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3.2.3. Pamphila
A uirgo do Eunuchus tem um caráter singular que a diferencia de todas as demais
personagens da comédia - ao menos as que analisamos. Enquanto todas as demais se
constituem como sujeito em inter-relação, de certo modo umas a influenciar a ação das outras,
Pânfila é uma personagem totalmente passiva, transformada em objeto da intriga, tanto na
perspectiva de Taís, como na de Quérea. Se não bastasse ser uma personagem sem ação
efetiva, Pânfila é ainda destituída de voz e sua presença em cena se reduz a uma única
aparição ao ser levada por Gnatão para a casa de Taís. Uma vez que não tem nenhum modo de
exprimir vontade, ela é uma personagem sem ethos. Assim, a única forma de analisá-la é a
partir de sua negatividade: o seu modo de ser se constitui como passividade, a sua vocalidade
como silêncio, o seu caráter como ausência de ethos.
Para compreendermos melhor a forma como Pânfila é construída, é necessário
considerarmos as convenções que dizem respeito a seu caráter e a sua situação particular.
Primeiramente, Pânfila é uma uirgo, uma moça de família, situando-se no mesmo campo
semântico da matrona. A mulher no mundo antigo estava sempre a mercê de um tutor, seja
seu próprio pai, seja um irmão ou parente, seja seu marido. Legalmente, a mulher estava
submetida não ao Estado, mas ao tutor, que tinha sobre ela direito de vida e morte. O
casamento era um dever do cidadão. É por meio dele que se dá continuidade à família e,
assim, mantém-se inteiro o corpo da Cidade. A jovem cidadã estava, portanto, destinada a ser
uma esposa e a sua educação se dava em vista disso. Ela seria entregue pelo pai ou, na
ausência deste, por um tutor a um outro homem, fora de sua família, para quem ela devia
gerar filhos legítimos e cuidar do lar. O mundo feminino estava restrito ao interior da casa
16
,
não sendo conveniente a uma mulher honrada sair à rua desacompanhada
17
.
A uirgo na palliata está sempre ligada à questão do casamento. Podemos dividir
16 “O espaço doméstico, espaço fechado, com um teto (protegido), tem, para os gregos, uma conotação
feminina. O espaço de fora, do exterior, tem conotação masculina. A mulher está em casa em seu domínio. Aí
é o seu lugar; em princípio, ela não deve sair. O homem, pelo contrário, representa, no oikos, o elemento
centrífugo: cabe-lhe deixar o recinto tranquilizador do lar para defrontar-se com os cansaços, os perigos, os
imprevistos do exterior; cabe-lhe estabelecer os contatos com o que está fora, entrar em comércio com o
estrangeiro. Quer se trate do trabalho, da guerra, dos negócios, das relações de amizade, da vida pública, quer
esteja nos campos, na ágora, no mar ou na estrada, as atividades do homem são orientadas para fora.
Xenofonte expressa o sentimento comum quando, depois de ter contrapostos a espécie humana à animal
como a que tem necessidade de um teto para abrigar-se ao que vive ao ar livre, ἐν ὑπαιθρία, τὰ ἔξω ἔργα,
todas as atividades em ar livre, as ocupações de fora; a mulher para τὰ ἔνδον, as ocupações do interior.
Deste modo, é "mais conveniente para a mulher permanecer em casa do que sair para fora, mais vergonhoso
para o homem permanecer no interior do que se ocupar do exterior".” (VERNANT, 1990:157-158)
17 “Uma mulher honesta deve ficar em sua casa; a rua é para uma mulher qualquer”. (Menandro, fr. 546,
Edmonds. Apud Vernant, 1990: 157, n. 27.)