
possível poderia remeter à tomada, para si, de uma postura ética, e diz respeito “aos costumes,
valores e normas de conduta de uma sociedade ou cultura”.
69
É aí que a intersecção entre
moral e retórica configura-se como ideal estético de Ponge.
O caracol, nomeado “santo” pelo poeta, pode ser lido como modelo para uma vida
simples, em que o homem somente utilizar-se-ia do estritamente necessário para conduzir sua
existência. Conhecer-se, no poema, pode ser lido também como saber “o tamanho de sua
própria medida”, tal qual Protágoras inicia seus escritos acerca da “verdade”: “o homem é a
medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto
não são”.
70
Nesse caminho também se situa a lição do caracol, que habita o espaço
estritamente necessário de seu corpo
71
.
Há, também, em O partido das coisas, outro poema que trata do cotidiano dos
trabalhadores em horário de almoço. Retornemos, então, ao “Restaurante Leumeunier...”, em
que Ponge faz novamente alusão à concha do caracol
72
, habitada, agora, pelo caranguejo
ermitão, desta vez, comparando-os explicitamente com os comensais presentes no refeitório:
“os jovens funcionários e suas companheiras mergulham aqui com delícia, com total boa fé a
cada dia. Cada um se apega a seu prato como o bernardo-eremita a sua concha [...]”.
73
Encontramos, ainda, em “Anotações para uma concha”, longa análise do homem em
desproporção com suas construções, empreendimentos e quereres:
Não sei bem por que, desejaria que o homem, em lugar desses enormes
monumentos que não testemunham senão a desproporção grotesca de sua
imaginação e de seu corpo (ou então de seus ignóbeis costumes sociais,
conviviais), em lugar ainda dessas estátuas feitas em sua escala ou um pouco
maiores (estou pensando no David de Michelangelo) que apenas e tão
somente o representam, esculpisse coisas em feitio de nichos, de conchas de
seu tamanho; as coisas, enfim, bem diferentes de sua forma de molusco,
mas, apesar disso, bem proporcionais a ele (as palhoças das tribos africanas
são, para mim, bastante satisfatórias, desse ponto de vista); que o homem
cuidasse de criar para as gerações uma morada não muito maior que o seu
corpo, em que estivessem contidas todas as suas imaginações, suas razões;
69
HOLANDA. O dicionário da língua portuguesa, p. 1365.
70
ROMEYER-DHERBEY. Os sofistas, p. 23.
71
Ademais, ressaltamos que há, ainda, uma imagem trabalhada por Karl Marx em que o caracol é associado ao
homem e a concha à sua força de trabalho. Porém, como afirma Marx, a sociedade capitalista empreendeu “a
separação do trabalhador de seus meios de produção e a conversão desses meios em capital”. A este respeito
ver O caracol e sua concha, 2005, p. 20-21.
72
A associação metafórica entre o caracol marxiniano e os poemas "O caracol" e " O restaurante Leumeunier da
rua Chaussé d´Antin", de Ponge, se realizam somente em nossa leitura. Não sendo possível, portanto, assegurar
que tenha sido intuito do poeta dialogar com Marx nos poemas em questão.
73
PONGE. O partido das coisas, p. 121.