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Evandro Bilibio
ÉTICA EM SER E TEMPO E NO TRATACTUS LOGICO-
PHILOSOPHICUS
Florianópolis
2010
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Evandro Bilibio
A ÉTICA EM SER E TEMPO E NO TRACTATUS LOGICO-
PHILOSOPHICUS
Tese apresentada ao programa de
Pós-graduação em Filosofia da
Universidade Federal de Santa
Catarina como requisito final para
a obtenção do título de Doutor em
Filosofia, sob orientação do
Professor Dr. Darlei Dall’Agnol.
Florianópolis
2010
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AGRADECIMENTOS
À Sra. Gladys e o Sr. João Floriano que mais do que desempenhar o papel de
pais souberam dar apoio e estarem presentes quando necessário.
Ao meu irmão, Juliano, pela amizade, apoio e incentivo.
À Adriane Assenheimer, companheira nos momentos difíceis, apoio nas horas
incertas, carinho, compreensão e paciência. Dedicação silenciosa, mas decisiva.
Aos funcionários do Departamento de Filosofia da UFSC, em especial à
secretaria Angela Gasparin, por sua competência e dedicação.
À professora Ruth Leonhardt, ao professor Waldemar Feller e Darlan Faccin
Weide pelo incentivo, amizade e apoio. Sempre presentes e atuantes quando
solicitados.
Ao professor Maurício Bozatski pela amizade e apoio.
Ao Professor Darlei Dall’Agnol responsável direto pela retomada,
continuidade, e finalização do trabalho. Paciência, discernimento e senso
crítico são dignos de lembrança, agradecimento e admiração. Digno de nota,
igualmente, o caráter e seriedade humana e filosófica, exemplos a serem
seguidos.
Ao professor Romar Virgílho Pagliarin, serenidade, discernimento e bondade.
Poucos fazem sentido, diferença e importam ouvir. Palavras graves e
definitivas. Meu respeito, admiração e horizonte.
Somos um sinal, sem sentido
Sem nenhuma dor somos e, no estranho,
Quase perdemos a linguagem.
F. Hölderlin
O poema mostra, e isso é indesmentível,
uma forte tendência para o emudecimento.
Paul Celan. O Meridiano
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................. 8
PARTE I
1. HEIDEGGER, WITTGENSTEIN E A ÉTICA SEGUNDO
LOPARIC........................................................................................ 20
2. A FENOMENOLOGIA HUSSERLIANA ...................................... 33
2.1. A Fenomenologia aplicada a construção de uma ética ................... 42
PARTE II
1. A POSIÇÃO DE SER E TEMPO E A ÉTICA ................................. 51
1.1. A ética originária ............................................................................ 58
1.2. O testemunho da consciência e o cuidado ....................................... 73
1.3. O caráter ekstático da temporalidade e o cuidado ........................... 86
1.4. A temporalidade e seus desdobramentos ......................................... 89
1.5. O caráter horizontal da temporalidade ............................................ 98
PARTE III
1. WITTGENSTEIN E A ÉTICA ...................................................... 102
1.1. O Tractatus e a ética: clarificar a normatizar ............................... 105
1.2. A interpretação mística do Tractatus ........................................... 118
1.3. A Conferência sobre Ética ............................................................ 133
1.4. Inefável por efável e o silêncio ético ............................................ 142
PARTE IV
1. WITTGENSTEIN E A FENOMENOLOGIA .............................. 155
2. HEIDEGGER E A FENOMENOLOGIA ..................................... 166
PARTE V
1. WITTGENSTEIN E HEIDEGGER ............................................. 177
CONCLUSÃO ....................................................................................................... 206
BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 212
RESUMO
O objetivo geral desse trabalho é possibilitar uma melhor compreensão da ética no
pensamento Heidegger e Wittgenstein. Particularmente, esse trabalho foca-se sobre
as as obras Ser e Tempo e Tractatus Logico-Philosophicus. Isso significa que os
outros trabalhos serão remetidas a essas duas obras. A proposta principal, aqui, é
mostrar que não éticas normativas nessas obras. Em outras palavras, o objetivo
do estudo é argumentar que os seus autores não apresentam regras ou normas que
possam ser utilizadas como critérios orientadores para uma existência feliz. Outro
objetivo desse estudo é contribuir para uma compreensão das possíveis relações e
semelhanças entre Wittgenstein e Heidegger. O ponto de contato que torna possível
a aproximação e a comparação entre esses dois filósofos é a ética. A epígrafe desse
estudo é a bem conhecida lembrança de Wittgenstein a dois temas heideggeriano
em 29, “ser” e “angústia”. Por outro lado, é conhecido o famoso artigo de Loparic,
no qual sugere não somente uma aproximação entre ambos via ética, mas também
sustenta a importância que esse tema teve para ambos. Nesse mesmo artigo Loparic
argumenta para a possibilidade da existência de uma ética originária, tal qual
Heidegger sugere em sua obra Carta Sobre o Humanismo, na qual é mencionada
como uma possibilidade real e a ser realizada. Em Ser e Tempo a voz da
consciência exige que o Dasein assuma o modo de ser mais próprio. Invocação que
é silenciosa e não nada a dizer. No Tractatus o sétimo aforismo dá a entender
que deve haver um critério orientador daquele que investiga, o qual somente pode
ser mostrado, em outras palavras, não pode ser expresso proposicionalmente. Na
sua Conferências sobre Ética está claro que a ética determina a existência humana.
Então, por caminhos diferentes, ambos os autores chegaram a conclusões
semelhantes o que denota a importância da ética para Heidegger e Wittgenstein. e
um possível ponto comum em seus pensamentos. Todavia, o horizonte de
originalidade deve ser buscado na visão de cada autor, não reduzindo ou lendo um
pelo outro.
ABSTRACT
The purpose of this study is to allow for a better understanding of ethics in
Heidegger’s and Wittgenstein’s thinking. Particularly, this work will focus on the
works Being and Time and Tractatus Logico-Philosophicus. That means that the
other works will be referred to these books. The main purpose is here to show that
there is no normative ethics in these two works. In other terms, the target of the
study is to argue that their authors do not present rules or norms that could be used
as a guiding principle for a happy life. Another goal of the study is to contribute for
the understanding of the possible relations and similarities between Wittgenstein’s
and Heidegger’s approaches. The point of contact that makes possible the
comparison between these two philosophers is ethics itself. The epigraph of this
study is Wittgenstein’s well known remark on two Heideggerian themes in 29,
“Being” and “anguish”. On the other side, it is also well known Loparic’s famous
article, which suggests not only the proximity between the two authors via ethics
but also shows the importance that this theme has for both philosophers. In this very
same article, Loparic argues for the possibility of the existence of an original ethics,
as Heidegger suggests in his work called Letter on Humanism, which is mentioned
as a real possibility and it remains to be done. In Being and Time, the
conscienciouness’ voice, so to speak, requires Dasein to assume a way of living
more according to his being. This invocation is silent and says nothing in
particular. In the Tractatus, the seventh aphorism states that there must be a guiding
principle for whom is investigating, which only can be showed, or, in other words,
that could not be manifested propositionally. In the Lecture on Ethics it is clear that
the ethics determines human being. So, by different ways, both authors came to
similar conclusions, which denote the importance of ethics for Heidegger and
Wittgenstein and it is a possible common point of their thinking. However, the
horizon of originality must be kept regarding the view of each author, not reducing
or overlapping both approches.
8
INTRODUÇÃO
Trataremos, aqui, das obras de dois filósofos
contemporâneos, Ludwig Wittgenstein (26/04/1889 29/04/1951) e
Martin Heidegger (26/09/1889 a 26/05/1976) e, como veremos no
desenvolvimento dessa abordagem que de modos diferentes chegaram a
resultados muito semelhantes. São pensadores que marcaram de forma
definitiva a história da filosofia do século XX. Não somente por suas
personalidades, mas, principalmente, por usas ideias. O texto trata da
ética na obra de Heidegger Ser e Tempo (1927) e na obra de
Wittgenstein o Tractatus Logico-philosophicus (1921)
1
e procura
mostrar que não há nessas uma ética normativa.
Como é bem conhecido pelos especialistas a ética divide-
se em três ramos principais: 1. Meta-ética estudo do significado e
origem dos princípios morais; 2. Ética normativa que procura responder,
principalmente, a pergunta “o que devemos fazer?”, para tanto é
necessário o estabelecimento de um critério a partir do qual seja possível
derivar normas que orientem, com segurança, o agir humano; 3. Ética
aplicada que depende da normativa no sentido em que ela buscará a
aplicação daqueles princípios à resolução dos problemas práticos e
pertinentes à existência do homem. A ética normativa divide-se, ainda,
em éticas teleológicas e deontológicas.
As éticas teleológicas, por exemplo, sustentam que os
critérios orientadores podem ser retirados das consequências ou dos
resultados que implicam as ações humanas. Assim, o critério para
decidir sobre o fazer ou não fazer algo deve levar em consideração a
quantidade de bem (que deve ser maior) do que a quantidade de mal que
possa vir a ser produzida por uma determinada ação. As éticas
deontológicas partem da ideia de que os critérios ou princípios que
podem figurar como orientadores das ações humanas são autoevidentes
e à priori. (Dall’Agnol, 2008, p. 24) Isso significa que existem, no
sentido forte da palavra, certos critérios que devem ser respeitados
independentemente das consequências dos atos que se orientam por eles.
Assim, por exemplo, deve-se dizer a verdade independente das
1
Usa-se no decorrer do trabalho as expressões “obra de 27”, para referir-se a
Ser e Tempo. E “obra de 21” ou Tractatus” como formas abreviadas para remeter ao
Tractatus Logico-philosophicus. Também será usada a expressão “Conferência de 29” para
identificar a Conferência Sobre Ética proferida por Wittgenstein em 1929.
9
circunstâncias e resultados que tal ato possa vir a ter e mentir, portanto,
é inaceitável.
As éticas normativas buscam orientar de forma direta e
clara o agir humano dando princípios e normas que funcionam como
critérios para esse mesmo agir. Elas possibilitam que alguém saiba se
está agindo de forma correta ou se agiu de forma correta. Desse modo,
desembocam na ética prática ou filosofia moral, a qual trata da
aplicabilidade daquelas normas (deontológicas ou teleológicas)
explicitadas por essas mesmas éticas normativas.
Quando se afirma que não éticas normativas nas obras
de 27 (Heidegger) e de 21 (Wittgenstein) quer se dizer que não são
encontrados nessas obras critérios ou princípios para o agir humano
2
,
não se encontra em ambas teorias éticas de caráter deontológica e
teleológica Desse modo, todo aquele que recorrer a tais obras com o
intuito de encontrar critérios claros e legítimos para o comportamento
humano fracassará. Contudo, isso não significa que não haja
pressupostos éticos em tais obras ou que não seja legítima a tentativa de
buscar modos que possibilitem a construção de uma ética (nova)
seguindo indicações presentes naquelas obras.
Levando-se em consideração as posições de Heidegger e
Wittgenstein na história da filosofia, como definir ou estabelecer
igualdades e semelhanças entre esses dois pensadores? Tarefa que pode
ser tanto árdua como ingrata. Árdua por estarmos frente a um pensador,
no caso de Heidegger, no tocante a sua obra, que parece ser, a primeira
vista, tão incompreensível quanto enigmática. No caso de Wittgenstein,
também valem as mesmas palavras.
É certo que são defensores de concepções filosóficas
diferentes, modos e estilos de vida próprios, polêmicos e incisivos em
suas ideias. Certamente duas grandes personalidades, dois grandes
pensadores, aos quais a história da filosofia deve não somente o devido
respeito e admiração, mas, também, reflexão.
Heidegger e Wittgenstein não são autores ou clássicos em
se tratando de temas éticos, mas, também é verdade que cada vez mais
ganham espaço nessa área. Os seus interesses e preocupações filosóficas
permaneceram bem longe de um interesse direto pela ética,
principalmente no caso de Heidegger. E não estaríamos errados se
2
Para o autor do Tractatus, pelo menos, está claro o conflito gerado pelas
experiências éticas e os fatos. Esse conflito reside em que não como negar que existam
experiências éticas e que elas pertencem “a minha experiênciae que, apesar disso, elas não
podem ser enunciadas, pois não são fatos.
10
aplicássemos essa afirmação também a Wittgenstein.
Todavia, isso não significa que não seja possível extrair
consequências éticas de suas afirmações e posições filosóficas ou, ainda,
identificar pressupostos éticos que teriam servido de base e fundamentos
a seus trabalhos. Contudo, deve-se ter o devido cuidado nesse
movimento, pois se corre o risco de reduzi-los a tais temas, bem como,
cair na tentação de identificar em alguns de seus conceitos fundamentais
um significado ético quando, na verdade, não há.
Nesse momento é oportuno fazer uma referência ao artigo
de Ernildo Stein, A estratégia na formação dos conceitos da Ontologia
Fundamental, entre outros, no qual lembra o caráter ontológico-ético de
alguns conceitos utilizados por Heidegger, bem como sua menção ao
trabalho de Frango Volpi, de mesmo teor. Existem muitos outros
trabalhos e artigos que exploram a mesma perspectiva que não serão
tratados devido a tarefa proposta aqui. Todavia, eles servem na medida
em que avalizam essas perspectivas heurísticas no caso heideggeriano,
pelo menos.
Outro exemplo é o artigo de Jeliko Loparic Ética
originária e práxis racionalizada no qual identifica uma convergência
(semelhança) de resultados entre Heidegger (o segundo) e Wittgenstein
(o primeiro). Convergência que encontra em seu centro o tema ético
articulado com a linguagem. Nesse mesmo artigo, Loparic faz menção a
vários trabalhos importantes sobre a ética em Wittgenstein que foram
reimpressos por Canfield em 1986 e com bibliografia que reforça a
discussão. Destacam-se, também, os artigos de Vera Fisogni, Apel e
Rorty (citados na bibliografia), todos tentando reforçar não somente a
ideia de que é plausível derivar consequências éticas do pensamento
desse filósofo, mas, , que ela ocupa o centro em torno do qual é
construída sua filosofia.
Apesar da pertinência de tais pesquisas, deve-se manter o
cuidado para não reduzir um filósofo ao outro. Pois uma coisa é
identificar pressupostos éticos em seus trabalhos e semelhanças, outra é
reduzir um ao outro afirmando que ambos chegam ou partem de um
pressuposto ético comum e que o mesmo orienta suas posições
filosóficas. Claro que tanto um como outro, devem, sim, ter agido e
orientado suas vidas a partir de certos pressupostos éticos e morais. Não
se nega que tais pressupostos definiram e direcionaram não somente
suas posturas filosóficas, mas, também, seus interesses filosóficos e
profissionais. Afinal, enquanto pessoas que viveram e desfrutaram de
uma determinada formação cultural condicionada, certamente, por suas
11
situações econômicas, devem ter absorvido determinados valores que
moldaram suas personalidades.
Assim, registra-se a concordância com o fato de que
semelhanças no modo como trataram a ética e outras questões
filosóficas. Por outro lado, julga-se que um não pode ser reduzido ao
outro por conta dessas semelhanças.
Todavia, corre-se o risco de fazer uma redução ou leitura
arbitrária de um pelo outro, o que eliminaria a originalidade de suas
posições. Então, com o intuito e esperança de evitar isso, serão
apresentadas suas posições filosóficas procurando de modo intercalado
pontos de apoio, de contato entre ambos e que tornem possíveis mostrar
a similaridade entre eles. Aliás, isso foi encarado como uma necessidade
em face de algumas tentativas que parecem visar exatamente o
contrário.
Com respeito as tentativas de aproximações entre
Heidegger e Wittgenstein, em maior ou menor grau, devem-se a uma
declaração feita pelo filósofo austríaco. No final de 1929 e início de
1930, Wittgenstein proferiu uma conferência em que trata da ética. Essa
conferência foi publicada somente em 1965 e a partir das anotações de
um dos presentes em 29, F. Weismann, no Philosophical Review, no
primeiro fascículo do volume 74. Naquela ocasião afirmou que poderia
muito bem pensar (entender) o que Heidegger queria dizer com “ser” e a
“angústia”. Abaixo reproduzimos na íntegra o mesmo, pois essa
declaração funciona como epígrafe desse trabalho.
Ich kann mir wohl denken, was Heidegger mit
Sein und Angst meint.
17
Der Mensch hat den
Trieb, gegen die Grenzen der Sprache anzurennen.
Denken Sie z.B. an das Erstaunen, Dass etwas
existiert. Das Erstaunen kann nicht in Form einer
Frage ausgedrückt warden, und es gibt auch gar
Keine Antwort. Alles was wir sagen mögen, kann
a priori nur unsinn sein. Trotzdem rennen wir
gegen die Grenze der Sprache an. [I] Dieses
Anrennen hat auch Kierkegaard gesehen und es
sogar ganz ähnlich (als Anrennen gegen das
Paradoxon) bezeichnet.
18
Dieses Anrennen gegen
12
die Grenze der Sprache ist die Ethik.
(Wittgenstein, 1989, p. 68)
3
Certamente, para aqueles que assistiram tenha soado de
maneira irônica e sem maiores implicações. Todavia, todos que buscam
esclarecer quais as possíveis relações entre Heidegger e Wittgenstein
não pensam assim. Qual a real intenção do filósofo ao fazer tais
afirmações? Teria lido Ser e Tempo? Quanto a isso, infelizmente, não há
informações precisas. O que realmente torna-se digno de nota é o fato
não somente de ter feito referência a temas heideggerianos, mas, ainda,
afirmar que sabe o que Heidegger quer dizer.
Wittgenstein não está dizendo que concorda com o que foi
dito, mas compreende o porquê de estar sendo dito. Sendo assim, tal
afirmação não tem nada de casual. Na verdade, como acertadamente
creem alguns, pode revelar semelhanças entre os pensadores. Nessa
declaração, além da menção aos temas heideggerianos, Kierkegaard
também é lembrado por Wittgenstein como outro que percebe o mesmo
que ele, que a consciência de se perceber diante do mundo é, ao mesmo
tempo, uma experiência paradoxal, ou seja, que revela algo
extraordinário e surpreendente.
Essa experiência paradoxal pode muito bem ser entendida
como uma experiência da totalidade do mundo, na qual faltam modos de
expressá-la; falta a linguagem apropriada para isso. Entretanto,
insistentemente tenta-se explicitar essa experiência. Fato que para o
filósofo não é outra coisa do que aquela tendência de ir de encontro aos
limites daquele mesmo mundo que se revela em sua totalidade, ou seja,
uma espécie de corrida que revela, na verdade, a própria ética.
Naquela menção de Wittgenstein tem-se as seguintes
referências: 1. a dois temas heideggerianos: ser e angústia; 2. a ideia de
que há um limite ao que se pode enunciar, um limite à linguagem; 3. que
o homem tem a tendência de ir de encontro a tais limites; 4. que há uma
experiência de assombro diante do fato de que algo existe; 5. que o
assombro não pode ser expresso, nem na forma de pergunta, o que o
deixa, também, sem uma explicação possível; 6. e apesar de tudo, se
3
Posso muito bem pensar o que quer dizer Heidegger com ser e angústia. O
homem tem a tendência de correr contra os limites da linguagem. Pense, por exemplo, no
assombro que causa saber que algo existe. O assombro não se pode expressar na forma de
pergunta, nem há resposta para ela. Como podemos dizer, podemos a priori considerá-la como
sem sentido. Apesar de tudo corremos contra os limites da linguagem. Esta corrida
Kierkegaard viu e caracterizou com grande acerto (como corrida contra o paradoxal). Esta
corrida contra as barreiras da linguagem é a ética.
13
insiste em tentar dizê-lo de algum modo; 7. Kierkegaard percebe essa
insistência, essa corrida, essa mesma tendência; 8. essa insistência, esse
correr de encontro a algo é a ética. Essa fala do filósofo parece deixar
claro que a ética é algo que se revela na forma daquele comportamento;
naquele modo de se portar diante de algo, i.e., do mundo em sua
totalidade e que é, ao final, uma experiência paradoxal.
Também, é bem conhecida a posição do filósofo austríaco com
respeito à possibilidade das proposições éticas. Levando em
consideração a distinção com relação à linguagem, diz que os
enunciados éticos não existem, pois eles não se configuram em fatos do
mundo e muito menos em coisas. No Tractatus eles são indizíveis,
assim como o mundo ou a experiência de que algo exista. Entretanto,
como bem lembra a literatura, ele não diz, por exemplo, que eles não
podem ser vivenciados de alguma forma, ou seja, que não possam
constituir a experiência.
Com relação à menção aos dois temas heideggerianos como
compreender a referência ao ser e à angústia na referida discussão?
Somente para avivar um pouco a memória, a angústia foi definida por
Heidegger, no §40 de Ser e Tempo, como um modo de disposição
fundamental. A angústia é um existencial fundamental porque é por
meio dela que o existente humano coloca-se diante da possibilidade da
existência autêntica e inautêntica, ou seja, diante dela, o existente
humano tem que assumir ou não o chamamento da consciência ao seu
ter-que-ser implícito a esse. Em outras palavras, assumir o fato de que é
um ente lançado.
Parece claro que com isso o Dasein
4
tem um horizonte ético
que o delimita e condiciona, mas que não foi tematizado, porém estava
pressuposto. Heidegger estava dando um lugar privilegiado à ética em
seu projeto de uma ontologia fundamental? Se a resposta for sim, por
4
Heidegger refere-se ao homem na obra citada pelo termo alemão Dasein.
Essa palavra existe na língua alemã. Como nos relata a obra de Inwood “No século XVII, o
infinitivo era substantivado como (Das) Dasein, originalmente no sentido de “presença”. No
século XVIII, Dasein passou a ser utilizado pelos filósofos como uma alternativa para a
palavra derivada do latim Existenz (“a existência de Deus”), e os poetas a utilizavam no sentido
de “vida”. A “Luta pela Sobrevivência” de Darwin tornou-se em alemão “der Kampf ums
Dasein”. Coloquialmente, é utilizada para o ser ou a vida das pessoas. (Dasein em Heidegger é
bastante distinto de Dass-sein, ser-isto.) (INWOOD, 2002, p. 29) Ele é usado para identificar o
aspecto ontológico determinante do existente humano. Contudo, não é definido por categorias
metafísicas, mas, sim, pelo que chama de momentos existenciais ou disposições fundamentais
que são modos de ser que caracterizam e o diferenciam do mundo e de outros entes
Usaremos, também, as expressões “existente humano” e “ser-aí” para designar o mesmo que o
termo Dasein o faz.
14
qual motivo ele não orientou sua ontologia fundamental nessa direção?
Wittgenstein estaria reconhecendo, naquela declaração, ao final,
esse mesmo chamamento da consciência ao ter-que-ser? Reconhecendo
a possibilidade da existência do que se pode chamar de uma ética
originária ou ontológica? Concordando com Heidegger? Pode ser, mas é
pouco provável. Mais provável é que Wittgenstein reconheça os motivos
pelos quais Heidegger fala em ser e angústia e os tome como exemplos
que revelam o paradoxo, o extraordinário. Assim, eles representam
aquela tendência da qual Wittgenstein fala de irmos contra os limites da
linguagem, o colocar-se diante de algo que não pode ser expresso. Um
modo de confrontar-se com aquilo que é indizível, o mundo e a
experiência desse mesmo mundo.
Por outro lado, a ética, enquanto esse movimento para, aponta
para algo, tão somente. Enquanto reduzida a essa tendência ela mesma
não se constitui em uma espécie de conhecimento. Mas a ética é essa
tendência, esse ir de encontro ao afigurável, esse colocar-se diante de,
ou seja, ela não é isso mesmo que se revela nesse movimento. Ela não se
confunde com o que é revelado e que, enquanto experiência, não pode
ser expresso.
Levando em consideração aquele ter-que-ser heideggeriano,
também não verbalizável, e a posição de Wittgenstein, estaríamos
autorizados a tentar derivar uma ética não fundacionista de tais
pensadores? Autorizados a falar em uma espécie de ética constitutiva
tanto em Heidegger (1º. e 2º.), quanto em Wittgenstein (o primeiro, pelo
menos)?
Note-se, por exemplo, a que pode ser levado aquele que ler o
último aforismo do Tractatus: Wovon man nicht sprechen kann,
darüber muß man schweigen
5
. (WITTGENSTEIN, 2001, p. 280) Tem-
se a noção explícita de dever que implica na existência de uma ética
como pano de fundo na sua filosofia. Por outro lado, em Heidegger, há a
noção de que o encontro do outro é sempre autêntico ou inautêntico
6.
Assim, pelo que foi exposto, é possível afirmar que ambos os autores
tenham na ética um campo de contato. Explorar, portanto, a noção de
dever explícita no Tractatus a partir de um pressuposto ético e a noção
5
Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”
6
Levando em consideração que esses termos, usados em Ser e Tempo, têm um
significado ético/moral, também, de caráter originário. Pois, Heidegger faz questão de lembrar
em sua obra de 27 que, no sentido tradicional eles não têm qualquer espécie de significado
ético/moral. Ora, o que queremos salientar é que ele não diz que não o tenham em nenhum
sentido.
15
de cuidado (Sorge
7
), e os desdobramentos de ambas são imprescindíveis
para aqueles que julgam essa tarefa possível: encontrar em Ser e Tempo
e no Tractatus Logico-philosophicus as indicações para uma nova ética,
que éticas deontológicas e teleológicas (normativas) estão
descartadas.
Como se busca, aqui, também, comparar algumas posições
filosóficas de Heidegger e Wittgenstein, corre-se o risco de fazer uma
espécie de amálgama de opiniões e posições, ora convergentes, ora não,
sobre esses dois pensadores. Entretanto, e apesar dos riscos, procura-se
mostrar que é possível traçar paralelos e reconhecer similitudes entre
eles e que a ética, mesmo não sendo declarada formalmente o foco das
atenções, ocupa um lugar privilegiado em suas obras, principalmente em
Ser e Tempo e no Tractatus. Mas que, contudo, não tem a intenção de
ser um conhecimento normativo.
Para tanto, utilizam-se autores e artigos exemplificativos
com respeito a certas análises e posições com relação às obras que aqui
figuram como o horizonte ao qual se pretende ater. Esse horizonte é
delimitado pelas obras Ser e Tempo e Carta Sobre o Humanismo de
Martin Heidegger e o Tractatus Logico-philosophicus e a Conferência
sobre ética de Wittgenstein¸ das quais, exploram-se aqueles aspectos
que se julgam importantes para o esclarecimento da concepção sobre a
ética nesses pensadores.
Nesse sentido, estamos cientes da acusação de termos
simplificados certos tópicos, como no caso da fenomenologia, por
exemplo. No caso heideggeriano, o cuidado e a ideia de mundo. E no
caso de Wittgenstein a linguagem e a religião. Mas, face aos resultados
pretendidos e algumas decisões tomadas, foi um risco assumido.
Por outro lado, por vezes, fala-se indistintamente com
relação às mudanças de direção e/ou reavaliação das filosofias feitas por
eles mesmos. Mas, igualmente, estamos cientes disso e, assim foi feito,
na expectativa de tornar mais compreensível o que está sendo tratado.
Dito isso, apresenta-se a interpretação de Loparic, ou melhor, a tentativa
de comparação que ele faz entre Heidegger e Wittgenstein como sendo
um exemplo paradigmático de um esforço crescente de compreensão de
ambos os filósofos tratados.
Assim, acredita-se que um ponto de contato entre
7
A tradução portuguesa feita por Márcia de Cavalcante de Sorge é cura.
Utiliza-se, contudo, a palavra cuidado por se julgar incorrer em menos erros. Aqui,
diferentemente da tradução portuguesa mencionada, cuidado diz respeito ao aspecto ontológico
do Dasein e não às suas realizações concretas como na tradução mencionada.
16
Heidegger e Wittgenstein e que esse lugar comum passa por uma melhor
compreensão de suas posições com respeito à ética, linguagem, mundo e
a posição do homem com relação a tais temas; julga-se, assim,
pertinente a posição de Loparic e a ideia de uma ética originária. Dessa
maneira, o trabalho de Loparic representa um marco, um início, que
aponta caminhos possíveis a serem trilhados.
Por outro lado, sabe-se da preocupação do primeiro
Wittgenstein com respeito a uma linguagem que tornasse possível uma
apresentação fidedigna de mundo. Nessa busca, sabe-se que ele delimita
e circunscreve o que pode ser enunciado pela linguagem. De tal forma a
postular um limite àquilo que essa mesma linguagem pode dizer a
respeito de mundo. Também é conhecido que o pano de fundo dessa
posição está assentado sobre uma visão muito peculiar do que é e qual a
função da linguagem. Em que sustenta o isomorfismo entre mundo e
linguagem e que ultrapassar os limites da linguagem implica no
ultrapassamento dos limites do dizível e do mundo.
O primeiro Heidegger está envolvido e absorvido pela
procura de um horizonte transcendental. Horizonte que permitiria
explicitar a compreensão de ser e assim recolocar e fixar a metafísica,
agora, ontologia fundamental, como filosofia. Ontologia que permitisse
derivar os existenciais ou momentos do Dasein.
Qual o paralelo, afinal, possível e aceitável entre ambos?
Que semelhanças possibilitariam uma aproximação entre eles? Alguns
elementos parecem convergir: o espanto diante da enunciação de que
algo existe; a convicção de que algo escapa, quer seja à linguagem, quer
seja à compreensão; o espanto diante da totalidade do mundo, a ideia
que isto mesmo que escapa se deve à inadequação da própria linguagem.
O próprio ser heideggeriano revela uma espécie de
paradoxo, pois ser, via de regra, ao se mostrar é encoberto pelo próprio
movimento pelo qual é explicitado. Paradoxo que revela limites e
insuficiências claras em expor o que deve ser exposto, mas do qual não
há escapatórias.
O mundo e os valores, por mais que possam ser aquilo que
realmente importam, não podem ser ditos, pois não são fatos. O silêncio,
provocado por essa impossibilidade de apresentar aquilo que de algum
modo se julga pressuposto, mas que, também, não pode ser expresso
revela, indiretamente, uma exigência ética. Portanto, esse silêncio é
interpretado por muitos não como um silêncio qualquer, mas um
silêncio que fala e revela algo. É o silêncio eloquente, do sábio, daquele
que entende o que não pode ser dito e não diz por saber que não possui
17
os meios adequados para tanto. Essas convicções pertencem a
Heidegger e Wittgenstein, em maior ou menor grau desde os tempos de
Ser e Tempo e do Tractatus.
Levando-se em consideração a filosofia de Heidegger,
possivelmente ele veria Wittgenstein e todo o seu esforço como um
exemplo da impossibilidade lógica da filosofia da linguagem em
expressar as grandes verdades da ontologia fundamental. Bem como um
exemplo de sua incapacidade em perceber aquela que é a questão central
da ontologia. Portanto, o esforço tractatiano reduzido a um esforço inútil
e sem sentido.
Já, para Wittgenstein, de modo correlato, possivelmente
Heidegger também seria visto como um exemplo paradigmático de um
tipo de discurso que apesar de apontar para algo, carece de qualquer
sentido. Tudo isso devido a não ter percebido o papel fundamental que a
lógica desempenha na construção de nossas imagens de mundo e por
tentar explicitar e descrever aquelas coisas que não se apresentam como
fatos desse mesmo mundo, tais como ser, mundo, angústia, entre outros.
Em resumo, possivelmente, um veria o outro como exemplos daquilo
que não pode ser atingido pela filosofia e que nem pode ser pensado e
apresentado sob o título de questões filosóficas.
Por outro lado, é clara a pertinência do pressuposto ético
orientador das estruturas de Ser e Tempo e do Tractatus Logico-
philosophicus. Em Heidegger, o existente é, antes de qualquer coisa,
ser-no-mundo. Isso implica que ele é, também, ser-em e ser-com.
Momentos estruturais que apontam para uma ética na medida em que o
ser-em e o ser-com existem em um espaço comum de convivência
recíproca entre os entes. Contudo, como se estrutura esse espaço de
convivência recíproca não é explorado em Ser e Tempo. Fato que
desperta em seus leitores a intenção exatamente de suprir este vazio na
análise heideggeriana.
O ser do Dasein, o cuidado e suas estruturas, tal qual são
delimitadas temporalmente apontam, também, para a existência de uma
18
ética. Os ekstases
8
do tempo e seu caráter horizontal constituem o que
condiciona a abertura do Dasein e, portanto, a abertura ética do ser
humano. Contudo, enquanto estruturas ontológicas, falam em silêncio e
não permitem derivar uma ética no sentido tradicional, i.e., enquanto um
conjunto de normas orientadoras para o agir humano.
Em Wittgenstein, a ideia de uma linguagem isomórfica
aponta na mesma direção de Heidegger: a impossibilidade de derivar
uma ética dessa estrutura, ou seja, normas e regras para o viver. Essa
linguagem que possibilita uma apresentação do mundo em sua forma
lógica perfeita está antes da possibilidade de submeter seus enunciados
aos critérios de verdade ou falsidade. Todavia, afirma-se que
independentemente das posições e ligações que se efetuam entre suas
posições filosóficas, não é possível derivar de Ser e Tempo e do
Tractatus Logico-philosophicus qualquer tipo de orientação normativa
para o agir humano.
O trabalho foi divido em cinco partes, cada uma delas
compostas por capítulos. Na primeira parte expõe-se a posição de
Loparic com relação ao tema ético em Heidegger e Wittgenstein.
Posição que aceita que ambos chegaram a resultados muito próximos
por caminhos diferentes. A sua posição revela paralelos importantes
entre Heidegger e Wittgenstein, como também a possibilidade de uma
ética. Nesse sentido, o texto de Loparic serviu de motivador inicial ao
desenvolvimento da pesquisa e sempre se procurou mantê-lo no
horizonte das interpretações explicitadas aqui.
Por isso, também na última parte desse trabalho usa-se
novamente o trabalho de Loparic com o intuito de apresentar outras
semelhanças para além da ética em Heidegger e Wittgenstein. Ainda na
primeira parte aborda-se a concepção de fenomenologia de Husserl tal
qual a expôs nas suas Investigações Lógicas e na Idéia da
Fenomenologia (Cinco Lições). Com isso, pretende-se tornar mais clara
a ideia de fenomenologia heideggeriana e o uso que faz dessa. Essa
exposição possibilitará, também, mostrar que Wittgenstein não é
8
Heidegger usa o termo alemão Ekstasen com o intuito de exemplificar o
caráter transcendental da temporalidade, ou seja, o fato dela ser um modo ontológico do
próprio Dasein se encontrar na sua existência, na qual ele está sempre remetido e determinado
temporalmente. Eles são a temporalização da temporalidade. Diz Heidegger Zeitlichkeit ist
das ursprungliche “Ausser-sich” na und für sich selbst. Wir nennen daher die charakterisierten
Phänomene Zukunft, Gewesenheit, Gegenwart die Ekstasen der Zeitlichkeit”. (Heidegger,
1972, p. 329,). Ekstase é o fora de si, ou, o desdobramento temporal ontológico que pertence
ao Dasein e que constitui o horizonte a partir do qual ele mesmo se compreende
ontologicamente.
19
fenomenólogo como creem alguns. A ontologia dos valores de Scheler é
apresentada como o exemplo de uma tentativa de construir uma ética
com o uso da fenomenologia husserliana. O que não é feito por
Heidegger.
A segunda parte é dedicada a Heidegger. Nessa justifica-se
a centralidade de Ser e Tempo diante de uma produção tão vasta quanto
a dele. Essa obra também figura nesse trabalho como horizonte do que
Heidegger identificou em sua obra Carta sobre o Humanismo de ética
originária. Desse modo, procurou-se submeter a obra de 27 a uma
análise com o intuito de identificar nela elementos que possibilitassem
mostrar que ao escrevê-la o seu autor tinha como pano de fundo algo
como uma ética originária. Optou-se por fazer isso levando a uma
análise a estrutura ontológica e temporal do Dasein e deixou-se de lado
uma abordagem via a verdade do ser.
A terceira parte é dedicada a Wittgenstein salientando a
importância da ética para ele e como ela está presente em sua obra de 21
e na conferência de 29. Nessa parte, também, julgou-se apropriado
mostrar outras interpretações sobre o tema ético em Wittgenstein com a
intenção de clarificar melhor a abordagem do tema no próprio filósofo e
afastar algumas interpretações. Nesse sentido, por exemplo, julgou-se
interessante apresentar uma interpretação na qual é sustentada uma
estreita ligação entre a posição do filósofo vienense com o místico por a
julgarmos elucidativa de algumas posições e, também, paradigmática.
A quarta parte procura mostrar a relação de ambos os
filósofos com a fenomenologia. Nessa parte ficará claro que
Wittgenstein não é um fenomenólogo, pelo menos do tipo husserliano.
Quanto a Heidegger o intuito é mostrar o aspecto ontológico e
divergente da fenomenologia husserliana. O que lhe impede de ir além
da constatação de que deve haver um horizonte ético originário.
Passaremos, agora, à primeira parte.
20
PARTE I
1. HEIDEGGER, WITTGENSTEIN E A ÉTICA SEGUNDO
LOPARIC
Segue-se, aqui, a posição de Loparic em seu artigo Sobre a
ética em Heidegger e Wittgenstein no qual ele aceita que a ética é
central em ambos os autores, mas que não nada mais do que isso, ou
seja, um pressuposto ético que os move e determina o tratamento
dispensado àquilo que consideravam problemas ou questões filosóficas.
Salvo essa coincidência resta uma divergência cada vez maior que se
acentua com o passar do tempo, fundamentalmente, devido à concepção
sobre a essência da linguagem, segundo Loparic.
O artigo começa lembrando a famosa ocasião em que
Wittgenstein refere-se a ser e a angústia, temas heideggerianos. Salienta
a convicção existente no Tractatus de que há no homem o impulso
(Trieb) de ir contra os limites da linguagem. (LOPARIC, 2000, p. 130)
É este impulso que, afirma o autor do artigo, igualmente move
Heidegger. Impulso que é identificado como uma tendência, que nos
leva de encontro ao afigurável.
Com o intuito de corroborar sua posição, Loparic destaca
aquelas afirmações heideggerianas que explicitam o espanto, por
exemplo, que acompanha enunciações que declaram a existência de
algo. Essas declarações do filósofo alemão são, para o autor do artigo,
uma prova daquela mesma tendência paradoxal identificada pelo
filósofo vienense e herdada de Kierkegaard. Desse modo, Heidegger
estaria percebendo, assim como Wittgenstein, o quanto é paradoxal a
experiência descrita naquela conferência de 29, já mencionada.
Espanto que não consegue, por mais que tente, descrever a
si mesmo de modo satisfatório. Soma-se a isso aquela tendência de ir de
encontro aos limites da linguagem e que revela o paradoxo, que é
afigurável, ou seja, não pode ser dito e, portanto, descrito. Ora, tem-se,
aqui, tal qual expõe Loparic, duas situações de aproximação entre os
filósofos em questão: o espanto diante da existência de algo e a
tendência/impulso que revela afigurável.
Certamente, o espanto diante do fato de que algo existe e o
paradoxal que se mostra nesse impulso de irmos de encontro aos limites
21
da linguagem não são experiências isoladas no sentido em que o sujeito
se percebe distante e separado do mundo. Pelo contrário, são
experiências nas quais o sujeito perde-se no mundo de tal forma a não
mais conseguir distinguir-se dele. É uma experiência metafísica da
totalidade do mundo.
Quanto à Conferência sobre Ética de Wittgenstein,
Loparic chama atenção para o caráter pessoal que o filósofo vienense dá
àquelas experiências nas quais o mundo mostra-se em sua totalidade
quando se tenta descrevê-las. Essas experiências sempre envolvem
aquela tendência na qual o homem se coloca diante de algo que o
pode ser afigurado e, portanto, revela-se como paradoxal. Ali, também,
o que se revela é o mundo em sua totalidade.
Tais momentos em que o mundo revela-se em sua
totalidade são experiências pessoais par excellence, nas palavras do
filósofo austríaco. (WITTGENSTEIN, 2005, p. 220) Também é
salientado o fato de que Wittgenstein não afirma que tais experiências,
que são minhas experiências, sejam falsas. Entretanto, mesmo não sendo
falsas não pertencem ao mundo dos fatos, não são naturais.
Por isso, a tentativa de descrever essas experiências é um
nonsense. Além do espanto diante da existência do mundo ou de que
algo exista nesse mesmo mundo, a impossibilidade de explicitar, por
um lado, a experiência na qual isso se manifesta e, por outro, o que é,
realmente, este mesmo algo, esta coisa que existe e faz o homem
espantar-se diante do mundo.
Os resultados alcançados por Heidegger, para Loparic, são
exemplos daquele espanto mencionado por Wittgenstein. Em 1919, oito
anos antes de Ser e Tempo, ele fala de uma espécie de espanto diante
do mundo. Loparic destaca as primeiras preleções do filósofo alemão
nas quais está presente o espanto identificado por Wittgenstein. Os
exemplos que atestam isso são expressos por perguntas feitas por
Heidegger do tipo “algo existe”? Ou, ainda, pelo espanto com o fato de
que algo é dado pela experiência pessoal. Similarmente, em Heidegger,
há o mesmo caráter pessoal diante do espanto com a existência do
mundo.
Acompanham esses elementos que são apresentados e
identificados como uma espécie de phatos comum entre os dois autores
a citação de que, em Heidegger, a convicção de que a linguagem
hipostasiadora, objetificante não pode expressar, satisfatoriamente,
aquelas experiências. Essas experiências constituem ao final, aquele
mesmo phatos grego que origem à filosofia e ao filosofar enquanto
22
tal. Afirma Loparic:
O primeiro Heidegger sabe, tal como o primeiro
Wittgenstein, que a exposição ao lugar onde se
origina a filosofia, isto é, à pergunta primária pelo
que há, provoca espanto e que esse espanto não
pode ser verbalizado. (LOPARIC, 2000, p.4)
Esse mesmo ponto de contato demarcará uma diferença
fundamental, ou seja, uma divergência entre os filósofos. Esta
discordância está ligada a possibilidade da linguagem explicitar o que
provoca esse mesmo espanto. Todavia, para o filósofo vienense, o
problema é com a característica fundamental que a linguagem possui;
para o autor de Ser e Tempo, ao contrário, o problema é com todo e
qualquer tipo de linguagem, seja científica ou não. Heidegger não faz
uma diferenciação entre dizer e mostrar. Assim como Wittgenstein não
diferencia discurso de falatório. De qualquer forma, em ambos, a
linguagem pode ser entendida como um limite, um obstáculo a ser
vencido.
Devido a essas posições pode-se julgar que o filósofo
austríaco relega a ética a um segundo plano ou, ainda, que lhe retira todo
e qualquer valor possível, enquanto uma experiência tipicamente
humana, pois ela está fora do campo do que pode ser abarcado pela
linguagem. Mas, paradoxalmente como diz Loparic, não é isso que
acontece. O filósofo julga que a ética, enquanto essa tendência, não deve
ser abandonada ou mesmo desprezada apesar de não poder ser dita, pois
ela aponta para algo.
Certamente aponta para o que é afigurável e, portanto, não
se constitui em fato do mundo e o pode ser dita. Contudo, ela revela
uma dimensão da experiência humana que, apesar de não poder ser dita
não pode ser ignorada por se constituir de tanta importância quanto à
lógica e os problemas derivados dela.
A extensão e objetivos dessa posição ainda precisam de
esclarecimentos. Mas, apesar das limitações epistemológicas ligadas a
elucidação do tema, o filósofo não julga a mesma sem importância.
Desse modo, amenizando o fato de ter colocado a ética no campo do
afigurável, têm-se mais uma demarcação do tema do que um testemunho
que negue sua validade e legitimidade.
Loparic lembra outras afirmações de Wittgenstein sobre
religião, proferidas em dezembro de 1930, que complicam mais ainda o
caso, pois a ética é colocada no mesmo nível dessa. Quando
23
Wittgenstein também para surpresa de seus interlocutores, diz Para
mim, a teoria não tem valor; a teoria não me nada”
.
(WITTGENSTEIN, apud WEISMANN, 1973, p. 104) e logo após “Os
fatos não tem importância para mim, mas me interessa saber o que
entendem os homens ao dizer que ‘o mundo está aí’
”. (Ibidem, p. 104)
Ao que se seguiu a pergunta de F. Weismann “A existência do mundo
está conectada com o ético?” (Ibidem, p.104), ao que Wittgenstein
responde: “Que existe uma conexão os homens têm percebido e têm
expressado desta maneira: Deus Pai criou o mundo, Deus Filho (ou a
Palavra, o que sai de Deus) é o ético”. (Ibidem, p. 104)
Ora, são frases que não causam, em si, nenhum espanto a
quem ouve, salvo ao se saber que quem as pronunciou foi Wittgenstein.
As duas primeiras falas deixam clara importância do que não pode ser
dito. Julga-se que ele não esteja negando a importância das teorias ou do
que chamou de fatos. Contudo, esses problemas (ou questões) diante do
espanto com respeito a existência do mundo, não tem valor. Ele está
dizendo o que julga mais importante. A ética conecta-se, afinal, com
essa experiência da totalidade do mundo que se mosra ao sujeito. A
religião, enquanto essa experiência da totalidade, também, revela a
dimensão ética. Loparic, por exemplo, interpreta-as como o
reconhecimento de que uma clara ligação aceita pelo filósofo
austríaco entre o “ser” e o “ético”, i.e., uma experiência da totalidade do
mundo com a própria ética. Nesse sentido, também não está sendo dito
que religião e ética são a mesma coisa.
Por outro lado e tentando elucidar qual realmente é o teor
de tais afirmações, pode-se, o que já é um expediente relativamente
normal, salientar-se o tom pessoal das mesmas. Desse modo, tais
experiências serão experiências pessoais de mundo. E, enquanto tais,
pouco ou nenhum valor podem ter, a não ser para aquele que as têm,
pois enquanto experiências pessoais estão restritas e delimitadas pelo
modo subjetivo pelo qual o mundo é compreendido. Qualquer tentativa
de derivar uma teoria ética normativa de impressões ou experiências
pessoais a respeito do mundo, certamente não teria sucesso.
Outras tentativas de elucidar aquelas passagens seria, por
exemplo, julgar que Wittgenstein concorda com Heidegger (de certo
modo) e diz que teorias não têm valor por encobrirem o que deve ser
explicitado, ou seja, o ser. E que o tom pessoal presente e reconhecido
como inerente a tais enunciações o significa algum tipo de
experiência privilegiada do ser- no qual o mundo se mostra em sua
totalidade. Agora e se Wittgenstein está simplesmente se referindo a
24
certas experiências que, por serem pessoais, escapam à linguagem
representacional, ou seja, não podem descrever essas experiências?
Como também não podem expressar a experiência religiosa, que é
reduzida a uma forma ética? Não se julga que seja o caso, pois
Wittgenstein estaria sendo lido a partir de Heidegger.
Assim, a importância não reside tanto no fato de que a
tendência de se ir contra os limites da linguagem seja um modo de
experiência ética, mas no que ela revela, i.e., que o mundo é constituído
de fatos. Isso pode explicar, também, o motivo de ser tão pouco
mencionada no restante da sua obra. E, quando é feita, sempre es
associada a experiências que não podem ser descritas pela linguagem.
O mesmo vale para os termos “ser” e “angústia”
heideggerianos, mencionados por Wittgenstein em 29. Ora, o filósofo
austríaco pode estar, tão somente, citando-os como exemplos. Desse
modo, quando disse que sabia o que Heidegger queria dizer quando
falou em ser e angústia, talvez estivesse somente dizendo que
reconhecia, por um lado, com o uso desses termos, uma tendência de se
ir de encontro ao afigurável e, assim, emitindo proposições sem sentido.
Por outro lado, é oportuno lembrar das conhecidas crises
de Wittgenstein, durante as quais, por vezes, manifestou sua vontade de
suicídio. Certamente, nesses momentos, manifestam-se certos estados
psicológicos em que a ansiedade, a depressão e a angústia devem ter
sido muito fortes. Ora, Heidegger tenta descrever, através do recurso
fenomenológico-hermenêutico, o sentimento da angústia como um
momento essencial do existente humano, pois, mergulhado nele, a
existência se mostra em toda a sua plenitude e finitude ontológicas. Ora,
porque não se dizer que Wittgenstein se identifica com tais relatos?
que se considerar, nesse caso, que leu Ser e Tempo (ou parte dela), obra
em que constam as descrições desses elementos como sendo momentos
essenciais do ser-aí.Essa interpretação pode ser acusada de ser bem mais
fraca com relação às outras, mas, não é menos pertinente.
Loparic lembra que Heidegger em 1919, na obra Zur
Bestimmung der Philosophie
9
(GA 56/57) diz frases do tipo “o valor é
9
Sobre a determinação da filosofia. Essa obra se situa no período entre 1915
– término de seu doutorado e antes de 1923, quando inicia suas pesquisas em Aristóteles e que
dão um novo rumo a sua filosofia que culmina, em grande medida, em Ser e Tempo. Quanto a
obra em questão, situa-se dentro das pesquisas de uma fenomenologia da religião, que tem por
objetivo compreender o sentido ontológico que possa ter o espírito vivo do cristianismo.
Pesquisa essa que se debruça sobre a mística medieval, escolástica, os desdobramentos do
cristianismo primitivo e fenomenologia
.
25
um em-si-e-para-si que não é um dever, nem tampouco ser.”; “o valor
não é”; “na experiência de valor, ‘algo vale’ para mim, sujeito que
julga.”; “um momento constitutivo da vida em-si-e-para-si”; “não está [a
linguagem] a altura desse novo tipo de vivência fundamental.”. Nota-se
o tom pessoal que é usado pelo filósofo ao falar de valor, i.e., de algo
que pode ser associado a algum tipo de experiência ética, como um tipo
de experiência que é autossuficiente, vale em si e para si.
É possível conectar e identificar nessas enunciações uma
referência a ética. Que ética é essa composta por valores que valem em
si e para si na qual algo vale, mas tão somente para aquele que tem tais
valores? O que significa isso senão, na verdade, o fato de que os valores
não se constituem em algum tipo de conhecimento filosófico? Aqui, é
possível um paralelo com o que Wittgenstein pensa e vimos
anteriormente. No caso heideggeriano, a experiência do valor também
não pode ser expressa pela linguagem, que não a alcança. Ao final, há o
mesmo tom pessoal nas enunciações que foram proferidas e similares
àquelas de Wittgenstein ao falar da ética em 29.
Todavia, a diferença fundamental, segundo Loparic, está
na lição que ambos tiram dessas convicções. Wittgenstein desiste de
qualquer possibilidade de enunciar experiências desse tipo. Heidegger
busca novos modos de dizer. Modos que não estejam comprometidos
com a linguagem hipostasiadora e pictórica. (LOPARIC, 2002 p. 136)
São fatos que explicam o redirecionamento de seus pensamentos.
E se Loparic estiver certo, o que se pode dizer é que o
elemento motriz é a impossibilidade de enunciar as experiências éticas
ou valores. Assim, os valores ético/morais são o horizonte perseguido
desde o início e que, de alguma forma, circunscreveram os tratamentos
que dispensaram ao que consideraram questões filosóficas. Aceitando-se
essa posição, tem-se o horizonte ético como o elemento motivador do
início ao fim de suas filosofias.
O silêncio decorrente da impossibilidade da enunciação
dos valores e das questões éticas está diretamente ligado a questão da
linguagem que concebida de modo bem diferente por ambos.
Lembrando resumidamente, para Heidegger, um dos momentos
constitutivos do Dasein, o discurso, ao lado da compreensão e da
disposição, é apenas mais um momento constitutivo do ser-aí,
cooriginário com relação aos citados em sua abertura. Contudo, dizer
que ela é mais um ao lado de outros não significa que seja menos
importante. Pelo contrário, assim como os outros, seu papel é
fundamental. E enquanto existencial, é distinto do que Heidegger chama
26
e identifica com a linguagem (Sprache) comum e cotidiana. Pois
Heidegger em Ser e Tempo, procura distinguir entre discurso (Rede) e
linguagem (Sprache). A linguagem, nesse sentido, é o pronunciamento
do discurso. Contudo, nem uma nem a outra conseguem expressar a
dimensão ética originária.
Wittgenstein, por sua vez, identifica dois momentos
relativos à linguagem: o dizer e o mostrar e, além disso, concebe a
linguagem como uma imagem do mundo dos fatos. Assim, aqueles
fatos que podem ser mostrados, mas não ditos. Essas duas dimensões
pertencem à linguagem, contudo, somente os fatos podem ter sentido,
i.e., submetidos à verificabilidade e, assim, serem ditos. Tanto
Heidegger quanto Wittgenstein distinguem entre a linguagem comum e
a filosófica (científica, para ser mais preciso). Para o outro, a ética, tal
qual é entendida e concebida, não se constitui em uma ciência e não
pertence à filosofia.
Dessa forma, de modos diferentes, para ambos, a ética ou o
dizer ético não pode ser abarcado pela filosofia. Todavia, mesmo as
concebendo de modos diferentes reservam um espaço para aquelas
experiências que estão para além da possibilidade da enunciação
legítima e válida. Com certeza, como vimos, há diferenças entre os dois
pensadores com respeito à linguagem. Quanto a isso é digno de nota
outra convicção heideggeriana: a linguagem cotidiana é uma forma de
interpretação daquilo que o discurso já compreendeu. O ser, a existência
de algo e a dimensão ética, então, de alguma forma, foram
compreendidas pelo Dasein. Caberia trazer essas compreensões à
linguagem.
Wittgenstein, com sua distinção interna à linguagem, procura
mostrar que a linguagem usada sem respeito à lógica subjacente a ela
gera falsos problemas. A linguagem científica se apresenta como
modelo de linguagem a ser perseguida, mesmo pela filosofia. Assim, a
análise da linguagem visa, ao final, mostrar que não se respeita essa
estrutura inerente a ela e, por isso, a linguagem filosófica,
principalmente, é envolvida por aporias e falsos problemas. A ética seria
então o resultado dessas aporias? A resposta é sim se a dimensão ética
continuar a ser compreendida dentro das éticas normativas. Éticas
normativas possuem, em grande medida, valores absolutos. Wittgenstein
não aceita que esses possam ser enunciados.
Para Heidegger, a linguagem comum e a científica pressupõem
já uma espécie de discurso, ou seja, uma compreensão de mundo em sua
totalidade ontológica. Essa compreensão, tal qual a estrutura lógica de
27
Wittgenstein é subjacente, contudo, muito diferentes entre si. Desse
modo, para o filósofo alemão a linguagem somente é possível por
estar dado, de algum modo, através do discurso, o mundo. Assim, a
linguagem cotidiana (e científica), é possível por haver discurso. O
discurso, então, é o fundamento ontológico, do qual surge a própria
possibilidade de uma linguagem e a possibilidade de falar de uma ética.
O discurso adquire o papel de fundamento ontológico, mas ele
não é somente o fundamento ontológico da linguagem comum e
cotidiana. Essa é a grande diferença para com os outros existenciais com
os quais perfaz a abertura do Dasein. O discurso também modula e
condiciona o modo pelo qual o ser-no-mundo ek-siste
10
, ou seja, é ser-
em e ser-com. Desse modo, o discurso ocupa um lugar privilegiado em
Ser e Tempo, pois ele condiciona os outros modos existenciais que
constituem o existente humano em sua abertura, ou seja, enquanto ser no
mundo.
Pode-se começar a perceber essa diferença (privilégio dado por
Heidegger) ao discurso quando o mesmo, fazendo uma análise temporal
do que foi conquistado com a investigação da qual Ser e Tempo é o
registro, afirma que o discurso não tem um Ekstase temporal específico
no qual se funda. Ele não se fixa ou é o resultado de um somente, mas
de todos e se manifesta em todos os horizontes temporais que perfazem
a abertura transcendental do Dasein. Abertura na qual se a
compreensão de ser.
Desse modo, pode-se dizer que, para Heidegger, o aspecto
importante que pertence ao discurso, o que faz dele um existencial
privilegiado, é que nele se a articulação da compreensão, da
disposição e da decadência, momentos que determinam como o ser-no-
mundo está nessa abertura. Assim, julga-se que a não existência de um
Ekstase temporal no qual se funda o discurso, não é ocasional; embora
Heidegger dê um papel privilegiado ao Ekstase do presente
11
como
delimitador do discurso. Assim, no discurso, articulam-se os outros
10
Esse neologismo heideggeriano tem por objetivo distinguir a existência
ontológica do Dasein de todos os outros seres, para os quais a sua existência não está em jogo.
Ek-sitir significa o fato do Dasein encontrar-se lançado, o estar fora de si, na existência
tendo que lidar com essa mesma existência, ou seja, encontrar-se de um determinado modo
(ontológico) no mundo com outros entes. Para maiores esclarecimentos o parágrafo 9 de Ser e
Tempo traz informações importantes para a compreensão do termo.
11
Na tradução portuguesa de Ser e Tempo tem-se as seguintes traduções;
Gegenwart por atualidade, mas utiliza-se, aqui, presente - Gewesenheit por vigor de ter sido,
mas utiliza-se passado - Zukunft por porvir, mas utiliza-se futuro – esse procedimento visa ser,
por um lado, mais fiel aos termos alemães, como também simplificar o texto.
28
existenciais, ou seja, passado e futuro.
Se o discurso determina aqueles três momentos essenciais nos
quais o ser-aí está no mundo, ou seja, relaciona-se com outros entes,
manuseia instrumentos e percebe o mundo, há a tendência de identificar
um tipo de postura ético/moral nisso. E, ao final, dizer que a esse
discurso subjaz algum tipo de ética, o que não parece ser tão absurdo
pelo que foi exposto.
Essa interpretação pode ser reforçada por outras ideias
presentes na obra de 27 de Heidegger. É bem sabido que o existente
humano permanece, quase sempre e na maioria das vezes (nas palavras
de Heidegger) decaído na impessoalidade, na disposição e na
compreensão. Em termos heideggerianos, significa manter-se na
inautenticidade
12
, i.e., de modo impróprio no discurso. Em outras
palavras, a temporalidade
13
que se manifesta no discurso, tem por base
um presente inautêntico, ou seja, uma atualização. Isso significa que o
discurso do Dasein decaído pode assim ser caracterizado com uma mera
atualização, que atende e esquece aquilo ao qual se refere.
Dito de outra forma, somente atende ao que se à visão, à
percepção. Qual o elemento complicador de tudo? O problema é que o
autor de Ser e Tempo deixa claro que autenticidade e inautenticidade
não estão sendo usados como elementos que nomeiam algum tipo de
comportamento ético/moral, ou seja, o Dasein na inautenticidade não se
encontra em um estado inferior a outro na autenticidade. Mas julga-se
que esse tipo de afirmação se refere aos sentidos tradicionais atribuídos
a esses termos que se ligam as éticas normativas. Diz Heidegger:
Os dois modos de ser propriedade e impropriedade -
ambos dos termos foram escolhidos em seu sentido
verbal rigoroso fundam-se no fato de a pre-sença
ser determinada pelo caráter de ser sempre minha. A
impropriedade da pre-sença, porém, não diz ‘ser’
menos nem um grau ‘inferior’ de ser.
(HEIDEGGER, 1997, p.78)
O que pode sugerir que não há um dever ser autêntico. Aqueles
12
Na versão portuguesa de Ser e Tempo o termo alemão eigentliche é traduzido
por “próprio” e o termo uneigentlich por “impróprio”. Nesse trabalho, usaremos “autêntico”
para substituir próprio e “inautêntico” para impróprio por julgar que sejam traduções mais fiéis
aos termos alemães e ao que o autor da obra pretendia com os seus usos.
13
um capítulo em que se explora a temporalidade e sua conexão com a
ética.
29
elementos dizem respeito tão somente ao modo como o ser-aí se
encontra em sua abertura. Assim, considerando-se que, quase sempre e
na maioria das vezes, como diz Heidegger, o discurso se dá no modo da
inautenticidade, a verdade do ser, não se mostra. Pelo contrário,
mantem-se oculta no seu mostrar.
O existente humano não se conta da facticidade em que está
jogado, do quão fácil é ganhar-se ou perder-se diante do ente em geral.
O discurso, nesse modo, é chamado por Heidegger de “falatório” que
mais oculta, dissimula, esconde do que revela, ou seja, o falatório
propicia uma apropriação inautêntica e ilegítima daquilo do que se fala,
i.e., do mundo. Na ligação com a ética pode-se dizer que o falatório
propicia uma apropriação inautêntica e ilegítima do outro, bem como
das relações que derivam dessa mesma apropriação.
O Dasein, enquanto ek-sistente
14
é ser-no-mundo, ou seja, ser-
em e ser-com. E, assim, considerando o discurso o lugar onde os
existenciais da abertura se articulam, afirma-se que o encontro com
outros entes é mediado pela linguagem. Não somente o encontro de
outros entes, aqui considerados aqueles que têm o caráter de Dasein, é
possibilitado e mediado pela linguagem, mas também, o encontro
daqueles entes que se dão pelo modo da ocupação, caracterizada por
Heidegger como um modo de lidar. Assim, o ocupar-se com outros
entes que não tem o caráter de Dasein, como também o encontro com
outros entes dotados de caráter de Dasein apenas é possível visto o ente
que se é encontrar-se enquanto tal em um mundo aberto,
previamente compreendido de alguma forma, já dado de algum modo. O
14
Heidegger usa essa estratégia ao escrever o termo “existência” para salientar
o significado latino de exsistere de onde se originou o termo alemão Existieren. Contudo,
aquele termo latino que significa “dar um passo à frente, para fora” transformou-se em
ex(s)istentia e essa em Existenz na língua alemão. Essa mudança implicou na perda do
significado original, passando a significar tão somente a existência de um ente em contraste
com a essência. Heidegger adota o termo Existenz para se referir a existência do Dasein por
julgar esse traço distintivo. Diz ele “A ‘essência’ da pre-sença está em sua existência.
(HEIDEGGER, 1997, p.77), mas entende por ele aquele significado originalmente perdido e
não simplesmente a existência de um ente que se em contraste com a essência. Então,
reserva esse termo para referir-se exclusivamente ao existente humano e usa ek-sistenz e ex-
sistenz em sua obra de 27 com essa intenção. Na tradução brasileira são usados os termos “ek-
sistir”, “ex-sistir” e “ek-sistente” com a intenção de manterem a mesma idéia. O termo
“essência” também sofre uma modificação por Heidegger. Ele o substantiva, assim, na frase
citada acima, “essência” deriva de Wesen que é escrito somente wesen. Que, em suas origens
siginficava “morada”, “vida”, “modo de ser”, entre outros e não somente “ser”, “ficar”,
“durar”. (INWOOD, 2002, p. 54). Assim o faz para distinguir o existir do Dasein de qualquer
outro ente, ou seja, com esse ele quer marcar o aspecto ontológico desse ente diante dos outros
entes que não são Dasein.
30
que possibilita, ao final, que o existente humano se aproprie desse
mesmo mundo.
Assim, a comunicação e a linguagem cotidiana são possíveis
graças a esta abertura prévia que possibilita não encontrar objetos
enquanto objetos, ou seja, em seu estado puro. Mas permitem encontrar
objetos como objetos para algo e outros entes com o caráter de Dasein
como semelhantes. E o modo de compreender esses semelhantes
determina a relação do ente que se é para com eles mesmos. Ora, então,
até aqui se insere a questão ética sem maiores problemas. E “diz-se” que
é somente pela linguagem que é possível ao Dasein encontrar mundo e
ter mundo.
Quanto a Heidegger e Wittgenstein, tanto um quanto o outro,
fazem distinção entre uma espécie de linguagem cotidiana e outra
filosófica. Em Heidegger, não uma associação direta dessa distinção
com o que se identifica pelo nome de ética, embora a dedução dessa
conexão seja possível. em Wittgenstein esse tipo de relação. Por
exemplo, afirma que a ética não tem relação com os fatos do mundo,
dando a entender que a ética não pode ser dita. Wittgenstein, assim
como Heidegger, percebe que um campo da experiência humana que
a linguagem não consegue abarcar, ou dizer, no qual a ética está
presente. Todavia, diferentemente do segundo Heidegger, Wittgenstein
não ultrapassa essa constatação, como afirma Loparic. Mas, neste ponto,
não se fala mais do Heidegger de Ser e Tempo e sim do Heidegger
posterior.
Agora, qual a relação desse trabalho com o de Loparic? A
Loparic deve-se exatamente o rito de tentar buscar uma aproximação
entre Heidegger e Wittgenstein, mostrando suas diferenças e
semelhanças. Aproximação que procura preservar a originalidade e
peculiaridades de ambos. Nesse sentido, tomou-se o seu trabalho como
exemplo e motivador da pesquisa procurando, por um lado, desenvolver
a idéia por ele trazida à tona com respeito à possível existência de uma
ética originária em Heidegger e aplicando-a a Ser e Tempo, obra tomada
como referência. Procurando, todavia, identificar nos modos de ser e na
temporalidade indícios que possam justificar elementos que apontem
para a existência de uma ética originária. Para tanto, é necessário
mostrar que não espaço nessa obra para a existência de éticas de
caráter teleológicas e deontológicas.
Com relação a Wittgenstein teve-se como horizonte a
aproximação que Loparic faz entre esse e Heidegger. Aproximação que
toma como parâmetro a ideia do silêncio ao que ambos são levados pela
31
constatação de uma insuficiência linguística. Contudo, insuficiência que
não deriva da linguagem mesma, mas da própria capacidade humana em
expressar certos aspectos da realidade ou do mundo. Capacidade da
qual a linguagem deriva.
Movido por essas questões procurou-se explorar a ideia da ética
originária em Heidegger e desenvolver uma abordagem que tornasse
mais clara a posição de Wittgenstein com relação à ética. E, ao final,
tentar, dentro do possível, fazer comparações entre ambos. Procurando
sempre, não reduzir um ao outro. Por isso as abordagens de Loparic
estarem no início e no final desse trabalho.
Assim, não se tem a intenção de refutar o trabalho de Loparic.
Pelo contrário, aceita-se que há semelhanças e que ambos chegaram, por
caminhos diferentes, a lugares muito parecidos e que, tais semelhanças e
os rumos que suas filosofias tomaram, levaram-nos a cada vez mais a
posições filosóficas irreconciliáveis. O trabalho de Loparic é usado
como motivador e horizonte delimitador dessa pesquisa, o qual, com
certeza, não foi e não se pretendeu esgotar.
No próximo capítulo será apresentada a concepção de
fenomenologia de Husserl. Na sua constituição, foi importante o
segundo volume das Investigações Lógicas, na qual delineia alguns
aspectos fundamentais do que entende por fenomenologia e a obra Idéia
da fenomenologia (Cinco Lições) que é decisiva com respeito a
reavaliação de seu método fenomenológico e acréscimo da noção de
redução fenomenológica.
Com esse capítulo quer se salientar o caráter descritivo
distintivo e identificador da Filosofia com relação as outras ciências.
Isso significa que a filosofia não é ciência propriamente dita; não é ela
mesma um conjunto de conhecimentos sobre algo. A filosofia tem a
característica de ser propedêutica, ou seja, auxiliar no desenvolvimento
das outras ciências, não sendo, ela mesma, ciência. Essa ideia é
importante para entendermos porque a tentativa de Scheler não é uma
tentativa válida, i.e., não se mantem dentro do ‘espírito husserliano’ do
que seja fenomenologia.
Por outro lado, também é importante para compreendermos a
Heidegger e o porquê a sua ontologia fundamental é uma descrição, não
dos vividos, mas da existencialidade. E, enquanto descrição, com
relação à ética, em Ser e Tempo, não se encontram regras ou normas
claras e orientadoras para o agir humano, como também não faz uma
distinção entre ética e moral. Todavia, isso não esse movimento não é
feito não pela ética não ser importante, mas escapar a proposta de Ser e
32
Tempo. A pergunta de Beaufret, registrada na Carta Sobre o
Humanismo, que será explorada adiante, aponta para esse movimento
complementar da obra de 27 quando pergunta se a investigação
heideggeriana não deveria ser complementada por uma ética.
33
2. A FENOMENOLOGIA HUSSERLIANA
Não é de hoje que o fascínio por encontrar um método
infalível na filosofia capaz de, pelo menos, minimizar a possibilidade do
erro frente à possibilidade, quase infinita, de percepções da realidade.
Um método que torne possível aceder às grandes verdades da natureza
humana de tal forma a não haver dúvidas quanto à legitimidade dessa
mesma verdade. Tudo isso se tornou mais problemático com o sucesso
da física e de outras ciências emergentes por volta do século XVI e
XVII. O desenvolvimento posterior e o consequente sucesso dessas
somente aumentaram o desconforto da filosofia.
Ela, então, passa a lutar para provar a sua legitimidade, seu
direito ao sol. Com o hegelianismo se tem um dos exemplos de uma das
grandes e talvez mais ousadas tentativas de tornar hegemônica a
compreensão filosófica aplicada ao homem, à natureza e ao Estado.
Todavia, essa tentativa também se perdeu e com ela a credibilidade com
relação ao discurso genuinamente filosófico como um todo, ou seja, um
discurso que pudesse apresentar respostas as mais diferentes questões e
problemas considerados tipicamente filosóficos, como a verdade, o ser e
os valores, entre outros. Restabelecer esta credibilidade, esse status quo,
após o colapso do idealismo, é, em grande parte, um débito da filosofia
atual para com a anterior, que, até mesmo hoje, acaba ocupando muitos
pensadores.
A história da fenomenologia está diretamente ligada à sua
posição com relação às ciências em geral, mais precisamente à história
dessa situação na segunda metade do século XIX; embora, via de regra,
associa-se o termo somente a Husserl e Heidegger. Contudo, eles não
foram os primeiros a usarem o termo “fenomenologia”. Ao que tudo
indica, ele foi cunhado, inicialmente, na escola de Wolff e usado, entre
outros, por Herder, Lambert, Kant, Hegel e Hamilton (MORAN, 2000,
p.6), com significados e funções bem diversas daquelas consagradas por
Husserl e Heidegger, principalmente. Todavia, tanto em Husserl quanto
em Heidegger, a acepção, a força e peso atribuído ao termo
“fenomenologia”, impedem que ele seja compreendido apenas como
mais um conceito ao lado de outros, uma vez que o que está em jogo é a
própria possibilidade do fazer filosófico. E como foi pensada, a
fenomenologia não foi concebida para ser um (ou mais um) sistema de
dogmas ou princípios aos quais os resultados de uma investigação deve
se conformar.
34
A fenomenologia pura representa um terreno de
indagações neutras, no qual tem suas raízes as
diferentes ciências. Por outra parte serve a
psicologia com ciência empírica. Em seu
procedimento puro e intuitivo, analisa e descreve
na universalidade essencial – sobre tudo como
fenomenologia do pensar e do conhecer as
vivencias de representações, de juízo, de
conhecimento que concebidas empiricamente
como classes de acontecimentos reais, no contexto
da realidade natural e animal, submete a
psicologia a um estudo empírico-cientifico. Por
outra parte, a fenomenologia ilumina as ‘fontes’
das quais ‘brotam’ os conceitos fundamentais e
leis ideais da lógica pura, e até aqueles que têm
que ser perseguidos essas leis e conceitos, para
receber a ‘claridade e distinção’ que se exige a
uma compreensão crítica da gica pura.
(HUSSERL, 1985, p. 216)
Além da caracterização da fenomenologia como produtora
de indagações neutras, as quais são o fundamento das outras ciências,
temos o adjetivo puro, salientado por Husserl, que identifica o aspecto
transcendental da fenomenologia que é reforçado pela ideia que suas
análises e descrições ocorrem no campo da universalidade essencial.
Indagações, análises e descrições que iluminarão as fontes de onde
brotam os conceitos e leis da lógica pura, ou seja, da lógica de caráter
transcendental. Assim, o campo das indagações e descrições
fenomenológicas é anterior ao conhecimento das ciências que,
efetivamente, dizem como o mundo é. Desse modo, o conhecimento
científico, por não ser um tipo de indagação neutra assumiu uma
determinada perspectiva
15
com relação àquele mesmo mundo que
procura conhecer. Mais adiante, na mesma obra, lê-se:
Assim, pois, essa maneira de estar dadas as idéias
lógicas e as leis puras, que com elas se
constituem, o podem bastar. Coloca-se,
15
Nesse sentido, por exemplo, a biologia é um tipo de perspectiva com relação
ao homem e o mundo, a física, outra e assim por diante. Mesmo investigando o mesmo objeto,
devido a essas perspectivas, os resultados a que chegam são diferentes.
35
portanto, o grande problema: levar as idéias
lógicas, os conceitos e leis, a claridade e
distinções epistemológicas. (Ibidem, p, 217)
É claro que essa exigência de clarificar e distinguir
epistemologicamente conceitos e ideias lógicas não diz respeito ao
campo das indagações que a ciência faz, mas ao campo fenomenológico.
Por outro lado, Husserl continua: “A fenomenologia das vivências
lógicas tem por fim proporcionarmos uma compreensão descritiva (uma
compreensão empírico-psicológica) [...]”. (Ibidem, p. 219)
Husserl, entretanto, também não quer ver o seu projeto
associado a uma espécie de psicologia, pois a fenomenologia não é
somente isso, uma espécie de psicologia descritiva, e então mais adiante
diz:
Naturalmente contestamos: se a palavra psicologia
conserva seu antigo sentido, então a
fenomenologia não é psicologia descritiva é a
descrição ‘pura’, que é própria da fenomenologia
isto é, a intuição essencial executada sobre a
base de intuições singulares exemplares de
vivencias (ainda que sejam fingidas na fantasia
livre) e a fixação descritiva nos conceitos puros da
essência intuída -, não é uma descrição empírica
(científico-natural), senão que exclui ora bem a
execução natural de todas as apercepções e
posições empíricas (naturalistas). (Ibidem, p. 227)
A fenomenologia está na base, portanto, não somente da
possibilidade de uma psicologia, mas também, da ciência em geral. Ela
é a intuição essencial, a fixação descritiva (cristalização) nos conceitos
puros da essência, ou seja, aquelas descrições neutras que analisam e
descrevem, na universalidade essencial, as fontes das quais brotam os
fundamentos de toda e qualquer ciência, até mesmo da psicologia.
Por outro lado, também é interessante lembrar todo o
esforço husserliano, presente não somente nas passagens citadas, mas
também, em outras obras com o intuito de afastar, não somente a ideia
de que a fenomenologia era uma espécie de psicologia, mas, também, a
ideia de que a psicologia pudesse vir a se constituir de alguma forma em
epistemologia e, assim, vir ocupar o lugar dessa última.
36
Não, pois, a psicologia, senão a fenomenologia é
o fundamento das aclarações lógicas puras (como
de todas as referentes a crítica do conhecimento).
Mas ao mesmo tempo em função totalmente
distinta, é o fundamento necessário de toda
psicologia – que quer chamar-se com pleno direito
de rigorosamente cientifica -; analogamente como
a matemática pura, por exemplo a teoria pura do
espaço e do movimento, é necessário o
fundamento de toda a ciência extra da natureza
(teoria da natureza das coisas empíricas com suas
figuras empíricas). (Ibidem, p. 227)
Ela foi concebida para ser um modo de investigação, um
modo radical de investigação filosófica. Portanto, ela é mais uma
prática, um modo de abordagem, um fazer propriamente dito do que um
sistema.
Embora haja um número de temas que
caracterizem a fenomenologia, no geral esta nunca
desenvolveu um conjunto de dogmas ou
sedimentou-se em um sistema. Isso afirma,
primeiramente e antes de tudo, ser um modo
radical de fazer filosofia, uma prática antes que
um sistema. (MORAN, 2000, p. 4)
Mas, é claro, um fazer radical que é mais uma postura
diante daquilo que é investigado, que tem como objetivo principal dizer
somente aquilo que se mostra, no modo como se mostra àquele que
investiga. E o que deve ser descrito é o que é chamado de fenômeno,
que deve ser descrito tal qual se mostra, mas não à percepção, mas à
consciência daquele que investiga.
Fenomenologia é melhor compreendida enquanto
um estilo anti-tradicional de filosofar, que enfatiza
a tentativa de ir a verdade das coisas, descrever o
fenômeno, em sentido amplo, qualquer que seja o
modo no qual esse aparece, isto é, como este
manifesta-se ele mesmo à consciência, à
experiência. (MORAN, 2000, p. 4)
Essa consciência, a qual o fenômeno deve se manifestar é a
de caráter transcendental, do eu transcendental que superou o eu natural
37
e de tal forma a possibilitar aquelas descrições neutras e apriorísticas
antes mencionadas. Desse modo, a descrição do fenônemo tal qual ele
aparece à consciência daquele que investiga não é uma descrição no
sentido que a mesma se deterá apenas aos aspectos externos daquilo que
aparece, pois, se assim fosse, haveria uma redução da filosofia a uma
espécie de descrição dos aspectos matérias e a fenomenologia seria
apenas uma variação de algum tipo de empirismo grosseiro. E, como
tal, a filosofia se priva do seu horizonte transcendental e, desse modo,
fica condenada a desaparecer.
A descrição do fenômeno é, tão somente, uma das etapas
que visa garantir a fidelidade ao que é descrito no modo como ele se
àquele que o investiga. Assim, a fenomenologia não defende a ideia de
uma experiência pura da realidade ou do real, mas a descrição da
experiência que se tem do mundo, no modo como ela aparece à
consciência, ou seja, no modo como é captada, percebida, dos vividos.
Aqui, os termos captar e perceber a realidade não são usados em seu
sentido forte, mas no modo como algo é captado, percebido pela
consciência.
Tal postura investigativa husserliana visa evitar que a
filosofia desaparecesse frente ao crescente domínio do pensamento
científico daquele período. Então, se a fenomenologia é uma descrição,
se essa descrição é neutra e a priori, ela não é um conhecimento tal qual
se concebe, ou seja, ela não é uma apresentação da realidade. Antes, é
uma atitude que permite trazer à tona o real de tal forma a possibilitar
uma explicação (das ciências aplicadas) do mesmo. O conhecimento
científico é um passo posterior. Tudo o que se possa enunciar a respeito
do mundo e do homem nesse mesmo mundo é posterior. Posterior, aqui,
significa precisar de um complemento, i.e., de uma ciência que produza
esse conhecimento.
A ideia de que a filosofia (e a fenomenologia) é
transcendental (um idealismo transcendental) gesta-se somente por volta
de 1906 com a aproximação de Husserl da filosofia kantiana em sua
obra a Idéia da fenomenologia
16
. Com essa aproximação aparece,
também, a ideia de redução fenomenológica que é imprescindível à sua
fenomenologia. Assim, essa ideia metodológica está diretamente ligada
ao aspecto transcendental da fenomenologia e a identifica.
16
Ideia da Fenomenologia (Cinco Lições). Rio de Janeiro: Edições 70, 1990
Pronunciadas em 1907 como introdução a Lição sobre a Coisa.
38
As lições (conjuntamente com a Lição sobre a coisa) são
importantes e representam um marco divisório com relação aos seus
escritos posteriores.
“Era um novo começo, não compreendido nem aceito
pelos meus discípulos, como eu esperava. As dificuldades eram demasiado
grandes e não podiam ser superadas logo à primeira tentativa”. (HUSSERL,
1990, p. 15) Então, nela encontram-se expostas duas ideias
fundamentais à filosofia husserliana, a redução fenomenológica e a ideia
da constituição dos objetos na consciência.
Embora que em 1905 sabe-se da existência de anotações
sobre a ideia de redução fenomenológica, entretanto o modo como essas
são expressas nessas Lições
17
é substancialmente diferente.
18
Essa ideia
de que a fenomenologia é transcendental, em grande parte, ajuda
Husserl a resolver o problema, identificado por ele mesmo em um
conjunto de lições dadas entre 1907 e 1908, da identificação da
fenomenologia (das Investigações Lógicas de 1901) com uma espécie
de psicologia descritiva
19
.
No início das Lições Husserl tem uma seção chamada
Encadeamento das Idéias das lições subdivididas em três outras seções
que vão do que chama do Primeiro ao Terceiro grau da consideração
fenomenológica, em que apresenta aqueles momentos cruciais do seu
método e que implicam no que chamamos de renovação de sua
fenomenologia. É oportuno salientar que esses momentos que
constituirão a atitude investigativa típica de todo fenomenólogo e que
possibilitará o acesso a constituição dos objetos é sempre feita tendo a
ideia da consciência transcendental como horizonte. Ideia que não pode
ser estendida a fenomenologia heideggeriana ou aquela aproximação
feita por Wittgenstein da mesma. Neles, não eu transcendental ou
sujeito transcendental, objetos que se constituem na consciência. Essa
parte desse trabalho visa, então, não somente caracterizar melhor a
fenomenologia de Husserl, mas demarcar uma diferença fundamental
entre ela e os outros fenomenólogos aqui apresentados.
Então, no primeiro grau de consideração fenomenológica,
tem-se a distinção entre imanente e transcendente. Essa distinção
17
Usaremos somente Lições para nos referia a obra Idéia da Fenomenlogia de
E. Husserl.
18
Walter Biemel, editor da obra alemã escreve referindo-se a essa diferença
“[...] no entanto, a diferença relativamente às Cinco Lições é muito grande. Em 1905, pode
falar-se de um primeiro tactear titubiante, ao passo que, nas Cinco Lições, a idéia já está
expressa em toda a sua significação [...]” (HUSSERL, 1990, p. 13)
19
Essa discussão apesar de ser extremamente pertinente nos desviaria dos
objetivos desse trabalho.
39
possibilita a Husserl afirmar a importância da redução fenomenológica,
pois o conhecimento proporcionado por todo e qualquer tipo de ciência
não possibilita a claridade necessária daquilo que deve ser intentado
pelo fenomenólogo, o transcendente.
De início, não nos é permitido admitir
conhecimento algum como conhecimento; de
outro modo, não teríamos nenhuma meta possível
ou, o que é a mesma coisa, uma meta com sentido.
(HUSSERL, 1990, p. 23)
Mais adiante acrescenta:
É-me permitido dispor de todas as ciências só
enquanto fenômenos, portanto, não como sistemas
de verdades vigentes que possam para mim ser
empregues a título de premissas ou até de
hipóteses, como ponto de partida; por ex., toda a
psicologia, toda a ciência da natureza. (Ibidem, p.
26)
Por ser o transcendente um dado não autoevidente, como
no caso do imanente. Ele dirá que não podemos admitir o uso de um
dado transcendente como ponto de partida de uma investigação, pois o
transcendente não está no imanente. Isso é o que entende, também, a
redução fenomenológica. Diz Husserl referindo-se a essa:
Diz ela: a todo o transcendente (que não me é
dado imanentemente) deve atribuir-se o índice
zero, isto é, a sua existência, a sua validade não
devem pôr-se como tais, mas,quando muito, como
fenômenos de validade. (Ibidem, p. 25-26)
Com isso, Husserl começa assegurar à fenomenologia um
espaço claro com relação às outras ciências. Podendo, agora, começar a
afastar a ideia de que ela seja um tipo de psicologia descritiva. Pois, a
redução tornará possível em um movimento único delimitar o campo
investigativo da fenomenologia afastando as ciências pelo isolamento do
que é transcendente, ou seja, do puro dado que se constitui na
consciência.
No segundo grau de consideração fenomenológica uma
continuação daquela primeira redução que isola o dado em um
40
fenômeno puro, i.e., no modo como ele se apresenta e se constitui na
consciência. Se na primeira redução coloca-se entre parênteses o
conhecimento gerado pelas ciências, agora, nessa redução, a própria
existência do eu daquele que investiga, deve ser colocado entre
parênteses.
O fenômeno psicológico na apercepção e na
objectivação psicológicas não é realmente um
dado absoluto, mas só o é o fenômeno puro, o
fenômeno reduzido. O eu que vive, este objecto, o
homem no tempo mundano, esta coisa entre as
coisas, etc., não é nenhum dado absoluto; por
conseguinte, também o não é a vivência enquanto
sua vivência. (HUSSERL, 1990, p. 26)
Assim, nem mesmo a certeza que o “eu” pode ter de sua
existência através da cogitatio cartesiana serve como dado absoluto. Ele
deve, também, ser submetido a epoché, ou seja, ser colocado entre
parênteses. Agora, depois de todas essas reduções é hora do fenômeno
aparecer enquanto dado puro à e na consciência. Essa etapa é chamada
de “ver fenomenológico” e está para além da simples percepção, não se
confundindo com ela. Somente nessa temos a evidência necessária à
constituição do conhecimento. Diz Husserl:
E, no entanto, numa análise mais precisa, quão
diverso se revela agora o ver as coisas! [...] não
tem sentido algum falar de coisas que
simplesmente existem e apenas precisam ser
vistas; mas que esse’ meramente existir’ são
certas vivências da estrutura especifica e mutável;
que existem a percepção, a fantasia a recordação,
a predicação, etc. e que as coisas não estão nelas
como num invólucro ou num recipiente, mas se
constituem nelas as coisas, as quais não podem de
modo algum encontrar-se como ingredientes
naquelas vivências. (Ibidem, p. 34)
41
Logo em seguida complementa referindo-se a esse mesmo
processo:
Por este caminho, acabamos também por chegar à
compreensão de como pode ser captado o objecto
real transcendente no acto de conhecimento (ou
conhecer-se a sua natureza) como aquilo que, de
início, é intentado; e ainda como o sentido deste
intentar (Meinung) se cumpre pouco a pouco, no
nexo cognoscitivo continuado [...] (HUSSERL,
1990, p. 34)
Com isso dá-se uma caracterização do método
fenomenológico husserliano com a intenção de salientar as diferenças
para com o de Heidegger. Por outro lado, torna-se possível aproximação
e analogia com Wittgenstein. Nisso, ficam claros os problemas que
podem surgir, por exemplo, de posições que sustentam que o filósofo
austríaco é fenomenólogo. Problemas esses, ligados, por exemplo, a
idéia da existência de um eu transcendental ou consciência pura, o que
não seria admissível dentro de sua filosofia.
A seguir mostra-se uma tentativa de derivar uma ética a
partir do uso da fenomenologia. Para tanto, tomou-se Max Scheler como
exemplo paradigmático dessa tentativa. A sua teoria ética é identificada
como “ontologia dos valores” ou, ainda, como “fenomenologia dos
valores.”, a qual faremos uma breve exposição.
Os motivos para isso são, além sua proximidade
(histórica) a Heidegger e Husserl (contemporâneos) e algumas
semelhanças filosóficas entre eles, o fato da sua ética denominar-se
exatamente de “ontologia dos valores” e ser derivada diretamente do uso
do método fenomenológico, pois, como será visto, em Heidegger, o uso
desse método não permitirá que ele chegue a tais resultados. Também é
importante salientar que não se fará uma análise crítica da mesma. Quer
seja isoladamente, ou em comparação com a fenomenologia
heideggeriana.
42
2.1. A FENOMENOLOGIA APLICADA A CONSTRÃO DE
UMA ÉTICA
Max Ferdinand Scheler
20
é um dos grandes herdeiros da
fenomenologia husserliana e conjuntamente com Heidegger é outro
nome importante na história da fenomenologia. Considerado por alguns,
como Habermas, um legítimo representante daquela fenomenologia,
tanto quanto Heidegger. Contudo, diferentemente desse, nunca chegou a
desfrutar do mesmo reconhecimento público e, a mesmo, filosófico.
Desse modo, apesar de ser contemporâneo tanto de Husserl quanto de
Heidegger quase somente o nome de Heidegger e Husserl foram
associados à história da fenomenologia, fato que permanece, em maior
ou menor grau, na contemporaneidade. Scheler ficou relegado a um
segundo plano. Sua morte prematura em 1928, certamente contribuiu em
grande parte para isso.
Todavia, teve o rito, diferentemente de Heidegger, de
aplicar a fenomenologia ao desenvolvimento de uma ética e contribuir
para uma filosofia moral. Essa contribuição constitui-se em um conjunto
de artigos que foram publicados desde o primeiro número do Jahrbuch
für Philosophie und Phänomenologische Forchung
21
entre os anos de
1913 e 1916. Apesar de ser considerado um fenomenólogo e de ter
levado o projeto husserliano adiante, discordava (Scheler) de algumas
posições de Husserl. Lê-se em sua obra O lugar do homem no Cosmos
(1928) quando, em uma das seções, Scheler fala da existência de uma
técnica inventada e aplicada pelo próprio homem com a função de
anular de modo fictício o real, que ele recusa como possível:
Nem E. Husserl pensa outra coisa, quando funda o
conhecimento das idéias em uma redução
fenomenológica, isto é, na operação de “excluir”
ou de “colocar entre parênteses” o coeficiente
existencial (contingente) das coisas, para alcançar
sua essência. Não posso concordar no detalhe com
a teoria desta redução dada por Husserl; mas devo
conceder que nela está significado o ato que
20
1874 - 1928
21
Anuário para filosofia e investigação fenomenológica
43
define mais propriamente o espírito humano.
(SCHELER, 1938, p. 29)
Com isso deixa claro que não julga possível colocar o
mundo e a si mesmo entre parênteses e colocar em suspensão todos os
juízos possíveis. Não é anulando o contingente que se chegará à
essência, como pensava Husserl. Ao final, deixa claro que não concorda
no detalhe com isso, ou seja, com esse movimento de exclusão do
contingente, mas não da busca pela essência, ou seja, por um
conhecimento seguro e último da natureza.
Aqueles artigos sobre ética publicados desde o primeiro
volume no Anuário de Husserl (no período de 13 a 16) serão reunidos
sob o título de O Formalismo na ética e a ética material dos valores
22
.
Esse trabalho não é somente considerado a sua principal contribuição a
investigação ética, mas, também a sua principal obra filosófica. É nele
em que se encontra a sua famosa teoria chamada de “ontologia dos
valores”. E, a posição filosófica que leva a essa teoria parte de uma
crítica ao formalismo ético da Kant com relação à ideia de dever
23
kantiano.
Por outro lado, para entendermos melhor a sua crítica e sua
ideia sobre a ética, julga-se necessário entender como essa situa-se
dentro do contexto histórico no qual apareceu
24
. O impulso de Scheler,
como o de Heidegger, pode ser colocado dentro da tensão entre o
sentimento e o conhecimento, i.e., um espaço afetivo e outro
cognoscitivo. Essa tensão na história da filosofia fica mais evidente no
22
Der Formalismus in der Ethik und die Materiale Wertethik.
23
Não se discutirá o problema que envolve a compreensão de Scheler do uso do
termo “dever” por Kant, contudo, registra-se uma passagem do livro de Gadamer sobre o caso:
“Es cierto que el resumen kantiano-estoico de la problemática moral bajo la «doctrina de los
debere se ha vuelto extraña para nosotros, pero sólo se trata de un uso no familiar del
lenguaje. La palabra «deber» no significa en el uso kantiano una autoridad que manda a ciegas
-como ya Scheler malentendió terriblemente a Kant-, sino que apela a la propia aceptación y
comprensión moral; y cuando Kant usa el concepto de «fin en sí mism para los deberes hacia
uno mismo y hacia otros, se trata de una expresión extremadamente paradójica que justamente
no remite a una «verdad superior». Tugendhat mismo cita (pág. 161) la frase de Kant: «Así se
representa el ser humano necesariamente su propia existencia». (GADAMER, 2002, p. 9)
24
Esse breve resumo do que leva ao aparecimento de sua posição filosófica
contribuirá para uma melhor compreensão do lugar ocupado, não somente por sua teoria, sua
idéias, mas àquelas de Heidegger e outros filósofos. Para uma melhor e maior compreensão
sobre essas circunstâncias consultar a obra de Schnäldebach, Filosofia en Alemania, referida na
bibliografia desse trabalho.
44
século XIX e no início do século XX com autores como Schiller,
Hölderlin, o jovem Hegel, Schopenhauer e Nietzsche, entre outros.
Por exemplo, a ideia nietzschiana com relação ao
“sentimento do trágico e a sua oposição entre o “apolínio” e o
“dionisíaco” visam exatamente inverter a balança, movimento que parte
da razão para o sentir (ou afetos). Mais tarde, no mesmo Nietzsche,
aparecerá o conceito da “embriaguez que continua dentro da mesma
perspectiva. Outro exemplo que pode ser dado é A. Schopenhauer, o
qual se identificou com a ideia nietzschiana da capacidade da música em
abrir o mundo interior humano e transformar a dor em alegria.
(PALLÁS, 2002, p. 32).
Conforme PÁLLAS (Ibidem, p. 32), essas ideias marcam
uma recusa (peculiar à história da filosofia após Kant) e uma busca por
princípios alternativos ao formalismo filosófico característico da
filosofia após Descartes e os problemas criados por sua filosofia como,
por exemplo, a distinção entre a res cogitans e a res extensa. Nessa a
interioridade cristã é, agora, restrita ao campo subjetivo delimitado pela
razão. A subjetividade, outrora interioridade constituída em relação a
um ente supremo, perde esse horizonte e sozinha, desfruta de uma
autonomia que lhe exige critérios seguros e claros para a sua realização
(critérios seguros conjuntamente perdidos com aquele horizonte).
O resultado é que a subjetividade, agora, é autônoma e,
como tal deve se impor, ou seja, deve buscar a instituição de si mesma.
Essa nova tarefa imposta à razão tem implicações éticas na medida em
que essa mesma razão, agora autônoma, deve saber ou poder encontrar e
distinguir regras claras e seguras para o viver, quer seja em sociedade ou
não, sem auxílios ou parâmetros externas a ela mesma. Esse período na
história da filosofia no qual, sob a égide da autonomia da razão e a
crença nas suas capacidades em alcançar um conhecimento seguro e
indubitável do homem e do mundo, a subjetividade busca constituir-se,
é identificado, via de regra, como filosofia moderna.
Com respeito à capacidade de conhecer (e constituir-se) da
razão, Pállas cita Kant como aquele que teria delimitado de forma clara
as possibilidades humanas ao escrever a Crítica da Razão Pura. Nessa,
com relação à capacidade humana de conhecer, teria deixado claro que o
sujeito teórico não pode ir além dos dados dos sentidos. Mas isso
implicava em uma incapacidade da própria razão em encontrar critérios
seguros para o agir prático/moral.
Então, com o intuito de complementar a obra anterior, teria
escrito a Crítica da Razão Prática, na qual institui o sujeito moral.
45
Sujeito que não equivale mais ao sujeito teórico da sua obra anterior e
institui o imperativo categórico com o objetivo de possibilitar um
critério seguro e orientador às ações morais. O que anteriormente não
era possível, pois o sujeito teórico não poderia encontrar na experiência
esses critérios. Ir além dessa, também estaria além de suas capacidades.
A característica marcante do imperativo categórico é que
o mesmo não pode ser determinado ou motivado por qualquer tipo de
interesses sejam bons ou ruins, nobres ou não, pois, do contrário, o ato
moral não será mais autônomo, mas determinado por elementos
externos, ligados à experiência e interesses subjetivos.. E essa
autonomia não pode ser relegada a um segundo plano ou submetida a
algo, se assim fosse, não seria uma autonomia legítima.
A concepção kantiana, tal qual entende Pállas (Ibidem, p.
33) com relação à ética/moral é um exemplo do formalismo intelectual
que Nietzsche, entre outros, recusará, assim com Scheler. Recusas que
entrarão para a história da filosofia marcada por diversos movimentos e
posições filosóficas. As chamadas “filosofias da vida” são,
possivelmente, uma das mais fortes reações a esses “formalismos”, dos
quais Kant foi apenas um exemplo. Todavia, é um exemplo que está
diretamente conectado ao surgimento da teoria de Scheler.
As filosofias da vida (Lebensphilosophie), nascidas dentro
dos movimentos neorromânticos, representaram a busca pelo novo
horizonte que possibilitasse uma “experiência autêntica” do mundo e do
homem. A palavra “vida” na expressão “filosofias da vida” representava
essa postura crítica diante da civilização intelectualista e antivital e não
diz respeito à vida enquanto um ato biológico, (SCHNÄDELBACH,
1981, p. 173) mas à vida com um todo, na qual o aspecto biológico é
somente isso, mais um aspecto ao lado de outros.
Assim, as filosofias da vida marcaram aquela recusa
aqueles formalismos e buscaram princípios alternativos à ideia de que a
realidade ou, o que recebe o título de realidade, seja (por exemplo) um
engendro da razão. Um dos resultados disso é que a percepção cognitiva
do mundo é colocada de lado, i.e., passa-se a desconfiar de sua validade
e legitimidade.
Agora, falasse de um algo que não é a percepção, algo que
se dá antes dela e que a condiciona. E fazendo isso influi diretamente no
conhecimento sobre o homem e o mundo que essa mesma razão poderá
instituir. Esse novo tipo de “percepção” (que não é sensorial) é
identificada como uma espécie de “sentir” ou “intuição emocional”,
através das quais o mundo chega ao homem antes mesmo de estar ciente
46
de que esse mesmo mundo exista, ou seja, antes mesmo da razão
conseguir formular algo, algum tipo de conhecimento. Essa percepção
alternativa é, na verdade, um modo no qual o mundo abra-se ao
existente humano antes de qualquer coisa.
Até mesmo em Wittgenstein, segundo alguns, haveria eco
dessas recusas representadas pelas filosofias da vida. Por exemplo, o
conceito de formas de vida do segundo Wittgenstein é apontado como
sendo superior ao conceito de jogos de linguagem. (GIER, 1981, p.
69/70) Isso seria uma prova de que aquela convicção das “filosofias da
vidade que haveria um outro modo de captar a realidade e que esse é
anterior a todo e qualquer formalismo que a razão crie para explicar esse
mesmo real também estaria presente na filosofia do segundo
Wittgenstein. Tese que o próprio Gier pretende defender afirmando que
o conceito de formas de vida é superior e mais básico do que os de jogos
de linguagem. Essa aproximação de Wittgenstein das Lebenphilosophie
é chamada, por exemplo, por H.R.Smart de a “metafísica final
25
de
Wittgenstein
26
. (SMART, Apud GIER, 1981, p. 69)
Heidegger se insere dentro desse contexto de recusa e
busca por uma alternativa aos formalismos filosóficos, que Husserl,
também foi porta voz em certa medida. Desse modo, fica claro os
motivos pelos quais tanto um quanto o outro afastam-se filosoficamente
de seu antigo mestre, Husserl. Por outro lado, há uma semelhança muito
grande entre Scheler e Heidegger, pois ambos afirmam que o mundo se
abre a partir de um sentimento ou disposição fundamental.
Em Scheler esse sentimento por meio do qual o mundo
abre-se é o amor; em Heidegger, a angústia
27
. (PALLÁS, 2002, p. 34)
28
Em outra obra importante para a compreensão de seu pensamento
encontra-se a seguinte afirmação:
25
Metaphysical ultimate”
26
Não exploraremos essas afirmações, apenas são citadas como exemplo de
autores que aproximam Wittgenstein das filosofias da vida. Por outro lado, não se está dizendo
que a filosofia do filósofo austríaco é uma filosofia da vida, contudo, é digno de nota a
possibilidade dessa aproximação.
27
Contudo, a angústia heidegeriana não pode simplesmente ser reduzida ou
associada ao sentimento mesmo, pois, nele, ela é alçada ao patamar ontológico e, portanto,
acima do sentimento propriamente dito. Mas, continua sendo uma tonalidade afetiva.
28
Em Ser e Tempo encontramos referências de Heidegger a Scheler, como
também há registros sobre as opiniões de Scheler sobre a leitura que fez da obra de 27.
47
Mas isso mostra a correlação destes atos,
enquanto pensamos ‘idéias’, não é tampouco um
mero achado ou descobrimento de uma ordem
existencial e essencial independente de s, senão
uma verdadeira coparticipação na produção, na
geração das idéias e dos valores submetidos ao
amor eterno, partindo da origem mesma das
coisas. (SCHELER, 1938, p. 27)
Embora tenham sido herdeiros da fenomenologia
husserliana ,contemporâneos e sendo exemplos daquela recusa a qual
nos referimos, Scheler e Heidegger não trabalharam a filosofia na
mesma perspectiva, ou seja, não chegaram a compartilhar de problemas
e questões filosóficas comuns. Por exemplo, em Ser e Tempo
encontramos referências de Heidegger a Scheler, como também
registros sobre as opiniões de Scheler sobre a leitura que fez da obra de
27
29
. Porém, não é o objetivo desse trabalho traçar essa aproximação e
análise. Contudo, cita-se somente uma das impressões de Scheler sobre
a obra de 27 para exemplificar a importância dessa para ele na medida
que trata de assuntos que julga pertinente à filosofia. Por outro lado, esta
citação revela a proximidade dos interesses e perspectivas filosóficas de
Heidegger e Scheler:
Apesar de tudo me prometo muitíssimo da
continuação do trabalho de Heidegger. Seu livro
Ser e Tempo é a obra mais original, livre e
independente das simples tradições filosóficas que
nós temos na filosofia atual da Alemanha; o autor
aborda de forma radical e ao mesmo tempo
científica os problemas supremos da filosofia.
(SCHELER, apud PALLÁS, 2002, p. 34)
Voltando ao tema da ética em Scheler, a ontologia dos
valores é a concepção de uma ética fundada, exatamente, em uma
percepção sentimental do mundo, representando, portanto, uma
29
Essas impressões estão registradas na obra O problema emocional da
realidade. Ser real, resistência-angústia-cuidado e realidade. Publicado no volume XIX, Späte
Schriften. Francke: Berna e Munich, 1976 das obras completas de Max Scheler.
48
alternativa àquele formalismo kantiano
30
. Na obra O Formalismo na
ética e a ética material dos valores encontra-se a seguinte afirmação:
A existência de uma hierarquia material objetiva
dos valores, que nos facilita o discernimento, faz
possível também um ‘objetivismo e um
absolutismo rigorosamente éticos.
(SCHELER,
apud SCHNÄDELBACH, 1991, p. 226)
Isso significa para Scheler que os valores existem e
delimitam a percepção e a razão, mas possibilitam alcançar-se tanto a
objetividade das ciências (que Kant tornou impossível de ser constituída
pela razão prática), como também a certeza metafísica da razão teórica.
Além disso, existem os valores (não o valor) e há diferença entre eles no
sentido que alguns são mais elevados (éticos) do que outros. Essa
diferença baseia-se no fato de que alguns possibilitam uma realização
mais completa do homem. Além disso, para cada tipo de valor
corresponderá um tipo de pessoa e tais valores. Os valores schelerianos
são similares às categorias kantianas, com a diferença fundamental de
que são, por um lado captados pela percepção sentimental ou intuição
emocional do mundo, ou seja, eles são reconhecidos por toda e qualquer
pessoa, quer ela tenha ou não consciência disso e, por outro, são
produzidos pelas interações de homem com o mundo.
De modo mais específico, a ontologia dos valores de
Scheler nasce como uma alternativa à ética Kantiana e a sua noção de
dever kantiano, para a qual não lugar para os valores. A ideia de
Scheler é que existe outra via que possibilita um acesso ao
conhecimento e que condiciona os outros modos de conhecer, quer
sejam eles oriundos dos sentidos, quer sejam da razão.
Esse outro modo no qual mundo aparece é a percepção
emocional (ou intuição sentimental). Essa percepção é uma forma de
sentir o mundo, entrar em contato com o mesmo, de compreendê-lo,
antes mesmo da percepção e da razão. Os valores, então, serão o
resultado direto dessa percepção emocional da realidade. Eles
determinam o comportamento humano nesse mesmo mundo na medida
em que, por um lado, condicionam a percepção da realidade e a
produção do conhecimento inteligível e, por outro, determinam as
escolhas humanas, o que condiciona o comportamento ético do homem.
30
Nicolai Hartmann escreveu uma obra, em 1926, também com o titulo de
Ética, na qual recorre e realiza o projeto de Scheler.
49
Os valores, então, não somente condicionam a percepção e
a razão, mas são tão reais quanto eles, ou seja, realmente existem
31
.
Além disso, possuem a característica de serem à priori, como no caso
das categorias Kantianas e, passíveis de serem percebidos pelos sentidos
através de sua realização material que não esgota ou anula o caráter
material e ideal dos valores. Os valores, embora ideais, podem ser
experimentados, contudo, não são fatos ou algo no mundo.
O interessante é que os valores, resultados da percepção
emocional do mundo, interferem diretamente na formação da identidade
do eu, pois isso que se chama “eu” e que identidade a alguém não
está desde sempre dado ao homem. Não é gerado de forma espontânea
pela natureza ou se forma ao longo do desenvolvimento humano sem
interferência do meio. O que forma um “eu” é um conjunto de valores
que são adquiridos por meio da intersubjetividade.
Além disso, soma-se o fato de que os valores de um “eu”
influenciam a formação dos outros “eus”. Isso se de tal forma que
não há, para Scheler, a possibilidade de alguém ser o que é (ter sua
identidade) sem um convívio com os valores de outros “eus” com os
quais se relaciona. Scheler está tão convicto disso que chega ao ponto de
dizer que não há “eu” sem o “outro eu”.
Isso implica, no fato, que a identidade ou que o “eu” é está
sempre oscilando. Pois enquanto existir estará submetido a esse
convívio no qual terá que aceitar ou recusar certos valores
constantemente. A história e sociedade também cumprem um papel com
relação aos valores, uma vez que é nessa mesma sociedade que eles (os
valores) também encontram um terreno adequado ao seu surgimento e
desenvolvimento. (MATHEUS, 2002, p. 23)
Pode-se situar tanto Heidegger quanto Scheler como
exemplos daquelas reações aos formalismos. A teoria de Scheler é um
exemplo de um desenvolvimento de uma ética a partir da
fenomenologia. Contudo, sua ontologia dos valores pressupõe uma
hierarquização desses mesmos valores. Tomando a ontologia
fundamental heideggeriana, será visto que todos os modos de ser ou
momentos constituintes do Dasein encontram-se em um mesmo patamar
de importância, apesar de existirem diferenças entre eles.
Assim, todos os momentos ontológicos do ser-aí o
decisivos e tem a sua importância. A diferença está no que cada um
31
Essa posição também é um diferencial com relação a ideia de Lotze de que os
valores valem. Entretanto, para Scheler a noção de valor implica na ética, em Lotze “[...] a
resposta ao problema da realidade.” (SCHDELBACH, 1991, p. 209)
50
desses modos ou momentos a compreender ao Dasein. Uns
possibilitam uma maior abertura do mundo e, por isso, uma melhor
compreensão do mesmo. Contudo, tem o mesmo grau de importância
dos outros. Na “ontologia dos valores” de Scheler uma distinção
entre os valores espirituais que são mais elevados que os materiais, ou
seja, eles não tem o mesmo grau de importância e não são cooriginários
como no caso dos existenciais heideggerianos.
Apesar dessas diferenças, é um exemplo pertinente e
importante na medida em que mostra o esforço em se desenvolver uma
ética a partir da aplicação do método fenomenológico. Encerra-se essa
primeira parte que tinha como objetivo apresentar a idéia da
fenomenologia husserliana e a tentativa scheleriana. A seguir, inicia-se a
segunda parte dedicada a Heidegger com o intuito de mostrar o lugar da
ética em sua obra, em como registrar a relação da possibilidade de uma
ética originária com o que apresentou em Ser e Tempo.
51
PARTE II
1. A POSIÇÃO DE SER E TEMPO E A ÉTICA
De modo sucinto apresenta-se um panorama da produção
heideggeriana do primeiro período e a posição que Ser e Tempo ocupa
com o objetivo de poder justificar a importância central e demarcatória
dessa obra no pensamento do filósofo. Para tanto, far-se-á alguns
apontamentos históricos relevantes e de temas sempre que se acreditar
que esses sirvam para uma compreensão não somente da obra de
Heidegger, mas também de questões ligadas à ética.
A desconfiança face a qualquer escolha é a posição mais
coerente e talvez a mais acertada. Ainda mais se for considerado o fato
de que muitos dos volumes da obra de Heidegger a serem publicados
estão sendo feitos a partir da reunião de textos de trabalho, conferências,
estudos, palestras e seminários que giram em torno de um mesmo
assunto, tema ou questão. Caso não fosse assim, o número das obras, no
nimo, seria dobrado.
Por outro lado, muito pouco foi publicado por ele ao longo
de sua carreira. Somente em 1972, com as Gesamtausgabe, o grande
público começou a ter acesso aos seus escritos. Heidegger morreu em
1980 e foi um filósofo produtivo até o final de sua vida. Há, pois, mais
de meio século de produção que permaneceu não publicada e, portanto,
desconhecida para o público em geral, salvo pequenas exceções.
Cita-se, a título de exemplos de obras publicadas por
Heidegger em vida, além de Ser e Tempo, é claro, Kant e o problema da
metafísica, de 1929; Holzwege (coletânea de textos de trabalho entre
1939 e 1946), de 1950; Ensaios e Conferências (outra coletânea de
textos de trabalho); o Princípio do Fundamento, de 1957, elaborado a
partir do conjunto de suas preleções acadêmicas entre 1955-56 e A
Caminho da Linguagem, de 1959, também constituído a partir da
reunião de textos sobre a linguagem.
Quem pretendesse se aprofundar no pensamento filosófico
heideggeriano teria um material escasso para isso. As poucas obras
citadas representam e ocupam lugares importantes em seu pensamento.
Todavia, o pouco material disponível tornaria o trabalho investigativo
muito mais difícil e suscetível a problemas para interpretar corretamente
a sua filosofia e o lugar das questões e problemas ali tratados.
52
Assim, Ser e Tempo, publicado em 1927, foi uma das
pequenas exceções das obras publicadas, ainda no decorrer de sua vida e
pela qual ele tornou-se conhecido e famoso. A essa obra, por muito
tempo, obrigatoriamente, remetiam-se todos aqueles que vez por outra
procuravam investigar alguma questão ou problema na filosofia
heideggeriana. Era, por assim dizer, a obra mestre, o ponto de apoio e
eixo em torno do qual todos se mantinham. Quem pretendesse entender
Heidegger e sua filosofia deveria, necessariamente, confrontar-se com a
obra de 27.
Isso muda desde o início da publicação das
Gesamtausgabe. Atualmente, Ser e Tempo não ocupa mais um lugar
privilegiado e, muito menos, é a única obra a ser considerada central.
Outras obras se apresentam como igualmente possuidoras de crédito e
legitimidade. Dependendo dos interesses daqueles que investigam
alguns temas ou questões heideggerianas, Ser e Tempo pode ser até
mesmo considerado dispensável, sob certos aspectos.
Entre as obras que destituem, por assim dizer, Ser e Tempo
e seguindo a exposição de Loparic em um pequeno opúsculo Heidegger,
publicado em 2004, pode-se citar A Doutrina das categorias e do
significado de Duns Scotus, as Preleções de Marburgo, as Preleções de
Freiburg, o tratado Os Conceitos Fundamentais da Metafísica: Mundo,
Finitude e Solidão e Contribuições à Filosofia. Portanto, essa obra não é
mais o único livro de leitura necessária, obrigatória para o entendimento
do pensamento heideggeriano. outros livros importantes que devem
ser lidos e trabalhados e que possibilitam uma visão, talvez não ampla e
total, mas satisfatória da filosofia de Heidegger.
Apesar de se concordar com a seleção feita, acrescenta-se
que mesmo essas obras (podendo ser tomadas a parte de Ser e Tempo,
ao ponto de desbancá-lo de seu lugar singular no pensamento do
filósofo), em maior ou menor grau, ora possibilitam uma melhor
compreensão daquilo que na obra de 27 foi exposto, ora tornam possível
um entendimento dos caminhos tomados posteriormente a Ser e Tempo.
Desse modo, ela é a obra que sintetiza o antes e o que virá depois na
filosofia dele. Ser e Tempo não é mais o único, mas ainda está no centro
da filosofia heideggeriana. A leitura de Ser e Tempo não é qualquer
leitura, não é dispensável para todo aquele que pretende adentrar nos
meandros da filosofia heideggeriana, independentemente das
reformulações e redirecionamentos posteriores. Aliás, sob muitos
aspectos, é uma obra necessária para a compreensão desses mesmos
53
redirecionamentos. Então, Ser e Tempo não é mais um livro entre outros
na vasta obra de Heidegger.
Ele representa um momento nevrálgico no pensamento
heideggeriano. Que identifica apenas mais uma etapa em sua filosofia,
sem dúvidas; mas uma etapa fundamental. Também é possível ignorá-lo
e passar a outro momento de sua filosofia. Mas quem o fizer, não terá
uma ideia razoável do grande esforço empreendido por um pensador em
meio a um século cheio de desatinos e desgraças para compreender algo
que muito, possivelmente, eram as perguntas que mais assombravam
aos filósofos e todos aqueles que, em certa medida, se dão conta das
vicissitudes que rondam a existência: o que é o homem? O que é o ente?
Como é possível que algo exista? Entre outras.
Sabe-se, também, que a publicação da obra de 27 foi feita
sob a pressão de exigências curriculares e que foi escrita às pressas.
Independente dos fatos e motivos que condicionaram o aparecimento
dela, a questão e os temas ali tratados não parecem ter surgido de um dia
para outro ou por pressão acadêmica, somente por exigências externas e
na falta de assuntos mais interessantes. O fato de que a tão famosa
terceira parte nunca tenha sido publicada parece incomodar outros
tantos, também. De tal forma a condenarem tudo o que foi escrito
anteriormente ao fracasso. Sabe-se de suas ressalvas quanto à
publicação dessa terceira parte, ligadas diretamente a uma reestruturação
daquelas questões que lhe eram caras. Isso suscita outra questão, a que
Ser e Tempo, mais do que um início de jornada, simboliza o ponto de
chegada. Na realidade não de uma jornada, mas de uma etapa no
pensamento heideggeriano que determinou todo o restante. Daí a sua
importância e renovada relevância.
Algo similar se encontra no prefácio das Investigações
Filosóficas de Wittgenstein com respeito ao Tractatus quando afirma:
Mas, quatro anos, tive ocasião de ler
novamente o meu primeiro livro (o Tratado
Lógico-filosófico”) e de esclarecer os seus
pensamentos. Pareceu-me, de repente, que eu
deveria publicar aqueles antigos pensamentos
junto com os novos: estes poderiam receber sua
reta iluminação somente pelo confronto com os
meus pensamentos mais antigos e tendo-os como
pano de fundo. (WITTGENSTEIN, 2005, P. 12)
54
Com relação a história da filosofia propriamente dita, Ser e
Tempo tem um certo ar provocativo e inovador para com toda essa
mesma história até aquele momento. Contudo, dizer que a obra acima
foi provocadora e inovadora talvez não seja suficiente para explicar o
impacto que causou em seus conterrâneos.
Por outro lado, a provocação nasce não somente pela
questão tratada em Ser e Tempo, mas pela acusação de que a mesma não
havia sido resolvida. Aristóteles é citado como exemplo das respostas e
tratamentos clássicos (e paradigmáticos) dispensados à questão do ser;
contudo, sem sucesso. O tom provocativo fica mais evidente quando diz
que tratamento aristotélico é mais a colocação de um problema e não a
sua solução. Soma-se a isso a sua convicção de que aquela questão foi
esquecida pela tradição filosófica em grande parte por ter julgado como
respostas definitivas o que deveria ter sido compreendido apenas como a
colocação de um problema. Todas essas teriam incorrido no erro de não
terem percebido isso.
Identifica-se, assim, uma dupla acusação à tradição
filosófica: o esquecimento e a de ingenuidade. Mas o esquecimento e a
ingenuidade são sintomáticos. Isso significa que o esquecimento da
questão e a ingenuidade no tratamento da mesma escondem um
problema ou questão mais fundamental, qual seja uma interpretação
errônea do que se identifica pelo termo ser e que não poderia ser de
outro jeito. Essa interpretação é que origina tanto o esquecimento quanto
a ingenuidade e tratamento a ela dispensados. Atacar tanto os modos de
esquecimento, quanto as ingenuidades no tratamento da questão do ser
propiciam um melhor entendimento do que quer dizer ser.
Para Heidegger, deve-se mostrar que ser sempre foi
interpretado a partir de uma perspectiva do ente e que, como tal,
necessariamente foi mal compreendido pela tradição. Todas as
características possíveis que podem ser atribuídas ao ser foram
concebidas com relação ao modo como o ente era entendido. Nesse
sentido, por exemplo, se o ente é entendido como aquilo que existe (no
mundo), o ser não. Se o ente é dizível, o ser não o é. Em resumo, a
história da filosofia deixou de lado a diferença ontológica, por isso as
confusões e aporias ligadas ao tratamento da questão do ser que, ao
longo da história da filosofia, tentaram elucidar a relação entre o ser e o
ente ou essência e existência.
Desse modo, reinterpretar o que diz tal termo assume uma
tarefa urgente e inadiável, pois dela depende o próprio futuro da
55
filosofia propriamente dita. Por outro, reinterpretar o que quer dizer
“ser” significa uma recolocação da pergunta pelo que é o homem e
como se a sua relação para consigo mesmo, seus consemelhantes e a
natureza. Pois é no âmbito do humano que o termo “ser” parece adquirir
e ter um significado. Significado que implica no próprio modo como o
homem e a natureza são determinados com relação aos outros entes
possíveis ou não.
Recolocar a questão ou pergunta pelo que se diz com o
termo “ser” é recolocar a questão pelo que é o próprio homem. Essa
recolocação implicará em uma nova compreensão do homem e,
portanto, uma nova definição desse deverá ser construída. Mas a
inovação não se restringe a esses elementos. O modo de tratar a questão,
por si mesmo, representa uma novidade com relação à tradição.
Heidegger propõe uma compreensão do que seja “ser” pela
via semântica, ou seja, compreender o que ser quer dizer e isso vai além
do que simplesmente compreender o sentido em que o termo “ser”
possui ao ser usado. Com outras palavras, o que realmente é dito quando
é usada a palavra “ser”. Dentro de que horizonte de compreensão do
homem e da natureza ela se mostra e se move? Então, em Ser e Tempo
o autor resgata um tema que pode ser identificado como central na
tradição metafísica. Contudo, esta retomada é feita de tal forma a evitar
as aporias e apelos clássicos com relação ao mesmo.
Com isso não somente as controvérsias clássicas sobre o
tema são descartadas. As críticas e acusações clássicas contra um tema
desse teor também ficam quase que automaticamente desprovidas de
função a tal ponto de não precisarem ser trazidas à tona ou respondidas.
Outrossim, possivelmente o que mais salta aos olhos do leitor é o fato de
que o tratamento da questão do ser implicar, necessariamente, em uma
compreensão do próprio homem por ele mesmo.
E mais, a questão está restrita a este mesmo homem, ou
seja, ela se dá enquanto questão e se desdobra e legitima como problema
somente para este mesmo homem. Desse modo, Ser e Tempo é uma
tentativa de clarificar a compreensão do ser a partir de uma interpretação
ontológica da temporalidade, mas que é feita através de uma exposição
dos modos como o homem compreende o ser.
Clarificar esses modos implica em descrever
fenomenologicamente e hermeneuticamente o próprio ser humano em
sua existência cotidiana. Essa estratégia de abordagem é uma
característica fundamental e decisiva na maneira como Heidegger trata a
questão. Contudo, o que é mais relevante e central e que deve ser
56
salientado é o fato de não se poder dissociar a questão do homem, ou
seja, do modo como ele se compreende e compreende a natureza.
Portanto, um caráter ético primordial de fundo no seu discurso. Pois
tudo implica de um modo ou de outro em um novo comportamento em
novas relações que esse “novo” homem construirá com relação a si
mesmo, a outros Dasein e o mundo. Para compreender ser, é necessário
compreender aquele para o qual ser é uma questão: o próprio homem.
Nesse sentido o passo dado por Heidegger é inovador. É
claro que a compreensão do que se quer dizer quando é usada a palavra
“ser” passa pela compreensão da própria ideia do que é o tempo e a
relação humana com ele, ou seja, o significado desse para o existente
humano. O autor da obra de 1927 está convicto de que a perspectiva
temporal desempenha um papel fundamental com relação à
compreensão que o homem tem da questão e, ao final, de si mesmo e da
natureza. Por isso, não é por mero acaso que no título da obra
encontra-se a palavra “tempo”.
Esse esboço indica o lugar que a obra Ser e Tempo ocupou
dentro da produção filosófica do primeiro Heidegger, bem como a sua
importância e algumas peculiaridades com respeito ao modo como o
tema central da obra foi tratado. O objetivo foi justificar o uso da mesma
face à grande produção filosófica do autor mostrando, não somente a
pertinência da mesma, mas, também a sua importância. Posições
filosóficas que se refletirão na obra Carta sobre o humanismo e que
determinam o modo como se refere à ética nessa mesma obra.
Carta Sobre o Humanismo também é fundamental, pois
nela é que se encontra a alusão heideggeriana a uma possível ética de
caráter originária que é citada por Loparic no artigo mencionado. Faz-
se, então, um esboço dessa obra e salientam-se aqueles momentos que se
julgam apropriados para colocar em evidência o tratamento
heideggeriano dispensado ao tema ético. Contudo, de antemão salienta-
se que tal tratamento é esporádico. A palavra “ética” é mencionada
poucas vezes por Heidegger e, quando o faz, é em outro contexto, ou
seja, é usada para exemplificar outros temas ou conclusões. O tema ético
não surge como um processo interno ao desenvolvimento da obra em
questão. Isso não significa desprezo do autor pelo tema, mas que a ética
não é o centro a partir do qual constrói o seu discurso
32
.
32 Por outro lado, também serve a esse trabalho na medida em que deixa claro
que o autor não apresentou nenhum tipo de pressuposto normativo.
57
Por outro lado, a Carta sobre o humanismo não trata
especificamente sobre ética. As questões tratadas não derivam de um
desenvolvimento desse tema e não implicam, necessariamente, nele.
Entretanto, é nessa obra que se encontram registros valiosos do modo
como Heidegger pensa, o que se identifica como ética e que lugar ela
ocupa em seu pensamento filosófico. E, como foi dito, nela ainda estão
presentes de modo muito forte, pressupostos filosóficos presentes em
Ser e Tempo. A volta e análise que aqui se faz na obra de 27 tem como
objetivo tentar identificar indícios que comprovem que na sua
construção estava presente a idéia de uma “ética originária.”
58
1.1. A ÉTICA ORIGINÁRIA
A obra Carta sobre o Humanismo
33
é a famosa resposta de
Martin Heidegger a Jean Beaufret ao ser perguntado pelo filósofo
francês sobre como se pode, de alguma forma, resgatar ou dar um novo
sentido ao termo “humanismo”
34
. Na verdade, não é apenas uma
pergunta que fez o filósofo francês, mas três. Na segunda pergunta
indaga com respeito à relação possível entre ética e ontologia
35
e a
terceira pergunta (que para o objetivo desse trabalho é a de menor
importância), diz respeito à investigação filosófica propriamente dita e a
comparação dessa com um tipo de atividade desprovida de maiores
objetivos
36.
Essa obra, apesar de não ser extensa, marca a famosa
Kehre heideggeriana, ou a reviravolta (viravolta), ou retomada
heideggeriana considerada como uma reorientação de sua filosofia que o
leva (para alguns) cada vez mais para longe do modo como tratou
aquelas questões, antes fundamentais, na obra de 27. Independentemente
dessas controvérsias, de qualquer modo, Carta Sobre o Humanismo
marca aquele momento em que sua filosofia sofre uma reavaliação ou
um redirecionamento. Esse redirecionamento, contudo, não significa
que o filósofo alemão tenha abandonado de uma vez por todas as
questões ou perspectivas assumidas anteriormente em sua obra de 27,
como já mencionado. Todavia, o modo de tratá-las é transformado.
Desse modo, a Kehre deve ser entendida como uma
reavaliação, no sentido de retomada de certas questões nascidas
anteriormente e expressas em Ser e Tempo que sintetizam de algum
modo o seu pensamento e direcionamentos posteriores. E de tal forma
que as questões, como foram ali expostas, não mais podem ser
(re)colocadas sem sofrerem uma (re)avaliação. Isto indica que, na
verdade, as questões não foram abandonadas, mas revistas. A tão
33
É oportuno lembrar que o que se chama de Carta Sobre o Humanismo, uma
resposta ao filósofo Beaufret, somente mais tarde virou um pequeno opúsculo de mesmo
nome, no qual, contudo, Heidegger dedica-se a responder apenas a primeira pergunta. Julgando
que a resposta a essa questão, como ele diz, jogue uma luz sobre as outras
.
34
“Comment redonner un sens au mot ‘humanisme?.’” (HEIDEGGER, 1987,
p.72.)
35
“Ce que je cherche à faire, depuis longtemps déjà c’est preciser le rapport de
l’ontoligie avec une éthique possible?” (Ibidem, p. 83)
36
“Comment sauver l’élèment d’aventure que comporte toute recherche sans
faire de la philosophie une simple aventurière? ” (Ibidem, p. 95)
59
famosa reviravolta, portanto, não é sinônimo de rompimento. E todos os
sinônimos e termos comumente usados para mencioná-la tais como
reavaliação, redirecionamento, recolocação não dizem nada mais do que
uma mudança e não um abandono.
Ernildo Stein, por exemplo, em sua obra Introdução ao
pensamento de Martin Heidegger, discorda dos autores, como Gadamer
que julgam não existir uma unidade no pensamento do filósofo.
Segundo Stein a troca da análise do ser-aí pelo ser não significou um
rompimento ou abandono do que havia sido proposto em Ser e Tempo,
ou seja, explicitar o sentido do ser condicionado temporalmente. Além
disso, a kehre não marca uma grande novidade no pensamento
heideggeriano, apenas uma mudança de foco para o que antes estava
presente na análise do existente humano: o ser.
A explicação teórica do sentido do ser ao qual
pertence o tempo, e a partir do qual o ser se
desdobra em múltiplos modos de significação, não
foi viável. Essa aporia não levou Heidegger
apenas a mudar as perspectivas de análise do ser-
para o ser, dando na viravolta, a hegemonia do
ser. Implícita já vinha a hegemonia do ser antes da
viravolta. (STEIN, 2002, p, 80).
Nessa obra, Stein reproduz a pergunta do padre
Richardson, que colocava em questão exatamente esse problema da
continuidade ou não de seu pensamento filosófico após a resposta a
Beaufret que o professor Stein reproduziu oportunamente:
Concedido que em seu pensamento do ser tenha
acontecido uma viravolta como então aconteceu
esta viravolta – ou pondo a questão em outros
termos, como deve ser pensado este
acontecimento? (RICHARDSON, apud, Stein,
2002, p. 80)
Ao que Heidegger responde:
60
O pensamento da viravolta é uma mudança de
rumo em meu pensamento. Mas essa mudança de
rumo não é conseqüência fundada na modificação
do ponto de vista ou mesmo abandono da
problematização de Ser e Tempo. O pensamento
da viravolta resulta do fato de eu ter permanecido
junto ao objeto a ser pensado: Ser e Tempo [...]
(HEIDEGGER, apud, STEIN, 2002, p. 80)
Voltando a obra Carta Sobre o Humanismo, na resposta
heideggeriana a Beaufret encontra-se uma das famosas frases
heideggerianas: “A linguagem é a casa do ser” (HEIDEGGER, 1987, p.
3) e logo, ainda na mesma página, complementa: “Nesta habitação do
ser mora o homem”. (Ibidem, p. 3) O que será que Heidegger quis
exatamente dizer com tais palavras?
Ao que tudo indica, ele mostra que uma dimensão da
linguagem na qual o homem se encontra e conquista o seu ser ou, em
outras palavras, se revela e se mostra em toda a sua extensão. Do
contrário, poderia parecer que ele está falando de uma espécie de
isomorfismo entre homem e linguagem na medida em que é nela que ele
se mostra como homem. A linguagem assume desse modo, uma
dimensão reveladora, na qual o homem, em sua totalidade ontológica, se
mostra ou pode, pelo menos, mostrar-se enquanto tal, pois é nela que o
sentido do ser e, ao final, a compreensão de mundo que daí surge
determina os existenciais, os modos de ser do Dasein.
Todavia, é a segunda pergunta que foi feita ao filósofo
alemão que interessa aqui. Beaufret perguntou sobre a possível relação
entre ontologia e ética. Heidegger em Ser e Tempo ressalta a
diferença fundamental entre a esfera ontológica e ôntica, diferença que
marca de modo permanente toda a dependência, não necessária, mas
existente entre a filosofia e todas as outras ciências possíveis, mesmo as
oriundas de áreas afins, ou seja, das ciências humanas.
Assim, cabe lembrar que a filosofia enquanto tal é
ontologia e essa é entendida na perspectiva de uma fenomenologia
61
hermenêutica
37
. E tem um objeto de estudo que se destaca de todos os
outros objetos de estudos possíveis da filosofia por sua proveniência e
importância, qual seja, o ser.
Com relação à ética, contudo, é oportuno dirimir um
possível problema. Em Ser e Tempo encontra-se a seguinte afirmação:
“[...] também os nomes como ‘lógica’, ética’ ‘física’ apenas surgem,
quando o pensar originário chega ao fim”. (HEIDEGGER, 1987, p.36)
Ora o que ele entende por ética aqui? Certamente não deve estar falando
da ética originária. Ele está falando da ética que se constitui enquanto
ciência propriamente dita dentro do horizonte da técnica.
De outra maneira pareceria que Heidegger fala de duas
instâncias nas quais a ética se manifestaria. Ora, levando-se em conta a
concepção de ôntico e ontológico tal qual explicitados em Ser e Tempo,
a ética está sendo colocada ao lado de outras disciplinas como física e
lógica, por exemplo. E nesse sentido, nada teria de originária e/ou
constitutiva e não teria ligação nenhuma com o que ele entende por
metafísica ou ontologia. Se assim fosse a ética figuraria ao lado da
lógica e da física, ou seja, seria uma disciplina como qualquer outra.
Por outro lado, o motivo de chamar-se a atenção para o
modo como se refere à ética em Ser e Tempo deve-se ao fato de que em
diversos momentos e passagens da resposta a Beaufret, Heidegger
parece simplesmente se contradizer ao tentar responder a segunda
pergunta que lhe fora feita. Por exemplo, em certo momento, Heidegger
diz que a ética originária medita sobre a habitação do homem, ou seja,
sobre a linguagem. E meditar significa não somente que ela se detém na
linguagem, mas é ela que pensa sobre os destinos do homem na medida
em que nela, esse mesmo homem, mostra-se na sua totalidade
existencial e ontológica como ser-aí. (HEIDEGGER, 1987, p. 83 e
seguintes).
Quanto a resposta a Beaufret, na qual diz que a ética
medita a habitação do homem que se na linguagem e comparando
com o que foi dito na obra de 27 parece que ele refere-se à outra coisa.
Pois agora, pelo jeito que constrói o seu discurso, a entender que
realmente haveria uma ética constitutiva e, portanto, originária. E, nesse
37
Enquanto Hermenêutica ela é interpretação, mas interpretação que está
delimitada pela ontologia, na qual uma compreensão previa do que seja o ser, contudo
deve trazê-la à tona. E isso passa por submeter a existência do Dasein a uma análise, ou seja,
realizar uma analítica existencial com a intenção de explicitar aqueles modos de ser que o
constituem, ou seja, aquelas compreensões prévias que o determinam enquanto Dasein. Nas
palavras de STEIN, “Heidegger substitui a epistemologia da interpretação para uma ontologia
da compreensão”. (STEIN, 2002, p. 45)
62
caso, diferente daquele tipo de ética que figuraria ao lado de disciplinas
tais como lógica e física.
Será que Heidegger na obra de 27 não tinha ainda
concebido a possibilidade de uma ética originária? Teria surgido no
modo como responde ao filósofo francês como uma possibilidade?
Acredita-se que não, ou seja, que naquela obra existe a possibilidade
de pensar-se em uma espécie de ética mais originária, pelo que veremos
mais adiante quando fala-se do ser e estar em débito. A colocação em
Ser e Tempo da ética ao lado de outras disciplinas ônticas seja uma
crítica à ciência ética existente e não a todo e qualquer tipo de ética.
Desse modo, admite-se a validade de uma ética originária e que esta não
deve ser a ética que se equipa a outras disciplinas científicas, como se
julga ter elucidado o que poderia haver de contraditório em tais
passagens.
Longe de se poder acusar Heidegger de ter caído em
contradição, afirma-se que ele está falando de duas coisas diferentes.
Naquela passagem de Ser e Tempo fala de uma ética ôntica, ou seja,
uma ética que deriva das ciências existentes e que, portanto, parte de
concepções elaboradas do que seja o homem. Na Carta Sobre o
Humanismo fala da ética de caráter ontológico que parte não das
ciências existentes tais quais as conhecemos, mas de uma nova
compreensão do que seja o homem e do modo como esse se relaciona
com seus semelhantes e o mundo.
Somente essa última, enquanto constitutiva, tem a
possibilidade de pensar ou, nas palavras do filósofo alemão, meditar
sobre a habitação do ser e, portanto, a verdade do ser. Contudo, qual é o
caráter desta verdade do ser pensada através de uma ética originária,
uma ética constitutiva e, assim, ontológica? Heidegger não pistas
maiores ou diz quais são as verdades. Ao longo do texto não joga muita
luz sobre a questão. Na verdade, nem muitas pistas, nem indicações
do que pode ser a ética originária, o que justifica um retorno a obra de
27 na tentativa de clarificar a questão.
Antes um esclarecimento: via de regra, pelo uso do termo
“ética”, a tentação de entender, em maior ou menor grau, um
conjunto de regras, valores, crenças e todo e qualquer tipo de
ordenamento que sirva de algum modo como orientadora e delimitadora
dos fundamentos do comportamento humano. Todavia, não é a respeito
desse tipo de ética que Heidegger se refere quando usa o termo. Da
mesma forma, tampouco a partir da leitura de Ser e Tempo uma ética
desse tipo aparece como viável. Na verdade, esses tipos de éticas que
63
teriam a características de serem teorias éticas deontológicas ou
teleológicas, figurariam ao lado daqueles temas questões que são
derivadas e, portanto, dependentes da filosofia enquanto uma ontologia.
Desse modo, também em Ser e Tempo, tal qual no Tractatus, se sustenta
que não há espaço para teorias éticas normativas (deontológicas ou
teleológicas).
É claro que com isso não se diz que Heidegger não teve
uma perspectiva ético-moral ao escrever Ser e Tempo e Carta Sobre o
Humanismo. Teve como qualquer um tem e que, em certa medida, na
maioria das vezes delimita e condiciona escolhas e decisões. Porém, tais
escolhas e decisões implicam em certos princípios, concepções ou
conceitos filosóficos que são adotados e circunscritos pelas crenças e
convicções de caráter pessoal. Por isso, nada mais justificável e válido
que procurar indícios em suas obras filosóficas, do quanto certos
conceitos fundamentadores m relações com tais crenças. Mas, talvez,
somente no segundo caso isso é interessante filosoficamente e, ainda
assim, questionável, pois via de regra, a tendência nesses casos é sair do
campo de investigação filosófica e invadir o campo psicológico, entre
outros.
Agora, qual a relação na Carta sobre o Humanismo entre
pensar e ética? Se realmente Heidegger pensa uma ética que se em
um nível ôntico e outro ontológico, que tipo de relação essa última tem
com o pensar originário que cuja tarefa é pensar a verdade do ser?
Voltemos à Carta Sobre o Humanismo e vejamos como o pensar é
entendido por Heidegger.
Inicialmente, nessa obra, o filósofo trata do agir e afirma
que esse é entendido conjuntamente com a ideia da produção de um
efeito e a sua realidade é avaliada segundo a utilidade que ele oferece,
do quanto e como produz aquele efeito. Mas Heidegger dirá, também,
que o agir é o consumar algo, o desdobrar algo na plenitude de sua
essência. Agir é aquilo que a palavra producere diz: desdobrar alguma
coisa na plenitude de sua essência. Então, ele conclui que somente algo
que é pode ser consumado, desdobrado em sua plenitude. Aquilo que
já é na plenitude de sua essência antes de qualquer coisa é o ser.
(HEIDEGGER, 1987, p. 3)
Conforme se no texto de Heidegger, fica aceitável fazer
uma relação entre pensar e agir. Assim, o pensar aparece como uma
forma de ação, mais originária e essencial, pois é no pensar que é
consumada a relação do ser com a essência do homem. O pensar é,
então, uma forma de agir em que a relação entre o ser e a essência do
64
homem se desdobra em sua plenitude. Desdobrar que não
necessariamente produz algum efeito ou consequência, pelo menos na
forma como se concebe esses termos. Aqui o pensar não é mais
compreendido de forma técnica, na qual é reduzido a um processo de
reflexão ao serviço de um fazer e operar. (Ibidem, p. 35)
Segundo Heidegger, esse tipo de entendimento é um debito
à sofistica, a Platão e Aristóteles. Para ele isso revela uma
medida/modelo inadequado à compreensão do pensar. Para o filósofo
alemão, o rigor do pensar não reside somente na exatidão artificial,
técnica, teorética dos conceitos. O pensar tem outra forma de exatidão e
rigor. Essa outra forma de rigor e exatidão é o lugar onde ser se
desdobra, se mostra, pela linguagem.
Esse pensar mesmo não sendo o pensar técnico, submetido
às leis e estruturas lógicas é o mais singelo e o mais elevado. (Ibidem, p.
3) Esse pensar é o pensar ontológico, aquele que pensa o Dasein em sua
totalidade e, por isso, possibilita a compreensão, não somente do ser-aí,
mas, também, do modo como esse mesmo ser-aí está jogado na clareira
(Lichtung), no mundo.
A exigência e condicionamento às leis lógicas desse
mesmo pensar marcam um passo em direção àquela decadência
explicitada em Ser e Tempo, na qual o ser permanecerá encoberto por
um discurso que está submetido ao pensar técnico da lógica. Por isso,
torna-se compreensível que o ser- decaído não vislumbre aquele
horizonte no qual ser se mostra e, ao final, a sua própria natureza ek-
sistente venha à tona. Aceitando-se que a ética originária não se parece
em nada com as éticas tradicionais (as quais se encontram ao lado de
disciplinas como física ou matemática) essa ética que se desdobra a
partir desse pensar não é e não pode ser de caráter técnico, pois tem as
mesmas características do pensar, pois nesse está manifesto o do
Dasein em sua totalidade. Então, a ética deve também poder abarcar o
“aí” do Dasein em sua totalidade.
Até esse momento do texto da Carta de Heidegger, ainda
não se atingiu o momento em que ele fala da ética. Essa questão
somente aparece mais adiante quando o filósofo traz à discussão a
segunda pergunta de Beaufret. Nessa, o que está em jogo é a relação de
uma possível ontologia com a ética. Essa lembrança e a relação torna-se
pertinente para Heidegger porque a humanitas (que é o pensar que
medita sobre a verdadeira natureza ontológica do ser humano) tal qual é
pensada e que é o eixo em torno da qual ele está construindo a resposta a
65
Beaufret, deve manter-se dentro de um pensar originário, no qual o ser e
sua verdade possam manifestarem-se em toda a sua plenitude.
Assim, a refundação do humanismo
38
significa e implica
em uma renovação da própria ontologia, na qual o homem é
compreendido e pensado a partir de sua essência, a partir da verdade do
ser. Esse novo homem, a partir dessa nova compreensão de si mesmo,
rompe com sua apatricidade
39
e estabelece uma relação distinta com o
mundo e as outras pessoas à sua volta. Se assim for considerado, então,
diz Heidegger, também parece claro que este novo humanismo implica
de alguma forma, em algum tipo de ética. Diz ele em Carta Sobre o
Humanismo:
Se, porém, a humanitas, está tão essencialmente
no campo visual do pensar do ser, não deve, então
a ‘ontologia’ ser completada por uma ‘ética’?
(HEIDEGGER, 1987, p. 83)
A resposta à pergunta colocada por ele mesmo será
afirmativa. Então, pelo que foi exposto, mesmo Heidegger não tendo se
preocupado em escrever ou se dedicar a uma espécie de ética ele,
contudo, parece julgar pertinentes tais questões e associações de uma
ontologia a uma ética importante. Pois, segundo ele, nada mais normal
do que entender que o homem, pensado a partir de sua essência
verdadeira, deve ao final, despertar a aspiração por algum tipo de
orientação que diz como esse homem pensado a partir de sua essência
deve viver.
38
Uma necessidade decorrente da comprovação de que todos os humanismos
derivam de um fundamento errôneo e que, portanto, não tem fundamento algum, pois
desconhecem e ignoram que a verdadeira natureza do homem reside na verdade do ser.
39
Termo usado por Heidegger para exemplificar o sentimento no qual o ser-aí,
ignorante de sua natureza ontológica, sente-se perdido, como se nunca estivesse em seu lugar e,
portanto, sempre mergulhado em uma busca por si mesmo. Em Os Conceitos Fundamentais da
Filosofia: Mundo, Finitude e Solidão, Heidegger cita o poeta Novalis “A filosofia é
propriamente uma saudade da pátria, um impulso para se estar por toda parte em casa”.
(NOVALIS, apud, HEIDEGGER, 2003, p.6) Cita novamente Novalis um impulso para se
estar por toda parte em casa (Ibidem, p. 7). Essa saudade da pátria, que é um impulso não é
nada mais nada menos do que o fato de se estar “[...] impelidos, em nossa saudade da pátria,
pra o ser na totalidade. Nosso ser é a determinação deste impulso. sempre nos
encaminhamos de algum modo para esta totalidade. Mas somos impelidos, isto é, de algum
modo somos ao mesmo tempo puxados para trás por alguma coisa, repousamos sob um peso
que nos empurra para baixo. Estamos a caminho desse na totalidade”. (Ibidem, p. 7)
66
onde a essência do homem é pensada tão
essencialmente, a ser unicamente a partir da
questão da verdade do ser, mas onde, contudo, o
homem não foi elevado para o centro do ente,
deve realmente despertar a aspiração por uma
orientação segura e por regras que dizem como o
homem, experimentado, a partir da ex-sistencia
para o ser, deve viver convenientemente ou de
acordo como destino. (HEIDEGGER, 1987, p 83)
Por outro lado, isso também significa que as relações
humanas (novas) devem ser (re)pensadas, ou seja, não será claro ou
espontâneo simplesmente o surgimento dessas novas orientações. O
colocar-se do homem diante de si implica em repensar as suas relações
face a nova compreensão de mundo que se dará. Contudo, em seguida,
já alerta colocando uma restrição e condição a esse mesmo pensar
dizendo que essa nova ética não pode ser pensada a partir do homem
inserido dentro do âmbito da técnica.
Deve dedicar-se todo o cuidado à possibilidade de
criar uma ética de caráter obrigatório, uma vez
que o homem da técnica, entregue aos meios de
comunicação de massa, somente pode ser elevado
a uma estabilidade segura, através de um
recolhimento e ordenação do seu planejar e agir
como um todo, correspondente à técnica. (Ibidem,
p. 83)
Deixando bem claro que o que temos e ou foi conquistado
até o momento não ajudará em nada na constituição dessa nova ética. É
necessário um começo totalmente novo e não remodelação ou adaptação
do que se tem, em termos de ética, àquela nova compreensão de
mundo que se gestará. Então, seja qual for a ética que deriva dessas
palavras, certamente não podem ser aquelas que são construídas a partir
de um tipo de normatividade, com orientação deontológica ou
teleológica. E, se não tem esse caráter, bem, que tipo então de ética é?
Como se pode conceber uma teoria ético/moral na qual não constem
admosteações, ordens, delimitações ou regras? Ao final ele é
contundente em afirmar que esta situação revela a indigência do ser
67
humano com relação ao pensar que se esquiva de pensar o ser. E conclui
que antes de pensar exatamente na relação entre ética e ontologia é
necessário determinar, exatamente, cada uma delas.
Verifica-se, então, que a verdade do ser é um elemento
com o qual tanto a ontologia quanto a ética devem-se ocupar. Acatando-
se essa condição em sentido forte há que se buscar uma definição
satisfatória para ambas, antes de traçar um paralelo. Em um segundo
momento, derivar uma ética originária. E levando em consideração que
o pensar, enquanto simboliza os novos rumos que toma a ontologia
fundamental e, ainda, considerando que a tarefa ficou inconclusa, ainda
não se pode falar da relação entre ambas e, muito menos, em uma ética
originária
40
.
Essa é a única saída possível que resta, pois, diz ele, ainda
respondendo a Beaufret, que se a ontologia e a ética continuarem
condicionadas e delimitadas pelo pensar técnico, ou como diz pensar por
disciplinas, qual é então, a pergunta, a relação da ontologia e da ética
para com a filosofia? Nesse caso, a resposta será nenhuma. Com o
intuito de mostrar que se forem reduzidas ao pensar técnico nada terão
em comum com a filosofia, Heidegger refere-se aos primórdios da
filosofia grega.
Segundo ele, naqueles tempos, os filósofos pré-socráticos
como, por exemplo, Heráclito, mesmo não dispondo de disciplinas
filosóficas, apresentam uma compreensão muito mais profunda e
aprimorada do homem e da natureza, pois o seu pensar atinge a
experiência da totalidade do homem no mundo. Ora, o pensar filosófico
daqueles tempos determina mais uma postura investigativa que parte de
um modo distinto de compreender o homem e o mundo do que um
conteúdo filosófico específico. Um tipo de postura filosófica que
medita, ao final, a habitação do homem através do pensar que, ainda,
não era o pensar delimitado pela técnica e submetido à linguagem
lógica.
Aquele pensar grego, mesmo não sendo técnico, medita
sobre a habitação do homem e, por consequência, se mantém na esfera
da verdade do ser. Levando-se em conta que o significado da palavra
ética para os gregos significa fundamentalmente um meditar, um pensar
que repousa sobre a verdade do ser, conclui então Heidegger que “[...]
aquele pensar que pensa a verdade do ser como elemento primordial do
40
Isso pode ser uma explicação para Heidegger não ter abordado o tema em sua
obra, pois, antes, deveria satisfazer aquelas condições que ele mesmo impôs.
68
homem enquanto alguém que ex-siste, é em si a ética originária.”
(HEIDEGGER, 1987, p. 88)
E aqui um motivo fortíssimo para todos aqueles que
pretendem identificar na ontologia heideggeriana uma espécie de ética.
Pois as palavras do filósofo são claras a esse respeito e levando em
consideração que o que é perseguido é um retorno a este pensar original
grego, facilmente pode ser concluído que, ao final, esse também é o
objetivo da ontologia heideggeriana. Então é necessário instituir um
pensar no qual a verdade do ser mostre-se em sua plenitude e extensão
de tal forma a possibilitar uma compreensão ontológica satisfatória do
ser-aí jogado na clareira e do mundo no qual ele ex-siste.
O resultado é uma ética originária, pois dela, nessa nova
compreensão do ser-aí e do mundo, nascerão, por assim dizer, novas
orientações para o viver. Mas não se deve esquecer que anteriormente o
mesmo Heidegger falou que antes disso se deve ter claro o que é a
ontologia e a ética para depois traçar uma relação para com a filosofia,
ou seja, verificar se realmente um ponto em comum, algo que possa
ser partilhado entre essas disciplinas.
Talvez, aqui, seja apenas mais um expediente
heideggeriano para deixar em aberta a questão, mais por precaução do
que por convicção de que realmente seja necessário fazer isso. Pois
como foi explicitado, ele disse sem a possibilidade de margens para
dúvidas que aquele pensar grego é em si uma ética originária. Então
essa dúvida ou condição que ele impõe pode ser apenas uma precaução.
Por outro lado, Heidegger está convicto de que esse pensar
se encontra sufocado pelo pensar técnico, pelo pensar por disciplinas,
nas quais a linguagem objetificante e lógica dominam. Por outro lado,
esse modo de pensar grego mais originário não está de todo perdido ou
fora do alcance. Apenas é necessário trazê-lo à tona. O homem
encontra-se fechado para aquela verdade do ser que se manifesta
naquele pensar. Perde-se igualmente a ética, não como uma disciplina
normativa, mas como uma forma de compreender mais originariamente
o homem e o mundo. E, nesse sentido, completa “Mas este pensar não é
apenas então ética, por que é Ontologia”. (HEIDEGGER, 1987, p. 88)
Entretanto, essa passagem apesar de postular uma
identificação entre ambas, não transforma a ontologia em uma forma de
ética originária, na verdade, mostra que a ética é diferente da ontologia
enquanto tal. O que há, tão somente, é o pensar originário que medita o
lugar do homem no mundo. Desse modo, é apropriado dizer que o
pensar engloba a ética, mas não o contrário, i.e., toda ética originária é
69
uma forma de pensar originário (ontologia fundamental); mas nem todo
pensar originário (ontologia fundamental) é uma forma de ética
originária.
Ao final, reconhece o filósofo que esse era o objetivo
daquele projeto da ontologia fundamental expresso em sua obra de 27.
O que deixa claro, também, que aquele seu livro e os objetivos ali
expostos não foram abandonados. Aliás, diz que o projeto da ontologia
fundamental, exposta, busca exatamente isso: “[...] penetrar no
fundamento essencial do qual provém o pensamento da verdade do ser”.
(Ibidem, p. 88)
Ele frisa que a incapacidade de chegar a esse pensar deve-
se à incapacidade da linguagem, em especial aquela da metafísica, em
expressar essa mesma verdade, de sua fraqueza em explicitar esse
mesmo pensar. Pensar que, como ele mesmo diz, não está e não deve ser
construído sobre estruturas lógicas, o que pode fazer alguém supor que
por causa disso, não é tão técnico e, portanto, tão rigoroso quanto o
pensar filosófico comum.
Todavia, esse novo pensar é concebido como tão mais
rigoroso quanto aquele pensar técnico e lógico que o encobre, mesmo
não se constituindo por meio de conceitos. O que também não ajuda
muito, pois de que tipo de pensar ele está falando? Como pode existir
um tipo de pensar mais originário que não se dá por meio das leis
lógicas conhecidas e que, paradoxalmente, é mais rigoroso ainda? Que
rigor é esse? Certamente, não deve ser o rigor da técnica e da lógica que
está em jogo, mas o rigor ontológico delimitado e circunscrito pela
fenomenologia hermenêutica.
Ora, então se é assim, um pensar que não se oriente pelo
método fenomenológico hermenêutico, que lhe possibilita igualmente o
ver fenomenológico está condenado à errância. (HEIDEGGER, 1987, p.
89). Quer dizer, ao extravio, à perda de compreensão ontológica do ser
do homem que busca, também, compreender. Todavia, logo mais
adiante há, para espanto do leitor, a seguinte afirmação
O pensar que questiona a verdade do ser e nisto
determina o lugar essencial do homem, a partir do
ser e em direção a ele, não é nem ética, nem
ontologia.
(Ibidem, p. 89)
O que pode significar essa afirmação a essas alturas? Uma
contradição? Pode-se entender que ele se refere ao pensar técnico que
70
mesmo sem a ajuda do ver fenomenológico e, portanto, de certa forma
fadado a errância por não repensar aquelas expressões que constituem a
linguagem metafísica e que acaba mantendo, por isso, as suas
significações correntes¸ busca de alguma forma determinar o que é essa
verdade do ser.
Antes, este pensar deve reavaliar-se a si mesmo e verificar
se, por pertencer ao ser, ele permanece “[...] apenas um representar
teórico do ser e do homem [...]”. (Ibidem, p.89) E ele termina com uma
pergunta sobre a possibilidade de extrair dele, enquanto um pensar que
se mantém no horizonte do representar teórico “[...] indicações para a vida
activa?”.
(Ibidem, p. 89) Assim considerado, a resposta é sim e não. Não,
se levarmos em conta a ética originária. Desse modo, as indicações são
construídas através de uma compreensão inadequada da natureza
humana para a qual a verdade do ser encontra-se e permanece,
necessariamente, oculta. E sim, pode-se até tirar uma ética, mas essa
ética não tem o valor ontológico e, portanto, não pertence àquele pensar
originário.
Outra alternativa é considerar que Heidegger está se
referindo não exatamente aquele pensar originário, mas a um pensar
(investigação filosófica) que busca esse mesmo pensar. Desse modo,
fica mais compreensível a passagem na qual ele diz que esse pensar que
questiona a verdade do ser não é nem ética, nem ontologia. O peso é
dado ao termo “questionar”. Este pensar, que ainda não é o pensar
originário, mas está em seu encalço, por ainda estar, de algum modo, no
horizonte do pensar teórico técnico, não é nem ética e nem ontologia. É,
portanto, um pensar intermediário.
Este é outro modo de tentar elucidar esta passagem da obra
Carta Sobre o Humanismo, pois sua resposta é que este pensar acontece
antes do pensar técnico, teórico ou prático. É, apenas “[...] a lembrança
do ser e nada além disto”. (HEIDEGGER, 1987, p. 89). A lembrança de
que o homem ex-siste jogado na clareira do ser e se encontra, por isso,
em meio a verdade do ser que. Verdade que tem a responsabilidade de
manter sob a sua guarda, preservada do esquecimento ontológico.
Mais adiante é enfraquecida a ideia da existência de uma
ética originária que tem como tarefa fundamental possibilitar a fixação
de regras que permitam um convívio adequado entre os homens. Antes
disso, a verdade do ser, enquanto lugar onde se revela a verdadeira
essência do homem e medita sobre o seu lugar nessa mesma clareira
vem em primeiro lugar. Diz ele: “Mais importante que qualquer fixação
de regras é o homem encontrar o caminho para morar na verdade do
71
ser”. (Ibidem, p. 93) Então a derivação de regras que possibilitem um
bom viver não é o objetivo principal da ética (ou seja, uma ética
normativa), pois, para ele, morar na verdade do ser é desfrutar de uma
espécie de ética originária. Novamente, trazendo-se à mente o que se
entende corriqueiramente por ética, isso pode soar absurdo e impossível.
Heidegger não ajuda muito no decorrer do texto para que
se entenda exatamente o que ele quer dizer quando se refere a este tipo
de ética na qual o homem se encontra ao pensar a verdade do ser.
Possivelmente, essa ética originária, que possibilita o nascimento de
novas regras, é uma nova compreensão do ser-aí enquanto lançado no
mundo. Em que o homem reconhece o seu lugar naquele mundo, e que é
determinado temporalmente por sua facticidade, daí a importância da
temporalidade também para a questão da ética originária.
O que sobre o tema ético em Heidegger levando em
consideração Carta sobre o humanismo? Ele não parece, em um
primeiro momento, estar em um primeiro plano. A condição da
existência de uma ética originária enquanto tal fica submetida à
possibilidade do pensar (pensar originário e, portanto ontológico)
alcançar, por meio da linguagem, a expressão e explicitação adequadas
da verdade do ser e, assim, poder meditar sobre a habitação do ser.
Este pensar é ontologia, do qual, ao final, deriva uma ética
originária, não por ser ou possibilitar um conjunto de normas e regras.
Mas, por revelar o lugar e habitação do ser e, assim, refazendo a
perspectiva ontológica a partir da qual o homem encontra-se no mundo,
i.e., sua compreensão. Isso é o que o possibilita viver de acordo com seu
destino, destino ontológico, no qual a verdade do ser é guardada e
preservada. A ética originária é um desdobramento, uma derivação
natural daquele pensar ontológico.
Esses resultados somente são possíveis face ao método
utilizado por Heidegger: uma fenomenologia de caráter hermenêutico
aplicada a existência humana como o objetivo de clarificar, explicitar
aqueles aspectos que são realmente importantes. Por outro lado, o
caráter descritivo da mesma lhe impede de ir mais além. Mesmo ela
sendo completada por outro movimento, o hermenêutico, de tal forma a
possibilitar uma descrição daqueles momentos constituintes do existente
humano e uma descrição da existência.
A fenomenologia hermenêutica é um traço fundamental no
modo como Heidegger trata aqueles elementos que julga pertinentes à
interpretação da existência humana. Mas esse método sofre as
limitações impostas pela linguagem hipostasiadora de tal forma que
72
Heidegger não tenha outra saída senão decretar a morte da própria
filosofia. E com isso, ao final, fica decretada a impossibilidade de ser
apresentada uma ética originária enquanto verdade do ser. Para tanto
que ultrapassar essas barreiras impostas pela linguagem e ter acesso a
um campo no qual se pode descrever de modo originário o Dasein em
seu ser. Isso explica o motivo da aproximação heideggeriana dos poetas.
A seguir, na tentativa de continuar a discussão da questão sobre a
possibilidade de uma ética originária, exporemos o que Heidegger
chama em Ser e Tempo de “o testemunho da consciência”, uma espécie
de pré determinação ontológica que já lança o ser-aí em direção à
necessidade de assumir o caráter ontológico de sua existência.
73
1.2. O TESTEMUNHO DA CONSCIÊNCIA E O CUIDADO
Heidegger descreve em Ser e Tempo o poder-ser-mais-
próprio do Dasein que se apresenta como uma possibilidade de seu
poder-ser em geral, ou seja, o Dasein pode estar em seu poder ser
próprio ou impróprio. Essa característica deriva do fato de que o ente
que se é ter o caráter de estar lançado no mundo. Entretanto, o poder-ser
sempre é um poder-ser no mundo. Assim, o autor apresenta o Dasein
como ser-no-mundo.
Mundo tem um significado ontológico: não é a reunião ou
o conjunto do que está à volta e que se destaca de um eu, nem é a
somatória dos entes que vivem no mundo, mas é compartilhado. Mundo
é a determinação ontológica do Dasein na medida em que é nesse que
ele se encontra e se percebe como Dasein de tal forma a não poder falar
em um antes ou depois, acima ou abaixo, como também em um abster-
se desse mesmo mundo. Ser-no-mundo é a constituição fundamental do
Dasein
Isso implica que uma vez lançado, o ente pode ou ganhar-
se ou perder-se nesse mundo. Porém, o existente humano encontra-se
quase sempre decaído na impessoalidade do cotidiano. Isso significa que
o Dasein, o ente que se é, exerceu mal o seu poder-ser em geral e optou
pela impropriedade. Nesse sentido ele tem a tendência natural de
permancer decaído em um poder-ser-impróprio.
Com o seu mundo, ele [Dasein] está presente para
si mesmo, de início e na maior parte das vezes, de
tal modo que, a partir do ‘mundo’ das ocupações,
ele abriu para si mesmo o poder-ser. O poder-
ser em que a pre-sença existe sempre se
entregou a determinadas possibilidades.
(Heidegger, 1993, p. 56)
41
41
O termo “pre-sença” é tradução portuguesa feita por Márcia de Sá Cavalcante
para o termo alemão Dasein. Usa-se no corpo do texto, também, a expressão ser-aí¸ uma
tradução literal da palavra alemã utilizada por Heidegger, como também, a expressão existente
humano para referir-se ao homem por julgar-se tais expressões mais fiéis e mais próximas ao
que Heidegger pensava quando usou o termo Dasein como também mais compreensíveis.
74
A passagem de um estado no qual ele está decaído para
um próprio não ocorre de modo automático ou passivo. É necessária
uma interferência, uma atitude do próprio ente que está nessa situação.
De certa forma, ele deve assumir essa outra possibilidade, que, contudo,
dificilmente é percebida ou notada por ele, pois, quase sempre, se
encontra decaído. Essa situação faz com que essa outra possibilidade
permaneça oculta. Por outro lado, é digno de nota que uma vez
assumida essa possibilidade, ela deixa de ser algo que existe no campo
das possibilidades, mas passa a ser efetiva e, nesse caso, não
garantias que o Dasein permanecerá sempre nela e que não voltará ao
estado anterior.
A decisão (Entschlossenheit)
42
, nesse caso, cumpre um
papel fundamental, pois é ela que possibilita ao existente humano, i.e.,
ao Dasein assumi-la ou não. Na verdade, essa mesma decisão, ao final,
é uma escolha, mas uma escolha ontológica. Portanto, não é uma
escolha qualquer entre as diversas possibilidades que podem apresentar-
se no decorrer das circunstâncias cotidianas. Assim, somente nela pode-
se escolher existir no poder-ser-mais-próprio ou impróprio. Por outro
lado, o encontrar-se decaído, o permanecer fora da propriedade, não
exige nenhum esforço ontológico do ente que se é, não necessita de
nenhuma decisão.
Naturalmente o homem se encontra nessa situação. Na
decisão, enquanto uma escolha, a angústia surge como um aspecto
ontológico decisivo, pois ela é que abrirá a possibilidade dessa escolha.
Contudo, uma vez que o ente, via de regra, sempre se encontra no
modo de ser impróprio, para o qual a decisão ontológica não se
manifestou, pode-se dizer que a decisão somente se faz presente (no
sentido forte do termo) para a propriedade do Dasein.
Lembrando que Wittgenstein menciona a “angústia”
vamos aprofundar um pouco mais o tema da angústia para Heidegger
para mostrar a relação com a ética. A angústia do existente humano que
o colocará diante da sua possibilidade mais própria é a angústia da
escolha ontológica do Dasein lançado no mundo e que na maioria das
42
A decisão, enquanto um modo de ser não é algo que pode ou não ocorrer
dependendo das circunstâncias. Ela exige e se pela e através de um novo modo de colocar-
se (do Dasein) diante do mundo e de si mesmo, ou seja, ela exige uma mudança na forma
como o ente que nós mesmos somos compreender-se no mundo. A decisão, enquanto
ontológica, se dá antes mesmo de qualquer tipo de tomada de consciência possível. Aliás, ela é
que deve possibilitar ao ser-aí a tomada de consciência tal qual a entendemos.
75
vezes, como se refere o próprio Heidegger, encontra-se decaído na
impessoalidade.
Não é, portanto, a angústia por ter deixado passar ou ter
perdido essa ou aquela possibilidade concreta. Por outro lado, ela não é
um sentimento afetivo no sentido de que se está afetado
psicologicamente por algo. Ontologicamente, a angústia é o Dasein
afetado pelo mundo em sua totalidade que se lhe abriu.
Nesse estado, o ente que sofre com a angústia não sabe
exatamente o que o aflige, onde está o perigo ou o que lhe causa tal
sentimento. O que a provoca é a própria situação hermenêutica do
Dasein lançado e tendo que assumir esse mesmo fato. Assim, o que
angustia o Dasein é a própria condição de Dasein que o clamor lhe deu
a compreender. Heidegger pergunta:
“O que no clamor se a compreender
de modo essencial, embora nem sempre seja, de fato, compreendido?”
(HEIDEGGER, 1993, p. 67) ao que responde algumas páginas à frente
“O que a pre-sença, portanto, a compreender seria assim um conhecimento
de si mesma”.
(Ibidem, p. 75) Com respeito ao angustiar-se, Benedito
Nunes dá um excelente relato dessa condição em seu livro Heidegger &
Ser e Tempo:
Angustiar-se é o não mais sentir-se em casa, a
estrutura da subjetividade abalada, sem o
encobrimento da mediania do cotidiano e a
envolvência da queda [...] Nessas condições,
fugimos continuamente da angústia ameaçada
pelo poder-ser si mesmo da existência. (NUNES,
2002, p. 20)
É o angustiar-se que juntamente com o clamor, empurra
43
o Dasein em direção ao seu poder ser mais próprio. “[...] o clamor
sintonizado pela angústia possibilita que a pre-sença se projete para o seu poder-
ser mais próprio”.
(Heidegger, 1993, p. 63) Desse modo, a angústia é
fundamental, pois ela é que aponta para o que é importante. Por meio
43
Empurrar significa, aqui, mostrar-lhe essa possibilidade, pois é necessário
que o Dasein decida, escolha viver de forma ontologicamente correta. Nada acontece sem que
ele faça alguma coisa. O problema é saber , exatamente, qual a forma correta de viver.
Heidegger, quanto a isso não nenhuma pista. Outros elementos que veremos mais adiante
complicam ainda mais a questão, por exemplo, o chamamento da consciência não se na
forma de um discurso, ou seja, ele não diz o que fazer e como fazer e nem se o que foi feito era
correto ou não. Como saber, então se a escolha foi correta? Se estamos agindo de modo ético?
76
dela é que se revela o que é fundamental. Afinal, ela sintoniza o clamor
da consciência lhe um significado melhor, uma correta orientação.
Contudo, não decide pelo Dasein.
Por outro lado, não se deve supor que, na angústia, por não
ter nenhuma relação com algo conhecido ou esperado, podendo ser
interpretado pelo Dasein decaído como um vazio, um nada, não é ele
mesmo o que causa a angústia. Isso acontece porque na falta de algo
para ser o objeto causador desse sentimento admite-se que essa mesma
falta mesma é a causa, o que não é correto.
O nada que se revela no angustiar-se ontológico é aquele
que revela a totalidade do mundo e a condição do existente humano
diante e dentro desse mesmo mundo. Essa angústia que o coloca diante
do nada revela que se tem que agir, assumir a condição ontológica. Tudo
isso, entretanto, não passa despercebido ao Dasein. Heidegger fala de
uma espécie de testemunho desempenhado pela consciência com relação
ao poder-ser-mais-próprio. Nessa situação ontológica, um
chamamento da consciência a assumir essa possibilidade mais própria.
Por outro lado, paradoxalmente, esse chamamento é silencioso, uma
convocação silenciosa. “O discurso da consciência sempre e apenas e se
em silêncio”. (Heidegger, 1993, p. 59) O que complica mais a
questão.
Mais adiante acrescenta que esse silêncio é o clamor e que
não possui nenhum dado ou conteúdo. O que se dá nesse tem um caráter
ontológico e não cognoscitivo, por isso eles não dizem nada. “O clamor
não relata nenhum dado ou conteúdo. Clama sem nenhuma
verbalização. O clamor fala estranhamente em silêncio. (Ibidem, p. 63)
A convocação é silenciosa, porque ontológica, caso contrário, seria
psicológica.
Heidegger tenta manter o seu discurso no campo
ontológico. Desse modo, esse chamamento, testemunho, essa voz que
fala sem palavras é mais uma situação hermenêutica, um momento no
qual se compreende, por um lado, a própria finitude do existir e, por
outro, que se existe nessa mesma finitude
44
e se é delimitado por ela.
Heidegger chamará de clamor a essa consciência que aclama, conclama
o existente humano e coloca-o frente à possibilidade de assumir-se,
enquanto Dasein, na finitude. O “clamor” é o testemunho ontológico da
44
Essa finitude não é a histórica e biológica, que também condicionam o
comportamento do Dasein, mas, principalmente, a ontológica. A finitude histórica e biológica
pertencem ao campo ôntico.
77
consciência desse débito essencial
45
que, também, não é assumir um
sofrimento ou algo do gênero.
O clamor da consciência possui o caráter de
aclamação da pre-sença para o seu poder-ser-si-
mesmo mais próprio e isso no modo de conclamar
o seu ser e estar em débito mais próprio.
(HEIDEGGER, 1993, p. 54)
Todavia, Heidegger ressalta que o assumir não é um
movimento introspectivo no qual o sujeito do conhecimento se conta
de si e de sua existência de tal forma a submetê-la a uma avaliação e
culpar-se por algo. “Assumir este não significa carregar-se de culpa por
falta ou omissão”. (Ibidem, p.75) Além disso, uma prioridade com
relação a esse processo ontológico, ou seja, o homem é naturalmente
impelido ou cobrado a tomar uma posição com relação a si mesmo. Isso
quer dizer que há uma responsabilidade prévia, ontológica, nesse vir a si
e tal prioridade é com relação à autenticidade
46
. A pre-sença pode
perder-se ou ainda não se ter ganho porque, segundo seu modo de ser,
ela é uma possibilidade própria, é chamada a apropriar-se de si mesma.
(HEIDEGGER, 1997, p. 78)
A morte também desempenha um papel fundamental nesse
projeto
47
. A sua função é desencadear todo o processo antes descrito.
Agora, acrescenta-se outro elemento e que interessa particularmente,
qual seja, a culpa, o débito. O sentir-se em débito ou culpado é o
testemunho de que estamos fora do campo do poder-ser-mais-próprio.
Esse sentir-se em débito, como todos os outros elementos, é uma culpa e
débito ontológicos. Não derivam de uma situação ou circunstância
qualquer, mas surgem da situação hermenêutica na qual o Dasein
compreende-se como ser-no-mundo lançado na existência. Portanto, não
nascem de uma espécie de arrependimento por erros ou omissões que
45
O débito é o débito ontológico, ou seja, o fato de que o Dasein tem, de algum
modo, uma responsabilidade originária para consigo mesmo, que se explicita nesse
chamamento, nesse clamor. Isso reforça, ainda mais, a ideia de que há responsabilidades
originárias inerentes ao Dasein e que, portanto, uma ética de caráter ontológico, uma ética
originária.
46
Ver nota anterior.
47
Ao estudar-se a temporalidade e seus desdobramentos, no item 4.2.1 escreve-
se sobre a morte e seu papel fundamental e relação com a ética.
78
podem compor o comportamento. Culpa, dívida e débito, são momentos
ontológicos fundamentais e que revelam a necessidade de completude
do existente humano que implica, necessariamente, em um colocar-se de
modo diferente com relação a si mesmo, aos outros seres humanos e ao
mundo.
Então como pode identificar-se uma espécie de moral ou
ética nesse processo ontológico? A consciência que fala silenciosamente
revelando uma dívida e bito ontológico pressupõe uma espécie de
comprometimento ético ou moral? Antes de prosseguir é válido lembrar
que esse débito e culpa são ontológicos e que significa que eles
pertencem à estrutura do ser do Dasein, o cuidado. Desse modo, é uma
falta que o acompanha desde sempre e estará sempre presente, com ou
sem a consciência (psicológica). Pois, mesmo que o homem coloque-se
em uma posição na qual está em seu ser-mais-próprio, esse estar não
garante nada; não garante que o homem nunca mais se perca no
impessoal e exista em um modo de ser impróprio. Essa consciência que
chama, invoca silenciosamente não é aquela da consciência moral, pois
ela conclama, mas não orientações ou ordens, ou seja, não diz o que
fazer, como fazer ou, ainda, se o que foi feito estava correto.
A consciência revela, aponta o caminho, mas não
orientações. A situação hermenêutica na qual ela fala abre o mundo e a
existência como ek-sistir. É essa abertura uma espécie de ética ou
moral? A abertura em si mesma não é uma abertura ética ou moral.
Mas revela o ético e o moral como determinantes do modo como se está
nessa mesma abertura. E o modo como o homem se encontra nessa
abertura é determinado pelo seu ser, o cuidado.
O cuidado é apresentado por Heidegger como o ser do
Dasein na medida em que nele se fundam e dele derivam todos os outros
momentos essenciais e por isso ontológicos do ente que se é. Por outro
lado, o cuidado não especifica um modo de ser determinado, mas é o
fundamento de todos os possíveis modos de ser. Assim ele não é um
tipo de estrutura ética ou moral, mas determina a perspectiva dos
comportamentos éticos e morais. Então poderíamos dizer que pertence
ao Dasein um ser-e-estar-em-débito ontológicos que pertence à estrutura
do cuidado e que determina o seu modo de ser na abertura. Nesse
sentido afirma-se que o cuidado é a origem, em si mesmo, da expressão
ético-originária do Dasein. Diz Heidegger:
79
Um ente cujo ser é cura não apenas, de fato,
carrega um débito, como no fundo de seu ser, é e
está em débito. Apenas este ser e estar em débito
oferece a condição ontológica para que a pre-
sença, existindo de fato, possa ser e estar em
débito. Esse ser e estar em débito essencial é, de
modo igualmente originário, a condição
existencial da possibilidade do bem e do mal
“morais”, ou seja, da moralidade em geral e de
suas possíveis configurações factuais. Não se
pode determinar o ser e estar em débito originário
pela moralidade porque ela o pressupõe.
(HEIDEGGER, 1993, p. 74)
Heidegger chegará à apresentação da estrutura do cuidado
depois de explicitar, mediante uma analítica existencial os três
momentos ontológicos fundamentais que constituem o ser humano: a
existencialidade, a facticidade e a decadência. (Idem, 1997, p. 255) Os
quais, por um lado, articulam-se no cuidado e, por outro, o próprio
cuidado será o resultado da articulação desses três momentos
existenciais.
O interessante é entender-se que mundo é sempre mundo
compartilhado, pois o ser-aí é sempre ser-com, i.e., um ente que vive e
convive com outros seres-aí. Assim, ontologicamente, não há como
falar-se em um Dasein que vive isolado de outros Dasein, abster-se do
mundo, do convívio humano. Isolar-se é impossível
48
.
Na base do ser-no-mundo determinado pelo com,
o mundo é sempre o mundo compartilhado com os
outros. O mundo da pre-sença é mundo
compartilhado. [...] O ser-em é ser-com os outros.
(HEIDEGGER, 1997, p. 170).
Mesmo o isolamento físico é uma forma de opção de
convívio e compartilhamento ontológicos de mundo. Comportamento
48
Mesmo alguém que, voluntariamente, retire-se do convívio humano, não
pode abster-se de que o modo pelo qual concebe a si mesmo, no mundo, parte da ideia de
mundo compartilhado. Então, o isolar-se somente é possível pelo Dasein ser-com outros entes.
80
que somente é possível face a essa característica fundamental e
determinante de todas as outras, qual seja, ser-no-mundo. Essa ideia
deve ser mantida no horizonte das discussões desse trabalho para que
fique mais compreensível a ligação entre ética (originária) e os modos
de ser existenciais do Dasein.
A existencialidade deriva da caracterização do Dasein
como poder-ser somente em um mundo. Acrescenta-se a isso que o
existente humano, interpretado ontologicamente, não existe somente no
mundo como os outros entes, mas de modo diferente, pois é
determinado por esse poder-ser. Ao Dasein pertence uma compreensão
de ser de algum modo ou de outro. Desse modo, diz-se que o existente
humano não existe indiferente no mundo. Existir, do ponto de vista
ontológico, é algo que lhe diz respeito, pois está a seu cargo decidir-se
por determinadas possibilidades de existir, para as quais de um modo ou
de outro sempre já se decidiu.
O cuidado, então, marca e identifica de modo determinante
todo o ser-no-mundo. E, enquanto uma interpretação ontológica difere
como diz Heidegger, de toda a interpretação ôntico-teórica, pois não é
uma generalização que afirma “[...] que todos os comportamentos e
atitudes do homem são ‘dotados de cura’ e guiados por uma
‘dedicação’”. (Ibidem, p. 265) O cuidado é uma generalização de caráter
ontológico e a priori. “A generalização é de ordem ontológica e a
priori”. (HEIDEGGER, 1997, p. 265), ou seja, ela é subjacente ao
Dasein e, enquanto tal, determinante daqueles horizontes nos quais o
existente humano encontra-se enquanto homem que tem que assumir e
tomar certas atitudes, ou seja, não como fugir ou ignorarmos essa
constituição e sua influência. Para reforçar cita-se “Ela não significa
propriedades ônticas que continuamente aparecem, e sim a constituição
ontológica sempre subjacente”. (Ibidem, p. 265)
Heidegger julga ter encontrado um testemunho, em suas
palavras, pré-ontológico, da existência do cuidado, ou melhor, dessa
compreensão. Todavia, por ser esse pré-ontológico, ele é apenas um
registro que ainda deve ser submetido a uma interpretação ontológica.
Por outro lado, o seu valor reside exatamente nisso, em ser esse
testemunho e que se submetido a uma interpretação ontológica revelará
o verdadeiro ser do Dasein como cuidado. O valor, ao final, desse
registro tamm é histórico.
A ligação desse com a ética reside no fato de que se ele é
um registro do ser do Dasein, ele revela, também, um modo de ser
fundamental desse mesmo ente estar no mundo e relacionar-se. Então,
81
esse testemunho é também um registro de um modo de ser mais
originário que constitui o existente humano.
O testemunho em questão reproduzido por Heidegger é
uma fábula contada pelo latino Caius Julius Hyginus. Nessa fábula o
termo “cura” é cuidado, o ser do Dasein e é ele o elemento que
caracteriza o homem enquanto ele viver. O homem, enquanto viver
pertence a ela, foi criado por ela. Reproduz-se a seguir essa fábula:
Certa vez, atravessando um rio, ‘cura’ viu um
pedaço de terra argilosa: cogitando, tomou um
pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto
refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. A
cura pediu-lhe que desse espírito à forma de
argila, o que ele fez de bom grado. Como a cura
quis então dar seu nome ao que tinha dado forma,
Júpiter a proibiu e exigiu que fosse dado o seu
nome. Enquanto ‘cura’ e Júpiter disputavam sobre
o nome, surgiu também a terra (tellus) querendo
dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um
pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram
Saturno como árbitro. Saturno pronunciou a
seguinte decisão, aparentemente equitativa: ‘Tu,
Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na
morte o espírito e tu, terra, por teres dado o corpo,
deves receber o corpo.’ Como, porém, foi a ‘cura’
quem primeiro o formou, ele deve pertencer
[possuir] à cura enquanto viver. Como, no
entanto, sobre o nome há disputa, ele deve se
chamar ‘homo’, pois foi feito de húmus (terra)
(HYGINUS, apud HEIDEGGER, 1997, p.
263/264)
Enquanto ser-no-mundo o Dasein está igualmente sempre
condicionado historicamente. Ele se encontra em meio a
possibilidades de existir de um modo ou de outro. Isso indica o caráter
de ser-em que lhe pertence, ou seja, a facticidade inerente ao ser do
Dasein. Ser no mundo também é sempre ser com outros entes, quer
tenham ou não o caráter de Dasein, i.e., o existente humano é sempre ser
junto a outros entes. Isso indica o caráter da decadência que pertence ao
cuidado.
82
A existencialidade, facticidade e a decadência são
determinações existenciais que condicionam os modos de ser inerentes
ao Dasein. Tais determinações devem ser vistas como uma totalidade
articulada, não como partes de um composto que podem ser separadas
ou até mesmo não ocorrer. Assim, o Dasein é um ente em que está em
jogo o seu próprio ser. Dizer que no Dasein está em jogo o seu próprio
ser significa que o existente humano é um ente que existe projetado em
possibilidades. O Dasein, enquanto existente, projeta-se continuamente
e constantemente em possibilidades e sempre existe em razão de um
poder-ser para o qual ele se projeta (que pode ser autêntico ou
inautêntico).
O poder-ser autêntico é caracterizado como um preceder a
si mesmo. “Do ponto de vista ontológico, ser para o poder-ser mais
autêntico significa: em seu ser, a pre-sença sempre precedeu a si
mesmo”. (HEIDEGGER, 1997, p. 255) Significa, ontologicamente, que
o ser-está sempre além de si mesmo. Existe projetado, mas projetado
para o seu poder-ser. A existencialidade é um preceder a si mesmo, um
projetar-se para, um estar além de si mesmo que o constitui.
Entretanto, o Dasein sempre existe em um mundo. O
projetar-se para o poder-ser é sempre um projetar-se igualmente em um
mundo. Dessa forma, o preceder a si-mesmo não deve significar a
tendência isolada de um ente sem mundo. Pelo contrário, o preceder
somente é possível pelo fato do Dasein ser-no-mundo. “Apreendido em
sua plenitude, o preceder a si mesmo da pre-sença diz: preceder a si
mesma por ser-no-mundo”. (Ibidem, p. 256) Preceder-se que ocorre
de forma contínua. Com isso, Heidegger mostra outro momento
ontológico fundamental que constitui a estrutura do ser do Dasein, qual
seja, a facticidade. Momento estrutural que explicita o fato que o
existente humano pertence a um mundo e a sua ligação com a
existencialidade que, igualmente, pertence ao Dasein.
Com a intenção de caracterizar o terceiro momento
constituinte do Dasein e mostrar o seu nexo com a existencialidade e
com a facticidade, Heidegger afirma:
E, por conseguinte, o existir de fato da pre-sença
não está apenas lançado indiferentemente num
poder-ser-no-mundo, mas está sempre empenhado
no mundo das ocupações.
(HEIDEGGER, 1997,
p. 257)
83
O que indica que o Dasein, existindo em um mundo,
sempre é ser junto a outros entes (dotados ou não de caráter de Dasein),
i.e., o existente humano existe sempre decaído, em estado de
decadência. Por conseguinte, uma vez que as estruturas que formam o
Dasein são ontológicas por determinar o modo do existente humano ser-
em-um-mundo, o autor procura mostrar que tais estruturas não ocorrem
ao acaso. Nesse todo articulado não níveis hierárquicos, todos os
momentos se encontram em um mesmo nível. Esse todo não pode ser
decomposto, separado em partes, ele é a totalidade existencial do
existente humano. “A determinação do cuidado como preceder a si
mesma por ser em, enquanto ser junto a, torna claro que esse
fenômeno está, em si mesmo, articulado estruturalmente”. (Ibidem, p.
261) O cuidado representa a totalidade existencial do Dasein por nele se
mostrarem articulados estruturalmente os momentos ontológicos
fundamentais do existente humano.
Desse modo, o cuidado é apresentado como o ser do
Dasein porque ele é o termo que apreende formalmente a totalidade
existencial das estruturas ontológicas do existente humano, i.e., é a
unidade dessas estruturas. Desse modo, o termo “cuidado” diz
igualmente que o existente humano precede-se a si mesmo
(existencialidade), por ser-em um mundo (facticidade) junto a outros
entes (decadência). Assim, Heidegger pode dizer que o Dasein,
enquanto ser-no-mundo, é essencialmente cuidado e é determinado pela
existencialidade, facticidade e decadência.
Essas características coexistem no ser do Dasein porque o
termo “cuidado” oriundo de Sorge (em alemão), empregado por
Heidegger, também signfica ocupação e preocupação com. E não apenas
o cuidar de algo ou de alguém. Ao dizer que o cuidado é o ser do Dasein
Heidegger privilegia o cuidado enquanto ocupação e preocupação com.
Lembrando que ser-no-mundo é a determinação essencial do ser-aí. O
ser-no-mundo desse ente se dá através de uma ocupação ou preocupação
com como o seu ser. Ser (cuidado) que se desdobra em existencialidade,
facticidade e decadência
49
, ou seja, desdobra-se temporalmente.
Assim, é importante salientar que com o uso do termo
“cuidado o autor procura afastar significações de caráter ôntico que
possam ser atribuídas a essa palavra no sentido, por exemplo, de cuidar
de algo ou de alguém. O cuidado tem um significado puramente
49
Desse modo, o cuidado explicita os modos fundamentais de ser-com e ser-em do ser-aí.
84
ontológico existencial. (HEIDEGGER, 1997, p. 257) O cuidado não
significa a ocupação ou preocupação de alguém consigo mesmo ou para
com outros, mas o ocupar-se e pré ocupar-se ontológico do existente
humano lançado em um mundo junto a outros entes. O cuidado,
também, não diz respeito a atitude isolada de um sujeito.
Então, se é no preceder a si mesmo que pertence à
estrutura do cuidado, que está indicando que o Dasein se projeta sempre
em razão de seu poder-ser, se a totalidade da estrutura do cuidado se
acha “[...] do ponto de vista existencial a priori, ‘antes’ de toda ‘atitude’
e ‘situação’[...]”. (Ibidem, p. 258); será no preceder a si mesmo que está
indicada a condição ontológico-existencial de possibilidade de ser livre
para as possibilidades existenciárias, as possibilidades de fato para as
quais o existente humano se decide.
Seguindo ainda o autor da obra de 27, o cuidado não se
refere à prioridade de uma atitude prática sobre a teórica. Tanto a atitude
prática quanto a teórica são possibilidades ontológicas de um ente cujo
ser é determinado como cuidado. A ética originária que diz respeito a
essa mesma estrutura não deve ser teórica nem prática. Não deve ser
uma teoria ética normativa que o orienta e nem uma filosofia de caráter
moral. Seja qual for o tipo de ética que está presente nessa estrutura ou a
determina, não é nenhum desses tipos.
Como se verificou o cuidado é constituído por uma tríplice
estrutura. A estrutura do cuidado constitui-se nos caracteres ontológicos
existenciais e fundamentais do existente humano identificado como
existencialidade, facticidade e decadência. Com tais indicações,
Heidegger mostra que a estrutura ontológica constituinte do Dasein é
um todo indissociável que não pode ser desfeito, pois é um todo
articulado. Ele ainda se coloca a pergunta se a unidade estrutural, que
pertence ao cuidado, não deve ser levada adiante de modo a apresentar
aquilo que garanta essa mesma unidade estrutural.
Não será isso um indício fenomenal que a questão
ontológica deve ser levada ainda mais adiante, de
modo a expor um fenômeno ainda mais
originário, que sustente ontologicamente a
unidade e totalidade da multiplicidade estrutural
do cuidado? (HEIDEGGER, 1997, p. 261)
85
E responde: “A unidade originária da estrutura do cuidado
reside na temporalidade”. (Idem, 1993, p. 121) A temporalidade será
apresentada como o sentido do ser do Dasein. Aquilo em que os
momentos estruturais do cuidado encontram a sua condição de
possibilidade e coesão. No próximo capítulo, apresenta-se a tese de
Heidegger segundo a qual a temporalidade é esse sentido e que,
portanto, aquilo que possibilitará a unidade originária daquelas
estruturas. Todavia, se tudo isso no seu conjunto pressupõe uma
determinação ética de caráter ontológico, possivelmente essa
determinação deve ter uma ligação com essa mesma característica
temporal que é identificada por Heidegger como a possibilitadora
daquela unidade. Aborda-se, a seguir, o que é mais exatamente essa
característica temporal e sua ligação com a possibilidade de uma ética
originária e o testemunho da consciência.
86
1.3. O CARÁTER EKSTÁTICO DA TEMPORALIDADE E O
CUIDADO
Antes de continuar, é interessante fazer algumas
considerações com o intuito de esclarecer algumas interpretações com
relação à ideia de tempo para melhor ser compreendida a relação desse
com o cuidado e sua estrutura e, ao final, com a possibilidade de uma
ética. Para o autor da obra de 27, os significados tradicionais de passado,
futuro e presente devem ser afastados. O futuro “[...] não significa um
agora que, ainda-não tendo se tornado ‘real’, algum dia o será”.
(HEIDEGGER, 1993, p. 119) O ekstase do futuro não se refere a algo
que não é presente hoje e que somente mais tarde será. Assim, o ente
que se é, enquanto futuro não é um ente que hoje não é real e que
somente em um futuro será.
O Dasein, enquanto passado, não é algo que passa,
transcorre no tempo. O Dasein existindo nunca pode ser constatado “[...]
como um fato simplesmente dado que surge e passa ‘com o tempo’ e,
aos poucos, torna-se passado.”
(Ibidem, p. 122) Conforme o filósofo, se
assim fosse, o ente analisado seria concebido como um ser
simplesmente dado, algo que ocorre e transcorre no tempo, como
qualquer objeto passível de análise, o que não é o caso.
Por conseguinte, do mesmo modo que o Dasein é o seu
futuro de forma contínua, ele reflete o seu passado pelo fato de que ele é
sempre ser-em, pois o existente humano é sempre um ente lançado
na existência (Ibidem, p. 119), no mundo. Como tal, está dentro de
certas possibilidades. Assim, o Dasein não pode ser passado no sentido
de não ser mais presente e lançado em um mundo, o existente humano
é o passado. O Dasein sempre se encontra em um mundo de certa
forma, condicionado e regulado pelo que nele se apresenta. O passado,
nesse sentido, não é algo que não é mais, mas está sempre presente para
o Dasein.
O ekstase do presente é o terceiro elemento da estrutura da
temporalidade. O Dasein é o seu presente de forma contínua uma vez
que pertence à estrutura do cuidado o momento estrutural ser junto a. O
presente, entendido como um ekstase é o que permite que ache e deixe
vir ao encontro os entes que existem no mundo. (HEIDEGGER, 1993, p.
120) Esse ekstase possibilita o encontro do Dasein com outros entes que
têm igualmente o caráter de Dasein, como também com os
87
instrumentos, com os entes à mão, disponíveis e os entes simplesmente
dados. Feitas essas considerações, destaca-se a parte que realmente
interessa no texto que é o aspecto ontológico do tempo e a sua relação
com a possibilidade de uma ética.
Heidegger chama de temporalidade
50
(Zeitlichkeit) o
tempo ontológico que será caracterizado pelo que chama de ekstases. E,
enquanto constitutivos (ontológicos), os ekstases se ligam a cada um dos
aspectos do tempo: futuro, passado e presente, formando com esses, a
expressão que os identifica. Os ekstases do futuro, passado e presente
ocorrem sempre de forma articulada e unitária. E essa unidade ocorre
de tal forma que eles são um todo articulado. Com isso, Heidegger
afasta a ideia de uma possível semelhança com a ideia de tempo comum,
como também de que os aspectos temporais que constituem o ser-aí
ocorram de forma ocasional ou isoladamente. É importante entender que
os ekstases da temporalidade são a temporalidade em si mesma, não são
diferentes da temporalidade, ou seja, não são algo que se agrega ou se
dão como um acréscimo de tal forma a se ter, de um lado, os ekstases e
do outro a temporalidade.
O importante é que tal aspecto ontológico é determinante
e constituinte do Dasein. Enquanto tais, os ekstases são a estrutura da
temporalidade, o desdobramento da própria temporalidade. Eles são,
como diz Heidegger, temporalizações dela mesma. A temporalidade
não ‘é’, de forma alguma, um ente. Ela nem é. Ela se temporaliza
51
”.
(HEIDEGGER, 1993, p. 123) Contudo, se a própria estrutura da
temporalidade é uma temporalização dela e se a temporalidade é a
condição de possibilidade da estrutura do cuidado, na qual se sustenta o
Dasein, então, também a pluralidade dos modos de ser que caracterizam
o existente humano, somente são possíveis em face do caráter de
50
Heidegger distingue a temporalidade, enquanto sentido do ser do Dasein, e
temporalidade, enquanto horizonte transcendental de toda compreensão de ser, ou seja, como
sentido do ser em geral. Para distinguir essas duas funções da temporalidade, o autor utiliza-se
de dois vocábulos, Zeitlichkeit de origem alemã e Temporalität de origem latina. A tradução de
ambos coincide com temporalidade. Contudo, o primeiro é usado pelo autor como
temporalidade (Zeitlichkeit), enquanto sentido do ser do Dasein, do cuidado. O termo de
origem latina, Temporalität, é reservado para referir-se à temporalidade enquanto horizonte
transcendental de toda compreensão de ser. Esse último, na edição portuguesa de Ser e Tempo,
para ser diferenciado da temporalidade como sentido do cuidado, é traduzido por
temporariedade (Temporalität) para marcar essa diferença de funções. Não falaremos da
temporalidade enquanto Temporalität por ela o nos interessar nesse momento, bem como
julgarmos não ser relevante a questão tratada.
51
Die Zeitlichkeit ‘ist’ überhaupt kein Siendes. Sie ist nicht, sondern zeitigt
sich. (HEIDEGGER, 1972, p. 328).
88
temporalização que pertence à temporalidade, qual seja, o de se
temporalizar.
Enquanto ontológica, essa temporalização ou temporalizar
não é um aspecto secundário ou derivado, como se fossem dois
elementos distintos. Temporalidade é na forma das temporalizações,
nos desdobramentos dela mesma, na forma dos ekstases. A
temporalização ou temporalizar é uma espécie de movimento contínuo
da temporalidade na qual ela se explicita, desdobra-se e se mostra em
uma unidade articulada. Isso significa que a temporalidade sempre se
temporaliza na unidade de seus ekstases (Ibidem, p. 123) e não existe
fora desse processo.
Por outro lado, essa unidade é articulada entre si mesma. O
futuro, passado e presente apresentam-se em uma totalidade dinâmica.
Entretanto, nesse processo de temporalização que a caracteriza, um ou
outro ekstase pode ocupar um lugar privilegiado e condicionar os
restantes. Isso acontece porque a temporalidade pode se determinar com
base em diferentes ekstases. (Ibidem, p. 124) Contudo, deve ficar claro
que a temporalidade sempre se temporaliza na unidade dos seus
ekstases.
É aqui que aparece a possibilidade de uma ética ligada a
ideia de temporalidade (que se pode ligar a estrutura do cuidado), pois
cabe lembrar que Heidegger tem o objetivo em Ser e Tempo de
explicitar o tempo como horizonte transcendental de toda compreensão
de ser. Isso significa que todos os modos de ser do Dasein são modos de
ser-no-mundo temporais. E se assim for, até mesmo a possibilidade da
existência de uma ética originária determinante e orientadora desses
mesmos modos de ser, deve ser determinada por esse mesmo horizonte
de tal forma a ser, ela mesma, um modo temporal do Dasein. Pois,
apesar dos termos autenticidade e inautenticidade não serem usados pelo
autor, na obra 27, no sentido ético e moral (como foi explicitado) eles
determinam o modo de ser e estar no mundo do ente que se é. Todavia,
ele não afirma que não dizem respeito à ética e moral, mas se refere a
ética e moral em sentido tradicional. Não diz que não se refere a toda e
qualquer tipo de ética, por exemplo, a originária. Adiante, mostra-se os
dois modos pelos quais a temporalidade se e sua ligação com o que
Heidegger designa como autenticidade e inautenticidade.
89
1.4. A TEMPORALIDADE E SEUS DESDOBRAMENTOS
A temporalidade possui duas possibilidades fundamentais
de temporalização: a autêntica e a inautêntica. Essas duas possibilidades
ligam-se às duas possibilidades fundamentais, igualmente de
temporalização, que pertencem aos ekstases da temporalidade. Para
Heidegger, o existente humano sempre precede a si mesmo e esse é um
momento ontológico que pertence ao ser do Dasein, o cuidado. Esse
momento indica que o existente humano sempre existe para além de si
mesmo; sempre existe projetado em um mundo com o qual tem que dar
conta.
Entretanto, pertence ao preceder tanto a possibilidade de
antecipação como a de atender simplesmente ao que vem ao encontro no
mundo. O existente humano “[...] continuamente se precede, mas nem
sempre se antecipa [...]”
(HEIDEGGER, 1993, p. 133) em sua
possibilidade mais autêntica. Isso indica, entre outras coisas, que a
temporalização dos ekstases pertence igualmente a possibilidade de uma
inautenticidade na qual o existente humano não se compreende
ontologicamente de como adequado e, simplesmente, atendendo ao que
vem ao encontro no mundo. Isso significa que em sua cotidianidade
permanecerá decaído. Por outro lado, não um modo neutro de se
encontrar no mundo, pois não há um modo de temporalização no qual os
modos de ser que constituem o existente humano permaneçam fora do
tempo. Eles são determinados e delimitados pela temporalidade. Assim,
se a ética originária realmente é viável deve pertencer e ser determinada
pela temporalidade e, além disso, constituir-se em um horizonte de
compreensão do próprio Dasein.
Aqui é necessário outro esclarecimento: os dois modos
fundamentais do ser-aí se encontrar no mundo entre os outros entes
chamam-se de “modo autêntico e “inautêntico”. Essas duas
possibilidades são possibilidades ontológicas fundamentais do existente
humano e dizem respeito somente a ele face o seu modo de existir. Diz
Heidegger:
A pre-sença é sempre sua possibilidade. Ela não
‘tem’ a possibilidade apenas como uma
propriedade simplesmente dada. E é porque a pre-
sença é sempre essencialmente sua possibilidade
que ela pode, em seu ser, isso é, sendo, ‘escolher-
90
se’, ganhar-se ou perder-se ou ainda nunca
ganhar-se ou ganhar-se ‘aparentemente’ [...] os
dois modos de ser propriedade e impropriedade
[...] (HEIDEGGER, 1993, p. 78)
O Dasein pode escolher estar na autenticidade
(propriedade) ou na inautenticidade (impropriedade) por ser
responsabilidade dele ganhar-se ou perder-se, i.e., ele tem e pode
exercer esse poder de escolha. Todavia, Heidegger dá a entender que
outro modo de ser do Dasein no mundo. Ao explicar como e onde se
a abordagem e interpretação do ser-aí, no capítulo em que trata e
indicações de como será feita a análise afirma:
Ao contrário, no ponto de partida da análise, não
se pode interpretar a pre-sença pela diferença,
descobri-la pelo modo indeterminando em que, de
início e na maior parte das vezes, ela se dá. Esta
indiferença da cotidianidade da pre-sença não é
um nada negativo mas um caráter fenomenal
positivo deste ente. É a partir deste modo de ser e
com vistas a este modo de ser que todo e qualquer
existir é assim como é. Denominamos esta
indiferença cotidiana da pre-sença de
medianidade. (Idem, 1997, p. 79)
Nas páginas iniciais da segunda seção de Ser e Tempo ao
fazer um resumo do que a análise fenomenológica conquistou e os
rumos que deve tomar encontramos a afirmação:
Sendo porém sempre meu, o poder-ser é livre para
a propriedade [autenticidade] e a impropriedade
[inautenticidade] ou ainda para um modo de
indiferença. Tomando como ponto de partida a
cotidianidade mediana, a interpretação limitou-se
à análise da existência indiferente e imprópria.
(Idem, 1993, p. 11)
91
dois modos de ser? Autêntico e inautêntico? Ou além
desses temos mais um, o modo da indiferença, i.e., três modos de ser? A
segunda citação identifica medianidade com a indiferença. A
medianidade não é um modo de ser, um modo do Dasein estar no
mundo em meio a outros entes. Julga-se que Heidegger não está falando
de mais um modo de ser que, ao lado da autenticidade e da
inautenticidade, constituiriam possibilidades fundamentais do Dasein.
Assim, na medianidade, por outro lado, é o modo no qual o ser- se
encontra na maioria das vezes. Nesse estado, ele não está em seu modo
de ser mais autêntico e, sim, no inautêntico, portanto, conclui-se que o
modo da indiferença, além de ser a medianidade, também é o modo
inautêntico.
Após se ter abordado os modos específicos pelos quais o
tempo se desdobra ontologicamente e sua ligação com a ética,
apresenta-se os momentos fundamentais de temporalização que
correspondem ao ekstase do futuro, que pode se temporalizar tanto de
forma autêntica quanto inautêntica, pois conforme o autor da obra de o
seu processo de 27, a temporalização pode sofrer mutações.
(HEIDEGGER, 1993, p. 133)
Essa instabilidade não é uma característica somente desse
ekstase, mas pertence a todos os outros. Há tanto a possibilidade de um
futuro autêntico ou inautêntico, assim como de um passado e presente
autênticos e inautênticos. Isso aponta para o fato de que o horizonte a
partir do qual o existente humano se compreende enquanto ser-no-
mundo ter-se modificado. Advém, então, outra certeza: se esse horizonte
sofre modificações, as relações advindas dessa também se modificam,
ou seja, o comportamento é diferente, uma vez que o que caracteriza o
existente humano é o fato dele estar lançado em um mundo com o qual
tem que lidar de algum modo.
No futuro autêntico, o Dasein se compreende a partir de
sua antecipação (Vorlaufen) de seu poder ser mais autêntico.
Compreender-se desse modo significa que ele compreende-se a partir
daquela que é a sua possibilidade ontológica primeira e determinante: a
morte. A sua existência apresenta-se em sua totalidade. Na sua forma
inautêntica, o futuro continua sendo um movimento no qual o Dasein
vem a si antecipando aquela que é a sua possibilidade mais própria.
Todavia, esse movimento no qual a existência apresenta-se a ele ocorre
a partir daquilo com o que ele se ocupa no mundo das ocupações, dos
afazeres e compromissos cotidianos, do manual e do ser simplesmente
dado.
92
Isso significa que o existente humano se encontra perdido
junto ao ente com que se ocupa e compreende-se a partir dele, i.e., não
possui uma compreensão adequada ontologicamente. Na verdade, esse
antecipar dá-se através de um envolvimento com aquilo que está à volta
e se caracteriza por um atender (Gewärtigen) de modo impessoal aos
compromissos e afazeres cotidianos. Esse atender caracteriza a forma
inautêntica do futuro, no qual o Dasein simplesmente atende ao que vem
ao encontro, envolve-se e compreende-se tomando por base aquilo com
que se ocupa, permanecendo decaído no impessoal.
Decaído, aquela que é a sua possibilidade mais própria, o
seu poder ser mais próprio, autêntico, dá-se na forma de uma ameaça, a
morte, de tal forma que, frente a ela, o Dasein procura fugir. Resumindo
e seguindo Heidegger, há um antecipar (Vorlaufen), que caracteriza
ontologicamente o futuro autêntico e um atender (Gewärtingen) que
caracteriza o inautêntico. Esses dois modos de ser que pertencem ao
existente humano pertencem à estrutura do cuidado, pois é inerente e
constitutivo ao ser do Dasein estar sempre precedendo a si-mesmo, mas
que nem sempre antecipa-se em sua possibilidade existenciária
autêntica. (HEIDEGGER, 1993, p. 123)
Como ligar o exposto à ideia de uma ética? Para fazer essa
conexão será dado um passo além do que fez Heidegger. Pois,
considerando que o modo pelo qual se o antecipar e, portanto, a
temporalização do futuro e que esse processo liga-se diretamente ao
modo como mundo é compreendido pelo Dasein, até mesmo o modo
como ele se compreende como ser-no-mundo é determinado por esse
processo. Então sustenta-se que pertence a cada um dos tipos de futuro
um modo de ser ético, autêntico e outro inautêntico. Um comportar-se
ético que é determinado ou por um antecipar legítimo ou reduzido a uma
espécie de atender pura e simplesmente ao que vem ao encontro, o que
está determinado por modos inadequados de compreensão ontológica e
que, ao final, originam comportamentos éticos, igualmente
inapropriados ou inadequados.
O modo pelo qual os ekstases se temporalizaram,
autenticamente ou inautenticamente, condiciona os outros. Assim, não
somente passado e futuro e presente apresentam-se sempre juntos e
articulados entre si, mas, também, a manifestação autêntica ou não
desses horizontes de compreensão condicionam essas mesmas
articulações. Portanto, não se tem um ekstase do futuro articulado com
um ekstase do passado inautêntico e combinações semelhantes. Dessa
forma, ao futuro autêntico corresponde um ekstase do presente e de um
93
passado autênticos. Ao ekstase do futuro inautêntico corresponde um
presente e passado inautênticos. Isso pode garantir, para o autor de Ser e
Tempo, a unidade ontológica ao Dasein.
Será abordado agora o ekstase do passado que é
caracterizado pela repetição (Wiederholung), na qual o existente
humano leva em consideração o fato de que é, em si mesmo, passado.
Isso significa assumir o fato de que é um ente-lançado, projetado no
mundo em meio a possibilidades nas quais se encontra
independentemente de onde tenham sido originadas ou auferidas.
Contudo, dizer que ele leva em consideração esse aspecto inerente à sua
natureza não significa que isso seja feito a partir de uma espécie de
reflexão sobre aquilo que aconteceu, no sentido de que devem ser
trazidos à memória certos fatos e processos passados de tal forma a
possibilitar uma espécie de avaliação ou reavaliação de sua existência.
Levar em consideração significa simplesmente que o Dasein assume as
possibilidades que encontram no mundo de modo autêntico ou não.
Isso abre outro horizonte de compreensão e ele, enquanto ente lançado,
em um mundo, em meio a possibilidades, dá-se conta que isso é no
modo do ser-em (um mundo) junto a outros entes.
Nesse modo de temporalização ontológica autêntica do
passado revela-se o poder-ser que lhe pertence antes mesmo de qualquer
decisão que possa vir a tomar. Se o assumir enquanto ser-em, enquanto
ser junto-a for autêntico, ou seja, partir de um horizonte autêntico de
compreensão de si mesmo, ele não projeta o seu poder-ser com base nas
possibilidades que lhe são oferecidas no impessoal, pois tais
possibilidades, apesar de legítimas, em certo sentido não lhe dizem
respeito em termos ontológicos, não lhe pertencem enquanto ente-
lançado. Afirma Heidegger: “A re-petição [passado] é a transmissão
explícita, ou seja, o retorno às possibilidades do Dasein, que vigora por
ter sido pre-sente”.
(HEIDEGGER, 1993, p. 191), i.e., àquelas
possibilidades que lhe são transmitidas pelo meio em que vive.
em seu modo inautêntico a repetição ou recolocação do
Dasein diante do fato de que é um ente lançado em um mundo com o
qual tem que lidar, não sozinho, mas junto a outros entes não ocorre. O
existente humano não se coloca diante da possibilidade de assumir o seu
destino, ou seja, as possibilidades que, enquanto ser-em um mundo com
outros entes, herda. Ao final, exatamente um esquecimento dessas
94
verdades ontológicas
52
. O esquecimento é, na verdade, um modo
positivo e possível de temporalização da temporalidade, i.e, do ekstase
do passado. Portanto, por esquecimento o autor não entende um aspecto
psicológico da atividade mental do existente humano. Não é um nada
negativo, nem uma falta de recordação, mas um modo próprio positivo e
ekstático do passado”.
(Ibidem, p. 136) Se o esquecimento não é, para
Heidegger, uma falta de recordação, então o esquecimento, enquanto um
modo de temporalização do ekstase do passado é mais primordial, mais
originário que o próprio esquecimento psicológico de um fato ou
acontecimento.
Assim, esquecido de si, de seu caráter ontológico de ser
um ente lançado em meio a possibilidades enquanto ser-em e ser
junto-a outros entes, o Dasein não leva em consideração o fato de que
está lançado em determinadas possibilidades que são suas não assume
que é passado de forma contínua. Ele acaba por projetar o seu poder-ser
com base no mundo das ocupações, valendo-se das relações impessoais.
Significa que o Dasein interpreta as possibilidades nas quais está, a
partir da interpretação do impessoal e, assim, com base naquilo que é
mais imediato e se ao acaso. Aqui não somente o fenômeno do
esquecimento de si, ou seja, esquecimento que é um ente-lançado em
possibilidades num mundo e em possibilidades que são suas, como
também se esquece da própria condição de Dasein. Isso significa, para
Heidegger, ao final, que o passado não se temporalizou autenticamente,
mas, sim, inautenticamente. Esquecimento que implica, também, em
uma compreensão histórica inadequada de si mesmo e do que se
identifica pelo nome de história.
Portanto, seguindo a exposição heideggeriana, o Dasein
sempre está remetido ao passado, com o qual se relaciona. Na verdade,
ele é passado e esse modo de ser ontológico determina o modo como ele
se relaciona consigo e o mundo. Esse modo no qual ele é passado pode
ser autêntico, no qual uma repetição ou inautêntico, caracterizado
pelo esquecimento. Nessas condições o ser-aí não pode relacionar-se
eticamente de modo satisfatório com outros entes e, inclusive, consigo
mesmo. No ekstase do passado, o Dasein é sempre o que já foi, ou seja,
um ente lançado no mundo em meio a possibilidades de ser dessa ou
daquela maneira. Já o ekstase do presente diz respeito ao modo pelo
52
O termo “esquecimento” não se refere a um aspecto negativo que pode
pertencer ao existente humano no sentido que ele esqueceu de si ou que não está consciente
disso ou daquilo. “Esquecimento não é um modo negativo, nem uma falta de recordação, mas
um modo próprio ‘positivo’ e ekstático do passado.” (HEIDEGGER, 1993, p. 136).
95
qual o Dasein está junto, relaciona-se, confronta-se com os outros entes
a sua volta. (HEIDEGGER, 2000, p. 321)
No ekstase do momento ontológico do presente, em seu
modo inautêntico, o horizonte a partir do qual o Dasein compreende-se
parte daquilo que é passível de ocupação no mundo a sua volta.
Heidegger chama de atualização (Gegenwärtigen) a forma que
caracteriza o ekstase do presente inautêntico (Idem, 1993, p. 135). Nele
o existente humano simplesmente atualiza-se, i.e., envolve-se com o que
vem ao encontro dentro do mundo, de modo a manter-se na decadência
do impessoal, i.e., perdido na impessoalidade. Por conseguinte,
atualizando-se, mantém-se na indecisão, ou seja, fechado para o seu
poder-ser mais autêntico e projetando-se a partir do que vem ao
encontro, i.e., dos seus afazeres e compromissos cotidianos.
O ekstase do presente autêntico é identificado por
Heidegger com o termo instante (Augenblick)
53
. “Este termo deve ser
compreendido em sentido ativo como ekstase. Ele remete ao envio do
Dasein de-cidido, mas mantido na de-cisão [...]”. (HEIDEGGER, 1993,
p. 135) Compreendendo-se a partir do horizonte autêntico do presente,
i.e., no instante, ele não se compreende com base no que é passível de
ocupação e está a mão; mas a partir do seu poder-ser mais autêntico,
antecipando-se e repetindo-se a si mesmo autenticamente. Assim, no
instante, no presente autêntico, o existente humano não se mantém na
indecisão, mas na decisão, i.e., naquilo que o autor chama de “decisão
antecipadora”.
A decisão-antecipadora possibilitará ao Dasein retirar-se
das relações que caracterizam o impessoal, pois nela ele está diante da
sua possibilidade mais autêntica. “Na decisão não apenas se recupera a
atualidade da dispersão nas ocupações imediatas como ela se mantém
atrelada ao futuro e ao passado”. (Ibidem, p. 135) Assim, no instante,
revelará a possibilidade do modo autêntico do existir humano, todavia,
53
É oportuno lembrar que a palavra “instante” não significa o mesmo que
designa o termo agora. O instante, enquanto modo de temporalização autêntica do ekstase do
presente, não se refere ao agora. “Ao contrário, enquanto presente em sentido autêntico, é o in-
stante que deixar vir ao encontro o que, estando à mão ou sendo simplesmente dado, pode ser e
estar “em um tempo”” (HEIDEGGER, 1993, p. 135). Para Heidegger, o agora é uma
determinação temporal que pertence ao tempo compreendido como intratemporalidade, ou seja,
o tempo compreendido vulgarmente como uma série ininterrupta de agoras pontuais. Segundo
Heidegger, o agora que pertence à noção derivada de tempo é compreendido com base no
mundo das ocupações e em relação ao mundo das ocupações. O agora é um agora em que isso
ou aquilo acontece, ocorre. Afirma Heidegger “No in-stante nada pode ocorrer.” (Ibidem, p.
135).
96
ao ekstase do presente autêntico corresponderá a atualização, i.e., o
presente inautêntico.
Como vimos acima, temos duas possibilidades de
temporalização para cada um dos ektases que constituem o horizonte
temporal a partir do qual ele mesmo (do Dasein) e o mundo o
compreendidos: uma autêntica e outra inautêntica. Assim, ao final, são
seis modos de temporalizações da temporalidade. A temporalidade
autêntica é aquela que é determinada pelos momentos de antecipação,
repetição e instante. Nesse modo de ser o Dasein se antecipa a si mesmo
por meio do seu poder-ser mais autêntico, ou seja, vem a si; vindo a si
autenticamente se repete e leva em consideração, assume o fato de que é
um ente lançado em possibilidades, assumindo o seu destino e se
atualizando no instante, i.e., deixando vir ao encontro aquilo que se abre
na situação, na temporalidade autêntica, o existente humano antecipa,
repetindo-se no instante.
No modo inautêntico, o Dasein atende a si mesmo a partir
das relações impessoais que ocorrem no mundo das ocupações; atualiza-
se pela atualização, i.e., enreda-se, envolve-se com os afazeres do
mundo das ocupações e se esquece de que é um ente-lançado em
possibilidades mais originárias e que, como tal, deve levar esse fato em
consideração, como também a própria condição de Dasein. Dessa
forma, na inautenticidade o Dasein atende, esquece e se atualiza.
Na temporalidade originária e autêntica é o ekstase do
futuro no modo autêntico como antecipação, que ocupa um lugar
primordial, privilegiado (HEIDEGGER, 1993, p. 124) É com base na
antecipação que a temporalidade autêntica se temporaliza. Por
conseguinte, na temporalidade inautêntica continua a primazia do
ekstase do futuro, contudo em sua forma inautêntica, como atender ao
que vem ao encontro. Porém, o ekstase do futuro não é mais importante
que os outros ekstases; não está em um nível superior ou inferior.
Porque o autor de Ser e Tempo afirma que os três momentos são
simultâneos. Mas dizer que são simultâneos talvez uma ideia errada
desse fenômeno, pois eles coexistem entre si de um modo originário e
perfazendo uma unidade. Todavia, na temporalidade autêntica, essa
unidade parte da temporalização do futuro, deste para o passado, e,
então, para o ekstase do presente.
Após essas exposições se conclui que a temporalidade,
enquanto um horizonte através do qual o ser-no-mundo encontra-se a si
mesmo e a todos os outros entes, dotados ou não de caráter de Dasein,
deve determinar de algum modo o como esse encontro ocorre. Assim, a
97
exposição da possibilidade de um caráter ético inerente ao ser humano
implica necessariamente em uma explicitação do comportamento
ético/moral do ser-aí determinado por seus modos de ser temporal. Mas
esses modos temporais são o testemunho da ética originária ou são
modos éticos?
Eles determinam o ser e estar no mundo, como também o
encontro com outros entes. Eles perfazem, em seu conjunto, as
condições de possibilidade do encontro desse mundo, de outros Dasein e
do próprio ser-aí. Por outro lado, eles constituem os próprios modos de
ser através do qual esse mesmo mundo torna-se acessível. Novamente,
pergunta-se: o modo de ser no qual o Dasein é o futuro é um modo de
ser ético? O antecipar-se, característica fundamental da temporalização
autêntica do futuro é, ao mesmo tempo, um modo de ser ético? Pode-se
fazer as mesma pergunta com respeito aos outros processos de
temporalização? Salientando outra característica que é inerente aos
ekstases temporais, seu caráter horizontal isso responde a questão. Para
finalizar, cita-se novamente a passagem da obra Carta Sobre o
Humanismo:
onde a essência do homem é pensada tão
essencialmente, a ser unicamente a partir da
questão da verdade do ser, mas onde, contudo, o
homem não foi elevado para o centro do ente,
deve realmente despertar a aspiração por uma
orientação segura e por regras que dizem como o
homem, experimentado, a partir da ex-sistencia
para o ser, deve viver convenientemente ou de
acordo como destino. (HEIDEGGER, 1987, p 83)
A seguir, apresenta-se o caráter horizontal da
temporalidade e sua ligação com a possibilidade de uma ética.
98
1.5. O CARÁTER HORIZONTAL DA TEMPORALIDADE
A apresentação dos horizontes da temporalidade surge
dentro da exposição da problemática da transcendência do mundo,
presente na alínea ‘c’ do § 69 de Ser e Tempo. Nesse contexto, o autor
atribui aos ekstases uma característica fundamental, a de serem eles
mesmos determinados por horizontes. Essa afirmação encontra-se em
sua obra Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia, no qual diz
que aos ekstases pertence um caráter horizontal, o que significa estar
caracterizado mediante um horizonte dado no próprio ekstase
(HEIDEGGER, 2000, p. 322) e isso ocorre de tal forma que o caráter
ekstático não acontece em separado do horizontal.
A temporalidade se temporaliza (caráter ekstático) e a cada
temporalização (ekstase) corresponde um horizonte.
“Os horizontes
manifestam-se eles mesmos em e com os ekstases, são o seu esquema [...]”
.
(Idem, 1984, p. 208), i.e., caráter horizontal, tal como o ekstático, não
ocorre isoladamente ou ocasionalmente, mas de forma contínua e
sempre em conjunto com os ekstases da temporalidade. Uma vez que
um implica no outro, ou seja, o caráter ekstático (temporalização)
implica na existência dos horizontes e vice-versa e levando em
consideração que os modos de ser são, ao final, modos de
temporalização da temporalidade, acrescenta-se que os ekstases,
conjuntamente com os horizontes, são o que permitem ao Dasein, não
somente ter um mundo, mas encontrar a si e aos outros entes dotados ou
não do caráter de Dasein. “A condição existencial e temporal da
possibilidade de mundo reside no fato de a temporalidade, enquanto
unidade ekstática, possuir um horizonte.” (Idem, 1993, p. 166) Assim, o
caráter horizontal e ekstático é a condição de possibilidade do próprio
existente humano enquanto ser-no-mundo.
É preciso antes de dar continuidade à apresentação do
caráter horizontal da temporalidade esclarecer, o que Heidegger entende
por horizonte. No livro Os fundamentos metafísicos da lógica, no § 12,
diz Heidegger que horizonte é compreendido como a circunferência de
um campo de visão. (HEIDEGGER, 1984, p. 208) O autor não nega que
o termo “horizonte” também signifique campo de visão. Contudo,
fazendo referência ao termo grego do qual se origina, diz que,
primordialmente, não significa a circunferência de um campo de visão,
mas aquilo que delimita, enclausura um campo de visão (Ibidem, p.
208). Desse modo, se os horizontes são o que delimitam, eles devem
99
determinar o alcance e os limites dentro dos quais se mantêm os
ekstases.
Por outro lado, cada ekstase é determinado por um
horizonte correspondente no sentido de determinar o seu alcance, ou
seja, a abertura, o direcionamento, o para onde dos próprios ekstases.
Essas aberturas são específicas de cada ekstase, i.e., cada um tem a sua,
ou seja, cada um tem o seu alcance e campo de delimitação dentro do
qual se a compreensão do Dasein. Isso significa dizer que a cada
horizonte corresponde não somente uma abertura no sentido que algo se
mostra em um determinado campo de visão, mas lhe pertence uma
direção, um para onde cada ekstase se envia (Idem, 1993, p. 166).
O enviar-se para ocorre no modo de um direcionar-se para
o mundo, si mesmo e outros entes dotados ou não do caráter de Dasein.
Esse direcionar-se para, que pertence a cada um dos ekstases, constitui
em seu conjunto o que o autor chama de “o para onde” os ekstases da
temporalidade se enviam e que receberá o nome de esquema horizontal.
“Chamamos de esquema horizontal esse para onde do ekstase” (Ibidem,
p. 166) Uma vez que a cada ekstase temporal corresponde um modo de
temporalização específico, o esquema horizontal ou o horizonte
ekstático que pertence a cada ekstase é necessariamente diferente. “O
horizonte ekstático é diferente em cada um dos três ekstases” (Ibidem, p.
166) Ou seja, corresponderá a cada um dos ekstases um para onde ele se
direciona, se envia.
Ao ekstase do futuro corresponde o caráter horizontal de
estar em função de si. Isso indica que o existente humano, enquanto
futuro, enquanto ente que precede-se a si mesmo continuamente, sempre
o faz existindo em função de si mesmo, de um poder-ser si mesmo no
mundo e junto a outros entes. Assim, o caráter ekstático-horizontal da
temporalidade é o fundamento temporal da existencialidade que
constitui Dasein, uma vez que, na existencialidade, o existente humano
sempre existe como poder-ser.
Ao ekstase do passado corresponde um caráter horizontal
duplo, o horizonte do estar-lançado (Wovor) em um mundo e o
horizonte do estar-entregue (Woran), indicando o caráter fáctico que
pertence ao Dasein, ou seja, de já ser-em um mundo. O Dasein enquanto
passado, enquanto ser-em um mundo, sempre existe em um mundo
lançado em possibilidades para as quais se projeta e, para as quais está
entregue.
Ao ekstase do presente corresponderá o caráter horizontal
de ser-para. O Dasein enquanto presente, enquanto ser junto a, existe
100
sempre no sentido de ser para aquilo que se lhe apresenta na
cotidianidade: os afazeres e compromissos cotidianos. O caráter
horizontal de ser-para determina o ekstase do presente dando condições
para que o existente humano exista enquanto ser junto a outros entes.
Não somente o horizonte do presente condiciona o ekstase do presente,
como também os horizontes do futuro e passado condicionam,
determinam para onde os seus respectivos ekstases se direcionam.
É a unidade articulada dos esquemas horizontais que se
manifestam conjuntamente com os ekstases que permitem que o Dasein
tenha mundo e, assim, seja ser-no-mundo. Isto significa que tais
momentos que constituem a temporalidade são indispensáveis. Existir
no mundo somente é existir na forma temporal dos ekstases, os quais
são determinados pelos horizontes. Ora, se há lugar para uma ética
originária, também é aqui. Na medida em que o caráter ekstático
horizontal do tempo ontológico (e, por isso, constituinte e determinante
do cuidado, o ser do Dasein) determina os modos de ser, no encontro de
si e no encontro de outros entes, um modo (ontológico e originário)
de ética.
Quanto à questão que foi colocada anteriormente de ser a
temporalidade equivalente à ética ou pressupor uma ética originária fica
claro que o caráter ekstático temporal é a delimitação de um
comportamento ético originário e que, enquanto tal, delimita as
compreensões ético-morais que daí possam ser derivadas. Então
responde-se que os horizontes são, em si mesmos, modos éticos
originários, pois eles determinam o comportamento do Dasein lançado
no mundo, em meio a outros entes, dotados ou não de mesmo caráter.
Dizer que eles determinam significa que eles devem funcionar, de algum
modo, como critérios orientadores e delimitadores do comportamento
humano, dos modos de ser do Dasein
54
.
Na sequência, na parte III desse trabalho, o foco das
atenções é L. Wittgenstein fazendo-se uma análise similar, para localizar
o tema ético na filosofia de Wittgenstein e no Tractatus Logico-
philosophicus, procurando aqueles pontos de contato julgados
importantes. Nessa unidade também procura-se ressaltar a importância
54
A ética, aqui, está sendo pensada a partir daquela menção feita por
Heidegger, na Carta Sobre o Humanismo, quando diz que o pensar a verdade do ser deverá
despertar uma aspiração por uma orientação segura e por regras que o possibilitem que viva de
acordo com sua natureza ontológica. Essas regras são o que constituem a ética originária.
Então, por ética, não se entende aqui, o estudo dos costumes ou moral. Ver essa citação na
página 58 desse trabalho.
101
que a descrição ou clarificação das proposições que a análise da
linguagem tem no Tractatus. Isso é importante na medida em que
justifica os motivos pelos quais não se encontra uma teoria ética
normativa de caráter deontológica ou teleológica em sua obra e, além
disso, possibilita compreender a sua estratégia em que procura
constantemente clarificar o que se quer dizer em certas enunciações
onde constam termos com valor ético/moral.
102
PARTE III
1. WITTGENSTEIN E A ÉTICA
A obra de Wittgenstein, apesar de não ter a mesma
extensão da heideggeriana não perde em importância e nem em
qualidade. Pelo contrário, as linhas heurísticas que se abrem a partir de
seus escritos são quase tão numeras quantas aquelas que surgem das
obras de Heidegger. Na história da filosofia, considerando a sua cultura
filosófica, ele é um pensador atípico.
No caso específico do pensamento wittgensteiniano
uma obra publicada recentemente que boas pistas e esclarecimentos
interessantes sobre o início da história da recepção do pensamento do
filósofo austríaco no Brasil: a obra publicada com o título Wittgenstein
no Brasil. Ela reúne uma série de artigos de estudiosos brasileiros que
tratam de temas wittgensteinianos e informações interessantes e
relevantes sobre os primeiros estudos realizados no Brasil sobre ele.
Inicialmente e seguindo a exposição na referida obra,
constata-se que a imagem criada da obra do filósofo austríaco foi
negativa pela associação dessa com o positivismo-lógico e as escolas
nas quais os problemas filosóficos são submetidos a uma análise
linguística. Esta análise tinha, ao final, intenções de caráter ideológicas.
Entre essas primeiras recepções é citado um comentário de Arthur
Versiani Velloso, que deixa clara a interpretação que se convencionou,
de modo geral, designa-se como logicista do Tractatus. Contudo, a
crítica de Velloso deixa entreaberta a passagem para outro tipo de
interpretação, da ética no Tractatus. Diz Velloso:
“[...] uma análise mais
acurada dos juízos de valor” (VELLOSO, apud DALL’AGNOL, 2008, p.
8) na obra tractatiana, falta suprida, em grande parte, pelos diversos
trabalhos que procuram exatamente explorar esta suposta lacuna que
Velloso identifica.
Seguiram-se ao professor citado muitos outros trabalhos, a
maioria ainda procurando uma correta interpretação do pensamento de
Wittgenstein; além de algumas resenhas críticas. Entretanto, é após a
década de 60 que começam realmente a acontecer aquelas mudanças que
marcam definitivamente a recepção do pensamento do filósofo
austríaco. Nesse período, rios professores visitantes vieram ao Brasil,
alguns com formação em Russel, Carnap, filosofia da aritmética e
103
Wittgenstein. Esses despertam o interesse de alguns jovens estudiosos
que hoje são reconhecidos pelo profundo conhecimento que detêm sobre
a filosofia de Wittgenstein. Entre esses citam-se Arley Ramos Moreno,
José Arthur Giannotti e Barbosa Filho. Os nomes aqui citados são
apenas exemplos de esforços individuais. Por outro lado, Wittgenstein
passou por muito tempo associado, equivocadamente, ao positivismo
lógico e ao círculo de Viena. Somente a partir dos anos 90 essa
associação começou a ser desfeita.
Entre os estudos desenvolvidos sobre a sua obra tem-se
aquela que parte do estruturalismo francês. Giannotti é um dos que
aplica essa estratégia de interpretação em sua obra Introdução ao
Tractatus. Nessa, as regras de exegese estrutural peculiares ao
estruturalismo foram tomadas literalmente, ao da letra. Essa
convicção é tão forte que Gianotti julga que antes da leitura do
Tractatus é necessário ler não somente a Crítica da Razão Pura, de
Kant, mas também ler Russel e Frege para após poder desvendar o livro
de Wittgenstein.
O que estava pressuposto, nesse tipo de análise, eram as
regras de Goldschmidt com relação à exegese estrutural. Assim e
seguindo Goldschimidt, o estudo de uma obra era tão fidedigno quanto
respeitasse a história ligada à sua produção. Desse modo, ler as obras
clássicas que deram origem a outras é algo de que ninguém pode eximir-
se.
Outro tipo de leitura que surgiu da obra de Wittgenstein foi
aquela que se formou a partir do grupo de trabalho sobre o filósofo na
UFRGS. Este grupo de estudos privilegiou uma leitura que pode ser
identificada como analítica e que, como diz Dall’Agnol, foi assumida
sem maiores problemas por Barbosa Filho da universidade mencionada.
Leitura que evitava os lugares comuns que acompanhavam as
interpretações anteriores. Tais como, a associação de Wittgenstein ao
positivismo lógico.
A abordagem analítica aplicada ao estudo das obras
filosóficas é mais um fazer, uma prática do que um conjunto de regras
que devem ser respeitadas para se atingir um determinado objetivo.
Modalidade de abordagem que o próprio filósofo vienense utilizou no
Tractatus, como diz Dall’Agnol. Desse modo, o novo tipo de estudo
desenvolvido, por exemplo, por Barbosa Filho da obra do filósofo
vienense se caracteriza por fazer uma análise das sentenças complexas
com o intuito de “[...] decompor a estrutura complexa da linguagem em
suas partes constituintes, seus elementos”. (DALL’AGNOL, 2008, p.
104
24) Ele tentou separar sentido da ideia de valor de verdade. Isto significa
que o filósofo, em sua primeira obra, teria perseguido a ideia de que se
pode compreender uma proposição sem saber nada a respeito de sua
verdade ou falsidade. (Ibidem, p. 24)
Com relação às primeiras análises éticas do trabalho de
Wittgenstein tem-se a obra de Paulo Roberto Pinto, Sobre a natureza da
Filosofia: Wittgenstein e o pirronismo. Nesse trabalho ele procura
dissolver alguns equívocos provocados por outro trabalho que associa o
pensador austríaco ao pirronismo mostrando que diferenças
importantes entre a filosofia de Wittgenstein e o pirronismo.
Essa diferença funda-se no fato que Wittgenstein não
aceita a pertinência dos problemas filosóficos, definindo-os como
pseudoproblemas. Além disso, acrescenta Pinto que o filósofo vienense
tem uma postura de caráter ético-místico em relação aos problemas
filosóficos e à própria filosofia, pois todos esses problemas e as questões
que podem derivar deles têm uma perspectiva religiosa. (PINTO, 2008,
p. 30)
Além desse trabalho a obra Iniciação ao silêncio de
autoria de Pinto é um importante texto sobre o tema ético em
Wittgenstein. Apresenta informações importantes, tais como a
influência do pensamento solipsista transcendental de Shopenhauer; do
imperativo ético de Weininger e sobre o misticismo de William James,
entre outros. Essa obra de Pinto, apesar de sustentar uma posição
controversa procura reter, contudo, um elemento unificador com
respeito ao pensamento de Wittgenstein. Esse elemento é o místico, uma
espécie de sentimento religioso em que se busca uma comunhão com o
mundo e que se realiza na medida em que, aquele que o busca, encontra
em si mesmo a comunhão com aquilo que tem de mais íntimo.
Assim, essa obra Wittgenstein no Brasil é uma espécie de
retrato, imagem, não somente da recepção do pensamento de
Wittgenstein, mas também de uma tentativa de compreensão do
pensamento wittgensteiniano. Com isso justifica o porquê da
apresentação da interpretação de Pinto sobre o Tractatus. A seguir
passaremos a apresentação da ética no Tractatus procurando salientar
que a analítica da linguagem possibilita apenas clarificar as proposições
éticas a partir do seu uso. Fato que impede a apresentação de uma ética
normativa, i.e., critérios ou princípios claros para o comportamento
humano.
105
1.1. O TRACTATUS E A ÉTICA: CLARIFICAR A
NORMATIZAR
Dizer que no Tractatus não uma ética não é correto ou
que não há nada mais a ser feito em termos de filosofia, também não é o
caso. O problema é determinar o caráter possível de uma ética que se
depreende de uma obra na qual o tratamento dispensado pela tradição ao
tema ético não tem espaço. Não se encontra no Tractatus admoestações
a uma vida feliz ou enunciações que possamos de algum modo usar ou
derivar critérios (ou uma teoria ética deontológica ou teleológica). Não
se encontram orientações seguras ao viver e que levem o seu praticante
a uma espécie de bem estar, quer seja consigo ou com os outros
55
.
A ética, quando citada, parece estar relegada a um segundo
plano, a um papel sem importância na existência humana. Além disso,
soma-se o fato de que não uma diferenciação entre ética e moral na
obra e, até mesmo, em sua Conferência de 29 onde trata especificamente
do tema. Isso também sugere que o autor da obra de 21 não o tenha feito
por julgar totalmente desnecessário devido a pouca relevância da
mesma. O que pode levar ao leitor a imaginar que o autor da obra, por
algum motivo, considerasse a mesma algo desprovido de valor
56
.
Qualquer um que conheça a bibliografia de Wittgenstein
(como a Conferência sobre Ética abordada nesse trabalho) sabe que
não é o caso. Sendo assim, o último aforismo do Tractatus deve ser
revisto sob nova perspectiva com o intuito de afastar a falsa ideia de que
a ética seja algo sem valor, um tema dispensável. O que é exatamente a
conclusão contrária que se chega ao levar em consideração a
Conferência sobre Ética e o Diário Filosófico. Pode-se, ainda, face ao
modo fragmentado como se encontram as referências sobre ética julgar,
por exemplo, como o faz Wisnewski que o autor do Tractatus
(Wisnewski não está certo disso, contudo, sugere que talvez seja esse o
caso) não tivesse uma visão coerente sobre ética (WISNEWSKI, 2007,
prefácio).
Julga-se exatamente o contrário, pois mesmo sendo as
referências sobre o tema esparsas elas mantém uma coerência entre si. O
que demonstra que Wittgenstein manteve uma ideia segura a respeito do
que concebia como ética. O que torna tentador optarmos pela
55
Tal qual em Heidegger.
56
Excetuando-se pelo sétimo aforismo que poderia despertar alguma dúvida
nesse leitor fictício quanto a essas ideias.
106
perspectiva de Wisnewski é que não encontramos uma abordagem
sistemática, um conceito de ética que se possa enquadrar em algo
conhecido. Não encontramos um conjunto de regras ou orientações
claras e seguras com relação a um agir ético/moral.
Assim e levando em consideração o modo pouco
tradicional de abordagem do tema (o que vale também para Heidegger)
o mérito de Wittgenstein possibilita uma renovação das investigações
que tem o tema ético no foco de suas pesquisas. Uma vez que o seu
modo de abordagem leva a ser reconsiderado tudo o que se pode
entender por ética naturalmente é exigido daquele que investiga o tema
uma reavaliação, um repensar a compreensão sobre esse mesmo tema.
Ao final, a grande preocupação é em que medida pode-se dizer que as
considerações de Wittgenstein (como as de Heidegger) contribuem para
uma filosofia moral
57
, senão com conceitos claros, pelo menos
apontando o caminho a ser trilhado através de uma clarificação dos
juízos éticos, no caso de Wittgenstein e no caso heideggeriano,
fundando uma nova compreensão do existente humano no mundo. Isso
é, ao final, fazer uma filosofia moral.
Com relação ao modo inovador da abordagem de
Wittgenstein com relação à ética, Wisnewski lembra que tais teorias, em
seu sentido tradicional, pelo menos, sempre se esforçaram para dizer o
que devemos e podemos fazer para sermos éticos. (WISNEWSKI, 2007,
p. 98) Para tanto, tais teorias sempre procuraram assumir a tarefa de
possibilitarem uma codificação/regulação de normas/regras que
pudessem servir a tal objetivo. Todavia, ele dirá que a visão alternativa
proposta por Wittgenstein (não de modo claro) é a de que a tarefa
daquelas teorias deveria ser clarificar o uso das proposições éticas
(WISNEWSKI, 2007, p. 98), e assim, contribuir para o desenvolvimento
de uma filosofia moral. Aliás, tese com que Wisnewski concorda e
pretende desenvolver ao longo de sua obra e que não nos deteremos
aqui.
Então, a crítica do filósofo austríaco aos enunciados éticos
visa a sua clarificação. Isso é coerente com o que encontramos no
Tractatus, ou melhor, com o que não encontramos, não somente no
Tractatus, mas na Conferência de 29 que é a apresentação de teorias
éticas normativas. Ele está preocupado em esclarecer o mau uso dos
enunciados éticos e clarificar sua extensão e limites de aplicabilidade,
57
Por “filosofia moral’ entende-se um conjunto de valores que orientam a ação
humana.
107
quer dizer que a ética não deve estar preocupada em normatizar as ações
humanas, prescrever o que deve ou não ser feito. Diz Wisnewski
julgando ser uma boa interpretação do que Wittgenstein tinha como o
modo correto de tratar o tema: “O objetivo da ética não deve ser
determinar o que nós devemos fazer. Antes, ela deve determinar como
nós devemos ver”.
(WISNEWSKI, 2007, p. 98)
Agora, no caso do Tractatus onde situar o tema ético? Ele
não pertence à filosofia, pois não é e não pode ser objeto das ciências
naturais. A ética não é um fato do mundo. Então a ética está fora do
mundo e longe de poder ser abarcada pelas ciências naturais. Em 4.111
deixa clara a diferença entre filosofia e ciências da natureza:
A filosofia não é uma das ciências naturais. (A
palavra ‘filosofia’ deve significar algo que esteja
acima ou abaixo, mas não ao lado, das ciências
naturais.). (HEIDEGGER, 2001, p. 177)
Quanto à filosofia sua função é esclarecer, clarificar
logicamente (através da aplicação de regras lógicas) os pensamentos. De
tal forma a eliminar e evitar uma compreensão falsa e, ao final, uma
exposição errônea e contraditória do mundo. A novidade com relação à
noção de filosofia é que ela não visa apresentar uma teoria sobre o
mundo ou fenômenos humanos, resolver problemas. Sua função não é
criar grandes sistemas, mas clarificar os enunciados produzidos pelas
ciências. Em 4.1112 lemos:
O fim da filosofia é o esclarecimento lógico dos
pensamentos. A filosofia não é uma teoria, mas
uma atividade. Uma obra filosófica consiste
essencialmente em elucidações. O resultado da
filosofia não são ‘proposições filosóficas’, mas é
tornar proposições claras. Cumpre à filosofia
tornar claros e delimitar precisamente os
pensamentos, antes como que turvos e indistintos.
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 177)
A linguagem é a explicitação, simplesmente, daquilo que
pertence ao mundo. Desse modo, a linguagem está impossibilitada de
expressar juízos éticos e morais. A linguagem na verdade existe para
108
expressar os fatos que constituem o mundo. Usá-la para expor algo que
não pertence a esse é extrapolar as suas possibilidades, sua função, seus
limites. Todo e qualquer tipo de tentativa tem, tão somente, um
resultado: a produção de contrassensos, i.e., enunciações sem sentido. E,
assim, impossíveis de serem submetidas à verificação.
Até aqui nenhuma novidade com relação sobre o que
Wittgenstein diz no Tractatus. A resposta a pergunta inicial é que a
ética, portanto, não pode ser expressa pela linguagem. Então, em um
primeiro momento pode-se afirmar que não há espaço para ética na
filosofia de Wittgenstein. Isso é uma impressão que se procurará afastar
mostrando que um espaço para a ética na obra de 21 e que ela é, sim,
importante para o seu autor.
58
E sua importância é, no mínimo, igual a
que atribui ao papel da lógica em sua obra. É oportuno lembrar que no
prefácio dessa obra diz:
O livro pretende, pois, traçar um limite para o
pensar, ou melhor – não para o pensar, mas para a
expressão dos pensamentos: a fim de traçar um
limite para o pensar, deveríamos poder pensar os
dois lados desse limite (deveríamos, portanto,
poder pensar o que não pode ser pensado).
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 131)
A ética é algo que se encontra para além desse limites do
pensar e, portanto, não pode ser expressa. Mas é imposta uma condição,
que para estipular-se esse mesmo limite entre o que pode e o que não
pode ser pensado (exposto) “[...] deveríamos poder pensar os dois lados
desse limite (deveríamos, portanto, poder pensar o que não pode ser
pensado”). (Ibidem, p. 131, Grifo nosso) Se a ética situa-se desse ‘outro
lado’, do lado daquilo que não pode ser pensado por não poder ser
expresso, isso exige que possamos dizer o que ela é para termos claro
aquele limite entre o que pode e o que não pode ser dito. Essa é uma
tarefa que é exigida àqueles que buscam tornar claro esse limite. Assim,
nada mais justo do que buscar pistas na obra de 21 que possibilitem isso,
o que seja, complementar essa mesma obra. Essa delimitação do que
58
Contudo, essa ética não é aquela do tipo normativa, que está preocupada em
dizer e estipular o quê e como devemos agir.
109
ultrapassa e é impensável é tarefa da filosofia e deve partir daquilo que é
pensável, ou seja, do mundo dos fatos.
Lê-se em 4.114 falando da tarefa da filosofia “Cumpre-lhe
delimitar o pensável e, com isso, o impensável. Cumpre-lhe limitar o
impensável de dentro, através do pensável”.
(WITTGENSTEIN, 2001, p.
179)
e complementa em 4.115 “Ela significará o indizível ao representar
claramente o dizível”. (Ibidem, p. 179) Encontrar, então, uma definição
ou um lugar para ética, além de ser tarefa da filosofia, deve ser feito a
partir daquilo que pode ser dito e não do que escapa a tal possibilidade.
Essa condição imposta pelo autor da obra de 21 evita a arbitrariedade na
medida em que exige do investigador partir das certezas que tenha
daquilo que a filosofia já conquistou
59
. Porém, cria o problema, ou
absurdo, como diz GLOCK de ter-se que partir do lógico para definir o
ilógico. (GLOCK, 1998, p. 130) Ora, aquilo que é indizível não pode ser
dito, como expressá-lo por uma linguagem lógica, que respeita as leis
lógicas? Concordando-se com isso, pode-se imaginar que teríamos que
criar uma linguagem ilógica para dizer o ilógico, ou o indizível, mas
como observa GLOCK, os aforismos 3.031, 4.12 e 5.4731 não permitem
isso.
Por outro lado, também os conceitos formais são
pseudoconceitos por se enquadrarem na categoria lógico-sintática dos
signos, pois ao usarmos nomeia-se a categoria ontológica do objeto e
que é determinada por sua forma lógica. As proposições do Tractatus
situam-se nessa categoria, i.e., são conceitos formais, tais como “fato”,
“proposição”, “objeto”. O resultado disso, como o próprio Wittgenstein
admite, “[...] é que as próprias proposições do Tractatus são absurdas,
de vez que empregam conceitos formais [...]”. (GLOCK, 1998, p. 133)
Contudo, não são do tipo das tautologias que tentam mostrar a estrutura
do mundo, pois enquanto pseudoproposições não podem mostrar nada.
O aforismo 6.54 do Tractatus diz:
Minhas proposições elucidam dessa maneira:
quem me entende acaba por reconhê-las como
contra-sensos, após ter escalado através delas –
por elas – para além delas. (Deve, por assim dizer,
jogar fora a escada após ter subido por ela.) Deve
sobrepujar essas proposições, e então verá o
59
Desse modo, não se pode partir daquilo que não são fatos, por exemplo, para
tentar construir uma ética ou moral, como no caso dos valores.
110
mundo corretamente. (WITTGENSTEIN, 2001,
281)
Essa tensão entre o que pode e não pode ser dito, ou seja,
dizer e mostrar transpassa todo o Tractatus, pois todo o discurso dessa
obra acaba por estipular limites entre o que pode e o que não pode ser
dito, i.e., o dizível e o indizível. O dizível são os fatos do mundo, o
indizível o que não pode ser submetido à verificação. A ética pertence
ao campo do indizível, pois não é fato do mundo e as proposições que
tentam expressá-la não são dotadas de sentido (significado). Lembrando
a ideia de que o indizível será determinado a partir do dizível, temos o
problema de como fazer isso. Pois o indizível não se submete as regras
lógicas que, também não se aplicam a ele, logo, não temos como
determinar o que é indizível pelo dizível.
Todavia, aquela tensão entre o que pode ser dito e o que
não pode ser dito não elimina o valor ou importância do que não pode
ser verbalizado. O sentido do mundo apesar de não poder ser abarcado
pela linguagem lógica existe independentemente dessa possibilidade de
enunciação. É aqui que entra o mostrar, aquilo que não pertence ao
dizível, à enunciação lógica, mas pode ser mostrado.
Todavia, toda essa tensão entre dizer e mostrar, o lógico e
o ilógico, o dizível e o indizível revelam, na verdade
[...] um problema confrontado em qualquer
tentativa de identificar os limites do sentido com
os limites do conhecimento empírico: o
estabelecimento desses limites não é em si mesmo
empírico [...]. (GLOCK, 1998, p. 134)
Problema também enfrentado por Kant. Desse modo,
Wittgenstein está lidando com um grande problema que surge daquela
associação. Não é um problema que surge do modo como ele o aborda,
mas que se coloca a todo aquele, independentemente de como o faça e
com o qual terá que lidar. O aforismo 6.54, citado, mostra que ele
sabe disso
60
.
No Tractatus, encontramos referência a ética nos seguintes
aforismos 4.003, 6.41, 6.42, 6421, 6.422, 6.423 e 6.43. Por mais
60
Como lembra GLOCK, mais tarde, Wittgenstein abandonará a ideia de que
somente proposições empíricas são dotadas de significado.
111
questionáveis que sejam os recortes em uma obra os reproduziremos
abaixo:
Em 4.003:
A maioria das proposições e questões que se
formularam sobre temas filosóficos não são falsas
mas contra-sensos. Por isso, não podemos de
modo algum responder a questões dessa espécie,
mas apenas estabelecer seu caráter de contra-
senso. A maioria das questões e proposições dos
filósofos provém de não entendermos a lógica de
nossa linguagem. (São da mesma espécie que a
questão de saber se o bem é mais ou menos
idêntico ao belo.) e não é de admirar que os
problemas mais profundos não sejam
propriamente problemas. (WITTGENSTEIN,
2001, p. 165)
Nesse aforismo a questão de que se o bem é o mesmo que
o belo usada como exemplo da enunciação de um contra-senso e
enquanto tal, impossível de ser resolvida. Esse tipo de questão é um
exemplo por mostrar uma tentativa de irmos para além daquilo que é
dizível, dos fatos do mundo. O que chama a atenção é o início do
aforismo, no qual afirma que a maioria das proposições e questões sobre
temas da filosofia não são falsos, mas sem sentido. Levando em
consideração o exemplo, a questão, que tem um alcance ético, não é
falsa e sim um contra-senso, mas isso revela apenas que ela não se
aplica aos fatos do mundo. Quer dizer que um certo espaço possível
as questões éticas.
Em 6.41 diz:
O sentido do mundo deve estar fora dele. No
mundo tudo é como é e acontece como acontece;
não nele nenhum valor e se houvesse, não
teria nenhum valor. Se há um valor que tenha
valor, deve estar fora de todo acontecer e ser-
assim. Pois todo acontecer e ser-assim é casual. O
que o faz não casual não pode estar no mundo; do
112
contrário, seria algo, por sua vez, casual. Deve
estar fora do mundo. (WITTGENSTEIN, 2001, p.
275).
Em 6.42:
É por isso que tampouco pode haver proposições
na ética. Proposições não podem exprimir nada de
mais alto. (Ibidem, p. 275)
E em 6.421 lê-se:
É claro que a ética não se deixa exprimir. A ética
é transcendental. (Ética e estética são uma só.)
(Ibidem, p. 277).
A afirmação de 6.42 deriva da 6.41. Nessa última a ideia
de sentido do mundo é associada à ideia de valor que em 6.42 é
conectada à ética. O mundo é como é e nesse mostrar-se não há nenhum
valor, nenhum sentido pressuposto. Sendo a ética a expressão desses
valores e/ou do sentido do mundo ela não pode ser expressa em
proposições. Proposições expressam somente o que pertence ao mundo.
O que é reforçado no aforismo 6.421 com a afirmação de
que a ética não se deixa exprimir por ser transcendental fora do mundo.
Até aqui temos um grupo de aforismo que deixa claro o lugar onde se
situa o ético: fora do mundo. Quer seja esse ético um valor ou próprio
sentido do mundo ele não pode ser expresso. Contudo, temos os
próximos aforismos que complicam a questão. Eles não dizem que não
haja valores ou que a ética não exista, ela apenas está fora
do mundo e como tal, ligada ao indizível, o qual mostra como o mundo
é em sua totalidade. Afinal, ética e estética são a mesma coisa. Além
disso, ela é transcendental, está para além do dizível, revelando o mundo
em sua totalidade.
No aforismo 6.422 lê-se:
113
O primeiro pensamento que nos vem quando se
formula uma lei ética da forma “você deve...” é: e
daí, se eu não o fizer? É claro, porém, que a ética
nada tem a ver com a punição e recompensa, no
sentido usual. Portanto, essa questão de quais
sejam as conseqüências de uma ação não deve ter
importância. Pelo menos, essas conseqüências
não podem ser eventos. Pois há decerto algo de
correto nesse modo de formular a questão. Deve
haver, na verdade, uma espécie de recompensa
ética e punição ética, mas elas devem estar na
própria ação. (E também é claro que a recompensa
deve ser algo de agradável, a punição, algo de
desagradável.) (WITTGENSTEIN, 2001, p. 277)
uma mudança substancial nesse aforismo em
comparação com os outros, enquanto que nos anteriores a ética parecia
estar condenada, relegada a impossibilidade de expressão. O que poderia
sugerir a falta de importância dessas para algum leitor. Em 6.422 além
de uma crítica ao modo que normalmente se compreende e se formula
questões éticas, tem-se a ideia que a ética nada tem a ver com suas
consequências, com a ideia de punição e recompensa. É uma informação
importante, pois exclui a possibilidade de éticas normativas, tanto
deontológicas quanto teleológicas.
Entende-se que tudo isso é uma crítica a um modo da
tradição compreender e tratar o tema ético. Depois de dizer que as
consequências não têm importância como critério ético complementa
fazendo uma ressalva ao dizer que “[...] pelo menos, essas
consequências não podem ser eventos”. Isso parece deixar uma porta
entreaberta na medida em que talvez haja consequências e que elas
possam figurar como algum critério, mas elas não podem ser eventos, ou
seja, fatos do mundo. Ao que complementa na frase a seguir “Pois
decerto algo de correto nesse modo de formular a questão”.
Wittgenstein não está descartando a possibilidade de que a
formulação de uma ética não possa ser feita a partir de suas
consequências. “[...] [...] algo de correto [...]” quando pensamos no
comportamento ético/moral a partir dos seus resultados. Depois
complementa que “Deve haver, na verdade, uma espécie de recompensa
ética e punição ética, mas elas devem estar na própria ação”. Está claro
que não está totalmente descartada por parte do autor do Tractatus que a
ética implique em alguma forma de recompensa ou punição e que,
114
assim, suas consequências tenham importância. Mas essa recompensa
ou punição restringe-se à ação, estão na ação, entretanto, pode-se
perguntar: são iguais à ação? E assim esgotam-se conjuntamente com
essa? Parece que não. Anteriormente diz que as consequências não
podem ser eventos, fatos; ações são fatos. Assim, a recompensa e a
punição estão na ação, mas não se esgotam na ação, pois não é igual a
ela. Finaliza o aforismo dizendo que da recompensa e da punição
implicam em algo agradável e desagradável, respectivamente. Isso
parece sugerir um critério, embora não diga se aquilo que é agradável ou
desagradável o é para aquele que pratica ou para o que sofre a ação. Não
diz porque a resposta a essa questão não tem maiores implicações.
Esse aforismo, também não nega ou coloca em dúvida os
anteriores, seja o que for a ética ela continua sendo inexprimível. Agora
se abre uma possibilidade para se pensar a ética, pois Wittgenstein
mostra que certa razão, direito dela existir e que a sua formulação
implica em determinada questões de recompensa ou punição. A questão
agora é entender a que ele está se referindo ao falar de agradável e
desagradável e qual a relação disso com o agir, já que a ética está
presente nele, mas não se confunde com esse. Parece claro, aqui, que
aquilo que está sendo feito por Wittgenstein é uma crítica ao modo
como são construídas as proposições éticas e essa crítica é levada a cabo
através de uma clarificação do que se quer dizer quando se faz certas
enunciações. Ele evita dizer o que deve ou pode ser feito para produzir
uma sensação agradável.
Agora temos os aforismos 6.423:
Da vontade enquanto portadora do que é ético,
não se pode falar. E a vontade enquanto fenômeno
interessa apenas à psicologia. (WITTGENSTEIN,
2001, p. 277).
E 6.43:
Se a boa ou volição altera o mundo, pode
alterar os limites do mundo, não os fatos; não o
que pode ser expresso pela linguagem. Em suma,
o mundo deve então, com isso, tornar-se a rigor
um outro mundo. Deve, por assim dizer, minguar
115
ou crescer como um todo. O mundo do feliz é um
mundo diferente do mundo do infeliz. (Ibidem, p.
277).
Nesses aforismos a relação da vontade com a ética é
desfeita. Pois, do contrário, como afirma o aforismo 6.423 a ética seria
um tema ligado à psicologia. Com isso, fica descartada a ideia de que
aquilo que agrada e desagrada, resultados da recompensa e punição,
sejam estados mentais de um eu que se sente bem (ou mau) com o
resultado de uma ação. Já no próximo aforismo parece estar declarada a
impossibilidade da ação ética, ligada à boa ou má vontade de alterar o
mundo dos fatos. Somente os limites do “meu mundo” alteram-se, esse é
o aforismo 6.43.
Os juízos valorativos nada acrescentam ou dizem sobre o
mundo dos fatos e esses últimos, portanto, não deixam de ser o que são,
somente fatos, aos quais não se agregam quaisquer tipos de valor. Há,
por outro lado, uma restrição nesse aforismo do alcance da ética e seja
qual for esse alcance e importância, ele restringe-se ao nível pessoal. A
última frase corrobora isso dizendo que o mundo do feliz deve ser
diferente daquele do infeliz. Se a ética é ligada a boa ou vontade e
não altera os fatos do mundo, mas altera o mundo do “eu”, nada mais
justo que o mundo do feliz seja distinto do infeliz, pois suas
recompensas e punições serão diferentes e os limites do “seu” mundo
serão outros. Contudo, a ética e a felicidade e infelicidade que podem
decorrer dos atos de alguém continuam sendo inexprimíveis, uma vez
que se leve em consideração os aforismos anteriores
Apesar das restrições feitas à ética, nota-se que
Wittgenstein admite em certa medida que deva haver algo que
caracterize o agir ético/moral, pois uma diferença entre o mundo do
feliz e o do infeliz. Nota-se, também, que ele apenas aponta para tal
situação descrevendo-a, não está tentando extrair (expor) possíveis
regras ou normas que possibilitem a felicidade. Ele está clarificando
uma situação que supostamente envolve preceitos éticos. Não diz o que
pertence ou não ao mundo de quem alcança ou busca a felicidade.
Nesses poucos aforismos temos as únicas referências
claras a ética e questões relacionadas, como o bem e a felicidade. Se
levarmos, ainda, em consideração o contexto dentro do qual estão
enunciados, temos menos aforismos ainda. Percebe-se, como já foi dito,
116
nenhuma preocupação maior em definir ética, moral, valores, felicidade,
entre outros. E apresentar regras ou normas.
Por outro lado, com esses poucos aforismos temos
informações importantes, talvez não muito claras, mas que apontam para
uma direção com relação ao que seja a ética. Fora esses aforismos temos
aquele que figura, via de regra, como um exemplo da importância que a
ética tinha para o autor da obra de 21 e que fecha a mesma lhe impondo
uma condição nitidamente ética: “Sobre aquilo de que não se pode falar,
deve-se calar”.
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 277)
O caráter ético, nesse, e que difere dos outros aforismos, é
a ideia de dever, que se tem uma obrigação (ético/moral). Essa diz
respeito ao próprio exercício filosófico, que tem por finalidade, como
registra o aforismo 4.112 “[...] o esclarecimento lógico dos
pensamentos”. (Ibidem, p. 177), a qual se realiza na medida em que a
filosofia clarifica proposições, como consta no mesmo aforismo “O
resultado da filosofia não são ‘proposições filosóficas’, mas é tornar
proposições claras”.
(Ibidem, p. 177).
Com relação à ética cabe a filosofia, concebida como um
exercício, tornar claro o que se quer dizer, nomear e identificar quando
formulamos proposições éticas. Wittgenstein, em sua Conferência de 29,
em grande parte, realiza essa tarefa de clarificação. Nessa tarefa da
filosofia fica clara, também, a crítica de Wittgenstein, não do
conhecimento ou do pensamento, mas à expressão dos pensamentos,
i.e., à linguagem. Contudo, essa tarefa crítica que se constitui na medida
em que proposições são clarificadas restringem-se as proposições das
ciências naturais. Em 4.11 afirma: “A totalidade das proposições
verdadeiras é toda a ciência natural (ou a totalidade das ciências
naturais)”. (Ibidem, p. 177) ao que se soma o que diz em 6.53 onde
afirma que “O método correto da filosofia seria propriamente este: nada
dizer, senão o que se pode dizer; portanto, proposições da ciência
natural [...]”. (Ibidem, p. 281)
Proposições éticas não pertencem às ciências naturais, logo
elas não dizem respeito ao exercício filosófico. Por outro lado, como
cabe à filosofia a delimitação daqueles limites entre o que é dizível e o
que não é, não deixa de ser obrigação da filosofia clarificar o que
queremos dizer quando enunciamos valores ético/morais. Somente após
isso é que se pode ter claro o que pode e o que não pode ser dito. Afinal,
no prefácio, como foi citado, é necessário poder pensar os dois lados
desse limite, ou seja, “[...] poder pensar o que não pode ser pensado”.
(WITTGENSTEIN, 2001, 131) Se assim for possível, de algum modo
117
ser expressado pela linguagem. O problema não deve residir tanto na
expressão dos pensamentos, mas em como são expressos. Como vimos,
no caso da ética, é necessário achar meios de dizer que a explicitem não
mais como valores transcendentes, ou que impliquem em recompensa e
punição que se dão para além da esfera pessoal.
Nessa abordagem procurou-se ficar restrito somente aos
elementos disponíveis no Tractatus Logicus-philosóficos com o intuito
de mostrar que o seu autor busca, antes da apresentação de
regras/normas para uma vida ética boa, submeter as proposições éticas a
crítica e clarificando, assim, o seu alcance e limites através de uma
análise do modo como são usadas. Nesse sentido, pode-se dar razão a
Wisnewski ao afirmar que a contribuição do Tractaus situa-se no âmbito
da filosofia moral por ajudar a clarificar as enunciações éticas à
prescrever critérios éticos. É digno de nota o subtítulo do próprio livro
de Wisnewski “Uma Defesa da Ética como Clarificação
61
. Seguindo o
mesmo objetivo de Wittgenstein e que corrobora nossa tese. Sendo
assim, é incompatível com a obra a apresentação de teorias éticas
normativas, quer sejam de caráter deontológico ou teleológico (como no
caso heideggeriano). Dando continuidade, explicitaremos uma
interpretação do Tractatus na qual a posição filosófica de Wittgenstein é
associada a uma espécie de misticismo. Apesar dessa posição ser
controversa, ela é uma tentativa interessante na medida que tenta
compreender como funciona a ética na obra do filósofo austríaco e o
porquê de certas afirmações tractatianas.
61
O mesmo está referido na bibliografia desse trabalho.
118
1.2. A INTERPRETÃO MÍSTICA DO TRACTATUS
Apresenta-se a seguir, uma interpretação controversa em
muitos aspectos, mas que em outros ajuda a ter uma boa visão do
Tractatus e sua relação com ética. Explicita-se a posição de Pinto, tal
qual é exposta em Iniciação ao silêncio. Um desses momentos a
salientar está diretamente ligado ao trabalho de Pinto e a relação da
filosofia do autor do Tractatus tomada como uma obra de iniciação
62
.
Tomou-se como base dessa exposição a versão resumida elaborada pelo
próprio autor daquela e apresentada (em sua linhas e teses centrais) sob
a forma de um artigo com a seguinte denominação O Tractatus de
Wittgenstein como obra de iniciação. Nesse Pinto procura mostrar que
as interpretações com respeito ao primeiro livro de Wittgenstein, sejam
elas quais forem (pois o autor não cita quais são essas interpretações)
não esgotam a obra tractatiana, mesmo se interpretada como uma obra
de iniciação
63
.
Isto significa que a obra do filósofo, enquanto um livro de
iniciação, exige uma mudança fundamental no modo como o mundo é
visto e concebido. Além disso, somente tomada nesse sentido é que se
tem uma compreensão adequada da obra.
Isto significa que a compreensão adequada desta
obra não se esgota na mera leitura da mesma, mas
exige uma radical mudança de atitude com
respeito ao mundo. (PINTO, 2008, p. 289)
Pinto começa por fazer uma análise da palavra “iniciação”,
lembrando que a mesma vem do Latim initiatione e que tem dois
momentos fundamentais, necessários e complementares entre si: morte e
renascimento. Na morte, deixa-se para trás não somente o que se é, mas,
principalmente, concepções sobre como se é e como é o mundo. No
renascimento, aquele que chega a essa etapa, encontra-se em um outro
plano de compreensão do mundo e de si mesmo, i.e., de conhecimento.
O Tractatus, desse modo, seria um livro de iniciação que
exigiria daquele que o lê, morte e renascimento. Nesse caso, a morte e
62
Este artigo encontra-se, também, publicado no livro organizado por
Dall’Agnol sobre Wittgenstein, já citado.
63
Este termo é tomado em sua acepção mística, tal qual foi mencionado
anteriormente.
119
renascimento estariam ligadas ao plano da lógica e da ética. E um plano
mais fundamental, estão condicionadas pela ideia ou concepção de
mundo que subjaz à obra tractatiana e que Pinto explora com o intuito
de avalizar sua hipótese de que o Tractatus é uma obra de iniciação
Num segundo movimento, analisa a lógica e a ética que derivam da
obra. Em um terceiro verifica como a lógica e a ética podem ser
pensadas como eventos de iniciação e, por último, indica as conclusões
possíveis dessas considerações.
Inicialmente, Pinto procura mostrar os meios a partir dos
quais emerge a obra do filósofo vienense ou, nas suas palavras, a
atmosfera intelectual e os problemas subjacentes ao livro, pois está
convicto de que essa reconstrução (que não é filosófica em grande parte)
possibilita uma visão mais bem acabada sobre a visão de mundo de
Wittgenstein e o que o leva a conceber a primeira obra tal qual é
conhecida. Há, também, a convicção de que isso permite um melhor
esclarecimento de alguns aforismos, bem como uma melhor visão do
conjunto de suas estratégias argumentativas. Em outras palavras,
somente um olhar atento às influências tractatianas é que permite uma
compreensão detalhada e em conjunto do Tractatus.
Seguindo a exposição de Pinto, tem-se, em um primeiro
momento, a apresentação dos mentores intelectuais que são divididos
em três grandes grupos (o que, tamm, já é questionável): o dos
portadores de uma tendência ético-metafísica composto por James,
Tolstói, Schopenhauer e Weininger. São chamados de “ético-
metafísicos” devido ao elemento místico que constituí a experiência
ética de mundo. Nesse sentido a experiência ética de mundo é uma
experiência mística pessoal, uma espécie de revolução pela qual a
pessoa passa.
O outro grupo de pensadores são aqueles identificados sob
o binômio lógico-científico. Neste grupo encontram-se Hertz,
Boltzmann, Frege e Russel. O que caracteriza esse grupo de intelectuais
é a influência decisiva na elaboração das ideias tractatianas. Em especial
a convicção de que muitos (senão todos) problemas fundamentais da
ciência e da filosofia podem ser dissolvidos ou resolvidos a partir de
uma análise lógica da linguagem. Esses autores compartilham a
convicção de que o mundo tal qual é conhecido pode ser descrito de
modo satisfatório e fidedignamente pela linguagem.
A terceira e decisiva influência que forma o pano de fundo
da formação filosófica de Wittgenstein vem de Mauthner, que é místico
por excelência, para quem diante da impossibilidade da linguagem
120
expressar e explicitar a natureza em sua totalidade, tal qual ela se
apresenta, o melhor a fazer é guardar silêncio, como uma espécie de
aceitação libertadora e redentora em face de grandeza da realidade e a
incapacidade humana de explicitá-la.
É digno de nota o aforismo 4.0031 do Tractatus:
Toda filosofia é crítica da linguagem’. (Todavia,
não no sentido de Mauthner.) O mérito de Russel
é ter mostrado que a forma lógica aparente da
proposição pode não ser a sua forma lógica real.
(WITTGENSTEIN, 1993, p. 165)
Porém, se a crítica da linguagem do Tractatus não é para
ser tomada no sentido Mauthner, como declara o próprio autor da obra,
porque Pinto o toma como uma influência direta e delimitadora dessa
mesma obra? Além disso, a ideia de Mauthner parece estar no horizonte
interpretativo aplicado à obra de 21. Isso prejudica a legitimidade da
interpretação. Assim, recusa-se a ideia de que o Tractatus reflete uma
espécie de misticismo ou que possa ser reduzido a esse. Não se aceita,
também, a ideia de um sujeito cindido, a existência de um sujeito
empírico e outro transcendental, pois não espaço na obra de 21 para
essas ideias.
Segundo Pinto, esses três grupos de pensadores formam a
base a partir da qual o Tractatus foi elaborado. Tem-se, assim: 1.
concepções ético-metafísicas; 2. concepções lógico-científicas e; 3. uma
concepção mística (embora não quase nenhuma diferença entre 1 e 3
sob certa perspectiva), que explicam a obra em suas partes e em seu
todo. Portanto, combinados entre si, não são somente o ponto de partida,
mas o eixo e referencial e, por causa disso, também o ponto de chegada.
Essas teriam sido as bases das quais Wittgenstein nunca teria se
distanciado e que constituem a visão de mundo que está pressuposta na
obra tractatiana. (PINTO, apud, DALL’AGNOL, 2008, p. 292)
Os Cadernos de notas e o Diário Filosófico de
Wittgenstein são exemplos de obras em que o débito com relação às
ideias dos autores pertencentes ao grupo 1 fica evidente, pois nelas é
clara a concordância com a concepção, por exemplo, de Tolstói, de que
somente por meio de uma purificação do espírito, através de uma
superação dos desejos e vícios mundanos é que poderíamos nos
elevarmos acima da vida comum. Em outras palavras, somente com uma
121
vitória do espírito sobre a carne é que se alcança um vel de
espiritualidade superior. Além desse está o cristianismo, segundo Pinto,
concebido tal qual Schopenhauer o imaginou, no qual, ao invés do
espírito é o sujeito transcendental que deve travar uma batalha contra a
carne e superar o sujeito individual ou empírico. Este último circunscrito
pelos domínios espaço-temporais e o primeiro situando-se, exatamente,
fora desses mesmos domínios, que não são mais do que um
desdobramento transcendental da vontade schopenhaureana.
Wittgenstein herda de Schopenhauer a ideia de um sujeito
cindido que luta para alcançar um determinado plano de
desenvolvimento humano. Não mais exatamente como o cristianismo
pensa. Agora, mais como uma posição intelectual, na qual o sujeito
transcendental supera o sujeito empírico. O problema é que não há
duplicidade ontológica em Wittgenstein. Isso é mais um dos fatores que
prejudica a legitimidade da interpretação de Pinto e coloca em dúvidas a
credibilidade e validade de sua interpretação.
Pinto continua afirmando que aquela superação, em
Wittgenstein, deve ser completada por “[...] uma rígida moral do tipo
weiningeriano, que envolve o dever interior de ser autêntico consigo
mesmo para encontrar o sentido da vida”. (PINTO, 2008, p. 293) Tal
posição é coerente, pois nada mais compreensível que aquele que deseja
em seu íntimo superar algo deva, de alguma forma, assumir esse mesmo
compromisso como uma espécie de dever interior, uma forma de
imperativo. Tolstói é chamado para completar esse movimento através
da experiência do eterno presente, que surge pela libertação mística e
representa a conquista do sentido da vida em toda a sua plenitude.
O que, de acordo com Pinto, é uma boa explicação para as
tão conhecidas crises do filósofo vienense, desde que seja aceita a sua
interpretação como correta. Conforme ele, nessas crises Wittgenstein se
colocava diante da cruz e da espada; ou descobre o sentido da existência
ou não nada a ser feito e, portanto, somente o suicídio pode ser uma
saída honrosa. Citando-se Pinto:
Embora Wittgenstein acreditasse nessas idéias,
faltava-lhe ainda experimentar a vivência
tolstoiana do eterno presente para tornar-se um
homem em sentido completo. Essa carência o
deixava existencialmente angustiado, que suas
rígidas convicções morais exigiam
122
implacavelmente que ele descobrisse o sentido da
vida ou se suicidasse. (PINTO, 2008, p. 293).
Isso explica o pano de fundo das crises de Wittgenstein e
as seguidas discussões que tinha com Russel. Mas ainda não diz muito
sobre o próprio Tractatus e seus problemas filosóficos. Contudo,
pistas e explicações importantes sobre as motivações do filósofo
austríaco.
Passando ao segundo grupo de intelectuais que constituem
as motivações filosóficas tractatianas e, seguindo as ideias de Pinto,
tem-se os pensadores de orientação lógico-científica, Hertz e
Boltzmann, que emprestam ao Tractatus Logico-philosophicus a ideia
de que o mundo pode ou deve ser descrito pela linguagem, movimento
descritivo complementado pela análise lógica dos enunciados
linguísticos, tal qual conceberam Frege e Russel.
Nesse ponto entra o elemento complicador de todo esse
arcabouço, qual seja, a ideia de Mauthner de que a realidade não pode
ser em sua totalidade abarcada e, por isso mesmo, descrita pelo ser
humano. Isto não se deve a uma imperfeição inerente à própria
linguagem, mas, sim, ao próprio homem diante da realidade. Devido a
essa incapacidade humana cabe somente o silêncio místico. Essa
perspectiva está expressa e é identificável no Tractatus no último
aforismo: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”.
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 281) Assim, esse último aforismo revela de
forma contundente a influência de Mauthner sobre a obra tractatiana.
Num primeiro momento, pode parecer estar correto a
afirmação de Mauthner para o qual a realidade, em sua totalidade, não
pode ser abarcada pela linguagem e que há um espaço vivencial que não
pode ser explicado. Isto está de acordo, por exemplo, com aquilo que os
pensadores do grupo um, os ético-metafisicos, acreditam escapar à
possibilidade de descrição, as experiências sticas. Mas Mauthner
pode estar errado se comparado com o grupo 2 de intelectuais que
asseguram que é possível descrever o mundo pela linguagem em sua
totalidade, bem como dissolver aqueles problemas que se apresentam
como tais, mostrando que, na realidade, não são problemas válidos ou
legítimos, mas pseudoproblemas.
Aceitando que Mauthner está totalmente correto, como
defende Pinto, então se admite que nem ciência, nem metafísica podem
existir face às incapacidades humanas de descrever aquilo que constitui
123
seus escopos: a realidade e a experiência mística. O grupo 2 é aquele
que apresenta aquilo que se constitui tanto no problema como na busca
da solução, a linguagem. Para resolver a questão tem-se que verificar
como a linguagem pode satisfazer, literalmente, a gregos e troianos para,
assim, poder explicar como certos tipos de experiências que escapam
às explicações científicas, mas que constituem a realidade, mesmo não
podendo ser expressas pela linguagem.
Segundo Pinto, o Tractatus é a reunião dessas três
perspectivas, as quais Wittgenstein tenta possibilitar uma existência
pacífica entre elas. Pela convicção de que todas em certa medida têm
razão. A obra de 21 é o resultado desse esforço íntimo de reunir três
diferentes concepções sobre a realidade e que, além disso, devido ao
peso da ética para o filósofo, ganhou uma importância maior ainda ao
longo do tempo, na medida em que o próprio Wittgenstein sugere que o
homem lógico, expressão entendida como homem filosófico, surge
depois e em consequência do homem ético, ou seja, o filósofo surge a
partir de uma determinada postura assumida diante dos problemas
gnosiológicos e ético-metafísicos. Essa é a postura interpretativa
adotada por Pinto, avalizada pela citação de uma carta de Wittgenstein a
Russel, na qual ele diz: “[...] é preciso ser antes um homem completo,
depois um lógico”. (PINTO, 2008, p. 294)
O peso da interpretação de Pinto concentra-se na palavra
“depois da citação feita acima, entendida como implicando em uma
espécie de superação ou, ainda, como estipulando uma condição
necessária ao aparecimento do homem lógico. Até pode-se admitir, em
certo sentido, como válida essa interpretação. Nesse caso que
admitir-se que Wittgenstein aceita a ideia de um homem cindido e que a
sua salvação encontra-se em uma espécie de superação de si mesmo,
interpretação no mínimo inconveniente, não somente com relação a obra
de 21, mas com relação ao todo de sua filosofia.
Como resolver ou entender a possibilidade de explicar a
existência de dois níveis de realidade? De um tipo de experiência que se
ao ser humano, mas que não é passível de ser dita, não é dizível
filosoficamente e que, na verdade, constitui, em outro plano,
pseudoproblemas, mas que, apesar disso, podem tornar as pessoas
felizes ou infelizes e que, mesmo assim, escapa à possibilidade de
enunciação? Como, ainda, explicar de modo satisfatório a existência de
outro tipo de realidade ou campo de experiência na qual o mundo se
apresenta totalmente ordenado e claro, no qual não há espaço para
mistérios, enigmas, superstições e ideias correlatas? Como estabelecer
124
os limites do que pode ser dito e do que não pode ser dito levando em
consideração o que foi dito, mas que de algum modo é pertinente à
experiência de mundo? Questões que Wittgenstein teve que se haver e
que Pinto procura mostrar como ele as resolve. Cogitando-se que o
filósofo vienense fica preso naquela velha ideia de que um sujeito do
conhecimento e um objeto cognoscível
64
e a todas as aporias que daí
derivam.
E assim torna-se mais compreensível inclusive a ideia de
que limites, de que um campo, no qual, fica circunscrito o que
pode ser dito. Isso, segundo Pinto, faz o filósofo buscar uma solução
recorrendo à teoria dos modelos e da lógica matemática com o intuito de
estabelecer as condições transcendentais a partir das quais algo pode ser
dito. Revelando, também, a dependência, consciente ou não, da ideia
kantiana.
Por outro lado, aceitando-se a interpretação de Pinto, o
Tractatus é tudo menos um livro de filosofia, o que não é admissível. Na
verdade, entende-se que a filosofia é usada para provar a possibilidade
de uma esfera do pensamento místico. Nesse caso, Pinto está certo em
dizer que entre todos os problemas e talvez é esse o mais importante
para o filósofo: “[...] criar as condições favoráveis de contemplação
beatífica do eterno presente”. (PINTO, 2008, p. 294)
A solução de Pinto sobre o dilema em que Wittgenstein se
colocou na obra tratada e que lhe foi insolúvel é digna de nota. Ele teria
resolvido seu dilema alistando-se como voluntário no exército austríaco
(Ibidem, p. 295) e que constitui em uma forma de iniciação mística do
filósofo em direção à experiência do divino e na superação do sujeito
empírico.
Seguindo e aceitando-se as hipóteses de Pinto, tem-se, por
um lado, a crítica de Mauthner, segundo a qual a linguagem não tem
como abarcar a totalidade do que se chama de realidade e, por outro,
aceita-se o fato de que é possível descrever pela linguagem a realidade.
Mantendo essas hipóteses, Wittgenstein procura, então, identificar sob
quais condições de possibilidade essa linguagem se estabelece. Segundo
Pinto, ele parte de dois pressupostos fundamentais para efetuar esta
análise. O primeiro é que todas as expressões linguísticas se formam a
partir de conteúdos descritivos. Quer dizer que as sentenças declarativas,
face à sua bipolaridade, garantem a existência de um conteúdo
descritivo autêntico. A segunda ideia fundamental que acompanha
64
Que é exatamente o que não se aceita nesse trabalho, pois, como dissemos
anteriormente, não há espaço no Tractatus para pensar a dicotomia sujeito-objeto.
125
Wittgenstein é que para estabelecer as condições transcendentais de
possibilidade das expressões usadas na linguagem é suficiente
apresentar as condições de possibilidade dos conteúdos descritivos das
sentenças declarativas. (PINTO, 2008, p. 298/299)
Esses conteúdos são os elementos pelos quais o filósofo
vienense pensa a linguagem enquanto crítica. Mas esse modo de crítica
empurra para um resultado transcendental, pois
[...] o sentido de uma proposição declarativa
qualquer é determinado porque ela pode ser
analisada em combinações lógicas de proposições
atômicas, que são, por sua vez, combinações
lógicas de signos simples. (Ibidem, p. 296)
Os signos simples subsistem como condições de
possibilidade ou coordenadas transcendentais dos fatos linguísticos.
Assim, nunca acesso direto a eles ou à forma de suas combinações.
Mas eles continuam como uma condição necessária da
determinabilidade do sentido da proposição.
Além disso, tais signos simples são indivisíveis e são
aquilo que no seu conjunto e a partir do qual se explica a diversidade
sob a qual aparecem todas as proposições que descrevem as situações
mundanas. (PINTO, 2008, p. 296) A ideia se baseia, como diz Pinto, na
teoria dos modelos de Hertz e Boltzmann e que impede de determinar-
se, a priori, a verdade e ou falsidade de qualquer proposição dada. Esses
valores somente são estabelecidos a partir de uma comparação com os
fatos, que uma proposição simples somente tem sentido por ser um
fato projetado sobre outro fato e este último é não linguístico. Desse
modo, somente levando em consideração os fatos é que se determina a
verdade ou não de uma proposição.
Segundo Pinto, isso se dá face à estreita ligação entre
mundo e linguagem, ideia que é uma das mais fortes convicções que
Wittgenstein herda e mantêm. (PINTO, 2008, p. 297) Convicção que
graças ao fato da linguagem constituir uma espécie de sistema ou
estrutura transcendental, como diz Pinto, possibilita uma lógica sobre a
qual o mundo se mostra. Assim, ela é ao mesmo tempo possibilidade e
fundamento desse mesmo mundo.
Esta estrutura lógica que fundamenta o mundo é formada
por objetos simples que estão para si como os pontos de um de uma
126
rede: todos separados e podendo ser tomados isoladamente, mas que em
conjunto forma um todo interdependente. Esses são os estados de coisas
que, em seu conjunto, formam uma espécie de rede. Os estados de
coisas, unidades mínimas, são aquilo a que se pode chegar com a análise
da linguagem no mundo. Essa rede, portanto, forma a estrutura lógica
que fundamenta o mundo e circunscreve os limites lógicos do mundo
dizível por constituir na própria realidade e a refleti-la. Então, o
conjunto dos objetos simples ou estados de coisas constitui a realidade.
(Ibidem, p. 297)
A realidade não é simplesmente o que se à percepção
pura e simplesmente. Segundo Pinto, essa experiência está efetivamente
ligada à percepção e faz parte de algum tipo de experiência mística.
Somente aquele que a vivencia tem a capacidade de descrevê-la. Ele
conserva um elemento necessário não somente a manifestação da
realidade, mas, também, o que figura como condição para que seja
percebido como tal. Essa estrutura é, além de lógica, transcendental.
“[...] a lógica constitui a essência do mundo”. (PINTO, 2008, p. 299)
Pois o que é dito a respeito da realidade está assentado sob as
proposições atômicas ou estados de coisas possíveis, que constituem em
seu conjunto, essa mesma realidade.
A escada ética é, ao final, um conjunto de procedimentos
executados a partir da convicção inicial de que a estrutura da realidade é
uma estrutura lógica e que pode ser expressa via linguagem. Se alguém
atinge um estado de consciência diverso e tão radical ocorre a própria
destruição da crítica da linguagem. Isto é, no mínimo, paradoxal, pois
uma crítica que se destrói a si mesma não parece mais que um
contrassenso. Mas parece ser este o objetivo que Wittgenstein tem em
mente, segundo Pinto. (Ibidem, p. 301)
Com o intento de provar a sua interpretação, Pinto lembra
que nos Cadernos de Notas, o filósofo austríaco fala de um mundo e
de um sujeito da vontade ou volitivo (uma espécie de eu independente).
A relação do sujeito volitivo com o mundo é uma relação de
dependência, pois a vontade se encontra em um mundo com o qual
ele tem de lidar. O mundo, diferentemente da vontade, é independente
dele. O eu independente ou sujeito volitivo são aqueles que Pinto
considera ser o sujeito transcendental.
no mundo entendido enquanto carne somente se sabe
como e não o que as coisas do mundo são. Não se tem acesso à essência
do mundo. Para tal, é necessário o movimento em direção ao sujeito
transcendental. Que leva o eu independente a perder-se no mundo e a
127
identificar-se com o mundo. Isto explica, por exemplo, a afirmação de
Wittgenstein, na Conferência de 29 que a ética permite ver o mundo sub
specie aeterni, ou seja, em sua totalidade. O que reforça a ideia de uma
espécie de misticismo na concepção ética do filósofo.
Nesse caso, há uma transformação radical no ponto de
vista do observador, pois mundo revela-se em sua totalidade, manifesta-
se em sua totalidade de tal forma a revelar, igualmente, a estrutura
lógica fundamental. O interessante é que este último movimento, a partir
do qual mundo e a sua estrutura ficam explícitos, é um movimento
provocado por uma espécie de postura ética com relação a este mesmo
mundo. Então o mundo, em sua totalidade, somente revela-se, partindo
da aceitação de tais pressupostos, por uma postura ética e identificação
das conexões lógicas subjacentes a essa. Em outras palavras a “Ética e
lógica surgem então como condições do mundo”. (PINTO, 2008, p. 302)
Assim, é condição necessária o surgimento do sujeito
transcendental (que é o sujeito ético) para que surja e possa ser
contemplada a essência deste mundo, a sua lógica. Deste estado de
contemplação, no qual a totalidade do mundo se mostra, nasce o sujeito
stico ou o sentimento místico que transporta ou coloca o sujeito
transcendental em um ponto no qual ele não mais pode ser atingido
pelas suas idiossincrasias e ou vicissitudes. O sujeito está totalmente
seguro e protegido do mundo à sua volta.
Por mais que essas posições com relação ao mundo
pareçam estranhas, elas permitem, segundo Pinto, compreender algumas
das declarações paradoxais (Ibidem, p. 303) sobre a natureza da ética. O
primeiro paradoxo que fica mais compreensível é a afirmação presente
no Tractatus de que todas as proposições têm o mesmo valor. O
pressuposto que avaliza este tipo de declaração é que proposições
descrevem fatos do mundo tão somente e como tal não incluem valores,
pois esses últimos não pertencem aos fatos do mundo. Se pertencessem
não seriam valores. Por isso, a declaração de que “[...] todas as
proposições possuem igual valor porque não possuem valor algum”.
(Ibidem, p. 303)
Outra declaração paradoxal é a de que se o mundo possui
sentido, este está fora dele. Se algo possui algum valor, este valor não se
constitui em fato do mundo e, portanto, está fora do mundo. Proposições
descrevem fatos que pertencem ao mundo. Desse modo, a tentativa de
descrever estes valores éticos, através de proposições não passa de uma
quimera, uma impossibilidade.
128
A afirmação de que a vontade ou a boa ou volição e
não os fatos podem alterar os limites do mundo que o filósofo vienense
fez (WITTGENSTEIN, 2001, p. 277) também se explica. Se a boa ou
vontade são associadas aos valores ético-morais e a eles reduzidas,
essa afirmação, também, torna-se compreensível, pois a vontade
pertence ao sujeito transcendental que está nos limites do mundo em
uma instância privilegiada na qual superou o sujeito individual e o
mundo, a carne se mostra para ele em sua totalidade. Então, é
compreensível dizer que a volição somente altera os limites do mundo e
não dos fatos. A volição, enquanto restrita ao sujeito transcendental,
nada tem a dizer sobre os fatos do mundo, mas pode agir sobre o sujeito
transcendental.
Outras duas declarações tractatianas que são de difícil
solução são as 6.422 e 6.43, que dizem que a vontade ou volição ética
devem envolver algum tipo de punição e/ou recompensa. Uma vez que
as volições éticas restringem-se à ação que se encontra nos limites do
mundo, elas possuem como consequência a felicidade, no caso da boa
volição que gera uma boa ação ética e a infelicidade, no caso da
volição que gera uma ação ética. Assim, ou homens felizes ou
infelizes, a felicidade é a recompensa e a infelicidade a punição dessas
ações. Por outro lado, o sujeito feliz é aquele no qual o sujeito
transcendental vence, por assim dizer, o sujeito empírico e individual e
encontra-se, em consequência, também, em paz com a sua consciência.
O que não acontece com o sujeito infeliz.
A declaração tractatiana 6.4311 afirma que a conquista
ou descoberta do sentido da vida consiste na contemplação do eterno
presente, também se torna compreensível.
A morte não é um evento da vida. A morte não se
vive. Se por eternidade não se entende a duração
temporal infinita, mas a atemporalidade, então
vive eternamente quem vive no presente. Nossa
vida é sem fim, como nosso campo visual é sem
limite. (WITTGENSTEIN, 2001, p. 277)
Dessa contemplação surge aquela sensação de segurança
absoluta e o surgimento da experiência estética por excelência. Por isso,
a identificação em 6.421 da ética e estética. Estética aqui entendida
enquanto um modo de experiência distinta e privilegiada da realidade.
129
“É claro que a ética não se deixa exprimir. A ética é transcendental.
(Ética e estética são uma só.)”. (WITTGENSTEIN, 2001, p. 277)
Assim, são apresentados dois domínios, aquele pertencente ao sujeito
transcendental, a quem diz respeito às questões que envolvam o sentido
da vida ao mundo dos valores e outro que pertence ao sujeito empírico,
aos domínios da lógica e da linguagem científica e aos fatos do mundo.
Nesse ponto, Pinto julga oportuno apresentar a hipótese da
convergência entre o que ele chama de escada ética e lógica que leva a
um tipo de experiência mística do mundo identificada sob o titulo de
iniciação, no sentido místico e forte da palavra. Para tanto, sempre
considerando a influência mauthneriana decisiva, procura esclarecer a
concepção de solipsismo do Tractatus, acreditando que assim torne a
sua hipótese mais plausível.
Em 5.62, Wittgenstein afirma “O que o solipsismo quer
significar é inteiramente correto; apenas é algo que não se pode dizer,
mas que se mostra”.
(Ibidem, p. 245) Levando em conta a influência de
Schopenhauer sobre a filosofia do Tractatus, esse solipsismo, que
aponta para o sujeito e o sentido da vida, realmente não pode ser dito,
pois não é um fato do mundo. Mas uma conquista do sujeito
transcendental que é o limite deste mundo.
Pinto aplica esta mesma ideia sobre o solipsismo, tal qual
Wittgenstein trata, via Schopenhauer, como um modo de entender todos
os aforismos do Tractatus. Assim, a seguinte fórmula: o que A quer
dizer é correto, mas não pode ser dito revela um contrassenso. Então ele
diz que “Parafraseando o aforismo [5.62] mencionado podemos dizer
que aquilo que as proposições do Tractatus querem significar é
inteiramente correto, mas não pode ser dito”. (PINTO, 2008, p. 306)
Com isso fica claro, por exemplo, o porquê da metafísica produzir tantos
contrassensos. Não é por ela ser um erro, em absoluto, mas porque a
linguagem que somente pode e deve descrever os fatos do mundo, o
consegue descrever a estrutura fundamental ou a essência do mundo.
Contrassensos, os quais, o mesmo Tractatus é acusado de produzir e que
o próprio autor reconhece no aforismo 6.54 da obra citada
anteriormente: “Minhas proposições elucidam dessa maneira: quem me
entende acaba por reconhecê-las como contrassensos [...]”.
(WITTGENSTEIN, 1993, p. 281)
Transpondo-se para a ética e aceitando a ideia que ela diz
respeito somente a valores absolutos, qualquer tentativa de dizê-la
produz contrassensos, pois a linguagem não pode dizer valores
absolutos quando muito valores relativos. Assim, afirmações sobre o
130
caráter de alguém nunca poderão dizer respeito a valores absolutos, mas
tão somente a relativos (que dizem respeito a um conjunto de fatos
descritíveis, por exemplo, com relação ao comportamento de uma
pessoa). Caso contrário incide em um contrassenso tal qual as
proposições metafísicas.
O interessante é que Pinto coloca a questão: como algo que
é correto não pode ser dito? E responde a esse problema empurrando-o
para o domínio do sujeito transcendental. O correto, assim como os
valores, também não é um valor absoluto, mas tão somente relativo por
dizer respeito ao sujeito empírico e, portanto, passível de ser descrito
por proposições. Contudo, esse problema está presente no modo como
Wittgenstein trata e diferencia o dizer do mostrar, que ainda segundo
Pinto, é o reflexo da distinção schopenhaureana entre conhecimento
abstrato e intuição. Este dizer corresponde aos fatos do mundo e o
mostrar ao sujeito transcendental e que são uma reedição do
conhecimento abstrato e intuição, mas agora, sem os elementos
psicologistas, pois nela o pensar tem características diferentes com
relação aqueles que o possuem, ou seja, o sujeito transcendental e o
empírico. Por outro lado, o pensar do sujeito empírico vislumbra
somente um modo dos fatos, sua linguagem é, ao final, somente
descritiva e exclui a possibilidade de nomear algo. Assim, a dimensão
do mostrar está excluída da dimensão do dizer.
Diferentemente, o pensar do sujeito transcendental, devido
a sua posição privilegiada com relação ao mundo vislumbra não
somente o mundo do sujeito empírico e de sua linguagem dos fatos,
mas, também, o mundo dos valores e do sentido da vida, que lhe
pertence. O sujeito transcendental tem a consciência das dimensões do
dizer e do mostrar. Além disso, a linguagem tem seus limites
circunscritos por essa mesma estrutura lógica do mundo que lhe impede
de ir mais longe.
Pinto como exemplo exatamente o texto que é
considerado emblemático sobre o assunto, a Conferência sobre ética de
29. Nela está claro o fato de que os contrassensos produzidos não são o
resultado de uma expressão inadequada de alguns problemas ou de um
tipo de erro mais fundamental ou, ainda, o resultado do modo como
foram formuladas certas questões. Os contrassensos são o resultado
inevitável no uso da linguagem que tenta descrever valores absolutos,
erros provocados pelo instrumental linguístico disponível e não devido a
uma incapacidade daquele que expressa os problemas. Desse modo,
131
um obstáculo instransponível e inerente à linguagem, qual seja, sua
incapacidade e insuficiência de expressar valores.
Essa convicção tractatiana é a base, segundo Pinto,
daquela ideia que algumas coisas não podem ser ditas pelo sujeito
empírico e os fracassos que se produzem nessa tentativa. Os
contrassensos são como degraus que são escalados um a um em direção
a um ponto no qual é preciso convencer-se desta incapacidade e aceitar,
misticamente e em silêncio, o mundo da vida, dos valores que se
mostram acima e para além do sujeito empírico.
Ao término do processo, a escada toda é
abandonada como um grande contra-senso,
porque reconhecemos finalmente a incapacidade
da linguagem para exprimir o inexprimível.
(PINTO, 2008, p. 309)
Nesse ponto, o sujeito transcendental mostra-se em toda a
sua extensão, como se tivesse vencido a batalha contra o sujeito
empírico. É este o renascimento do novo sujeito. Aqui está o final do
ritual de iniciação que Pinto fala. Não resta nada a fazer ao sujeito
empírico a não ser contemplar a vitória do sujeito transcendental.
Vitória, contudo, silenciosa.
É esse processo iniciático que Russel parece o
compreender ao escrever e descrever (tentar, pelo menos) as intenções
de Wittgenstein na introdução tractatiana. Por isso, o seu desconforto e
insatisfação com a obra. Pinto julga ter deixado claro os chamados
contrassensos da obra tractatiana bem como muitas declarações de
Wittgenstein de difícil compreensão, por isso afirma: “Isto explica
porque a parte mais importante do Tractatus é aquela que não está
escrita”.
(Ibidem, p. 310) Convergem, então, entre si o que foi chamado
de escada lógica e escada ética. E tanto a crítica radical à linguagem
quanto o seu alistamento militar na II Grande Guerra são provas
contundentes de que é necessária uma mudança radical não somente de
caráter intelectual, mas, também, ético.
Esses dois pressupostos necessários para alcançar o estágio
iniciático, como diz Pinto, revelam a perspectiva do cristianismo
transcendental e, por outro, os imperativos categóricos que subjazem às
formulações e exigências tractatianas. Desse modo, a acusação de que a
obra não chega nem perto de concretizar aquilo que exige da filosofia, a
tal ponto de revelar-se, em seu todo, um contrassenso, é apenas
secundário e de menor importância. Na verdade, tais acusações, antes de
132
tudo revelam a verdadeira atmosfera do Tractatus e o seu objetivo: levar
o leitor a modificar não somente o seu modo de ver, conceber o mundo,
mas o seu comportamento perante mundo.
Contudo, essa última exigência somente se realiza se,
antes, o leitor mudar seu comportamento com relação a si mesmo, a
ponto de exigir de si mesmo uma postura determinada. Quanto a isso,
Pinto parece ignorar que no Diário Filosófico, Wittgenstein equipara
vida e mundo.
O mundo e a vida são um. [...]. A vida fisiológica
não é naturalmente ‘a vida’. E tampouco é a
psicologia. A vida é o mundo. A ética não trata do
mundo. A ética tem de ser uma condição do
mundo, como a lógica. (WITTGENSTEIN, 1982,
p, 132)
Isso torna a posição de Pinto com relação à obra de
Wittgenstein duvidosa. Por outro lado, a interpretação de Pinto revela
muitos pontos interessantes da obra tractatiana e auxiliam a
compreender muitos problemas, questões e pontos que de outra forma
ficam difíceis de serem resolvidos, principalmente, ajudam a jogar uma
luz na questão ética que atravessa a sua obra.
A redução da obra do filósofo vienense a uma espécie de
livro iniciático que, antes de tudo, visa mostrar uma forma de
experiência que leva o praticante à libertação total, infelizmente, tem
que ser recusada. A recusa deve-se a um motivo especial: manter a
filosofia em seus domínios. O ponto de vista transcendental não deve ser
recusado nem ignorado na elaboração da obra analisada, mas a sua
mistificação destrói toda e qualquer possibilidade de fazer filosófico.
Afinal, quem consegue imaginar um Wittgenstein de batina
admoestando seus discípulos?
133
1.3. A CONFERÊNCIA SOBRE ÉTICA
Explora-se de modo mais detalhado, a famosa Conferência
Sobre Ética
65
que o filósofo vienense apresentou em 1929 para
esclarecer o tema e a relação com o Tractatus. O Tractatus contava
com oito anos. Foi publicado em 1921. Nesse período, Wittgenstein
manteve todas as convicções expostas na obra tractatiana. O tema, de
início, é definido por Wittgenstein como de interesse geral e difícil e
procura afastar a ideia de que o mesmo faça parte de algum tipo de
conhecimento científico.
Por outro lado, apesar de manter as convicções com
respeito à ética exposta na obra de 21, é importante salientar que essa
conferência situa-se em um momento de reavaliação e retomada por
parte do filósofo vienense de seus trabalhos filosóficos depois do
Tractatus. Os motivos desta volta não são claros. Pode advir de uma
necessidade de reavaliação e recolocação dos conceitos de infinito de
Brouwer ou uma necessidade de reler a noção de igualdade de Ramsey.
Outro motivo diz respeito tão somente ao fastio pela aposentadoria
precoce de Wittgenstein que, cansado do ócio, resolveu retomar suas
atividades filosóficas. (NETO, 2003, p. 11) Este último é mais fraco em
termos filosóficos, pois não implica em uma revisão de conceitos e ou
posições tractatianas.
O aforismo 5.55 do Tractatus também é mencionado por
Bento Prado Neto como uma pista para tentar compreender os motivos
da volta de Wittgenstein ao trabalho filosófico, o qual reproduzimos
abaixo:
Devemos (müssen) agora responder a priori à
questão de quais sejam todas as formas possíveis
de proposições elementares. A proposição
elementar consiste em nomes. Podemos, porém,
especificar o número dos nomes com significados
diferentes, tampouco podemos especificar a
composição da proposição elementar.
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 241)
65
Se usará, também, a expressão “obra de 29”, para identificar essa conferência
de Wittgenstein.
134
Nesse sentido, a hipótese de que ainda algo a ser feito
para completar o trabalho iniciado na obra de 21 é válida. Desse modo, a
retomada é a continuação daquelas ideias anteriores.
De volta à obra de 29, no início, Wittgenstein lembra a
definição de Moore sobre a ética, em seu livro Principia Ethica
66
no
qual se “A ética é a investigação geral sobre o que é bom”.
(WITTGENSTEIN, 2005, p.208) Acredita-se que Wittgenstein a toma
como um tipo de definição padrão, comum
67.
, pois nela a ética é
associada à ideia de bom, via de regra. Assim, Moore entra mais como
um exemplo que explicita a compreensão comum
68
do tema que o
filósofo vienense não recusa, pelo contrário, aceita.
Partindo disso, propõe rios significados possíveis que o
termo “ética” pode assumir ao ser usado com o intuito de reforçar o que
de comum entre esses usos e propor à ética um significado mais
amplo e deferente do que aquele apresentado por Moore e que ele usou
como ponto de partida na conferência. A estratégia de Wittgenstein é
clarificar o significado do termo “ética” através de seus usos. Assim,
antes de apresentar um conceito, apresenta exemplos que tornem claro o
que pretende explicitar.
Wittgenstein propõe à ideia de Moore, na qual a ética é
associada ao bom, um acréscimo. Assim, o filósofo diz que Moore
também poderia ter dito que a ética é uma investigação sobre o que é
valioso, sobre o que realmente importa ou sobre o significado da vida.
Com estas sugestões, percebe-se que o termo “ética” assume um
significado mais amplo, incluindo outros tipos de investigações. Antes
de associar ética a algum valor ou apresentar um conceito para
desenvolver a conferência, sua estratégia é mostrar que o termo pode ser
usado em dois modos distintos, que compreendem significados
absolutos e relativos.
66
Escrito em 1903 por G. E. Moore é um dos livros sobre ética mais
importantes e controversos do séc. XX. Filósofo de orientação analítica sua ética é considerada
uma metaética (principalmente). Nessa, a ideia do “bom” é fundamental à ética e é uma
propriedade simples, irredutível a qualquer outro elemento. Nesse sentido significa um valor
intrínseco e, portanto, básico, fundamental e no qual outros valores e ações encontram o seu
fundamento.
67
Não se julga, como Rudolf Haller, que Wittgenstein, ao lembrar da definição
de Moore, o fez porque a assume como correta (A ética no pensamento de Wittgenstein, Estud.
av. vol.5 no.11 São Paulo Jan./Apr. 1991 ver
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-
40141991000100005&script=sci_arttext – consultada em 20/10/2003
68
Comum, aqui, não tem qualquer caráter valorativo.
135
Seguem-se alguns exemplos com o intuito de explicitar o
uso do termo “ética” e ressaltar os significados implícitos nesses. Desse
modo, Wittgenstein começa: “esta é uma boa poltrona”.
(WITTGENSTEIN, 2005, p. 209) Dirá o filósofo que ao emitirmos um
juízo desse tipo não se está dizendo nada mais que a poltrona serve para
aquilo para o qual ela foi construída. Nesse caso não está em jogo e
também não implica nenhum tipo de valor absoluto no uso do termo
bom.
Noutro exemplo ele diz:
“Este homem é um bom pianista”.
(Ibidem, p. 210) Neste acontece algo similar ao anterior. Está implícito,
apenas, que o pianista domina certas habilidades que o tornam bom
pianista. Da mesma forma não estão em jogo valores absolutos no uso
do termo bom, como também nem se está associando nenhum valor
àquele que é o pianista.
Em resumo, há casos nos quais se pode usar o termo
“bom”, um termo com peso e implicações éticas, sem qualquer
significado ético no sentido absoluto e sem que implique em um
julgamento de valor absoluto pressuposto. Assim, pode-se usar e usa-se,
normalmente, em diferentes situações, o termo “bomque identifica tão
somente o atender a certas exigências contingentes e específicas.
Wittgenstein, então, não pretende com esses exemplos negar a definição
de Moore, mas propor ver a questão por outro ângulo. Assim, o uso da
palavra “bom”, nesses sentidos, não causa ou implica em algum
problema maior ou mesmo uma negação daquela de Moore.
Todavia, para o filósofo vienense os problemas surgem
quando os termos “bom” ou “mau” são usados de tal forma a ficar
subentendido uma espécie de dever, obrigação de agir de um
determinado modo. De tal forma a tornar possível a cobrança de um tipo
de comportamento como se este estivesse de algum modo,
predeterminado por algum princípio ou uma espécie de obrigação. Em
outras situações fica implícito um julgamento no qual a natureza da
pessoa é que é avaliada. Nesse último emitimos juízos do tipo “Fulano é
uma boa pessoa”.
Esse tipo de juízo dá a entender que a qualidade de ser boa
é inerente a natureza dela quando, na verdade, a emissão do juízo se deu
somente por alguma conveniência ou situação específica. O problema
inerente a todos aqueles juízos de julgamentos diz respeito à
pressuposição implícita da existência de valores absolutos, aos quais, de
algum modo estaríamos submetidos. A distinção proposta por
Wittgenstein quer, exatamente, possibilitar e mostrar essa predisposição
136
ao enunciarmos juízos desse tipo. Em outras palavras clarificar os
juízos/enunciados e não corrigi-los.
Para evitar essas situações, esses problemas, deve-se ter
em mente que tais termos podem ser usados levando-se em
consideração, tão somente, seus valores relativos. Os juízos relativos são
enunciados sobre os fatos do mundo e, como tais, restritos a esse mesmo
mundo, o que não é o caso dos juízos de valor absoluto. A
legitimidade e validade de tais juízos está diretamente delimitada pela
contingência inerente a emissão desses. Assim, a validade de um juízo
de valor absoluto é proporcional à constatação factual de um
acontecimento ou situação.
Esses juízos não existem antes e não garantem nada e não
implicam, de modo algum, em juízos de valor absoluto. Como também
não estão comprometidos com a existência ou não de princípios. Então é
legítimo transitar-se dos enunciados relativos, nos quais o termo “bom”
especifica simplesmente a satisfação ou o possuir uma certa habilidade,
a um uso no qual pressupõe uma espécie de obrigação, dever ou
qualidade oculta. Dito de outro modo, os juízos relativos não se
transformam e nem implicam em juízos absolutos, pois suas naturezas
são bem distintas. Diz Wittgenstein:
O que agora desejo sustentar é que, apesar de que
se possa mostrar que todos os juízos de valor
relativos são meros enunciados de fatos, nenhum
enunciado de fato pode ser nem implicar um juízo
de valor absoluto. (WITTGENSTEIN, 2005, p.
211)
Dessa forma, os atos não implicam em uma espécie de
dever ou qualidade. Não há, dito de outra forma, a priori, obrigações ou
deveres a serem respeitados ou a identificação de alguma qualidade
inerente a natureza da pessoa. Considerando-se seres com obrigações e
deveres, se tais obrigações e deveres não são dadas na experiência e,
assim, não são, também, fatos do mundo. Desse modo, os juízos que são
emitidos não podem exprimir valores absolutos.
Apesar do intervalo entre o Tractatus e a Conferência,
Wittgenstein conserva a mesma ideia do que é a ética, ou melhor, do que
ela não pode ser e/ou constituir-se. Em geral, que ela é um tipo de
conhecimento constituído de juízos de caráter absoluto e que nada tem a
137
dizer sobre o mundo. Na verdade, por causa disso, nem pode ser
considerada um tipo de conhecimento. Contudo, pode-se, por outro lado,
emitir juízos valorativos e isso é feito sem maiores problemas porque
eles têm um valor relativo.
Wittgenstein procura afastar a idéia de que os juízos éticos
seriam estados mentais daquele que tem uma determinada experiência.
Esse seria um expediente interessante para explicar de que modo eles
são usados em sentido absoluto: aquele que os emitira estaria projetando
seus valores sobre o mundo dos fatos. Uma vez feito isso, aquele mesmo
que o fez poderia perguntar-se pela origem desses mesmos valores que
projetou. É claro que seria um falso problema, mas plausível para
explicar e justificar a existência dos juízos de caráter absoluto e a
preocupação humana com as suas origens. Contudo, Wittgenstein vai
negar essa possibilidade. Com o intuito de exemplificar sua afirmação
diz que mesmo se desse uma descrição detalhada sobre um assassinato,
esta descrição, por mais completa que fosse, não teria nada de ética,
pois, segundo ele, o assassinato, enquanto um fato do mundo tem o
mesmo valor que a queda de uma pedra. (WITTGENSTEIN, 2005, p.
212)
Desse modo, Wittgenstein exclui toda e qualquer
possibilidade de falar-se sobre ética a partir de valores absolutos,
associando-a algum tipo de princípio ou ideia que pressupõe certos tipos
de obrigações e deveres. Também, a possibilidade de uma ciência ética
está totalmente excluída, uma vez que a ciência trabalha com fatos e os
objetos éticos não se constituem em fatos do mundo. Sua convicção se
evidencia quando escreve:
Somente posso descrever meu sentimento a este
respeito mediante a seguinte metáfora: se um
homem pudesse escrever um livro de Ética que
realmente fosse um livro de Ética, este livro
destruiria, com uma explosão, todos os demais
livros do mundo. (WITTGENSTEIN, 2005, p.
212/213)
Para o filósofo austríaco a ética não pode chegar a ser
conhecida como um fato do mundo e, ao final, nem ciência pode ser.
Ela também não é o resultado de nossos estados mentais. A ideia de
linguagem e seu isomorfismo com mundo é o que é necessário, a
138
princípio, para entender as considerações anteriores sobre o tema. A
ética e seus possíveis objetos não podem ser expressos pela linguagem,
não somente porque não se constituem em fatos, mas devido às palavras
poderem apenas transmitir significados e sentidos naturais. (Ibidem, p.
213) A linguagem não pode expressar os objetos éticos e,
paradoxalmente, se tenta fazer dela um meio de expressão de valores
absolutos.
Para responder isso, Wittgenstein mostra que quando se
faz enunciações em que usamos termos que dão um peso ético como as
palavras “bom” e mau”, sempre se faz de modo relativo, ou seja, não
um sentido absoluto, pois sempre se faz a partir de uma
compreensão relativa ligada ao uso e aplicabilidade. Desse modo,
invoca, por comparação, situações vividas, as quais são paradigmáticas
para expressar e deixar mais claro o que exatamente significa-se com
tais termos. Contudo, esse não é um movimento válido. Não é aceitável
ou justificável passar do uso relativo para o absoluto.
Entretanto, o filósofo procura, na sequência do texto,
mostrar que sua crítica à ética e a impossibilidade de falar de valores
absolutos não se restringe somente a um tipo específico de ética. Ora, a
resposta de Wittgenstein é plausível, o que se estende a todos os tipos de
éticas e, inclusive, de religiões, uma vez que seus enunciados se fundam
e se originam sob um mau uso da linguagem “Quero agora convencer
vocês que um característico mau uso de nossa linguagem subjaz a todas
as expressões éticas e religiosas”. (Ibidem, p. 216) Com afirmações do
tipo “É uma boa pessoa” e “este é um bom jogador de futebol”, tem-se a
impressão de que há uma semelhança, uma similaridade entre esses
enunciados. Todavia, isso é uma falsa impressão com relação aos
enunciados éticos e também com os religiosos. Essa falsa impressão
originada de uma falsa similaridade deve-se ao fato de que se usa como
recurso para descrever ou avalizar os enunciados éticos e religiosos
ideias que ligam os enunciados com algo no mundo, ou seja, com os
fatos do mundo.
Partindo dessa pressuposição e com o intuito de mostrar
que esse modo de construir juízos éticos e religiosos é falso,
Wittgenstein mostra que, se assim for, deve-se abandonar as próprias
enunciações e se ater aos fatos que servem e são usados como recurso
para descrever qualquer tipo de experiência ética ou religiosa. No caso
das enunciações éticas e religiosas, como foi apresentado, há um engano
ao pensar-se que símiles que são usados na construção das
enunciações éticas e religiosas. Mas nem esses tipos de descrições que
139
usam tais recursos e que lhe dão certa espécie de validade e legitimidade
a possuem. Não havendo este elemento, as proposições que julgam tê-
los revelam-se, como ele diz, sem qualquer sentido. (WITTGENSTEIN,
2005, p. 218) Afirmar isso significa que elas não podem ser de modo
algum compreendidas por aquele que as ouve, nem que elas podem ser
submetidas a critérios que tornem possíveis verificar sua verdade e ou
falsidade.
O filósofo vienense está preocupado não em negar uma
experiência na qual os valores como bom e mau podem ser enunciados,
mas sim de que possa haver, de um modo necessário e absoluto, nessas
experiências, algum tipo de valor intrínseco. Desse modo, Wittgenstein
procura não somente descaracterizar as experiências éticas como
também certos sentimentos que se tem em relação, por exemplo, à
existência do próprio mundo, sentimentos como, por exemplo, de
espanto com a existência do mundo e que alguém porventura tenha.
O que ele mostra é que todos estes tipos de experiências
são problemáticas ao tentar-se expressá-las. Isso ocorre não por não se
encontrar as palavras certas e adequadas para expressá-las, mas devido
às suas próprias naturezas, que revelam uma tentativa de ir além do
mundo, (WITTGENSTEIN, 2005, p. 220) uma vez que ele conserva a
ideia de um isomorfismo entre mundo e linguagem. Isso significa
também uma tentativa de irmos para além da própria linguagem
significativa. (Ibidem, p. 220) A linguagem significativa não é uma
linguagem que cria ou atribui significados, mas que descreve fatos do
mundo. Dito de outro modo, isso significa para o filósofo vienense “[...]
correr contra os limites da linguagem”. (Ibidem, p. 220)
Esse comportamento de se tentar expressar aquilo que por
sua própria natureza não pode ser expresso, além de revelar um
contrassenso não pode se realizar. Implica na impossibilidade da ética
tornar-se uma ciência. Por outro lado, nunca se diz nada ou acrescenta
alguma coisa de valor às preocupações com respeito ao sentido último
da vida, ou à ideia de bem ou do bom, pois tais sentimentos também são
o resultado daquela mesma tendência que cria a ética. Finalizando a
conferência diz Wittgenstein:
O que ela diz nada acrescenta, em nenhum
sentido, ao nosso conhecimento, mas é um
testemunho de uma tendência do espírito humano
que eu pessoalmente não posso senão respeitar
140
profundamente e que por nada neste mundo
ridicularizaria. (Ibidem, p. 221)
Portanto, a ética não acrescenta nada em termos de
conhecimento válido e legítimo com respeito a compreensão de mundo.
Ela é uma tentativa de esclarecer e apresentar uma interpretação do
comportamento e ações humanas, de tal forma a especificar quais têm
valor e quais não, pois, como a religião, suas proposições, nada podem
dizer sobre o mundo dos fatos. Mundo ao qual comportamentos e ações
estão restritos. Contudo, independentemente da impossibilidade de
concretizar esta tarefa, os fatos são submetidos a apreciações de caráter
ético e ou religioso. Isso revela, como ele diz, uma tendência do espírito
humano, ao qual demonstra respeito, de ir para além dos limites do
mundo e, portanto, do que é dizível.
Devido ao modo como Wittgenstein coloca a questão, não
nada a ser feito, pois, qualquer tentativa revela o sem sentido, o
absurdo de insistir em algo que não pode ser concretizado de nenhum
modo. Mesmo que, como diz em certa altura, o homem fosse onisciente
ou que pudesse descrever em sua totalidade qualquer acontecimento do
mundo, a ética não pertence ao mundo, logo nem mesmo nesse caso
poderia ser descrita. Outro expediente que fica claro e salienta-se é a
estratégia adotada, qual seja, esclarecer/clarificar o que se quer dizer
quando se usa certos termos que possuem um significado ético.
Por isso, na conferência não admoestações e similares.
O seu autor não está interessado em dizer o que é o certo ou o errado ou,
ainda, dizer como se deve comportar para atingir-se um tipo de
satisfação pessoal. Está preocupado em esclarecer e o apresentar
regras. Por outro lado, deixa em aberto a possibilidade de uma ética.
Não diz que essa não exista ou que não possa ser o centro das atenções.
Todavia, seja o que for a ética ela se liga diretamente aos fatos do
mundo de tal forma a produzir ou não satisfação e ou felicidade. A
filosofia moral prevalece sobre a ética, nesse sentido.
Isso explica o porquê de Wisnewski julgar que um estudo
da ética em Wittgenstein poder contribuir mais à filosofia moral do que
à ética propriamente dita. No último capítulo dessa parte, explora-se a
posição de Vera Fisogni por julgá-la igualmente, esclarecedora de
alguns pontos do Tractatus com relação à ética, apesar de sua tese
central não ser sustentável, como veremos. Nesse mesmo capítulo
141
trabalha-se, também, o artigo de Horácio Martinez, o qual aceita a
centralidade da ética na obra do primeiro Wittgenstein.
A sua questão é entender como ela se articula com a figura
do silêncio, o qual, diferentemente da interpretação de Pinto, não é o
resultado da vitória e superação de um eu transcendental sobre um eu
empírico, como também não é reduzido a um estado stico. Julgando,
também, que o artigo contribuirá ao trabalho, depois da exposição da
proposta de Fisogni, salientaremos alguns pontos da interpretação de
Martinez.
142
1.4. INEFÁVEL POR EFÁVEL E O SILÊNCIO ÉTICO
Explora-se, agora, o artigo de Vera Fisogni, Ethics and
linguage in Wittgenstein que também demonstra, como o próprio título
explicita, a existência no primeiro Wittgenstein de uma ligação da
linguagem com a ideia de ética. Segundo ela, a interpretação padrão do
Tractatus é que ele tem como função, tão somente, clarificar
proposições sobre as ciências naturais, uma atividade puramente teórica
e, enquanto tal, distante de uma ética. Isso implica em que se alguém
quer procurar uma orientação prática para a sua existência, está fadado,
desde o início, ao fracasso. Assim, não lugar para proposições de
caráter ético e moral. Aliás, tais termos, na obra, não possuem distinções
mais profundas e são, até mesmo, usados como sinônimos.
Para Fisogni, como também para Pinto, o que está em jogo
no Tractatus é a própria forma da filosofia. Na verdade, a filosofia passa
a ter uma função auxiliar, uma espécie de função propedêutica. A
estratégia de Fisogni é identificar a própria forma da filosofia proposta
pelo pensador austríaco como uma espécie de ética para ir de encontro
às suas ideias que negam a possibilidade dessa mesma ética.
Para Russel, o tema ético na obra de seu antigo aluno, não
pode ser dito por ter sido colocado no campo do místico e do inefável.
Assim, a linguagem não expressa proposições éticas, como também
reconhece o próprio Wittgenstein. Mas, segundo Fisogni, essas
impossibilidades devem ser reconsideradas para que se aclare o tema
ético no Tractatus
69
.
Segundo Fisogni é necessário fazer dois parênteses para
tornar isso realizável: primeiro, a afirmação de que a ética situa-se na
esfera do inefável não significa, para Wittgenstein, uma referência a
ética em geral, ou seja, toda e qualquer tipo de ética. O segundo
parênteses implica na necessidade da correção de tal forma a
proporcionar uma releitura de inefável para efável, pois esse último tem
um significado contrário ao anterior. Esta releitura está presente na
palavra inefável, tal qual foi utilizada por Wittgenstein. O problema é
que a tradição, ao privilegiar o significado inefável, relegou à
69
Julga-se que a questão talvez não seja tanto reconsiderar a possibilidade da
linguagem poder ou não expressar a ética, mas, o problema principal a ser reconsiderado deve
ser o que se entende por ética, ao final, ou, ainda, que tipo de ética pode-se construir a partir
das limitações que Wittgenstein impõe ao tema.
143
impossibilidade o desenvolvimento do tema da ética (FISOGNI, 2001,
p. 2), pois o inefável não pode ser dito, expresso.
Com relação a essa proposta da filósofa, ela se refere ao
aforismo 6.522 que diz “Há por certo o inefável. Isso se mostra, é o
Místico”. (WITTGENSTEIN, 2001, p. 281) O termo alemão que é
traduzido para a versão portuguesa transcrita por Luiz Henrique Lopes
dos Santos, para a 3ª. edição, por “inefável” é Unaussprechliches. Na
tradução de José A. Giannotti, de 1968, foi usado “indizível”. As duas
traduções são possíveis e legítimas para o termo. Cabe lembrar que o
termo “inefável” tem um caráter teológico/místico na medida em que se
refere ao que está para além desse mundo, que o transcende. Mas não
somente o transcende; está para além, não pode ser dito, é indizível e,
portanto, inefável. Ele escapa à compreensão humana. Há, então, um
caráter valorativo implícito nesse termo. Efável, pelo contrário, é
verbalizável, possível de ser dito por meio da linguagem por poder ser
compreendido pela razão humana, logo expresso linguisticamente.
Na tradução para o inglês lê-se “There are, indeed, things
that cannot be put into words. They make themselves manifest. They are
what is mystical”. (Idem, 2002, p. 89) Percebe-se que em nenhuma das
traduções traduz-se o termo usado por Wittgenstein em língua alemã
para efável como argumenta Fisogni. Por outro lado, ela não apresenta
provas da possibilidade dessa leitura. Até onde se sabe, a palavra alemã
que foi traduzida por “inefável” é Unaussprechliches”, ou seja, aquilo
que não pode ser dito, a qual, em suas origens não comporta a
possibilidade de ser traduzida por efável.
Se essa troca realmente fosse possível levaria,
inevitavelmente, a uma reconsideração do significado atribuído ao termo
“místico”. Mas mantendo-se sua significação dentro do horizonte
religioso como implica o termo inefável sim a ética, enquanto uma
stica, é impossível de ser abordada pela filosofia. Todavia, segundo
Fisogni não é esse o significado/sentido do termo no Tractatus e no
Diário filosófico.
A ética tal qual se expressa no Tractatus, segundo Fisogni:
1. oferece uma estrutura transcendental da linguagem-mundo e 2.
aparece como condição dela. Desse modo, a ética desempenhando tais
funções é tanto fundamento da linguagem quanto das representações de
mundo. Com esses movimentos, Fisogni pensa poder realizar seus
objetivos, quais sejam: 1. ir além da interpretação da sétima proposição
e, 2. mostrar que a inefabilidade das proposições éticas não é aceitável,
pois para Wittgenstein todo falar, independente do tipo de linguagem, é
144
ético e, portanto, o próprio dizer. Essa conclusão está baseada sobre um
argumento crucial: a possibilidade de um falar é dada somente quando
condições para falar e se esta condição não está dada “devemos
guardar silêncio” como diz o autor do Tractatus.
Novamente discute-se a sétima proposição. Diz a autora
que essa demarca dois campos de objetos: daqueles sobre os quais se
pode falar e sobre aqueles que estão no campo do inefável. O uso do
termo muß por Wittgenstein revela a outra dimensão dessa enunciação.
Essa dimensão diz respeito a um dever que pressupõe uma espécie de
obrigação moral. Assim, falar, ou seja, usar a linguagem a partir de
regras lógicas e gramaticais pressupõe uma dimensão moral predisposta,
na qual sabe-se o quê e como fazer. Esta é uma prova decisiva segundo
a autora. É claro que o expediente usado pela filósofa é dar um peso
forte ao termo “muß” usado na obra tractatiana.
Falar ou não falar não significa somente respeitar
moldes lingüísticos, mas refere-se também à
moralidade. Segue-se que qualquer falar
corretamente (logicamente) é um bom (moral)
discurso. (FISOGNI, 2001, p. 3)
Fisogni destaca que o termo “ética”, tanto em suas origens
gregas quanto latinas expressa uma ideia de comportamento com relação
a determinados hábitos sociais. A moral diz respeito ou tem relação com
uma certa dimensão interna identificada com o termo “consciência”. Ela
acrescenta que, no Tractatus, Wittgenstein usa o termo “ética”, tanto no
sentido estrito que a palavra possui (um sistema de princípios morais),
quanto no sentido de uma moral (leis internas da consciência no sentido
kantiano de imperativo moral). Então, segundo Fisogni, há no Tractatus
uma profunda relação entre ética e lógica. O que explica o fato de nas
Investigações a linguagem ter ganhado tanta importância.
Isso demonstra, para ela, a intenção e convicção do
filósofo vienense em manter o objetivo ético como pano de fundo de
todo o seu pensamento. Assim, uma interpretação ética da obra do
filósofo permite se vislumbrar uma unidade inerente e subjacente.
Assim, com as Investigações, Wittgenstein somente deu continuidade a
uma postura ética iniciada no Tractatus.
Entretanto, tal necessidade ética que se reflete na lógica
não se localiza em uma região metafísica da linguagem. Aliás, para
145
Fisogni é exatamente esta ideia que deve ser repensada. Levando em
consideração que Fisogni está certa e retirando a ideia de que a ética não
está no campo do inefável, a ética/moral é uma dimensão do mundo,
uma estrutura de mundo. A única certeza, levando em conta a obra
tractatiana, é que a ética não pode ser dita, mas, independentemente da
resposta, pode-se aceitar que realmente há um imperativo ético que
determina a postura diante dos fatos e que determina a própria filosofia
de Wittgenstein, mas que não se identifica com ela mesma. Porém, para
a autora do artigo, no Tractatus, este imperativo “você deve” move-se
da consciência para a linguagem, ressaltando a ideia de obrigação e traz
outro problema à discussão, a ideia de consciência.
As proposições que tornam possível fazer esta relação
entre consciência e linguagem são: 6.42 e 6.421 que Fisogni usa para
avalizar suas afirmações. Se assim for, continua ela, o termo regras
(rules) é uma palavra chave para Wittgenstein e, mais ainda, em seu
pensamento, pois incorpora e revela essa dimensão ética/moral inerente
ao seu pensamento. Isto somente é possível, como quer convencer a
autora, em face de uma profunda relação entre ética e lógica.
Desse modo, quando se em 6.42 “[...] é por isso que
tampouco pode haver proposições na ética. Proposições não podem exprimir
nada de mais alto” e em 6.421 – “[...] é claro que a ética não se deixa exprimir.
A ética é transcendental (ética e estética são uma só)”
não é a declaração da
impossibilidade de uma ética. Deve-se ler esses enunciados, segundo
Fisogni, não como uma forma de criticar ou negar um espaço para a
ética, mas uma forma de criticar e negar um espaço para a filosofia
moral tradicional.
Este artigo de Fisogni é um exemplo claro do esforço para
interpretar o Tractatus como um livro que tem sua expressão mais
elevada naquilo que não enunciou: a ética. Interpretação que rivaliza
com aquelas designadas como logicistas. Estas últimas concentram-se
na análise da linguagem como forma de banir de todo o discurso
filosófico as consequências danosas da metafísica. De tal forma a
garantir que o discurso com sentido seja um discurso livre dos vícios da
linguagem metafísica, onde se situa a ética. Essas interpretações éticas
da obra tractatiana têm como principal responsável o próprio
Wittgenstein. É conhecido o teor da carta que ele enviou ao editor do
livro, Ludwig Von Ficker:
146
Na realidade, porém, o livro não lhe será estranho,
dado que a sua temática é ética. Eu pretendia
incluir algumas palavras a respeito no prefácio
que não foram incluídas, mas que transcrevo em
seguida porque talvez possam lhe fornecer uma
chave. Eu pretendia esclarecer que a obra consiste
em duas partes: a que está aqui é tudo aquilo que
eu não escrevi. E a parte importante é
precisamente a segunda. Pois a ética é delimitada
internamente, por assim dizer, em meu livro; e
estou convencido de que, estritamente falando, ela
só pode ser delimitada dessa maneira. Em resumo,
penso que tudo aquilo sobre o que muitos hoje
estão discorrendo a esmo eu defini em meu livro
simplesmente calando-me a respeito. Portanto, a
menos que muito me engane, o livro terá muitas
coisas a dizer que você próprio gostaria de dizer,
embora possa não se dar conta que estão ditas
nele. Por ora, recomendaria que você lesse o
prefácio e a conclusão, pois expressam seu intento
de forma mais imediata. (WITTGENSTEIN, Apud
Martinez, 2001, p. 161-162)
Vê-se, portanto que o autor do Tractatus contribui para
esse tipo de interpretação. As proposições finais do Tractatus
novamente funcionam como uma prova da importância do tema ético,
como defende Horácio Martinez em seu artigo A função e conteúdo da
ética na filosofia do “primeiro” Wittgenstein, o qual é mais um exemplo
daquelas interpretações que procuram mostrar que é extremamente
necessário considerar a ética como delimitadora da obra do filósofo
vienense. Aliás, este é o elemento motivador do artigo de Martinez, pois
o seu objetivo é entender como a ética, que ele aceita como um
componente fundamental e complementar do Tractatus, juntamente com
a linguagem, possibilita a obtenção do silêncio tractatiano
70
. Em um
segundo momento procura mostrar que tipo de ética surge dessa relação
e como essa se constitui em uma estrutura pressuposta e
70
Quanto a isso reitera-se o que se disse na nota 81. A questão não é tanto
como articular o indizível com o dizível de tal forma a tornar possível expressar juízos éticos.
Desde que os “valores” éticos a serem expressos não sejam “valores absolutos”, não
maiores problemas com relação a linguagem ou o silêncio. Nesse sentido, tem que ser
abandonada a idéia de que os juízos éticos verdadeiros são aqueles que expressam o sentido da
vida ou o mundo em sua totalidade.
147
fundamentadora da obra de 21. Argumenta, ainda, que a aceitação da
ética funcionar como uma estrutura pressuposta e fundamentadora é
imprescindível para uma melhor compreensão da mesma.
Realmente motivos para afirmar a existência de uma
ética fundamentadora e, ao mesmo tempo, responsável pela estrutura do
Tractatus? Pelo que foi visto até o momento, sim. Outra questão é:
pode-se derivar dela, da obra ou encontra-se nela uma ética, por
exemplo, normativa? Pelo que se quer provar, não. A linguagem tal qual
é apresentada no Tractatus tem tão somente uma função descritiva e a
ética situa-se no campo do inefável, fora do mundo dos fatos, os únicos
que podem ser descritos por aquela linguagem, o que torna impossível
falar de objetos éticos. Estes não são negados, mas tão somente
impossíveis de serem ditos e abarcados pela linguagem, segundo
Martinez.
Já que a tarefa da linguagem filosófica é descrever fatos do
mundo e Deus, as religiões e a ética são coisas fora deste mundo que se
encontram no campo do inefável, é impossível tentar descrevê-los. Eles
escapam à experiência possível. Qualquer tentativa de descrever tais
objetos gera contrassensos. Somente as proposições científicas
descrevem fatos, os acontecimentos do mundo e, portanto, fatos com
sentido. É este o motivo pelo qual o primeiro Wittgenstein coloca as
proposições da ciência como modelos de proposições com sentido, ou
seja, modelo de proposições que descrevem fatos no mundo e, portanto,
não inefáveis.
Mas como formular leis ou regras éticas, preceitos e regras
orientadoras do agir humano? Somente pressupondo certos valores que
determinam o comportamento humano para com os outros e consigo
mesmo, como, por exemplo, o respeito ao próximo. Mas isso implica,
para Wittgenstein, em uma equivalência entre ética e religião e em uma
espécie de complementaridade mútua como dirá Martinez
71
.
(MARTINEZ, 2001 p. 177) Afinal, a ética não visa somente à vida em
harmonia com o outro, mas garantir a felicidade quer seja convivendo
com o outro, quer seja a felicidade própria; resultado de uma espécie de
realização pessoal.
O problema é que não se pode falar ou ocupar-se
filosoficamente do que possibilita o acesso à felicidade. Contudo,
existem atos que possibilitam a felicidade e outros a infelicidade. Por
outro lado, têm-se crenças e valores herdados e que, conscientemente ou
71
Função e conteúdo na obra do “primeiro” Wittgenstein, ver bibliografia.
148
não, orientam a vida de um modo geral, i.e., há uma moral e por ela se é
condicionado e isso não pode ser negado.
O problema é falar, descrevê-los, enumerá-los de tal forma
a construir uma espécie de sistema ético, um sistema de valores. Eles
fazem parte da experiência de mundo subjetiva, ao final, mas que ao
lado de Deus e da própria ideia de mundo, não podem ser descritos. Essa
posição de Wittgenstein surge do fato dele entender que as coisas
inefáveis, por serem absolutas, dizem como o mundo é em si mesmo.
Isso não é possível à linguagem do Tractatus. Ela, enquanto uma
descrição do mundo dos fatos somente diz o que encontra dado de
alguma forma. Wittgenstein diz em 3.221 [...] uma proposição
pode dizer como uma coisa é, não o que ela é”. (WITTGENSTEIN,
2001, p. 151)
Se o mundo como tal, está dado de alguma forma, as
coisas inefáveis e não inefáveis também já estão. Aqui se inclui, além do
mundo e da religião, Deus e o próprio homem tractatiano. Agora, de
onde nasce esse homem não está claro: se da linguagem ou de dentro de
um sistema linguístico em que o ilógico não tem lugar como diz
Martinez. (MARTINEZ, 2001 p. 178) Certo é que esse homem
tractatiano se encontra já com esses problemas e com eles tem que lidar.
Essa ideia de que mundo é algo encontrado está
expressa em NB 2/9/16
“quero falar do mundo que encontrei”. É claro que
este encontro com o mundo não é o de um eu solipsista que de repente
adentra neste mesmo mundo. O dar-se conta do mundo é uma forma
de encontrar-se com ele e nele, no qual certos problemas já estão
colocados.
O encontrar-se nesse mundo previamente dado cria um
sentimento de dependência, de uma vontade estranha (Fremden Willen)
como diz Wittgenstein. Como é identificado em NB 8/7/16 esta vontade
estranha é Deus, o mundo.
“Deus seria, neste sentido, simplesmente o destino
ou, o que no mesmo: o mundo independente da nossa vontade”
. Aquilo
que foge ao entendimento ou controle foge à possibilidade de
enunciação e é, portanto, inefável. Mas esta vontade que é anunciada
como independente do mundo não é aceita por Martinez. Esta
independência é inaceitável. (Ibidem, p. 179) Pois, segundo o aforismo
5.62, há um isomorfismo, uma mesma forma lógica entre mundo e
linguagem. Soma-se a isso o fato de que o mundo é sempre o mundo de
alguém, é sempre percebido, enquanto mundo, por um sujeito metafísico
e solipsista.
149
Nesse caso, não realmente, uma independência entre a
vontade e o mundo percebido. Contudo, se mundo já se dá pronto,
acabado ao sujeito metafísico, ele deve ser, de algum modo,
independente da vontade. Martinez retoma a metáfora do olho. Diz
Wittgenstein que o sujeito está situado no mundo como o olho no seu
campo visual. Isto significa que o mundo é o que se conhece, pensa e
diz. A figura do olho é interpretada como indicativo de uma
subjetividade forte, na qual o sujeito metafísico é um sujeito solipsista.
Isto significa que nada está oculto, que o mundo é o que
está aí desse modo, como se apresenta à visão. Assim como não se pode
dissociar o olho do campo visual, pois um constitui o outro de tal forma
a serem inseparáveis. O mesmo vale para a relação homem e mundo.
Assim, quando se fala em mundo a referência é ao modo como ele é
percebido, ao modo como o homem se compreende nesse mundo e em
relação a ele. Este ver é indissociável, ao final, de um ponto
privilegiado, um lugar a partir do qual melhor se percebe o que é
identificado pelo termo mundo.
O campo visual se faz e se constitui a partir do próprio
movimento do globo ocular, do olho e do que ele percebe. Para a relação
homem-mundo vale a mesma coisa, pois “nada está oculto: tudo é como
é e acontece como acontece [...]”.
(MARTINEZ, 2001 p. 179) Isso é
muito semelhante com o que Heidegger diz a respeito da pre-
compreensão de mundo dentro da qual o homem se encontra. Em
Heidegger o aspecto ontológico e constitutivo do ser-aí. Em
Wittgenstein, contudo, não é possível dizer tanto. Esse mundo com o
qual o homem já se encontra é o mundo dos fatos, tal qual é dado.
Todavia, qual a relação do exposto com a possibilidade de
uma ética? Com o inefável? O problema é que tudo isso não pertence ao
mundo. Não se constituem em fatos do mundo. As perguntas que visam
esclarecer qual o sentido da vida ou o do mundo, ou aquelas que
pretendem determinar se uma finalidade maior, para além do que se
dá, não têm razão de ser, não devem ser feitas, pois questões deste tipo e
as suas respostas escapam também. Os seus objetos não são fatos do
mundo, são inefáveis e, desse modo, não são predicáveis, como afirma
Martinez. (MARTINEZ, 2001, p. 180) Contudo, estes objetos existem
de alguma forma, eles se dão de alguma forma ao sujeito metafísico,
mas não podem ser descritos.
Wittgenstein postula outro tipo de experiência de mundo,
que não é mais passível de ser expressa de modo rigoroso. Surgem as
seguintes questões: dois tipos de experiência de mundo? Ou este
150
mundo que se apresenta ao sujeito metafísico tem dois níveis: um no
qual algumas coisas podem ser descritas e, desse modo, configuram-se
em fatos e outra em que se dão, mas não podem ser descritas? Como
falar de problemas éticos e morais nessa situação?
Martinez recusa que esses problemas possam
simplesmente ser reduzidos a problemas da vida. Diz ser isso uma
espécie de diminuição do papel da ética no Tractatus. Enfatiza que
embora se possa estar de bem com a vida e sem a mínima preocupação
com a existência ou de uma finalidade inerente a ela, ninguém está
isento de problemas morais nos mais diversos níveis. Então, mesmo que
não haja preocupação com os chamados problemas da vida e problemas
de caráter ético, os conflitos que surgem não são eliminados em e no
cotidiano. Problemas que dizem respeito a problemas ético/morais.
Tomando por base o artigo em questão e seguindo as
indicações do Tractatus, chega-se a um beco sem saída. Diante de
problemas ético-morais que não podem ser resolvidos simplesmente
relegando-os ao campo do inefável, do indizível ou ao silêncio. Eles são
tão reais quanto os fatos que constituem o mundo. Dessa forma, na
esfera do privado, do particular, as indicações do Tractatus não ajudam.
Mas será que Wittgenstein se deu conta disso? Deixou-se enganar?
Dificilmente. A carta enviada ao editor afasta qualquer possibilidade de
ingenuidade por parte dele. Lembrando um dos trechos: “Em resumo,
penso que tudo aquilo sobre o que muitos hoje estão discorrendo a esmo
eu defini em meu livro simplesmente calando-me a respeito”.
(WITTGENSTEIN, Apud Martinez, 2001, p. 161-162)
Será que ele está dizendo que não falou da ética aplicada a
certos problemas por eles não serem na verdade problemas éticos? Isso
não é possível. A ética pensada em seu sentido absoluto, enquanto
ligada ao mundo e ao inefável, a finalidade do mundo e da vida, não
pode dar uma resposta aos problemas morais humanos. Tais questões
são mais de caráter psicológico e sociológico do que ético propriamente
dito. Isso significa que o conflito moral entre fazer ou não algo como,
por exemplo, autorizar a execução de alguém, não coloca propriamente
um problema ético/moral. Não há, então, porque exigir da ética
tractatiana respostas aos conflitos éticos/morais particulares ou ligados a
casos específicos, pois eles não são problemas éticos propriamente ditos.
Condicionam a felicidade ou tristeza, mas não dizem respeito à ética
enquanto tal.
Em 6.422, também citado por Martinez, Wittgenstein
afirma que não sentido algum em dizer a outrem ou ouvir algo do
151
tipo você deve e acrescenta “[...] e daí, se eu não fizer?” Ele, aqui, rejeita a
possibilidade de um tipo de ética normativa. É exatamente por esta
rejeição, em que vem à tona a liberdade, o livre-arbítrio, que a defesa de
uma ética fica sem sentido algum. Segundo Martinez, não é porque a
ética não se aplica aos problemas da vida, mas por não existirem
problemas ético/morais verdadeiros no nível da ação prática. Existem,
tão somente, ações que tornam o homem feliz ou não. Mas se isso não
diz respeito à ética e a moral ao que diz então?
Teorias éticas de origem normativa são capazes de dizer
algo que auxilie em decisões, mas são rejeitadas. Em 6.422,
Wittgenstein diz que não considera importante as consequências de uma
ação. Assim, nem as consequências dos atos podem servir como
critérios para a criação de uma ética/moral. Isso acontece porque os atos,
tomados em si mesmo, não são éticos ou morais.
Em 6.422 Wittgenstein fala também, que deve haver uma
punição ou recompensa com relação à própria ação que resulta em
felicidade ou infelicidade. Portanto, são avaliadas ações boas ou más. As
ações devem continuar surtindo resultado, mas não são mais avaliadas a
partir de um critério ou qualquer critério absoluto, levando em
consideração o bem e o mal que produzam. Assim, aquelas ações
que, aparentemente, não podem ser avaliadas de nenhum modo.
Contudo, são capazes de produzir felicidade ou infelicidade. (NB
8/7/16).
A dificuldade é que não há, como também reconhece
Martinez, uma ligação entre o mundo dos valores e o mundo do agir
pelo valor absoluto das proposições éticas. Mas Martinez questiona o
fato do porquê não se poder considerar a felicidade e a infelicidade
como fatos do mundo. Afinal, elas são inerentes ao agir, o que as
tornaria fatos do mundo, passíveis de serem descritos a partir daquilo
que causa felicidade, alegria ou tristeza.
Desde que certos atos ajudem a solucionar certos
problemas da vida, eles são suficientes para proporcionar a felicidade.
Desse modo, para Wittgenstein, foge-se do utilitarismo na medida em
que não está em jogo a busca pelo prazer como fim último dos atos. A
felicidade produzida por um ato bom não se liga a quantidade de prazer
que este mesmo ato pode proporcionar, mas na medida em que este ato
solucione um problema da vida. Ao que tudo indica, felicidade e
infelicidade são pensadas pelo filósofo austríaco como estados da
consciência e, portanto, desvinculados do agir e do mundo dos fatos.
152
Assim, uma vida é uma vida na qual os atos, as ações,
não solucionam os problemas da vida. O que, na verdade, significa
manter-se em harmonia com o mundo e ter paz com a consciência. A
felicidade é o resultado da paz com a consciência e ela é um estado de
consciência. A infelicidade passa a ser o sintoma de uma vida em
desarmonia com o inefável e algum ato causa preocupação ou deixa
tristeza por tê-lo feito, a consciência é acionada. Aponta a desarmonia
com o mundo que deve então ser restabelecida.
Segundo Martinez, Wittgenstein substitui os termos “bom”
e “mau”, carregados de significado teológico, pelos termos “felicidade”
e “infelicidade”. O autor do Tractatus o faz por motivos óbvios: fugir
dos problemas teológicos, religiosos que, via de regra, sempre levam a
aporias. A felicidade e infelicidade são critérios que, associados à
consciência, se apresentam como elementos que revelam a harmonia ou
desarmonia com o mundo, indicando, assim, que algo deve ser revisto
para restabelecer essa harmonia e atingir a felicidade, algo bem mais
claro e passível de ser compreendido.
A ética tractatiana, se entendida como uma busca pessoal
pela felicidade termina aqui. Sendo que esta é a ideia de ética para
Wittgenstein, o Mußen (presente no último aforismo do Tractatus e que
causa tantas discussões) deve ser lido simplesmente como um conselho
ético (normativo). Falar sobre o que escapa à linguagem causa a
infelicidade por levar a criar problemas que serão insolúveis e que
trazem infelicidade àquele que os formulou. Por outro lado, continua
valendo a ideia de que não se deve falar porque se está ultrapassando a
possibilidade de enunciação da linguagem.
Por outro lado, seguindo Martinez, pensar tanto a
felicidade quanto a infelicidade como fatos do mundo resolveria o
problema da ética tractatiana. Porque proporcionaria uma descrição da
ética a partir do que traz tristeza ou felicidade. Mas, para desconforto do
autor do artigo em questão, não é isso que acontece, o que faz com que
torne a questão sem solução, pois, ambas, felicidade e infelicidade, são
colocadas na consciência. Isso complica mais a questão, pois, desse
modo, devem ser descritas pela linguagem figurativa. Caso contrário a
consciência daria conta de coisas que são inefáveis, o que é
inadmissível. Felicidade e infelicidade não podem ser concebidas como
valores absolutos.
O problema que Martinez julga ter identificado nessa
exposição de Wittgenstein é o da circularidade na argumentação. Por
exemplo, imagine-se a seguinte situação: alguém pensa em um ato que
153
fez a outro, mas julga que não deveria tê-lo feito. Agora, considere-se
que o autor do Tractatus sustenta que pensar e dizer são a mesma coisa
e que um isomorfismo entre pensar e mundo. A consciência, via de
regra, não poderia pensar nada que não fosse fato do mundo. Logo, o
que está sendo pensado deveria constituir-se em um fato do mundo e,
portanto, poder ser dito.
Todavia, segundo Martinez, a questão fica sem explicação
no Tractatus e revela certa fragilidade no tratamento do tema. Martinez
reconhece que o grande problema a vencer é a ideia de absoluto e
inefável que se liga diretamente ao tema ético do modo como é tratado
por Wittgenstein e que, além disso, a compreensão de uma estrutura
ética como exercício de aceitação de um mundo determinado é
fundamental à compreensão da obra do filósofo, em particular, do
Tractatus.
É impossível negar o papel fundamental e, ao mesmo
tempo, delimitador da ética que não pode e não deve ser reduzida à
lógica ou à linguagem como se fossem a mesma e uma só. A ética está
colocada anteriormente e como condição para a lógica e a linguagem.
Mas a ética ou os seus enunciados têm valor relativo, ou seja, são
circunstanciais e não absolutos.
Levando em consideração essa exigência e a ideia de que a
ética figura como uma condição intransponível e delimitadora do que
pode ser dito, fica-se autorizado a concluir que o dizer não pode
formular juízos absolutos. Se o dizer deve-se submeter à condição ética
e que é a condição de possibilidade desse dizer, esse não pode formular
enunciações absolutas, somente enunciações sobre os fatos, o que é
coerente com o que se tratou até o momento.
Se for levado em conta os seguintes aspectos: que a ética é
o horizonte ao qual deve ser remetida a linguagem e que somente os
enunciados éticos de caráter relativo são legítimos e válidos, o dizer
deve respeitar essa exigência. Então, há que se calar somente sobre
aquilo que excede às enunciações de caráter relativo. aqui uma
possibilidade de solução do problema de como a ética figura como uma
espécie de condição de possibilidade do próprio dizer e apresentar uma
alternativa à interpretação do sétimo aforismo. Mas isso mantém o
problema de que tipo de ética deriva do Tractatus, porque o autor não
chegou a enunciar princípios éticos e regras claras, mesmo que relativos,
que pudessem servir de orientação ao comportamento.
Veremos que essa falta está inserida no objetivo que está
pressuposto no Tractatus e que implica na ideia de que as proposições
154
devem, tão somente, proporcionar uma descrição do mundo através de
uma clarificação das proposições. Dá-se por encerrado esse capítulo que
teve como objetivo apresentar duas tentativas de compreender o papel
da ética no Tractatus e como, por outro lado, salvar a possibilidade de
enunciação da mesma.
Em Fisogni a proposta de troca de inefável por efável não
comprovada prejudica, em parte, a sua exposição. Em Martinez, a
circularidade que identifica na argumentação de Wittgenstein e que,
segundo ele, revela certa fragilidade na abordagem da ética pelo filósofo
austríaco também complica o esclarecimento da relação entre ética e
linguagem. Por outro lado, salienta-se que isso somente se torna um
problema por ainda manter-se no horizonte a idéia de uma ética que
expressa valores absolutos. O problema em Martinez é que quer manter
aquele horizonte com a ideia do que pode ser dito. O que apenas pode
levar a aporias com relação ao tema.
Com isso termina-se, também, a III parte desse trabalho
dedicado a jogar uma luz sobre o tema ético e mostrar que a intenção do
autor do Tractatus é clarificar e elucidar o uso das proposições éticas e
não apresentar teorias éticas ou regras e normas éticas. A seguir,
iniciaremos a IV parte com o intuito de esclarecer as concepções de
fenomenologia de Heidegger e Wittgenstein, julgando que isso ajude a
compreender melhor, não somente suas filosofias, mas o modo como
trataram a questão da ética.
155
PARTE IV
1. WITTGENSTEIN E A FENOMENOLOGIA
A fenomenologia, em primeira mão, remete à filosofia
denominada de “continental”, com uma forte tendência metafísica e
subjetivista. De outro lado, tem-se Wittgenstein que é considerado por
alguns como o mentor do empirismo de caráter lógico, da filosofia
analítica e aquele que colocou a filosofia da análise da linguagem no
centro da possibilidade de qualquer tipo de resolução de questões e
problemas filosóficos, para o qual a metafísica é um bom exemplo de
falsos problemas derivados de um mau uso da linguagem.
O nascimento da fenomenologia enquanto corrente e
método filosófico não tem relação com o empirismo lógico, ou com a
tendência inglesa (herdada por Wittgenstein) em analisar os problemas
filosóficos por meio de uma análise crítica da linguagem usada para
expressá-los. Isso vale também para a fenomenologia de caráter
heideggeriano. Então, aceitando-se que a certidão de nascimento da
fenomenologia e os seus desdobramentos (por exemplo, a
heideggeriana), no nimo, é incoerente juntar Wittgenstein e a
fenomenologia. Contudo, é extremamente necessário elucidar tal
relação para entender qual a ligação entre a fenomenologia e o fato de
que ele não apresenta critérios normativos, tanto no Tractatus quanto em
outras obras.
Sabe-se, também, que qualquer rótulo aplicado aponta e
possibilita a caracterização de uma filosofia. O pensador, por outro lado,
não é capaz de defini-la em seus pormenores. Isso vale para esse
binômio, ou seja, Wittgenstein e a fenomenologia. O que autoriza,
então, essa associação? O que permite são passagens das investigações
do filósofo, de 29/30, sobre o tempo e fenomenologia reunidas sob o
título Observações Filosóficas e publicadas postumamente por Rush
Rhees. No início dessa obra, Wittgenstein faz a seguinte afirmação
Uma proposição é analisada logicamente por
completo se sua gramática é completamente
esclarecida: não importa em que idioma possa
estar escrita ou expressa. (WITTGENSTEIN,
2005, p.1).
156
Essa análise completa é o que teria ficado a concluir, ou
seja, mostrar como isso seria possível desde a obra de 21. A
fenomenologia seria a estratégia adotada que possibilitaria, exatamente,
satisfazer essa condição deixada em aberto. Cabe, aqui, verificar até que
ponto foi o comprometimento do filósofo vienense com o que se
entende por fenomenologia
72
tal qual é concebida por Husserl e se é
sustentável fazer essa analogia entre a ideia que Wittgenstein possuía de
fenomenologia com aquela de Husserl.
É necessário, antes de continuar, lembrar que a palavra
fenômeno, tal qual é entendida por Wittgenstein, aplica-se aos dados
imediatos dos sentidos. No Tractatus não encontramos a palavra
“fenômeno”, mas encontramos uma tentativa de dar uma explicação
lógica às cores. Elementos que, posteriormente, figurarão ao lado da
percepção do tempo, pontos no espaço e sons, entre outros e que a
fenomenologia entraria como uma tentativa de elucidar as proposições
que são constituídas por esses elementos. Todos esses constituem, em
maior ou menor grau, o espaço visual. A tarefa e o objetivo que o leva a
recorrer à fenomenologia é exatamente descrever como esses elementos
se dão no espaço visual.
Quando se afirma que o filósofo vienense faz uma
descrição fenomenológica do espaço visual significa que ele tenta
desenvolver uma linguagem apropriada para tal descrição. Uma
linguagem, igualmente, de caráter fenomenológico. Para tentar elucidar
essa questão acompanha-se Bento Prado Neto em sua obra
Fenomenologia em Wittgenstein onde trata sobre essa. Contudo, a
utilização dessa obra não foi extensiva, pois não tem maiores
implicações para esse trabalho. Foi feito um recorte como o intuito de
salientar o vínculo com a fenomenologia.
Esse interesse de Wittgenstein surge da convicção de que o
Tractatus falhou de algum modo, ou melhor, seu projeto não foi
realizado na totalidade. A aproximação da fenomenologia representa,
desse modo, um recomeço, uma nova tentativa; uma nova perspectiva
filosófica para resolver questões que julga em aberto na sua obra de 21.
Não se pretende apresentar uma solução a essa possível questão
73
, mas
72
A ideia de fenomenologia que mantemos aqui é aquela de Edmund Husserl
tal qual é expressa em suas Investigações Lógicas e que se mencionou no início desse trabalho.
73
Se ele voltou à filosofia por ter detectado problemas em sua filosofia da
matemática, tal qual é expressa no Tractatus ou se foi para poder integrar uma nova noção de
infinito ao antigo trabalho não interessa no momento; ou, ainda, simplesmente por fastio
filosófico, como diz Neto. (NETO, 2003, p. 13)
157
compreender até que ponto obra de 21 poderia estar comprometida com
uma espécie de fenomenologia.
Agora, com Neto pergunta-se o que para fazer de
relevantemente filosófico após o Tractatus? O aforismo 5.55 dessa obra
deixa uma porta entreaberta na medida em que não responde
satisfatoriamente o que sejam proposições elementares em sua forma
geral e essencial e que pode responder o porquê dessa volta e
aproximação da fenomenologia
Devemos agora responder a priori à
questão de quais sejam todas as
formas possíveis de proposições
elementares. A proposição elementar
consiste em nomes. Como não
podemos, porém, especificar o número
dos nomes com significados
diferentes, tampouco podemos
especificar a composição da
proposição elementar.
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 24)
Desse modo, aceitando que ficou inconclusa tal tarefa, fica
comprometido o próprio projeto da obra de 21. Como possibilitar uma
descrição perfeita dos fatos do mundo se não ideia de como utilizar
as proposições elementares? A ligação entre lógica e mundo, ou seja, a
ideia do isomorfismo fica comprometida. Essa constatação motiva a
Khere wittgensteiniana? Essa possibilidade está dentro do que Neto
julga como uma necessidade de detalhar melhor as questões e problemas
presentes na obra de 21 e que, portanto, justifica de algum modo o
retorno do filósofo à ativa. Então, a hipótese de Neto é que a volta de
Wittgenstein se dá numa tentativa de realizar aquilo que no Tractatus foi
prometido, mas não cumprido, que é uma análise completa da
linguagem (NETO, 2003, p. 18). Essa hipótese é muito mais relevante
filosoficamente do que todas as outras aduzidas para justificar uma volta
ao trabalho filosófico.
A fenomenologia, tal qual é entendida partindo da filosofia
continental, possibilita uma descrição do mundo subjetivo através dos
vividos, segundo Husserl. Mesmo em Heidegger, como vimos, a
158
possibilidade de uma descrição do Dasein em sua totalidade implica em
uma descrição em que o mundo do Dasein torna-se compreensível. Em
outras palavras, explicitar os modos de ser do existente humano implica
necessariamente em ter uma boa descrição do mundo e da posição do
ser e sua relação com ele. Mas isso, no Tractatus, está fora de cogitação.
O mundo, lá, é sempre mundo do sujeito. Ccomo tal, não se constitui em
um fato desse mesmo mundo, não pode ser descrito pela lógica.
Além disso, essa questão envolve e está submetida a outra,
a do solipsismo, que apesar de plausível, não pode ser considerada
viável. Desse modo, mais um problema, agregado à ideia de uma
fenomenologia em Wittgenstein: a ideia de uma descrição possível de
mundo que não anula o sujeito. Essa descrição não é de ordem analítica,
mas antes fenomenológica, que não foi levada adiante pelo filósofo
vienense.
Por outro lado, considerando que a fenomenologia tem
papel no retorno de Wittgenstein que se entender a relação entre
ambas, se são complementares de tal forma a possibilitar o que o
Tractatus promete, mas não faz e se é possível falar em uma lógica de
caráter fenomenológico. A fenomenologia está submetida à lógica ou o
contrário? Ou não comprometimento algum entre ambas? Essas
perguntas forçam a reavaliação da filosofia wittgensteiniana em seu
todo, o que não será feito aqui.
Conforme Neto (2003, p. 19), em Some Remarks on
Logical Form de 29 está claro que o filósofo vienense aproxima as
ideias de uma análise lógica da linguagem daquele que considera ser o
elemento básico e delimitador da fenomenologia, o seu caráter
descricional. Desse modo, a volta liga-se à possibilidade de uma
descrição completa, uma análise da linguagem lógica. Deve-se levar em
conta o caráter descritivo da fenomenologia e o caráter descritivo da
análise da linguagem para que fique evidente o paralelo que está sendo
feito com a fenomenologia. Assim e, somente por esse recurso, também,
superaram-se as dificuldades de um simbolismo impreciso por um
preciso, ou seja, um tipo de simbolismo no qual “[...] não empregue o
mesmo sinal em símbolos diferentes e não empregando superficialmente
da mesma maneira sinais que designem de maneiras diferentes”.
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 159) Dessa forma, poderíamos ser levados
a supor que uma equivalência entre lógica e fenomenologia. Escreve
Neto em sua obra no capítulo dedicado a esclarecer as relações entre
lógica e fenomenologia chamada Aplicação da lógica e fenomenologia.
159
Que tal seja, efetivamente, o trabalho ao
qual Wittgenstein volta, em 1929, isto é,
que a “fenomenologia” ou a “linguagem
fenomenológica” sejam equivalentes à
“aplicação lógica”, à análise das
proposições de nossa linguagem ou à
constituição de uma “linguagem
completamente analisada” [...] é o que
parecem testemunhar as páginas iniciais de
Some Remarks on Logical Form. (NETO,
2003, p 19)
Todavia, a descrição fenomenológica da qual nos fala
Husserl é a descrição do vivido. Em Wittgenstein é a descrição
proposicional. Essa equivalência é problemática, para não dizer falsa.
Neto parece não estar levando em consideração esses aspectos a propor
essa equivalência. Essa descrição fenomenológica (se equivalente à de
Husserl) conservaria a característica de ser descricional, neutra e
apriorística, com uma função metodológica na medida em que permite
explicitar o mundo. Contudo, mesmo sendo essa linguagem
proposicional descritiva, ela não é fenomenológica aos moldes
husserlianos, logo, Wittgenstein não pode ser um fenomenólogo.
Desse modo, a investigação de Neto em a Fenomenologia
em Wittgenstein: tempo, cor e figuração, aceita a ideia de que uma
análise completa da linguagem equivale à aceitação de uma linguagem
fenomenológica. Neto cita, ainda, em nota de rodapé, a obra de Hintikka
e Hintikka, Uma investigação sobre Wittgenstein, na qual seus autores
identificam a análise completa da linguagem com o uso de uma
fenomenologia. Por outro lado, também cita o aforismo 5.631 do
Tractatus para salientar que essa possibilidade surge do interior da
própria obra de Wittgenstein e que, portanto, essa interpretação não
seria arbitrária. Diz Wittgenstein:
O sujeito que pensa, representa, não existe.
Se eu escrevesse um livro O Mundo tal
qual eu Encontro, nele teria que incluir
também um relato sobre meu corpo, e
dizer quais membros se submetem à minha
vontade e quais não, etc. este é bem um
160
método para isolar o sujeito, ou melhor,
para mostrar que, num sentido importante,
não sujeito algum: dele não se
poderia falar neste livro.
(WITTGENSTEIN, 2001, p, 245)
Nesse aforismo está presente a ideia de um mundo tal qual
aparece para mim, sujeito metafísico. Então, conclui Neto, essa
linguagem é necessariamente fenomenológica. (NETO, 2003, p. 20-21)
Desse modo e com o objetivo de caracterizar essa dimensão
fenomenológica presente na obra tractatiana, Neto tenta mostrar o que
seria exatamente essa dimensão.
Na sua obra, Neto, em um primeiro momento, explicita o
caráter dúbio pertencente à ideia de uma exposição fenomenológica,
que, por um lado, o dado e ou fenômeno. Mas esse dado ou
fenômeno não é puro, pois remete sempre ao sujeito, para o qual, esse
dado e/ou fenômeno se revela, se mostra, se dá. Por outro lado, uma
dimensão objetiva e subjetiva presente nessa expressão linguagem
fenomenológica. Que não se reduz a uma linguagem comum e
fisicalista, nem a uma expressão meramente subjetiva da realidade, tal
qual o sujeito a percebe. Assim, uma linguagem fenomenológica
possibilita explicitar o sentido sob o qual algo se apresenta ao sujeito, ou
seja, dizer em que condições algo é verdadeiro ou não. O que leva a
cabo o projeto de uma linguagem (proposições) completamente
analisada possibilitando, por isso, a exposição integral do sentido de
uma proposição.
Os dois exemplos que são dados por Wittgenstein, segundo
Neto, de linguagens fenomenológicas e linguagem descricionais são a
física e a mecânica. Elas continuam como sendo exemplos válidos
mesmo se suas teorias sejam meras hipóteses sobre a realidade. O
aforismo que avaliza, para Neto, essa posição é o 6.341 do Tractatus:
A mecânica newtoniana, por ex., põe a descrição
do mundo numa forma unitária. Concebamos uma
superfície branca sobre a qual houvesse manchas
pretas irregulares. Dizemos, então: qualquer que
seja a configuração que disso possa resultar,
sempre poderei aproximar-me o quanto quiser de
sua descrição recobrindo a superfície com uma
161
rede quadriculada de malhas convenientemente
finas e dizendo, a respeito de cada quadrado, se é
branco ou preto. Terei posto assim a descrição da
superfície numa forma unitária. Essa forma é
arbitraria, pois eu poderia ter utilizado, com o
mesmo sucesso, uma rede de malhas triangulares
ou hexagonais. Pode ser que a descrição, com o
auxílio de uma rede triangulada, se tornasse mais
simples; ou seja, que pudéssemos, com uma rede
triangulada de malhas mais grossas, descrever a
superfície de maneira mais precisa do que o
faríamos com uma rede quadriculada de malhas
mais finas (ou vice-versa), e assim por diante. Às
diferentes redes correspondem diferentes sistemas
de descrição do mundo. A mecânica determina
uma forma de descrição do mundo ao dizer: todas
as proposições da descrição do mundo devem ser
obtidas, de uma dada maneira, a partir de um certo
número de proposições dadas os axiomas
mecânicos. Provê, desse modo, as pedras para a
construção do edifício científico e diz: qualquer
que seja o edifício que você queira levantar, deve
ser construído, da maneira que seja, com estas e
apenas estas pedras. (Assim como se deve, com o
sistema numérico, poder escrever qualquer
número, deve-se, com o sistema da mecânica,
poder escrever qualquer proposição da física.)
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 269)
A mecânica não é um exemplo de uso da linguagem para
descrever o mundo, mas uma linguagem em si mesma (NETO, 2003, p.
25) e, como tal, impossível de ser submetida aos critérios de
verificabilidade. Portanto, para Neto uma forma de linguagem
fenomenológica. Enquanto uma linguagem fenomenológica que não
pode ser submetida à verificabilidade, tal qual a fenomenologia
husserliana e a heideggeriana, não diz nada do porquê o mundo ser de
um determinado modo, mas, tão somente, descreve como se apresenta à
investigação.
Seguindo as sugestões de Neto, temos uma equiparação
entre as fenomenologias de Husserl e Heidegger, sem falar da
equiparação com a linguagem da mecânica. Neto não se preocupa em
fazer uma distinção clara do que ele concebe como fenomenologia e
162
nem o que Wittgenstein poderia entender pelo termo. O que pode levar o
leitor a julgar que ele aceita essa equiparação. Se assim for, temos vários
problemas possíveis que podem surgir. O principal é que é insuficiente
equiparar perspectivas filosóficas reduzindo, simplesmente, a
fenomenologia a uma forma de descrição. Por mais que se saiba que
esse aspecto é fundamental e imprescindível a ela.
Continua Neto falando das proposições na mecânica,
dizendo que elas são um exemplo de enunciações que visam à descrição.
Isso implica em sua não verificabilidade. No máximo pode-se constatar
a sua inadequação na descrição dos fenômenos do mundo e, no caso de
confirmação dessa inadequação, promover a substituição de suas teorias
ou hipóteses por outras mais apropriadas.
O que temos é que o modo pelo qual Wittgenstein tentou
apresentar, resolver e suprir uma análise completa da linguagem, em sua
obra de 21. Isso foi em grande medida, uma fenomenologia aplicada à
linguagem e aos problemas lógicos. Levando em consideração aquelas
características inerentes ao discurso fenomenológico, tais como:
descricional, neutro e apriorístico, que se constrói antes de toda e
qualquer posição adotada sobre mundo, nada se podendo dizer com
respeito a uma ciência ética, é compreensível que o filósofo austríaco
não apresente normas ou regras quando fale da ética.
Em termos gerais o comportamento ético é uma tomada de
posição com relação à posição humana e o mundo. Naturalmente,
levando em consideração os caracteres antes especificados, a sua
possibilidade de enunciação deve, necessariamente, escapar à
possibilidade do dizer ou, em outras palavras, do dizer lógico e
figurativo, tal qual quer o autor do Tractatus. Por outro lado, aceitando-
se a hipótese de equivalência de Neto que uma linguagem
completamente analisada é o mesmo que uma linguagem
fenomenológica, então o que foi buscado no Tractatus era uma
linguagem fenomenológica, uma linguagem representativa do mundo,
pois atende aquele traço subjetivo que diz respeito a linguagem
completamente analisada da obra de 21, qual seja, a remissão ao sujeito
metafísico. (NETO, 2003, p. 34) Este projeto, todavia, teria sido
abandonado por Wittgenstein no decorrer de seus estudos como
testemunha o aforismo 4.023 nas Observações:
A realidade deve, por meio da proposição, ficar
restrita a um sim ou não. Para isso, deve ser
163
completamente descrita por ela. A proposição é a
descrição de um estado de coisas. Como a
descrição de um objeto o descreve pelas
propriedades externas que ele possui, a proposição
descreve a realidade pelas propriedades internas
que esta possui. [...] (WITTGENSTEIN, 2001, p.
169)
Temos de forma clara a ideia de que a proposição, por
meio da qual o mundo é apresentado em seu estado de coisas, é uma
descrição. Contudo, esse descrever que caracteriza a proposição é de
caráter lógico e diferente daquela de Husserl, que é transcendental. Lê-
se no mesmo aforismo “[...] A proposição constrói um mundo com a
ajuda de uma armação lógica, e por isso pode-se muito bem ver na
proposição como está, se ela for verdadeira, tudo que seja lógico. [...]”.
(Ibidem, p. 169)
No aforismo 5.526 tem-se, de forma mais contundente, a
ideia de descrição associada a uma explicitação do mundo por meio das
proposições:
Pode-se descrever integralmente o mundo por
meio de proposições completamente
generalizadas, ou seja, sem que nenhum nome
seja de antemão coordenado a um objeto
determinado. Para se chegar, então, ao modo
habitual de expressão, deve-se, após uma
expressão: um único x tal que... ’,
simplesmente dizer: e esse x é a.
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 233)
Parece claro que a aproximação de Wittgenstein da
fenomenologia em 29 não é ocasional ou, ainda, mesmo que tenha sido
não foi a primeira vez que ele fez uso da mesma. Segundo SILVA,
aqueles que aceitam a hipótese de que Wittgenstein é um fenomenólogo
colocam a expressão lógica dos fenômenos como central naquela obra.
“Quem assume esta para o Tractatus coloca como um dos problemas
centrais do livro o problema da expressão lógica dos fenômenos (dados
da experiência imediata)”. (SILVA, 2005, p. 70)
164
Todavia, não é a fenomenologia husserliana que está
presente aqui, por mais que seja descrição fenomenológica ela está
restrita a análise lógica dos fenômenos, os quais restringem-se aos dados
imediatos dos sentidos, por isso ela é, também, identificada como uma
semântica primária. Temos que o caráter descricional é decisivo e
similar ao husserliano, mas não é igual. Pois em Husserl são os vividos
que devem ser descritos e em Wittgenstein são os fatos que constituem o
mundo através de uma análise proposicional da linguagem. Esses dois
aspectos impedem a apresentação de normas éticas claras e definidas,
mas por motivos bem diferentes.
Com isso, encerra-se a parte desse trabalho que visava
abordar a possível relação entre Wittgenstein e a fenomenologia.
Percebe-se que os problemas que surgem dessa associação desfiguram e
distorcem aspectos importantes da filosofia de Wittgenstein. Além de
criar outros problemas com relação às concepções de Heidegger que
foram deixadas de lado. Seja qual tenha sido realmente a intenção de
Wittgenstein em aproximar-se da fenomenologia em 29, essa
aproximação marcou, também, o distanciamento do filósofo da
fenomenologia, pois não mais se dedicou a ela como atesta sua obra.
Então, ao ser dito que uma aproximação e uso (ou tentativa) de
Wittgenstein em usar uma “linguagem fenomenológica” não se pode
entender, pela expressão, o mesmo que em Husserl, Heidegger ou
Scheler. Nesses, ela não es direcionada a uma descrição dos dados
imediatos da experiência, mas tenta extrair deles o universal. A
“linguagem primária” ou “linguagem fenomenológicade Wittgenstein
não é aquela da tradição continental. Lembrando Husserl em Idéias
para uma fenomenologia pura e uma fenomenologia filosófica na
Terceira seção: A metodologia e a problemática da fenomenologia pura
quando diz:
Mas entre as constatações que devem ser
registradas no novo livro fundamental a ser escrito
pela fenomenologia, prescrevemo-nos, como
fazendo parte do método, a norma de redução
fenomenológica, que vale para nossa existência
empírica e que nos proíbe de registrar qualquer
proposição que contenha, explicita ou
implicitamente, tais teses naturais. (HUSSERL,
2006, p. 145)
165
A linguagem fenomenológica de Wittgenstein é composta
pelo que chama de “proposições genuínas” em substituição as
“proposições elementares” do Tractatus. Elas são genuínas porque o seu
sentido ou significado pode ser completamente verificado ou falseado.
Com isso ele imaginou poder ultrapassar o isomorfismo lógico
(metafísico) presente na obra de 21. Essas proposições (resultado de
uma linguagem fenomenológica) serão a base das linguagens
secundárias (também identificadas sob o nome de hipóteses e
proposições cotidianas). As proposições genuínas são o resultado das
descrições fenomenológicas do dado imediato dos sentidos. Essa
convicção está presente em seu retorno à filosofia. Contudo, entre outras
ideias que serão deixadas de lado, ainda no início da década de 30, está
aquela que concebia as proposições genuínas como descrições das
experiências, agora, doravante, serão entendidas como exteriorizações
(GLOCK, 1998, p. 369) e, assim, a ideia da possibilidade de uma
linguagem fenomenológica que pudesse completar o que o Tractatus
não fez, possibilitar uma análise lógica completa da linguagem.
Contudo, a questão decisiva foi a impossibilidade dessa descrição
fenomenológica em lidar com o fator temporal ligado à percepção dos
fenômenos, relação que não abordaremos aqui. Será visto, agora, a
concepção de fenomenologia para Heidegger.
166
2. HEIDEGGER E A FENOMENOLOGIA
No caso de Heidegger, a fenomenologia ocupa um lugar
central na medida em que ela e, somente através dela, a questão do ser
pode ser abordada. Porém Heidegger, contrariamente a Husserl, atribui-
lhe momentos constitutivos diferentes. Explicitam-se, aqui, tais
momentos constitutivos da fenomenologia em Heidegger articulando
com a questão do ser. Para tanto, usa-se como livros básicos, além de
Ser e Tempo, os Problemas Fundamentais da fenomenologia. Nesse
último, encontra-se a única exposição feita por Heidegger dos
momentos constitutivos do que ele chama de fenomenologia.
Em Ser e Tempo, a articulação da questão do ser começa a
ser ligada com a fenomenologia quando Heidegger reconhece um
obstáculo que é inerente à questão que pretende resolver e que está no
fato de que sempre se mostra em uma compreensão de ser. Esta
compreensão pertence a um ente determinado, ao Dasein, que é
determinado historicamente. Assim, a compreensão de ser, na qual ser
se mostra, é, igualmente, determinada historicamente.
Tal compreensão de ser é um aspecto inerente à existência
humana, do qual ninguém se exime. A compreensão não é algo que
pode ou não acontecer, mas algo na qual o ser-aí já vive.
Em cada um de seus modos de ser e, por
conseguinte, também em sua compreensão de ser,
o Dasein sempre nasceu e cresceu dentro de
uma interpretação de si mesmo, herdada da
tradição. (HEIDEGGER, 1997, p. 48).
Nesta passagem está implícito que não somente essa
compreensão
74
é algo na qual se move (vive), portanto é histórica,
mas, igualmente, que ela é herdada, transmitida ao existente humano ao
longo das gerações.
Outro aspecto que está ligado a este caráter histórico no
qual o ser se move é com respeito à questão do ser. Sabe-se que
Heidegger trata do esquecimento do ser pela tradição filosófica. Tal
74
Será usado, tão somente, o termo “compreensão” como substituto de
compreensão de ser.
167
esquecimento não é tanto o fato de que ser não ter sido tema ou questão
em algum momento da história da filosofia, mas, principalmente, o
modo de formulação da questão, necessariamente, propiciou o
esquecimento, o entulhamento, como diz Heidegger. Tal entulhamento
diz respeito às interpretações inadequadas que, ao longo da história da
filosofia, acumularam-se de tal forma a, cada vez mais, encobrir e
impedir um acesso àquela que é a questão principal, a questão do ser.
Desse modo, elucidar satisfatoriamente tal questão exige
lidar com o caráter histórico que lhe é inerente e o condiciona. É
necessário, portanto, criar um meio que possibilite trazer à luz aquilo
que antes se encontrava oculto pelas interpretações falsas ou
inadequadas. Algo que permita um retorno à questão (ou questões) na
origem para, então, reiniciar e reavivar velhas questões.
Por conseguinte, Heidegger está convencido de que
investigações filosóficas em geral são diretamente influenciadas e
determinadas pela tradição, pelo passado. Assim, afirma:
[...] somente apropriando-se positivamente do
passado é que ele [o Dasein] pode entrar na posse
integral das possibilidades mais próprias de seu
questionamento. (Ibidem, p. 49).
Por isso, Heidegger fala de uma destruição da tradição
herdada. Ela é um dos momentos constituintes do método
fenomenológico. É apresentada, nesse ponto, por possibilitar uma
melhor visualização do caráter histórico, significando que devem ser
removidos os entulhos acumulados, aquelas interpretações que, uma vez
formuladas, ao invés de servirem para clarificar, acabam funcionando
como um obstáculo para uma visualização correta de determinados
problemas. Visto que a questão do ser diz respeito a questão ontológica,
a história à qual o autor de Ser e Tempo se refere é a historia da
ontologia. Entretanto, o que está em jogo é a própria forma da filosofia,
que a filosofia é ontológica por natureza, segundo Heidegger. Assim,
com respeito aos conceitos ontológicos, exige-se as certidões de
nascimento deles. Referindo-se a isso, diz Heidegger: “Entendemos essa
tarefa como destruição do acervo da antiga ontologia, legado pela
tradição”. (HEIDEGGER, 1997, p. 51)
A explicitação, exigida pela exposição das certidões de
nascimento, objetiva trazer à luz a origem daqueles conceitos
168
(ontológicos) fundamentais, pois muitas interpretações tornam-se tão
rígidas, segundo Heidegger, que acabam impedindo que a originalidade
inicial do conceito ou da questão seja percebida.
Entretanto, o uso do termo “destruição” não tem uma
acepção negativa. “A destruição também não tem o sentido negativo de
arrasar a tradição ontológica”. (Ibidem, p. 51). Destruir é apropriar-se
positivamente do passado, da tradição legada de tal modo a
circunscrevê-la em seus limites.
Ao contrário, ela deve definir e circunscrever a
tradição em suas possibilidades positivas e isso
quer sempre dizer em seus limites, tais como de
fato se dão na colocação do questionamento e na
delimitação, assim pressignada, do campo de
investigação possível. (Ibidem, p. 51)
Desse modo, exigir as certidões de nascimento é explicitar
a originalidade da descoberta e mostrar como tal conceito foi regulado e
determinado pela tradição de tal forma a impedir uma visualização
adequada daquilo que visava explicitar. Assim, circunscrever a tradição
em seus limites é apontar seus condicionamentos, ou, ainda, aquilo que,
devendo investigar, não o fez seja ou não por problemas de caráter
metodológico. Portanto, é necessário submeter os conceitos ontológicos
fundamentais legados pela tradição à crítica. Enquanto crítica, a
destruição volta-se sempre para o hoje. “Negativamente, a destruição
não se refere ao passado; a sua crítica volta-se para o hoje”.
(HEIDEGGER, 1997, p. 51) Isto significa que os modos vigentes de
tratar-se a história da ontologia e suas questões, o modo como tais
questões são delimitadas pela doxografia, pela história da cultura ou
pela história dos problemas deve ser submetido a uma análise que revela
seus condicionamentos e limites (conceituais e históricos). De qualquer
forma, Heidegger deixa claro que a tradição ontológica tem a sua
importância, uma vez que é por meio dessa mesma história que a
questão do ser adquire a transparência. Assim, o sentido negativo da
destruição, enquanto crítica ao hoje, é apenas implícito e indireto. A
destruição tem uma intenção positiva.
A questão com respeito ao sentido do ser é ontológica por
apresentar aqueles momentos essenciais que constituem o existente
humano e em torno dos quais desdobra-se esse mesmo existente. As
questões ontológicas ligam-se à tradição, à história da ontologia, a partir
da qual os conceitos ontológicos são legados. Por outro lado, como
169
chegar a tais conceitos fundamentais da ontologia, levando-se em conta
o caráter histórico que está envolvido na transmissão e formação deles?
Este chegar aos conceitos fundamentais significa uma apropriação
semântica do problema, daquela intuição original na qual um
determinado campo de objetos se abre. Para tanto, Heidegger apresenta
a fenomenologia como o método adequado para um acesso à ontologia,
ou seja, a questão do ser. “O modo de tratar a questão é
fenomenológico”. (Ibidem, p. 57)
Contudo, por fenomenologia, Heidegger não entende a
ciência dos fenômenos, pois não evoca nem o objeto de uma ciência
específica, nem um possível conteúdo quidativo. Com o uso do termo
“fenomenologia”, não está se referindo a um ponto de vista ou a uma
corrente filosófica em particular. Por outro lado, a fenomenologia é
preterida como uma forma de propedêutica científica das disciplinas
filosóficas.
Nós afirmamos que a fenomenologia não é uma
ciência filosófica entre outras, tampouco é a
propedêutica das demais, senão que a expressão
‘fenomenologia’ é a denominação do método da
filosofia científica em geral. (HEIDEGGER,
2000, p. 27).
Aqui, nessa definição de fenomenologia, um exemplo
da aplicação da destruição à tradição. Heidegger recusa-se a assumir
conceitos ou interpretações legadas com respeito ao uso do termo.
Fazendo assim, esvazia-o de todo e qualquer tipo de acepção prévia e
afirma: “A expressão ‘fenomenologia’ diz, antes de tudo, um conceito
de método” (Idem, 1997, p. 57), ou seja, um modo de acesso, o como da
investigação.
A destruição, como foi dito, não é somente uma
apropriação semântica da questão. É igualmente uma tentativa de
apropriação da intuição original que origem ao termo. Com respeito
ao termo fenomenologia, o exemplo da apropriação de tal intuição é
dado por Heidegger no §7 de Ser e Tempo. Neste, antes de apresentar a
definição de fenomenologia, retorna às origens gregas dos termos
“logos” e “fenômeno” com o intuito de mostrar a que campo da
experiência os gregos se reportam com o uso deles.
170
Por outro lado a fenomenologia, enquanto método que não
especifica um conteúdo quidativo ou um objeto, diz respeito somente ao
modo como o objeto abordado é demonstrado e tratado (Ibidem, p. 65).
A fenomenologia, então, não é uma espécie de propedêutica, como
também não é uma disciplina, uma ciência filosófica entre outras. Com
relação às outras ciências ocupa um lugar diverso e não se confunde
com elas. Se a fenomenologia não especifica um conteúdo quidativo ou
um objeto em particular, não é uma disciplina introdutória, não é uma
ciência entre outras e, portanto, em resumo, não trata do ente. Então,
qual o objeto da fenomenologia?
Uma vez apresentadas, como foi mencionado
anteriormente, as certidões de nascimento daqueles elementos que
constituem o termo “fenomenologia” o autor desformaliza o conceito de
fenomenologia e apresenta o conceito fenomenológico de
fenomenologia.
Fenomenologia, em seu sentido formal, é definida como “o
deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra
a partir de si mesmo” (HEIDEGGER, 2000, p. 65) Todavia, Heidegger
julga que a definição formal encobre aquilo que deve ser o verdadeiro
escopo da fenomenologia e que se constitui naquele elemento
fundamental da intuição original grega. Desse modo, tal definição deve
ser abandonada para buscar uma interpretação originária do termo que
ponha à mostra aquela intuição.
Assim, pergunta Heidegger: “O que será que a
fenomenologia deve ‘deixar e fazer ver’? O que se deve chamar de
‘fenômeno’ num sentido privilegiado?” (Ibidem, p. 66) Sua resposta é
aquilo que não se mostra diretamente e que está oculto, velado frente ao
que se mostra na maioria das vezes, i.e., o ser. Dessa forma, o que deve
constituir-se no objeto da fenomenologia em sentido fenomenológico
não é o ente, mas ser. [...] o que, num sentido extraordinário, se mantém
velado ou volta novamente a encobrir-se ou ainda, somente se mostra
‘desfigurado’ não é este ou aquele ente, mas o ser dos entes. (Idem,
1997, p. 66) Com isso, Heidegger acaba por equiparar a ontologia à
fenomenologia, pois a ontologia é definida como ciência do ser e a
fenomenologia tem o ser como objeto privilegiado e único de estudo.
Por outro lado, é somente a fenomenologia que torna
possível a própria ontologia
75
. “A ontologia é possível como
75
Aqui oculta uma certa ambiguidade. Por um lado a ontologia é
fenomenologia, mas a ontologia, enquanto fenomenologia, somente é possível através desta
última.
171
fenomenologia” (HEIDEGGER, 1997. p.66) Nesta passagem está
implícita uma crítica à velha metafísica e igualmente, a determinação de
uma condição de caráter metodológica, uma vez que somente a
fenomenologia pode garantir um acesso adequado àquilo que é o objeto
próprio da ontologia.
Por isso, também é possível compreender os motivos pelos
quais Heidegger fala do fracasso (necessário) da tradição ontológica em
abordar ser. Além de, por um lado, o objeto não estar claramente
determinado, não algo a garantir um acesso seguro a ele, um
método
76
.
Entretanto, ainda falta algo à fenomenologia enquanto
ontologia. Esse elemento é visto como aquilo que visa não somente
levar a fenomenologia a explicitar o sentido do ser, mas diferenciá-la de
modo definitivo da fenomenologia de caráter transcendental e cartesiana
de Husserl. Esse elemento que forma par com a fenomenologia é a
hermenêutica. Assim, encontra-se em Ser e Tempo a tese de que a
“Fenomenologia do Dasein é hermenêutica no sentido originário da
palavra em que se designa o ofício de interpretar”. (HEIDEGGER,
1997, p. 68)
Eis uma visão geral da posição de Heidegger com respeito
à fenomenologia tal qual é concebida. Apresenta-se, a seguir, os
momentos que o constituem com o intuito de torná-la mais clara.
Todavia, essa descrição que se explicita, dentro do
possível de forma sistemática, não é encontrada em Ser e Tempo. Nesta
obra, encontra-se somente a desformalização do termo fenomenologia,
em que ela é equiparada à ontologia e definida como hermenêutica. Para
levar esta tarefa a cabo usa-se o livro Os problemas fundamentais da
fenomenologia
77
. Esse livro foi organizado a partir de um conjunto de
lições proferidas no semestre de verão de 1927, logo após a publicação
de Ser e Tempo.
Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia foram
divididos em duas partes. Na primeira são submetidas a uma análise
quatro teses sobre o ser consideradas, pelo autor, como as mais
importantes legadas pela tradição filosófica ocidental: a tese de Kant, a
tese da ontologia medieval, a tese da ontologia moderna e a tese da
76
Para um aprofundamento consultar a obra de Heidegger Prolegomena: The
History Concept of Time. Bloomington and Indianapolis : Indiana University, 1985.
77
Ontologia: hermenêutica da facticidade (Madrid: Alianza Editorial, 1999)
de M. Heidegger, traz esclarecimentos, igualmente, importantes.
172
lógica. O que se busca nessa análise é o que estava implícito a elas e
que, por diferentes motivos, não foi concluído.
Assim, do estudo das teses derivam aqueles que se
constituem nos verdadeiros problemas fundamentais: o problema da
diferença ontológica, que é distinção entre ser e ente; o problema da
articulação fundamental do ser, que trata do conteúdo quididativo de um
ente e o modo de ser de um ente; o terceiro como o problema das
possíveis modificações do ser e da unidade do conceito de ser em sua
equivocidade e, por último, o problema do caráter de verdade do ser.
Uma vez que a fenomenologia tem como característica ser uma
ontologia, tais problemas constituem-se nos problemas fundamentais da
ontologia e, portanto, da própria filosofia.
A segunda parte do livro tem como objetivo analisar cada
um desses problemas. Para tanto, a cada um deles foi dedicado um
capítulo. Entretanto, dos quatro capítulos prometidos pelo autor, apenas
o primeiro, o que trata da diferença ontológica foi apresentado de forma
sistemática. Nesse capítulo, Heidegger trata diretamente da questão da
temporalidade como temporariedade.
A questão do método é tratada no primeiro capítulo, no §5
ainda na introdução, na qual o autor faz uma apresentação geral da
problemática do ser. Essa apresentação visa justificar a abordagem do
tema ser como questão privilegiada da filosofia. Privilegiada, aqui, não
somente por ser, entre outras, a mais nobre, mas por ser aquela que
determina e condiciona todas as outras, ou seja, é o fundamento. No
primeiro capítulo, o método fenomenológico é apresentado como
constituído por três momentos: redução, construção e destruição
fenomenológicas.
Explicita-se, pois o que o autor entende por redução
fenomenológica. Heidegger vale-se da expressão redução
fenomenológica que é, também, usada por Husserl para caracterizar um
dos momentos de sua fenomenologia. Todavia, por “redução
fenomenológica”, Heidegger se distancia de Husserl. Ele não entende a
recondução do olhar fenomenológico com base na atitude natural do
homem comum para a vida transcendental da consciência e suas
vivências noético-noemáticas, tal qual em Husserl. “Adotamos assim
um termo central da fenomenologia de Husserl, valendo-nos da
expressão, mas não de seu conteúdo”.
(HEIDEGGER, 2000, p. 47)
A redução fenomenológica para o filósofo alemão é a
recondução do olhar do ente, objeto das ciências ônticas, para o ser. Em
outras palavras, é a transformação do ser em objeto de investigação
173
filosófica e a sua consequente tematização. Todavia, sozinha é
incompleta, uma vez que não garante a tematização ou transformação
correta do objeto de estudo. A recondução, enquanto uma recondução
do olhar, expressa somente um comportamento metodológico negativo.
(Ibidem, p. 47) Negativo no sentido de recusar o ente como possível
objeto.
Esse primeiro movimento deve, segundo o autor, ser
completado por outro positivo, i.e., pela construção fenomenológica. Ela
é a projeção do ente em seu ser, uma vez que ser sempre se mostra em
uma compreensão de ser que pertence a um ente determinado. Projetar o
ente em seu ser é interpretar ser e as suas estruturas.
O ser é interpretado e mostrado em suas estruturas é o ser
de um ente, no caso, do Dasein, pois somente com relação a esse último
é que o termo “ser” tem e pode adquirir um sentido. Isso se concretiza
através de uma analítica da existencialidade na qual o modo em que, se
o comportamento do Dasein é submetido a uma interpretação de
caráter fenomenológico. Assim, a interpretação do existente humano é
feita por meio de uma analítica da cotidianidade. Embora esta projeção
do ente em seu ser completar a redução fenomenológica, ambas são
insuficientes para garantir um acesso adequado a questão, eleita por
Heidegger, como a mais privilegiada entre todas as outras.
Desse modo, com o objetivo de sanar esta dificuldade, à
redução e à projeção é acrescentado outro momento: a construção
redutiva, i.e., uma destruição. Por “destruição” entende-se a recondução
dos conceitos recebidos da tradição filosófica predominante às suas
fontes originais, com o intuito de garantir e assegurar a autenticidade
desses mesmos conceitos. (HEIDEGGER, 2000, p. 22) A destruição da
história da tradição ontológica é necessária porque nos conceitos
fundamentais e no conhecimento que é legado pela tradição, está oculta
uma determinada compreensão de ser que não foi tematizada, não foi
esclarecida em seu sentido.
Os três momentos do método fenomenológico caracterizam a
fenomenologia de Heidegger. “Estes três componentes fundamentais do
método fenomenológico, redução, construção e destruição, se pertencem
mutuamente e devem ser fundamentados em sua pertinência mútua”.
(Ibidem, p. 48) Assim, além de um completar o outro, eles se
copertencem, ou seja, não se dão em separado. Por isso, afirma
Heidegger, que redução, construção e destruição são cooriginárias.
Estão em um mesmo nível de importância e são fundamentais à
fenomenologia enquanto ontologia, i.e., enquanto ciência do ser, da
174
mesma forma que caracterizam, igualmente, o proceder investigativo do
autor de Ser e Tempo.
Por outro lado, tais momentos não devem ser confundidos com
uma espécie de técnica que compõe a fenomenologia enquanto um
método. O que reforça esta ideia é a afirmação feita por Heidegger:
“Não existe a fenomenologia e, se pudesse existir, nunca seria algo
assim como uma técnica filosófica”. (Ibidem, p. 390), o que, para
alguns, denota certa incoerência do autor. Em Ontologia: hermenêutica
da facticidade Heidegger afirma: “A imposição de um modelo é
antifenomenológico”. (HEIDEGGER, 1999, p. 96) Contudo, Heidegger
enfatiza a ideia que a fenomenologia não pode ser comparada ao que se
entende, normalmente, por método que é, via de regra, um conjunto de
técnicas através das quais algo é abordado e que, ao serem aplicados,
exigem que o objeto investigado adapte-se a eles, de uma forma ou de
outra.
O que caracteriza a essência de um método autêntico é a
possibilidade de propiciar a revelação do que é investigado de tal forma
que o revelado, acomoda-se àquilo que é revelado (Ibidem, p. 390) Um
método autêntico vale somente enquanto proporciona o revela-se de
algo. Entretanto, para propiciar isto ele adapta-se ao que por meio dele é
revelado. Dito de outro modo, o método autêntico molda-se, adapta-se
ao modo como algo se revela ao mesmo tempo em que possibilita este
mesmo revelar-se. Assim, a autenticidade do método não é em um
conjunto de proposições ou técnicas, mas antes no perguntar, no
proporcionar a revelação sem interferir nesta mesma revelação, no como
a investigação procede.
Dessa forma, os momentos constitutivos do método
fenomenológico não pretendem se constituir em um conjunto de
técnicas tal qual se entende por método, mas, antes, em um modo de
proceder que propicia a revelação do que é perguntado. A
fenomenologia, assim, é o como da investigação (Ibidem, p. 390). Ela é
somente um modo de investigação. (Ibidem, p. 95)
Por outro lado, a afirmação husserliana em A filosofia como
ciência rigorosa, de 1911, de que o verdadeiro impulso da filosofia deve
partir não dos filósofos, mas das coisas mesmas e dos problemas a elas
conectados (MORAN, 2000, p. 228), encontra em Heidegger a sua
expressão máxima. Ao final, segundo Moran, o grande lema da
fenomenologia husserliana, a volta às coisas mesmas, não foi
concretizado por Husserl, mas, sim, por Heidegger. (Ibidem, p. 228)
175
O caminho tomado pelo pensamento (pelo menos neste período
de Ser e Tempo) de Heidegger representa por um lado uma rejeição e,
por outro, um avanço com relação ao idealismo transcendental e
cartesiano de Husserl. Contudo, esta é ainda uma discussão em aberto na
literatura especializada. bons argumentos para a defesa da posição
acima, como, também, a contrária que afirma ser a fenomenologia
heideggeriana uma continuidade da husserliana e, portanto, desprovida
de uma originalidade maior e com os mesmos erros que tanto criticara
em Husserl.
O interesse de Wittgenstein pela fenomenologia não foi tão longe.
Para começar, não faz dela e não a usa como um método filosófico. Tão
pouco acredita ser ela extremamente necessária à concretização e
realização da própria filosofia. ainda a formação do filósofo
austríaco que não é fenomenológica. Como vimos anteriormente,
assumir a tese de que Wittgenstein era fenomenólogo traz mais
problemas do que soluções às questões de sua obra.
Por outro lado, o caráter descricional é conservado em ambos ao
usarem o termo fenomenologia, a qual, associada à ontologia, impede
que sejam apresentados valores éticos em Ser e Tempo. Antes disso é
necessário definir o que seja uma ética originária. Com essa
apresentação julga-se ter esclarecido o porquê a ontologia dos valores de
Scheler, apesar de ser uma tentativa válida, não é legítima, pois
enquanto ontologia não deveria fazer uma hierarquização dos valores.
Em Wittgenstein o caráter descricional está no âmbito
proposicional, nada tendo a ver com a fenomenologia husserliana ou
heideggeriana. Contudo, continua sendo descricional. Procura apresentar
um esclarecimento/elucidação das proposições através de uma análise
da linguagem. Com essa parte espera-se ter jogado um pouco mais de
luz à questão da relação de Heidegger e Wittgenstein com a
fenomenologia e a conexão com a ética.
Na parte V, serão apresentadas algumas comparações entre
Heidegger e Wittgenstein que finalizarão esse trabalho. Novamente,
tomaremos como base a abordagem de Loparic desses dois filósofos que
aprofundaremos na medida em que seja possível. Por outro lado, serão
consideradas outras indicações e outras obras desses filósofos. Nessa
parte final, não ficaremos restritos as obras de 21 e 27. Essa parte
justifica-se na medida em que em desde o início procurou-se traçar um
paralelo entre Heidegger e Wittgenstein. De certo modo, muito dessa
tarefa foi feita com relação às noções de ética entre ambos. Agora,
nessa parte final, estender-se-ão essas comparações a outras questões e
176
temas, como também, será uma avaliação disso e dos pensadores em
questão.
177
PARTE V
1. WITTGENSTEIN E HEIDEGGER
Heidegger e Wittgenstein dedicaram suas existências à
filosofia. Ambos julgaram a si mesmos e a seus trabalhos inovadores e
imprescindíveis. Em diversas ocasiões julgaram-se incompreendidos e
se ressentiram com isso. Romperam e estreitaram laços por meio das
suas convicções filosóficas. Ambos, a seu modo, desafiaram e
duvidaram da tradição, reinterpretando-a. Oscilaram entre a busca por
isolamento e o convívio filosófico. Também silenciaram quando
deveriam ter falado mais, claro que por motivos e motivações bem
diferentes.
Outras vezes pecaram, exatamente, por tentar explicar o
que parecia, contudo, óbvio e sem importância. Igualmente, são
reconhecidos como filósofos no sentido mais específico do termo. Seus
professores e mentores os reconheceram como grandes pensadores.
Atraíram estudantes de todas as áreas e interesses. Mesmo aqueles que
com eles não concordaram, admitiram que o contato com tais
pensadores determinou seu campo de ação e convicções. Influenciaram
novas correntes e pensamentos filosóficos, o que somente pensamentos
fecundos podem proporcionar. Fizeram da filosofia mais que um modo
de vida
78
. Pretenderam que o mundo mudasse por e através dela.
Até aqui, não há nenhuma novidade em se tratando de
legítimos filósofos. Essas características não se aplicam a todos, mas a
muitos pensadores desde os gregos até os dias atuais. Certamente, quem
assim pensa e procede não está de todo errado. Contudo, aqui fala-se de
78
São conhecidas as conversas que Wittgenstein teve com Russel, nas quais,
deixa claro que o que está em jogo não é apenas posições filosóficas, mas, a própria vida.
Russel, segundo a literatura especializada o dissuade diversas vezes de suicidar-se. Mesmo o
alistamento no exército para lutar na frente de batalha na 1ª. Grande Guerra aponta para a
convicção de que há uma estreita ligação entre filosofia (ética) e comportamento. o mesmo
não pode ser atribuído a Heidegger ( Safranski, na pág. 371, da biografia de Heidegger) cita
uma carta trocada entre Jaspers e Arendt a respeito do caráter (falta) de Heidegger face sua
simpatia ao nacional-socialismo. Simpatia que para Jaspers e Arendt, em suas palavras, não
acompanha a profundidade e a fineza do pensamento filosófico. Por outro lado, Heidegger
ensina a necessidade de assumir-se uma postura determinada para possibilitar um
questionamento adequado àquela pergunta que julga central à filosofia.
178
Heidegger e Wittgenstein
79
. Nomes que, independente do tamanho de
suas obras, são reconhecidos como aqueles que abriram novos campos
de pesquisa, possibilitados pelas questões e pelo modo de tratá-las.
Apresentaram novas e importantes perspectivas heurísticas para a
compreensão do tempo atual e da própria filosofia.
Além disso, diferentemente de muitos de seus conterrâneos
e, até mesmo remando contra a maré, conseguiram fugir aos ismos que
borbulhavam nas primeiras décadas do início do século XX. Enfim, eles
fugiram das filosofias pré posicionadas para serem iniciadores, sem
repetir velhas fórmulas. Isso explica a ausência, recusa e, até mesmo,
desprezo com relação a certos temas e questões, o uso dos neologismos
e o fato de serem, por vezes, lacônicos. Em suma, seus excessos e suas
faltas.
Ser e Tempo de M. Heidegger e o Tractatus Logico-
philosophicus de Wittgenstein são obras embleticas, não somente
com relação à história da filosofia tomada em si mesma, pois se uma
delas resgata e tenta legitimar questões que podem ser consideradas de
caráter duvidoso, mesmo nos meios filosóficos, como a questão do ser, a
outra decreta o fim de problemas insolúveis e milenares da filosofia.
Também são emblemáticas com relação ao próprio percurso filosófico
dos pensadores, pois o que exploram é determinante para o rumo de
abordagens e convicções ulteriores. Desse modo, muitas das questões e
temas daquelas obras resistem aos desgastes do tempo.
As dificuldades que se apresentam é que falamos de Ser e
Tempo e o Tractatus Logico-philosophicus que foram escritas por dois
filósofos, que não representam, em certo sentido, somente o extremo de
duas tradições filosóficas. Uma dando prioridade ao que foi poderíamos
chamar de esclarecimentos argumentativos e outra podendo ser
caracterizada pelas amplas sínteses especulativas
80
.
Tais obras representam dois modos de pensar e conceber
problemas filosóficos por duas tradições totalmente diferentes e opostas
em suas convicções de como conceber e pensar tais problemas.
Entretanto, muitos, mesmo cientes dessas dificuldades, julgam ser mais
79
Lembrando Stanley Cavell, citado por Rorty em Filosofia Americana:
Conversações. “os dois maiores filósofos do século XX, Heidegger e Wittgenstein, estavam
exatamente nos antípodas: o primeiro escrevia como se tivesse lido tudo e o segundo, como se
não tivesse lido nada.” (RORTY, in BORRADORI, 2000, p. 150)
80
Estas expressões são usadas por Giovanna Borradori em Filosofia
Americana: conversações (BORRADORI, 2003, p. 146) como forma de caracterização das
filosofias com origem anglo-saxã com irradiação Escandinava e as Teuto-francesa com
irradiações na Europa meridional e na América Latina.
179
frutífero filosoficamente buscar uma compreensão que revele
pressupostos comuns entre tais pensadores do que simplesmente relegá-
los por pertencerem a tradições opostas. Portanto, aproximá-los é útil
para compreender-se os próprios rumos da filosofia na atualidade.
Mostrando e salientando as semelhanças em detrimento das diferenças
que confluem para as obras citadas. Tais semelhanças serão exploradas
levando-se em consideração não somente o ambiente, mas,
principalmente, os autores que julgamos terem participado da formação
intelectual de tais pensadores e que se julga terem, de um modo ou de
outro marcado, demarcando suas abordagens filosóficas. A literatura
especializada será, é claro, sempre chamada a corroborar estas
perspectivas interpretativas, sempre que possível.
Algo parecido encontramos, também, em Moore, mas
aplicado à concepção de filosofia, para quem a filosofia é pensada como
“análise da linguagem e investigação do significado dos termos por
meio da eliminação de sua ambigüidade”. (BERTI, 1997, p. 145/146)
Certamente, apesar dos inúmeros caminhos trilhados a partir do
Tractatus, essa é também a sua ideia central, sobre a qual, igualmente,
assenta-se a famosa desconfiança para com a metafísica em geral.
Heidegger declara as influências recebidas: a dissertação de
Franz Brentano Sobre o múltiplo significado do ser em Aristóteles e as
Investigações Lógicas, de E. Husserl
81
. Em sua conferência Meu
caminho na fenomenologia, texto publicado em um volume em
homenagem ao octogésimo aniversário do editor Niemeyer, em 1963,
diz que, inicialmente, a questão do ser foi motivada pela leitura da
dissertação de Brentano de 1862. A leitura dessa obra suscita o seguinte
problema: “Se o ente vem dito com muitos significados, qual será então
o significado fundamental e condutor? Que quer dizer ser?”
(HEIDEGGER, 1983, p. 297) Para responder a essa pergunta, Heidegger
as Investigações lógicas de Husserl. Dessas leituras, nasce e toma
corpo a questão que é, de formas variadas, o pano de fundo do seu
pensamento, a questão do ser.
No Tractatus, o aforismo 3.323 lê-se:
81
Para maiores esclarecimentos sobre as influências de Heidegger ver, entre
outros, Meu caminho na fenomenologia. Trad. Ernildo Stein. In____: Os Pensadores.
Heidegger. São Paulo: Abril S.A. Cultural, 1983. E Heidegger: Um Mestre da Alemanha entre
o Bem e o Mal. De Rüdiger Zafranski. São Paulo: Geração Editorial, 2000. p, 53.
180
Na linguagem corrente, acontece com muita
freqüência que uma mesma palavra designe de
maneiras diferentes pertença, pois, a símbolos
diferentes – ou que duas palavras que designam de
maneiras diferentes sejam empregadas, na
proposição, superficialmente do mesmo modo.
Assim, a palavra é’ aparece como cópula, como
sinal de igualdade e como expressão da
existência; ‘existir’, como verbo intransitivo, tanto
quanto ‘ir’; ‘idêntico’, como adjetivo; falamos de
algo, mas também de acontecer algo. (Na
proposição ‘Rosa é rosa’ onde a primeira
palavra é um nome de pessoa, a última é um
adjetivo essas palavras não tem simplesmente
significados diferentes, mas são símbolos
diferentes.) (WITTGENSTEIN, 2001, p. 157)
E completa no aforismo seguinte, 3.324
Assim nascem facilmente as confusões mais
fundamentais (de que toda a filosofia está repleta).
(Ibidem, p.159)
Parece claro que tanto um quanto o outro perceberam que a
palavra “é” em todos os seus desdobramentos possíveis, conferindo
identidade, igualdade e existência é, no mínimo, problemática e digna de
atenção quanto ao seu uso. Wittgenstein, assim como Heidegger, a
identifica como a origem das confusões fundamentais da filosofia.
Todavia, diferem quanto aos motivos e consequências dessas confusões.
No aforismo 3.325 do Tractatus lê-se o que se pode considerar a solução
ao que é exposto no aforismo 3.324:
Para evitar esses equívocos, devemos empregar
uma notação que os exclua, não empregando o
mesmo sinal em símbolos diferentes e não
empregando superficialmente da mesma maneira
sinais que designem de maneiras diferentes. Uma
notação, portanto, que obedeça à gramática lógica
– à sintaxe lógica. (A ideografia de Frege e Russel
181
é uma tal notação, que não chega, todavia, a
excluir todos os erros.) (Ibidem, p. 159)
Assim, Wittgenstein julga que o problema é resolvido pela
substituição da palavra por uma notação que obedeça à gramática da
lógica. Heidegger, pelo contrário, não busca necessariamente substituir
ou eliminar a palavra ser, mas compreender o sentido existencial que ela
possui, determinante no modo como é usada. Apesar das poucas
palavras do autor do Tractatus sobre o termo, ela está no centro do
problema com respeito ao uso da linguagem e dos problemas
decorrentes do mau uso.
Heidegger, em sua obra Introdução à metafísica
82
, logo
após dedicar um espaço à apresentação da etimologia da palavra “ser”
(HEIDEGGER, 1987, P. 80 a 84) onde conclui que as três significações
iniciais ligadas à palavra desapareceram
83
, tendo permanecido, contudo,
o uso abstrato da palavra “ser” (Ibidem, p. 81) e termina fazendo, entre
outras, a seguinte pergunta: “Em que consiste o nosso dizer do Ser
depois de todas as suas transformações lingüísticas?” (HEIDEGGER,
1987, p. 82) e, mais adiante acrescenta “Afastemo-nos, portanto do
esquema vazio desta palavra ‘ser’!(Ibidem, p. 86) Na obra de 27, essa
desconfiança com o uso da palavra ser já está presente.
Tudo isso revela, por um lado, não somente motivações
distintas, mas preocupações semelhantes. Contudo, para Wittgenstein e
Heidegger o que está em jogo são as perspectivas a partir das quais
certos problemas filosóficos são abordados, definidos e a própria forma
da filosofia.
A obra de Wittgenstein visa acabar com os problemas
milenares da tradição filosófica quer seja, resolvendo-os, ou mostrando
que não têm a mínima importância, ou seja, que nem sequer chegam a
constituir-se em problemas legítimos.
Portanto, é minha opinião que, no essencial,
resolvi de vez os problemas. E se não me engano
quanto a isso, o valor deste trabalho consiste, em
segundo lugar, em mostrar como importa pouco
82
Obra publicada a partir da preleção proferida, de mesmo nome, durante o
segundo semestre de 1934/35, em Freiburg.
83
Essas significações são: 1. viver; 2. surgir e 3 permanecer.
182
resolver esses problemas. (WITTGENSTEIN,
2001, p. 18)
Para o sucesso de tal empreitada, basta o uso correto da
linguagem. Assim, no Tractatus, a ideia de que à linguagem científica,
única válida e legítima para descrever mundo, subjaz uma estrutura
lógica, a ser respeitada, caso se queira que os pensamentos e,
consequentemente, a linguagem tenham sentido. Além disso, o uso
correto da linguagem, pelo respeito a essa estrutura, implica na
resolução de todos os problemas filosóficos milenares. A convicção do
autor de que o uso correto da linguagem é decisivo é digno de nota “O
livro trata dos problemas filosóficos e mostra creio eu que a
formulação desses problemas repousa sobre o mau entendimento da
lógica de nossa linguagem”. (Ibidem, p. 131)
Por outro lado, Wittgenstein acredita que respeita tais
regras e conclui que resolve, ou melhor, dissolve de uma vez por todas
as falsas questões que se apresentavam como legítimas em filosofia. A
obra Ser e Tempo, por diversas vezes mencionada por Heidegger como
um projeto inacabado, como parte de um caminho maior, ou seja, algo
preparatório
84
, marca um novo início do próprio filosofar em geral e,
consequentemente, uma espécie de revolução na filosofia.
Em ambas, a filosofia é concebida, guardadas as diferenças,
como uma atividade radical que rompe com certo ostracismo milenar da
filosofia tradicional
85
. No caso de Wittgenstein, bem mais radical,
aparentemente, pois implica na impossibilidade da filosofia enquanto
tal. Até mesmo para Heidegger, a retomada pela pergunta fundamental
da filosofia, implica na mesma impossibilidade. Por razões diferentes.
No prefácio à edição completa lê-se “A edição completa
deve mostrar, de diferentes maneiras, um ‘caminho’ no campo da
colocação mutante da pergunta polissêmica pelo ser”. (HEIDEGGER,
apud, LOPARIC, 2001, p. 36/37) Quanto às obras citadas, o modo como
estão escritas é digno de nota. O Tractatus Logico-philosophicus
economizando termos desnecessários, direta, clara, objetiva, vai direto
ao assunto, sem rodeios. Ser e Tempo cria neologismos. É contida.
84
Entre outras tantas indicações dadas pelo autor de Ser e
Tempo, ressalta-se a epigrafe escolhida pelo próprio Heidegger para o conjunto de sua obra:
‘Caminhos, não obras’. (HEIDEGGER, apud LOPARIC, 2004, p. 36.)
85
Filosofia tradicional entende-se toda a filosofia anterior a
Heidegger e Wittgenstein.
183
Outras vezes é prolixa em algumas afirmações. Cabe evidenciar, aqui, o
último trecho do 7º§ de Ser e Tempo, no qual Heidegger fala da
dificuldade da investigação, desculpa-se pelo estilo e pela falta de beleza
de suas análises. Contudo, esta imperfeição justifica-se face ao que é
investigado.
Quanto à inadequação e a ‘falta de beleza’ do
estilo das análises que se seguirão, deve observar
o seguinte: uma coisa é fazer um relatório
narrativo sobre os entes, outra coisa é apreender o
ente em seu ser. Para esta última tarefa não apenas
faltam, na maioria das vezes, as palavras, mas,
sobretudo, a ‘gramática’. [...] Quando as forças
são essencialmente menores e o setor do ser que
se deve abrir é ontologicamente muito mais difícil
do que o que foi dado aos gregos, crescerá a
dificuldade de formação de conceitos e a dureza
das expressões. (HEIDEGGER, 1997, p. 70)
Portanto, a dificuldade é imposta à investigação pelo
próprio objeto investigado. É uma dificuldade interna pertencente à
natureza mesma da investigação
86
. Mas o interessante, entre outras
coisas, é que ele deixa claro que faltam, não somente palavras, mas
sobretudo, a gramática. Em resumo, Heidegger afirma que a dificuldade
na explicitação da investigação passa e está condicionada pelo
instrumental linguístico de que se dispõe
87
.
Apesar dos objetivos e peculiaridades, ambas as obras
foram escritas com a perspectiva de apontar para aquilo que realmente
importa na filosofia. Foram pensadas por seus autores como inovadoras.
Isso não os impediu de reconhecer, passado algum tempo da publicação,
que elas são passíveis de ser repensadas, para não dizer reescritas. Fazer
86
Justificativa similar acha-se no prefácio das Investigações Filosóficas de
Wittgenstein ao falar das dificuldades que enfrenta ao escrever como já foi mencionado.
87
O que contradiz o que ele mesmo afirma na pág. 43 de Ser e Tempo: “Com
isso, indica-se, de maneira provisória, que uma interpretação do Dasein depara-se com
dificuldades específicas. São dificuldades que estão enraizadas no modo de ser do próprio tema
e da própria atitude temática e não numa possível insuficiência do aparelhamento de nossa
capacidade cognoscitiva ou numa deficiência de conceituação adequada, o que, aparentemente,
poderia ser corrigido sem maiores dificuldades.” Bem, ao que tudo indica, antes de uma
contradição falta certeza para o autor em que, especificamente, se funda a dificuldade da
investigação.
184
isso, não implicava somente em dificuldades de ordem editorial. Mas,
pelo contrário, implicava em repensar e recolocar, senão abandonar,
questões que antes pareciam ocupar o lugar central no debate filosófico.
É o que Heidegger deixa transparecer à observação preliminar à 7ª
edição, de Ser e Tempo, publicada em 1953.
Após um quarto de século, não se pode
acrescentar a segunda metade sem se expor de
maneira nova a primeira. Entretanto, o seu
caminho permanece ainda hoje um caminho
necessário sempre que a questão do ser tiver que
mobilizar a nossa pre-sença. (HEIDEGGER,
1997, p. 23)
No caso de Wittgenstein, no prefácio à edição das
Investigações Filosóficas escrito em janeiro de 1945, lê-se “Desde que
comecei, pois, dezesseis anos, a me ocupar novamente com a
filosofia, tive que reconhecer graves erros naquilo que eu expusera
naquele primeiro livro”. (WITTGENSTEIN, 2001, p. 12) Eles
reconhecem a necessidade de retomar e rever temas e questões
abordados naquelas obras, mas não se referiram às obras como
dispensáveis. Pelo contrário, Heidegger, nessa mesma observação
preliminar, considera a primeira parte de Ser e Tempo como “[...] um
caminho necessário sempre que a questão do ser tiver que mobilizar a
nossa pres-sença”. (HEIDEGGER, 1997, p. 23). Wittgenstein diz ter
reconhecido graves erros e que, talvez, sua nova perspectiva filosófica
somente pudesse ser entendida tendo o Tractatus como pano de fundo.
(WITTGENSTEIN, 1999, p. 12)
Tanto um quanto o outro reconhecem, apesar dos erros por
eles encontrados em suas obras, a necessidade de conservar o elemento
motivador sempre presente. Assim, as obras posteriores trazem não uma
ruptura radical com as primeiras porque nelas está caracterizado o
primeiro impulso filosófico de ambos. Mas, de certa forma, há um
desenvolvimento e um alargamento de horizontes vislumbrados
anteriormente nessas mesmas obras. Esse alargamento tem como
objetivo acomodar novos elementos à discussão inicial.
Além disso, as duas não foram muito bem aceitas pelos
mestres dos autores. Tanto Husserl, de quem Heidegger foi aluno e
posteriormente assistente, quanto Russel, de quem Wittgenstein foi
185
aluno, não gostaram muito do que leram. Como também se sentiram
sobrepujados por seus discípulos o que gerou certo ressentimento.
Quanto a isso, Russel testemunha face ao crescente sucesso das ideias
de Wittgenstein em detrimento das suas “Não é uma experiência de todo
agradável ver-se considerado obsoleto depois de ter estado, durante um
certo tempo, na moda”. (RUSSEL, apud, EDMONDS; EIDINOW,
2003, p 63)
Em Husserl, entre muitos testemunhos de desaprovação a
Heidegger há a convicção de ter sido abandonado, traído por aquele que
considerava o seu sucessor legítimo, ao ponto de não reconhecê-lo mais,
nem mesmo como amigo. Por outro lado, Husserl percebe que
Heidegger caminha por suas próprias pernas. Os interesses e objetivos
antes compartilhados com referência à fenomenologia desaparece. Nem
mesmo quanto ao significado da palavra fenomenologia, há, então,
acordo.
A sua fenomenologia [de Heidegger] é totalmente
diferente da minha; os seus cursos acadêmicos,
assim como o seu livro [Ser e Tempo], em vez de
serem a continuação dos meus trabalhos
científicos visam, no essencial, desacreditá-los por
meio de ataques abertos ou velados. (HUSSERL,
apud, LOPARIC, 2004, p. 12)
Em outra ocasião, numa carta de 1931, Husserl novamente
faz referência ao desacordo com o trabalho filosófico de Heidegger e as
suas relações:
Não faço juízo sobre a sua pessoa ele se tornou,
para mim, totalmente incompreensível. Ele foi,
durante quase uma década, meu amigo mais
próximo, mas agora isso naturalmente terminou: a
falta de compreensão exclui a amizade essa
mudança no apreço científico e na minha relação
com uma outra pessoa foi um dos golpes mais
duros de minha vida. (Ibidem, p. 12)
186
Deixando de lado esses testemunhos de desaprovação,
salienta-se que tanto no Tractatus quanto em Ser e Tempo não há
somente uma confrontação entre escolas, filosofias e métodos analítico e
fenomenológico: um esforço de pensar a dimensão para além das
limitações epistemológicas tradicionais. Mas é claro, pensar
condicionado pelas diferenças. Além disso, em ambas, pensar essa
dimensão passa, necessária e obrigatoriamente, pela linguagem.
No Tractatus, a linguagem está no centro das atenções. Ao
ponto de anunciar a duvidosa pretensão de que todos os problemas
filosóficos fossem resolvidos pelo uso correto da linguagem, pelo
respeito à estrutura lógica inerente a ela. Mas a expressão “problemas
filosóficosnão se restringe somente à filosofia. A cura ou eliminação
dos problemas ditos filosóficos implica em uma reestruturação da
ciência. E o modo como se pensa o mundo em seus limites. “O livro [O
Tractatus] pretende, pois, traçar um limite para o pensar, ou melhor
não para o pensar, mas para a expressão dos pensamentos”.
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 131)
A interpretação padrão da obra indica que ela pretende
somente clarificar proposições sobre as ciências naturais, limitando-se a
uma atividade teórica, sem nada poder dizer sobre a vida, a qual as
proposições éticas pertencem. Segundo Loparic não nenhuma
novidade quanto a tais posições filosóficas, pois Kant enunciara esta
mesma tese.
A tese presente no Tractatus de que em uma
linguagem que se destina a afigurar fatos, as
proposições éticas são nonsense foi devidamente
estabelecida por Kant, tendo sido reafirmada pelo
primeiro Wittgenstein e muitos outros.
(LOPARIC, 2001, p. 152)
Assim, seguindo a interpretação padrão, não lugar para
proposições de caráter ético e morais. Todavia, essa leitura é restritiva,
pois, mesmo não sendo o objetivo declarado do Tractatus formular uma
ética, aceita-se, com certos limites, que somente pela pressuposição de
um comprometimento de caráter ético se concretiza o objetivo expresso
nele, bem como se a compreende como um todo, incluindo os seus
contrassensos:
187
Ora, também acreditamos que a leitura mais
apropriada do Tractatus deve articular lógica e
ética de maneira harmônica. Esse é o único modo
de superar o dilema citado. Qualquer outro tipo de
leitura produzirá uma visão incompleta da
filosofia tractatiana. (PINTO, 1998, p. 31)
Quanto ao tema ético, o interessante é que ética e moral, a
princípio, no Tractatus, são usados como sinônimos, pois ao usar os
termos Wittgenstein não está muito preocupado em diferenciá-los ou
apresentar hipóteses que tornem isso possível. O fato de ética e moral
terem a mesma raiz etimológica
88
explica esta não diferenciação por
parte de Wittgenstein.
Via de regra, associa-se a palavra “Ética a
comportamentos socialmente aceitáveis, enquanto que o termo moral é
relacionado mais à ideia de uma lei da consciência. Entretanto, apesar
desta diferença pressuposta no uso desses termos, Wittgenstein, em
6.422 T e em N. 30.7.16 prefere o uso de ética como uma lei interna da
consciência (no sentido kantiano de moral imperativa). Em N. 2.8.16 o
termo ética é usado, claramente, no sentido de moralidade. O que
margem àquelas interpretações nas quais a obra tractatiana e, até
mesmo, todo o trabalho filosófico do autor é associado a um tipo de
pensamento ético. Desse modo, especula-se que não há confusão no uso
dos termos porque a Wittgenstein interessa em defini-lo no sentido
kantiano, i.e., como lei interna da consciência determinando a própria
moralidade
O primeiro pensamento que nos vem quando se
formula uma lei ética da forma ‘você deve... é: e
daí, se eu não o fizer? É claro, porém, que a ética
nada tem a ver com punição e recompensa, no
88
A palavra Ética em suas raízes gregas: Éthos - costume, uso, maneira de
proceder, (1) Êthos - modo de ser, caráter (2) - Na tradução para o latim foi privilegiado
somente a palavra ética em seu primeiro significado grego. Então, a palavra mos ou no plural
mores (ou moral) diz respeito ao segundo significado que o termo possui. Assim ética,
enquanto moral diz respeito a ações praticadas, ao que é aceito como comportamento correto e
adequado. (DALL’AGNOL, 2008, p. 3). Desse modo é justificável o uso dos termos como
sinônimos.
188
sentido usual. Portanto, essa questão de quais
sejam as conseqüências de uma ação não deve ter
importância. Pelo menos, essas conseqüências
não podem ser eventos. Pois há decerto algo de
correto nesse modo de formular a questão. Deve
haver, na verdade, uma espécie de recompensa
ética e punição ética, mas elas devem estar na
própria ação. (E também é claro que a recompensa
deve ser algo de agradável, a punição algo de
desagradável). (WITTGENSTEIN, 2001, p. 277)
Na obra de Heidegger, em Ser e Tempo, não menos
pretensiosa, a questão motriz pode ser considerada sem sentido ou, até
mesmo, desgastada e de caráter filosófico duvidoso. Loparic diz ao
referir-se à questão fundamental para o primeiro Heidegger que “No
sentido estrito, ele talvez nem seja um filósofo”. (LOPARIC, 2004, p. 7)
Mas, é claro, Loparic não concorda com isso, apenas simula um possível
comentário que pode ser feito sobre a obra filosófica de Heidegger.
Contudo, essa questão motriz foi apresentada como ponto de partida e
delimitadora da investigação. Sem entrar nessa discussão, salienta-se o
papel da linguagem e sua relação com tal questão.
89
Por outro lado, na obra heideggeriana, a epistemologia, não
é mais o foco das atenções, como no Tractatus. É digno de nota o
deslocamento para o campo semântico, inaugurado pela pergunta sobre
o sentido do ser e não pelo ser ele mesmo, feito por Heidegger
90
. Assim,
a investigação proposta em Ser e Tempo é delimitada pela linguagem e a
importância crescente desta no decorrer da obra de Heidegger é uma
consequência da delimitação inicial do problema proposto.
No Tractatus, a linguagem é explicitamente o centro das
atenções. Ela é elevada ao lugar de imagem do mundo e reduzida a uma
estrutura lógica possibilitadora da epistemologia. Em Ser e Tempo,
embora não de modo tão explícito, se nota a estreita ligação entre a
questão do ser
91
e sua possibilidade de enunciação.
89
que muitas aproximações e comparações que podemos fazer entre
Heidegger e Wittgenstein aproveitam, via de regra, a ideia de linguagem.
90
Essa estratégia heideggeriana evitaria muitos problemas peculiares às
abordagens tradicionais do tema e, criaria outros relacionados a essa mesma decisão.
91
Heidegger reservou apenas o §34 de Ser e Tempo ao tratamento do que
chamou de discurso. O que, para alguns, sugere a falta de importância reservada à linguagem
naquele primeiro momento. É uma interpretação aceitável, mas que não se sustenta.
189
Contudo, no caso heideggeriano, somente mais tarde, na
carta endereçada a Beaufret é que a linguagem aparece como decisiva e
distintiva do ser-aí. Não somente isso, conforme a linguagem cresce em
importância, também aumenta a certeza de que um campo da
experiência humana que escapa à possibilidade de enunciação.
A delimitação da investigação sobre o sentido do ser está
condicionada à linguagem. A possibilidade da enunciação de um
determinado campo da experiência que não é dado num primeiro
momento, ou melhor, que não é compreensível, mas é verificável como
a experiência ligada à angústia, uma experiência limite implica na
continuidade da investigação proposta e da filosofia. Diz Heidegger na
carta a Beaufret:
Tudo depende do facto da verdade do ser atingir a
linguagem e do pensar conseguir esta linguagem.
Contudo, qual de nós, contemporâneo, quereria
pretender que as suas tentativas de pensar
estivessem familiarizadas na senda do silêncio
(HEIDEGGER, 1987, p. 71).
No resposta a Beaufret, além da condição imposta à
investigação, a figura do silêncio. A possibilidade de expressar a
verdade do ser depende da possibilidade desta mesma verdade alcançar
a linguagem. Reconhecendo, inicialmente, esta impossibilidade, cogita
que a linguagem exige, em vez de uma expressão precipitada, o silêncio.
Diante da dúvida ou de um aparato linguístico inadequado, é melhor o
silêncio, que representa outro campo da experiência do ser-aí que lhe
escapa à possibilidade de enunciação; um tipo de experiência
privilegiada e singular, na qual o mundo se mostra em sua totalidade.
Entretanto, Heidegger se pergunta quem está familiarizado com este
silêncio, com esta experiência?
De certa forma, Heidegger fala de certo limite com respeito
à possibilidade de enunciar a verdade do ser, ou seja, um campo da
experiência humana que escapa. Mas escapa à enunciação, não à
experiência. Desse modo, entende-se que a linguagem é elevada a um
patamar acima dos problemas epistemológicos, que passam a ser
submetidos a ela. Importância que, a partir dali, somente aumenta.
um alargamento do uso e da função da linguagem em
ambos os filósofos no decorrer de suas obras. Em Wittgenstein, mesmo
190
nas Investigações Filosóficas, que marcam, segundo alguns, uma
ruptura definitiva com o Tractatus, a linguagem ocupa um lugar central
na organização e delimitação da vida humana em sociedade. O conceito
de jogos deixa o uso expandido da linguagem bem nítido que também é
bem diferente daquele presente no Tractatus.
A diferença é grande em ambos. Na obra A caminho da
linguagem
92
, por exemplo, Heidegger deixa claro que a linguagem está
presente mesmo quando não o pronunciamento de qualquer palavra,
ou quando, por qualquer motivo, se é impedido ou incapaz de
pronunciá-la. Mas evidencia seu caráter distintivo na construção da
própria identidade humana. Pode-se notar que a linguagem é concebida
como algo muito mais amplo do que a articulação de sons, do que algo
que possibilita, tão somente, a comunicação interpessoal. Isso, por sinal,
não é o distintivo da linguagem humana. O distintivo é o fato de que a
linguagem manifesta-se independentemente da vontade pessoal. A
linguagem é de caráter ontológico. Por isso não precisa de quaisquer
outros recursos para se fazer presente. Ela está aí, desde sempre.
O homem fala. Falamos quando acordados e em
sonho. Falamos continuamente. Falamos mesmo
quando não deixamos soar nenhuma palavra.
Falamos quando ouvimos e lemos. Falamos
igualmente quando não ouvimos e não lemos e, ao
invés, realizamos um trabalho ou ficamos à toa.
Falamos sempre de um jeito ou de outro.
(HEIDEGGER, 2003, p. 7)
E a linguagem identidade ao homem, ao Dasein.
Guarda-se a concepção de que, à diferença da
planta e do animal, o homem é o ser vivo dotado
de linguagem. Essa definição não diz apenas que,
dentre muitas outras faculdades, o homem
também possui a de falar. Nela se diz que a
linguagem é o que faculta o homem ser o ser vivo
que ele é enquanto homem. (Ibidem, p. 7)
92
Publicado somente em 1959. É a reunião de ensaios e conferências proferidos
na década de 50.
191
Então, se alguma possibilidade de existir uma ética de
caráter originário ela deverá se ver, de algum modo ou de outro, com a
linguagem. A possibilidade de enunciação de uma ética originária passa
pela necessidade de compreendermos essa linguagem que fala em
silêncio.
Esta reificação da linguagem, nas palavras de Rorty, no seu
artigo de mesmo nome, marca uma semelhança não somente das obras
mencionadas, mas, principalmente, entre seus autores. Por outro lado,
este novo lugar que a linguagem ocupa na filosofia foi designado por
Gustav Bergmann de “giro lingüístico”. Estratégia que, segundo as
palavras do mesmo Rorty, um tanto leviana, marca uma atitude
desesperada para manter a filosofia como disciplina de poltrona e,
enquanto tal, desfrutando de um ponto de vista privilegiado com relação
a todas as outras possíveis disciplinas científicas. (RORTY, 2000, p.
357)
Esse novo lugar que a linguagem desempenha na filosofia
visa, certamente, sua autopreservação e, consequentemente a autonomia
frente a outras disciplinas, como diz Rorty: a função da linguagem é,
portanto, demarcar e assegurar os limites da própria atividade filosófica.
“Delimitar um espaço para o conhecimento a priori no qual não
poderiam se intrometer nem a sociologia nem a história nem a arte nem
a ciência natural”. (Ibidem, p. 357) Concorda-se com a interpretação
levando-se em conta que a linguagem não é simplesmente uma forma de
substituição para as palavras mente ou consciência. Também não
aparece somente para assegurar à filosofia um lugar privilegiado (ou de
poltrona, como ele sugere). Ela surge para preencher o espaço e as
dúvidas deixadas pelas filosofias de caráter transcendental com base
cartesiana. Por outro lado, isto não significa que tanto de Heidegger
quanto de Wittgenstein escaparam totalmente as influências de tais
filosofias.
Pelo contrário, no caso de Wittgenstein, por exemplo,
segundo Loparic em Ética originária e práxis racionalizada, o mesmo
permaneceu preso a problemática transcendental de condições de
possibilidade a priori. Somente o foco foi mudado dos objetos da
experiência para o dizer algo. Em Heidegger há, entre outras, a ideia de
mundo como constitutiva e determinante de um conjunto de relações
pré-dadas. (LOPARIC, 2001, p. 165)
192
Essa é a mesma opinião sustentada por Apel em As
Transformações da Filosofia, no qual, igualmente identifica o débito de
ambos os autores para com Kant. Para Apel, Kant está a base dos
primeiros Heidegger e Wittgenstein. As distinções entre dizer e mostrar
no Tractatus e a diferença entre ôntico e ontológico, ou factual e
transcendental em Ser e Tempo são expressões que revelam o débito de
tais obras para com a filosofia transcendental kantiana. Tais distinções
são correlatas às distinções kantianas entre: 1. as condições de
possibilidade da experiência e 2. as condições de possibilidade dos
objetos da experiência, respectivamente.
Entretanto, quanto à linguagem, diferença entre a
interpretação de Apel com a de Loparic. Para Loparic, tanto nos autores
clássicos da filosofia da linguagem, quanto em Kant, subjaz a ideia da
existência de uma estrutura mental inata (lógica e a priori) que é
compartilhada com relação à linguagem pelo sujeito cognoscente. Isso
revela que tanto Kant, quanto os filósofos clássicos da linguagem estão
presos, ainda, àquela espécie de phatos grego e buscam, por isso, “achar
uma representação mental ou verbal capaz de espelhar a armação do
mundo”. (Ibidem, p. 155)
Para Gier, Kant é aquele que melhor fornece uma matriz
para compreender em termos gerais tanto à ontologia fundamental de
Heidegger e a ontologia tractatiana de Wittgenstein. (GIER, 1981, p. 45)
Em Heidegger encontra-se a ideia de ser (compreensão de ser) como o
fundamento transcendental de todo e qualquer ente. Em Wittgenstein lê-
se no aforismo 2.0123:
Se conheço o objeto, conheço também todas as
possibilidades de seu aparecimento em estados de
coisas. (cada uma dessas possibilidades deve estar
na natureza do objeto.) Não se pode encontrar
depois uma nova possibilidade.
(WITTGENSTEIN, 2001, p. 137).
Segundo Gier a diferença das ontologias é, contudo, que a
do primeiro é interna à ideia de mundo e à relação desse com o Dasein.
No segundo, é externa, pois segue o atomismo lógico de Russel. (GIER,
1981, p. 45) Heidegger também pode se inserir neste contexto, pois
apesar de percorrer outros caminhos, com sua ontologia fundamental
apresenta aquelas estruturas últimas e, portanto, fundacionais a partir
193
das quais o existente humano
93
existe enquanto tal e que, por serem
constitutivas, existenciais, são compartilhadas por todos os existentes
humanos. Tais estruturas estão pressupostas e são, portanto, as
condições de possibilidade de todo e qualquer tipo de comportamento e
conhecimentos produzidos. Para o autor de Ser e Tempo, liberar este
horizonte e explicitá-lo, trazê-lo à tona é imprescindível para tornar
possível e viável, a pergunta e a resposta à questão sobre o que é o
homem. Afirma Heidegger:
se indicou, na introdução, que a analítica
existencial do Dasein mobiliza igualmente uma
tarefa, cuja urgência não é menor que a da própria
questão do ser, a saber, a liberação do a priori, que
se deve fazer visível, a fim de possibilitar a
discussão filosófica da questão ‘o que é o
homem’. (HEIDEGGER, 1997, p. 45)
Entretanto, com relação à linguagem, Loparic situa o
primeiro Heidegger em um horizonte pós-metafísico e, portanto, fora do
condicionamento grego, diferentemente de Apel, visto que Heidegger
substitui o a priori semântico-formal, característico das filosofias de
caráter transcendental, pelo a priori do ser-aí, no qual o dizer não é
equivalente a objetificar um ente, presentificá-lo, mas, tão somente, uma
forma de indicação. (LOPARIC, 2001, p. 166) Isso explica, por
exemplo, entre outras coisas, o fato da figura do silêncio cada vez
ganhar mais espaço no pensamento heideggeriano, bem como, a sua
aproximação da poesia, em especial de Hölderlin. Pois os poetas falam a
verdade do ser sem incorrerem no erro de tentar objetificá-la. Por outro
lado, Wittgenstein fica preso à noção da linguagem que tem como
objetivo somente afigurar fatos naturais. Assim, a ideia de que há coisas
que não possam ser afiguradas, ditas, por escaparem à linguagem
objetivificante da ciência é uma consequência quase que necessária ao
93
O termo “fundacional” implica a ideia de que Heidegger é um pensador
fundacionista e, desse modo, transcendentalista à moda da tradição. Aqui o problema de como
enunciar tais estruturas sem ser considerado um fundacionista se coloca. A interpretação
padrão diz que Heidegger, para evitar esta denominação, que ele mesmo rejeita explicitamente,
substituí a ideia de verdade como condição de possibilidade da experiência pela ideia de
verdade como clareira (Lichtung) do ser.
194
seu pensamento, pois tais coisas situam-se no campo do místico e do
inefável.
O que mais impressiona na leitura desses dois autores são
as semelhanças que atingiram por caminhos tão opostos. Há, com
certeza, motivos muito diferentes ligados à perspectiva filosófica de
ambos, oriunda de suas formações. Contudo, no caso de Wittgenstein,
por exemplo, culturalmente, possui um horizonte bem mais amplo.
São bem conhecidas as histórias de vida de ambos.
Heidegger, filho de zelador e sacristão, de condição pobre, somente
consegue dar continuidade aos estudos por ser um aluno talentoso, o que
o ajuda a conseguir uma bolsa no Seminário Católico de Constança,
internato para formação de padres. O vínculo com o Seminário não foi
somente financeiro, mas cultural e intelectual e perdura de forma direta
por treze anos.
Wittgenstein nem de longe passou pelas restrições
financeiras de Heidegger, pelo menos, de modo voluntário. Tampouco
foi criado em um ambiente religioso, fechado culturalmente. Nos fins do
Século XIX, sua família é a segunda mais rica da Áustria. Sua casa,
chamada de palácio, é frequentada por pessoas como Clara Schumann,
Bruno Walter (famoso maestro da época), Gustav Mahler, Arnold
Schoenberg e Johannes Brahms. Richard Strauss também era um dos
freqüentadores. Chegou compor uma peça para o irmão de Wittgenstein,
que tocava piano e perdeu um braço na I Grande Guerra
94
.
Essas informações, simples dados históricos tomados em si,
podem ser entendidas como totalmente irrelevantes sob certos aspectos.
Por outro lado, ao pensarmos na perspectiva de mundo e na forma que a
filosofia foi por ambos os autores desenvolvida, adquire uma
importância filosófica na medida que possibilita uma compreensão
melhor de algumas decisões e conceitos filosóficos.
A ideia de mundo que pertence ao Dasein não é um mundo
de possibilidades ilimitadas (aparentemente, pelo menos). Pelo
contrário, é um mundo no qual o peso da tradição não pode ser
ignorado, colocada de lado. O Dasein está projetado para o futuro, mas a
partir do passado (do seu passado tal qual é determinado pela tradição a
qual pertence) que lhe descortina as possibilidades do presente. Assim a
tradição, enquanto pensada como algo herdado, não é dispensável ou
passada (no sentido que se perdeu de alguma forma), mas está sempre
presente de modo que o Dasein tem que se ver com ela.
94
Para maiores detalhes ver a obra de Zafranski, já mencionado. No caso de
Wittgenstein, ver o livro de David Edmonds & John Eidinow, também, referido na bibliografia.
195
Wittgenstein, face ao horizonte e ao ambiente em que
cresce, tem no sangue a força de não ter vínculos com a tradição.
Mundo
95
mostra-se como um horizonte aberto, passível de ser dominado
e descrito em sua totalidade ou, pelo menos, demarcado em seus limites.
O mundo de Heidegger, por outro lado, está preso à manifestação do ser,
para o qual, mundo encontra-se demarcado em sua totalidade e
possibilidade
96
. As suas filosofias, em sua totalidade, estão em débito
com esta formação inicial, embora não se reduzindo a elas.
Todavia, este distanciamento tem um ponto em comum,
guardadas as devidas distinções, além da importância atribuída à
linguagem: a desconfiança, de ambos, crescente com o que
tradicionalmente chamou-se “metafísica”. Um leitor menos atento ao
texto heideggeriano pode argumentar que esta desconfiança, no caso de
Heidegger, é apenas uma artimanha e que, na verdade, ele quer
reintroduzi-la ainda mais forte do que nunca. Certamente quem assim
argumenta, possivelmente, está certo. Isto se desprende sem maiores
problemas de uma olhada nos títulos de suas leituras e palestras. Mas tal
posição é superficial.
Um dos aspectos decisivos à empreitada heideggeriana de
refundar a metafísica passa pela recusa das metafísicas tradicionais,
principalmente àquelas ligadas ao cartesianismo. Idêntica recusa que
pode ser atribuída a Wittgenstein. Essas recusas estão diretamente
ligadas, não somente às noções de linguagem mas, principalmente, no
caso de Wittgenstein, a uma tentativa de estabelecer uma relação para
com pensamento
97
e mundo com relação à linguagem, de modos
totalmente diferentes. Relação na qual a linguagem é o elemento
principal. Desse modo, este outro ponto em comum, a desconfiança da
metafísica. tem uma perspectiva de caráter linguística.
Por outro lado, a pretensão heideggeriana de re-fundar a
metafísica também está ligada à certeza de que um horizonte de
eventos relacionados à experiência humana que escapa à possibilidade
de enunciação, exatamente pelo fato do ser, interpretado na perspectiva
do ente. Esta dificuldade, com respeito à possibilidade de enunciação do
ser, já é exposta nas páginas iniciais de Ser e Tempo. Salienta-se o papel
crescente da linguagem até o ponto de ser apresentada como o caráter
95
A supressão do artigo é intencional.
96
Lembrando, aqui, que mundo está sendo tomado na acepção de simplesmente
uma perspectiva, um background, tanto em um como em outro.
97
No caso de Heidegger o existente humano.
196
distintivo do existente humano enquanto ser-no-mundo
98
com relação a
outros tipos de entes.
É desnecessário falar da importância que a linguagem tem
para Wittgenstein. Não somente em termos metodológicos, mas,
igualmente, em termos existenciais. Este trabalho visa demonstrar que
tais funções estão diretamente interligadas. São codeterminantes. A
linguagem, nestas duas acepções, tanto no Tractatus Logico-
philosophicus quanto nas Investigações Filosóficas ocupa o lugar
central. Igualmente, mundo é um conceito central para isso, guardadas
as devidas diferenças, revela-se na e pela linguagem.
Em Wittgenstein não está, em ambas as suas fases, em jogo
o homem. Mas a possibilidade de conhecer e enunciar o próprio mundo.
Wittgenstein, o da primeira fase, com respeito a este ponto, está preso,
entre outras influências, àquelas de Schopenhauer e Russel, que o levam
à ideia de uma experiência de mundo em sua totalidade e a uma
experiência do místico e do inefável
99
.
Este tipo de experiência revela, embora de modo não
exprimível e experimentável, a conservação da perspectiva
transcendentalista, que ocorre mesmo em Heidegger. Entretanto, o autor
de Ser e Tempo, em sua primeira fase, pelo menos, caracteriza-se por
uma recusa às perspectivas tradicionais. Pois ele recusa a possibilidade
de um expectador imparcial frente ao infinito, frente àquela totalidade.
A relação entre o existente humano, linguagem e mundo são percebidos
a partir de uma perspectiva tão uníssona que é impossível falar de um
sem implicar noutro.
A recusa está diretamente ligada àquela que diz respeito a
Husserl e seu método fenomenológico, no caso heideggeriano. Mais
especificamente à possibilidade de uma époche e à existência de um eu
transcendental e de um sujeito privilegiado que consegue colocar-se
diante da totalidade do mundo para extrair o númeno. A recusa está
determinada pela questão que se tornou o leit motiv heideggeriano.
Nas leituras feitas por Heidegger no verão de 25, em
Marburg, é perceptível o distanciamento de seu antigo mestre pela
problematização e radicalização daquela chamada que é o emblema do
movimento fenomenológico: a volta às coisas elas mesmas tais quais se
apresentam em si mesmas.
98
Mundo, aqui, entendido no sentido que Heidegger atribui ao termo, ou seja,
enquanto uma abertura.
99
A que a ética limita-se.
197
Nós queremos tornar esta máxima mais
específica. Expressada em sua generalidade
formal, é o principio de todo conhecimento
científico. Mas nossa questão é realmente: quais
são estas coisas para as quais a filosofia deve
retornar se este sempre é para ser investigação
filosófica? (HEIDEGGER, 2003, p. 76)
Em Wittgenstein, o trinômio homem-mundo-linguagem
100
não é pensado sem a ideia ora subjacente, ora explicitada, da existência
de uma lógica, o que conduz a Weininger. Neste trinômio há, portanto,
uma ideia de lógica subsumida e, em um nível mais profundo, a de uma
ética.
O aforismo sétimo do Tractatus é o que revela mais
explicitamente esta relação. Nele, aparece a influência de Weininger
sobre o filósofo austríaco, qual seja, a profunda identidade entre lógica e
ética. Levando-se em consideração esta influência e tomando-a como
decisiva e determinante, é necessário repensar a verdadeira intenção de
Wittgenstein com a obra inicial.
Julga-se que o ambiente em que Wittgenstein é criado e
educado influencia fortemente a composição daquela obra. Por exemplo,
Fisogni cita no artigo Ethics and linguage in Wittgenstein, a influência
que ele sofre do poeta vienense Karl Kraus e sua doutrina sobre a
eticidade da linguagem, bem como a formação na cultura Hebraica e o
Torah em que a lei moral funde-se com a linguagem com o objetivo de
moldar o indivíduo e a sociedade. Em outras palavras, o mundo em que
o indivíduo vive. Os autores da obra O Atiçador de Wittgenstein,
também chamam atenção para a formação e o ambiente em que
Wittgenstein cresceu e é educado: embora liberal, de caráter
eminentemente judeu.
Desse modo, um ambiente propício para que autores
como Weininger e Kraus influenciem fortemente Wittgenstein.
Aceitando-se essa influência, concorda-se que o que está em jogo é o
próprio homem em relação às posturas que assume para com o mundo
que se abre e se fecha pela possibilidade de enunciação, ou seja, pela
linguagem.
100
A ordem na expressão não tem qualquer caráter valorativo.
198
um Wittgenstein que, igualmente como Heidegger, é
animado pela pergunta a respeito do que é o homem e como mundo se
revela a este mesmo homem. O que, em Wittgenstein, implica,
necessariamente, em questões de caráter ético. Wittgenstein, ao
sustentar que mundo
101
não pode ser dito por não se constituir em um
fato, pensa mundo diferentemente do significado que o termo
usualmente tem.
Por outro lado, Wittgenstein, na Conferência sobre Ética,
ao reconhecer que a linguagem somente comporta significado e sentidos
naturais, exclui do seu âmbito a possibilidade de descrições ontológicas
ou transcendentais: “Nossas palavras, usadas tal como o fazemos na
ciência, são recipientes capazes somente de conter e transmitir
significado e sentido naturais. (WITTGENSTEIN, 2005, p. 219) Em
outras palavras, exclui a possibilidade da formulação de juízos
absolutos, no caso específico, da ética, que é o tema daquela
conferência.
As proposições expressam fatos. A ética não é um fato do
mundo passível de descrição, portanto não pode ser dita. Nessas
declarações, ouve-se o eco de seu antigo professor Moore, apesar de
todas as diferenças para o qual, em Principia Ethica, através de sua
famosa denúncia sobre a falácia naturalista, procurou mostrar a “[...]
inconseqüência lógica presente em toda tentativa de fundar a ética, ou
seja, os juízos de valor, sobre o conhecimento da natureza (física ou
humana), isto é, sobre os juízos de fato”. (BERTI, 1997, p. 143)
Wittgenstein está, ao final, demarcando os limites da possibilidade do
conhecimento humano.
certos tipos de experiências, de caráter absoluto, que
levam, ao espanto com a própria existência do mundo, das coisas e de si
mesmo, com relação a este mundo. Essas experiências não podem ser
afiguradas pela linguagem, porque não são fatos naturais, portanto não
podem ser ditas. Loparic afirma que Wittgenstein não diz que tais
experiências são falsas ou que não existam, mas que elas não são fatos
naturais e, portanto, delas nada se diz. (LOPARIC, 2001, p. 171/172)
Salienta o tom pessoal implícito e explícito ao se falar destes tipos de
experiências, reforçado pelo autor vienense na Conferência sobre Ética.
Entretanto, a dificuldade não está neste fato, no tom pessoal
ao qual se fica preso para falar de ética ou valores absolutos, mas no fato
que ao se falar das experiências lhes são atribuídos valores absolutos, os
101
Mundo, aqui, no sentido de mundo dos fatos.
199
quais, exatamente por serem absolutos, valem, indistinta e
atemporalmente, para todo e qualquer um.
Se forem experiências, são fatos. E, assim, têm sentido e
significados relativos. Portanto, é um contrassenso dar-lhes um sentido
absoluto, pois é querer ir além daquilo que a experiência possibilita. É
querer ir além do mundo e do afigurável. Wittgenstein cai neste abismo
ao assumir que é possível falar de ética partindo do princípio de que esta
se refere a valores absolutos, que pertencem a certos tipos de
experiências. Portanto, uma ética deste tipo não pode ser dita, pois não
se afigura em um fato do mundo. A isso se aplicam também aquelas
experiências que têm um caráter absoluto, como, por exemplo, a do
assombro de que mundo existe.
Para Wittgenstein, tais fatores revelam uma tentativa de ir
além da linguagem significativa natural, o que gera apenas proposições
sem sentido. Mas, reconhece ele, é uma tendência, uma propensão
humana. Ir para além da linguagem e de seus limites. Por causa disso,
nada se pode dizer sobre temas que envolvam ou impliquem valores
absolutos
102
. Portanto, quando se pode falar de algo e este algo, pode ser
dito como uma experiência, ele é um fato. Portanto, descritível. Do
contrário, geram-se, apenas, contrassensos.
Entretanto, novamente salienta-se que ele não diz que não
possam ser vivenciados de alguma forma, ou seja, que não possam
constituir a experiência, mesmo que seja a priori. Para tentar mostrar a
proximidade com a perspectiva heideggeriana, a referência feita por
Wittgenstein a Ser e Tempo em uma das reuniões do círculo de Viena,
na qual ele declara saber o que Heidegger quer dizer quando fala da
angústia.
A angústia foi definida por Heidegger, no §40 de Ser e
Tempo, como um modo de disposição fundamental. A angústia é um
existencial fundamental porque é por meio dela que o existente humano
coloca-se diante da possibilidade de existência autêntica e inautêntica.
Diante dela, o existente humano tem que assumir ou não o chamamento
da consciência ao seu ter-que-ser. Assumir o fato de que é um ente
lançado.
Desse modo, Wittgenstein ao dizer que sabe muito bem o
que Heidegger quer dizer com angústia, pois como Heidegger, percebe a
existência de um campo da experiência, que não somente escapa a
possibilidade de enunciação, mas, principalmente, onde se uma
102
Tais considerações não valem somente para a ética, mas, também, para a
religião. Já no Tractatus fica claro isso, nas proposições 6.41 e 6.421.
200
experiência de caráter ético que se pode chamar de originária. Um
campo da experiência humana em que o indivíduo é chamado a assumir
uma espécie de responsabilidade sobre si mesmo antes de qualquer
outra.
É claro que tal referência pode ser interpretada de diversos
modos, algumas das quais impossibilitando uma aproximação entre os
pensadores. Por exemplo, a angústia wittgensteiniana é a mesma
daquela de Heidegger? Luigi Perissotto cita, em seu artigo Heidegger e
Wittgenstein. Quarant’anni di studi
103
, Leroy Finch
104
que afirma que a
angústia wittgensteiniana não é a angústia diante do nada, como no caso
de Heidegger, mas, aquela que surge diante da inexpressibilidade
linguística do mundo. Portanto, a referência de Wittgenstein, longe de
abrir uma possibilidade explícita de aproximação, a exclui.
LeRoy Finch (52) tende, al contrario, a
distinguere nettamente l'angoscia wittgensteiniana
da quella heideggeriana. Quella di Wittgenstein
non è l'angoscia di fronte al niente, ma quella che
ci coglie di fronte all'inesprimibilità linguistica di
tutto ciò che immediatamente ci circonda e ci
viene incontro
105
. (FINCH, apud Parissotto, 2001,
p. 2)
Contudo, segundo o autor do Tractatus, existe a tendência
de ir além dos limites e possibilidades da linguagem e procurar dizer o
que não pode ser dito. Esta é a angústia wittgensteiniana a que Finch se
refere: o colocar-se diante do inexprimível. Aí, ao invés do nada
heideggeriano, está a ética. Usando uma terminologia wittgensteiniana,
nenhum deles pertence ao mundo dos fatos e não são afiguráveis. “Toda
minha tendência e creio que a de todos aqueles que tentaram alguma
vez escrever ou falar de ética ou religião é correr contra os limites da
linguagem”. (WITTGENSTEIN, 2005, p. 224) Assim, ética, em
103
Heidegger e Wittgenstein. Quarenta anos de Estudo.
104
LEROY FINCH, H., Wittgenstein: the Later Philosophy. An Exposition of the
“Philosophical Investigations”, Atlantic Highlands (N.J.), Humanities press, 1977, appendice
4: “Wittgenstein and Heidegger”, pp. 262-264.
105
“Le Roy Finch (52) tende, ao contrário, distinguir nitidamente a angústia
wittgensteiniana daquela heideggeriana. Aquela de Wittgenstein não é a angústia em frente ao
nada, mas aquela que se diante da inexprimibilidade linguística de tudo isto que
imediatamente nos rodeia e que vem ao encontro.”
201
Wittgenstein, é um colocar-se diante de algo que não pode ser expresso.
É confrontar o indizível, o mundo em sua totalidade.
Por outro lado, a ética, enquanto este movimento para,
aponta para algo, tão somente. Daí se conclui que, por ética,
Wittgenstein não está pensando qualquer tipo de discurso normativo.
Como se pretendeu deixar claro nesse trabalho, isso não é possível face
os comprometimentos metodológicos de ambos.
Tanto em Wittgenstein quanto em Heidegger existe uma
ética não fundacionista no sentido de Moore, mas constitutiva, tanto em
Heidegger (1º. e 2º.), quanto em Wittgenstein (1º. e 2º.). Apesar dela não
ser passível de ser dita, constitui-se naquela experiência de totalidade
em que mundo, usando uma terminologia heideggeriana, revela-se em
sua totalidade ao sujeito cognoscente, ou seja, o mundo se mostra e se
abre em toda a sua extensão ética ao existente humano. Todavia, que
valor pode ter um tipo de experiência ética que, mesmo pressuposta e
constitutiva, não pode ser dita, não pode tornar-se conhecimento?
No caso específico de Wittgenstein, que é o mais
problemático quando se fala em ética, que é preciso ir além da sétima
proposição do Tractatus para podermos jogar alguma luz sobre esta
questão. Por exemplo, a afirmação de que a ética é inefável, não pode
ser lida em sentido forte e nem aplicável à ética em geral. Reconsidera-
se o significado do termo “stico”, pois usado em sentido padrão torna
a ética, enquanto uma mística, impossível de ser abordada pela filosofia,
tal qual entendia o primeiro Wittgenstein e, até mesmo, para Heidegger.
Somente assim, pode-se falar em ética no Tractatus e, além de tudo, de
modo justificável e legítimo é imprescindível que a inefabilidade das
proposições éticas não seja aceita e, por outro lado, defende-se a
perspectiva de que, para Wittgenstein, todo falar é ético,
independentemente de situar-se no campo do dizer ou do mostrar
106
.
Assim, por exemplo, para Fisogni, o uso do termo muß por
Wittgenstein, revela a outra dimensão da sétima proposição. Assim,
falar, usar a linguagem a partir de regras lógicas e gramaticais pressupõe
uma dimensão moral predisposta ou igualmente predisposta. Portanto,
se está diante de uma prova para poder dizer que no Tractatus uma
profunda relação entre ética e lógica, o que explica, por exemplo, o fato
de nas Investigações a palavra dever ganhar tanta importância.
No livro Sexo e Caráter de Otto Weininger a seguinte
afirmação “[...] lógica e ética são fundamentalmente uma mesma coisa;
106
Segue-se aqui, Vera Fisogni em seu artigo Ethics and linguage in
Wittgenstein já citado.
202
são apenas deveres que temos para conosco”. (WEININGER, apud,
GLOCK, 1998, p. 142) Pinto no artigo Aspectos da Influência de
Weininger sobre Wittgenstein, partilha da mesma opinião. Indo,
inclusive, mais longe e afirmando que a
[...] visão ética do Tractatus’ é não apenas
compatível com a ética weiningeriana, mas
também pode ser interpretada como constituindo
um desenvolvimento desta última. [...] a filosofia
tractatiana se torna ininteligível quando
relacionada apenas aos trabalhos lógicos de Frege
e Russell. (PINTO, 1997, p.199)
Portanto, no geral, a tese de Vera Fisogni não se mostra
mais tão original nem tão absurda. Entretanto, a questão mais
importante diz respeito a necessidade ética que se reflete na lógica. Ora,
essa necessidade não se localiza em uma região metafísica da
linguagem, no stico? Ainda não se define a que tipo de ética
Wittgenstein pensa ou que tipo de ética deriva destas afirmações,
embora se eliminem algumas possibilidades, como no caso, a de uma
ética do tipo daquela de Moore. Sustentando-se que a ética restringe-se
ao campo linguístico, como consequência, ela nada tem de inefável. Isto
não significa uma identificação entre linguagem e ética, mas a afirmação
de que a lógica pressupõe uma espécie de ética. Contudo, isso não é
possível.
Desse modo, é necessário sustentar que essa obrigação
moral/ética a que se está sujeito é constitutiva
107
do existente humano.
Pois este somente encontra mundo e a si mesmo na abertura
proporcionada pela própria linguagem. Assim, a afirmação de
Wittgenstein, na Conferência sobre Ética de que todos aqueles que
falam ou tentam, pelo menos, falar sobre ética ou religião, estão
submetidos a uma tendência, um impulso (Trieb) de correr de encontro
aos limites da linguagem, não pode ser lido em sentido fraco.
Faz-se, aqui, uma leitura no sentido forte do termo
“tendência”. Ela não especifica somente um impulso sem maiores
consequências ou, apenas um impulso contingente, mas, uma propensão
107
Constitutivo no sentido forte, no sentido heideggeriano.
203
natural
108
e, portanto, constitutiva do existente humano. Propensão que,
tal qual um prisma, submete todas as proposições a um determinado
critério ético/moral.
No caso de Heidegger, diferentemente de Wittgenstein, não
declarações deste tipo a respeito da ética, salvo raras exceções. A
ética, enquanto um tipo de ciência, é condicionada e determinada pela
própria questão do ser e o seu esclarecimento.
Todavia, Ser e Tempo parte da ideia - sugerida pelo
professor Loparic - da existência de uma responsabilidade originária
subjacente aos modos de ser constitutivos do existente humano. Esta
ideia tem como fundamento o ser e estar em débito enquanto um modo
constitutivo do ser-aí. Modo de ser que é, segundo Heidegger, a fonte e
a possibilidade de todo bem e mal morais.
Esse ser e estar em débito essencial é, de modo
igualmente originário, a condição existencial da
possibilidade do bem e do mal ‘morais’ ou seja,
da moralidade em geral e de suas possíveis
configurações factuais. (HEIDEGGER, 1993, p.
74)
Outro fato interessante é que ambos concebem uma forte
ligação entre a ética e aquela disciplina que julgam ser aquilo que
identifica a atividade filosófica, enquanto uma forma de investigação.
Para Wittgenstein, uma identidade entre lógica e ética, perspectiva
oriunda das leituras de Sexo e Caráter de Weininger e de sua formação
cultural. Heidegger, na carta a Beaufret, identifica, por sua vez, ética e a
ontologia. Assim, apesar da diferença de ambos, acredita-se que tanto
um quanto o outro, teve no horizonte dos seus trabalhos uma perspectiva
de caráter ético.
Do mesmo modo, pode-se sustentar que, para ambos, a
ética situa-se no campo das condições a priori e, portanto,
transcendentais. Faz-se uma relação um tanto forçada com a figura do
silêncio em Heidegger. Sobre a ética ao pretender dizê-la, não se
consegue, então se deve calar, silenciar, segundo Wittgenstein.
108
Em sentido forte, talvez, o mais correto seria dizer uma propensão
ontológica.
204
A ética, assim como a verdade do ser, escapa à
possibilidade de enunciação, por serem impronunciáveis, por não existir
uma linguagem apropriada. O calar-se diante disso, o silenciar-se é a
única atitude possível. Essa atitude revela, por um lado, a incapacidade
em verbalizar o que se mostra e o quanto é importante isso mesmo que
se mostra, mas que não pode ser dito.
Por outro lado, seguindo a sugestão de Fisogni, a ética é
uma estrutura transcendental necessária para a linguagem-mundo em
Wittgenstein. Em Heidegger, aquelas responsabilidades originárias
que constituem um pressuposto, igualmente transcendental, à estrutura
ontológica do Dasein. Ao final, experiências que escapam a
possibilidade de enunciação nos dois autores, como também problemas
específicos ao tentar passá-las à linguagem.
No caso de Heidegger, devido às dificuldades inerentes à
gramática, a figura do silêncio cresce espantosamente. No caso de
Wittgenstein, o silêncio é o campo ao qual fica restrito aquilo que não
pode ser, de modo algum, dito. Resumindo, experiências que
excedem, em muito, a capacidade humana de enunciação de modo
adequado. No aforismo 6.421, além da identificação entre ética e
estética, a afirmação de que a ética não se deixa exprimir, ela é
transcendental. A essa altura não é demais lembrar “É claro que a ética
não se deixa exprimir. A ética é transcendental. (Ética e estética são uma
só.)”. (WITTGENSTEIN, 2001, p. 277)
Essa sobreposição de dois pensadores como Heidegger e
Wittgenstein
109
, representantes de campos filosóficos, via de regra,
hermeticamente fechados um para o outro pode causar certo
estranhamento, ao ponto de ser, no mínimo, digno de desconfiança
procurar uma correlação sistemática ou, um anseio comum entre
determinados aspectos de seus pensamentos.
Entretanto, como diz Apel, eles adquiriram importância
heurística para muitos pensadores, ao serem abordados como chaves
para uma compreensão mais aguda e profunda, não somente de nossa
época, mas, também, dos próprios caminhos da filosofia. Desse modo,
Heidegger e Wittgenstein, considerados em conjunto, podem revelar-se
como aqueles pensadores que podem tornar possível um renascimento
da filosofia e propiciar uma renovação da própria atividade filosófica.
Por outro lado, a aceitação de que ambos os autores
permanecem presos à influência kantiana e, por isso, ao campo
109
Como nos diz Appel em As transformações da Filosofia I, p. 265.
205
transcendental da explicitação das condições a priori, não significa a
aceitação da subjetividade transcendental ou a imputação desta a ambos
os autores. Assim, se ambos estão em débito com Kant é porque
conservam um horizonte transcendental, mas não o sujeito
transcendental enquanto tal.
206
CONCLUSÃO
O problema que se propôs resolver no início desse
trabalho dizia respeito a mostrar que não há em Ser e Tempo e no
Tractatus Logico-philosophicus uma ética de caráter normativa, ou seja,
um conjunto de regras e normas que possam servir de critério
ético/moral. Para tanto, o trabalho foi dividido em cinco etapas. A
primeira dedicada a introduzir a problemática, explorando as sugestões
de Loparic e apresentando a noção de fenomenologia em Husserl e a
tentativa de Scheler em construir uma ética. A segunda parte dedicada a
Heidegger, justificando a centralidade de Ser e Tempo e procurando
identificar nessa mesma obra elementos que possibilitassem a
associação daquelas estruturas existenciais constituintes do Dasein com
uma ética.
Na terceira parte, dedicada a Wittgenstein, explorou-se a
sua noção de ética e a suposta impossibilidade dessa. Com o intuito de
compreender melhor o tratamento da ética e o tratamento dispensado
pelo autor abordou-se outros filósofos julgando que os mesmos
ajudariam a compreender o tema e as questões implicadas nesse estudo.
A quarta parte foi dedicada a apresentar as noções de fenomenologia de
Heidegger e Wittgenstein e qual a relação delas com suas filosofias e a
ética. Na última parte, resgataram-se outras obras e sugestões com o
intuito de aprofundar as comparações entre aqueles filósofos.
O trabalho de Loparic esteve, também, sempre no
horizonte dessa investigação como o motivador inicial da mesma. Pois,
em seus artigos, aqui trabalhados, sempre buscou expor elementos que
possibilitassem não somente uma melhor compreensão de Heidegger e
Wittgenstein, mas também, uma comparação de suas posições
filosóficas. É digno de nota o esforço empreendido sempre na direção de
conservar a originalidade de ambos, sem reduzir um ao outro. O que se
procurou, também, conservar aqui. Suas indicações foram tomadas por
base, ainda, para comparar ambos os autores, uma tarefa importante,
contudo secundária nesse trabalho.
A apresentação da ideia de fenomenologia tal qual E.
Husserl expôs nas Investigações gicas de 1900 e nas lições foi
importante para compreendermos a relação dos filósofos abordados com
a ética, especialmente Heidegger. O capítulo que trata da mesma
encontra-se no início para que a noção de fenomenologia pudesse
207
sempre estar no horizonte de leitura como estratégia metodológica.
Deixando, contudo, para um capítulo final, a apresentação das relações
desses filósofos com a fenomenologia.
Quanto a Heidegger, seguiu-se, além das sugestões de
Loparic, Ser e Tempo e as indicações de Carta Sobre o Humanismo.
Nessa última obra é que se encontra a menção heideggeriana da
existência de uma ética originária. Buscou-se na obra de 27 elementos
que pudessem ser extraídos e associados à ideia da ética originária, tal
qual exposta na Carta Sobre o Humanismo. Nessa busca, foi necessário
reconstruir alguns elementos, tais como a noção de cuidado, ser e estar
em débito, a angústia e a temporalidade. Essa reconstrução pautou-se,
dentro do possível, por manter a extensão e aplicabilidade ontológica
daqueles conceitos. Identificando nesses, sempre que fosse possível,
uma dimensão ou vínculo com a ética originária sugerida na Carta
Sobre o Humanismo.
Quanto a Wittgenstein, procuraram-se elementos que
tornassem possíveis mostrar a pertinência da ética na obra de 21, apesar
de suas declarações sobre a mesma nessa obra e na sua conferência de
29. Expôs-se, também, a posição de Margutti Pinto com relação à ética
no Tractatus por julgar-se que a mesma traz elementos interessantes
para reforçar o estreito vínculo entre a ética e a obra do filósofo
vienense.
As posições de Horácio Martinez e de Vera Fisogni foram
julgadas importantes, também, pelos mesmos motivos. Bento Prado
Neto foi convocado a manifestar-se com respeito aquela aproximação
explícita do filósofo vienense da fenomenologia em 29. Contudo, a
intenção foi marcar a diferença e distanciamento do que Husserl
concebeu como fenomenologia do que mostrar que Wittgenstein era um
fenomenólogo.
Com respeito à fenomenologia husserliana foi salientado
que a mesma é aprioristica, neutra e descritiva. Para tanto, manteve-se
dentro dos horizontes das suas Investigações de 1900/1901 e a obra
Idéia da Fenomenologia (Cinco Lições). A sua característica
fundamental é ser descritiva. Descrição que possui um caráter de
neutralidade e de ser apriorística. Isso significa que ela, enquanto uma
descrição neutra, não diz como o mundo é, mas o que é o mundo.
Enquanto uma descrição apriorística, seus enunciados situam-se no
campo das condições de possibilidade. As descrições de como é o
mundo pertencem às ciências em geral.
208
Scheler e sua ontologia dos valores entra na exposição com
o intuito de mostrar uma tentativa de aplicar a fenomenologia
husserliana ao desenvolvimento de uma ética e marcar a diferença para
com aquela fenomenologia de Heidegger. Na segunda parte fez-se
aproximações entre Heidegger e Wittgenstein, bem como se mostrou
alguns pontos de distanciamento entre ambos e o que foi conquistado
com a leitura das obras propostas.
Com Ser e Tempo mostrou-se a pertinência de uma
correlação entre os modos de ser do Dasein e a relação desses
momentos existenciais com a temporalidade ontológica inerente ao
existente humano. As ideias de mundo compartilhado, ser-em, ser-com e
as estruturas do cuidado (entre outras) foram trazidas à tona e vinculadas
a ideia de uma ética originária extraída da obra Carta Sobre o
Humanismo. A intenção foi mostrar que a estrutura do cuidado aponta
para uma ética originária na medida em que determina o modo de
encontro de outros entes, dotados ou não do caráter de Dasein. Isso
significa que naquela obra Heidegger, apesar de não ter mencionado,
tinha presente a idéia de uma ética constitutiva como pano de fundo
do seu trabalho.
Além disso, um testemunho ontológico que corrobora a
existência de uma ética de caráter originária, ontológica, pressuposta às
estruturas do Dasein. Esse diz respeito a noção de um débito, de uma
falta ontológica testemunhada pelo clamor da consciência que aponta
para a necessidade do ser-aí assumir-se em sua propriedade existencial.
Por outro lado, procurou-se deixar claro que um discurso situado nesse
horizonte ontológico não é passível de ser explicitado normativamente,
exatamente por ser ontológico. Assim, pode-se concluir que a ética
originária deve perfazer a condição de possibilidade de todo e qualquer
tipo de comportamento que o Dasein possa vir a ter e assumir. De tal
modo a influenciar, diretamente, através dos modos de temporalização
da temporalidade, o modo como o ser-aí encontra-se em sua abertura e,
a partir dela, compartilha o mundo.
ao abordar-se as obras Tractatus e a Conferência Sobre
Ética de Wittgenstein pretendeu-se mostrar uma continuidade entre as
posições filosóficas nessas obras. Contudo, com um acréscimo
importante que foi a diferenciação entre os juízos absolutos e relativos.
Mostrou-se, também, a pertinência daquelas interpretações que buscam
identificar na obra de 21 um pressuposto ético orientador, apesar de sua
forte rejeição à possibilidade de enunciação desses mesmos juízos
209
éticos. Rejeição à enunciação, como foi dito, não à existência de uma
ética, sua pertinência e importância para o homem.
Do mesmo modo, procurou-se deixar claro que essa
mesma importância dada à ética contrasta com sua posição filosófica
com respeito a possibilidade de enunciação dessa. Mas isso foi feito
com o intuito de mostrar que ele aceita um pressuposto ético, reconhece
a importância da ética, identifica um horizonte no qual ela se mostra
com toda a sua força, mas reconhece a incapacidade da linguagem em
poder enunciá-la. Posição que deriva de sua convicção filosófica de que
a linguagem deve, tão somente, descrever fatos do mundo, o que a ética
e suas questões não são.
E aqui a ligação com a fenomenologia, as proposições
validas são aquelas que descrevem o mundo. Nada podem dizer a
respeito do porquê ele ser de um determinado modo. Os valores
absolutos ou a experiência do mundo em sua totalidade e, além disso, a
experiência do místico são situações em que o mundo se mostra da
forma que é, o que escapa a possibilidade de descrição, do dizer.
Isso lembra Husserl e a sua fenomenologia, contudo,
somente lembra. O caráter descricional que pertence a filosofia analítica
diz respeito à descrição de proposições. Característica que exclui a
possibilidade de sustentar-se que Wittgenstein está fazendo
fenomenologia ou que é fenomenólogo. Por outro lado, o caráter
descricional que também está presente na analítica da linguagem visa à
clarificação, isso impede a apresentação de uma ética normativa por
parte do autor.
Por outro lado, a ética determina e fundamenta o
Tractatus, mas não pode ser expressa. Todavia, ela não é uma ética
normativa, uma ética que representa uma tomada de posição com
relação aquilo que o mundo é e a posição do homem nesse. Essa ética,
então, que figura como pano de fundo no Tractatus é tal qual, aquela
heideggeriana, a condição de possibilidade. Em Wittgenstein de todo e
qualquer modo de dizer, em Heidegger, de todo e qualquer
comportamento que o Dasein possa vir a ter.
A fenomenologia hermenêutica heideggeriana aponta
nessa direção. As estruturas do Dasein dizem aquilo que se é, explicitam
aquilo a partir do qual todo o resto é determinado. A fenomenologia,
mesmo hermenêutica, usada por Heidegger não pode alcançar o campo
das práticas concretas, portanto, apresentar uma ética normativa.
Na analítica existencial a ética originária também perfaz as
condições de possibilidade do existente humano. É importante, mas não
210
alcança o campo do dizer, da linguagem técnica e hipostasiadora. As
barreiras impostas pela linguagem tal qual são reconhecidas por ambos
são uma consequência necessária do modo como trataram as questões
filosóficas. Heidegger procurando clarificar (explicitar) aqueles
elementos constitutivos do Dasein e Wittgenstein clarificar o que se
compreende por ética analisando o modo como são usados aqueles
elementos que possuem um significado ético.
Não se quer ou pretendeu, aqui, esgotar as discussões
sobre o tema. Mostrou-se que muitas aproximações possíveis entre
Heidegger e Wittgenstein e que, muitas vezes, estavam falando
praticamente da mesma coisa. Mostrou-se a importância que a ética
desempenhou quer seja implícita ou explicitamente em seus
pensamentos no período analisado. A fenomenologia husserliana foi
invocada numa tentativa de ajudar a dirimir dúvidas e solucionar
polêmicas com relação ao tratamento dispensado por ambos à questão
tratada.
Às ideias de Loparic dá-se o crédito por essa tentativa. Por
fim, acredita-se ter ajudado a esclarecer e tirar algumas dúvidas com
respeito às possíveis relações entre Heidegger e Wittgenstein e, deles,
com a ética. E, com isso, ter ajudado para uma melhor compreensão da
questão como também ter contribuído para o desenvolvimento de novas.
A maior dificuldade ao se tratar de autores de tradições tão
diferentes é achar um ponto em comum, conservar a originalidade e
independência entre eles. Com relação à ética que seria possível extrair
de suas obras julga-se que deve ser abandonado todo aquele discurso
que tente de algum modo encontrar meios de enunciação para uma ética
(a tradicional) que foi recusada por eles. Deve-se, portanto, poder
repensar uma ética/moral que não seja normativa ou expresse valores
absolutos. Feito isso, estará resolvido o problema da expressão
linguística dessa nova ética/moral.
Apesar de tudo não foi possível apresentar um conceito de
ética que fosse comum aos dois pensadores tratados aqui. O que poderia
ser sugerido pelo título e pela proposta do trabalho. Ao longo da
argumentação evidenciou-se cada vez mais a tensão entre Heidegger e
Wittgenstein, principalmente no tocante as suas obras Ser e Tempo e o O
Tractatus Logico-Philosophicus, respectivamente.
Desse modo, não se pode falar de uma ética originária em
ambos. Se alguém assim sustenta-se estaria lendo Wittgenstein por
Heidegger. Por outro lado, também não é possível falar que a idéia de
uma ética originária heideggeriana situa-se no campo do místico e do
211
inefável. Contudo, está claro que em ambos ela é determinante de todo e
qualquer tipo de comportamento humano (filosófico ou não), que é
importante e que não está em um segundo plano, apesar de não terem
sido tematizadas. As obras de 21 e de 27 concordam com isso e apontam
nessa direção.
Seja qual for essa nova ética ela deverá possibilitar pensar o
campo das relações humanas de tal forma a termos, não necessariamente
normas e princípios, mas um horizonte que possibilite tomadas de
decisões nas mais diversas circunstâncias. Um horizonte que possibilite
distinguir o certo do errado, ao final.
Para tanto é necessário que essa nova ética possibilite
pensar e repensar o campo das relações humanas a partir de novas
categorias, quer sejam elas antropocêntricas ou não. Um exemplo disso
é o conceito de cuidado racional que tenta exatamente fazer isso
levando em consideração um dos horizontes filosóficos legados pelo
pensamento heideggeriano.
Esse repensar não implica necessariamente em criar ou
identificar novas relações, mas olhar as relações existentes através de
um ângulo diferenciado e, portanto novo. Olhar que dispense, o quanto
for necessário e possível, a pressuposição de normas e valores absolutos.
Para isso contribuem as obras de 21 e 27 tratadas aqui e por isso elas
foram utilizadas em detrimento de outras possíveis obras de Heidegger e
Wittgenstein.
212
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