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nacionalizadoras, que controlavam a entrada, a permanência e a organização dos
estrangeiros no país:
176
A campanha de nacionalização fora mais repressiva do que educativa. Seus
idealizadores viam na pluralidade étnica uma ameaça para a formação da
nacionalidade brasileira, devendo ser eliminada. O grande problema girava
em torno de definir quem era o brasileiro, pois, de modo mais amplo, essa
denominação englobava tanto o estrangeiro residente como os brasileiros
naturalizados e os brasileiros de nascimento. Em nome da proteção dos
valores nacionais, então, todo estrangeiro passou a ser tratado como um
infrator em potencial.
177
Essa primeira etapa da repressão deve ser interpretada sob a ótica do
nacionalismo e da xenofobia de um Estado autoritário que, por meio de legislação
especifica, legitimou medidas de cunho racial e xenófoba. A campanha de
nacionalização adotada pelo governo estadonovista associava-se ao projeto de Vargas
de restringir as atividades estrangeiras consideradas nocivas à construção da brasilidade.
Objetivava-se atingir a unidade nacional, por meio da integração dos imigrantes e
descentes, mesmo que para tanto fosse preciso recorrer a praticas repressivas.
A perseguição à colônia alemã, simpatizantes e agentes do nazismo deu-se nos
anos de 1942 a 1945, momento em que o Brasil posicionou-se contra os países do
Eixo.
178
Contudo, sob a influência americana,
179
a idéia de “perigo alemão” exarcebou-
se via veiculação de notícias em panfletos anônimos, que alertavam a população
brasileira sobre o perigo que colônias alemãs representavam para a integridade
territorial brasileira, pois, segundo se argumentava, tal a comunidade estaria em plena
articulação com o III Reich, com o objetivo de concretizar a anexação dos estados do
Sul do Brasil:
180
Apesar da discussão em torno da veracidade do “perigo alemão”, percebemos
que essa idéia era, constantemente, vinculada na imprensa brasileira e sul-
americana. Aparecia, também, como uma preocupação nos discursos das
autoridades brasileiras, além de circular sob a forma de livros acadêmicos e
panfletos (...). Sob a influência ou não dos Estados Unidos, tais notícias
companhias ou clubes de qualquer caráter, ainda que tivessem por fim a propaganda ou a difusão de
quaisquer ideais entre seus compatriotas. Já o Decreto-Lei nº 406, de 04/05/1938 proibiu a formação de
núcleos coloniais de uma única nacionalidade, enquanto o Decreto-Lei nº 868, de 18/11/1938 impôs a
nacionalização integral do ensino primário em todos os núcleos estrangeiros.
176
LESSER, J. Op. cit., p.230.
177
NEUMANN, R. G. Op. cit., p. 126.
178
“... a nacionalização (...) vai se realizar em dois níveis: um, o educativo, outro, o repressivo (...). A
ação nacionalizadora no campo da educação se desencadeou de forma generalizada logo após a
implantação do Estado Novo; a ação repressiva foi inicialmente mais seletiva, visando, preferencialmente,
aos nazistas e parte dos integralistas, mas depois de 1942 se voltou de forma generalizada contra tudo que
‘fosse’ alemão ou relacionado com o ‘Eixo’”. GERTZ, R. O Perigo Alemão. p.64-65.
179
TOTA, A.P. O Imperialismo Sedutor. A Americanização do Brasil na época da Segunda Guerra
Mundial. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
180
PERAZZO, P.F. Op. cit., p.54-55.