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O narrador sonha com o duplo que sonha com o narrador. Como quebrar esse feitiço do
espelho, que transforma o objeto real e sua imagem em carcereiros e prisioneiros um do outro ?
Segundo o narrador, a solução do impasse se deu quando ele e o personagem do sonho, seu
duplo, sonharam ao mesmo tempo: com uma cobra que se esgueirava para um lago e entrava
na água. O sonho teve um ambíguo efeito libertador:
Por minha vez, quando acordei de manhã, experimentei uma sensação
inexplicável de alegria, quase uma exultação interior. Embora sem poder
definir coisa alguma, eu entrevira naquela confusão uma forma de me
libertar, a mim e também a ele. Ainda que fosse trancafiando a nós dois,
para sempre na mesma prisão.
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A imagem da cobra ficou na mente do narrador e e foi reativada quando ele, andando pelo
centro da cidade, ouviu um homem pregando uma versão diferente do Gênesis, segundo a qual
“
o amigo do homem é a serpente, que tentou salvar e socorrer o homem e lhe dar a sabedoria e
a vida eterna...”
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. Quando o narrador vê o anel em formato de cobra, que era um objeto do
sonho, no dedo da mulher da janela, que era um elemento da realidade, ele decide que deveria
se apoderar daquele anel, uma vez que poderia ser a chave para a sua salvação. Seguindo a
mulher até o prédio onde ela morava, o narrador provoca uma interrupção da energia, no
elevador, e toma-lhe à força o anel. Ao chegar em casa, remove da cama as tralhas que
espantavam o sono, coloca o anel no dedo, deita-se e dessa vez, afirma que consegue
adormecer. Aparentemente, portanto, o problema da insônia estava resolvido. O narrador,
entretanto, diz que ao cair no sono, o velho sonho de sempre começou a se desenrolar, só que
dessa vez o homem adormecido não acordou. A recuperação do sono, por parte do narrador,
não foi uma alteração significativa no estado de coisas, uma vez que, agora, o problema
passara a ser a impossibilidade de despertar:
Era inevitável que ele estivesse sonhando comigo, dormindo como ele, ainda
presos um ao outro mas agora pelo laço, pelo anel do mesmo sono. Já
passou pela minha cabeça que desse modo talvez estejamos os dois mortos.
E então será isso a morte. Se é assim, o sonho desse homem dormindo é o
meu purgatório. E eu sou para ele o inferno.
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120
FIGUEIREDO, op. cit., 1994, p. 134
121
idem, ibidem
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idem, ibidem, p. 138