grande risco de perdas de relações
valiosas.
Para Régis o que potencializou a manutenção desse segredo era
principalmente resguardar sua imagem paterna, pois tinha muito medo de perder seus filhos
caso descobrissem sobre sua homossexualidade e conjugalidade com Caio. Como bem
demonstrou Moris (2008) em sua tese sobre paternidade homoafetiva e revelação para os
filhos, muitos pais com orientação homossexual mantém o segredo de sua orientação sexual
para preservar sua relação com filhos, com medo de perdê-los e de não serem compreendidos
e deixar de ser amados como pais.
As percepções, crenças e atitudes de Caio e Régis sobre o ato de revelar,
como revelar, para quem revelar mostram diferenças acentuadas do casal sobre a revelação
da conjugalidade para a rede social.
Para Caio revelar não significa necessariamente falar abertamente,
explicitamente, contar sobre a relação. Ele aponta que muitas vezes, mesmo sem falar sobre o
96
assunto, as pessoas sabem e percebem sua homossexualidade e sua conjugalidade. Caio diz
que não sente a necessidade de contar as pessoas sobre sua vida privada, o que inclui aí a sua
relação conjugal. Caio sente a revelação de uma maneira bastante paradoxal, pois afirma
Eu não tenho essa necessidade de falar , mas também não tenho necessidade de esconder
(Sic Caio)”. Caio entende que a revelação deve acontecer de maneira seletiva e condicionada
a alguns critérios, sendo o principal deles a afinidade pessoal que sente com a pessoa ou grupo
que se deseja revelar. Quando percebe que a revelação pode trazer algumas conseqüências
negativas para si e para seu casamento, Caio simplesmente diz que não chance e que não
revela tal informação.
Caio diz que existem outras formas de revelar a relação conjugal do que
necessariamente falar. Cita como exemplo a coabitação como importante símbolo de seu
casamento e da revelação do mesmo. Segundo Caio a forma como a casa está estruturada e
montada trazem por si elementos de revelação; como a cama do casal, o quarto do casal,
enfim o residir juntos. Essa situação relatada por Caio é muito semelhante com os achados de
Paiva (2007). Os casais homossexuais masculinos entrevistados pelo pesquisador referem que
não é preciso falar sobre a conjugalidade para as pessoas, pois os casais a creditam e
assumem a seguinte premissa “Eu não preciso dizer nada, porque eu tenho certeza que todo
mundo já sabe”.
Cabe aqui levantar reflexões interessantes: Será que de fato todos sabem?
Pode existir por trás dessa idéia, a suposição de que “todos sabem”, o medo dos casais
homossexuais em sustentar um dialogo sobre suas conjugalidades e essa suposição funcionar
como um escudo para não falar sobre a homossexualidade e homoconjugalidade?
Autores como Modesto (2008) e Riesenfeld (2002) sustentam a idéia de que
as pessoas não sabem (ou preferem não saber ou acreditar) até que alguém de fato revele, e ou
conte abertamente sobre a situação.
Mesmo havendo desconfiança ou percepções sobre homossexualidade ou
uma homoconjugalidade, no momento em que é feita uma comunicação aberta existe uma
mudança, abre-se um novo capitulo na relação da pessoa ou do casal para o grupo que recebeu
a comunicação. Podemos pensar que esse silêncio, essa anuência das partes envolvidas
funciona como um regulador das relações entre o casal e sua rede social, tal qual descreve
Sedgwick (2007) em sua epistemologia do armário. Conversar abertamente é fornecer
informações sobre a relação, é envolver-se e as emoções advindas desta abertura são
imprevisíveis para todos os envolvidos.
97
mostramos em trabalho anterior (Defendi, 2006) que ao comunicar sobre
seu casamento à sua mãe um dos participantes teve grande surpresa com a reação da mesma.
Acreditou que a mesma receberia com calmaria essa notícia, pois imaginou que a mesma já
sabia sobre sua relação conjugal, porém a realidade foi bastante diferente e a revelação nessa
situação causou extremo afastamento na relação mãe-filho e conseqüente necessidade do casal
em construir estratégias de enfrentamento para tal situação. Essa história é muito semelhante
à vivida por Régis na descoberta/revelação de sua homoafetividade e homoconjugalidade.
Vale citar um aspecto que é comum e muito importante em vários estudos
sobre revelação, homossexualidade e homoconjugalidade, que diz que muito mais importante
que a revelação em si, é o que acontece depois dela, ou seja, é a imprevisibilidade e o
processo reativo das pessoas frente a ela e a maneira como o individuo e o casal se organiza
frente a essas demandas, como descrito no exemplo acima.
Tendo em vista a história de assunção e revelação para Régis, o participante
relata que depois que viveu a retaliação de sua rede social por conta da descoberta de sua
homossexualidade, o participante entende que a revelação é um processo extremamente
importante para a saúde da relação conjugal e que sempre que inquirido sobre a mesma, Régis
a revela independente de quem seja ou o que possa representar essa revelação. Régis
argumenta que não tem nada mais a perder e que a revelação é um processo que legitima a
relação conjugal marcando importante território para o casal na convivência com a rede
social.
Eu acho que a revelação legitima porque enquanto as pessoas continuarem
escusas fica aquela coisa: “ta escondendo porque não é muito legal, não é idôneo,
eles não fazem o que é certo (Régis).”
As diferenças de atitude entre Caio e Régis quanto à revelação e assunção
da conjugalidade parece não trazer conflitos para o casal. Caio comenta que é questionado
pelo companheiro pelo fato de não falar, não revelar sobre a conjugalidade, mas que existe um
respeito por esse posicionamento.
Ambos apontam que essas diferenças sobre o processo de revelação na
relação conjugal foram sendo lapidados e incorporados através do tempo de convivência e
pelo significado que cada um dos cônjuges levou para a relação de acordo com suas histórias
individuais. Dizem os participantes que não um acordo explicito entre eles sobre restrições
ou para quem ou quais grupos se revelar, porém existem códigos relacionais que indicam os
98
limites e as fronteiras de cada par sobre a revelação, códigos esses construídos pela percepção
de como cada um se posiciona e as diferenças existentes como casal.
Caio diz que esse processo de entendimento sobre a revelação entre o casal
foi um tema que foi acontecendo naturalmente na relação, que não houve uma conversa
explicita sobre isso.
Mesmo que o Régis falar com alguém, comentar com alguém eu não me
importo...eu não vou ficar falando…Eu acho que prá ele é mais importante a
revelação do que prá mim…(Caio)”.
Régis argumenta que a revelação não tem uma importância maior para ele
na relação se comparado com o significado que a mesma tem para Caio. Régis diz que o
pretende esconder mais nada de ninguém e acredita que para seu companheiro revelar não é
algo tão tranqüilo quanto é o para ele, percebendo que o companheiro sente-se constrangido,
se escondendo atrás da prerrogativa que não deve satisfação a ninguém aspecto esse que
Régis discorda, mas que é refutado por Caio como sendo não um medo ou uma não assunção,
mais um importante aspecto de privacidade.
“Não é que é mais importante… eu não escondo nada de ninguém…Cinquenta anos
nas costas, essa altura sinto muito, claro eu não saio por dizendo olha eu sou
viado, olha eu sou viado e esse é meu marido é evidente que não mas suspeitou,
perguntou, eu to falando, na hora…não penso duas vezes, não escondo mesmo eu
falo mesmo (Régis)”.
“...eu não tenho nenhum receio eu não tenho nenhum temor, eu tenho orgulho da
minha relação com ele. Então eu não tenho porque esconder (Régis).”
Tanto para Caio como para Régis a participação em eventos sociais, a
presença constante do companheiro em atividades comunitárias, festas em família na casa dos
pais ou irmãos de Caio vai conferindo visibilidade e legitimidade ao casal. Essas atitudes são
significadas como uma forma de revelação, um jeito de dizer as pessoas que a presença
constante, a parceria entre ambos é um sinal da relação conjugal que vivem.
Régis por exemplo, cita situações em que solicita convite cortesia para Caio
em shows de flamenco que realiza esporadicamente. Leva o companheiro para o camarim,
instala-o em um lugar vip, assegurando ao companheiro um lugar de destaque e
importância, sem ter que necessariamente dizer que se trata de seu par amoroso.
Como sabemos que a revelação expõe o sujeito a situações vulneráveis e
ambíguas como o de perder e ou modificar vínculos afetivos importantes, cabe destacar que
essas experiências relatadas acima pelos participantes demonstram que independente de um
99
acordo conjugal explícito sobre a revelação, esse processo no contexto conjugal está ligada a
maneira como cada qual administra a relação com sua rede social, seja individual, seja do
casal, adotando muitas vezes o que Schalger (1998) e Clunis e Green (2003) apontam como
as diferenças entre o “coming-out” e o “being-out”, que é a diferença entre contar, anunciar
que se é um casal , ou simplesmente “ser” um casal, viver como um casal, o que segundo os
autores é uma expressão de revelação da relação conjugal.
Régis relutou em revelar e ou administrar sua orientação sexual e a
descoberta da mesma levou a prejuízos, afastamentos, mágoas e rancores. Parece que após
essa situação inicial o apego ao relacionamento conjugal, o apego estabelecido na sua relação
com Caio permitiu a Régis alterar seu entendimento de revelação e tornar-se uma pessoa mais
segura de sua orientação sexual e de não querer esconder essa orientação e sua conjugalidade.
Para Caio, parece-nos que a revelação é mais medida, calculada e
estratégica. Prefere manter informações sobre sua conjugalidade dentro de um universo mais
privativo, reservado. Mesmo sentindo que não deseja esconder a relação das pessoas, falar
explicitamente sobre ela não é uma atitude importante para Caio.
Régis traz uma importante questão ao associar o binônio revelação e
legitimação. É por intermédio de um processo de visibilidade e aproximação de pessoas
importantes que a validação do casal homossexual vai acontecendo no meio social ,
conferindo pertencimento ao mesmo, evitando isolamento e sensação de não-existência aos
pares eixo fundamental da construção da identidade conjugal . Essa questão foi examinada
por Green (2004), Sanders (2002), Greenan e Tunnell (2003), Conolly (2004) quando falam
sobre um dos estressores relacionados à vivência do casal homossexual e a importância da
legitimação social de seus relacionamentos via revelação, conferindo maior visibilidade e
menos isolamento e conseqüente enfrentamento da homofobia e preconceito.
Ao analisar a história de Régis e Caio, podemos pensar que ambos trazem
para a relação conjugal seus significados e experiências pessoais de revelação e “outing”,
características que são complementares na construção da sua conjugalidade.
Se para Régis um processo de revelação/descoberta de sua orientação sexual
e homoconjugalidade deixou feridas e provocou profundas transformações em suas relações,
o mesmo atualmente age de forma a não repetir o padrão de esconder das pessoas parte
importante de sua identidade e pertencimento. Caio traz para a relação conjugal a idéia e a
prática de parcimônia, cuidado e estratégia quanto à revelação, questionando e tentando
antever a real necessidade de uma revelação e quais as conseqüências que esse processo pode
agregar, enriquecer ou ameaçar a sua vivência pessoal e conjugal.
100
3) Redes sociais e revelação.
As informações coletadas pelas entrevistas conjugados às informações
fornecidas pelo casal por intermédio do Mapa da Rede Social foram de muita valia para a
construção dessa categoria de análise.
Como descrito no procedimento, o Mapa da Rede Social como instrumento
de pesquisa mostrou-se excelente disparador para a coleta de informações. Cada participante
elaborou seu Mapa de forma individual, estimulados a pensar na rede social do casal e após a
tarefa abriu-se uma conversação conjunta, bastante enriquecedora.
A seguir apresentamos os Mapas de Rede Social de Caio e Régis e
respectivas legendas. Para facilitar a compreensão do Mapa de Rede Social, os nomes das
pessoas da rede social do casal aparecem com suas iniciais no mapa e podem ser identificadas
por seu nome completo (todos fictícios, para preservar a identidade dos participantes e de
pessoas citadas nas entrevistas) na legenda.
Na legenda estão identificados os nomes de acordo com a seqüência dos
quadrantes, começando do mais distante até o mais próximo.
101
Mapa Rede Social: Participante Caio
LEGENDA
FAMÍLIA
AMIZADES
TRABALHO
Pai
Ana
Jaciara
Mãe
Celi
Marta
Irmã: Mirna
Mirta e Bianca
Marcos
Sobrinhos: Euler, Vinicius e Nina
Grupo de pais homossexuais (GPH)
Irmã: Marina
Pedro e Renan
Paloma e Maria
AMIZADES
FAMÍLIA
RELAÇÕES DE
TRABALHO OU
ESTUDO
RELAÇÕES
COMUNITÁRIAS
RELAÇÕES COM
SISTEMAS DE
SAÚDE E
AGÊNCIAS SOCIAIS
Pai
Mãe
Mi
(irmã)
3 sobrinhos
Ma
(irmã)
P e R
M e B
GPH
C
A
P e M
J
M
Marc
102
Mapa Rede Social: Participante Régis
LEGENDA
FAMÍLIA
AMIZADES
Sobrinhos: Euler, Vinicius e Nina
Wilson
Cunhada: Mirna
Raisa
Cunhado: Milton
Jonas
Ema
Marcos A.
Felícia
Jaciara
Kitty
Pedro e Renan
Grupo de pais homossexuais (GPH)
AMIZADES
FAMÍLIA
RELAÇÕES DE
TRABALHO OU
ESTUDO
RELAÇÕES
COMUNITÁRIAS
RELAÇÕES COM
SISTEMAS DE
SAÚDE E
AGÊNCIAS SOCIAIS
W
J
W
R
E
M.A
M
(cunhada)
Mil
(cunhado)
Sobrinhos
(Caio)
J
PeR
GPH
K
F
103
Na conversação sobre as pessoas e os vínculos importantes surgidos no
Mapa, um dos participantes da pesquisa, Caio comentou que para ele foi importante
confeccionar o Mapa, pois percebia que ao colocar ou ao não colocar algumas pessoas em sua
rede social, fazia uma escolha de quem participa e de quem não participa da vida cotidiana do
casal, e o valor que a relação tem em nível de afeto, proximidade, apoio e acolhimento ao
mesmo. Régis compartilhou da mesma percepção de Caio e acrescentou a importância e o
significado que cada relação tem o para casal, pois, cada relação traz em si uma história
importante, seja no sentido de acolhimento ou não da relação conjugal de ambos.
Como nosso foco foi compreender a relação entre revelação, proximidade
da vinculação e grau de intimidade, esse questionamento foi realizado ao casal durante a
conversação sobre as informações que surgiram nos Mapas de Rede Social. A priori, tanto
Régis e Caio comentaram que o vêem uma relação direta, entre revelação e a proximidade
da vinculação, porém no desenvolvimento da entrevista ao abordar acerca dos vínculos
importantes para o casal foram percebendo que as pessoas com maior proximidade e
intimidade e que oferecem maior acolhimento, apoio e suporte afetivo a díade , são pessoas
que sabem abertamente da relação conjugal, ou seja, parece existir uma correlação entre
revelação, proximidade da vinculação, intimidade e percepção do casal acerca da rede de
apoio social de que dispõem e com quem podem buscar ajuda e apoio quando necessitam.
Tendo como referência os quadrantes representados no Mapa da Rede
Social organizamos essa categoria de análise ressaltando os dados sobre as relações afetivas e
sociais com a Família de origem, as relações de amizade e comunitárias e as relações sociais
no âmbito profissional (trabalho) e estudo.
3.1 As famílias de origem.
Caio conta que não revelou ou falou abertamente com sua família de
origem sobre sua relação com Régis, com exceção de apenas uma situação. Quando passaram
a viver juntos Caio falou a sua família que estava dividindo seu apartamento com um amigo,
situação muito comum e descrita na literatura como uma estratégia do casal em não falar que
o “amigo” é seu companheiro e cônjuge.
Para todos em casa, para todos, para minha mãe, para os meus irmãos eu falei
que eu iria dividir o apartamento com um amigo (Caio)”
104
Mesmo afirmando que não houve nenhuma revelação de sua relação
conjugal Caio relata que sua genitora quando percebeu a presença constante de Régis em sua
vida, perguntou diretamente ao filho se o mesmo iria se casar. Caio respondeu que sim e até
hoje nunca mais falaram diretamente sobre esse assunto.
Como para Caio não existe a necessidade em falar, revelar a relação, ele
respondeu à pergunta de sua mãe e não abriu espaço para continuidade desse assunto na
âmbito da relação com seus pais. Como a família de origem, principalmente os genitores
representam importante relação vincular, parece que o silêncio e o não dito entre Caio e seus
pais pode revelar um medo ou receio em agredir ou confrontar relações importantes do ponto
de vista do vínculo familiar e fazer com os que pais de Caio necessitem também
redimensionar expectativas que tinham em relação à vida do seu filho, que Caio é o único
filho homem em uma família com mais quatro irmãs.
Caio afirma que sua mãe e seu pai sabem sobre seu relacionamento
conjugal, mas, muito mais forte que sua única afirmativa, ele atribui esse conhecimento sobre
a relação a dois fatores principais: as evidências da relação no cotidiano do casal e a revelação
feita por Régis aos seus pais e suas irmãs. Mesmo com essas fortes evidências e revelação, os
pais de Caio nunca perguntaram nada sobre a relação.
A minha mãe é um pouco mais seca, ela tem ciúmes, mas eles não perguntam
nada, não questionam nada, sabem que eu moro com o Régis que dormimos na
mesma cama. Claro é uma cama de casal, não tem necessidade que eu fale: eu
durmo com o Régis, pois eles sabem. Ninguém pergunta nem do relacionamento,
mas perguntam: Como vai o Régis, mas todos percebem, sabem (Caio)”
A tomada de decisão de Régis em revelar a relação conjugal para os
familiares de Caio é justificada pelo mesmo como uma marcação de território. Percebendo
que Caio não revelava sua relação para sua família de origem, Régis contou para os pais de
Caio e suas irmãs sobre o casamento de ambos. O mesmo teve essa atitude na ausência de
Caio, dizendo que se o mesmo estiver junto, enfartaria. Caio, por outro lado encarou essa
atitude de Régis de forma natural (Sic Caio), argumentando que respeita a posição do
companheiro quanto a essa atitude. Essa situação levada a cabo por Régis quanto a revelação
da relação conjugal para a família de origem do companheiro foi investigada por
pesquisadores como LaSala(2000b), Green (2004) e Green, Bettinger e Zachs (1996).
LaSala (2000b) mostra em suas pesquisas que a revelação para as famílias
de origem ajuda a proteger a relação do casal pois é uma forma de comunicar o compromisso
afetivo evitando o preconceito sofrido pelo casal por parte dos familiares. O pesquisador
105
refere que a assunção e a revelação da conjugalidade para a família de origem é importante
condição para a saúde do relacionamento conjugal. Green (2004) e Green, Bettinger e
Zachs (1996) mostram em suas pesquisas que a revelação aos familiares não é condição
essencial para que o casal homossexual construa sua conjugalidade. As pesquisas
empreendidas por esses autores contribuíram para quebrar o mito de que um relacionamento
conjugal homossexual se estabeleceria se os cônjuges revelassem aos seus familiares essa
situação, condicionando essa ocorrência como fator preponderante e sine qua non para a
qualidade relacional e bem estar de casais do mesmo sexo. Essas divergências teóricas têm
suscitado um rico debate o que culminou, por exemplo, na publicação por Green (2000) de
um artigo no qual faz críticas as idéias de LaSala (2000b) sobre a correlação entre revelação /
assunção a família de origem e essa premissa como fundamental para a construção de um
relacionamento conjugal saudável.
A posição de Caio em não querer revelar e de certa forma manter seu
casamento fora dos assuntos tratados em família de origem pareceu deixar Régis bastante
inseguro, agindo de maneira a comunicar à família sobre seu verdadeiro papel na vida de seu
parceiro. Talvez essa invisibilidade provocada pela atitude de evitação do assunto crie para a
família de origem de Caio certa confusão e impasse quanto à conjugalidade do casal e a
melhor forma de se relacionar com eles.
No tocante ao Mapa de Rede Social elaborado por Caio, no quadrante que
representa os vínculos familiares, o participante não utiliza o espaço que representa maior
proximidade dessas relações com o casal, e argumenta que sempre teve uma relação mais
distante de sua família, antes até de seu casamento.
Das quatro irmãs de Caio, o mesmo tem maior proximidade de duas e uma
delas, Mirna e sua família, o que inclui seus três sobrinhos Euler, Vinícius e Nina sabem
abertamente sobre a relação conjugal e tem maior proximidade com o casal, inclusive é essa
irmã que Caio grafa no Mapa da Rede Social como a mais próxima do casal, relações essas
compartilhadas com seu companheiro Régis. Outra relação familiar que Caio inclui no Mapa
é sua irmã Marina justificando a apoio que a mesma prestou a seu companheiro Régis quando
o mesmo necessitou de acompanhamento para idas ao médico e tratamento de saúde.
A inclusão de seus pais parece ter importante significado para Caio, pois
justifica que apesar de não conversarem sobre a relação conjugal, ambos os genitores
mostram-se preocupados com ele e seu companheiro, perguntam por ambos e inclusive
perguntam pelos filhos de Régis.
106
“...eu coloquei mas afastado minha mãe e meu pai, porque, porque apesar de todos
os problemas o meu pai pergunta do Régis, eu nunca disse assim pai eu sou casado
eles não necessitam dessa informação mas eles sabem e a gente não tem que contar,
eles sabem é por absorção, a minha mãe liga pergunta do Régis, me pai sempre
pergunta cadê o Régis...(Caio).”
A relação de Caio com a família de origem de Régis é praticamente nula.
Como falamos anteriormente pelo fato de Régis esconder sua relação conjugal com Caio,
seu companheiro nunca teve acesso a sua família de origem, com exceção de seus dois filhos
que por um período de tempo tiveram boa convivência com o pai e Caio.
Caio diz que se sente muito mal com a forma como a família de origem
de Régis tratou a situação do divórcio, afastando-se totalmente e inclusive afastando qualquer
tipo de contato com Caio também. Essa situação segundo Régis gera muita raiva no
companheiro. Caio conta que não havia necessidade da família de origem de Régis agir dessa
forma e que isso o deixa muito magoado, inclusive Caio expõe sua desconfiança que tanto a
irmã como o irmão de Régis também são homossexuais e que de forma alguma aceitam essa
condição.
Sabe assim , são pessoas que para mim prejudicaram ele eu não sinto que eu não
vou ter num futuro próximo relacionamento com pessoas como essas, mesmo que o
Régis volte a ter contato com eles, eu não quero porque eu sei a maneira como
magoaram ele, mesmo que ele volte eu não quero ter nenhum contato…eu me sinto
afetado porque eles criaram e armaram uma série de situações que não precisaria
ter acontecido o afastamento dos filhos foi totalmente gerado por causa deles, a
raiva da mãe, mas á raiva da mãe só foi gerada por causa dor irmãos, quem gerou
essa raiva foi os irmãos...(Caio).”
“...justamente porque era irmã dele eu acho que ela deveria ser mais compreensiva
na situação , tanto ela quanto o irmão que é casado mais é veado, então eu acho
que são os dois que mais prejudicam ele também, os dois que são irmãos de sangue
e tem um outro que é de criação, então os dois que são irmãos de sangue que
também são homossexuais deveriam dar um suporte o deram tripudiaram mais
ainda (Caio).”
Para Régis, o processo de revelação da conjugalidade a sua família de
origem aconteceu de forma diferente e como já descrevemos, de maneira imprevisível e
traumática. Quando a família de origem descobriu que Régis mantinha relacionamentos
homossexuais, no momento de seu divórcio, o participante revelou para os genitores e seus
irmãos sobre a sua relação com Caio.
“...eu mesmo deixei muito claro pra todos sempre, sem exceção nenhuma, meu pai,
minha mãe era maluca acho que não sabia, mas pro meu pai, pros meus irmãos que
isso era um problema meu que eles não podiam fazer nada com isso e que eles não
podiam fazer nada pra mudar isso (Régis).”
107
Disse a todos que eu estava tendo uma relação com o Caio, disse anome e
sobrenome, com fulano de tal (Régis).”
O impacto maior da revelação para Régis foi com sua ex-companheira Ruth.
Segundo Régis, até hoje sua ex-companheira não aceita a separação e a maneira como essa
aconteceu, interferindo na relação de Régis com os filhos, inclusive tentando impedir Régis de
ter acesso aos mesmos, argumentando que sua homossexualidade e sua conjugalidade podem
prejudicar o desenvolvimento dos meninos.
A revelação da homoconjugalidade de Régis marcou um afastamento total
no relacionamento com sua família de origem. Régis relata que nos últimos quatro anos o
relacionamento inexiste, não tem notícia nenhuma sobre seus irmãos e seu pai, apenas
sabendo que sua e faleceu. Régis diz que não sente nenhuma falta de relacionamento com
seus familiares, pois antes até deste afastamento a relação entre seus familiares eram bem
distantes, apenas “cordiais(Sic Régis).
Quando se refere à família em seu Mapa de Rede Social, Régis escolhe a
família de Mirna, irmã de Caio como representante de seus relacionamentos familiares,
inclusive descreve que o relacionamento com Mirna, seu esposo Milton e seus filhos Euler
Vinicius e Nina são o que hoje considera seus relacionamentos familiares mais importantes,
pois vê nesses relacionamentos uma extensão de sua relação com Caio e pode com os mesmos
compartilhar problemas e situações que vive com seu parceiro.
Régis deixa isso bem evidente, pois assinala em seu Mapa de Rede Social a
importância da presença dessas pessoas em sua vida pessoal e na vida do casal. Sobre isso
Régis relata:
Eu sempre deu muita importância prá família, eu acho legal ser família, ter
família, mas eu não tenho nenhuma…eu não tenho nenhum contato com os meus
irmãos, eu não os considero mais como família, a minha família é o Caio, nem os
meus filhos estou considerando mais família, porque eu entendo que eu não os
tenho mais, de toda a extensão de família eu considero a Mirna porque ela entende
o Caio como irmão mesmo sem nenhuma relação custo-benefício, eu entendo a
Mirna como família e o marido dela por extensão, porque a Mirna entende o Caio
entende a minha relação com o Caio e entende a mim como pessoa independente
(Régis).”
Ao considerar Mirna, a irmã de seu companheiro como sua família e como
relação importante para o casal, Régis faz um distinção entre o que denomina de família
constituída e família construída (Sic Régis). O significado de família para Régis não está
baseado no que ele denominou de família constituída que para o participante é sinônimo de
família biológica. Família para Régis significa relações de apoio e suporte afetivo, de
108
acolhimento, troca, divisão situações essas que ele encontra nas relações com sua cunhada
Mirna e os membros de sua família.
Vale a pena destacar que tanto Régis como Caio reconhecem a importância
do vínculo com Mirna e sua família para o casal, pois ambos entendem que existem uma
participação efetiva e de apoio para o casal e sentem-se aceitos e respeitados em suas
escolhas, podendo agir como “casal” junto a essas pessoas.
Quanto à revelação para os pais de Caio, Régis diz que o fez para que os
pais e outras irmãs do companheiro o respeitassem de fato, como parceiro de Caio, reforçando
que tomou a decisão em contar para evitar preconceito e evitar a “penetração” (Sic Régis)
dos familiares de Caio no apartamento do casal, com isso assegurando uma diferenciação e
uma legitimação de sua conjugalidade frente à família de origem do companheiro.
Eu achei que no caso da família, como havia uma penetração grande da
participação deles aqui, eles tinham que saber, porque senão ficava uma fantasia de
que “ah, meu filho é solteiro” não tem compromisso com nada nem com ninguém e
tem que dar toda e irrestrita assistência: “Não, seu filho não é solteiro, para de
viver essa fantasia porque não é real.” Então eu cheguei e coloquei tudo direitinho.
Hoje convivem bem com isso? Eu não sei, não é problema meu. Eu sei que a coisa
aqui mudou (Régis).”
O relato de Régis nos remete ao que Greenan e Tunnel (2003, 2004)
expõem como uma das principais tarefas do casal homossexual masculino que é criar
fronteiras para a construção e diferenciação de sua identidade enquanto casal, tanto para os
próprios membros da díade como para os outros, o que inclui as relações familiares, pois é
necessário que o casal se proteja das interferências de outros sistemas e consiga avaliar o grau
de permeabilidade e flexibilidade da relação conjugal com o meio social mais amplo, é como
descreveu Régis, existia uma penetração da família de origem do companheiro e uma
interferência negativa na relação do casal.
Como podemos perceber na história de Caio e Régis, é nesse universo de
aceitação, rejeição, silêncios e revelação que vai se construindo (ou não) a rede social do casal
homossexual com suas famílias de origem.
Se por um lado a revelação confere maior visibilidade ao casal, ela também
regula e molda alguns vínculos importantes nas relações entre o casal e suas famílias. Um
aspecto importante que podemos ressaltar é que a homoconjugalidade provoca uma revisão de
crenças, idéias e significados atribuídos a casamento, família e conjugalidade seja no próprios
homossexuais, como nos membros de suas famílias. Se o casal sai do armário, revela e
assume sobre sua relação conjugal , de uma certa maneira isto faz com que suas famílias
109
também tenham que lidar com essa situação, e também tenham que escolher com quem e
para quem podem compartilhar tais informações, ou seja, revelar para as famílias de origem
expõe seus integrantes a também vivenciar o dilema em sair ou não sair do armário de
revelar ou não que um membro dessa família é homossexual e que vive um casamento com
outro par do mesmo sexo.
3.1 As relações de amizade e comunitárias.
É conhecida a grande valia que as relações de amizade e as comunitárias
possuem na vida de homossexuais, sejam eles solteiros ou vivendo uma conjugalidade.
Em virtude da homofobia e da falta de apoio social, os homossexuais criam
fortes vínculos afetivos com pessoas de fora de seu círculo familiar, fenômeno esse que vem
sendo denominado de família de escolha (SANDERS, 2002; CANCISSU, 2007; LOMANDO,
2008). Esse conceito não se aplica exclusivamente a gays ou lésbicas, mas podemos afirmar
que esse grupo tem se beneficiado sobremaneira dessas relações. Como já expusemos na parte
teórica deste estudo, o conceito de família de escolha incorpora a noção de que outros
relacionamentos pessoais, além da família de origem (denotando aceitação e valorização da
condição homossexual), na vida de uma pessoa, contribuem para formar um núcleo ou uma
rede social para o casal homossexual, sendo que essa rede de relacionamentos ou de suporte
representa importante papel na vida de homossexuais, principalmente no que tange ao
enfrentamento de problemas tais como o abandono da família de origem, a dificuldade em
construir novos vínculos devido à homofobia, a dificuldade em encontrar trabalho etc.
É interessante ressaltar que as pesquisas sobre a importância da rede de
relacionamento e suporte são em sua grande maioria focalizadas na experiência individual da
homossexualidade, poucas focalizam o casal e sua rede de suporte.
As narrativas dos participantes deste estudo confirmam a importância
positiva que esses relacionamentos têm para o casal, pois tanto Caio como Régis incluem em
seus mapas de rede social várias pessoas amigas as quais consideram importantes em suas
vidas e que representam vínculos de extrema importância no que diz respeito a: acolhimento,
confidências, apoio e suporte afetivo para momentos de dificuldades, bem como também
significam vínculos de companhia social, ajuda mútua, apoio emocional, ajuda material e
reciprocidade relacional aspectos esses destacados por Sluzki (1997) como importantes
componentes que geram qualidade de vida ao individuo e conseqüentemente ao casal.
Quando questionados sobre algumas características de sua conjugalidade,
mas especificamente se se consideram um casal aberto a novos relacionamentos, se são
110
flexíveis ou permeáveis a novos contatos sociais e amizades Régis e Caio dizem que sim,
sentem-se abertos a novos relacionamentos e a incorporar novos contatos em sua rede social.
Régis refere que Caio é mais ingênuo, aceita com mais facilidade as pessoas e que não
maldade nas mesmas Diz que o companheiro considera todo mundo “gente boa” (Sic Régis)
e que às vezes se engana em sua avaliação. Régis se coloca de forma mais “dura” (Sic
Régis) nos relacionamentos interpessoais, é quem estabelece os limites quando nota que um
relacionamento mostra-se muito invasivo ou ultrapassa alguma fronteira estipulada pelo casal.
No tocante à rede de amizades, tanto Caio como Régis incluem várias
pessoas que julgam relações importantes para o relacionamento conjugal.
Caio coloca em seu Mapa de Rede Social, como pessoas muito próximas,
um casal de amigas lésbicas, Paloma e Maria e ressalta que mesmo distantes geograficamente
residem em Minas Gerais. Caio conversa com as amigas com regularidade, e que tem muita
liberdade e intimidade para falar sobre problemas, dificuldades e inclusive são pessoas que
poderia contar caso tivesse algum tipo de desajuste financeiro. Outros nculos importantes
para Caio e que segundo o participante tem grande significado na vida do casal são também
outros casais homossexuais, Pedro e Renan, Mirta e Bianca e também por extensão os
integrantes do grupo de apoio que Régis freqüenta denominando Grupo de pais homossexuais
o GPH
15
, grupo esse formada por homens homossexuais que são pais, seja de uma relação
heterossexual (caso de Régis) ou por adoção. Além desses relacionamentos Caio também
inclui na rede de amigos do casal Ana e Celi que foram no passado suas colegas de trabalho,
mas que atualmente Caio e Régis mantém contato.
Interessante observar que a maioria das relações de amizade de Caio são
homossexuais ou casais homossexuais. Caio inclusive se compara com Régis dizendo que
possui mais vínculos de amizade com outros homossexuais porque resolveu sua sexualidade
mais cedo e que isso o ajudou na construção dessa rede de relacionamentos gays.
Caio é categórico ao afirmar que existe uma grande diferença entre revelar
sua homoconjugalidade a uma pessoa de sua rede social de amigos de orientação
heterossexual e homossexual. Relatou uma história no qual se percebeu a importância da
revelação para a proximidade da relação. Caio foi convidado para uma Banca de Doutorado
no Rio de Janeiro e tomou conhecimento por intermédio de uma amiga que o orientador
também era homossexual. Após a finalização do trabalho quando conversaram Caio falou
15
O Grupo de pais homossexuais o GPH tem como objetivo oferecer suporte e apoio social e psicológico, bem
como fomentar uma rede de relacionamentos positivos, seja presencial ou digital a pais com orientação
homoafetiva. O Grupo se originou em 2007 fruto do trabalho de Doutorado da Psicóloga Vera Moris, que
coordena juntamente com esse pesquisador os encontros entre os participantes.
111
sobre sua homoconjugalidade, o que permitiu que o outro também revelasse sua orientação
sexual, fator esse que trouxe aproximação na relação pessoal e profissional de ambos.
Régis também fala sobre a importância da rede de amigos que construiu
como porto seguro para sua vivência pessoal e conjugalidade.
Restaram a gis poucos vínculos afetivos, após o rompimento com sua
família atual e família de origem, e o mesmo se aproximou dos amigos do companheiro
também homossexuais e pode retomar e reconstruir uma nova rede de amizades, considerando
do seu ponto de vista relações afetivas fundamentais para ele e para o casal.
Os amigos Wilson, Jaciara, Ema e Raísa que Régis inclui no último
quadrante do Mapa são pessoas de seu convívio e que sabem “mais ou menos” sobre a sua
relação conjugal. Diz que não foi revelado formalmente a essas pessoas seu casamento, mas
acredita que essas pessoas sabem sobre sua relação. Apenas Ema perguntou diretamente sobre
o casamento, obteve a resposta positiva e não tocou mais nesse assunto com Régis ou Caio.
Diz Régis:
“... essas pessoas sabem mas não sabem verbalmente nunca foram comunicadas do
fato…(Régis).”
“... talvez elas não sejam mais próximas justamente por causa disso porque eu o
revelei formalmente(Régis).”
“... a Ema é superpróxima, uma vez ela perguntou eu respondi que sim e ela nunca
mais tocou no assunto (Régis).”
Fora seu amigo de infância Mario A., os outros relacionamentos de amizade
que são o casal Pedro e Renan, Kitty , Felícia e seus amigos do Grupo de Pais Homossexuais
são percebidos como muito significativos para Régis e estão incluídos como muito íntimos ,
que estão sempre juntos, participam de atividades sociais, prestam apoio e são sempre
solidários a Régis e ao casal.
Régis comenta que tem uma forte vinculação com seus amigos do Grupo de
pais homossexuais pois se sente como igual no grupo e pode trocar informações e apoio
com pessoas que vivem ou viveram uma realidade muito parecida com ele. Percebe que essas
relações são tão importantes que atribuiu o significado fraterno a elas argumentando que
sente esses amigos muito próximos, como se fossem seus irmãos.
“...eu entendo família como um suporte afetivo, por exemplo eu entendo os homens
do grupo muito mais próximos de mim como irmãos do que os meus irmãos
biológicos…eu não acho que os vínculos biológicos represente família (Régis).”
112
Diferentemente da rede social de amigos do casal estabelecida por Caio, no
qual em sua maioria tem orientação sexual homossexual, as pessoas escolhidas por Régis tem
orientação sexual mais diversificada, homo e heterossexual, o que de certa forma demonstra
uma diversidade de escolha e convivência do casal com sua rede de amigos no que tange a
orientação dos mesmos. Podemos entender essa característica com a fala de Caio sobre a
construção de uma rede de relacionamento individual de cada um. Caio assumiu sua
sexualidade antes de Régis e encontrou outros amigos gays. Régis tinha maior restrição a
esse universo devido a sua vivência heterossexual.
A presença de outros casais homossexuais na rede de amizades
significativas para o casal também nos revela a importância do estreitamento de vínculos das
díades homossexuais, aspecto esse que parece fortalecer o relacionamento conjugal de Caio e
Régis, na medida em que podem compartilhar de problemas e soluções para os dilemas e vida
cotidiana de um casal homossexual. Nunan (2007) postula que os casais homossexuais
encontram pouco apoio da própria comunidade homossexual por preconceito e crítica a esse
estilo de vida. Também comprovamos esse falta apoio e informação quando fomos buscar na
internet espaços/sites onde os casais possam compartilhar suas angústias e vivências (MORIS,
DEFENDI E ROSSI, 2007) e pouco conteúdo foi encontrado direcionando a questões
específicas de um casal homossexual.
No tocante a importância da rede de amigos, parece-nos que tanto para
Caio, como para Régis, essas relações têm peso significativo na construção da identidade do
casal. Os depoimentos dos participantes revelam o que outros pesquisadores Lomando
(2008) no Brasil e Rostosky et. al. (2004) nos Estados Unidos encontraram sobre a
importância da vinculação da rede de amigos para os casais homossexuais. Como diz
Lomando (2008), um apoio efetivo da rede familiar e de amigos favorece o desenvolvimento
da qualidade conjugal e a percepção da importância dessa rede pelos casais homossexuais é
de grande valia. Régis deixa evidente que se não fosse a presença de sua rede de amigos e de
outras relações importantes que conheceu por intermédio de seu relacionamento com Caio,
dificilmente suportaria as dificuldades advindas de seu processo de divórcio e quebra do
segredo frente a sua homossexualidade. Caio parece encontrar segurança e apoio quando
compartilha suas angústias e problemas com outros casais homossexuais amigos (as).
Portanto percebemos que os relacionamentos de amizade representam para
Caio e gis enquanto casal, o que Sluzki (1997), Feijó (2002, 2006) e Schnitman (2006)
afirmam: os relacionamentos no qual se sente acolhimento e confiança mostram-se recursos
113
poderosos de adaptações a situações de crise, provê segurança e promovem saúde e qualidade
de vida as pessoas.
Quanto aos relacionamentos comunitários, tanto Caio como Régis não
destacaram nenhuma relação específica que merecesse menção no Mapa de Rede Social e no
cotidiano de vivência do casal. Caio justifica que mantém uma postura muito reservada em
seu condomínio ou em outros espaços comunitários, e que nesse aspecto refere que Régis é
um pouco mais aberto, porém também mantendo certa reserva e privacidade em relação à
conjugalidade de ambos. Régis concorda com o companheiro e também não inclui ou destaca
nenhuma relação significativa que o mesmo classifique como relações comunitárias
relevantes.
3.1 As relações de trabalho e estudo.
Caio é pesquisador e professor universitário em uma importante
Universidade Pública de São Paulo. Chefia um laboratório de pesquisa, leciona e orienta
alunos em cursos de pós-graduação. gis atuou como coordenador pedagógico e atualmente
encontra-se sem trabalho.
Caio refere que em seu ambiente de trabalho sua postura quanto à revelação
de sua conjugalidade é muito parecida com as relações familiares.
“...assim as pessoas de família e de trabalho eu mantenho uma certa barreira, eu
dou uma liberdade vigiada eu não dou muita liberdade(Caio).”
Quando fala de sua rede social envolvendo as relações de trabalho, Caio
destaca três relacionamentos que considera relevante, porém frisa que os mesmos o
relacionamentos muitos bons, mas que existe um limite, não são tão íntimos ao casal.
As pessoas que Caio mencionam são Marta e Marcos, respectivamente sua
ex-orientanda de pós-doutorado e que atualmente trabalha com Caio no laboratório que
coordena, e Marcos outro orientando que é homossexual. Outra pessoa que Caio destaca é
Jaciara, uma técnica de laboratório que mantém um contato estreito com o casal, qual
inclusive aparece no Mapa de Rede Social de Régis no relacionamento de amizade.
Importante destacar que esses relacionamentos de trabalho mencionados
por Caio sabem explicitamente de sua relação conjugal com Régis e que são pessoas descritas
por Caio como tendo certa proximidade e que se sente a vontade para conversar sobre
questões de seu relacionamento.
114
Caio expressa que fora essas três pessoas que sabem abertamente sobre ele e
Régis, ele percebe que existe curiosidade de outros colaboradores saberem sobre sua relação,
às quais Caio não dá nenhuma oportunidade de aproximação. Diz Caio:
As pessoas tem sim curiosidade, No trabalho as pessoas comentam, agora é claro
que as pessoas sabem. Claro eu só não dou oportunidade para isso virar um
comentário maior, para isso não virar um comentário mais longo, claro que eu me
coloco: Eu sou profissional, aqui dentro eu sou funcionário e a minha vida
particular não está em jogo, não está em análise (Caio)”.
Em virtude da função profissional que ocupa Caio mantém uma postura de
reserva e evita maiores especulações sobre sua vida privada em seu ambiente de trabalho. O
participante acredita que dependendo da relação profissional, a revelação pode ser usada
como uma arma para prejudicar as pessoas e deixá-las expostas. Frente a isso Caio mantém-se
bastante cuidadoso nessas relações, principalmente porque percebe que a revelação nesse
contexto pode surgir como uma ameaça. Diz Caio que essa situação não aconteceu com ele,
porém já viu acontecer com outros colegas gays, em virtude da revelação.
Mesmo com essa cautela e proteção Caio estendeu a Régis os benefícios
oferecidos pela universidade extensivos aos companheiros, como seu plano de saúde e como
beneficiário de sua previdência em caso de falecimento.
O mundo do trabalho ainda aparece como um universo no qual poucos
homossexuais sentem a disposição de revelar sobre sua orientação sexual e conjugalidade.
Sabemos que algumas áreas de trabalho acabam atraindo gays e lésbicas, pois reproduz em
menor escala a hierarquia, o poder corporativista tradicionalmente dominada por homens
heterossexuais, sendo a Academia um dos espaços no qual os homossexuais encontram maior
liberdade para a realização de seu trabalho como no caso de Caio. Como afirmou Siqueira e
Zauli-Fellows (2006) a revelação no ambiente profissional causa muito medo e
constrangimento, pois existe uma forte tendência à discriminação, desprestígio e grande
possibilidade de prejuízo de carreira.
Régis freqüenta normalmente o laboratório onde trabalha o companheiro e
tem uma relação amistosa com vários colegas de trabalho de Caio. Inclusive Régis, em tom de
brincadeira diz que entra no laboratório de seu companheiro como se fosse a “primeira dama
do laboratório” (Sic Régis).
A percepção de Régis é que todos que trabalham com Caio sabem sobre a
relação conjugal de ambos e que o poder exercido pelo companheiro faz com que Régis sinta-
se à vontade para sentar-se à mesa de trabalho de Caio, usar seu computador, enfim utilizar a
115
sala de trabalho do companheiro sem pudor e constrangimento, pois acredita que as pessoas
não vão dizer nada a ele em virtude da posição, do status profissional do companheiro.
Mesmo sabendo dos cuidados de Caio quanto à revelação no ambiente de
trabalho para Régis continua valendo a sua regra de revelar a qualquer pessoa sua relação
conjugal, porém o participante conta que no ambiente de trabalho do companheiro as pessoas
nunca perguntam nada sobre essa questão. Régis ainda complementa que a única pessoa que
perguntou sobre os dois foi Jaciara, que hoje é grande amiga e confidente do casal.
A vivência de Caio e Régis quanto a pouca proximidade das relações
afetivas no contexto laboral corrobora com o que Lomando (2008) encontrou em sua pesquisa
sobre redes sociais e conjugalidade homossexual. Diz o pesquisador que o ambiente
profissional e de trabalho, além de não favorecer relações mais próximas e efetivas, inclui
competições, rivalidades e disputas que podem vir a restringir funções importantes da rede
social como o apoio emocional, a companhia social e a aceitação da orientação afetivo-sexual.
Atualmente Régis encontra-se sem trabalho formal. O participante acredita
que ainda não conseguiu se recolocar profissionalmente em virtude do grande problema que
viveu relacionado à sua separação e a crise que instalou em sua vida. Régis conta que com o
rompimento com sua rede social perdeu importantes contatos profissionais e que isso
atualmente lhe traz muitos prejuízos.
Parece-nos que no contexto que envolve a rede de relacionamento
profissional e a conjugalidade homossexual cabe a metáfora do “telhado de vidro” no qual o
sujeito homossexual sente-se exposto e precisa constantemente, como em outras áreas da
vida, avaliar as vantagens e desvantagens da revelação, pois o trabalho envolve
principalmente para o homem importantes aspectos de gênero prescritos socialmente.
116
5. Considerações Finais
117
Ao finalizarmos este estudo retomamos seu objetivo central que foi o de
compreender se o processo de revelação da homoconjugalidade reflete na construção da rede
social do casal e, conseguimos, por intermédio dele, compreender que os reflexos do processo
de revelação afetam a construção da rede social e afetam também a construção do próprio
casal enquanto uma díade dotada de identidade, desejos e pertencimentos próprios.
Vale salientar que a estratégia metodológica adotada, o estudo de caso, com
uma triangulação de instrumentos, a entrevista semiestruturada, o mapa da rede social e a
linha do tempo do casal, como utilizamos nos procedimentos efetuados, foram extremamente
úteis e enriquecedores para a coleta de informações para esta pesquisa, permitindo uma
diversidade e um aprendizado constante do processo de construção do conhecimento.
Na experiência clínica, como terapeuta familiar e de casal, atendendo casais
homossexuais, a demanda e as narrativas trazidas por esses clientes denunciam a questão da
visibilidade, da revelação como um problema e ou entraves para o casal.
Muito além de um ato político, este estudo mostrou que o processo de
revelação pode ser percebido também sob a lente das relações cotidianas, das micro-relações
nas quais transitam os casais, suas famílias de origem, relacionamentos profissionais, sociais,
comunitários etc., permitindo-nos compreender as tramas que se constitui em torno do revelar
sobre a homoconjugalidade para o casal homossexual, desafio proposto nesta empreitada.
Podemos concluir que o processo de revelação é fundamento inerente para
a construção de identidade homossexual, pois o desejo, a “personalidade” de alguém diz
respeito não somente a aspectos intrapsíquicos, mas a aspectos inter-relacionais e, no caso da
homossexualidade, os estereótipos, estigmas e conceitos presentes no imaginário social
ganham força capital para o desenvolvimento e vivência saudável desta orientação sexual.
Inserir a revelação no âmbito conjugal foi lidar com aspectos relacionados
às diferenças de significados para o casal sobre esse processo, os eventos importantes acerca
dessa informação e até a imprevisibilidade ocorrida com um dos participantes desta pesquisa
(Régis), sobre essa temática.
A comunicação da homoconjugalidade para a rede social mais ampla é
apenas a ponta de um iceberg que nos faz refletir sobre uma série de eventos que dão o
tempero para a construção e revelação da conjugalidade homossexual. Citaremos alguns que
apareceram nesta pesquisa e nos parecem importantes: significado de conjugalidade para a
díade, modelos de vinculação amorosa introjetado pelo casal, a decisão do casal de quem
participa ou não de sua rede social tendo como perspectiva a intimidade construída pela
revelação, transparência reserva ou privacidade nas relações afetivas, sejam elas horizontais
118
ou verticais, o tipo e a importância de vínculo e a relação com a atitude de revelar ou não a
homoconjugalidade.
Se o processo de revelação é apenas um entre muitos outros estressores do
casal homossexual, como vimos na parte teórica deste estudo elucidar essas questões
promove um debate rico no campo das escolhas amorosas e conjugais, marcando a
importância de conhecer características específicas de arranjos conjugais além do modelo
hegemônico heterossexual de conjugalidade e casamento, enfatizando como vimos nesse
estudo que não uma regra, um caminho único de como se deve proceder sobre o processo
revelação ou não. O processo e a decisão de revelar dependerão das histórias individuais da
cada membro da díade, das experiências positivas e dificuldades nesse processo, do contexto
em que o fenômeno acontece e da importância desse processo para o casal.
Outro ponto importante a destacar é que apesar das diferenças sobre a
revelação ou o da homoconjugalidade para a família de origem e se esse processo contribui
para a formação de identidade do casal homossexual, podemos entender como mostrou a
história de construção conjugal de Régis e Caio que revelar não é imprescindível ou condição
importante para a formação da conjugalidade, porém a atitude de parte da família de origem
de Caio ao “adotar” Régis como membro, e a percepção de pertencimento e acolhimento que
Régis sente em relação a algumas pessoas da família de origem do companheiro também nos
revela que, o apoio e incentivo da família de origem confere aos casais um lugar visível e de
pertença junto a esse grupo social.
Por intermédio deste estudo foi possível conhecer que a formação do casal
homossexual está diretamente ligada à maneira como o individuo se desenvolve enquanto
homossexual e, as histórias dos participantes desta pesquisa mostraram que não existe uma
única forma de se perceber e se aceitar homossexual. Apropriar-se desse desejo faz parte de
um processo, com avanços e recuos, medos, alegrias, rompimentos e reorganizações de vida.
Reconhecer-se como homossexual, aceitar-se e poder viver como
homossexual é uma etapa importante para a construção da conjugalidade. Grande parte do que
levamos para nossos casamentos são as crenças e os modelos que construímos no decorrer de
nossas vidas e a vivência a dois é um desafio constante de equacionar individualidade e
conjugalidade tendo em vista o que muito bem refere Féres-Carneiro (2009): o processo
conjugal é um processo de fascínios e desafios, pois trazem ao mesmo tempo em sua
dinâmica duas individualidades e uma conjugalidade.
Os conceitos que sustentaram nossa reflexão, a heteronormatividade, a
homofobia social e a internalizada, as redes sociais constituem território fértil para pensar as
119
características desses casais e aprimorar essa discussão no âmbito das ciências humanas e
sociais, sobretudo os aspectos psicológicos, em termos de possibilitar intervenções práticas e
terapêuticas para tais pessoas . Cabe destacar e enfatizar a importância dada às redes sociais
neste estudo. Tratar de temas que envolvem estigmas e preconceitos como é o casamento
homossexual, é conhecer o impacto, as crenças, o funcionamento dos sistemas sociais
conectados a esse fenômeno. Conhecendo o contexto e ampliando nosso olhar é que podemos
conhecer também os efeitos retroativos do mesmo na gama de significações, atitudes e
relacionamentos estruturados nas redes.
Além dos paradigmas científicos, outros segmentos sociais têm elucidado
questões relativas ao casamento homossexual, como o exemplo da mídia citado a seguir.
No momento em que escrevemos essas palavras finais o Jornal da Tarde em
sua edição de 16-02-2010 traz como manchete central: Gays garantem direitos de casal com
contrato de união. A matéria refere que enquanto homossexuais masculinos e femininos
aguardam uma legislação específica que garantam alguns direitos, o caminho é registrar em
cartório um pacto de convivência para assegurar o reconhecimento do relacionamento, o
direito à herança e à partilha de bens, tal qual foi realizado por Caio e Régis, participantes
deste estudo. A reportagem também mostra que segundo dados dos cartórios de notas de São
Paulo, 204 contratos de parceria entre homossexuais foram firmados em sete cartórios da
capital paulista entre 2008 e 2009. Apesar de ser em número pequeno, pensamos que fazer um
pacto de convivência protege a relação e isso tem levado os casais que percebem essa
vantagem, a saírem do armário e tornar mais visível suas conjugalidades.
Isso comprova que o debate está longe de se encerrar e que o mesmo vem
sendo realizado por diversos segmentos sociais como no campo do conhecimento científico,
dos movimentos e da militância política, dos direitos etc. corroborando com a afirmação de
Green (2004): na conjugalidade homossexual aspectos psicológicos e políticos são
inseparáveis; é difícil, impossível estabelecer um limite quando estudamos, trabalhamos ,
pesquisamos acerca desse fenômeno.
O preconceito sexual e a heteronormatividade relegam a conjugalidade
homossexual como sendo de segunda categoria, e isso faz com que essas pessoas sintam-se
excluídas e rechaçadas de seus direitos, enfraquecendo seu senso de pertencimento e de
espontaneidade de poderem expressar seus afetos e viverem de forma plena suas relações
conjugais.
É nesse panorama que esperamos ter contribuído para que os profissionais,
principalmente psicólogos clínicos ao atenderem casais homossexuais possam ter uma escuta
120
compreensiva e contextualizada, organizando estratégias de atendimento que, de fato,
contemplem estressores específicos vivenciados por esses casais.
Esperamos também que a discussão de questões como essas possam criar
outras formulações de problemas em torno desses eixos: conjugalidade, família, sexualidade e
motivem novas investigações científicas ampliando o campo de estudos com vistas à
promoção de saúde, suporte e apoio psicológico e social a indivíduos, casais e famílias em
toda a sua diversidade de arranjos e funcionamento.
121
6. Referências
122
Estas referências estão apresentadas segundo a norma da Associação Brasileira de
Normas e Técnicas ABNT NBR 6023: informação e documentação: referências:
elaboração. Rio de Janeiro, 2002.
ADELMAN, M. Paradoxos da Identidade: a política de orientação sexual no século XX.
Revista de Sociologia e Política, Curitiba, n. 14. p.163-171, jun 2000.
AINSWORTH, M.D.S. “Attachment beyond infancy”. American Psychologist v. 44, n.4 p.
709-716, 1989.
ANDERSON, H.; GOOLISHIAN, H. Human systems as linguistic system: preliminary
and envolving ideas about the implications for clinical theory. Family Process: 27, 1988.
p.371-393.
ARÁN, M.; CORRÊA, M. V. Sexualidade e Política na cultura contemporânea: o
reconhecimento social e jurídico do casal homossexual. PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio
de Janeiro, 14 (2): 329-341 2004.
ARIÈS, P. O casamento indissolúvel. In: ARIES, P.; BÈJIN, A. Sexualidades Ocidentais
Contribuições para a História e para a Sociologia da Sexualidade São Paulo: Brasiliense,
1985. p.163-182.
BATESON, G. Pasos hacia una ecologia de La mente. México : Ediciones Carlos Lohlé,
1976. 548 p. [orig. 1972].
BAUMAN, Z. Amor quido sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editora, 2003. 190 p.
BORRILLO, D. A Homofobia. In: LIONÇO, T.; DINIZ D. (orgs.) Homofobia e educação
um desafio ao silêncio. Brasília: Letras Livres: EdUnB, 2009, p. 15-46.
BOWLBY, J. Formação e rompimento dos laços afetivos. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
228 p. [orig.1979].
BRONFENBRENNER, U. A Ecologia do desenvolvimento humano: experimentos
naturais e planejados. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. 267p.
BROWN, L. S. ; ZIMMER, D. An introduction to therapy issues of lesbian and gay couples.
In: JACOBSON, N. S.; GURMAN, A. S. Clinical Handbook of Marital Therapy. New
York: Guilford Press, 1987, p.452-468.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2003. 236 p.
CANCISSU, C.R.P. Lésbicas, Família de origem e Família Escolhida: um estudo de caso.
2007.90f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) PUC-SP. , São Paulo, 2007.
123
CERVENY, C. M. O. A Família como Modelo Desconstruindo a patologia. Campinas:
Editora Livro Pleno, 2001.139 p.
CITELLI, T. A Pesquisa sobre sexualidade e Direitos Sexuais no Brasil (1990-2002):
Revisão Crítica. Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2005. 155 p.
CLUNIS, D.M.; GREEN, G.D. The lesbian parenting book: a guide to creating families
and raising children. New York: Seal Press, 2003. 406 p.
COELHO, S. V. Casamento: Mudanças que trazem mudanças. In: AUN, J. G.; COELHO, S.
V.; VASCONCELOS M. J.E. Atendimento Sistêmico de Famílias e Redes Sociais
Fundamentos Teóricos e Epistemológicos Belo Horizonte: Ophicina de Arte & Prosa, 2005
p.181-195.
CONNOLY, C. M. Clinical Issues with same-sex couples: A review of the literature In:
BIGNER, J. J.; WETCHLER, J. L. (Org.) Relationship Therapy with same-sex couples
Journal of Couple & Relationship Therapy, Volume 3, n. 2/3, p. 3-12, 2004.
CONTRA A HOMOFOBIA. Jornal de Psicologia CRP SP. São Paulo, n.155, p.9, mar-
abr. 2008.
COSTA, J. F. A Face e o verso: estudos sobre homoerotismo II.São Paulo: Editora Escuta,
1995. 303 p.
DABAS, E. N. Red de redes Las práticas de La intervención em redes sociales. Buenos
Aires: Paidós, 1993. 175 p.
DEFENDI, E. L. Casais homossexuais e suas famílias de origem :relato dos
casais.2006.162f. TCC (Especialização em Terapia Familiar e de casal)- COGEAE PUC-
SP, São Paulo, 2006.
DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. Introduction Entering the field of Qualitative Research.
In:. __________________(Org.). Handbook of Qualitative Research Thousand Oaks, CA:
Sage Publications, 1994, p 1-17.
DENZIN, N. K. ;LINCOLN, Y. S. A disciplina e a prática da pesquisa qualitativa. In:.
____________________(Org.). O Planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e
abordagens. Porto Alegre: Artes Médicas, 2006, p15-41.
DIHEL, A. O Homem e a nova mulher: novos padrões de conjugalidade. In: WAGNER, A.
(org.) Família em cena. Rio de Janeiro: Vozes, 2002. p 51-68.
ESTEVES DE VASCONCELOS, M. J. Pensamento Sistêmico o novo Paradigma da
Ciência. Campinas: Papirus Editora, 2002. 268 p.
ESTEVES DE VASCONCELOS, M. J. Pensamento Sistêmico: Uma visão nas Áreas da
Educação, da Saúde, das Empresas, da Ecologia, das Políticas Sociais, do Direito, das
Relações internacionais. In: AUN, J. ESTEVES DE VASCONCELOS, M. J. COELHO S.
(Orgs.) Atendimento Sistêmico de famílias e redes sociais Fundamentos Teóricos e
Epistemológicos. Volume 1 .Belo Horizonte: Ophicina de arte e prosa, 2005, p. 77-80.
124
FACCHINI, R. Sopa de letrinhas? Movimento homossexual e produção de identidades
coletivas nos anos 90. Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2005. 301 p.
FEIJÓ, M. R. Roupa suja se lava em casa? A importância da rede social no trabalho
psicoterapêutico. 2002.256f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). PUC, São Paulo,
2002.
FEIJÓ, M. R. Família e Rede Social. In: CERVENY, C. M. O. Família e… São Paulo: Casa
do Psicólogo, 2006, p.233-255.
FEIJÓ, M. R. A Família e os projetos sociais voltados para jovens: impacto e
participação. 2008.186f. Doutorado (Psicologia Clínica). PUC, São Paulo, 2008.
FÉRES-CARNEIRO, T. Casamento contemporâneo: construção da identidade conjugal. In :
FÉRES-CARNEIRO, T. (Org.). Casamento e família do social a clínica. Rio de Janeiro:
Nau, 2001, p.67-80.
FÈRES-CARNEIRO, T. Casamento Contemporâneo: o difícil convívio da individualidade
com a conjugalidade. Psicologia Reflexão e Crítica. . Porto Alegre. Vol.11, N.2, 1998,
p.379-394.
FÉRES-CARNEIRO, T; PONCIANO E. L. T.; MAGALHÃES A. S. Família e casal: da
tradição à modernidade. In: CEVERNY C. M. O. (Org.) Família em movimento. São Paulo:
Casa do Psicólogo, 2007, p.24-36.
FERRARI, A. Quem sou eu? Que lugar ocupo?” Grupos gays, educação e a construção
do sujeito homossexual. 2005.218f. Tese (Doutorado em Educação) Unicamp, Campinas,
2006.
FIGUEIRA, S. A. O “moderno” e o “arcaico” na nova família brasileira: notas sobre a
dimensão invisível da mudança social. In: FIGUEIRA, S. A. (Org). Uma nova família? O
moderno e o arcaico na família de classe média brasileira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1986, p.11-29.
GAYS GARANTEM DIREITOS DE CASAL COM CONTRATO DE UNIÃO. J T Jornal
da Tarde. São Paulo, Edição Capital, Ano 45, n. 14421 de 16-02-2010.
GIDDENS, A. Mundo em descontrole o que a globalização está fazendo de nós. Rio de
Janeiro: Record, 1999. 108 p.
GIDDENS, A. A transformação da Intimidade Sexualidade, Amor e Erotismo nas
Sociedades Modernas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993. 228 p.
GRANDESSO, M. A. Sobre a Reconstrução do significado: Uma análise epistemológica e
hermenêutica da prática clínica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000. 422 p.
GRANDESSO, M. A. Temas e Dilemas da vida a dois: Narrativas construídas a partir da
prática clínica. São Paulo: mimeo, 2002.
125
GRANDESSO, M. A. Famílias e narrativas: histórias, histórias e mais histórias. In:
CERVENY, C. M. O. (Org.) Família e… São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006, p.13-29.
GREEN, R-J; BETTINGER, M; ZACKS, E. Are lesbian couples fused and gay male couples
disengaged? In: LAIRD J.; GREEN, R-J (orgs.) Lesbian and gays in couples and families.
São Francisco: Jossey-Bass publishers, 1996, p.185-230.
GREEN, R-J. Why Ask, Why tell? Teaching and learning about Lesbians and Gays in
Family Therapy. Family Process: 35, 1996, p.389-400.
GREEN, R-J. “Lesbians, Gay men, and their parents”: A Critique of LaSala and the
prevailing clinical “wisdom” Family Process: 39, n. 2, 2000, p.257-266.
GREEN, R.-J. Foreword. In: BIGNER, J. J.; WETCHLER, J. L. (Org.) Relationship
Therapy with same-sex couples Journal of Couple & Relationship Therapy, Volume 3,
n. 2/3, 2004.
GROSSI, M. P. Gênero e parentesco: famílias gays e lésbicas no Brasil. Cadernos Pagu,
Campinas, vol.21, p. 261-280, 2003.
GONSORIEK, J. C. Gay male identities: concepts ad issues. In: D’AUGELLI, A. R.
PATTERSON, C. J. Lesbian, gay and bisexual identities over the lifespan Psychological
Perspectives. New York: Oxford University Press, 1995, p. 25-47.
GODFREY, K et al. Essential components of curricula for preparing therapists to work
effectively with lesbian, gay and bisexual clients: a Delphi Study. Journal of marital and
family therapy, vol. 32, n. 4, p. 491-504, 2006.
GOMES, R. C. Casais homossexuais In: OSÓRIO, L. C. VALLE, M. E. P. (Org.) Manual de
Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 2009, p.431-440.
GREENAN, D.; E TUNNELL, G.;. Couple Therapy with gay men. New York: Guilford
Press, 2003. 214 p.
GREENAN, D. E.; TUNNELL, G.; Clinical Issues with gay male couples. In: BIGNER, J. J.;
WETCHLER, J. L. (Org.) Relationship Therapy with same-sex couples Journal of
Couple & Relationship Therapy, Volume 3, n. 2/3, p. 13-26, 2004.
GUBA, E. G.; LINCOLN, Y. S. Competing Paradigms in Qualitative Research. In: DENZIN,
N. K.; LINCOLN, Y. S. (Org.). Handbook of Qualitative Research. Thousand Oaks, CA:
Sage Publications, 1994, p. 105-.128.
GWECMAN, E. Casamento gay - o Brasil nega 37 direitos aos homossexuais: receber
herança, somar rendas, ter dependentes... Isso está certo? Revista Super Interessante, São
Paulo, edição 202, julho 2004.
HANCOCK, K. A. Psychotherapy with lesbians and gay men. In: D’AUGELLI, A. R.
PATTERSON, C. J. Lesbian, gay and bisexual identities over the lifespan Psychological
Perspectives. New York: Oxford University Press, 1995, p. 399-432.
126
HEILBORN, M. L. Dois é par: gênero e identidade sexual em contexto igualitário. Rio de
Janeiro: Garamond, 2004. 217 p.
IMBER-BLACK, E. Os segredos na Família e na Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1994. 420 p.
IMBER-BLACK, E. La vida secreta de las famílias verdad, privacidad y reconciliacion
em uma sociedad del “dercilo todo”. Barcelona: Gedisa, 1999. 364p.
ISAY, R. A. Tornar-se gay o caminho da auto-aceitação.São Paulo:Edições GLS, 1998.
181p.
JUSTO, J. S. O “ficar” na adolescência e paradigmas de relacionamento amoroso da
contemporaneidade. Revista de Psicologia UFF, 2005 v 17 n.1, 61-77.
KOTLINSKI, K. et al. Legislação e Jurisprudência LGBTTT. Brasília: Letras Livres, 2007.
319 p.
KUBLIKOWSKI, I. A Identidade narrativa: o sujeito produzido/produtor de si.
Psicologia Revista, vol. 13, n.1, 2004, p. 11-30.
KUBLIKOWSKI, I. O Estudo de Caso como estratégia de pesquisa. Material didático da
disciplina “Seminário de Dissertação” do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia
Clínica da PUC_SP. Texto não publicado, 2007.
KVALE, S. Interviews: an introduction to qualitative research interviewing. Thousand
Oaks CA: Sage Publications , 1996. 94 p.
LaSALA, M.C. Lesbians, Gay men, and their parents: Family therapy for the coming-
out crisis Family Process: 39, 2000a, p.67-81a.
LaSALA, M.C. Gay male couples: the importance of coming out and being out to
parents. Journal of Homossexuality: 39, 2000b, p. 47-71b.
LONG, J. K. ; LINDSEY, E. The sexual orientation for supervision: a tool for traininig
therapists to work with same-sex couples. In: BIGNER, J. J.; WETCHLER, J. L. (Org.)
Relationship Therapy with same-sex couples Journal of Couple & Relationship
Therapy, Volume 3, n. 2/3, p. 123-135, 2004.
LOMANDO, E. Conjugalidade gay e lésbica e rede de apoio social. 2008. 89f. Dissertação
(Mestrado em Psicologia Social) Porto Alegre, PUC-RS, 2008.
LOPES, M. A. S. União civil e a Dessacralização da Família nuclear: Uma análise do
Projeto de Parceria Civil Registrada entre pessoas do mesmo sexo. Revista Urutaguá,
Maringá, n.5 dez-mar, p 1-21, 2005.
LOREA, R. A. Acesso ao casamento no Brasil: uma questão de cidadania sexual. Revistas
de Estudos Feministas, Florianópolis, vol.14 n. 2, p. 488-496, mai-ago, 2006.
127
LOURO, G. L. Teoria queer uma política pós-identitária para a educação. Revista de
Estudos Feministas.Florianópolis, vol.9, n.2 p.541-553, 2001.
LOURO, G. L. Os estudos feministas, os estudos gays e lésbicos e a teoria queer como
políticas de conhecimento. In: LOPES, D. (Org.) Imagem e Diversidade Sexual Estudos
da Homocultura. São Paulo: Nojosa Ed., 2004, p.24-28.
MACEDO, R. M. S. A Família do ponto de vista psicológico: Lugar seguro para crescer?
Cadernos de Pesquisa Fundação Getúlio Vargas. São Paulo, n.91, 1994, p.62-68.
MACEDO, R. M. S. Diversidade Cultural: desafio para o terapeuta familiar. In:
GRANDESSO, M.(Org.). Terapia e Justiça social: respostas éticas a questões de dor em
terapia. São Paulo: APTF, 2001, p.41-48.
MACEDO, R. M. S. Psicologia Clínica: uma conceituação. Jornal do Psicólogo. Jul-Ago,
2004, p.3.
MACEDO, R.M. S. Macho, Fêmea, Homem, Mulher, Feminilidade, Masculinidade...questões
de Gênero. In: SECURATO, S. B.(Org). Nós, mulheres, desafios e conquistas dos novos
tempos. São Paulo: Oficina do Livro, 2004, vol.3 p.39-50.
MACEDO, R. M. S. Sexualidade e Gênero. In: HORTA, A. L. M. FEIJÓ, M. R. (Org.)
Sexualidade na Família.São Paulo: Expressão e Arte Editora, 2007, p.20-30.
MACEDO, R. M. S. Questões de gênero na terapia de família e casal. In: OSÓRIO, L. C.
VALLE, M. E. P. (Org.) Manual de Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 2009,
p.58-73.
MACIEL JUNIOR, P. Tornar-se homem: o projeto masculino na perspectiva de gênero.
2006.192f. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) PUC, São Paulo, 2006.
MACIEL JUNIOR, P.; SOUZA R. M. Homem entrevista homem, mulher entrevista
homem: questões de gênero nos procedimentos de pesquisa. In: Fazendo Gênero 8 corpo,
violência e poder, Florianópolis, 2008.
MARRA, C.; FEIJÓ, M. Mapa das redes culturais: um instrumento para o trabalho com
famílias e casais em contexto de migração. Família e Comunidade, São Paulo, vol.1 n.2, p.
27-42, novembro 2004.
MARTINS, G. A. Estudo de caso: uma estratégia de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2006.
101 p.
MATOS, M. S.; FÉRES-CARNEIRO, T; JABLONSKI, B. Adolescência e relações
amorosas: um estudo sobre jovens das camadas populares. Interação, 2005 ,v. 22 n. 133-
141.
MATURAMA, H. R. Ontologia del conversar. Sistemas Familiares, Buenos Aires, Ano 6, n.
2 p 43-53, ago 1990.
128
MATTISON, A. M.; McWHIRTER, D.P. Male couples: The beginning years. Journal of
social work and human sexuality, n. 5, vol. 2, p.67-78, 1987.
MATTISON, A. M.; McWHIRTER, D.P. Male couples. In CABAJ, R.P.; STEIN T.S. (org)
Textbook of homosexuality and mental health. Washington: American Psychiatric press,
1996, p.319-337.
MACRAE, E. Em defesa do Gueto. In: GREEN, J. N. TRINDADE R. (Org.)
Homossexualismo em São Paulo e outros escritos. São Paulo: Editora da Unesp, 2005, p.
291-308.
McGOLDRICK, M. A União das famílias através do casamento: o novo casal In: CARTER,
B. ; McGOLDRICK, M. (Orgs.). As mudanças no ciclo de vida familiar uma estrutura
para terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995, p.184-205.
MELLO, L Novas famílias: conjugalidade homossexual no Brasil contemporâneo. Rio de
Janeiro:Editora Garamond, 2005a. 232 p.
MELLO, L. Outras Famílias: A construção social da conjugalidade homossexual no
Brasil. Cadernos Pagu, Campinas, vol. 24, p.197-225, jan. jun. 2005b.
MELLO, L. Familismo (anti) homossexual e regulação de cidadania no Brasil. Revista de
Estudos Feministas, Florianópolis, vol.14, n. 2 maio-agosto p. 497-508, 2006.
MENESES, M. P. R.; SARRIERA, J. C. Redes sociais na investigação psicossocial.
Aletheia, Canoas, vol.21, p.53-67, jan.-jun. 2005.
MISKOLCI, R. Pânicos morais e controle social reflexões sobre o casamento gay.
Cadernos Pagu, Campinas, vol.28, p. 101-128, jan.-jun 2007.
MINISTÉRIO DA SAÚDE - SECRETARIA ESPECIAL DE DIREITOS HUMANOS. Brasil
sem homofobia Programa de combate a violência e a discriminação contra GLBT e
promoção de saúde da cidadania homossexual. Brasília: 2004, 31p.
MINUCHIM, S. Famílias funcionamento e tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.
238 p.
MODESTO, E. Mãe sempre sabe? Mitos e verdades sobre pais e seus filhos homossexuais
Rio de Janeiro: Editora Record, 2008. 334 p.
MORIS, V. Preciso te contar? Paternidade homoafetiva e revelação para os filhos.
2008.205f. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) PUC, São Paulo, 2008.
MORIS, V; DEFENDI, E.; ROSSI. M. Revelação da homossexualidade e suporte na
internet. In: XI Congresso Brasileiro de Sexualidade Humana 2007, Recife, Anais do XI
Congresso Brasileiro de Sexualidade Humana Recife, 2007, p.57.
MOSCHETA, M. S. Construindo a diferença: a intimidade conjugal em casais de homens
homossexuais. 2004.145f. Dissertação (Mestrado em Ciências: Psicologia) Faculdade de
Ciências e Letras USP, Ribeirão Preto, 2004.
129
MOTT, L. Violação de direitos humanos e assassinato de homossexuais no Brasil.
Salvador: Ed. Grupo Gay da Bahia, 2000. 118 p.
MOTT, L. CERQUEIRA, M. Causa Mortis: Homofobia. Salvador: Ed. Grupo Gay da
Bahia, 2001. 166 p.
MOTT, L. Homo-afetividade e direitos humanos. Revista de Estudos Feministas,
Florianópolis, vol.14, n. 2 maio-agosto p.509-521, 2006.
NAJMANOVICH, D. El lenguaje de los vínculos. De la independencia absoluta a la
autonomia relativa In: DABAS, E. NAJMANOVICH, D. (Orgs.). Redes el lenguaje de los
vínculos. Buenos Aires: Paidós, 1995, p.33-76.
NODA, F. S. Famílias de mães homossexuais: relato das mães. 2005.178f. Dissertação
(Mestrado em Psicologia Clínica). PUC São Paulo, 2005.
NORGREN, M. B. P Para o que der e vier? Estudos sobre casamento de longa duração.
2002. 185f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). PUC- São Paulo, 2002.
NORGREN, M.B.; SOUZA, R.M.; KASLOW F. et. al. Satisfação conjugal em casamentos
de longa duração:uma construção possível. Estudos de Psicologia, 2004 9(3), 575-584.
NUNAN, A. Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo. Rio de Janeiro:
Caravansarai, 2003. 360 p.
NUNAN, A. Influência do preconceito internalizado na conjugalidade homossexual
masculina. In: GROSSI, M.; UZIEL, A.P.; MELLO, L. (Org.). Conjugalidades,
parentalidades e identidades lésbicas, gays e travestis. Rio de Janeiro: Garamond, 2007a,
p. 47-67.
NUNAN, A Homossexualidade e discriminação: o preconceito sexual internalizado.
2007. 390 f. Tese (Doutorado em Psicologia). PUC Rio de Janeiro, 2007b.
ORIENTAÇÃO SEXUAL E QUESTÕES DE GÊNERO. A REGRA É CLARA. Jornal de
Psicologia CRP SP. São Paulo, n.156, p.9, mai-jun 2008.
OSWALD, R. F. ; BLUME, L.B. ; MARKS S.R. Decentering heteronormativity: a model
for families studies. In: BERGSTON et al. (Eds). Sourcebook of family theory and
research. New York: Sage Publications . 2005, p. 143-165.
PAIVA, A. C. S. Reserva e Invisibilidade: A construção da homoconjugalidade numa
perspectiva micropolítica. In: GROSSI, M.; UZIEL A.P.; MELLO, L. (Orgs.).
Conjugalidades, Parentalidades e Identidades Lésbicas, Gays e Travestis. Rio de Janeiro:
Garamond, 2007, p.23-46.
PATTERSON, D.G.; CIABATTARI, T. ; SCHWARTZ, P. The constraints of innovation:
commitment and stability among same-sex couples. In: ADAMS, J.M. e JONES, W.H. (org.)
Handbook of interpersonal commitment and relationship stability. New York : Kluwer
Academic/Plenum Publishers, 1999, 536p.
130
PATTON, M. Q. Qualitative Research & Evalution Methods. Thousand Oaks, CA: Sage
publications, 2002. 598p.
PEDROSA, J. B. Segundo desejo. São Paulo: Iglu Editora, 2006. 136p.
PINHEIRO, O. G. Entrevista: uma prática discursiva In: SPINK, M. J. (Org.). Práticas
Discursivas e produção de sentidos no cotidiano aproximações teóricas e
metodológicas. São Paulo: Cortez Editora, 2004, p.183-214.
PRADO, A. E. F. A. Família em trânsito tecendo redes sociais. 2006. 166f. Dissertação
(Mestrado em Psicologia Clínica). PUC - São Paulo, 2006.
RIESENFELD, R. Papai, mamãe, sou gay! Um guia para compreender a orientação
sexual dos filhos. São Paulo: Edições GLS, 2002. 217p.
ROSTOSKY, S. S. et. al. Same-sex couples perceptions of family support: a consensual
qualitative study. Family Process: 43 n. 1, 2004, p. 43-57.
ROUDINESCO, E. A Família em desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora,
2003.199p.
SALOMÉ, G. M., ESPÓSITO, V. H. C.; HORTA, A. L. M. O significado de família para
casais homossexuais. Brasília: Rev.Bras. de enfermagem, vol. 60, n.5 set./out 2007.
SAMARA, E. M. O que mudou na família brasileira? (Da colônia a atualidade). São
Paulo: Psicologia USP., vol.13, n.2, 2002.
SAMARA, E. M. A família brasileira. São Paulo: Brasiliense, 2004.89p.
SANDERS, G. L. O Amor que ousa declarar seu nome: Do Segredo a Revelação nas
afiliações de gays e lésbicas. In: IMBER-BLACK E. (Org.). Os Segredos na família e na
Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994, p.219-244.
SANDERS, G. L. Homens Juntos: O Trabalho com casais gays na atualidade. In:PAPP, P.
(Org.). Casais em Perigo Novas Diretrizes para Terapeutas. Porto Alegre : Artes
Médicas, 2002, p.235-267.
SANT’ ANNA, M. S. A Influência dos padrões sexuais e afetivos de gênero na
construção dos relacionamentos do mesmo sexo: masculino. 2002.169f. Dissertação
(Mestrado em Psicologia Clínica) PUC-SP. , São Paulo, 2002.
SANT’ ANNA, M. S.; DASPET C. “O pote de ouro no final do arco-íris” casais e famílias
homossexuais. In: HORTA, A. L. M. FEIJÓ, M. R. (Org.) Sexualidade na Família. São
Paulo: Expressão e Arte Editora, 2007, p.161-174.
SANTOS, G. G. C. Estado, projetos políticos e trajetórias individuais: um estudo com as
lideranças individuais homossexuais na cidade de São Paulo. 2006.145f. Dissertação
(Mestrado em Ciência Política) Unicamp, Campinas, 2006.
131
SARTI, C. A. Famílias enredadas, In: ACOSTA A. R.; VITALLE, M. A. F. Família Redes
Laços e Políticas Públicas. São Paulo: Cortez Editora, 2008, p.21-36.
SAVIN-WILLIANS, R. C. Self-labeling and disclosure among gay, lesbian, and bisexual
youths. In:LAIRD J.; GREEN, R. J.(Orgs.) Lesbians and gays in couples and families a
handbook for therapists. San Francisco:Jossey-Bass Inc.,1996, p. 153-182.
SAVIN-WILLIANS, R. C. Mom, Dad. I’m a gay. How families negotiate coming-
out.Washington:American Psychological Association, 2001. 276 p.
SCHALGER, N. Gay and Lesbian Almanac. Detroit: St.James Press, 1998. 145p.
SCHNITMAN, D. F. Redes y sistemas. Família e Comunidade, São Paulo, vol.3 n.1, p. 1-20,
junho 2006.
SEDGWICK, E. K. A Epistemologia do armário. Cadernos Pagu (28), Campinas, janeiro-
junho 2007, p. 47-67.
SIQUEIRA, M. V. S; ZAULI-FELLOWS, A. Diversidade e identidade gay nas
organizações. Gestão.org número especial IV EnEO, n. 3, v. 4, nov-dez 2006, p.70-81.
SILVA, S. G. Sujeitos de Direitos X Sujeitos de Deveres. In: Psicologia Ciência e Profissão
Diálogos Direitos Humanos Subjetividade e Inclusão. Brasília, Ano 2, n.2, p.56-57,
2005.
SIMÕES, J. F. Antes do sim: rituais, celebrações e práticas de transições pré-nupciais.
2007. 86f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). PUC- São Paulo, 2007.
SIMÕES, J. S. Homossexualidade Masculina e Curso de vida: Pensando idades e identidades
sexuais. In: PISCITELLI, A.; GREGORI, M. F.; CARRARA, S. (Org.). Sexualidade e
Saberes: Convenções e Fronteiras. Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2004, p.415-447.
SIMÕES, J. S.; FRANÇA, I. L. Do “gueto” ao mercado. In: GREEN, J. N. TRINDADE R.
(Org.) Homossexualismo em São Paulo e outros escritos. São Paulo: Editora da Unesp,
2005, p. 309-336.
SLUZKI, C. E. Disrupcion de la red y reconstruccion de la red en el processo de
migración. Sistemas Familiares, Buenos Aires, Ano 6, n. 2 p 67-71, ago 1990.
SLUZKI, C. E. A rede social na prática sistêmica alternativas terapêuticas. São Paulo:
Casa do Psicólogo, 1997. 145 p.
SOUZA, R. M.; RAMIREZ, V. R. R. Amor, casamento, família, divórcio...e depois,
segundo as crianças.São Paulo: Summus, 2006. 238 p.
SOUZA, R. M. Configurações Plurais. São Paulo: Revista Viver Mente e Cérebro Especial,
volume 167, p.15-22, 2006.
SPENCER, C. Homossexualidade uma História. Rio de Janeiro: Editora Record, 1996.
417 p.
132
STAKE, R. E. Case Studies. In: DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (Org.). Handbook of
Qualitative Research. Thousand Oaks, CA: Sage Publications, 1994, p.236-247.
TREVISAN, J. S. Devassos no Paraíso A Homossexualidade no Brasil, da colônia à
atualidade. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000. 586 p.
TREVISAN, J. S. O vírus, nosso irmão In:_______. Devassos no Paraíso A
Homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro: Editora Record,
2000. 515-519 p. Publicado originalmente na Revista Sui Generis, n. 28, 1997.
TURATO, E. R. Tratado da metodologia da pesquisa clínico-qualitativa. Petrópolis:
Editora Vozes, 2003. 688 p.
UZIEL A.P. MELLO, L.; GROSSI, Dossiê Conjugalidades e Parentalidades de gays,
lésbicas e transgêneros no Brasil. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, vol.14, n. 2
maio-agosto p. 481-487, 2006.
VAINFAS, R. Casamento, amor e desejo no Ocidente Cristão. São Paulo: Editora Ática,
1986. 94 p.
VAITSMAN, J. Indivíduo, casamento e família em circunstâncias pós-modernas. Rio de
Janeiro: Dados Revista de Ciências Sociais. Vol.38, n.2, p.329-353, 1995.
VAITSMAN, J. Flexíveis e Plurais: identidade, casamento e família em circunstâncias
pós-modernas. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. 203 p.
VON-SMIGAY, K. E. Sexismo, homofobia e outras expressões correlatas de violência:
desafios para a psicologia política. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, vol. 8 n. 11,
p.32-46, jun. 2002.
WEISNTOCK, J. S. Lesbian, gay, bisexual and transgender friendships in adulthood: review
and analysis. In: D’AUGELLI, A. R. PATTERSON, C. J. Lesbian, gay and bisexual
identities in families Psychological Perspectives. New York: Oxford University Press,
1998, p. 122-153.
WHITE, M. Prática Narrativa, Terapia de casal e dissolução de conflito. Pensando
famílias, n.7 (9), Nov 2005, p. 11-47.
INTERNET:
ARRAIS, A. Empresas estendem benefícios a casais do mesmo sexo. Disponível em:
http://g1.globo.com/Noticias/Concursos_Empregos/0,,MUL418217-9654,00-
EMPRESAS+ESTENDEM+BENEFICIOS+A+CASAIS+DO+MESMO+SEXO.html. Acesso
em: 05 mai 2009.
CALENDÁRIO das Paradas Gays 2008. Disponível em
http://glsplanet.terra.com.br/pride/progpar2008.shtml Acesso em: 10 abr. 09
133
CENSO do IBGE vai contar casais homossexuais. Disponível em:
http://www.cinform.com.br/noticias/38057. Acesso em: 16 mar. 09.
CHEFE, sou gay. Disponível em http://www.armariox.com.br/conteudos/artigos/014-
chefesougay.php Acesso em: 05 mai de 2009.
CONSELHO Federal de Psicologia Estabelece normas de atuação para psicólogos em
relação à orientação sexual. Resolução 001/99 de 22/03/1999. Disponível em
www.pol.org.br/legislação/doc/resolucao1999. Acesso em: 11 fev. 2006.
FÉRES-CARNEIRO, T. Conjugalidades contemporâneas: um estudo sobre os múltiplos
arranjos conjugais na atualidade. Disponível em:
htpp://www.fundamentalpsychopathology.org/org/pesquisas/pesq_feres-carneiro.pdf. Acesso
em: 09 nov. 2009.
IBGE diz que existem 17 mil casais do mesmo sexo em cidades menos populosas. Disponível.
em <http://gonline.uol.com.br/site/arquivos/estatico/gnews/gnews_noticia_20218.htm>
Acesso em : 16 mar. 09.
TREVISAN, J. S. A obsessão homossexual da igreja católica. Disponível em
<www.gonline.uol.com.br/magazine/olho/edicao73/73>. Acesso em: 11 fev.2006.
VEJA países que legalizaram a união homossexual. Disponível em
http://www1.folha.uol.com.br/folha/turismo/noticias/ult338u5119.shtml. Acesso em: 26 abr.
2009.
SITES:
www.abglt.org.br
www.ggb.org.br
http://glsplanet.terra.com.br
www.apadivision44.org.br
www.armariox.com.br
www.mixbrasil.com.br
www.corsa.org.br
www.cinform.com.br
http://gonline.uol.com.br
134
7. APÊNDICE
135
Apêndice A- Legislação no mundo
Tabela 3: Países que promulgaram ou possuem legislação especifica que contemplam a
Parceria civil entre homossexuais no mundo.
PAÍS
Ano da Promulgação
CARACTERÍSTICAS DO PROJETO
Dinamarca (1989)
Foi o primeiro país do mundo que autorizou, no dia
de outubro de 1989, a parceria civil entre
homossexuais. Concede-lhes os mesmos direitos que
os heterossexuais na conjugalidade Em 2009 foi
aprovada a lei que permite adoção.
Noruega (1993)
Suécia (1994)
Islândia (1996)
Finlândia (2002)
Nestes países, a lei garante aos casais homossexuais os
mesmos direitos jurídicos e sociais dos heterossexuais
casados. A adoção é possível na Suécia desde fevereiro
de 2003.
Holanda (2002)
O Senado aprovou uma lei autorizando a união civil
homossexual e o direito de casais do mesmo sexo
adotar crianças, contanto que sejam de nacionalidade
holandesa.
Bélgica (2003)
A lei que autoriza os matrimônios entre homossexuais
entrou em vigor no dia de junho de 2003. Desde
fevereiro de 2004, é aplicada aos estrangeiros. Para
que uma união seja válida, basta que um dos dois
cônjuges seja belga ou resida na Bélgica. Os casais
homossexuais têm os mesmos direitos dos
heterossexuais, especialmente em matéria de herança e
de patrimônio, mas não podem adotar crianças.
Canadá (2005)
A Câmara dos Comuns de Ottawa aprovou em 28 de
junho um projeto de lei que autoriza o casamento entre
pessoas do mesmo sexo e lhes concede o direito de
adotar. Agora, este texto deverá ser ratificado pelo
Senado, uma formalidade que ocorrerá antes do final
de julho. Antes desta lei federal ser adotada, a maioria
das províncias canadenses autorizava a união entre
homossexuais.
136
PAÍS
Ano da Promulgação
CARACTERÍSTICAS DO PROJETO
França (1999)
Em outubro de 1999, a França aprovou um texto que
caráter legal a pessoas que vivem juntas que não
consolidaram o matrimônio, incluindo os
homossexuais: o Pacto Civil de Solidariedade (PACS).
As pessoas que firmarem esse pacto podem se
beneficiar de algumas das medidas fiscais e sociais das
casadas, sobretudo em relação à herança. Os solteiros
têm direito a adotar, mas não os casais homossexuais.
O prefeito de Bègles, sudoeste da França, Noel
Mamere, aprovou em junho de 2004 um casamento
homossexual, que foi anulado um mês depois pela
Justiça.
Portugal (2001)
A legislação portuguesa reconhece desde 2001 a união
entre pessoas que vivem juntas dois anos,
independentemente de seu sexo, e determinados
direitos, principalmente, fiscais. A adoção não é
autorizada.
Alemanha (2001)
O casamento homossexual que entrou em vigor no dia
de agosto de 2001 concede direitos similares aos do
matrimônio comum, como a possibilidade de adotar o
sobrenome do outro. Também em termos de herança,
de patrimônio, de seguros de saúde ou desemprego.
Porém, não concede direitos fiscais e não permite a
adoção.
Grã-Bretanha (2004)
Em dezembro de 2004 entrou em vigor uma lei que
oferece aos casais homossexuais a possibilidade de
formar uma "associação civil". O parlamento aprovou
em novembro de 2002 uma lei autorizando aos casais
de homossexuais a adotar crianças.
Cróacia (2003)
Em meados de julho de 2003, o Parlamento adotou
uma lei que concede aos casais homossexuais os
mesmos direitos daqueles formados por sexos opostos.
Nova Zelândia (2004)
Em dezembro de 2004, o Parlamento neozelandês
adotou uma controvertida legislação que outorga aos
casais homossexuais que oficializaram sua união, os
mesmos direitos que os casais heterossexuais. No
entanto, o matrimônio continua sendo definido como a
união entre o homem e a mulher.
137
PAÍS
Ano da Promulgação
CARACTERÍSTICAS DO PROJETO
Suíça (2005)
No dia 5 de junho, os suíços adotaram em referendo
um projeto de "associação registrada" para casais
homossexuais, que o parlamento havia adotado. Se
inspira no direito matrimonial, mas é diferenciado do
matrimônio, pois exclui a adoção e a procriação
médica assistida.
EUA (2004)
Somente em um Estado, Massachusetts (nordeste), é
autorizada desde 2004 o casamento entre casais
homossexuais. Vermont e Connecticut (nordeste)
reconhecem as uniões civis e concedem aos
homossexuais alguns direitos similares aos dos casais
heterossexuais.
Em 2004, na Califórnia (oeste) e em Oregon
(noroeste), foram celebrados casamentos
homossexuais, que geraram grande polêmica, antes de
serem anulados pela Justiça.
Argentina (2003)
Desde maio de 2003, o governo da cidade de Buenos
Aires, autorizou às uniões civis de casais
homossexuais, fazendo desta cidade a primeira da
América Latina a igualar os direitos entre casais de
gays e lésbicas e casais heterossexuais.
Uruguai (2007)
Em 18/12/2003 o Congresso e Senado do país
aprovaram a união civil entre casais homossexuais. A
lei uruguaia é a primeira de alcance nacional na
América Latina.
Fontes: http://www1.folha.uol.com.br/folha/turismo/noticias/ult338u5119.shtml , Lopes
(2005) e Manual de Comunicação LGBT disponível em www.abglt.org.br, 2010.
138
8. ANEXOS
139
ANEXO A Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Comitê de Ética em Pesquisa
Título da Pesquisa: Conjugalidade Homossexual Masculina e Redes Sociais: os dilemas
no processo de revelação (título provisório).
O presente trabalho está sendo realizado pelo Psicólogo Edson Luiz Defendi CRP 39028-6
residente a Rua Estado de Israel, 203 Ap.4 São Paulo SP. Tel. 11 95888448, como
requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Psicologia Clínica na PUC/SP, sob a
orientação da Profa. Dra. Rosa Maria Stefanini Macedo.
Seguindo os preceitos éticos, informamos que sua participação será absolutamente sigilosa,
não constando informações que possa identificá-lo em qualquer publicação posterior sobre
esta pesquisa. Pela natureza da pesquisa e seus procedimentos, a mesma é de baixo risco e
não acarretará prejuízos a sua pessoa, trazendo benefícios ao investigar o tema em pauta
TEMA DA PESQUISA: Conjugalidade homossexual masculina, redes sociais e
revelação/segredo.
OBJETIVO: Conhecer a rede social e compreender a dinâmica do processo de
revelação/segredo de casais homossexuais masculinos por meio de depoimentos e relatos dos
casais.
PROCEDIMENTO: Aplicação de entrevistas semiestruturadas com os casais.
Após a conclusão do trabalho as informações serão utilizadas para a elaboração de dissertação
de mestrado no curso supracitado ou em outras publicações científicas da área, estando essas
informações acessíveis para os participantes com o próprio pesquisador. Solicitamos também
sua autorização para a gravação das entrevistas.
Você tem total liberdade para interromper a sua participação, retirando seu consentimento
sem qualquer penalização ou prejuízo a sua pessoa.
Agradecemos imensamente sua participação.
Edson Luiz Defendi
Psicólogo CRP 39028-6
Tendo ciência das informações contidas neste Termo de Consentimento,
eu________________________________________________, portador do RG.___________
Autorizo a utilização dos dados por mim fornecidos.
Data:___________________________________
Assinatura:_______________________________
140
ANEXO B Carta de aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da PUC
141
ANEXO C Linha do tempo do Casal
Linha do Tempo - Casal Régis e Caio
2003 Primeiro contato internet
2003 Primeiro encontro aniversário do Caio / Início do namoro
2005 Caio - Mudança de apartamento
2006 Processo de divórcio Régis rompimento com Família de origem
2006 - Régis e Caio passam a viver juntos, coabitam
2007 - Convivência Caio e filhos de Régis
2009 Assinatura do contrato de parceira civil, comemoração para legitimação da
relação
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo