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GENIVALDO RODRIGUES SOBRINHO
EUGÉNIO TAVARES:
RETRATOS DE
CABO VERDE EM PROSA E POESIA
SÃO PAULO
2010
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GENIVALDO RODRIGUES SOBRINHO
EUGÉNIO TAVARES:
RETRATOS DE
CABO VERDE EM PROSA E POESIA
Tese de Doutorado apresentada ao Departamento
de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (Área de Estudos
comparados de Literaturas de Língua Portuguesa)
como requisito parcial à obtenção do Grau de
Doutor em Letras.
Orientadora: Professora Doutora Simone Caputo
Gomes
SÃO PAULO
2010
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Imagem de Mito Elias - OTIMarte
DEDICATÓRIA
Às minhas princesas, Neuza & Maria Eduarda,
merecedoras de todo o meu amor, dedicação e esforço e
que me concederam muito do seu precioso tempo de
convivência em troca da elaboração desta pesquisa.
Aos meus pais Francisco e Maria, meus mestres
semeadores de todos os momentos, sem os quais a este
patamar não chegaria.
Aos meus queridos irmãos Dora, Selma e Genilcio, uma
força que me impulsiona sempre a buscar mais e mais.
AGRADECIMENTOS
À professora Tania Macêdo pela amizade, pelas importantes sugestões durante
a banca de qualificação, pelas relevantes contribuições desde o Mestrado e pela
presença em momentos significativos de minha vida acadêmica.
À professora Simone Caputo Gomes, na qualidade de amiga e orientadora,
pelos muitos e inesquecíveis diálogos, pela orientação, pela confiança depositada em
nosso trabalho, pela seriedade e competência, pela presença decisiva durante nosso
percurso intelectual e pelo encontro fraterno nestes três anos de convívio. Agradeço,
sobretudo, o privilégio de ter trabalhado com alguém que realmente ama Cabo Verde,
sua cultura e seu povo.
Ao professor Mário César Lugarinho, pela leitura atenta de meu relatório de
qualificação, pelas observações pontuais e pelas sugestões visando a melhora de minha
pesquisa.
À professora Walnice Matos Vilalva, pelo companheirismo, amizade e pelo
apoio manifestado ainda na redação do pré-projeto de Mestrado.
À professora Vera Lúcia da Rocha Maquêa, que pela mão me fez adentrar o
mundo USP, pela amizade que só se fortalece e por todo o incentivo inestimável.
À Verónica Oliveira, que gentilmente, com muita competência, fez o trabalho
de tradução das mornas de Eugénio.
Ao artista plástico Mito Elias, pela cessão do seu trabalho plástico com a
imagem de Eugénio Tavares, que ilustra esta tese.
Aos professores Benjamin Abdala Júnior, Maria Aparecida Santilli, Benilde
Maria Justo Caniato (in memoriam), Rita Chaves, Vima Lia Rossi Martin, Elza Miné,
Emerson Inácio e aos demais professores do Programa de Estudos Comparados de
Literaturas de Língua Portuguesa que, direta ou indiretamente, contribuíram para a
realização desta pesquisa.
Aos colegas de Mestrado e Doutorado: Ana Rabecchi, Agnaldo Silva, Antonio
Mantovani, Elizabete Batista, Elizete Hunhoff, Irene Resende, Isaac Alemeida, Liliane
Barros, Marinei Almeida, Nancy Young, Leonice Pereira Suzane Castrillon e Vera
Maquêa, pela convivência ao longo desse período de qualificação. Em especial à Vera
Maquêa, à Marinei Almeida, pelos diálogos construtivos desde o início da pesquisa e,
sobretudo, ao Mantovani, pelo companheirismo, pela amizade e pela ajuda nos
momentos de incertezas, e pela sempre presente colaboração em todas as horas.
Aos meus familiares paulistanos Mantovani, Simone, Vera, Lígia, Morgana,
Érica Antunes, Flavinha Bandeca, Belelei, Carla Nardi, Dorothy Gomes, Avani, e
Giselle Ribeiro por todas as nossas aventuras, alegrias e momentos de descontração na
terra da garoa, bem como aos campineiros: seu Antonio, dona Elvira, Márcia, Gustavo,
Adriana, Marcelo e Alessandra.
Aos amigos Renato e Elisângela, Rafael e Flavinha, Luiz e Juliana, Cida
Bosco, Letícia, Avani e Humberto, Marana, Eduardo e Mara, Ricardo e Daiane, Júlio e
Gil, Edi e César, pelos momentos de alegria e descontração tanto na capital quanto no
interior de São Paulo.
Aos amigos da “República de Mato Grosso” Malheiros, Francis, Luzia Oliva,
Yasmin Nadaf, Adriana Venturoso e Aldina Cássia, pelo calor humano e pelas energias
positivas.
Aos inúmeros amigos cabo-verdianos que muito contribuíram para que este
trabalho alcançasse o sucesso almejado. Em especial ao escritor Artur Vieira, ao Daniel
Miranda e ao Joaquim Tavares, bravenses que não mediram esforços para arrumar os
textos que servem como corpus da pesquisa.
Ao Cônsul Geral de Cabo Verde, presença amiga e fundamental para o
conhecimento da morabeza crioula.
Ao José Augusto do Rosário e todo o seu pessoal da Associação Caboverdeana
do Brasil, que sempre me prestigiaram nas promoções de eventos acerca da cultura
cabo-verdiana em Santo André.
Ao Déni Mendes e a todos os integrantes da União dos Estudantes Cabo-
verdianos do Estado de São Paulo – UECESP, pela morabeza do encontro.
À UNEMAT Universidade do Estado de Mato Grosso, pela concessão da
licença integral para a minha qualificação.
À Coordenação de Apoio à Pesquisa do Ensino Superior – CAPES, pelo
pagamento de 24 meses de bolsa.
A todos os meus colegas do Departamento de Letras do Campus Universitário
de Sinop – MT, pelo apoio e torcida.
Aos funcionários da USP e da UNEMAT, pela presteza em todos os
momentos. Às secretárias do CELP, Creusa e Mari, e aos secretários da Pós-Graduação
Lina, Dayane e Elias, pela atenção e bom atendimento ao longo desta caminhada.
A Morna
a Maria Teresa Barbosa
Canto que evoca
coisas distantes
que só existem
além
do pensamento,
e deixam vagos instantes
de nostalgia,
num impreciso tormento
dentro
das nossas almas...
Morna
desassossego,
voz
da nossa gente,
reflexo subconsciente
em nós
das vagas ao longo das praias;
das aragens
que trazem um sorriso bom
às equipagens
dos barquinhos à vela
e flexibilidades graciosas
às folhagens
do milharal,
musicando rapsódias em surdina
nos tectos das casas pobres...
Jorge Barbosa
RODRIGUES-SOBRINHO, G. Eugénio Tavares: retratos de Cabo Verde em prosa e poesia.
2010. 200 f. Tese (Doutorado) FFLCH Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
RESUMO: A leitura comparativa das produções em prosa e poesia que compõem a
obra literária de Eugénio Tavares possibilita a compreensão da importância da
participação dos escritores nativistas para a construção da nação Cabo Verde, da sua
cultura e para a formação de sua série literária. Buscaremos nas produções jornalística e
epistolar eugenianas traçar um panorama do contexto cabo-verdiano da virada do século
dezenove para o vinte, destacando-lhes o propósito de denúncia das principais questões
sociais, econômicas e políticas, assim como as aspirações libertárias que preocupavam
os intelectuais cabo-verdianos da época. Na poesia, que ora se expressa em ngua
portuguesa, ora nas mornas em língua cabo-verdiana (crioulo), daremos ênfase a
aspectos que fazem confluir a arte eugeniana para um ultrarromantismo tardio, de raiz
lusa e, ao mesmo tempo, a estratégias que rasuram este estilo a partir de dentro, por
meio de artifícios como a crítica e o humor carnavalizador. Quanto à morna, documento
de registro da consciência coletiva, recorte de um patrimônio histórico, cultural e
humanístico, submetida à mestria da pena de Eugénio Tavares, constituirá, além de uma
marca identitária crioula, um dos marcos do lirismo literário cabo-verdiano. A opção de
trabalhar com o cotejo de textos de diferentes gêneros manifesta a nossa tentativa de
captar a riqueza com que Eugénio Tavares se apresenta e representa Cabo Verde em sua
obra.
Palavras-Chave: Literatura cabo-verdiana, Eugénio Tavares, cultura crioula, morna,
prosa, poesia.
RODRIGUES-SOBRINHO, G. Eugénio Tavares: portraits of Cape Verde in prose and poetry.
200 f. Tese (Doutorado) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2010.
ABSTRACT: The comparative reading of the productions in prose and poetry that
make up Eugénio Tavares’s literary work enables the understanding of the importance
nativist writers’ participation for the building of Cape Verde nation, its culture and the
formation of its literary series. We will try to establish an outline of the Cape Verdean
context from the turn of the nineteenth century to the twentieth one by analysing
Eugénio Tavares’s journalistic and epistolary productions and emphasing the purpose of
complaint of the main social, economical and political quests as well as libertarian
aspirations which worried Cape Verdean intellectuals of that time. In poetry, which
sometimes expresses itself in Portuguese language, sometimes in the morna in Cape
Verdean language (Creole), we will hilight the aspects that make eugeniana art
converge to a late ultrarromanticism of Lusitanian root and at the same time, the
strategies that erasure this style from within, through devices such as criticism and
carnavalizador humor. Concerning the morna, the registration document of the
collective consciousness, a piece of a historical, cultural and humanistic heritage,
submitted to Eugénio Tavares’s mastery of writing, will constitute, besides being an
identitary Creole trait, one of the landmarks of Cape Verdean literary lyricism. The
option of working with the collation of texts from different genres expresses our attempt
to capture the richness with which Eugénio Tavares presents himself and represents
Cape Verde in his work.
Key-words: Cape Verdean literature, Eugénio Tavares, Creole culture, morna, prose,
poetry.
ABREVIATURAS
TPJ – Tavares
pelos jornais
TVTCP – Tavares – Viagens, tormentas, cartas e postais
TPOLP – Tavares
Poesia em língua portuguesa
TMCC – Tavares – Mornas – cantigas crioulas
SUMÁRIO
REFLEXÕES INTRODUTÓRIAS Eugénio Tavares: um precursor da
cabo-verdianidade ...................................................................................................
12
Capítulo I Eugénio Tavares: o amor a Cabo Verde na prosa de intervenção
social ..........................................................................................................................
23
Capítulo II – A poética de Eugénio Tavares em língua portuguesa ...................
66
2.1 – O núcleo ultrarromântico: amor idealista e mal-do-século ..........................
70
2.2 – O núcleo do “terra-longismo” ......................................................................
82
2.3 O núcleo da problemática social cabo-verdiana e as estratégias de
abordagem .............................................................................................................
99
2.4 – Núcleo da reflexão filosófica e religiosa .....................................................
123
Capítulo III - Mornas – cantigas crioulas: poesia em língua “sabe” ...................
131
3.1 Morna, modalidade musical identitária cabo-verdiana: origens e
polêmicas críticas ................................................................................................
134
3.2 Diferenças entre a morna da Boavista e a da Brava: a contribuição de
Eugénio Tavares ...................................................................................................
143
3.3 – A obra mornística de Eugénio Tavares ........................................................
148
3.4 – A morna amorosa de Eugénio Tavares ........................................................
152
3.5 – Morna(s) da partida .....................................................................................
173
3.6 – Mornas de costumes ou de filosofia/religiosidade popular .....................................
180
REFLEXÕES CONCLUSIVAS .............................................................................
186
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................
194
REFLEXÕES INTRODUTÓRIAS: EUGÉNIO TAVARES, UM
PRECURSOR DA CABOVERDIANIDADE
Português de lei! Cabo-verdiano de alma!
Eugénio Tavares
O trabalho que ora nos propomos a realizar tem por objetivo fulcral
empreender uma leitura da obra de Eugénio Tavares norteada pelo levantamento de
como interagem as múltiplas faces de seu discurso em prosa – jornalística e epistolar – e
poesia, em língua portuguesa e cabo-verdiana, fornecendo ao leitor uma visão de Cabo
Verde e sua cultura, na época em que se inscrevem as suas intervenções. E também,
para além, como a figura do intelectual e a força de sua produção literária e de sua
atuação na imprensa se transformam em símbolos de cabo-verdianidade gravados para
sempre na memória coletiva, que reverberam até nossos dias.
Para tanto, nossa proposta será recolher e examinar os grandes temas que
enlaçam a produção literária eugeniana
1
, observar como se entrelaçam com um retrato
de Cabo Verde por meio da literatura e da produção intelectual, jornalística e epistolar
de Eugénio num momento crucial da formação dos sentimentos de pertença e da série
literária crioulos.
Investigar a atuação de Eugénio Tavares no seu tempo e sua importância para a
formação de um sentimento de cabo-verdianidade acrescenta-se aos escopos acima
referidos e a análise de sua epistolografia, em confronto com as posturas emitidas nos
textos veiculados pela imprensa e por meio da poesia constitui uma etapa determinante
para traçar um perfil do homem Eugénio Tavares e do que ele significa para a discussão
de questões relativas à identidade cultural cabo-verdiana.
Parece-nos pertinente a assertiva de Manuela Ernestina Monteiro sobre a
repercussão da práxis eugeniana na então colônia portuguesa: “De entre aqueles que se
destacam como cultores distintos das letras cabo-verdianas no período que se
convencionou designar por Pré-Claridade, Eugénio Tavares projecta-se para a
posteridade, de forma indiscutível, através da obra que nos legou” (1999, p. 5).
1
Com exceção do teatro dos contos, que julgamos merecer pesquisa à parte, em etapa futura de nossa
pesquisa.
13
E a sua formação autodidata nos leva a valorizar ainda mais o seu trabalho
literário: mesmo não tendo freqüentado o Liceu de São Nicolau, nem tido a
oportunidade de estudar em qualquer outro estabelecimento de ensino fora de seu país,
Eugénio Tavares era possuidor de uma apurada bagagem cultural que vi