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consiste em espelhar o eu [dominante]. Estes são os mais importantes desses
problemáticos dualismos: eu/outro mente/corpo, cultura/natureza,
macho/fêmea, civilizado/primitivo, realidade/aparência, todo/parte,
agente/instrumento, o que faz/o que é feito, ativo/passivo, certo/errado,
verdade/ilusão, total/parcial, Deus/homem. O eu é o Um que não é dominado,
que sabe isso por meio do trabalho do outro; o outro é o um que carrega o
futuro, que sabe isso por meio da experiência da dominação, a qual desmente
a autonomia do eu. Ser o Um é ser autônomo, ser poderoso, ser Deus; mas ser
o Um é ser uma ilusão e, assim, estar envolvido numa dialética de apocalipse
com o outro. Por outro lado, ser o outro é ser múltiplo, sem fronteira clara,
borrado, insubstancial. Um é muito pouco, mas dois [o outro] é demasiado.”
(HARAWAY, 2000, p.99-100)
De acordo com Donna Haraway, os cyborgs “são um mapeamento ficcional da
nossa realidade social e corporal, além de uma fonte imaginativa que sugere associações
muito frutíferas. A biopolítica foucaultiana é uma premonição flácida da política dos
cyborgs, um campo em expansão” (2000, p.168). No cyborg, “a fronteira entre o
exterior da máquina e o interior da alma torna-se ultrapassada pela circulação eletrônica
da informação” (DONALD, p.93), configurando a este novo ser um novo patamar, isto
é, o cyborg vem de uma nova ordem, pois, diante da multiplicação de técnicas e práticas
de intervenção corporal (body building, implantes, etc.), o cyborg é “um organismo
cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e
também uma criatura de ficção” (HARAWAY, 2000, p. 40). Segundo a autora, todos
somos cyborgs em razão de estarmos submetido às intervenções da tecnociência. Como
destaca Tucherman (1999): “O final do 2.° milênio, final do século XX, é um tempo
mítico, onde todos nós seríamos quimeras, seres híbridos, ao mesmo tempo teorizados e
fabricados como organismos e como máquina, ou seja, somos todos cyborgs” (p. 156).
A idéia de subjetividades cyborgs parece aterrorizadora, “não porque coloca em
dúvida a origem divina do humano, mas porque coloca em xeque a originalidade do
humano” (SILVA, 2000, p. 16). Haraway (que é bióloga) observa que na cultura
científica estadunidense do final do século XX, a fronteira entre o humano animal foi
definitivamente rompida citando as recentes pesquisas na área da biologia e da
psicologia animal, de modo que “caíram as últimas fortalezas da defesa do privilégio da
singularidade [humana] a linguagem, o uso de instrumentos, o comportamento social, os
eventos mentais; nada disso estabelece, realmente, de forma convincente, a separação
entre o humano e o animal” (p. 44-45). Nesse sentido, os cyborgs
[...] tal como a engenharia genética, expõem a artificialidade da subjetividade
humana de forma concreta e material, há uma outra espécie de : criatura que
expõe, agora no terreno propriamente cultural, a ansiedade que o ser humano
tem relativamente ao caráter artificial de sua subjetividade: o monstro da
tradição, da literatura e do cinema. No fundo, a cruzamento de fronteiras:
entre o humano e o não-humano, entre cultura e natureza, entre diferentes