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elementos dizem respeito tão somente ao modo como o ser-aí se
encontra em sua abertura. Assim, considerando-se que, quase sempre e
na maioria das vezes, como diz Heidegger, o discurso se dá no modo da
inautenticidade, a verdade do ser, não se mostra. Pelo contrário,
mantem-se oculta no seu mostrar.
O existente humano não se dá conta da facticidade em que está
jogado, do quão fácil é ganhar-se ou perder-se diante do ente em geral.
O discurso, nesse modo, é chamado por Heidegger de “falatório” que
mais oculta, dissimula, esconde do que revela, ou seja, o falatório
propicia uma apropriação inautêntica e ilegítima daquilo do que se fala,
i.e., do mundo. Na ligação com a ética pode-se dizer que o falatório
propicia uma apropriação inautêntica e ilegítima do outro, bem como
das relações que derivam dessa mesma apropriação.
O Dasein, enquanto ek-sistente
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é ser-no-mundo, ou seja, ser-
em e ser-com. E, assim, considerando o discurso o lugar onde os
existenciais da abertura se articulam, afirma-se que o encontro com
outros entes é mediado pela linguagem. Não somente o encontro de
outros entes, aqui considerados aqueles que têm o caráter de Dasein, é
possibilitado e mediado pela linguagem, mas também, o encontro
daqueles entes que se dão pelo modo da ocupação, caracterizada por
Heidegger como um modo de lidar. Assim, o ocupar-se com outros
entes que não tem o caráter de Dasein, como também o encontro com
outros entes dotados de caráter de Dasein apenas é possível visto o ente
que se é encontrar-se enquanto tal em um mundo já aberto, já
previamente compreendido de alguma forma, já dado de algum modo. O
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Heidegger usa essa estratégia ao escrever o termo “existência” para salientar
o significado latino de exsistere de onde se originou o termo alemão Existieren. Contudo,
aquele termo latino que significa “dar um passo à frente, para fora” transformou-se em
ex(s)istentia e essa em Existenz na língua alemão. Essa mudança implicou na perda do
significado original, passando a significar tão somente a existência de um ente em contraste
com a essência. Heidegger adota o termo Existenz para se referir a existência do Dasein por
julgar esse traço distintivo. Diz ele “A ‘essência’ da pre-sença está em sua existência.”
(HEIDEGGER, 1997, p.77), mas entende por ele aquele significado originalmente perdido e
não simplesmente a existência de um ente que se dá em contraste com a essência. Então,
reserva esse termo para referir-se exclusivamente ao existente humano e usa ek-sistenz e ex-
sistenz em sua obra de 27 com essa intenção. Na tradução brasileira são usados os termos “ek-
sistir”, “ex-sistir” e “ek-sistente” com a intenção de manterem a mesma idéia. O termo
“essência” também sofre uma modificação por Heidegger. Ele o substantiva, assim, na frase
citada acima, “essência” deriva de Wesen que é escrito somente wesen. Que, em suas origens
siginficava “morada”, “vida”, “modo de ser”, entre outros e não somente “ser”, “ficar”,
“durar”. (INWOOD, 2002, p. 54). Assim o faz para distinguir o existir do Dasein de qualquer
outro ente, ou seja, com esse ele quer marcar o aspecto ontológico desse ente diante dos outros
entes que não são Dasein.