nossa sociedade e que inclusive geram o dever do sigilo profissional e o direito à confidencialidade
das informações pessoais; o acesso e o manuseio indiscriminado dos prontuários odontológicos; a
consideração do acesso às clínicas das faculdades públicas como um favor e não um direito dos
cidadãos, ou como um favor e não um benefício de dupla mão entre pacientes e estudantes; a
vulnerabilidade dos indivíduos e das coletividades; a discriminação de pacientes portadores do HIV,
entre outros, são apenas algumas das questões que podem ser usadas à título de se promover a
reflexão ética e de estimular a auto-crítica.
Mas não apenas nas clínicas odontológicas os exemplos são múltiplos. O olhar atento
daqueles que se preocupam em fazer do aprendizado profissional também um aprendizado ético que
promova a educação moral vai encontrar nas relações interpessoais, nas situações da sala de aula e
dos corredores, nos modelos profissionais, nas exigências institucionais, na seleção das estratégias
pedagógicas, no conteúdo dos planos de ensino, enfim, oportunidades de operacionalizar a
aprendizagem ética. Este já é o caso de alguns docentes (o que nos remete ao comprometimento
pontual das faculdades) que, mais sensíveis à importância da dimensão ética da formação
acadêmica, têm empregado estratégias que visam o exercício da reflexão e da crítica de seus
estudantes, como pode ser percebido no relato abaixo:
A professora fala sobre a qualidade da relação dos alunos com os pacientes, dizendo que aumenta a
responsabilidade de alunos e professores pela entrada de mais um elemento no processo ensino-aprendizagem
que são os pacientes. “Vocês estão tratando com sujeitos e isto não é simples. Por isso, as ciências humanas
são importantes nesse processo” (...) chama atenção para que os pacientes que vão atender “são cidadãos e
que por isso têm direitos, por isso não são tão pacientes assim”. Ela fala da “jurisdicialização” da saúde,
citando os muitos processos na justiça de pacientes que são cidadãos reivindicando seus direitos. “Isto é um
exemplo para entender que a forma com que nos relacionamos não é algo tão simples (...) que existe esta
regulação. Mesmo na clínica privada há uma regulação do Estado, não apenas no serviço público. Daí o
porquê dos Conselhos, Vigilância Sanitária” etc. (...) fala de tecnologias duras e leves, da dimensão criativa
do trabalho em Odontologia (...) do vínculo com o paciente que é fundamental e que eles não terão neste
momento da clínica porque não farão o tratamento completo (...) de sujeitos e de subjetividades na relação
clínica. Destaca que atuamos não só sobre um corpo enquanto um organismo, mas também numa biografia,
que o corpo é uma expressão do mundo, das condições de vida. Junto com a queixa, o paciente trás sua
vivência, por isso são/somos singulares. Que a doença tem um padrão, mas que precisamos saber olhar para
cada sujeito com suas particularidades, com suas diferenças, suas singularidades enquanto sujeitos (...) Fala
da clínica que predomina na formação de profissionais e nas práticas de saúde, que precisa ser reformulada e
não apenas na Odontologia (...) Fala de iatrogenias e da necessidade de darmos atenção usando todos os
sentidos (...) das novas exigências da sociedade contemporânea: “a bioética que vem para regular a ética da
vida, as práticas de intervenção sobre a vida”. Dentro da bioética, a necessidade de que se vejam os princípios
que são a autonomia, a justiça, a beneficência e a não maleficência, além da solidariedade e da
responsabilidade. Ela fala com um certo sorriso, calmamente. Propõe uma leitura em grupos pequenos de um
caso clínico real, que trata da história de uma senhora, vítima de violência doméstica e de iatrogenias e é
bastante dramático. O relato enche uma página, mas a professora mostra na tela o conteúdo do prontuário: só
as queixas, o diagnóstico, as indicações e o abandono da paciente ao tratamento, estão registrados. Foi a
própria professora quem coletou a história da paciente, mas ela não comentou se pediu autorização desta para
usar seu relato em sala de aula. Fala que essa história a fez pensar na necessidade de reformular a ficha
clínica. Retoma a condução da aula perguntando se os alunos identificaram a iatrogenia do caso, mas
ninguém responde, parece que ficam confusos. Lembram primeiro da prótese mal-adaptada. Falam então que
o cirurgião-dentista deveria ter denunciado o marido e chamado a assistente social. Então lembram da
extração de todos os dentes a pedido da paciente. A professora pergunta se houve vínculo e responsabilização
em algum dos serviços/profissionais por quem a paciente foi atendida. Um estudante responde, mas como
outros falam ao mesmo tempo, ela chama a atenção para ele. Então discutem o ato do dentista (embora tenha