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Para Paulo o Espírito nos inicia sacramentalmente em uma participação real na
carne pneumatizada de Jesus Cristo. A descida da água, seguida da saída simboliza o
co-sepultamento (cf. Rm 6,5) e a co-ressurreição (cf. Ef 2,6) em Cristo. O homem velho
morre e o homem novo renasce, além da metáfora de uma conversão moral, um homem
ontologicamente diferente (cf. Rm 6, 1-11). A nova vida que nasce é uma vida de fé,
amor e esperança (virtudes teologais) em meio às crises da vida e as tensões da
existência. Então, pela ação do Espírito brota a primeira realidade: a “santidade”.
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A espiritualidade paulina baseia-se na fé, não é individualista e isolada, para
Paulo ninguém vive para si, ele foi um “homem da Igreja”, fortemente comprometido
com a aclesialidade da fé, por isso sua espiritualidade é koinonia
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. Os cristãos estão
constituídos no corpo único de Cristo, mediante a participação comum no único
Espírito. Cada um tem suas responsabilidades, mas o princípio fundamental da nossa
união com Cristo ressuscitado nos reúne num só corpo, a Igreja. É necessariamente
eclesial, pois o crente não pode viver sozinho, sem os outros, a sua união a Cristo. Os
dons são para todo o corpo, os carismas para solidificar a unidade e organicidade da sua
ação (cf. Rm 12; 1Cor 12; Cl 2,9-19; Ef 4, 15ss).
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O que mantém a koinonia é a amor
(cf. 1Cor13) que tem no ágape e na ceia eucarística seus momentos de ápice. Por meio
do espírito de comunhão, Paulo compreende que, da mesma forma que Jesus torna
visível o Deus misterioso, a Igreja, de forma sacramental e existencial, também se torna
no seu cotidiano presente em Cristo e, pelo anúncio do Evangelho, comunica ao mundo
o desígnio salvífico de Deus.
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A espiritualidade joanina é tão característica quanto pouco clara. Não apresenta
angulações bem definidas como Paulo, a ética do cotidiano dos sinóticos, ou a inserção
na linha histórico-escatológica dos Atos. É uma “mística” da transcendência do
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CAVALCANTE, Ronaldo. Espiritualidade cristã na história: das origens até santo Agostinho, p. 81-
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O termo koinonia, em sua afinidade com os vocábulos comunidade, solidariedade e comunhão,
indispensável para o entendimento das comunidades de base, do ecumenismo das Igreja, da renovação da
vida religiosa e do mistério da eucaristia. [...] O termo neotestamentário [...] equivale ao fundamento da
comunidade cristã, que não partilha só interesses e necessidades (ao modo grego) ou que se baseia em
um pacto, dada a distância infinita entre Deus e o homem (ao modo hebraico), mas se concentra em uma
relação de intimidade com Deus, realizada em Jesus Cristo pelo dom do Espírito. [...] O aspecto dinâmico
da koinonia é expresso pela formula “participar ativamente”, o que equivale a partilhar com os irmãos a
mesa comum (a comida), os bens (ou a comunicação dos mesmos), a fé apostólica (fé na esperança), os
sofrimentos (ajuda fraterna), e a unanimidade (comunhão no mesmo espírito). (Cf. SAMANES, Casiano
Flotistán. Comunhão. In: SAMANES, Cassiano Floristán; TAMAYO-ACOSTA, Juan-José. Dicionário
de conceitos fundamentais do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1999, p. 101)
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GRECH, Prosper. Experiência espiritual bíblica: novo testamento. In: GOFFI, Tullo; SECONDIN,
Bruno. Problemas e Perspectivas de Espiritualidade. São Paulo: Loyola, 1992, p 60.
106
CAVALCANTE, Ronaldo. Espiritualidade cristã na história: das origens até santo Agostinho, p. 88.